Carta testamento de getúlio vargas



Baixar 36.07 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho36.07 Kb.
CARTA TESTAMENTO DE GETÚLIO VARGAS

"Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se 1a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia de trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobráz foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valore do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentires minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".
(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

Este trabalho propõe-se a analisar a carta testamento do ex-presidente da República Getúlio Vargas. Escrita em agosto de 1954, representou para muitos o último grande lance político de Vargas, ao transformar o suicídio, geralmente relacionado com covardia ou desequilíbrio, num ato de grande heroísmo pessoal.

Os objetivos deste trabalho são encontrar e analisar recursos argumentativos presentes no nível lingüístico e constitutivo do sentido do texto e relacionar esses recursos argumentativos com a interação autor/texto/leitor baseado na Teoria da Enunciação.

Os tópicos analisados serão: tempos verbais, operadores argumentativos, marcadores de pressuposição, índice de avaliação, expressões atitudinais e polifonia. Avaliar um texto histórico sob o ponto de vista da interação pela linguagem permite tentar restabelecer a ação e a intenção de um texto, reconstruindo seu sentido através de referências e pressupostos cognitivos.

Trabalhar com um contexto social e político fartamente documentado, variedade de depoimentos e uma visão das conseqüências geradas pela ação do texto dá possibilidade de montar um quebra-cabeça com base lingüística, criando um espelho que estabelece foco no passado.

Acreditamos que este tipo de análise permite compreender por um outro viés, além da visão histórica dos fatos, ações e atitudes passadas e sua repercussão. Entender a força argumentativa e o processo de interação de um texto tão importante para a época em que foi escrito, como é o caso da carta testamento de Getúlio Vargas, possibilita ao cientista social afinar suas ferramentas para análise ediscussão de textos atuais.... um ato de linguagem não é apenas um ato de dizer e de querer,mas, sobretudo essencialmente um ato social pelo qual os membros de uma comunidade "interagem". (BANGE,1983, apud


KOCH, 1998, p. 66)

A língua é interação social. Tem objetivo, estabelece relações e procuraatuar sobre o outro. O processo de linguagem é um jogo social dinâmico, com características argumentativas, entre interlocutores e com regras estabelecidas de acordo com a interação dos participantes. ... a par daquilo que efetivamente édito, há o modo como o que se diz é dito: a enunciação deixa no enunciadomarcas que indicam (“mostram”) aque título o enunciado é proferido (KOCH, 1998, p. 14).

Na Teoria da Enunciação o foco é o modo como se diz o que é dito. As condições de produção do enunciado como tempo, lugar, papéis representados pelos interlocutores, imagens recíprocas, objetivos visados na interlocução (KOCH, 199 são fatores que constituem o sentido da enunciação, estabelecendo uma relação entre linguagem e ação.

O caráter argumentativo da linguagem enquanto interação social pode ser percebido pela existência de marcas ou elementos lingüísticos que estabelecem a relação de comunicação entre os interlocutores. Essas marcas representam estratégias (conscientes ou não) do autor em estabelecer uma relação (definida pelo tipo de marca) com o leitor para a construção de um sentido comum em um texto.

São operadores argumentativos, marcadores de pressuposição, indicadores modais, atitudinais, tempos verbais e índices de polifonia.

Para que o leitor possa construir o sentido pela argumentação do autor, essas marcas devem ser comuns, fazer parte de um mesmo universo cognitivo e referencial, para que exista uma cumplicidade entre autor e leitor.Neste trabalho serão analisados elementos de interação pela linguagem que possibilitam a construção do sentido do texto pela ótica do enunciado / enunciação.

Procurar-se-á analisar não só os elementos gramaticais que permitem esta interação, mas também resgatar marcas cognitivas e referenciais que dão uma visão histórica da intenção do enunciado existente nas condições de enunciação.

O pré-conhecimento estabelece uma relação de sentido entre o texto e o leitor, permitindo que ele possa construir o sentido pelo conhecimento de mundo, contexto social e político, referências e pré-conceitos.

Para que um sentido comum entre autor e leitor se estabeleça é preciso que o texto ative esses elementos criando uma interação autor / texto / leitor.O texto contém mais do que o sentido das expressões na superfície textual, pois deve incorporar conhecimento e experiência cotidiana, atitudes eintenções, isto é, fatores não lingüísticos.

Deste modo, um texto não é em si coerente ou incoerente; ele o é para um leitor / elocutário numa determinada situação (FÁVERO, 1997, p. 60).

Neste trabalho, o contexto em que a carta testamento foi produzida é de grande importância. Por este conhecimento compartilhado do entendimento histórico dotexto é possível restabelecer, de certa forma, sentidos e intenções esclarecendo pontos ligados a acontecimentos da época. Mais uma vez os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadearam sobre mim. (linhas 1 e 2, em Aqui, por exemplo, o texto se refere àrenúncia em 1945, forçada pelos militares)

Em...principalmente os humildes (linha 5) a alusão é de como Getúlio era chamado pelo povo: o pai dos pobres.

A revolução, citada na linha 8, se refere à revolução de 1930 quando foi deposto o Presidente Washington Luiz.

À volta, citada na linha 10, faz referência à vitória de Getúlio nas eleições presidenciais de 1950.

A campanha subterrânea, também na linha 10,
alude ao clima de conspiração e golpe em 1954.A crise do café, citada nas linhas 21 e 22, diz respeito à tentativa dos Estados Unidos em derrubar o preço do produto em 1954.

As aves de rapina, das linhas 28 e 29, têm ligação com o imperialismo americano que se espalhava por toda a América.

Também é possível aludir significado ao maior inimigo público de Getúlio Vargas: o jornalista Carlos Lacerda, representado na imprensa da época como “o corvo”.

ANÁLISE


O texto apresenta características do mundo comentado. O autor assume a direção do texto, quer pelas suas ações presentes ou passadas, quer pelas ações do sujeito referente dirigidas a ele. Ele apresenta a sua visão de mundo, em um contexto onde as ações negativas são realizadas pelo sujeito referente apresentado pelos verbos na terceira pessoa do plural.

Ao leitor/interlocutor representado pela segunda pessoa o texto busca não um convencimento explícito, mas apoio e consentimento.

Segundo a teoria de Weinrich (KOCH, 199 os tempos verbais determinam, através do modo e daconjugação, características da atitude comunicativa do locutor como relato ou comentário (KOCH, 1984).

A atitude comunicativa, fator de coesão do texto, busca uma interação com o leitor, que pelos tempos dos verbos estabelece possibilidades para construção do sentido do texto. No relato, a força argumentativa é diluída pelo discurso indireto e ausência do tempo presente, salvo na metáfora temporal.

No comentário, o autor assume o eu do texto estabelecendo uma interlocução com o tu e apresentando um discurso direto. O uso dos tempos do mundo comentado torna um texto explicitamente opinativo, crítico, argumentativo. (KOCH, 1998, p. 54).

No texto analisado, a presença dos verbos característicos do mundo comentado deixa clara uma intenção de convencimento do leitor. Nas linhas de 1 a 6, os verbos no presente do indicativo indicam a idéia de ação presente determinando quanto à perspectiva o tempo zero do texto (Koch, 199.

O verbo coordenaram-se (linha 1) no pretérito perfeito, indica uma seqüência temporal de ação (retrospecção/tempo presente): é necessário que estejam coordenados (portanto, coordenaram-se antes) para que possam se desencadear sobre o autor.

As locuções verbais das linhas 4 e 5 usam o verbo auxiliar no presente do indicativo.

O verbo defendi (linha 6) no pretérito perfeitorefere-se a uma retrospecção ligada ao verbo anterior: continuo a defender porque sempre defendi.

Ao final deste primeiro trecho, o autor assume o eu da ação mudando da terceira pessoa para a primeira pessoa do singular do modo indicativo: sigo (linha 5).

Além da força argumentativa, o verbo no tempo presente denota força performática de realizar esta ação no momento em que é enunciada.

O autor que antes recebia a ação (mesmo que não passivamente porque a recebia para defender o povo) passa a realizá-la. Nesta mesma frase, porém, a 3ª pessoa é retomada na linha 6 pelo verbo ser representando uma voz polifônica que impõe o destino à 1ª pessoa. Sigo o destino que me é imposto (linhas 5 e 6).

Essa frase também permite ao leitor atribuir uma intenção mítica na construção dosentido do texto através da pressuposição da voz polifônica do verbo ser (linha 6).

O autor afirma que segue (performático) o destino (defender o povo) que lhe é imposto (pressuposição polifônica subentendida).

De acordo com a mitologia grega, o destino é imposto aos homens e aos deuses por uma entidade acima deles: a moira (GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL, 1998, p. 403.

O herói mitológico deve aceitar a moira como uma unção e levar o fardo de uma vida de luta e glória. Os pronomes, segundo classificação de Benveniste (1989) apud Koch (199, dividem-se em pronomes da pessoa (1ª e 2ª pessoas) e da não-pessoa (3ª pessoa).

Os primeiros indicam os sujeitos envolvidos na interlocução, os outros indicam os referentes, sujeitos do mundo extralingüístico do qual se fala.

Nesta primeira parte, através dos pronomes da 1ª pessoa, o autor coloca-se como defensor e escudo do povo contra o qual existem forças e interesses. E exatamente por ser este escudo é que essas forças o atacam.

Assim, estabelece ao leitor sua posição de protagonista principal.Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam — e não me dão o direito de defesa (linhas 2 e 3).

Já os sujeitos nomeados pela 3ª pessoa, apesar de sua importância como aqueles que atacam o autor/protagonista, assumem uma posição no texto como referentes polifônicos, fora do mundo lingüístico em que se realiza o texto.

Relegados à 3ª pessoa, existem como oposição (polifonia), mas nunca são interpelados. No segundo momento do texto, definido entre as linhas 7 e 24, os tempos verbais estão na maioria no pretérito perfeito, caracterizando o mundo comentado.

Aqui, o autor estabelece uma retrospecção, indicando os fatos que levaram à situação comentada anteriormente.

Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe deuma revolução e venci .

Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar.

Voltei ao governo nos braços do povo. (linhas 7 a 10). Mantendo a relação pronominal (pronomes da pessoa e da não-pessoa), o autor continua como interlocutor principal participando do universo lingüístico do texto, sendo os referentes polifônicos: grupos financeiros internacionais aliados a grupos nacionais revoltados contra o regime de trabalho (linhas 11 e 12), ainda indicados pelos pronomes da 3ª pessoa e fora do universo lingüístico do texto.

Apesar de esses verbos representarem a não-pessoa e, portanto, não indicarem ações diretas dos interlocutores do texto, determinam ações em direção ao autor reforçando sua posição de protagonista e provocando, através da interação, uma tomada de posição do leitor.

A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso.

Contra a Justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearamos ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás; mal começa esta afuncionar, anda de agitação se avoluma. (linhas 12 a 16).

Na linha 20, são introduzidos no texto outros protagonistas, pela 1ª pessoa do plural, pela cumplicidade entre o autor e osnovos sujeitos, aliados que comungam o mesmo ideal. A relação direta entre autor/texto/leitor começa a se tornar mais explícita.

Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso produto.

Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder. (linhas 20 a 24).

O terceiro momento do texto analisado, definido entre as linhas 25 e 40, começa a partir de uma


mudança de tempo verbal e de argumentação.

O texto retoma o tempo presente e o autor reassume a direção da ação com verbo (mesmo que auxiliar) no presente do indicativo da primeira pessoa do singular, seguido do particípio, estabelecendo sua atitude em relação às forças e aos interesses que se coordenaram contra o povo (linha 1).

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender opovo que agora se queda desamparado. (linhas 25 a 2.

A partir deste ponto, o povo, representado pelo leitor e citado como referente tanto da motivação do autor (positiva) quanto dos grupos internacionais e nacionais revoltados (negativa), aparece explicitamente como interlocutor no texto.

A utilização da segunda pessoa do plural, relacionando-se com a argumentação do autor na 1ª pessoa do singular, estabelece um ato de comunicação deste para com aqueles.

Mantém-se a relação do eu realizo a ação (verbos performáticos) acrescida de um novo protagonista, vós, para quem se canalizam as ações do autor, eu.

Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapinaquerem o sangue de alguém, queremcontinuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre ao vosso lado.

Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peitoa energia para a luta por vós e vossos filhos. (linhas 20 a 23).

Estabelecida essa nova relação, outro verbo performático realiza a opção do autor pelo sacrifício da própria vida: Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida (linha 30).

No trecho a seguir, a utilização do futuro do subjuntivo passa a representar um futuro próximo, onde a ação direta e objetiva do autor não poderá mais realizar-se já que este escolheu o sacrifício.

Porém, o verbo factivo sentir passa essa ação para o campo espiritual, pressupondo uma força e eternidade divina ao autor (herói mitológico). Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireisno meu pensamento a força para a reação.

Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência (linhas 31 a 36).

Então uma série de verbos contrapostos encaminha o texto para o desfecho. A derrota aparente (passado) é contraposta com a vitória presente como resposta (performático). O escravo do povo no passado liberta a si próprio para a eternidade.

O povo/leitor a quem serviu (no passado) não servirá ninguém, porque o seu sacrifício o redimirá (futuro próximo).

Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondocom a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna.

Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. (linhas 36 a 40).

Aqui atingimos o último bloco do texto. Entre as linhas 41 e 43, o pretérito perfeito simples estabelece uma seqüência de ação passada (retrospectiva) em direção ao presente (tempo zero): lutei e continuo lutando.

No passado dei a minha vida, vivi para vós e hoje ofereço minha morte. É os sacrifício final, o descanso do herói. Lutei contra a espoliação do Brasil.

Lutei contra a espoliação dopovo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. (linhas 40 a 43).

Da linha 43 em diante uma seqüência de verbos performáticos no presente do indicativo determinam o final do texto, apresentando uma conclusão/solução para aprimeira e a segunda partes do texto. Nesse momento, a escolha feita e explicitada na linha 30 e suas conseqüências para o futuro realizam-se: eu ofereço a minha morte, aqui está, mato-me.

O futuro realiza-se enquanto presente, e o autor entra para história como herói. Nada receio. Serenamente dou oprimeiro passo no caminho da eternidade esaio da vida para entrar na História. (linhas 43 a 45).

A presença de operadores argumentativos em um texto cria coerência e apresenta pistas para a construção do sentido pelo leitor, mostrando a força argumentativa dos enunciados e a direção para a qual apontam. Pelo processo de interação, o leitor passa a participar do texto como interlocutor do processo de comunicação.

O mais uma vez, na linha 1, introduz um pressuposto de que isto já aconteceu antes.

Da mesma forma o novamente (linha 2). Não só já aconteceu como a atitude foi a mesma.O agora também introduz um pressuposto do que não era e agora é.

Com a proteção do autor o povo / leitor estava amparado, agora não mais. Antes ele vivia avida povo / leitor, agora oferece a morte....para defender o povo que agora se queda desamparado. (linhas 27 e 2.

Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. (linhas 42 e 43).

Outro marcador é o para que, na linha 4, que introduz uma explicação relativa ao enunciado anterior: impedem minha ação é o enunciado anterior; não continue defender é o enunciado ligado pelo marcador. Impede-se para que não se continue.

O até se apresenta como operador que assinala o argumento mais forte. Neste caso, os argumentos mais fortes apresentados estão ligados à atuação negativa do referente polifônico, propondo uma relação de afastamento ideológico com o leitor.A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. (linha 16).

Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. (linhas 19 e 20).

O marcador argumentativo e aparece somando argumentos, ora a favor, ora contra o autor.... as forças e os interesses... (linha 1);... caluniam — e não me dão o direito de defesa. (linha 3);... sufocar a minha voz e impedir a minha ação... (linha 4); Meu sacrifício vos manterá unidos emeu nome será a vossa bandeira de luta. (linhas 33 e 34); Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá opreço do seu resgate. (linhas 39 e 40);... dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História. (linhas 44 e 45).

Marcadores de pressuposição são conteúdos semânticos adicionais que acrescentam elementos implícitos ao texto, permitindo uma antecipação do leitor aos argumentos do texto.

No texto há verbos que indicam permanência de estado, todos ligados à atitude tomada pelo autor em relação ao povo/leitor. Pressupõe uma relação direta eu/vós. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. (linhas 33 e 34)Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para aresistência. (linhas 35 e 36).

Meu sacrifício ficará para sempreemsua alma... (linhas 39e 40) A partícula não, agregada ao verbo, determina mudança de estado, também ligado ao povo/leitor.Mas esse povo de quem fui escravo não mais seráescravo de ninguém. (linhas 38 e 39)A presença de verbos na 1ª pessoa do singular é pressuposto da posição ideológica do autor.

Nacionalista ferrenho, simpatizante do fascismo italiano, Getúlio Vargas tentou durante seu governo no Estado Novo (1937-1945) impor o culto à personalidade, fazendo festas populares no seu aniversário, espalhando seu nome e busto por praças e avenidas de todo país. O modo e a pessoa destes verbos colocam-no como o centro, o realizador individual.

Há trechos em que ele se auto anuncia como força espiritual que aliviará o sofrimento do povo/leitor.Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.

Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. (linhas 31 a 36).

O índice de avaliação principalmente valoriza o fato da luta do autor pelo povo/leitor, e, em especial os mais humildes, estabelecendo sua opção pelos mais necessitados contra os poderosos.... principalmente os humildes. (linha 5). Os
indicadores atitudinais no texto reforçam o papel de cada sujeito pelaexplicitação de seus estados psicológicos. ... grupos nacionais revoltados... (linha 11)... tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo... (linha 26)... para defender o povo que agora se queda desamparado. (linhas 27 e 2.

Serenamente dou o primeiro passo... (linha 44)Muitas vozes se encontram no texto além da do autor. Denotam concordância ou discordância, algumas vezes são explícitas, outras implícitas.

São as vozes polifônicas e referem-se em sua maioria ao que é chamado no início do texto de forças e interesses contra o povo
(linha 1), estando presentes em ações contra este ou contra o autor que defende o povo. A voz polifônica também se apresenta como oposição de argumentos. O autor aceita que as forças o acusem e combatam desde que dêem direito de defesa. Estas, porém, insultam, caluniam e negam a defesa.

A relação de troca proposta entre autor e leitor é de apoio àquele que recebe os ataques.Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam — e não me dão odireito de defesa. (linhas 2 e 3)A voz polifônica não se refere somente às forças contra o povo. Nas linhas 5 e 6 uma entidade superior impõe ao autor o seu destino de defender o povo destas forças.

Sigo o destino que me é imposto. (linhas 5 e 6). Ao se referir à renúncia, o autor a coloca como um ato que foi determinado por outrem (novamente o referente polifônico). Ele não renunciou, mas teve que fazê-lo forçado pelos militares em 1945. É pressuposto histórico que o leitor tenha conhecimento do fato. Tive de renunciar. (linhas 9 e 10).

Na seqüência, a voz polifônica contrapõe-se às ações positivas do autor. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. (linhas 12 e 13). Contra a Justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios. (linhas 13 e 14).

Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás; mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. (linhas 14 a 16).

A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. (linha16).

Não querem que o trabalhador seja livre. (linhas 16 e 17).

Não querem que o povo seja independente. (linhas 17 e 1.

Neste ponto, as ações do autor se sobrepõem à voz polifônica representada por aqueles, os injustos, que não estão do seu lado.

Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória.(linhas 36 e 37).

CONCLUSÃO

O texto escolhido para análise caracterizou-se como dissertativo, no qual o autor busca uma interação com o leitor. Ele reflete, analisa, explica e expõe suas idéias buscando uma cumplicidade, uma aceitação do leitor.

As marcas lingüísticas detectadas no texto permitem a construção do sentido nessa direção.

A existência de uma voz polifônica identificada como ação contra, inimigo desleal, oposição revoltada, reforça apossibilidade do leitor em cerrar fileiras ao lado do autor.O texto apresenta uma posição clara e exige por sua vez uma tomada de posição doleitor.

A inter-relação autor / texto / leitor no universo lingüístico da carta testamento traduz-se na busca de uma interação de apoio e consentimento.

Apresenta ao povo / leitor os maus, injustos e antipatrióticos em contraposição ao bom, justo, defensor do povo e da nação.

As possibilidades existentes nesta carta abrem um leque para a análise das possíveis construções de sentido existentes nos pronunciamentos políticos.

A interação autor / texto / leitor permite que, pelas várias leituras dos significantes contidos no significado, possamos acreditar em um leitor mais consciente e crítico, cuja construção do sentido se relacione antes com um processo de reflexão do que com um simples seguir pistas explícitas e visíveis.



Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o Presidente Getúlio Vargas suicidava-se com um tiro no peito e deixava uma carta.

Um texto que por meio da interação com os leitores/interlocutores se transformou em ação, libelo acusatório contra os adversários de Vargas (NOSSO SÉCULO, 1982, p. 125). ganhando status de testamento político. “...deixou Getúlio uma carta


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal