«catechesi tradendae» de sua santidade



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V. TODOS PRECISAM DE SER CATEQUIZADOS
A importância das crianças e dos jovens

35. O tema designado pelo meu Predecessor Paulo VI para a IV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos era o seguinte: «A catequese, no mundo contemporâneo, com particular referência às crianças e aos jovens». A subida de influência dos jovens é sem dúvida o facto mais rico de esperanças e também de inquietudes para boa parte do mundo de hoje. Alguns países, especialmente os do Terceiro Mundo, têm mais de metade da preocupação com idade inferior aos vinte e cinco ou trinta anos. Isso equivale a dizer que há milhões e milhões de crianças e de jovens que estão a preparar-se para o seu futuro de adultos. E nisto não conta somente o factor numérico: acontecimentos recentes e noticiários da crónica quotidiana dizem-nos que esta multidão inumerável de jovens, embora possa ser aqui e acolá dominada pela incerteza e pelo medo, ou seduzida pela evasão através da indiferença e da droga, ou mesmo tentada pelo niilismo e pela violência — na sua maior parte representa, não obstante, a grande força que, por entre muitos riscos, se propõe construir a civilização do futuro.

Por isso, com solicitude pastoral, temos de pôr-nos a pergunta: como apresentar a tantos jovens e crianças Jesus Cristo, Deus feito homem? E apresentar-lh'O não simplesmente num momento de exaltação dum primeiro encontro fugidio, mas mediante um conhecimento cada vez mais aprofundado e luminoso da sua Pessoa, da sua mensagem, do desígnio de Deus que Ele quis revelar, do chamamento que Ele dirige a cada um, do Reino que Ele quer inaugurar neste mundo com o «pequeno rebanho» (87) daqueles que acreditam n'Ele, o qual não ficará completo senão na eternidade. Sim, como se há-de dar a conhecer o sentido, o alcance, as exigências fundamentais, a lei de amor, as promessas e as esperanças deste Reino?

Muitas observações haveria a fazer aqui, quanto às características que tem de assumir a catequese nos diversos períodos da vida.


Na primeira infância

36. Momento muitas vezes decisivo é aquele em que as criancinhas recebem dos pais e do meio ambiente familiar os primeiros elementos da catequese. Não serão talvez mais do que uma simples revelação do Pai celeste, bom e providente, para o qual as criancinhas hão-de aprender logo a voltar o coração. Brevíssimas orações, que elas hão-de aprender a balbuciar, constituirão o início de um diálogo amoroso com esse Deus escondido cuja Palavra vão começar em breve a ouvir. Nunca é demais insistir com os pais cristãos para que façam essa iniciação precoce das crianças. É por ela que as sua faculdades hão-de ser integradas numa revelação vital com Deus. Tarefa fundamental, exige grande amor e profundo respeito para com as crianças, as quais, têm direito a uma apresentação simples e verdadeira da fé cristã.


Crianças

37. Em seguida, passado pouco tempo, na escola e na igreja, na paróquia ou no âmbito da assistência religiosa do colégio católico ou das escolas do Estado, simultaneamente com a abertura a um círculo social mais vasto, chega o momento de uma catequese destinada a introduzir as crianças de modo orgânico na vida da Igreja, e a prepará-las para a celebração dos Sacramentos. Catequese didáctica, sem dúvida, mas visando um testemunho de fé que há-de ser dado; catequese inicial, sim, mas não fragmentária, pois deverá apresentar, embora de maneira elementar, todos os mistérios principais da fé e sua incidência na vida moral e religiosa das crianças; catequese, enfim, que há-de dar sentido aos Sacramentos, mas ao mesmo tempo receber desses Sacramentos vividos uma dimensão vital, que a impeça de permanecer simplesmente doutrinal e comunique às crianças a alegria de serem testemunhas de Cristo no meio em que vivem.


Adolescentes

38. Depois chega a fase da puberdade e da adolescência, com o que esta idade representa de grande e de arriscado. É o tempo da descoberta de si mesmo e do próprio mundo interior; o tempo dos planos generosos; o tempo do desabrochar do sentimento do amor, com os impulsos biológicos da sexualidade; o tempo do desejo de estar junto com os outros; o tempo de uma alegria particularmente intensa, ligada à inebriante descoberta da vida. Muitas vezes, porém, é simultaneamente a idade das interrogações mais profundas; das indagações angustiadas ou mesmo frustrantes; de certa desconfiança em relação aos outros, acompanhada do debruçar-se sobre si mesmo fechando-se; é a idade, por vezes, dos primeiros fracassos e das primeiras amarguras. Ora a catequese não pode ignorar tais aspectos facilmente variáveis deste delicado período da vida. Uma catequese capaz de levar o adolescente a uma revisão da sua própria vida e ao diálogo, uma catequese que não ignore os seus grandes problemas — o dom de si, a crença, o amor e sua mediação que é a sexualidade — poderá ser decisiva. A apresentação de Jesus Cristo como amigo, como guia, como modelo ideal capaz de provocar admiração e arrastar à imitação; depois, a apresentação da sua mensagem de molde a poder dar resposta aos problemas fundamentais; finalmente, a apresentação do desígnio de amor de Cristo Salvador, como encarnação do único amor verdadeiro com possibilidade de unir entre si os homens: tudo isto poderá proporcionar a base para uma autêntica educação na fé. Mas hão-de ser sobretudo os mistérios da Paixão e Morte de Jesus, aos quais São Paulo atribui o mérito da sua gloriosa Ressurreição, que mais poderão dizer à consciência e ao coração dos adolescentes e projectar luz sobre os seus primeiros sofrimentos e sobre os do mundo que eles estão a descobrir.


Jovens

39. Com a idade da juventude chega o momento das primeiras grandes decisões. Apoiados, porventura pelos membros da família e por amigos, contudo entregues a si mesmos e à sua consciência moral, são os jovens que passam a ter de assumir por si próprios a responsabilidade do seu destino, de modo cada vez mais frequente e determinante. O bem e o mal, a graça e o pecado, a vida e a morte afrontar-se-ão no mais íntimo deles mesmos. Como categorias morais, certamente, mas sobretudo como opções fundamentais que eles têm de assumir ou rejeitar, com lucidez, conscientes da própria responsabilidade. É evidente que nesta fase uma catequese que denuncie o egoísmo apelando para a generosidade, que apresente, sem simplismos nem esquematismos ilusórios, o sentido cristão do trabalho, do bem comum, da justiça e da caridade, uma catequese da paz entre as nações e da promoção da dignidade humana, do desenvolvimento e da libertação, tais como estas coisas são apresentadas nos documentos recentes da Igreja (88), terá de completar de maneira feliz no espírito dos jovens uma boa catequese das realidades propriamente religiosas, a qual nunca deve ser descurada. A catequese assume então uma importância considerável. É o momento em que o Evangelho poderá ser apresentado, compreendido e acolhido como algo capaz de dar sentido à vida, e por isso de inspirar atitudes de outra forma inexplicáveis, como por exemplo: a renúncia, o desapego, a mansidão, a justiça, a fidelidade aos compromissos, a reconciliação, o sentido do Absoluto e do invisível, etc., outros tantos traços que hão-de permitir identificar determinado jovem entre os seus companheiros como discípulo de Cristo.

A catequese há-de preparar deste modo os grandes compromissos cristãos da vida adulta. No que diz respeito, por exemplo, às vocações para a vida sacerdotal e religiosa, há a certeza de que muitas delas nasceram no decurso de uma catequese bem feita durante a infância e durante a adolescência.

Desde a primeira infância até ao limiar da maturidade, a catequese torna-se pois uma escola permanente de fé e segue as grandes linhas da vida, à maneira de um farol que ilumina o caminho da criança, do adolescente e do jovem.


Adaptação da catequese aos jovens

40. É algo reconfortante verificar que não só durante a IV Assembleia Geral do Sínodo, mas também durante os anos que se lhe seguiram, toda a Igreja compartilhou em ampla escala esta preocupação: como dar catequese às crianças e aos jovens? Queira Deus que a atenção assim despertada na consciência da Igreja permaneça por muito tempo! O Sínodo foi muito benéfico para toda a Igreja. Esforçou-se por retratar com a maior exactidão possível a face complexa da juventude dos nossos dias; mostrou que esta juventude se serve de uma linguagem, para a qual importa saber traduzir, com paciência e sabedoria, a mensagem de Jesus, sem a trair; demonstrou que, malgrado as aparências, esta juventude é portadora, quando mais não fosse pelo vazio que sente, de algo mais do que uma disponibilidade e uma abertura: ela é portadora de um verdadeiro desejo de conhecer aquele «Jesus, que - se chama Cristo» (89); por fim pôs em evidência que a obra da catequese, se se quiser realizar com rigor e seriedade, se apresenta hoje mais árdua e fatigante do que nunca, por causa dos obstáculos e dificuldades de todo o género com que depara; mas que a catequese é também mais consoladora do que nunca, em razão da profundidade e correspondência que vai encontrando por parte das crianças e dos jovens. Está aí um tesouro, com o qual a Igreja pode e deve contar nos anos que hão-de vir.

Há, no entanto, algumas categorias de jovens destinatários da catequese que, em virtude da sua particular situação, exigem atenção especial.
Deficientes

41. Trata-se, antes de mais, das crianças e dos jovens deficientes físicos ou mentais. Têm direito, como quaisquer outros da sua idade, a conhecer o «mistério da fé». As dificuldades que eles encontram, por serem maiores, tornam também mais meritórios os seus esforços e os dos seus educadores. É motivo de regozijo verificar que organismos católicos, que se dedicam especialmente aos, jovens deficientes, quiseram trazer ao Sínodo a contribuição da sua experiência neste campo e ao Sínodo vieram buscar um desejo renovado para melhor enfrentarem este importante problema. Tais organismos merecem ser vivamente encorajados nesta sua preocupação de procura.


Jovens religiosamente sem apoio

42. O meu pensamento dirige-se em seguida para as crianças e para os jovens, cada vez mais numerosos que, embora nascidos e educados num lar não cristão ou pelo menos não praticante, estão desejosos de conhecer a fé cristã. Há que fazer todo o possível por lhes proporcionar uma catequese adaptada, a fim de poderem crescer na fé e vivê-la progressivamente, malgrado a falta de apoio, ou talvez mesmo a oposição encontrada no seu meio ambiente.


Adultos

43. E prosseguindo a série dos destinatários da catequese, não posso deixar de realçar aqui um dos cuidados dos Padres do Sínodo, requerido com vigor e urgência pelas experiências que se estão a fazer no mundo inteiro: trata-se do problema crucial da catequese dos adultos. É a principal forma de catequese, porque se dirige a pessoas que têm as maiores responsabilidades e capacidade para viverem a mensagem cristã na sua forma plenamente desenvolvida (90).

Efectivamente, a comunidade cristã, nunca poderá pôr em prática uma catequese permanente sem a participação directa e experimentada dos adultos, quer sejam eles os destinatários quer os promotores da actividade catequética. O mundo em que os jovens são chamados a viver e testemunhar a fé, que a catequese intenta aprofundar e consolidar neles, é um mundo governado pelos adultos; a fé destes, portanto, tem de ser continuamente esclarecida, estimulada e renovada, a fim de impregnar as realidades temporais desse mundo por que eles são os responsáveis.

Assim, para ser eficaz, a catequese tem de .ser permanente; seria em vão, quase pela certa, se parasse no começo da maturidade, uma vez que ela se demonstra não menos necessária para adultos, embora sob outra .forma, obviamente.


Quase catecúmenos

 44. Dentre todos os adultos que têm necessidade de catequese, um solícito pensamento pastoral e missionário me vai agora para aqueles que, nascidos e educados em regiões ainda não cristianizadas, nunca puderam aprofundar a doutrina cristã, que as circunstâncias da vida alguma vez lhes permitiram encontrar; vai também para aqueles que na sua infância receberam uma catequese correspondente a tal idade, mas que em seguida se afastaram de toda a prática religiosa e se acham na idade madura com conhecimentos religiosos prevalentemente infantis; vai depois para aqueles que se ressentem de uma catequese precoce, mal orientada e mal assimilada; e vai por fim para aqueles que, embora nascidos em países cristãos, que o mesmo é dizer num ambiente sociologicamente cristão, nunca foram educados na sua fé e são, chegados à idade adulta, verdadeiros catecúmenos.


Catequeses diversificadas e complementares

45. Os adultos, em qualquer idade que se encontrem e as próprias pessoas idosas — que dada a sua experiência e os seus problemas, merecem atenção particular — são tão destinatários da catequese, como as crianças, os adolescentes e os jovens. E haveria que falar ainda dos migrantes, das pessoas «marginalizadas» pela evolução moderna e daquelas que vivem nos bairros de grandes metrópoles, muitas vezes desprovidos de igreja, de locais e de estruturas apropriadas... Em relação a todos estes, não se podem deixar de formular votos por que se multipliquem as iniciativas destinadas à sua formação cristã, com meios apropriados (sistemas audio-visuais, publicações, encontros, conferências, etc.), de tal maneira que os adultos possam ou suprir uma catequese que ficou insuficiente ou deficiente, ou completar harmoniosamente, a nível superior, aquela que receberam na infância, ou mesmo enriquecer-se neste aspecto, de molde a poderem ajudar mais seriamente os outros.

É importante também que a catequese das crianças e dos jovens, a catequese permanente e a catequese dos adultos não sejam domínios estanques e sem comunicação. E importa mais ainda que entre elas não haja ruptura. Muito pelo contrário, é -necessário favorecer a sua perfeita complementaridade: os adultos têm muito que dar aos jovens e às crianças em matéria de catequese, mas também eles podem receber muito pela catequese, em ordem ao incremento da sua. própria vida cristã.

Tem que se repetir, uma vez mais: ninguém na Igreja de Jesus Cristo deveria sentir-se dispensado de receber catequese. Tal imperativo abrange mesmo o caso dos jovens seminaristas e dos jovens religiosos, bem como de todos aqueles que são chamados a desempenharem o múnus de pastores e de catequistas: desempenhá-lo-ão tanto melhor quanto mais souberem aprender com humildade na escola da Igreja, que é não só a grande catequista mas também a grande catequizada.

 

VI. ALGUMAS VIAS E MEIOS PARA A CATEQUESE
Meios de comunicação social

46. Desde o ensino oral dos Apóstolos e das Cartas que circulavam entre as Igrejas, até aos meios mais modernos, a catequese nunca deixou de procurar vias e meios adaptados para se desempenhar da sua missão, com a participação activa das comunidades, sob o impulso dos Pastores. E, nesta linha, esse esforço tem de continuar.

Espontaneamente vêm-me ao pensamento as grandes possibilidades que oferecem os meios de comunicação social e os meios de comunicação de grupos: televisão, rádio, imprensa, discos, fitas magnéticas, enfim, todos os meios audio-visuais. Os esforços que já foram feitos nestes domínios são de molde a dar-nos as melhores esperanças. A experiência demonstra, por exemplo, a repercussão que pode ter um ensino radiofónico ou televisivo que saiba conjugar bem uma expressão estética de valor com uma rigorosa fidelidade ao Magistério. Mas dado que a Igreja dispõe nesta altura de muitas ocasiões para tratar destes problemas — inclusive os «Dias» dos meios de comunicação social — não obstante a sua importância capital, não será necessário estar aqui a alongar-me agora sobre este ponto.
Múltiplos lugares, movimentos ou reuniões a valorizar

47. Penso, de igual modo, em diversos movimentos de grande alcance, nos quais tem pleno cabimento uma catequese: por exemplo, as peregrinações diocesanas, regionais ou nacionais, que certamente lucrarão se forem centradas num tema criteriosamente escolhido, a partir da vida de Jesus, de Nossa Senhora e dos Santos; depois, as missões tradicionais, abandonadas muitas vezes precocemente e que são insubstituíveis para uma renovação periódica e vigorosa da vida cristã: é necessário retomá-las e rejuvenescê-las; de igual modo, os círculos bíblicos que devem ir além da simples exegese, a fim de fazerem viver a Palavra de Deus; e por fim, as reuniões das comunidades eclesiais de base, na medida em que estas corresponderem aos critérios expostos na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (91). Podem-se mencionar ainda os agrupamentos de jovens, que nalgumas partes, sob diversas denominações e com diferentes fisionomias — mas com idêntica finalidade, qual é a de fazerem com que se conheça Jesus Cristo e se viva o Evangelho — se multiplicam e florescem como numa primavera muito alentadora para a Igreja: grupos de acção católica, grupos caritativos, grupos de oração, grupos de reflexão cristã, etc. Tais grupos suscitam grandes esperanças para a Igreja de amanhã. No entanto, em nome de Jesus Cristo, peço ardentemente aos jovens que os compõem, aos responsáveis por eles e aos sacerdotes que lhes consagram o melhor do seu ministério: nunca permitais, custe o que custar, que a estes grupos — ocasiões privilegiadas de encontro, ricos de tantos valores de amizade e de solidariedade entre os jovens, de alegria, de entusiasmo e de reflexão sobre os acontecimentos e as coisas — falte um estudo-sério da doutrina cristã. Sem isto, corriam o risco — e tal perigo, infelizmente, tem-se verificado muitas vezes — de decepcionar os que a eles aderem e de decepcionar a própria Igreja.

O esforço catequético que é possível nestas diversas situações, e ainda em muitas outras, tem tanto maiores possibilidades de ser bem acolhido e de dar os seus frutos, quanto mais respeitar a sua natureza própria. Ao inserir-se em tais situações de maneira apropriada, tal esforço há-de procurar pôr em acção aquela diversidade e complementaridade de achegas que lhe permitam desenvolver toda a riqueza do seu conceito, com a tríplice dimensão de palavra, de memória e de testemunho — de doutrina, de celebração e de compromisso na vida — que a Mensagem do Sínodo ao Povo de Deus pôs em evidência (92).
A homilia

48. Esta observação torna-se mais válida ainda quando a catequese é feita dentro do enquadramento litúrgico, e especialmente na assembleia eucarística: respeitando a especificidade e o ritmo próprio de tal enquadramento, a homilia retoma o itinerário da fé proposto na catequese e leva-o ao seu complemento natural; ao mesmo tempo, impulsiona os discípulos do Senhor a retomarem cada dia o seu itinerário espiritual na verdade, na adoração e na acção de graças. Neste sentido, pode-se dizer que também a pedagogia da fé tem a sua fonte e o seu complemento final na Eucaristia, ao longo do ciclo completo do ano litúrgico. A pregação, centrada nos textos bíblicos, deverá então, à sua maneira, dar azo a que os fiéis se familiarizem com o conjunto dos mistérios da fé e das normas da vida cristã. Há-de ser dispensada uma grande atenção à homilia: esta não deve ser muito longa nem demasiado breve, sempre cuidadosamente preparada, substanciosa e adaptada, e reservada aos ministros ordenados. Deverá ser feita em todas as celebrações dominicais e festivas da Eucaristia, e também na celebração dos Baptismos, das liturgias penitenciais, dos Matrimónios e dos funerais. É um dos grandes benefícios da renovação litúrgica.


Livros catequéticos

49. Neste conjunto de vias e de meios — toda a actividade da Igreja, aliás, tem dimensão catequética — as obras catequéticas, longe de perderem a sua importância essencial, adquirem nova relevância. Um dos aspectos mais salientes da renovação da catequese nos nossos dias consiste na remodelação e na multiplicação de livros catequéticos, mais ou menos por toda a parte. Têm visto a luz da publicidade, realmente, obras numerosas. E têm tido grande êxito, constituindo uma verdadeira riqueza ao serviço do ensino da catequese. Contudo é necessário reconhecer com honestidade e humildade, que tal florescência e riqueza também deu azo a experiências e publicações equívocas, nocivas para os jovens e para a vida da Igreja. Com muita frequência, aqui e além, com a preocupação de se encontrar a linguagem mais adaptada ou de seguir modas referentes a métodos pedagógicos, algumas obras catequéticas desorientam os jovens e até mesmo os adultos, quer pela omissão, consciente ou inconsciente, de elementos essenciais para a fé da Igreja, quer pela importância excessiva dada a certos temas com prejuízo de outros, quer sobretudo por uma perspectiva de conjunto demasiado horizontalista, não conforme ao ensino do Magistério da Igreja.

Não basta, pois, que se multipliquem os livros de catequese. Para que estes correspondam à sua finalidade são indispensáveis condições, como por exemplo:

— que sejam adaptados à vida concreta da geração a que são destinados, tendo bem presentes as suas inquietudes e interrogações, bem como as suas lutas e esperanças ;

— que se esforcem por encontrar a linguagem compreensível a essa mesma geração;

— que se esmerem em ser a expressão de toda a mensagem de Cristo e da sua Igreja, sem nada descurar ou deformar, procurando expô-la inteiramente e segundo um centro de referência e uma estrutura que façam ressaltar o essencial;

— que intentem verdadeiramente provocar maior conhecimento dos mistérios de Cristo naqueles que deles se servirem, em vista de uma autêntica conversão e de uma vida mais conforme à vontade de Deus.
Catecismos

50. Todos aqueles que assumem a pesada tarefa de preparar tais instrumentos para a catequese, sobretudo os textos de catecismos, não o podem fazer sem a aprovação dos Pastores que tenham autoridade para a dar e sem se inspirarem, o mais de perto possível, no Directório Geral da Catequese, que continua a ser a norma a que referir-se (93).

A tal propósito, não posso deixar de dirigir vivo encorajamento às Conferências Episcopais do mundo inteiro: que elas tomem a iniciativa, com paciência mas com firme resolução, desse grande trabalho a ser realizado de acordo com a Sé Apóstólica, qual é o de preparar verdadeiros catecismos, fiéis aos conteúdos essenciais da Revelação e actualizados pelo que se refere ao método, em condições de educar para uma fé vigorosa as gerações cristãs dos tempos novos.

Esta breve menção de meios e vias para a catequese contemporânea não é exaustiva em relação à riqueza de proposições elaboradas pelos Padres do Sínodo. É motivo de conforto pensar que em cada nação se está a realizar actualmente preciosa colaboração em ordem a uma renovação mais orgânica e segura destes aspectos da catequese. Como se poderia duvidar das possibilidades que a Igreja tem de encontrar pessoas avisadas e competentes e meios adaptados para corresponder, com graça de Deus, às complexas exigências da comunicação com os homens do nosso tempo? 


VII. COMO DAR A CATEQUESE
Diversidade dos métodos

51. A idade e o desenvolvimento intelectual dos cristãos, bem como o seu grau de maturidade eclesial e espiritual e muitas outras circunstâncias pessoais exigem que a catequese adopte métodos muito diversos, para poder alcançar a sua finalidade específica: a educação para a fé. Tal variedade é também exigida, num plano mais geral, pelo meio sócio-cultural em que a Igreja desenvolve a sua actividade catequética. A variedade de métodos é um sinal de vida e uma riqueza. Foi assim que a consideraram os Padres da IV Assembleia Geral do Sínodo, ao chamarem a atenção para as condições indispensáveis a que tal variedade seja útil e não prejudicial à unidade do ensino da única fé.


Ao serviço da Revelação e da conversão

52. O primeiro problema da ordem geral que se apresenta refere-se ao risco e à tentação de misturar indevidamente com o ensino catequético perspectivas ideológicas, claras ou disfarçadas, sobretudo de natureza político-social, ou então opções políticas pessoais. Quando tais perspectivas prevalecem sobre a mensagem central a ser transmitida, até ao ponto de a obscurecerem e fazerem com que se torne secundária, ou mesmo de a utilizarem até para os seus próprios fins, a catequese passa a ficar profundamente desnaturada até às raízes. O Sínodo insistiu, e muito a propósito, na necessidade de a catequese se manter acima de tendências unilaterais divergentes — de evitar «dicotomias» — mesmo no campo das interpretações teológicas que são dadas a questões semelhantes. Há-de ser pela Revelação que a catequese se procurará reger; e a Revelação tal como a transmite o Magistério universal da Igreja, na sua forma solene ou ordinária. Esta Revelação é a de um Deus Criador e Redentor, cujo Filho, ao vir ao meio dos homens revestido de carne humana, não só entra na história pessoal de cada homem, como na própria história humana, da qual Ele se toma o centro. Tal Revelação, por conseguinte, é revelação da mudança radical do homem e do universo, de tudo aquilo que constitui o tecido da existência humana, sob a influência da Boa Nova de Jesus Cristo. Uma catequese concebida assim, ultrapassa todo o moralismo formalista, se bem que inclua uma verdadeira moral cristã; ultrapassa principalmente todo o «messianismo» temporal, social ou político. Tal catequese procura atingir o que há de mais profundo no homem.


Encarnação da mensagem nas culturas

53. Passo agora a tocar outro problema. Como tive ocasião de dizer recentemente aos membros da Comissão Bíblica, «O termo 'aculturação', ou 'inculturação', apesar de ser um neologismo, exprime muito bem uma das componentes do grande mistério da Encarnação» (94). Podemos dizer da catequese, como da evangelização em geral, que ela é chamada a levar a força do Evangelho ao coração da cultura e das culturas. Para isso, a catequese tem de procurar conhecer essas culturas e suas componentes essenciais; apreender as suas expressões mais significativas; saber também respeitar os seus valores e riquezas próprias. É deste modo que poderá propor a essas culturas o conhecimento do mistério escondido (95) e ajudá-las a fazer surgir da sua própria tradição viva expressões originais de vida, de celebração e de pensamento cristãos. Há que recordar-se entretanto de duas coisas:

 — por um lado, a Mensagem evangélica não é isolável pura e simplesmente da cultura em que primeiramente se inseriu (o mundo bíblico e mais concretamente o meio cultural onde viveu Jesus de Nazaré); nem mesmo, sem perdas graves, das culturas em que já se exprimiu ao longo de séculos; não surge de maneira espontânea de nenhum substracto cultural; além disso transmite-se sempre através de um diálogo apostólico que inevitavelmente está inserido num certo diálogo de culturas;

 — por outro lado, a força do Evangelho por toda a parte é transformadora e regeneradora. Quando penetra numa determinada cultura, quem se maravilhará de que aí aperfeiçoe muitos elementos? Deixaria de haver catequese se fosse o Evangelho a ter que alterar-se no contacto com as culturas.

Se sucedesse esquecerem-se estas coisas, chegar-se-ia simplesmente àquilo que São Paulo chama, com expressão muito forte, «desvirtuar a Cruz de Cristo» (96).

Bem diferente é a diligência que, com prudência e discernimento, parte de elementos — religiosos ou de outro género — que fazem parte do património cultural de um grupo humano, com o intento de ajudar as pessoas a compreenderem melhor a integridade do mistério cristão. Os catequetas autênticos sabem bem que a catequese se tem de «encarnar» nas diferentes culturas e nos diversos meios: basta pensar em tanta diversidade de povos, na novidade dos jovens do nosso tempo e nas circunstâncias tão variadas em que se encontram os homens de hoje; apesar de tudo, nenhum desses catequetas aceita que a catequese se empobreça, por abdicação ou atenuação da luz da sua mensagem e por adaptações, mesmo de linguagem, que porventura comprometessem o «bom depósito» da fé (97), ou ainda por concessões em matéria de fé ou moral; todos estão persuadidos de que a verdadeira catequese há-de acabar por enriquecer essas culturas, ajudando-as a superar os aspectos deficientes ou mesmo inumanos que nelas existam, comunicando aos seus lídimos valores a plenitude de Cristo (98).


Contribuição das devoções populares

54. Outro problema de método diz respeito à valorização dos elementos válidos da piedade popular, pelo ensino catequético. Penso, a este propósito, naquelas devoções que são praticadas pelo povo fiel nalgumas regiões com um fervor e uma pureza de intenção comovedores embora a fé que está na sua base deva ser purificada, ou mesmo rectificada, sob muitos aspectos. Penso igualmente em certas orações fáceis de compreender, que tantas pessoas simples gostam de repetir. E penso ainda em certos actos de piedade, praticados com desejo sincero de fazer penitência e de agradar ao Senhor. Subjacentes à maior parte dessas orações e atitudes, ao lado de elementos que são de pôr de parte, outros há também que, se bem utilizados, poderiam perfeitamente servir para fazer progredir e aperfeiçoar o conhecimento do mistério de Cristo ou da sua mensagem: o amor e a misericórdia de Deus, a Encarnação de Cristo, a sua Cruz redentora e a sua Ressurreição, a acção do Espírito Santo em cada um dos cristãos e na Igreja, o mistério de além-túmulo, as virtudes evangélicas a praticar, a presença do cristão no mundo, etc. Sendo assim, porque haveríamos de estar a aproveitar elementos não cristãos — ou até anti-cristãos — deixando de apoiar elementos que, muito embora precisem de ser revistos e corrigidos, têm já alguma coisa de cristão na sua raiz?


Memorização

55. O último dos problemas metodológicos que convém ao menos pôr em destaque — pois foi por mais de uma vez debatido no Sínodo — é o problema da memorização. Os inícios da catequese cristã, coincidiram com uma civilização prevalentemente oral; por isso recorreram em larga escala à memorização. E assim a catequese, imediatamente conheceu uma longa tradição de aprendizagem dos princípios e das verdades usando prevalentemente a memória. Bem sabemos todos que tal método pode apresentar inconvenientes: não é o menor de todos, o facto de se prestar a uma assimilação insuficiente, por vezes quase nula, reduzindo todo o saber a fórmulas que se repetem sem nunca se terem aprofundado. Estes inconvenientes, juntamente com diversas características da nossa civilização levaram aqui e além à supressão quase completa — alguns dizem mesmo, o que não é para seguir, definitiva — da memorização na catequese. Contudo, por ocasião da IV Assembleia Geral do Sínodo, vozes muito autorizadas se fizeram ouvir em favor de um reequilíbrio criterioso na catequese entre reflexão e espontaneidade, diálogo e silêncio, trabalhos escritos e de memória. De resto, há algumas culturas que continuam a dar grande importância à memorização.

Assim, numa altura em que, no ensino profano de alguns países, se ouvem queixas cada vez mais numerosas, quanto às lamentáveis consequências do menosprezo desta faculdade humana que é a memória, porque haveríamos de ser nós a não procurar revalorizá-la de maneira inteligente e até original na catequese, tanto mais que a celebração ou «memória» dos grandes acontecimentos da história da Salvação exige que deles se possua um conhecimento preciso? Certa memorização, pois, das palavras de Jesus, de passagens bíblicas importantes, dos dez Mandamentos, de fórmulas de profissão de fé, de textos litúrgicos e orações essenciais e de noções-chave da doutrina..., longe de ser contra a dignidade dos jovens cristãos, ou de constituir para eles obstáculo ao diálogo pessoal com o Senhor, é uma verdadeira necessidade, como recordaram com vigor os Padres sinodais. E preciso ser-se realista. As flores da fé e da piedade cristã, se assim se pode dizer, não crescem nos espaços ermos de uma catequese sem memória. O essencial é que os textos memorizados sejam também interiorizados, compreendidos pouco a pouco na sua profundidade, a fim de se tornarem fonte de vida cristã pessoal e comunitária.

A pluralidade de métodos na catequese contemporânea pode ser sinal de vitalidade e de talento inventivo. Em qualquer hipótese, importa que o método escolhido se atenha acima de tudo a uma lei fundamental para toda a vida da Igreja: a lei da fidelidade a Deus e da fidelidade ao homem, numa única atitude de amor.

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