Carvalho, Gissele Viana Mestranda na uff



Baixar 58.64 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho58.64 Kb.

Carvalho, Gissele Viana - Mestranda na UFF




A passagem da Coluna Prestes pela Bahia e a construção da categoria revoltoso“A entrada dos revoltosos em território baiano”1

A Coluna Prestes, também chamada de “Coluna Invicta”, “Grande Marcha”, ficou imortalizada na história política brasileira como um movimento comandado por jovens oficiais rebeldes do Exército, que se originou do desdobramento de duas rebeliões militares frustradas, de 1922 e 1924. Alguns autores, entre eles Nelson Werneck Sodré, Edgard Carone e José Augusto Drummond2, consideram que a Coluna Prestes foi formada no oeste do Paraná em abril de 1925, quando a Divisão Rio Grande, comandada por Luís Carlos Prestes, se uniu a Coluna Paulista. Entretanto, de acordo com Anita Leocádia, a Coluna Prestes nasceu no Rio Grande do Sul e a junção da Coluna Paulista no Paraná serviu apenas para revigorá-la. Segundo a autora, o que se formou em abril de 1925 foi a 1ª Divisão Revolucionária, constituída pelas colunas paulista e gaúcha, tendo ao todo cerca de 1.500 homens3.

Da sua formação até o exílio na Bolívia, a Coluna percorreu vários estados do Brasil, sendo estimada a sua marcha em 25 mil quilômetros. A Coluna passou por 13 estados dos 20 existentes na época4, alguns dos quais foram percorridos mais de uma vez: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia. Nos deteremos na passagem da Coluna Prestes pela Bahia, em especial na Chapada Diamantina.

A Coluna Prestes entrou na Bahia em fevereiro de 1926, com cerca de 1.200 homens5, e viveu aí um dos piores momentos da sua marcha pelo Brasil. Na Bahia, a Coluna enfrentou hostilidades e perseguições, além de doenças e combates, sendo um deles com a população de Mucugê.

Ao fugir de confrontos pesados com os legalistas, tropas de várias polícias militares estaduais, sob o comando direto de major do Exército Bertoldo Klinger, os chefes da Coluna resolveram se deslocar para o nordeste do Brasil. Essa escolha deveu-se pela própria tática utilizada pela Coluna que necessitava de terrenos e condições adequadas para a sua “guerra de movimento”. Essa estratégia de luta tinha como objetivo manter a Coluna em movimento constante, atravessando dessa forma vários territórios do país.

Os jovens militares rebeldes não pretendiam desencadear uma guerra civil, generalizada e prolongada. Segundo Drummond, a Coluna Prestes não cogitou o apoio ou adesão popular - embora vários civis integrassem a Coluna – como uma variável importante da situação política. Ao contrário, ela quis ser uma marcha militar para reunir forças para derrubar o governo oligárquico de Artur Bernardes (1922 - 1926)6. “A Coluna Prestes expressou com máxima clareza o militarismo dos tenentes, ou seja, sua valorização da excepcionalidade atribuída ao Exército brasileiro enquanto ‘patrocinador dos direitos do povo’”.7

Drummond destaca os condicionantes militares na formação dos oficiais rebeldes, avaliando a Coluna pela ótica do caráter militarista. De acordo com o autor, a Coluna, diante de dificuldades de conseguir uma vitória militar propriamente dita, pela força das armas, direcionou para divulgar a “mensagem revolucionária” pelo interior do país, fugindo, assim, de combates direto com as forças legalistas8.

A marcha pelo Brasil foi penosa e desgastante, principalmente na Bahia onde encontrou uma forte resistência por parte da população e perseguições de “batalhões patrióticos”, formados por jagunços e liderados por ‘coronéis”, além da própria força militar. Se a Coluna Prestes tinha esperanças de conseguir adesão dos nordestinos – militares ou civis para marchar sobre a capital - , ela se frustrou ao deparar-se com os baianos, que hostilizaram sistematicamente os “revoltosos”, como era conhecida a Coluna pelos nordestinos.

Por que isso ocorreu? Uma das justificativas foi a sua ação política elitista e distante da realidade do homem rural. Como afirma Drummond, “não houve qualquer intenção ou ação no sentido de mobilizar a população (rural ou urbana) no trajeto da Coluna Prestes”9. Anita Leocádia Prestes reforça essa posição, afirmando que os “tenentes”, em nenhum momento pretenderam mobilizar a população rural para a luta, organizá-la ou conscientizá-la de alguma forma. “A sua visão elitista impedia-os de ver nas massas, urbanas ou rurais, uma força capaz de influir nos acontecimentos políticos. Sua formação liberal não lhes permitia admitir que as massas populares pudessem ser os verdadeiros protagonistas da História10”.

Outro fator que contribuiu para a impopularidade da Coluna no nordeste foi a fama que carregou, equivalente à de bandoleiros ou cangaceiros, provocando medo e pânico a sua aproximação em vilarejos e municípios, como demonstra o depoimento de Carlos Machado, que era um adolescente quando a Coluna Prestes passou pela Chapada Diamantina.



E o povo, quer dizer, reagiu com medo, porque a notícia que vinha é que todo lugar que eles chegavam, é que queriam acabar com tudo, tocavam fogo, quebravam as casas... Ficamos distantes daqui... 2 léguas, entocados lá dentro de uma Lapa, lá na serra com medo, porque todo mundo sentia aquele pavor da Coluna, chamava era os revoltosos, não era Coluna não11.

O pavor dos revoltosos permeou todo o imaginário popular, não só da Chapada Diamantina, mas de todo o nordeste. A construção da imagem negativa da Coluna Prestes foi uma elaboração de setores da classe dominante que os via como uma ameaça a sua hegemonia. Foi nesse contexto que a categoria revoltoso foi elaborada.

Os militares rebeldes se auto denominavam revolucionários, entendido como aqueles que lutam contra uma ordem social opressora, portanto, categoria positivada em benefício do bem-estar de um povo. Porém, no nordeste, passaram a ser conhecidos como revoltosos, denominação negativa que foi sendo construída através de uma cultura forjada por interesses hegemônicos.

Devemos deixar claro que as categorias são construções sociais do real. Como afirma Bourdieu, quem constrói a categoria, constrói o real, ou seja, a categoria é o “princípio coletiva de construção da realidade coletiva”.12 Esse princípio de construção é socialmente construído, sendo um dos elementos constitutivos do nosso habitus, uma estrutura mental que nos foi inculcada por meio de um trabalho de socialização que fundamenta o consenso sobre o sentido do mundo social, contribuindo, dessa forma, para criar a realidade que evocam. “Quando se trata do mundo social, as palavras criam as coisas, já que criam o consenso sobre a existência e o sentido das coisas, o senso comum, a doxa aceita por todos como dada13

Partindo desse princípio, devemos levar em conta todo o trabalho simbólico e prático que transformou o termo revoltoso em uma categoria real e instituída. Mas esse trabalho de construção coube a quem? Quais os aparelhos de produção simbólica que os instituíram como realidade própria? Tentaremos responder essas questões ao analisarmos a organização interna desse campo simbólico e as condições de elaboração e existência de práticas e representações sobre os revoltosos, entendido como produto de atos de construção.

Primeiro, se a imagem da Coluna Prestes foi assimilada com a de grupos de cangaceiros, devemos definir o que foi o cangaço.

O sertão nordestino foi aterrorizado por bandos de cangaceiros que cometiam atrocidades e assassinatos, muitas vezes representando os interesses de coronéis, servindo como instrumento de controle social numa região marcada pela miséria, fome e monopólio da terra. Nas primeiras décadas do século XX, as condições sociais não diferiam muito das do século XIX, os latifundiários era os detentores do poder e exerciam seu domínio em vastas regiões. A dominação dentro desse sistema sócio-econômico baseava-se, essencialmente, no controle dos bens de produção, isto é, a terra.

O cangaço foi um fenômeno social originário de uma situação de miséria e opressão, não se configurou como um movimento social, pois este pressupõe a consciência dos problemas de injustiça sócio-econômico e político vividos pela população rural14. Os cangaceiros não objetivavam instituir uma nova ordem social e não possuíam nenhum projeto político com reivindicações sociais, eram rebeldes que buscavam no crime uma forma de sobrevivência diante de uma realidade sem perspectiva de mudança social imediata. O banditismo social, como afirma Hobsbawm, não tem quase organização e ideologia, não se adequando aos movimentos sociais modernos. Contudo, caracteriza-se por ser “mais do que um protesto endêmico de camponeses contra a opressão e a pobreza: um grito de vingança contra o rico e os opressores, um vago sonho de poder impor-lhes um freio, justiçar os erros individuais.”15

Os cangaceiros, embora fosse uma classe potencialmente revolucionária16, não foram revolucionários, usaram apenas estratégias que garantissem uma melhor sobrevivência para o seu grupo, mesmo que para isso cometessem crimes e roubos. Essa potencialidade muitas vezes foi cooptada pelos coronéis e usada como forma de controle social dos sertanejos e como força militar nas disputas pelo poder. A partir da aliança com os coronéis, o cangaço“transformou-se de revolta espontânea em banditismo de controle social17”.

Maria Isaura P. Queiroz distingue dois tipos de cangaço: o cangaço subordinado e o cangaço independente. O primeiro tem sentido mais antigo e referia-se a grupos de homens armados que eram sustentados por chefes políticos ou por chefes de grandes parentelas, em cujas terras tinham domicílio fixo. O segundo tipo era constituído por bandos de homens armados liderados por um chefe e que se mantinham errantes, não se ligavam permanentemente a nenhum chefe político ou de parentelas18.

A sobrevivência dos bandos subordinados estava ligada a estrutura dos grandes grupos familiares e de interesses políticos, existindo praticamente em todo o Brasil rural desde o século XVIII, embora com outras designações. O cangaço independente, ao contrário, teve sua existência delimitada no espaço, nordeste seco, e no tempo, de fins do século XIX a 1940, quando os últimos cangaceiros, Lampião e Corisco, foram mortos19.

Um dos cangaceiros de maior destaque no sertão nordestino foi José Gomes, conhecido como Cabeleira, precursor de Lampião. Sua fama percorreu o nordeste e ficou arraigado na cultura popular como demonstra a estrofe seguinte:



Fecha a porta, gente,

Cabeleira aí vem,

Matando mulheres,

Meninos também20
Através dessa música, fica evidente o medo causado pela aproximação do bando de Cabeleira. Este foi preso e enforcado em Pernambuco em 1776. Com sua morte, a fama de ladrão e assassino é atenuada com o argumento da “vingança social”, tornando-se herói popular e seus feitos imortalizados em versos e “romances”, consagrando-o como símbolo de coragem sertaneja.

O que nos interessa nesse caso em especial, é o instrumento de construção e desconstrução da imagem de bandido que passa a simbolizar coragem, percebida também em outros cangaceiros famosos como Lampião. Ou seja, encontramos nesses casos o arquétipo do bandido social, moldado ao estereótipo Robin Hood, que tira do rico para dar aos pobres e nunca mata, a não ser em legítima defesa ou justa vingança21.

Música, versos e literatura de cordel eram os instrumento de divulgação da cultura nordestina; dos versos de Cabeleira, ainda hoje ouvidos no interior pernambucano como afirma Chiavenato, aos revoltosos de 1926, quando a Coluna penetra na Bahia, verifica-se uma aproximação no sentido simbólico de um consenso sobre o real que se pretende construir.

A imagem dos revoltosos associada ao de cangaceiros pelos nordestinos pode ser percebida através de uma música que se tornou popular na Chapada Diamantina:



Tive notícia que a revolta vem

Capando os homens

Mulheres também

Segunda-feira eu vou na estação

Saber notícia da revolução22
O verso dessa música se assemelha a do cangaceiro Cabeleira, a aproximação ou adaptação dessa estrofe é significativa para pensarmos a construção da categoria revoltoso, pois a produção do senso comum consiste, essencialmente, em gerar um capital simbólico compartilhado pela coletividade. Ou seja, a legitimação da categoria revoltoso pelos nordestinos representa a construção da visão desse mundo social por meio do trabalho de representação no campo simbólico. Esse trabalho é realizado por meios de aparelhos de produção simbólica legitimados pela classe hegemônica, daí os jornais constituir-se-ão um instrumento poderoso do grupo dominante.

As notícias sobre a marcha da Coluna Prestes pelo Estado são noticiadas em vários jornais regionais, como o Diário de Notícias da Bahia e Os Sertões, jornal da Chapada Diamantina. Essa forma de divulgação de informação, em uma região carente de transportes e meios de comunicação, tornou-se um importante divulgador do que ocorria no Estado. Embora grande parte da população fosse analfabeta e não tivesse acesso aos jornais, estes eram muitas vezes lidos em voz alta em público, em praças, bares, mercearias e as notícias daí se espalhavam. O Diário de Notícias, de 16 de março de 1926, com a manchete “A onda sediciosa é um flagelo para o nordeste!”, nos fornece uma visão da imagem da Coluna Prestes em terras baianas divulgada pelos jornais.



O nordeste brasileiro, este começo de ano, experimentou um duro golpe, com a incursão dos sediciosos. Nunca, em sua vida, nem diante das grandes crises climatéricas, a população desta faixa nortista se veria em tão amargas e críticas situações de mal-estar, inquietude e desassossego espiritual, como na crepitante quadra que atravessamos23
No mesmo jornal do dia 15/05/1926, um artigo com a manchete: “Triste hora esta!”, compara a chega dos revoltosos as grandes calamidades nordestinas que trazem miséria e mortes.

Nos demais Estados não foram menores os revezes sofridos pelas gentes do interior. Triste hora, portanto, essa que chegou as populações do nordeste, varridas já por uma seqüência de flagelos: as secas, a falta de transportes eficientes, o cangacerismo. (...) Coube-lhes, porém, a dura sorte destes meses de angustia e de sobressaltos, em que tantas famílias ficaram reduzidas a miséria e tantas viram o luto entrar-lhes pelas portas24
Ao construir uma imagem dos revoltosos próxima aos dos cangaceiros25, buscando associá-los ao banditismo, a classe hegemônica objetivava a rejeição da Coluna pelos sertanejos e com isso apoio para sua manutenção no poder. Essa estratégia surtiu efeito em várias regiões, como na Chapada Diamantina, onde predominou o medo e a perseguição aos revoltosos, embora em outras partes do país tenha havido simpatia, proteção e até mesmo adesões.

A construção negativa dos revoltosos e sua rejeição em algumas regiões decorre de determinados fatores que podem ser explicados: em primeiro lugar, essa rejeição foi mais evidente em regiões cuja influência dos coronéis era muito forte, como na Chapada Diamantina, onde predominou o poder dos coronéis, principalmente Horácio de Matos, que foi o grande perseguidor da Coluna Prestes até o seu exílio na Bolívia. Sobre os “Batalhões Patrióticos” formados nessa região, Lourenço Moreira Lima, secretário da Coluna, escreveu: “nos agrediam, quase que diariamente, de dentro das caatingas, nos desfiladeiros, por detrás das penedias, numa fúria satânica”26; segundo, essa construção não pode ser arbitrária, daí usarem a própria ação dos revoltosos para legitimar a sua imagem no campo simbólico.

Por um lado, essas informações negativas eram provenientes de propaganda de chefes das forças legalistas e lideranças locais contrários aos revoltosos. Por outro, a população rural e de pequenas cidades arcavam com a manutenção da Coluna. Esta lhes fazia requisições formais, por escrito, como promessa de pagamento posterior aos bens necessários para a sobrevivência dos revoltosos, como animais, armas, munições, alimentos, roupas, medicamentos e assim por diante27. Entretanto, embora essas requisições só pudessem ser assinadas pelos oficiais ou civis militares, isso não significou que excessos não fossem cometidos, principalmente na Bahia, onde os revoltosos, em represálias à hostilidade popular, saquearam e incendiaram vilas inteiras28.

A notícia divulgada no jornal Diário de Notícias, de 15 de março de 1926, destaca o estado dos lugares pelos quais a Coluna Prestes passou com a manchete: “A que se reduz o sertão, depois da onda...”



Contristam as notícias que nos chegam de algumas vilas e de numerosos sítios e fazendas. Roçados ficaram em inteiro aniquilamento, plantações, pomares e capinzais, tudo devastado ou pisado: diariamente, avultada quantidade de rezes sacrificadas para abastecer as colunas, cavalos e burros apreendidos, celeiros esvaziados, toda sorte de assolações nos haveres de quantos residem na faixa mencionada29.
As ações cometidas pela Coluna em muitas ocasiões legitimaram a visão forjada pelos grupos dominantes. Essa visão não foi construída arbitrariamente, dado o fato da presença real de excessos cometidos por alguns integrantes da Coluna e até mesmo das requisições forçadas feitas pelo comando revolucionário. Para um povo sofrido, vivendo nas mínimas condições possíveis, era difícil entender a “revolução” que mantinha uma clara distância ideológica da realidade do homem rural.

Se o potencial revolucionário dos cangaceiros foi cooptado em muitos casos por coronéis e chefes políticos do sertão, isso não ocorreu com o movimento comandado pelos tenentes rebeldes do Exército, que seguiram em marcha pelo Brasil de 1924 até o seu exílio na Bolívia em 1927, defendendo a mesma proposta de por fim a política oligárquica e o governo de Artur Bernardes. A Coluna, da mesma forma que os grupos de cangaceiros, aterrorizava os nordestinos. A violência cometida pelos revoltosos são descritas pelo próprio secretário da Coluna, Moreira Lima, e estampadas nas manchetes dos jornais. É importante ressaltar que as notícias dos jornais não estavam isentas de imparcialidades, muitas vezes apresentando como aparelhos de divulgação e construção de determinada visão da Coluna e de um capital simbólico que legitimava a perseguição aos revoltosos, ou seja, foi um instrumento poderoso utilizado na construção e legitimação de um consenso negativo da Coluna Prestes no nordeste, daí a utilização constante do adjetivo sedicioso aos revoltosos nos jornais.

Os inimigos do grupo dominante, a Coluna Prestes e os grupos de cangaceiros, são vistos de certa forma com o mesmo olhar pelos jornais, são movimentos que visam a destruição dos lares e da ordem social. A questão clara é que não se pergunta qual ordem pretendem atingir. Como já foi dito, o cangaço não possuía uma proposta política de mudança social, ao contrário dos tenentes revolucionários. Contudo, este não apresentou ou formulou uma ideologia que cooptasse, arregimentasse ou mesmo construísse um capital simbólico que fosse capaz de por frente às condições de miséria e dependência da população rural e que legitimasse a sua ação e, dessa forma, adquirisse apoio dos nordestinos como um todo. A imagem construída era outra, como exemplo, a notícia divulgada pelo Diário de Notícias de 20 de fevereiro de 1926: “Onde os rebeldes passam espalham notícias terroristas: que todo o país está com eles vão dizendo. É mentira a serviço da derrota30”.

Nesse campo de disputas e conflitos temos a população rural que legitima a violência simbólica e física contra a Coluna Prestes tendo em vista o consenso produzido pelos grupos dominantes, detentores de maior capital econômico e cultural.

É nesse contexto que foi naturalizado a categoria revoltoso, sancionada e/ou construída pelo Estado. De acordo com Sônia Mendonça, nesse processo reside “a mais profunda e estrutural modalidade da violência perpetrada pelo estado: a violência simbólica cujo modus operandi se dá à sombra da permanente naturalização de seus objetos e/ou alvos, configurando o que se poderia chamar de um permanente “estado de violência31

As categorias de percepção do mundo social constroem tanto a realidade social quanto a exprimem, constituindo o alvo da luta política, ou seja, pela imposição do princípio de visão legítima do grupo dominante.

Categorias, em grego Kathegoresthai significa “acusar publicamente”32, o Estado, ao sancionar a categoria revoltoso como legítima, está impondo uma visão e divisão simbólica do mundo social pela naturalização dessa categoria como real.

Assim, as práticas e representações simbólicas sobre a Coluna Prestes criaram o senso comum sobre a categoria revoltoso, naturalizado no nordeste como categoria real e instituída. O habitus incorporado é transmitido e legitimado ao longo dos anos, criando uma identidade em torno do consenso construído e instituído como real.

O capital simbólico introjetado pelos nordestinos é transmitido e incorporado por práticas e representações, isto é, pelo habitus, que legitimam os revoltosos como homens que deviam ser temidos pois ameaçavam suas famílias, suas propriedades e vidas.

É importante ressaltar que isso ocorre não de forma neutra, mas existe todo um trabalho de legitimação realizado por um grupo dominante que tem como proposta manter a mesma ordem social e o seu poder hegemônico.




1 Título da manchete do jornal Diário de Notícias (Bahia) do dia 18 de março de 1926.

2 Nelson Werneck Sodré. A Coluna Prestes: análise e depoimentos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978; Edgard Carone. O tenentismo: acontecimentos, personagens, programas. São Paulo, DIFEL, 1975; José Augusto Drummond. A Coluna Preste: rebeldes errantes. São Paulo, Brasiliense, col. Tudo é História, n.103, 1985.

3 PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. São Paulo, editora Brasiliense, 1991, pp.178 e 181.

4 DRUMMOND, José Augusto. A Coluna Prestes: rebeldes errante. Op. cit. p.46

5 LIMA, Lourenço Moreira. Marchas e Combates (a Coluna invicta e a revolução de outubro). Rio Grande do Sul, Livraria do Globo, 1931, p.380.

6 DRUMMOND, José Augusto. A Coluna Prestes: rebeldes errante. Op. cit., p.32.

7 Idem, p.15.

8 Idem, p.58.

9 Idem, p.62.

10 PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Preste. Op. cit., p.337.

11 Entrevista concedida por Carlos Machado a Gissele Viana. Mucugê, 30 de junho de 1998. Fita 1 – lado A.

12 BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996, p.127.

13 Idem, p.127

14 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira. História do Cangaço. São Paulo: Global Ed., 1982, p.14

15 HOBSBAWM, E.J. Rebeldes Primitivos: estudos sobre formas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1970, p.16

16 FACÓ, Rui . Cangaceiros e fanáticos: gênese e lutas. Rio de Janeiro: editora Civilização brasileira, 1965, p.45

17 CHIAVENATO , Júlio José, Cangaço, a força do coronel. São Paulo: editora brasiliense, 1990, pp.17,126

18 De acordo com Queiroz, no seu artigo “O coronelismo numa interpretação sociológica”, a parentela era formada por um grande grupo de indivíduos reunidos entre si por laços de parentesco carnal, espiritual (compadrio), ou de alianças (uniões matrimoniais). In: Boris Fauto (dir) História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Republicano. Tomo III. São Paulo: DIFEL, 1975.

19 QUEIROZ, Op. cit. P.15 e 16

20 Essa música é citada por Queiroz e Chiavenato, retirado do romance O Cabeleira de Franklin Távora (Rio de Janeiro, Tipografia nacional, 1876). Câmara Cascudo também narra as aventuras de Cabeleira em Flor de romances trágicos

21 Hobsbawm, Op. cit. p.33

22 Entrevista concedida por Aloísio Paraguassú a Gissele Viana. Mucugê, 01/07/1998. Fita 1 – lado B

23 Diário de Notícias, Bahia, 16/03/1926

24 Diário de Notícias, Bahia, 15/05/1926

25 No jornal Diário de Notícias (BA), do dia 20 de março de 1926, na reportagem sobre o confronto ocorrido na cidade de Uaua´, afirma que Lampião estava com os revoltosos: “As 17:30 horas, os rebeldes iniciaram um horrível ataque. De parte a parte, o fogo foi intenso. (...) Com os sediciosos estavam Lampião, o célebre facínora e Antônio de Souza. (...)”

26 LIMA, Lourenço Moreira. Op. cit.

27 DRUMMOND, José Augusto. Op. cit, pp.65 e 66.

28 LIMA, Lourenço Moreira. Op. cit, p.42.

29 Diário de Notícias, Bahia, 15/03/1926


30 Diário de Notícias, Bahia, 20/02/1926

31 MENDONÇA, Sônia. Estado, violência simbólica e metaforização da cidadania. Revista Tempo, vol.1, nº1, 1996, p.95

32BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas, São Paulo: brasiliense, 1987, p. 162

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal