«catechesi tradendae» de sua santidade



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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA

«CATECHESI TRADENDAE»

DE SUA SANTIDADE



PAPA JOÃO PAULO II

AO EPISCOPADO,

AO CLERO E AOS FIÉIS

DE TODA A IGREJA

SOBRE A CATEQUESE DO NOSSO TEMPO

 

INTRODUÇÃO


Ordem final de Cristo

1. A catequese foi sempre considerada pela Igreja como uma das suas tarefas primordiais, porque Cristo ressuscitado, antes de voltar para o Pai, deu aos Apóstolos uma última ordem: fazer discípulos de todas as nações e ensinar-lhes a observar tudo aquilo que lhes tinha mandado (1). Deste modo lhes confiava Cristo a missão e o poder de anunciar aos homens aquilo que eles próprios tinham ouvido do Verbo da Vida, visto com os seus olhos, contemplado e tocado com as suas mãos (2). Ao mesmo tempo, confiava-lhes ainda a missão e o poder de explicar com autoridade aquilo que Ele lhes tinha ensinado, as suas palavras e os seus actos, os seus sinais e os seus mandamentos. E dava-lhes o Espírito Santo, para realizar tal missão.

Bem depressa se começou a chamar catequese ao conjunto dos esforços envidados na Igreja para fazer discípulos, para ajudar os homens a acreditar que Jesus é o Filho de Deus, a fim de que, mediante a fé, tenham a vida em Seu nome (3), para os educar e instruir quanto a esta vida e assim edificar o Corpo de Cristo. A Igreja nunca cessou de consagrar a tudo isto as suas energias. 
Solicitude de Paulo VI

2. Os últimos Papas atribuíram à catequese um lugar eminente na sua solicitude pastoral. Nesta linha, Paulo VI, com os seus gestos, a sua pregação e a sua interpretação autorizada do Concílio Vaticano II — que ele considerava o grande catecismo dos tempos modernos — e até com toda a sua vida, serviu a catequese da Igreja de modo particularmente exemplar. Com efeito, foi ele quem aprovou, a 18 de Março de 1971(4), o «Directório Geral da Catequese», preparado pela Sagrada Congregação para o Clero, um Directório que continua a ser o documento base para estimular e orientar a renovação catequística em toda a Igreja; foi ele quem instituiu o Conselho Internacional da Catequese, em 1975; foi ele, ainda, quem definiu magistralmente o papel e o significado da catequese na vida e na missão da Igreja, ao dirigir-se aos participantes no I Congresso Internacional de Catequese, a 25 de Setembro de 19714, e ao voltar depois explicitamente ao mesmo assunto na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (5); e por fim, foi ele a querer que a catequese, sobretudo a que se dirige às crianças e aos jovens, constituísse o tema da IV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (6), realizada no mês de Outubro de 1977, na qual eu próprio tive a alegria de participar.


Um Sínodo frutuoso

3. Ao terminar o Sínodo, os Padres remeteram ao Papa uma documentação muito rica, a qual compreendia: as diversas intervenções feitas no decorrer da Assembleia; as conclusões dos grupos de trabalho; a Mensagem que eles tinham enviado ao Povo de Deus (7), com o consenso do mesmo Papa; e sobretudo uma vastíssima série de «Proposições», nas quais exprimiam o seu parecer sobre avultado número de aspectos da catequese no momento actual.

Esse Sínodo trabalhou numa atmosfera excepcional de acção de graças e de esperança. Viu na renovação catequética um dom precioso do Espírito Santo à Igreja nos dias de hoje; dom ao qual correspondem as comunidades cristãs, em todas as partes do mundo e a todos os níveis, com uma generosidade e uma dedicação inventiva que suscitam admiração. Assim, pôde processar-se em breve o necessário discernimento, quanto a uma realidade bem viva, beneficiando de uma grande disponibilidade do Povo de Deus para a graça do Senhor e para as directrizes do Magistério.
Sentido desta Exortação

4. É no mesmo clima de fé e de esperança que vos dirijo hoje, veneráveis Irmãos e amados Filhos e Filhas, esta Exortação Apostólica. De um tema que é muitíssimo vasto , ela não irá deter-se senão nalguns aspectos, os mais actuais e mais decisivos, a fim de consolidar os bons frutos do Sínodo. Retoma essencialmente as considerações que o Papa Paulo VI já tinha preparado, servindo-se amplamente para isso dos documentos entregues pelo Sínodo nas suas mãos. O Papa João Paulo I — cujo zelo e talentos de catequista a todos maravilharam — tinha recolhido essas considerações e prestava-se para as publicar quando foi bruscamente chamado por Deus para Si. Deu-nos a todos exemplo duma catequese baseada no essencial e ao mesmo tempo popular, constituída por gestos e palavras simples, capazes de tocarem todos os corações. Retomo, pois, a herança destes dois Sumos Pontífices, para satisfazer o pedido dos Bispos, formulado expressamente no final da IV Assembleia Geral do Sínodo e aceite pelo Papa Paulo VI, como ele disse no seu discurso de encerramento (8). Faço-o também para me desempenhar de um dos maiores deveres do meu múnus apostólico. A catequese, aliás, foi sempre uma preocupação central do meu ministério de sacerdote e bispo.

Desejo ardentemente que esta Exortação Apostólica, dirigida a toda a Igreja, corrobore a solidez da fé e da vida cristã, dê novo vigor às iniciativas que estão a ser postas em prática, estimule a criatividade — com a requerida vigilância — e contribua para difundir nas comunidades a alegria de levar ao mundo o mistério de Cristo.

I

NÓS TEMOS UM ÚNICO MESTRE, JESUS CRISTO

 

Pôr em comunhão com a Pessoa de Cristo

5. A IV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos insistiu muitas vezes no cristocentrismo de toda a catequese autêntica. Podemos fixar aqui os dois significados da palavra. Não se opõem nem se excluem; antes se exigem e se completam um ao outro.

Deseja-se acentuar, antes de mais nada, que no centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa: a Pessoa de Jesus de Nazaré, «Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade» (9), que sofreu e morreu por nós, e que agora, ressuscitado, vive connosco para sempre. Este mesmo Jesus que é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (10), e a vida cristã consiste em seguir a Cristo, «sequela Christi».

O objecto essencial e primordial da catequese, pois, para empregar uma expressão que São Paulo gosta de usar e que é frequente na teologia contemporânea, é «o Mistério de Cristo». Catequizar é, de certa maneira, levar alguém a perscrutar este Mistério em todas as suas dimensões: «expor à luz, diante de todos, qual seja a disposição divina, o Mistério ... Compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade ... conhecer a caridade de Cristo, que ultrapassa qualquer conhecimento... (e entrar em) toda a plenitude de Deus» (11). Quer dizer: é procurar desvendar na Pessoa de Cristo todo o desígnio eterno de Deus que nela se realiza. E procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo e dos sinais por Ele realizados, pois eles ocultam e revelam ao mesmo tempo o seu Mistério. Neste sentido, a finalidade definitiva da catequese é a de fazer que alguém se ponha, não apenas em contacto, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: somente Ele pode levar ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar na vida da Santíssima Trindade.
Transmitir a doutrina de Cristo

6. O cristocentrismo na catequese significa também que, mediante ela, se deseja transmitir, não já cada um a sua própria doutrina ou então a de um mestre qualquer, mas os ensinamentos de Jesus Cristo, a Verdade que Ele comunica, ou, mais exactamente, a Verdade que Ele é (12). Tem que se dizer, portanto, que na catequese é Cristo, Verbo Encarnado e Filho de Deus, que é ensinado — e tudo o resto sempre em relação com Ele; e que somente Cristo ensina; qualquer outro que ensine, fá-lo na medida em que é seu porta-voz, permitindo a Cristo ensinar pela sua boca. A preocupação constante de todo o catequista, seja qual for o nível das suas responsabilidades na Igreja, deve ser a de fazer passar, através do seu ensino e do seu modo da comportar-se, a doutrina e a vida de Jesus Cristo. Assim, há-de procurar que a atenção e a adesão da inteligência e do coração daqueles que catequiza não se detenha em si mesmo, nas suas opiniões e atitudes pessoais; e sobretudo não há-de procurar inculcar as suas opiniões e opções pessoais, como se elas exprimissem a doutrina e as lições de vida de Jesus Cristo. Todos os catequistas deveriam poder aplicar a si próprios a misteriosa palavra de Jesus: «A minha doutrina não é minha mas d'Aquele que me enviou» (13). É isso que faz São Paulo, ao tratar de um assunto de grande importância: «Eu aprendi do Senhor isto, que por minha vez vos transmiti» (14). Que frequente e assíduo contacto com a Palavra de Deu transmitida pelo Magistério da Igreja, que familiaridade profunda com Cristo e com o Pai, que espírito de oração e que desprendimento de si mesmo deve ter um catequista, para poder dizer: «A minha doutrina não é minha»!


Cristo que ensina

7. Além disso, esta doutrina não é um corpo de verdades abstractas: é a comunicação do Mistério vivo de Deus. A qualidade d'Aquele que ensina no Evangelho e a natureza dos seus ensinamentos ultrapassam de todas as maneiras as dos «mestres» em Israel, em virtude daquela ligação única que existe entre aquilo que Ele diz, aquilo que Ele faz e aquilo que Ele é. Contudo, permanece o facto de os Evangelhos nos relatarem claramente momentos em que Jesus «ensina». «Jesus foi fazendo e ensinando» (15). nestes dois verbos que introduzem o livro dos Actos dos Apóstolos, São Lucas une e distingue ao mesmo tempo os dois pólos da missão de Cristo.

Jesus ensinou. É esse o testemunho que Ele dá de Si mesmo : «Eu estava todos os dias sentado no Templo a ensinar» (16). É essa também a observação que fazem cheios de admiração os Evangelistas, surpreendidos por O verem ensinar sempre e em qualquer lugar, e fazê-lo duma maneira e com uma autoridade desconhecidas até então. «De novo concorreu a Ele muita gente e, como de costume, pôs-se outra vez a ensiná-la (17); «E maravilhavam-se por causa da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade» (18). O mesmo atestam os seus adversários, para daí tirarem motivo de acusação e de condenação: «Ele subleva o povo, ensinando por toda a Judeia, a começar da Galileia até aqui» (19).
O único «Mestre»

8. Aquele que ensina deste modo merece por uma razão que é única o nome de «Mestre». Quantas vezes, ao longo do novo Testamento, e especialmente nos Evangelhos, é atribuído a Cristo esse título de Mestre (20)! Aí se refere claramente que os Doze, os outros discípulos e as multidões de ouvintes Lhe chamam «Mestre», com uma entoação ao mesmo tempo de admiração, de confiança e de ternura (21). E até mesmo os Fariseus e os Saduceus, os Doutores da Lei e os Judeus em geral Lhe não recusam essa designação: «Mestre, queríamos ver-te fazer um prodígio» (22); «Mestre, que devo fazer para obter a vida eterna?» (23). Mas é sobretudo o. próprio Jesus, em momentos particularmente solenes e muito significativos, que se denomina Mestre: «Vós chamais-me Mestre e Senhor, e dizeis bem, visto que o sou» (24); e proclama a singularidade e o carácter único da sua condição de Mestre: «... um só é o vosso Mestre» (25), Cristo. Assim se compreende que, no decorrer de dois mil anos, em todas as línguas da terra, homens de todas as condições, raças e nações Lhe tenham dado este título, com veneração, repetindo à sua maneira a exclamação de Nicodemos: «Sabemos que vieste como Mestre da parte de Deus» (26).

Esta imagem de Cristo a ensinar, a um tempo majestosa e familiar, impressionante e tranquilizadora, imagem desenhada pela pena dos Evangelistas e com frequência evocada depois pela iconografia desde os primeiros séculos da era paleo-cristã (27), tão atraente ela se apresentava, é-me grato também a mim evocá-la no início destas considerações sobre a catequese no mundo contemporâneo.
Cristo ensina com toda a sua vida

9. Ao fazer esta evocação, não esqueço que a Majestade de Cristo quando ensinava, a coerência e a força persuasiva únicas do seu ensino, não se conseguem explicar senão porque as suas palavras, parábolas e raciocínios nunca são separáveis da sua vida e do seu próprio ser. Neste sentido, toda a vida de Cristo foi um ensinar contínuo: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelo homem, a sua predilecção pelos pequeninos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo e a sua ressurreição, são o actuar-se da sua palavra e o realizar-se da sua revelação. De modo que, para os cristãos, o Crucifixo é uma das imagens mais sublimes e mais populares do Jesus que ensina.

Oxalá todas estas considerações, que se situam na esteira das grandes tradições da Igreja, consolidem em nós o fervor para com Cristo, o Mestre que revela Deus aos homens e revela o homem a si mesmo; o Mestre que salva, santifica e guia, que está vivo e que fala, desperta, comove, corrige, julga, perdoa e caminha todos os dias connosco pelos caminhos da história; o Mestre que vem e que há-de vir na glória.

É somente em profunda comunhão com Ele que os catequistas encontrarão luz e força para uma desejável renovação autêntica da catequese.


II. UMA EXPERIÊNCIA TÃO ANTIGA COMO A IGREJA
A Missão dos Apóstolos

10. A imagem de Cristo a ensinar tinha-se imprimido no espírito dos Doze e dos primeiros discípulos; e a ordem — «Ide... ensinai todas as gentes» (28)— orientou toda a sua vida. São João dá testemunho disso no seu Evangelho, quando refere as palavras de Jesus: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque vos manifestei tudo o que ouvi de meu Pai» (29). Não foram eles que escolheram seguir Jesus; foi o próprio Jesus que os escolheu, os conservou consigo e os constituiu, já antes da sua Páscoa, para que fossem e produzissem fruto e para que o seu fruto fosse duradouro (30). Foi por tudo isto que, após a ressurreição, Ele lhes confiou de maneira formal a missão de irem fazer discípulos de todas as nações.

No seu conjunto, o livro dos Actos dos Apóstolos testemunha que eles foram fiéis à sua vocação e à missão recebida. Os membros da primeira comunidade cristã aparecem aí «perseverantes no ensino dos Apóstolos, na união, na fracção do pão e nas orações» (31). Encontra-se aqui, sem dúvida alguma, a imagem permanente de uma Igreja que, graças ao ensino dos Apóstolos, nasce e se alimenta continuamente da Palavra do Senhor, a celebra no Sacrifício eucarístico e dela dá testemunho ao mundo sob o signo da caridade.

Quando os adversários começaram a ter como suspeita a actividade dos Apóstolos, foi precisamente porque estavam «indignados por eles estarem a ensinar o povo» (32). E a ordem que então lhes deram foi de não continuarem a ensinar em nome de Jesus (33). Sabemos, no entanto, que os Apóstolos quanto a este ponto, consideraram justo obedecer antes a Deus do que aos homens (34).


A catequese nos tempos apostólicos

11. Os Apóstolos não tardaram em fazer com que outros compartilhassem o seu mistério do apostolado (35). O seu múnus de ensinar transmitem-no aos seus sucessores. Confiam igualmente esse múnus a diáconos, desde a sua instituição: Estêvão, «cheio de graça e de fortaleza», não cessa de ensinar, movido pela sabedoria do Espírito (36). Depois, associaram a si «muitos outros» discípulos (37) nesse múnus de ensinar; e mesmo simples cristãos, dispersos pela perseguição, andavam de terra em terra a anunciar a palavra da Boa Nova» (38). São Paulo é o arauto por excelência de tal anúncio, de Antioquia até Roma. A última imagem que nós temos dele, nos Actos dos Apóstolos, apresenta-no-lo como um homem «pregando o reino de Deus e ensinando o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo, com toda a franqueza e sem impedimento» (39). As suas numerosas Cartas prolongam e aprofundam o seu ensino. E de modo semelhante as Cartas de São Pedro, de São João, de São Tiago e de São Judas são outros tantos testemunhos da catequese dos tempos apostólicos.

Os Evangelhos foram também, antes de serem escritos, expressão de um ensinamento oral, transmitido às comunidades cristãs, e reflectem mais ou menos claramente uma estrutura catequética. Porventura a narração de São Mateus não foi já chamada o Evangelho do catequista e a de São Marcos o Evangelho do catecúmeno?
Os Padres da Igreja e a catequese

12. A Igreja, por sua vez, continua esta missão de magistério dos Apóstolos e dos primeiros colaboradores. Fazendo-se ela própria, dia a dia, discípula do Senhor, por justo motivo é chamada «Mãe e Mestra» (40). Desde São Clemente de Roma até Orígenes (41), a época pós-apostólica viu aparecer obras notáveis. Assistiu-se depois a este facto impressionante: Bispos e Pastores, dos mais prestigiosos, sobretudo nos séculos III e IV, consideram como parte importante do seu ministério episcopal proferir instruções ou escrever tratados catequéticos. É então a época de um Cirilo de Jerusalém e de um João Crisóstomo, de um Ambrósio e de um Agostinho; devidas à pena de numerosos Padres da Igreja, neste período, de facto, viram-se florescer obras que ainda hoje continuam a ser modelos para nós.

Mas, como seria possível evocar, ainda que brevemente, a catequese que esteve na base da difusão e da caminhada da Igreja ao longo das diversas épocas da história, em todos os continentes e nos ambientes sociais e culturais mais variados? Dificuldades certamente não faltaram. Contudo, a Palavra do Senhor prosseguiu o seu curso através dos séculos, difundiu-se e foi honrada, segundo as palavras do Apóstolo São Paulo (42).
A partir dos Concílios e da actividade missionária

13. O ministério da catequese foi haurir energias cada vez mais renovadas aos Concílios. O Concílio de Trento constitui neste aspecto um exemplo a realçar: nas suas constituições e decretos, de facto, deu prioridade à catequese; é ele que está na origem do «Catecismo Romano», que por isso tem o nome de Tridentino. Constitui uma obra de primeiro plano como resumo da doutrina cristã e da teologia tradicional, para uso dos sacerdotes. O mesmo Concílio suscitou na Igreja uma organização da catequese digna de nota; estimulou o clero para o cumprimento dos seus deveres de ensino catequético; e foi determinante, ainda, para a publicação de catecismos, a que se dedicaram santos Teólogos, tais como São Carlos Borromeu, São Roberto Belarmino, ou São Pedro Canísio, escritos que são verdadeiros modelos para aquele tempo. Oxalá que o Concílio Vaticano II possa suscitar nos nossos dias uma animação e uma obra semelhantes.

As missões constituem também terreno privilegiado para a catequese ser posta em prática. Assim, passados quase dois mil anos, o Povo de Deus nunca cessou de ser educado na fé, segundo formas adaptadas às diversas condições dos fiéis e às múltiplas conjunturas eclesiais.

A catequese ainda intimamente ligada a toda a vida da Igreja. Não é só a extensão geográfica e o aumento numérico, mas sobretudo o crescimento interior da Igreja, a sua correspondência ao desígnio de Deus, que dependem da catequese. A luz das experiências que acabam de ser evocadas, neste olhar retrospectivo sobre a história da Igreja, numerosas lições — entre muitas outras — merecem ser postas em evidência.


A catequese: direito e dever da Igreja

14. É manifesto, antes de mais nada, que a catequese, para a Igreja, foi sempre um dever sagrado e um direito imprescritível. Por um lado, é patente tratar-se de um dever, originado numa ordem do Senhor e que incumbe sobretudo àqueles que, na Nova Aliança, recebem o chamamento para o ministério de Pastores. Por outro lado, pode-se falar igualmente de um direito: do ponto de vista teológico, todos os baptizados, pelo próprio facto do seu Baptismo, têm direito a receber da Igreja um ensino e uma formação que lhes permita levar verdadeira vida cristã; na perspectiva dos direitos do homem, toda a pessoa humana tem direito a procurar a verdade religiosa e a ela aderir livremente, isto é, sem «qualquer coacção, quer da parte de indivíduos, de grupos sociais ou de qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém pode ser forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma consciência» (43).

É por isso que a actividade catequética tem de poder realizar-se em circunstâncias favoráveis de tempo e de lugar, ter acesso aos meios de comunicação social e poder dispor de instrumentos de trabalho apropriados, sem discriminações em relação aos pais, aos catequizandos e aos catequistas. Actualmente este direito é cada vez mais reconhecido, ao menos no plano dos grandes princípios, como o atestam as declarações ou convenções internacionais; nestas — sejam quais forem as suas limitações — pode-se reconhecer a voz da consciência de uma grande parte dos homens de hoje (44). Mas este direito é violado por numerosos Estados, a ponto de o dar, mandar ministrar a catequese, ou o recebê-la, ser tido por delito passível de sanções. É com vigor que, em união com os Padres do Sínodo, eu levanto a voz contra todas as discriminações no domínio da catequese; e uma vez mais, faço veemente apelo aos responsáveis, para que cessem totalmente tais constrangimentos, que pesam sobre a liberdade humana em geral, e sobre a liberdade religiosa em particular.
Uma tarefa prioritária

15. A segunda lição diz respeito ao lugar próprio que há-de ocupar a catequese nos planos pastorais da Igreja. Quanto mais a Igreja, a nível local ou universal, se mostrar capaz de dar prioridade à catequese — em relação a outras obras e iniciativas cujos resultados possam ser mais espectaculares — tanto mais encontrará na catequese o meio para a consolidação da sua vida interna como comunidade de fiéis, bem como da sua actividade externa missionária. A Igreja, neste século XX prestes a terminar, é convidada por Deus e pelos acontecimentos, que também são apelos de Deus, a renovar a sua confiança na actividade catequética, como tarefa verdadeiramente primordial da sua missão. É convidada a consagrar à catequese os seus melhores recursos de pessoal e de energias, sem se poupar a esforços, trabalhos e meios materiais, para a organizar melhor e formar para ela pessoas qualificadas. Nisto não há que ater-se a cálculos puramente humanos, mas tem de haver uma atitude de fé. E uma atitude de fé refere-se sempre à fidelidade de Deus, que não deixa nunca de corresponder.


Responsabilidade comum e diferenciada

16. Terceira lição: a catequese tem sido sempre e continuará a ser uma obra pela qual toda a Igreja se deve sentir e mostrar responsável. Os membros da Igreja, é certo, têm responsabilidades distintas, segundo a missão de cada um. Os Pastores, em virtude do seu múnus, tem, a diversos níveis, a mais alta responsabilidade pela promoção, orientação e coordenação da catequese. O Papa, da sua parte, tem consciência viva da responsabilidade que lhe incumbe em primeiro lugar neste campo; se tem nisso motivos de preocupação pastoral, tem aí sobretudo, uma fonte de alegria e de esperança. Os sacerdotes, os religiosos e as religiosas dispõem aí de um terreno privilegiado para o seu apostolado. Os pais têm, também eles, ainda que a outro nível, uma responsabilidade singular. Os professores, os diversos ministros da Igreja, os catequistas e, para além destes, os promotores das comunicações sociais, têm todos em graus diversos, responsabilidades bem precisas nesta formação da consciência dos fiéis, formação importante para a vida da Igreja e que se reflecte na vida da própria sociedade. Seria certamente um dos melhores frutos da Assembleia Geral do Sínodo, consagrada inteiramente à catequese, se ela viesse a despertar, em toda a Igreja e em cada um dos seus sectores, uma consciência viva e actuante dessa responsabilidade diferenciada mas comum.


Renovação contínua e equilibrada

17. Por fim, precisa a catequese de uma renovação contínua, mesmo em certo alargamento do seu próprio conceito, nos seus métodos, na busca de uma linguagem adaptada e na técnica dos novos meios para a transmissão da mensagem. Esta renovação, porém, nem sempre se tem processado com igual validade; os Padres sinodais não hesitaram em reconhecer com realismo, a par de um progresso inegável da actividade catequética e de iniciativas promissoras, os limites e até as «deficiências» do que se tem feito até ao presente (45). Tais limites são particularmente graves quando comportam o risco de acarretar dano à integridade do conteúdo. A «Mensagem ao Povo de Deus» frisou bem que «uma repetição rotineira que se opõe a toda e qualquer mudança, bem como a improvisação inconsiderada que enfrenta os problemas com temeridade, são igualmente perigosas» (46) para a catequese. A repetição rotineira leva à estagnação, à letargia e, por fim, à paralisia. A improvisação inconsiderada gera a confusão dos catequizados e dos seus pais quando se trata de crianças, gera desvios de toda a espécie, a ruptura e, finalmente, a derrocada total da unidade. Importa que a Igreja hoje — como aliás o conseguiu noutros momentos da sua história — saiba dar mostras de sapiência, de coragem e de fidelidade evangélicas na procura e na prática de novas vias e perspectivas para o ensino catequético.

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