Categorias conceituais de bakhtin para a pesquisa histórica: a polifonia e o dialogismo



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CATEGORIAS CONCEITUAIS DE BAKHTIN PARA A PESQUISA HISTÓRICA: A POLIFONIA E O DIALOGISMO

CAMPOS, Dulcinéa1



dulcampos@gmail.com
FALCÃO, Elis Beatriz Lima2

beatrizelis@hotmail.com
Resumo

Esta comunicação pretende estabelecer diálogos iniciais entre conceitos presentes na obra de Bakhtin e as implicações teórico-metodológicas para a pesquisa nas Ciências Humanas. No que se refere à implicação desse método para o campo de pesquisa em Ciências Humanas e do homem, Bakhtin desenvolveu uma visão inovadora que passa necessariamente pela comunicação e pelo diálogo, pois, segundo esse autor, não se podem contemplar, analisar e definir as consciências alheias como objetos, como coisas, visto que a única forma possível de nos comunicarmos é dialogicamente. Para analisar a compreensão de Bakhtin sobre a utilização de discurso como um conceito filosófico e ferramenta crítica, detém-se na obra Problema da Poética de Dostoievski, a qual possibilita uma discussão sobre o que se pode chamar de a marca do trabalho de Bakhtin, que é a discussão sobre a natureza da linguagem, pois essa obra nos permite refletir sobre os modos de pensar, trabalhar e escrever a pesquisa na perspectiva histórica. Aborda o discurso polifônico, o discurso homofônico, o estudo das relações entre os enunciados e o autor e as relações dialógicas entre os enunciados que constituem o método dialógico. A pesquisa nas ciências humanas, à luz das contribuições que a obra de Dostoievski nos permite pensar, é uma modalidade de pesquisa que traz em seu texto a coexistência de inúmeros narradores, narrativas, formas de narração e temas que, no decorrer da enunciação, configuram uma “heterogeneidade discursiva”, expressão criada por Bakhtin em seus trabalhos sobre literatura, como destaque no romance de Dostoievski, em que várias “vozes” se exprimem sem que nenhuma seja dominante (BAKHTIN, 1970). É essa pluralidade de vozes que configura o texto que convida a uma reflexão pautada em duas teorias fundamentais da obra de Bakhtin para a pesquisa: a polifonia e o dialogismo. Uma contribuição de Bakhtin, à luz de Dostoievski, seria dar a cada sujeito da pesquisa a parte que lhe é devida, deixando que a escrita apresente as muitas vozes do discurso, cada uma com o seu ponto de vista. As bases do romance polifônico permitem reflexões acerca da metodologia da pesquisa, ou seja, a forma de trabalhar e escrever a pesquisa, pois toca de modo significativo os princípios de inteligibilidade dos textos. Instiga o leitor acerca da condição do outro não como um escravo mudo, não sobrepondo nossas palavras às palavras dos sujeitos autores de textos/discursos, mas fazendo com que as palavras desses sujeitos ganhem autonomia em nossa voz. Está posto o desafio ao pesquisador de tornar essa escrita, que é uma representação de uma realidade, em um discurso válido e não um discurso conclusivo à revelia. Portanto escrever à maneira polifônica requer pensar nessa escrita como um grande diálogo que ao autor não reserva a última palavra, mas faz ecoar a sua voz com as vozes dos sujeitos sobre quem se escreve, em um verdadeiro inacabamento.

Palavras-chave: Linguagem. História. Polifonia.


Introdução

A única forma adequada de expressão verbal da

autêntica vida do homem é o diálogo inconcluso. A

vida é dialógica por natureza.

(MIKHAIL BAKHTIN)

Este artigo pretende estabelecer diálogos iniciais entre dois conceitos presentes na obra de Bakhtin, discurso polifônico e discurso monológico, e as implicações teórico-metodológicas para a pesquisa nas ciências humanas. Nesse sentido, pretendemos focalizar a atividade de pesquisas voltada para uma perspectiva bakhtiniana da linguagem, uma vez que o referencial teórico baseado nesse autor nos permite uma prática de pesquisa nas ciências humanas em que a figura do objeto da pesquisa é substituída por sujeitos sociais e históricos, logo, seres dialógicos.

Para isso, dentre as publicações de Bakhtin, nos deter-nos-emos na obra, Problema da poética de Dostoievski, na qual encontramos uma boa parcela de suas categorias, em especial, o conceito de “polifonia”, o qual configura uma das principais marcas do pensamento bakhtiniano. Nessa obra, o “Problema da polifonia aparece como centro de análise. A partir daí, vai anotando que a consciência do outro não se insere na moldura da consciência do autor, mas que permite a ele entrar em relações dialógicas”( BRAIT, 2009, p. 51, grifo do autor). Diante de tais considerações, acreditamos, portanto, que, por meio dessa obra possamos discutir sobre o que poderíamos chamar de a marca do trabalho de Bakhtin, que é a discussão sobre a natureza da linguagem, a qual nos permite refletir sobre os modos de pensar, trabalhar e escrever a pesquisa.

A partir das considerações acima, traçaremos um trajeto reflexivo neste artigo, no qual abordaremos o discurso polifônico e monofônico e o estudo das relações dialógicas entre os enunciados, o qual Bakhtin denomina de metalinguística. Na segunda parte do artigo, discorreremos acerca das implicações da perspectiva bakhtiniana da linguagem para a pesquisa histórica e, por fim, teceremos as considerações finais.


O romance polifônico refletido na obra de Dostoiévski e a pesquisa histórica
A obra Problema da poética de Dostoievski foi escrita durante a década de 1920 e recebeu sua primeira edição em 1929. Depois foi reescrita e publicada em 1963, constituindo, de acordo Clark e Holquist (2004), um fator decisivo na moldagem do pensamento de Bakhtin. Nessa obra, Bakhtin defende a tese de que Dostoievski conseguiu criar uma nova estética do romance, ou seja, o romance polifônico.

Para chegar a essa tese, Bakhtin estabeleceu diálogo com outros autores da época, como Askóldov, Leonid Grossman, Otto Kaus, V. Komaróvitch, B. M. Engelgardt, Lunatcharski, dentre outros, fazendo uma revisão dos estudos a que eles se dedicaram, ao analisar a obra de Dostoievski. Nesse diálogo, Bakhtin destacou como a obra de Dostoievski era teorizada por esses autores, por exemplo, Vyatcheslav Ivánov, que definiu o romance de Dostoievski como “romance tragédia”. No entanto, para Bakhtin, essa definição é uma tentativa de “[...] reduzir uma nova forma artística à já conhecida vontade artística” (BAKHTIN, 2005, p.10).

A obra, Problema da Poética de Dostoievski, em sua segunda edição, de 1963, é apresentada por Clark e Holquist (2004) como a versão mais completa. Ela se ocupa de procedimentos formais que possibilitam a “[...] Dostoievski levar cada uma de suas personagens a falar em voz própria com mínimo de parte dele como autor, cujo efeito é criar um novo gênero” (CLARK E HOLQUIST, 2004, p. 259). Esse novo gênero, inaugurado por Dostoievski, é denominado por Bakhtin de ”romance polifônico”, “[...] porque apresenta muitos pontos de vista, muitas vozes, cada qual recebendo do narrador o que lhe é devido” (p. 259).

Com base na tese do romance polifônico, Bakhtin constrói um lugar comum a todos, quando afirma que o conflito entre ideias encarnadas é o lugar que o romancista escolhe para constituir suas novelas. Assim, a polifonia da crítica é também a polifonia de Dostoievski, e Bakhtin a destaca como diferente de todos os seus romances e caso único na literatura universal, uma vez que “Dostoiévski não cria escravos mudos (como Zeus) mas pessoas livres, capazes de colocar-se lado a lado com seu criador, de discordar dele e até rebelar-se contra ele” (BAKHTIN, 2005, p. 4).

Nessa direção, Clarx e Holquist (2004) assinalam que Bakhtin foi o primeiro crítico a perceber o emprego da polifonia na obra de Dostoievski por ser o único intérprete armado de uma teoria do discurso plenamente elaborada. De acordo com esse autor, essas vozes comportam múltiplas consciências e, apesar de serem plenivalentes, elas são também equipolentes, ou seja, todas são “plenas de valor” na relação dialógica com as outras vozes do discurso, e quem participa do diálogo não é o indivíduo objetivado, mas, sim, as vozes e as consciências, cercadas de autonomia.

Além disso, consideramos fundamental destacar que a reescrita e publicação do trabalho sobre Dostoiévski, na década de 60, revela o enfoque de Bakhtin, no que se refere ao método utilizado por ele em seus estudos, denominado método dialógico do discurso. A esse respeito diz o autor:


[...] a orientação da palavra entre palavras, as diferentes sensações da palavra do outro e os diversos meios de reagir diante dela são provavelmente os problemas mais candentes do estudo metalingüístico de toda palavra, inclusive da palavra artisticamente empregada (BAKHTIN, 2005, p. 203).
No que diz respeito à implicação desse método para o campo de pesquisa em ciências humanas e do homem, Bakhtin desenvolveu uma visão inovadora que passa, necessariamente, pela comunicação e pelo diálogo, pois, segundo esse autor, não podemos contemplar, analisar e definir as consciências alheias como objetos, como coisas, visto que a única forma possível de nos comunicarmos é dialogicamente. “Pensar nelas implica em conversar com elas, pois do contrário elas voltariam imediatamente para nós o seu aspecto objetificado: elas calam, fecham-se imobilizam-se nas imagens objetificadas acabadas” (BAKHTIN, 2005, p. 68). Esse pensador apresenta olhares diversos sobre o homem e categoriza a linguagem como lugar da interação, da polifonia e da verdade.

Nessa direção, procuramos nos consubstanciar no discurso polifônico de Bakhtin, no sentido de dialogar com a pesquisa de natureza histórica, visto que ela insere em seu texto a coexistência de inúmeros narradores, narrativas, formas de narração e temas que, no decorrer da enunciação, configuram uma “heterogeneidade discursiva”. Essa expressão foi criada por Bakhtin (2005) em seus trabalhos sobre literatura, como destaque, nos romances de Dostoievski, entendida como várias “vozes” que se exprimem sem que nenhuma seja dominante. E é essa pluralidade de vozes que configura o texto que nos convida a uma reflexão pautada em duas teorias fundamentais da obra de Bakhtin: polifonia e dialogismo. Nessa perspectiva, abordaremos, a seguir, neste artigo, o modo como Bakhtin trata o discurso polifônico e homofônico no romance e de que forma ele desvenda a visão artística de Dostoievski no que se refere “[...] a multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes [...]” (BABKHTIN, 2005, p. 4).

Dostoiévski, por meio de seus romances polifônicos, dá uma grande lição de postura ética e de cautela ao pesquisador, evidenciando a atitude que ele deve adotar diante dos fatos pesquisados. A exemplo, esse autor jamais emitiu julgamentos definitivos, antes, porém, dá razão a todos e a ninguém ao mesmo tempo e isso caracteriza a liberdade de “dizer” de todos os sujeitos. Em seu romance, não há preocupação com a resolução e com a síntese, visto que as consciências não sempre inacabadas e eternamente dialógicas. Segundo Bakhtin, se não houvesse inconclusibilidade, também não haveria consciências.

O caráter polifônico e homofônico do discurso


A teoria bakhtiniana evidencia o romance como espaço de diversidade social de linguagem, no qual revela o entrecruzamento das situações linguísticas distintas e desconstrói o estatuto de um sistema acabado, único, supostamente verdadeiro e monológico. Nessa direção, Bakhtin revela sua preferência pelo diálogo, em detrimento a um discurso monológico restrito e a um discurso codificado, autoritário e conservador. Mesmo esse autor reconhecendo que o monologismo é uma das visões de mundo mais difundida, ele reconhece que passar de uma “[...] concepção monológica do mundo para outra de caráter dialógico é dar um passo quase tão grande quanto o da cosmovisão geocêntrica para a copernicana” (CLARX; HOLQUIST, 2004, p. 263).

Por isso, reconhecendo o grande desafio que se impõe em face à superação do discurso monológico, Bakhtin propõe o romance, não como um gênero comum, mas como um gênero que se caracteriza pela consciência do dialogismo, que se configura no jogo de vozes simultâneas em um mesmo enunciado concreto e, dessa forma, constitui-se o modo de existência da linguagem. Esse autor, a fim de ultrapassar a dicotomia positivista/idealista que ancorava os estudos linguísticos de sua época, mostra que a linguagem não se reduz a uma forma e nem ao indivíduo, mas ela se constitui na relação entre as pessoas em uma realidade viva, em uma ação histórica compartilhada socialmente. Para isso, é necessário que ela se realiza em um tempo e local determinados, considerando que essa realidade concreta em que se materializa o diálogo é mutável, pois os seus contextos também variam no tempo e no espaço social, possibilitando, assim, as materializações das ideologias advindas da realidade fundamental da língua, que é a interação verbal. Dessa forma, “[...] a linguagem só vive na comunicação dialógica daqueles que a usam” (BAKHTIN, 2005, p.183).

Nessa perspectiva, enquanto o dialogismo é o princípio dialógico constitutivo da linguagem, a polifonia se caracteriza por vozes polêmicas em um discurso. Segundo Bakhtin, Dostoiévski criou o romance polifônico, cuja marca está nas vozes que ressoam, sem se sujeitarem a um narrador centralizante, pois elas se relacionam em uma mesma situação de igualdade. Esse novo gênero literário, o romance polifônico, caracteriza-se pela falta de acabamento e de solução do herói, uma vez que a posição do autor, em relação ao herói, é sempre garantindo, em todo o seu percurso, autonomia e liberdade interna. Essa autonomia gera tensão, pois, sua finalidade é [...] colocar o homem em diferentes situações que o revelem e provoquem, juntar personagens e levá-las a chocar-se entre si, mas de tal forma que não permaneçam no âmbito desse contato no interior do enredo e ultrapassem os seus limites” (BAKHTIN, 2003, p. 196). Esse “não acabamento” do texto é que possibilitará ao leitor maior produção de sentidos, garantindo a continuidade de contorno de novos diálogos, o que denominamos de polifonia. Dessa forma, a polifonia é o elemento garantidor das diversidades de vozes capazes de produzir diferentes efeitos de sentidos.

De acordo com Bezerra (2005), o estudo da prosa romanesca levou Bakhtin à formulação de uma tipologia universal do romance: o monológico e o polifônico. Segundo esse mesmo autor, “[...] à categoria de monológico estão associados os conceitos de monologismo, autoritarismo, acabamento: à categoria de polifônico, os conceitos de realidade em formação, inconclusibilidade, não acabamento, dialogismo, polifonia” (BEZERRA, 2005, p. 191). Neste, o diálogo é orientado em variadas perspectivas e campos do conhecimento, ou seja, quando se trata da epistemologia, o diálogo é visto como compreensão; na filosofia da linguagem, ele funciona como formador de consciência, assumindo o seu lugar social e ideológico; no âmbito do romance, ele se estabelece em nível de construção estética, já que reflete o cruzamento polifônico de vozes. Neste caso, o que é caro a Dostoiévski é a própria disposição das vozes e a possibilidade de diálogo que se estabelece entre elas, pois para ele todos os tipos de diálogo compreendem o mesmo princípio de construção, visto que “[...] em toda parte há certa interseção, consonância ou intermitência de réplicas do diálogo aberto com réplicas do diálogo interior das personagens” (BAKHTIN, 2003, p.199). Contudo, é importante destacar que o objeto das intenções do autor é a explicitação do movimento ideológico dessas vozes, sempre numa perspectiva dialógica e não dialética, pois, diferentemente da dialética, não demonstra nenhuma preocupação com a síntese, mas com o acontecimento advindo desse permanente diálogo.

Dostoiévski, ao adotar a polifonia como centro, descobre que só o indivíduo é um ser inacabado e nisso reside toda a sua diferença daquilo que não é indivíduo. Além disso, ele descobre também que a ideia se revela no plano do acontecimento humano e que a interação entre as consciências isônomas e equivalentes é promovida pelo poder imanente do diálogo. Dessa forma, Dostoiévski descobre o indivíduo que está sempre no limiar, na fronteira, em permanente processo de interação com o outro, permitindo-se atravessar e ser atravessado, constituindo-se como sujeito por meio da dialogicidade. Para esse sujeito se constituir como tal, por meio da e na relação dialógica das inúmeras consciências, é fundamental a perspectiva da alteridade do discurso, pois “[...] o homem não tem um território interior soberano, está todo o sempre na fronteira, olhando para dentro de si ele olha o outro nos olhos e com os olhos do outro” (BAKHTIN, 2003, p. 341).

De acordo com esse autor, o homem não consegue ver, nem assimilar a sua própria imagem externa, nem, inclusive, através de um espelho ou mesmo de uma foto, visto que a sua imagem externa só pode ser vista e entendida verdadeiramente pelos óculos alheios, ou seja, é impossível eu me tornar eu sem a ajuda do outro. Assim, a “[...] inconclusibilidade e o não acabamento decorrem da condição do romance como um gênero em formação, sujeito a novas mudanças, cujas personagens são sempre representadas em um processo de evolução que nunca se conclui” (BEZERRA, 2005, p. 191).

Trazendo o conceito do não acabamento para a pesquisa de natureza histórica, tomamos uma postura ética de ver as narrativas como resultado de uma atitude reflexiva e crítica, que coloca em questionamento o absolutismo de uma língua una e soberana que se postula como a voz que representa a realidade viva da humanidade, da multiplicidade de estilos e vozes, no qual comparecem, simultaneamente, o eu e o outro. Assim, ao questionar o absolutismo de uma única língua, cria-se um novo contexto que se abre ao estabelecimento do diálogo, pois o discurso do outro é a voz que deve ser pensada como outra; ela não pode ser diluída em uma única voz, ou seja, na voz do pesquisador.

Nessa perspectiva, destacaremos, a seguir, a proposta metodológica de Bakhtin para a análise do discurso no campo da linguagem, tratada como uma metalinguística. Essa metodologia tem como foco de estudo os aspectos da vida concreta do discurso que ultrapassam, legitimamente, os limites da linguística.




A metalinguística e o método dialógico
Nesta parte do artigo, apresentaremos a matalinguística, que tem por objetivo analisar o discurso que se materializa nos “[...] enunciados confrontados entre si, [que] entra em um tipo especial de relações semânticas que chamamos de dialógicas” (BAKHTIN, 2003, p. 324) e a forma como Bakhtin enfatiza o método dialógico e suas implicações nas pesquisas de perspectivas históricas.

Para Bakhtin, a lingüística e a metalinguística estudam um mesmo fenômeno concreto, muito complexo e multifacetado, que é o discurso, ou seja, a “[...] língua em sua integridade concreta e viva e não a língua como objeto específico da lingüística, obtido por meio de uma abstração absolutamente legítima e necessária de alguns aspectos da vida concreta do discurso” (BAKHTIN, 2005, p. 181), mas o estudam sob diferentes aspectos e ângulos de visão: o monológico e o dialógico. Nessa direção, a metalingüística, como estudo das relações dialógicas entre os enunciados e no seu interior, esclarece o seu campo de interesse:


Estamos interessados primordialmente nas formas concretas dos textos e nas condições concretas da vida dos textos, na sua inter-relação e interação.

As relações dialógicas entre os enunciados, que atravessam por dentro também enunciados isolados, pertencem à metalingüística. Diferem radicalmente de todas as eventuais relações lingüísticas dos elementos tanto no sistema da língua quanto em um enunciado isolado (BAKHTIN, 2003, p. 319-320).


No livro sobre Dostoiévski, intitulado Problemas da poética de Dostoiévski, último capítulo, O discurso em Dostoiévski, Bakhtin apresenta a metalinguística como um projeto que compreende a delimitação de seu objeto de estudo: “As relações dialógicas (inclusive as relações dialógicas do falante com sua própria fala) são objetos da metalinguística” (BAKHTIN, 2005, p. 182). Nessa direção, a metalinguística se interessa pelos fenômenos de diálogo que, mesmo pertencendo ao domínio da língua, não se restringem a ela, pois são de natureza extralinguística. Tudo isso evidencia, portanto, a genialidade de Dostoiévski que consistia no dom de “auscultar” os acontecimentos ao seu redor por meio das relações dialógicas das vozes de sua época (BAKHTIN, 2005).

Nessa perspectiva, nesse mesmo livro, Bakhtin (2005, p. 203) aponta um método dialógico, enfatizando que:


[...] a orientação da palavra entre palavras, as diferentes sensações da palavra do outro e os diversos meios de reagir diante dela são provavelmente os problemas mais candentes do estudo metalingüístico de toda palavra, inclusive da palavra artisticamente empregada.
Assim, o projeto de fundar a metalinguística compreende a delimitação de seu objeto de estudo, que são as relações dialógicas que se apresentam em oposição complementar com a linguística da língua, visto que, de acordo com Bakhtin, a línguística não consegue abordar a especificidade das relações dialógicas do discurso, pois
[...] as relações dialógicas são extralingüísticas. Ao mesmo tempo, porém, não podem ser separadas do campo do discurso, ou seja, da língua enquanto fenômeno integral concreto. A linguagem só vive na comunicação dialógica daqueles que a usam. É precisamente essa comunicação dialógica que constitui o verdadeiro campo da vida da linguagem (BAKHTIN, 2005, p.183).
Dessa forma, compete à linguística o estudo da língua como sistema, ou seja, o estudo das relações entre os elementos dentro do sistema da língua ou dentro do texto, ou mesmo as relações entre os textos num enfoque rigorosamente linguístico do texto; e à metalinguística, o estudo da língua como discurso, isto é, o estudo das relações entre os enunciados e a realidade, entre os enunciados e o autor e as relações dialógicas entre os enunciados. Essas relações dialógicas, que são constituintes e inseparáveis do campo do discurso, devem ser estudadas pela metalinguística, pois esta, “[...] ultrapassa os limites da lingüística, e possui objeto autônomo e metas próprias” (BAKHTIN, 2005, p. 183).

Essa autonomia impressa no discurso dialógico não se deixa moldar por uma forma da língua, como quer a linguística, e por isso a exigência de um método diferenciado de análise, configurado como método dialógico. A palavra é composta de múltiplos sentidos, no mínimo dois. Tudo pode ser considerado como meio, porém o diálogo é o fim, pois “Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência”( BAKHTIN, 2005, p. 257). De acordo com esse autor, embora haja muitos tipos de diálogo, o princípio que os constitui é o mesmo: o cruzamento, a consonância ou a dissonância de vozes. “Em toda parte um determinado conjunto de idéias, pensamentos e palavras passa por várias vozes imiscíveis, soando em cada uma de modo diferente” ( p.271).

Assim, como Bakhtin, consideramos que as relações dialógicas devem ser encaradas, nas pesquisas históricas, como pertencentes às nossas práticas cotidianas, pois é na prática cotidiana que os nossos ouvidos se tornam sensíveis às sutilezas e nuances nos enunciados concretos que nos rodeiam, visto que
Percebemos de modo muito sensível o mais ínfimo deslocamento da entonação, a mais leve descontinuidade de vozes no discurso cotidiano do outro, essencial para nós. Todas essas precauções verbais, ressalvas, evasivas, insinuações e ataques são registrados pelos nossos ouvidos e são familiares aos nossos próprios lábios. Daí ser ainda mais impressionante que até hoje não se tenha chegado a uma precisa interpretação teórica e a uma avaliação adequada de todas essas ocorrências (BAKHTIN, 2005, p. 202).
Diante do exposto, concluímos que as relações dialógicas manifestam-se na pesquisa, entre os enunciados e no seu interior, e todos os aspectos constitutivos do enunciado são de natureza dialógica. Nesse sentido, os limites de suas fronteiras se definem pela alternância de sujeitos falantes e responsivos.


Contribuições para a pesquisa
Na primeira parte do trabalho, focalizamos o modo como Bakhtin defende a ideia de que Dostoievski conseguiu criar uma nova estética do romance, em que a multiplicidade de consciências equipolentes das personagens é independente, plenivalente e autônoma. Iniciaremos esta segunda parte discorrendo sobre as implicações para a pesquisa nas ciências humanas à luz das contribuições que a obra de Dostoievski nos permite fazer.

Acreditamos que uma pesquisa traz em seu texto a coexistência de inúmeros narradores, narrativas, formas de narração e temas que, no decorrer da enunciação, configuram uma “heterogeneidade discursiva”, expressão criada por Bakhtin em seus trabalhos sobre literatura, como destaque, no romance de Dostoievski em que várias “vozes” se exprimem sem que nenhuma seja dominante (BAKHTIN, 2005). Essa pluralidade de vozes que constituem as narrativas nos convida a uma reflexão pautada em duas teorias fundamentais da obra de Bakhtin: polifonia e dialogismo.

Uma primeira contribuição destacada por nós refere-se ao próprio percurso metodológico empreendido por Bakhtin na escrita de Problemas da poética de Dostoievski, no que diz respeito a revisitar trabalhos já existentes acerca da temática que o pesquisador se detém a investigar, pois, como nos sugere Amorim (2004, p.19), “[...] o objeto que está sendo tratado num texto de pesquisa é ao mesmo tempo objeto já falado, objeto a ser falado e objeto falante”. Isso traz implicações metodológicas imprescindíveis, pois, como foi destacado pela referida autora, todo objeto é um objeto já falado e, assim, é preciso revisitar, confrontar com aqueles que já disseram acerca do objeto para que se possa dizer algo original.

A partir dessas questões, acreditamos que o romance polifônico nos ajuda a compreender o papel do pesquisador com seu outro da pesquisa, pois, no romance de Dostoievski, não há uma síntese, mas uma multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis, em que a consciência do herói é dada como a outra, não se torna simples objeto da consciência do autor. Então, acreditamos que é nessa perspectiva que precisamos pensar o outro de nossa pesquisa, respeitando sua condição de ser autônomo do discurso dialogado, pois as consciências de ambos (autor e personagem) são infinitas e inconclusas.

Assim, consideramos fundamental, a título de reflexão, a citação de um poema (A lição da pintura), de João Cabral de Melo Neto, citado por Beth Brait (2004, p. 186), que ilustra a o sentido de inconclusibilidade de Bakhtin:
A lição da pintura

Quadro nenhum está acabado,

disse certo pintor;

se pode sem fim continuá-lo,

primeiro, ao além do outro quadro

que, feito a partir de tal forma,

tem na tela, oculta uma porta

que dá a um corredor

que leva a outra e a muitas outras.
Ao conduzirmos uma pesquisa constituída pelos princípios do dialogismo e da polifonia, os indivíduos, obviamente, serão considerados como sujeitos que têm vozes próprias e que se constituem permanentemente. Dessa forma, não incorreremos no erro de considerá-los objetos mudos de nossas análises.


Considerações finais
Bakhtin chama a atenção do pesquisador para seu compromisso ético com o outro de sua pesquisa e para a necessidade de um contínuo revistar aos textos, pois nenhum texto está acabado, tendo em vista que os sujeitos estão sempre situados em determinadas e diferentes condições histórico-social-culturais.

As bases do romance polifônico nos permitem reflexões acerca da metodologia da pesquisa, ou seja, a forma de trabalhar e escrever a pesquisa, pois toca de modo significativo os princípios de inteligibilidade dos textos. Instigam-nos acerca da condição do outro não como um escravo mudo, não sobrepondo nossas palavras às palavras dos sujeitos autores de textos/discursos, mas fazendo com que as palavras desses sujeitos ganhem autonomia em nossa voz. Está posto, enfim, o desafio ao pesquisador de tornar essa escrita um discurso válido de múltiplas vozes enunciadas por diferentes sujeitos e não um discurso conclusivo à revelia.

Portanto escrever à maneira polifônica requer pensar nessa escrita como um grande diálogo, no qual ao autor não se reserva a última palavra, mas procura fazer ecoar a sua voz com as vozes dos sujeitos sobre quem escreve, em um eterno inacabamento. Nessa direção, não pretendemos que a última palavra deste artigo seja nossa e por isso fianlizamos com Bakhtin (2003, p. 193-201), com a seguinte citação: “A única forma adequada de expressão verbal da autêntica vida do homem é o diálogo inconcluso. A vida é dialógica por natureza”.

Referências
AMORIM, Marília. O pesquisador e seu outro: Bakhtin nas Ciências Humanas. São Paulo. Musa Editora, 2004.

BRAIT, Beth. Linguagem e identidade: um constante trabalho de estilo. Trabalho educação e saúde. Disponívelem:. Acesso em1º de outubro de 2009.

______. Bakhtin: Dialogismo e polifonia. Betth Brait (Org.). São Paulo, Contexto, 2009.

BAKHTIN, Mikhail M. Problemas da Poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

______. Estética da criação verbal. Tradução. Maria Ermantina Galvão. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BEZERRA, P. Polifonia: In: BRAIT, Beth. (Org.). Bakhtin: Conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005.



CLARK, K. & HOLQUIST, M. Mikhail Bakhtin. Tradução de J. Ginzburg - São Paulo: Perspectiva, 2004.

1 Doutoranda em Educação, do Programa de Pós-Graduação/UFES, integrante do Núcleo de Pesquisa de Alfabetização, Leitura e Escrita (NEPALES)/UFES, pedagoga da Educação Básica da rede municipal de ensino de Vitória/ES.

2 Mestre em Educação/ UFES- Universidade Federal do Espírito Santo e integrante do Núcleo de Pesquisa de Alfabetização, Leitura e Escrita (NEPALES)/UFES.

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