Caso nº 8 Custo de oportunidade/utilidade Enunciado



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Encontro20.07.2016
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Caso nº 8

Custo de oportunidade/utilidade

Enunciado

Quando deixei Carrazeda, fui até ainda mais a norte. Desta vez até Chaves onde um dos meus tios mais velhos se deixou ficar depois de os irmãos terem partido para Lisboa ou para o Porto. Os meus tios receberam-me com a habitual atitude terra a terra que caracteriza a família do meu pai.

Depois de pôr as notícias da família em dia e de alguma conversa de circunstância sobre o desenvolvimento da região o meu tio entrou num assunto muito específico:

- Sabes José Manuel, não sou homem de ficar sentado, ontem à tardinha, ao olhar para o tom torrado que o sol de fim de dia empresta às minhas pastagens, passou-me pela cabeça aproveitar a água que tenho represada na “charca dos barquinhos” para fazer agricultura à séria! Lembrei-me agora, depois de velho, de fazer hortícolas…

Dormi sobre o assunto e, durante o sono, lembrei-me logo de qual seria, à partida, o maior dos entraves à concretização desta minha ideia empreendedora: tenho direitos de RPU afectos à minha área de pastagem! Ora bolas!!! Se fizer hortícolas perco este dinheirinho que, apesar de não deslumbrar, sempre compensa a miséria que pagam de reforma a quem trabalhou no campo!

Sendo horas de almoçar e tendo ficado de olho na ementa de um restaurante ali por perto desafiei o meu tio a almoçar por lá enquanto conversávamos:



- “Face ao que te contei, antes do teu almoço, julgo precisar da tua ajuda. Na tua perspectiva devo continuar com as pastagens e a receber o RPU, que é dinheirinho certo, ou abdico do RPU e faço hortícolas para entregar na fábrica da Hortalex?”

Achei que devia começar por explicar ao meu tio o valor do dinheiro...

- “Se hoje ao almoço, este mesmo almoço que me está a oferecer – disse eu de sorriso largo aproveitando a boa disposição do meu tio - gastares 20 euros, qual é o verdadeiro custo do almoço?” .

Continuei o raciocínio, dizendo que, ao pagar os 20 euros pelo almoço, o meu tio deixaria de comprar um volume de cigarros ou de ir com a minha tia de táxi à feira, ou de… não interessa o quê, mas que deixaria de gastar o dinheiro noutra coisa que lhe daria satisfação ou que “produzisse utilidade”. Foi um passo arriscado para quem queria um almoço oferecido pelo tio, ainda que não fosse um “almoço totalmente grátis”!

Disse-lhe ainda:

- “A utilidade conseguida com a melhor das alternativas que teve de ser sacrificada para ser possível este almoço, é o custo do almoço e, a isto, chama-se custo de oportunidade! Pode existir um custo de oportunidade em quase tudo o que fazemos: Produzir ou não produzir, trabalhar na agricultura ou fora dela, investir ou aforrar, almoçar fora ou ir de táxi à feira…Todos os almoços, têm um custo de oportunidade e é por isso que os economistas insistem em dizer que não há almoços grátis, entende?” – perguntei esperançado.



- “Entendi-te!” – respondeu-me – “Só não percebi o que é que este almoço, os cigarros e a feira têm que ver com o que te perguntei!”

- “Calma. Eu explico.” – apaziguei - “O facto de receber um determinado valor de RPU todos os anos pode ter um custo de oportunidade associado, que resulta de, por questões de normativos legais, não poder realizar uma hortícola cuja rendibilidade pudesse ser superior ao rendimento garantido através do Regime de Pagamento único. Para determinar a existência desse custo e o seu valor, precisa somente de fazer meia dúzia de contas! No entanto, antes de começar, tem de ter presentes dois princípios básicos.”

E continuei a explicar-lhe. –“Por um lado, um euro vale hoje mais do que um euro amanhã1. Por outro, um euro garantido vale mais que um euro com risco2. Quero com isto dizer que, só abdicará do seu RPU (do seu “euro hoje”) caso a cultura hortícola que vier a realizar lhe venha a proporcionar um rendimento superior ao que recebe actualmente e que permita compensar, por um lado, a desvalorização monetária e, por outro, o risco associado ao início de uma actividade agrícola. Entende agora?”



- “Agora sim!” – respondeu, desta vez com aparente sinceridade.

- “Então vamos a contas! Puxe pela memória e diga-me o valor do RPU e os valores de conta de cultura das hortícolas que lhe atormentam a mente!” - disse-lhe enquanto afastava os copos para poder escrever na toalha de papel da mesa onde almoçávamos…

- Bom, tenho 23 direitos de RPU correspondentes a 23 hectares que valem, unitáriamente 112 € cada por ano. Quanto à conta de cultura tenho aqui comigo resultados do pimento para a indústria que o Zé Nabo, rendeiro de uma parcela de terreno contigua à minha, me deu faz agora uma semana. Pelas contas dele gastou na última campanha, por cada hectare, 1.549,83 € em consumíveis (gasoleo, produtos fitossanitários, electricidade, adubos, etc), 838,71 € com mão-de-obra (sementeira, transportes, mobilizações do solo, colheita, tratamentos fitossanitários, etc), 117,20 € em amortizações de máquinas (tractores, grades, reboques, pulverizador, etc), 169,86 em reparações e 344,69€ em rendas... Pelas contas dele teve ainda uma receita resultante das vendas dos pimentos de, cerca de, 5040 euros por hectare.

- Mãos à obra! Temos tudo o que precisamos



Resolução

- A primeira coisa a fazer é calcular o valor anual proveniente do RPU e os custos associados à manutenção das boas práticas agronómicas: Ora bem, 23 hectares multiplicados por 112 € (valor unitário de cada um dos direitos) origina um proveito de 2.576 € por ano! Por outro lado só os receberá se cumprir as boas práticas agronómicas o que implica, no minimo duas gradagens por ano. Cada uma delas terá um custo associado de 18.46 € por hectare, correspondente a mão-de-obra (5,67 €), gasóleo (2,79€), seguros (0,08€), amortizações (5,21€) e reparações (4,71€). 18.46€ Multiplicados por 46 ha (23 ha vezes duas passagens) resulta num custo de 849.16€ euros o que lhe permite obter, líquidos, 1.727 € por ano (RPU–custos de boas práticas agronómicas).

A segunda fase corresponde ao cálculo dos resultados gerados pela actividade hortícola. Vamos assumir que a única actividade desenvolvida pelo seu vizinho corresponde ao Pimento para indústria da parcela contigua à sua. E que, segundo ele próprio lhe indicou, gasta por hectare 1.549,83 € em consumíveis (gasóleo, produtos fitossanitários, electricidade, adubos, etc), 838,71 € com mão-de-obra (sementeira, transportes, mobilizações do solo, colheita, tratamentos fitossanitários, etc), 117,20 € em amortizações de máquinas (tractores, grades, reboques, pulverizador, etc), 169,86€ em reparações e 344,69€ em rendas. Obtém ainda com a venda do pimento 5.040 € por hectare.

Todos os custos apresentados pelo seu vizinho são custos específicos da actividade pimento. Desta forma, o resultado mais interessante de calcular e que nos permitirá, de facto, realizar a comparação entre as duas hipóteses em questão, é a Margem de Contribuição da actividade. A margem de contribuição não é mais do que o resíduo do Proveito que sobeja após remunerar todos os custos específicos envolvidos na actividade.

Assim, fazendo as operações necessárias, obteremos o valor da Margem de contribuição do pimento, que poderemos comparar com o proveito gerado pelos RPUs.

MC = 5.040€ - 1.549,83€ - 838,71€ - 117,20€ - 169,86€ = 2.019.70 €

…por cada hectare considerado…

…multiplicando este valor unitário pela área em questão (23 ha) obtém-se a margem de contribuição total, ou seja 46.453 € !!

Efectivamente, tio, o seu custo de oportunidade, o tal do início da nossa conversa, é enorme neste caso. Caso produzisse pimentos em detrimento dos seus direitos de RPU ganharia mais de 44 mil euros do que ganha agora. Mesmo que afectássemos este valor de um prémio para risco, que lhe permitisse cobrir a incerteza do ano agrícola e a sua falta de experiência na produção hortícola, continuaria a ter um custo de oportunidade enorme. Se de facto se sente com forças e com vontade, não olhe para trás…



Ainda mal tinha acabado a conversa tocou o telefone. Era o João. Um amigo do meu pai de Amarante. Tinha-lhe prometido uma visita e já ma estava a cobrar. No dia seguinte já tinha para onde ir. De qualquer maneira o meu tio já estava entregue ao seu plano de negócios,...

1 Conceito de actualização

2 Conceito de prémio de risco


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