Carvalho, Castelar de. Para compreender Saussure



Baixar 136.62 Kb.
Encontro06.08.2016
Tamanho136.62 Kb.
TRANSCRIÇÃO FICHAMENTO

CARVALHO, Castelar de. Para compreender Saussure: fundamentos e visão crítica. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.





A Lingüística Pré-Sausuriana
Visão geral e Lingüística antes de Saussure
p. 19

A Lingüística, definida hoje como o estudo científico da linguagem humana, é “um saber muito antigo e uma ciência muito jovem”. O Professor Mattoso Câmara Jr., em seu Dicionário de Filologia e Gramática, a define como “o estudo científico e desinteressado dos fenômenos lingüísticos”. (...) a Lingüística só foi adquirir status de ciência a partir do século XIX.


Até chegar a delimitar-se e definir-se a si própria, a Lingüística passou por três fases sucessivas.
1ª. Fase: Filológica

Os gregos foram os precursores... Seus estudos, calcados na Filologia, abrangeram a Etimologia, a Retórica, a Morfologia, a Fonologia e a Sintaxe. Baseavam-se na lógica (analogistas) ou no uso corrente (analogistas).




p. 20


(...) a Gramática grega será reproduzida pelos romanos, que numa tentativa de conciliar aquelas suas posições, fazem nascer a Gramática “da regras e das exceções”.


A influência grega se fez sentir durante muitos séculos. Marcando toda a Idade Média, chegou a motivar na frança, em 1660, a elaboração de uma Gramática geral, a famosa “Grammaire de Port-Royal”. De base puramente lógica, coincidindo com a fase do Racionalismo.
2ª. Fase: Filológica

(...) surgida em Alexandria por volta do século II a.C... Os alexandrinos queriam-nos mais filológicos e menos filosóficos. Definindo-se (...) como o estudo da elucidação de textos, a Filologia dos alexandrinos, de preocupação mercadamente gramatical, dedicou-se à Morfologia, à sintaxe e à Fonética.


(...) os estudos filológicos encontram... em Friendrich August Wolf um de seus maiores divulgadores. (...) a Filologia procura também estudar os costumes, as instituições e a história literária de um povo. Entretanto, seu ponto de vista crítico torna-se falho, pelo fato de ela ater-se demasiadamente à língua escrita, deixando de lado a língua falada.



p. 21

3ª. Fase: Histórico-Comparativa

(...) começa com a descoberta do sânscrito entre 1786 e 1816, mostrando as relações de parentesco genético do latim, do grego, das línguas germânicas, eslavas e célticas com aquela antiga língua da Índia. A preocupação diacrônica em saber como as línguas evoluem, e não como funcionam é que vai marcar toda essa fase.
Franz Bopp (1791 – 1867)... é considerado o fundador da Lingüística Comparatista. Para Bopp, a fonte comum das flexões verbais Fo latim, do grego, do persa e do germânico era o sânscrito. Para ele, o sânscrito era uma espécie de erma mais velha daquelas línguas.
(...) citam-se também como pioneiros da Lingüística histórico - científica o dinamarquês Rasmus Rask (1787-1832) e o alemão Jacob Grimm (1785-1863). (...) Grimm foi o primeiro a escrever uma gramática comparada das línguas germânicas: a Deutsche Grammatik, publicada em 1819. Grimm é considerado o pai do que mais tarde se chamariam “leis fonéticas”. Os termos metafonias (umlaut) e apofonia (ablaut) são criações de Grimm.
Com o desenvolvimento da Filologia Comparada, a Lingüística indo-européia experimentou extraordinário impulso.
A tendência dessa fase inicial da Lingüística Comparatista era identifica-se com as ciências da natureza... Essa tendência deu às primeiras idéias lingüísticas desse século um enfoque naturalista, a princípio de base biológica (o biologismo lingüístico: as línguas nascem, crescem e morem como os organismos biológicos) e a seguir de base física (leis da Lingüística se aproximam das leis físicas: leis fonéticas).



p. 22

A Lingüística Histórica ainda se prolonga por mais algumas décadas, desdobrando-se em um segundo momento, numa reação aos neo-gramáticos caracterizada como “fase culturalista” (1890-1930). O culturalismo lingüístico combatia o naturalismo então reinante: era a oposição cultura/natura. Os estudiosos dessa fase afirmavam não haver correspondência, entre as chamadas “leis fonéticas” e as leis da naturaza. As leis fonéticas são cronologias e circunstancia, têm validade apenas, para um determinado período histórico, sofrem limitação espacial e só se manifestam em condições particulares. As leis naturais, ao contrário, são atemporais e, o mais importante, universais. Ora, se as “leis fonéticas” fossem de fato leis naturais, argumentavam os culturalista, o latim teria resultado numa única língua na França, na Itália, na Espanha, em Portugal e nos demais domínio do império romano. Portanto, para o culturalismo lingüístico, não existem seis fonéticas no sentido fisicalista. H, isto sim, leis histórico-culturais que condicionam as alterações fonéticas. Segundo pensamento culturalista, as línguas não existem por si mesma. São instrumentos culturais condicionais por fatores sociais, históricos, geográficos, psicológicos e, por isso mesmo, de previsibilidade relativa e comportamento inconstante, justamente o oposto do eu acontece no campo das ciências naturais.




II
A Lingüística Saussuriana
Ferdinand de Saussure (1857/1913).
Sua Formação e Suas Obras
p.25

À época em que Saussure recebeu sua formação acadêmica, o comparativismo indo-europeu dominava os estudos lingüísticos. Fase decisiva e cujos êxitos marcantes sobre pontos importantes e essenciais da nossa ciência se constituíram no principal legado do século XIX ao século XX.


Assim é que mais tarde, durante os onze anos (1880/1891) em que foi diretor da École Pratique des Hautes Études, em Paris, passaram pelas suas mãos os mais importantes comparatistas franceses que dele receberam formação, influência e continuidade.
É de 1879 a publicação da Mémoire sur Le Primitif sistème das Voyalles das lês Langues Indo-Européenes.
(...) um ano mais tarde, versava sobre De L’Emploi Du Génitif Absolu en Sanskrit. Além de artigos da Gramática comparada, infelizmente nada mais nos legou em vida o genial mestre genebrino. Seu Cours de Linguistique Générale (CLG) como sabemos, resultou da compilação por dois discípulos seus dos três cursos de Lingüística Geral que ministrara de 1906 a 1911 na Universidade de Genebra, onde era titular desde 1896.


p.26

A doutrina de Saussure
p. 26

Trata-se, portanto, de obra póstuma e inacabada... Nela se reconhecem fórmulas de aspecto paradoxal, onde salta aos olhos o estilo de ensino oral. Apesar desse fato, as idéias motrizes de sua obra póstuma, por oposição ao método histórico-comparatista dominante até então, vieram revolucionar completamente o pensamento lingüístico ocidental.

Era preciso, em primeiro lugar, pôr ordem nos estudos lingüísticos. (...) impunha-se-lhe, antes, um trabalho metodológico preliminar. Os lingüistas até então tratavam de coisas diferentes com nomes iguais e vice-versa. Ausência de uma terminologia adequada, precisa, objetiva, de alcance universal (e sabemos, desde Sócrates, que só há ciência do universal), instrumento de trabalho imprescindível a qualquer ciência digna do nome, tolhia-lhes a expressão das idéias. A Lingüística ressentia-se de uma linguagem equívoca, verdadeira colcha de retalhos terminológica, e Saussure necessitava de uma linguagem unívoca, de um padrão lingüístico, de um mataliguagem, isto é, de uma nova linguagem para expressar suas elucubrações.



p. 27

O esquema abaixo dá a idéia exata do que, segundo Saussure, é “a forma racional que deve assumir o estudo lingüístico”.

Langue - sincronia- rel. paradigmáticas

Linguagem -

Parole - diacronia- rel. sintagmáticas
Além disso, inova também com a sua famosa e polêmica Teoria do Signo Lingüístico.

Significante

Signo –

Significado


arbitrariedade

Princípios do signo –

Linearidade



A teoria do signo Lingüístico
Introdução: Tipos de sinais
p. 31

Saussure considera língua como um sistema de signos formados pela “união do sentido e da imagem acústica”.


A Semiótica ( Semiologia) distingue dois tipos de sinais: os naturais e os convencionais. O sinal natural manifesta-se em forma de indicio (físico), como a fumaça, a trovoada, nuvens negras, rastros... (fisiológicos): a pulsação, a contração, a dor, a febre... O sinal convencional envolve maior complexidade e pressupõe a existência de uma cultura (antropologicamente falando) já estabelecida, da qual ele é resultado expressão, produto e instrumento a um só tempo.


p. 32

Pode apresentar-se em forma de ícone, símbolo ou signo. O ícone é imagístico, por exemplo, uma foto, uma estatueta, um desenho de alguém... e caracteriza-se também por ser não-arbitrário. O signo, totalmente arbitrário, é um tipo intermediário entre ícone e o signo; por exemplo, a balança é o símbolo da Justiça.


A natureza do signo
Retomando a definição inicial de signo como “união do sentido e da imagem acústica”... Saussure chama de “sentido” é a mesma coisa que conceito ou idéia, isto é, a representação mental de um objeto ou da realidade social em que os situamos representação essa condicionada, plasmada pela formação sócio-cultural que nos cerca desde o berço.


p. 33

Em outras palavras, para Saussure, conceito é sinônimo de significado, algo como a parte espiritual da palavra, sua contraparte inteligível em oposição ao significante, que é sua parte sensível.


(...) a imagem acústica “não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão psíquica desse som” (CLG, 80). (...) a imagem acústica é o significante. Com isso, temos que o signo lingüístico é “uma entidade psíquica de duas faces” (CLG, 80)...
Conceito/ imagem acústica
Os dois elementos – significante e significado – que constituem o signo “estão intimamente unidos e um reclama o outro”. (CLG, 80). Explicando... quando um falante de português recebe a impressão psíquica que lhe é transmitida pela imagem acústica ou significante /kasa/, graças à qual se manifesta fonicamente o signo casa, essa imagem acústica, de imediato, evoca-lhe psiquicamente a idéia de abrigo, de lugar para viver, estudar, fazer suas refeições, descansar, etc.
casa – ↑domus/ kasa↓


p. 35

Uma Crítica a Teoria do Signo


A mais importante delas refere-se ao fato de Saussure, em virtude de encarar o signo como uma entidade bifacial, não ter concluído um terceiro termo – a coisa significada – na sua teoria. (...) seu esquema seria “corrigido” ou “completado”, segundo seus contraditores, se se adotasse em substituição o famoso triângulo de Ogden e Richardes...:

Pensamento ou referência

Símbolo∆Referente ou coisa



p. 36

A Arbitrariedade do Signo Lingüístico


Como a soma do significante mais significado resulta num total denominado signo, temo que “o signo lingüístico é artitrário” (CLG, 81).
(...) compreendemos por que Saussure afirma que a idéia (ou conceito ou significado) de mar não tem nenhuma relação necessária e “interior” com a seqüência de sons, ou imagem acústica ou significante /mar/ . Em outras palavras, o significado mar poderia ser representado perfeitamente por qualquer outro significante. E Saussure argumenta para provar seu ponto de vista, com as diferenças entre as línguas. Tanto assim que a idéia de mar é representada em inglês pelo significante /si/ e em francês por /mér/.


p. 37

Críticas ao Princípio da Arbitrariedade


Alguns dos críticos de Saussure objetaram, entre outras coisas, que o signo, na sua totalidade, na é tão arbitrário como pretendia o mestre, porque uma das suas duas faces (significante) não poderia combinar-se arbitrariamente com a sua segunda face o (significado) correspondente em outra língua. Por exemplo, o inglês (teacher) não poderia jamais tornar-se o significante o significado português “professor” ( se é que é possível representar-se visualmente um significado), porque (teacher) é parte inseparável a necessária (assim pensam esses críticos) de um signo cujo significado não é, em todos os sentidos e nuances, igual à idéia que nós, falantes de português, fazemos de “professor”.


p. 38

Ora, somo levados a crer que os críticos do mestres de Genebra demonstram não terem apreendido o pensamento saussuriano em toda a sua profundidade e coerência. Saussure postulava, isto sem, que o signo como um todo só tem valor colocado dentro de um determinado sistema lingüístico, que qual é par te integrante.

Além do que foi exposto acima... para Saussure, a arbitrariedade do signo, e nisso insistimos, repousa o fato de que o falante não pode mudar aquilo que o seu grupo lingüístico consagrou.



p. 39

A Questão das Onomatopéias e Interjeições


O contraditor poderia se apoiar nas onomatopéias para dizer que a escolha do significante num sempre é arbitrária.” (CLG, 83).
O problema é que “contraditores” consideram as onomatopéias palavras motivadas (ao contrário dos outros signos, que são imotivados por não guardarem nenhuma relação natural e lógica entre significante e significado), porque elas sugerem, pela forma fônica, uma relalidade.


p. 40

(...) alerta Saussure, tais casos não chegam a constituir “elementos orgánicos de um sistema lingüístico” (CLG, 83), pois ocorrem em números mais reduzidos do que se supões e só em raríssimos casos se encontra uma ligação íntima entre significante e significado.


Ruídos e sons naturais, ao entrarem para um sistema lingüístico através da reprodução aproximada sugerida pelas onomatopéias, amoldam-se ao material fônico da língua e transformam-se numa imitação convencional, por isso variam de língua para língua.


p. 41

Quanto às interjeições, como tal, já fazem parte do sistema lingüístico, já estão estruturadas convencionalmente dentro de cada língua variando enormemente de uma para outra: ai! em português; aie! em francês; au! em alemão; ouch! em inglês etc. Como diz Saussure, “para a maior parte delas, pode-se negar que haja um vínculo necessário entre o significado e o significante.” (CLG, 83).




p. 42

Arbitrário Absoluto / Arbitrário Relativo


Apesar de ter postulado que o signo lingüístico é, em sua origem, arbitrário, Saussure não deixa de reconhecer a possibilidade de existência de certos graus de motivação entre significante o significado.
Em coerênci com seu ponto de vista dicotômico, Saussure propõe a existência de um “arbitrário absoluto” e de um “arbitrário relativo”.



Como exemplo... o mestre de Genebra cita os números dez e nove, tomados individualmente, e nos quais a relação entre o significante e o significado seria totalmente arbitrária, isto é, essas relação não é necessária, é imotivada. Já na combinação de dez com nove para formar um terceiro signo, a dezena dezenove, Saussure acha que a arbitrariedade absoluta original dos dois numerais se apresenta relativamente atenuada dando lugar àquilo que ele classificou como arbitrariedade relativa.




p. 43

Motivação e Arbitrariedade


Partindo da dicotomia arbitrário absoluto/arbitrário relativo, a Lingüística pós-saussuriana deu conseqüência ao pensamento infelizmente inacabado do mestre de Genebra. Pierre Guiraud, por exemplo, propõe a existência de dois tipo de motivação: a interna e a externa.
A motivação interna ocorre dentro do próprio sistema lingüístico, a partir das possibilidades de relacionamento existentes entre palavras ou entre unidades da langue. Trata-se, portanto, das relações internas (sintagmáticas e paradigmáticas) do sistema, responsáveis pelo funcionamento desse mesmo sistema.


p. 44

A motivação interna (ou lingüística) é de natureza morfológica, e compreender a derivação e a composição. Corresponde à arbitrariedade relativa de Saussure.




p. 45

A motivação externa pode ser fonética ou metassêmica.


Confrontando os dois tipos de motivação do signo, concluímos que a motivação interna, por suas características específicas, torra-se mais importante para o funcionamento da língua do que a motivação externa. A motivação externa é mais fortuita, mais limitada, realizando-se de fora para dentro do sistema lingüístico. A motivação interna, mais geral, atua de dentro para fora do sistema oferecendo possibilidades teoricamente limitadas de renovação do léxico.


p. 47

A linearidade do Significante


O princípio de discreção baseia-se no fato de que “toda unidade lingüística tem valor único sem matizes intermediários”. Em outras palavras, os elementos de um enunciado lingüístico são diferentes entre si, limitados, independentes, sem variações. Ou pronunciamos “faca” ou “vaca”. Não existe um meio termo entre /f/ e /v/, que são, assim unidades discretas, isto é, separáveis, descontínuas. É o princípio do tudo ou do nada (...)
(...) as unidades discretas têm de ser emitidas sucessivamente. Elas não são concomitantes, não são coexistentes, não são simultâneas. Ao contrário, são sucessivas e, por isso, só podemos emitir um fonema de cada vez, em linha, ou melhor, linearmente.


p. 48

(...) a linearidade é do significante e não do significado.


Do enunciado saussuriano depreendemos que somente a parte material do signo – o significante – é linear e que o pensamento em si mesmo, não tem partes, não é sucessivo, só o sendo quando se concretiza através da forma fônica lineares do significante.
Poderíamos também caracterizar o significado como um bloco, como um todo, como uma unidade que só se decompõe quando falamos ou escrevemos, quando materializamos nosso pensamento em ordem linear, ordem essa que também é arbitrária de língua para língua, uma vez que não existe ordem no pensamento e sim na língua.


p. 49

Uma Crítica ao Princípio da Linearidade


O lingüista Roman Jakobson contestou o princípio da linearidade do significante, argumentando que, num fonema qualquer, por exemplo, /b/, já um feixe de traços fônicos simultâneos (bilabial, oral, oclusivo e sonoro) e não-sucessivos, não-lineares.


Eis a resposta do próprio autor do CLG:

Em certos casos, isso (o princípio da linearidade) não aparece com destaque. Se, por exemplo acentuo um sílaba, parece que acumulo num só ponto elementos significativos diferentes.Mas trata-se de uma elusão: a sílabae seu acento constituem apenas um ato fonatório; não existe dualidade no interior desse ato, mas somente oposições diferentes com o que se acha a seu lado”.




Langue/parole
As dicotomias saussurianas
p. 61


Comecemos pela oposição fundamental: langue x parole


Langue/parole
Esta é sua dicotomia básica e, juntamente com o par sincronia/diacronia... Fundamentada na oposição social/individual... O que é fato da langue está no campo social; o que é fato da parole situar-se na esfera do individual.



p. 62

(...) Saussure afirma e adverte ao mesmo tempo: “a linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro”.


Langue
Do exame exaustivo do Corso depreendemos três concepções para langue: acervo lingüístico, instrução social realidade sistemática e funcional.
- a langue como acervo lingüístico
A langue é uma realidade psíquica formada de significados e imagens acústicas;
A langue, como acervo lingüístico, “é o conjunto de hábitos lingüísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender” e “ as associações ratificadas pelo consentimento coletivo e cujo conjunto constitui a langue, são realidade que têm sua sede no cérebro”.
- a langue como instituição social
Saussure considera (da mesma forma que Whitney) que a langue “não está completa em nenhum indivíduo, e só na massa ela existe de modo completo”, por isso, ela é, ao mesmo tempo, realidade psíquica e instituição social. Para Saussure a langue “é, ao mesmo tempo um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” é “a parte social da linguagem exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade.”



p. 63

- a langue como realidade sistemática e funcional


a langue é antes de tudo, “um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas” é um código, um sistema onde, “de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica”. Saussure vê a langue como um objeto de natureza homogenia” e que, portanto, se enquadra perfeitamente na sua definição basilar: a langue é um sistema de signos que exprimem idéias”.


p. 64

PAROLE
A parole ao contrário da langue, por se constituir de atos individuais, torna-se múltipla, imprevisível a uma pauta sistemática. Os atos lingüísticos individuais são ilimitados, não formam um sistema.




p. 65

Os atos lingüísticos sociais, bem diferentemente, formam um sistema, pela sua própria natureza homogênea. Ora, a Lingüística como ciência só pode estudar aquilo que é recorrente, constante, sistemático. Os elementos da langue podem ser, quando muito, variáveis, mas jamais apresentam a inconstância, a irreverência, a heterogeneidade características da parole, a qual, por isso mesmo, não se preta a um estudo sistemático.


(...) Saussure insiste sempre na interdependência dos dois constituintes da linguagem: “...esses dois objetos estão estritamente ligados e se implicam mutuamente: a langue é necessária para que a parole seja inteligível e produza todos os seus efeitos: mas esta (parole) é necessária para que langue se estabeleça”.
É tal a interdependência entre a langue e a parole que Saussure considera a langue, ao mesmo tempo, instrumento e produto da parole.


p. 66

(...) tanto o funcionamento quanto a exploração das potencialidades da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos langue e parole.


A feliz dicotomia língua/fala é o ponto de partida para Saussure postualr uma Lingüística da língua e uma Lingüística da fala (embora Mounin levante dúvida a respeito da autenticidade dessa postulação por parte do mestre; Mounin prefere atribuí-la a Bally e Sechhaye), sendo que, para o mestre genebrino, a Lingüística propriamente dita é aquela cuo único objetivo é a língua (langue).
Sistema/não sistema
(...) sistema/não sistema, isto é, sistema: langue; não-sistema: parole.
Sendo o sistema superior ao indivíduo (supra-ndivíduo), todo elemento lingüístico deve ser estudado a partir de suas relações com os outros elementos do sistema e segundo sua função (“A língua, langue, é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica” CLG, 102) e não por suas características extralingüísticas – físicas, psicológicas, etc. O conhecimento exemplo do jogo de xadrez esclarece cabalmente o pensamento saussuriano nesse particular.


p. 67

A língua é uma Forma e não uma Substância” (CLG, 141)... A teia de relações entre os elementos lingüísticos é que constitui a forma. Os elementos da rede constituem a substância. Uma frase como “Vô comprá dois pão” apresenta alteração apenas na substância. Sua estrutura, apesar do fator extralingüístico “erro”, continua a ser de uma frase da língua portuguesa. Ela conserva toda a gramaticalidade do sistema lingüístico português (...) e toda a coerência interna inerente aos elementos desse sistema: (sujeito) + verbo auxiliar + verbo principal + objeto (determinante + determinado). Dito de outro modo: forma: langue / substância: parole.




p. 68

(...) o conceito de forma (estrutura) não exclui o componente semântico. Ao contrário, o componente semântico é que dá sentido à noção de forma, sem o que, forma corre o risco de tornar-se letra morta, concepção sem serventia para a ciência lingüística (...) como adverte o Prof. Sílvio Elia, “linguagem é comunicação”.


Concebemos forma como coerência sintática + coerência semântica. Coerência sintática (espécie de sintaxe mental ou estruturação do pensamento) existe, por exemplo, tanto em “O menino chutou a bola” como em “A bola chutou o menino”.


p. 69


Uma crítica à Langue/Parole
(...) Eugenio Coseriu, que propôs uma divisão tripartida segundo o modelo abaixo, por achar insuficiente a bipartição saussuriana: parole – uso (norma intermediária) – langue (sistema funcional).
A divisão de Coseriu vai do mais concreto (parole) ao mais abstrato (langue), passando por um grau intermediário: a norma.


p. 70

Em resumo, em termos coserianos, a parole é o real individual, a norma é o real coletivo, nem sempre normal, embora possível e disponível.




Sincronia/Diacronia
p. 87

Rompendo definitivamente com a tradição dos neogramáticos Saussure confere prioridade à pesquisa descritiva (sincrônica) em detrimento da pesquisa histórica (diacrônica).




p. 88


Eixo das Simultaneidades e das Sucessividades
O mestre genebrino acha indispensável que, em Lingüística, como em todas as demais ciências, se distingam os fenômenos de duas maneiras: 1º) do ponto de vista de sua configuração sobre o eixo AB das simultaneidades (relações entre coisas coexistentes”), excluindo-se qualquer consideração de tempo; 2º) de acordo com a posição do fenômeno sobre o eixo das sucessividades CD, no qual cada coisa deve ser considerada de per si, sem esquecer, contudo, que todos os fatos do primeiro eixo aí se situam com suas respectivas transformações.


p. 89


A Prioridade dos Estudos Sincrônicos
Segundo Saussure, o lingüista só pode realizar a abordagem desse sistema estudando, analisando e avaliando suas relações internas (sintagmáticas e paradigmáticas) isto é, sua estrutura, sincronicamente (...)


p. 90

O mestre argumenta lucidamente que o falante nativo não tem consciência da sucessão dos fatos da langue no tempo. Para indivíduo que usa a langue como veículo de comunicação e interação social, essa sucessão não existe.


(...) o jogo de xadrez e o “jogo da língua”. Tanto na partida de xadrez como no “jogo da língua”, diz o mestre, “estamos em presença de um sistema de valores e assistimos às suas modificações”.


Saussure afirma que cada posição de jogo corresponde a um estado da língua. O valor de cada peça depende da posição que ela ocupa no tabuleiro; igualmente na língua, cada elemento tem seu valor determinado pela oposição e pelo contraste com os outros elementos.


p. 91

Uma única falha existe na comparação e o mestre, numa autocrítica a reconhece: é que, enquanto o jogador tem o poder de deslocar peças conscientemente e, dessa forma, agir intencionalmente sobre o sistema (jogo de xadrez), o falante nada premedita, não lhe é dado logicar, pois na língua “é espontânea e fortuitamente que suas peças se deslocam, ou melhor, se modificam”.




p. 92

Apesar de ter afirmado que a diacronia leva a tudo, contanto que se saia dela (nunca crítica mordaz aos neogramáticos), Saussure reconhece o seu valor, mas apenas como um meio, não um fim: “A diacronia não tem seu fim em si mesma”.


Sincronia e Arbitrariedade do Signo
Outra razão para Saussure justificar a prioridade da sincronia sobre a diacronia situa-se na sua noção de arbitrariedade do signo lingüístico. A relação entre o significante e o significado, justamente por ser arbitrária, estará continuamente sendo afetada pelo tempo, pelas contingências do fluir temporal.


p. 93

(...) Saussure postula a prioridade da sincronia e, convém lembrar, prioridade não significa exclusividade.


Método Sincrônico
Martinet esclarece que o objetivo da sincronia é observar e descrever o funcionamento do sistema lingüístico “num lapso de tempo suficientemente curto para, na prática, se poder considerar um ponto no eixo do tempo”.
Método Diacrônico
Das Lingüística diacrônica distinguem duas perspectivas, segundo o caráter dos dados com que opera: “uma prospectiva, que acompanhe o curso do tempo, e outra retrospectiva, que faça o mesmo em sentido contrário”. (CLG, 106).

O método propesctivo estuda e compara dois ou mais estados da mesma língua, cada um antepassado ou descendente do outro; O método retrospectivo (mais reconhecido como comparativo) estuda estados da língua que tenham parentesco entre si. Através da indução e da dedução, chega-se (até onde seja possível) ao estado do último antepassado comum a todos os estados conhecidos. Na prática, ambos os métodos são aplicados conjuntamente.
























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal