Cathy williams



Baixar 0.49 Mb.
Página1/8
Encontro29.07.2016
Tamanho0.49 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8


FEITIÇO & SEDUÇÃO

The Italian Boss's Secretary Mistress

CATHY WILLIAMS



O chefe milionário...

Para Gabriel Gessi, um italiano sedutor e arrogante, Rose nunca passou de uma secretária sensata e sem graça. Mas quando ela retorna das férias com um visual de tirar o fôlego, Gabriel resolve que precisa conhecê-la melhor... e intimamente!

... e a secretária sem atrativos...

Rose sempre foi apaixonada por Gabriel, mas não alimentava esperanças de que um dia ele a visse com outros olhos. Porém, quando aceita a idéia de que terá de esquecê-lo, os dois passam a trabalhar juntos mais vezes... até mesmo em uma ilha particular no Caribe! Será Rose capaz de resistir ao feitiço de Gabriel?




Digitalização: Ana Cris

Revisão: Crysty


Rose sabia que o conhecia bem demais para fingir não entender o sentido de suas palavras. Estava lhe dizendo para ceder à luxúria e aproveitar o momento, pois nada mais viria de sua parte, ou abandonar a brincadeira enquanto ele lhe permitia.

Rose sorriu.

— Mas sempre vou botar a culpa disso no tempo — murmurou, acariciando o rosto dele.

O tempo estava tão violento que era como se a terceira guerra mundial estivesse acontecendo lá fora, mas Rose sequer tinha consciência disso. Gabriel encostou de novo os colchões e voltou-se para ela.

— Não tire as roupas. Quero despi-la eu mesmo. Tenho essa fantasia há muito tempo...
Querida leitora,

Rose está decidida a superar sua paixão por seu sexy chefe, não importa o quanto ele seja irresistível. Sua vida amorosa e profissional já está há tempo suficiente estagnada graças a sua atração infantil por ele. Afinal, um homem rico, poderoso e arrasador como Gabriel jamais repararia nela. É hora de seguir em frente! Para isso, nada melhor do que umas férias e uma mudança no visual, certo? Errado, se isso finalmente despertar a atenção dele... e seu desejo por ela...



Equipe editorial Harlequin Books
Cathy Williams

FEITIÇO & SEDUÇÃO

Tradução Gonesha Editorial

HARLEQUIN BOOKS

2008
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Título original: THE ITALIAN BOSS'S SECRETARY MISTRESS

Copyright © 2006 by Cathy Williams

Originalmente publicado em 2007 por Mills & Boon Modern Romance
Arte-final de capa: Isabelle Paiva
Editoração Eletrônica:

ABREU'S SYSTEM

Tel.: (55 XX 21) 2220-3654/2524-8037
Impressão: RR DONNELLEY

Tel.: (55 XX 11) 2148-3500



www.rrdonnelley.com.br
Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:

Fernando Chinaglia Distribuidora S/A

Rua Teodoro da Silva, 907

Grajaú, Rio de Janeiro, RJ — 20563-900


Para solicitar edições antigas, entre em contato com o

DISK BANCAS: (55 XX 21) 2195-3186

Editora HR Ltda.

Rua Argentina, 171,4° andar

São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380
Correspondência para:

Caixa Postal 8516

Rio de Janeiro, RJ — 20220-971

Aos cuidados de Virgínia Rivera



virginia.rivera@harlequinbooks.com.br
CAPÍTULO UM

Não eram ainda 7h30 e Gabriel Gessi já estava sentado em sua escrivaninha. Esta era sua rotina diária. Corria meia hora na esteira da academia, trabalhava meia hora no simulador de remo, tomava uma chuveirada rápida, fazia a barba e ia direto para o escritório, preparado para enfrentar a atribulação de um dia normal de trabalho.

Nem mesmo uma sucessão de irritações triviais, pouco comuns no cotidiano de um grande executivo como ele, prejudicara essa rotina nos três meses anteriores. Vivendo no estreito mundo dos extremamente ricos, Gabriel Gessi não tinha o hábito de lidar com as pequenas contrariedades da vida.

O primeiro contratempo viera sob a forma de uma funcionária temporária que, apesar de parecer eficiente durante a entrevista, uma semana mais tarde se revelara um trapo emocional sem cérebro, chorando a maior parte do tempo por ter problemas com o namorado.

Gabriel não tinha tempo para mulheres com problemas com o namorado, e ainda menos para as que tinham crises de choro. Fora preciso se livrar dela e, a partir daí, seguira-se um catálogo de mediocridades que fizera ranger de frustração seus dentes perfeitos. Pelo menos a última, despedida com um suspiro de alívio, durara mais de 15 dias — ele desconfiava que era porque conseguira engolir sua irritação e, com paciência louvável, tolerara nela a aborrecida tendência de se encolher quando ele falava e de se dirigir a ele com uma voz tão baixa que constantemente o fazia pedir que falasse mais alto.

Tinha sido um tormento e, por isso, Gabriel estava satisfeitíssimo ao pensar que sua vida agora ia voltar ao normal. Pela primeira vez em três longos meses, atravessara as portas de vidro fume de seu luxuoso escritório sem um ar carrancudo.

Rose ia voltar hoje. A vida retomaria o ritmo tranqüilo, permitindo-lhe gerir seu império sem ter que se preocupar com o cotidiano.

Bom, não eram ainda 8h e, por mais que achasse que Rose deveria mostrar entusiasmo por estar de volta, não podia esperar que ela viesse trabalhar ao raiar da aurora. Provavelmente ainda estaria se recuperando da diferença de fuso horário. Uma viagem de volta da Austrália era o bastante para desestabilizar um viajante experiente, o que não era o caso de Rose. Ainda que grande parte de sua firma se fundasse na indústria do lazer, compreendendo inclusive alguns hotéis exclusivos espalhados pelo mundo, sua secretária tinha um conhecimento limitado daqueles lugares longínquos.

Nos momentos de calma que antecediam a chegada dos funcionários — tempo que ele gastava em geral lendo os e-mails recebidos durante a noite —, Gabriel girou sua cadeira de couro reclinável de forma a ficar de frente para a grande janela, vislumbrando o perfil estranhamente belo da selva de concreto contra o céu claro e azul de maio.

Os três últimos meses lhe tinham mostrado o quanto dependia de Rose. Embora ela já recebesse um bom salário, estava pensando em lhe dar um aumento. Ou então ceder-lhe um carro da firma, que, se ela não quisesse usar para trabalhar, talvez utilizasse quando desejasse sair de Londres. Será que tinha carteira de motorista? Gabriel percebeu que conhecia muito pouco da vida pessoal de Rose, que sabia se esquivar diplomaticamente das perguntas indiscretas.

Envolto em seus pensamentos, nem percebeu a hora passar, e se espantou ao ver o reflexo de Rose no painel de vidro, de pé no umbral da porta que separava seu escritório do dela. Por alguns segundos, sentiu o coração bater de maneira pouco usual. Olhou para o relógio e virou a cadeira em direção a ela.

Involuntariamente, Rose respirou fundo, soltando o ar lentamente, para equilibrar os nervos. Ah, se ele imaginasse o estranho poder desestabilizador que exercia sobre ela com aquele físico dominador. Os três meses passados fora intensificaram esse efeito a ponto de ela se sentir desfalecer, ainda que seu rosto, como sempre, não o demonstrasse.

— São 9h — censurou Gabriel. — Você costuma chegar às 8h30.

O tom brusco fez com que se dirigisse até uma cadeira em frente à mesa dele e se sentasse.

— Você não mudou nada, Gabriel — comentou secamente. — Sempre ignorando as regras de polidez. Não vai perguntar como foi minha viagem à Austrália?

— Não é necessário. Seus e-mails mostraram que você se divertiu muito. Você está diferente, emagreceu.

Rose ruborizou-se, enquanto os olhos azuis de Gabriel a percorriam de alto a baixo. Procurou se lembrar do que sua irmã dizia sobre quebrar essa rotina e abandonar essa paixão sem esperança por um homem que era um pedaço de mau caminho. Mas ele era tão pecaminosamente sexy... Impossível não sentir os dedos do pé se contraírem ao observar a curva sensual da boca, a beleza das feições, a perfeição daquele corpo.

— É verdade — admitiu ela, alisando nervosamente com os dedos a carta em seu colo. — Fazia muito calor lá, eu só comia saladas. Lamento que tivesse tido problemas com minhas substitutas — disse, perturbada, mudando de assunto. — Honestamente pensei que Claire fosse dar conta do recado. Qual foi exatamente o problema?

Gabriel não sabia muito bem o que pensar sobre sua transformação. Fora-se a roliça Rose, vista pela última vez num prático costume azul-marinho, com uma blusa branca de gola alta. Em seu lugar havia uma Rose extremamente esbelta, exibindo uma imagem atraente, com uma saia xadrez marrom e preta, que revelava uma parte das coxas, e uma longa camiseta colante preta que mostrava os seios fartos. A única coisa sensata que restava eram os sapatos baixos.

— Nunca sequer percebi que você tinha pernas antes — pensou em voz alta.

— E como eu iria de um lugar para o outro sem elas? Voando? — perguntou.

— Mas você sempre as escondeu... — Ele se sentou no braço da cadeira, avaliando-a com os olhos.

— Elas são bastante atraentes... Mas seria bom observar um pouco mais de decoro no lugar de trabalho.

— Rose ficou boquiaberta diante daquela observação sexista. — E o que fez com os cabelos? Parecem diferentes.

— Só os cortei um pouco... Será que podemos deixar esse assunto de lado agora...? — Ela brincou com a carta, sem saber muito bem como a entregaria.

— Por quê? Estou fascinado com a transformação. Pensei que fosse ajudar sua irmã com o novo bebê, não tinha idéia de que ia voltar inteiramente mudada.

— Mas fui mesmo ajudar Grace!

— E no processo, decidiu seguir uma dieta draconiana, cortar os cabelos e passar o dia inteiro de biquíni para se bronzear...?

Rose contou até dez. Que homem mais arrogante!

— Você já conviveu alguma vez com um bebê recém-nascido, Gabriel?

— Eis uma coisa que sempre procurei evitar.

— Foi o que pensei. Porque se tivesse, saberia que bebês que choram e bronzeados à beira de piscinas são coisas incompatíveis.

— Com certeza sua irmã não esperava que você tomasse conta dessa coisa o tempo inteiro!

— Não era uma coisa, era um lindo garotinho chamado Ben. — Sua voz se suavizou ao relembrar aquela coisinha fofa agitando-se em seus braços. Grace, dois anos mais velha do que ela, estava incrivelmente feliz. Perto dela, Rose sentira que sua vida era triste, cheia de limitações. Mais dois anos e faria 28, a idade da irmã, mas será que estaria embalando um bebê recém-nascido ao lado de um marido amoroso se continuasse a fazer o que sempre fizera, trabalhar para um homem que nem desconfiava que ela existia fora de seu papel de secretária eficiente? Ou se tornaria uma mulher de carreira, que passaria a vida reformando a casa e melhorando seu estilo de vida, sem nada que valesse a pena para mostrar no fim? Sua voz acusou uma certa nostalgia quando começou a falar da vida na Austrália. Tom, o marido de Grace, era cirurgião ortopedista e precisava repousar bem à noite para poder operar com segurança no dia seguinte. Rose ajudara muito, assumindo boa parte das noites em claro e pondo o bebê para dormir depois de mamar, mas tinha adorado cada minuto.

Gabriel ouvia de maneira distraída o discurso sobre o bebê. Um dia acabaria tendo um. Afinal, era meio italiano... mas por enquanto não dava a mínima para isso.

Para não parecer pateticamente libidinoso, Gabriel tentou prestar atenção no que ela dizia sobre o bebê. Nunca a tinha visto antes com aquele olhar tão doce e, de repente, franziu a testa.

— Espero que essa viagem não tenha posto idéias malucas em sua cabeça — disse, interrompendo-a no meio de uma frase. Rose piscou os olhos.

— Como?


— Viagem? Idéias? Cabeça?

— Não sei do que está falando — disse Rose secamente.

— Acho que minha secretária perfeita decidiu de repente que já é tempo de mergulhar na maternidade. Sei bem que essa coisa de bebês pode se tornar contagiosa.

— Ora, francamente, Gabriel... — disse Rose, sentindo uma raiva surda percorrer-lhe o corpo. — E como é que você poderia saber isso?

— Tenho um irmão e duas irmãs, e ambas têm filhos mais ou menos da mesma idade. Sei de boa fonte que outras mulheres se sentem afetadas por sentimentos maternais assim que se aproximam de um recém-nascido.

Rose olhou para aquele rosto perigosamente sexy e não se surpreendeu com seu tom indiferente quando se referia a bebês e à paternidade. Para aquele tipo de homem criar família era uma noção bastante longínqua.

— Não pretendo vivenciar a maternidade imediatamente — disse Rose friamente. — Para que uma mulher se decida a dar esse passo, tem que ter um parceiro sério.

Essa única frase deu a Gabriel uma percepção mais profunda de Rose do que jamais lhe fora possível ter. Sempre pensara que não havia nenhum homem em cena, mas apenas porque, ao contrário da maioria das mulheres, ela nunca o mencionara. A confirmação o deixou satisfeito.

— Não há nenhum homem em sua vida nesse momento? — pressionou-a, apesar de sua relutância.

Rose teve vontade de chutar as próprias canelas por ter aberto tal brecha em suas defesas. Sempre mantivera a relação deles num nível estritamente profissional, sem nunca revelar nada de pessoal. Instintivamente percebera que, quanto mais Gabriel soubesse sobre ela, mais perigosa se tornaria sua tonta paixão por ele.

Claro que isso não tinha mais nenhuma importância... Ela sorriu de maneira descontraída.

— Eles vão e vêm — respondeu. — Sabe como é. Neste momento, estou entre dois caras. — A mentirinha inocente valera a pena, só para ver a estupefação em seus olhos. Ela sorriu modestamente. — De - qualquer maneira... — manuseou nervosamente a carta — agora que lhe contei tudo sobre minha viagem à Austrália, preciso lhe entregar uma coisa... — Deu dois passos à frente e colocou o envelope branco sobre a mesa dele.

Ficou repentinamente nervosa, mas se lembrou a tempo de que estava fazendo o que devia. Tinha discutido o assunto exaustivamente com Grace, e o simples fato de ter conseguido expor seus pensamentos fez com que se desse conta de que precisava escapar da rede poderosa que Gabriel tecera ao seu redor durante todos aqueles anos, a ponto de estar sempre em sua cabeça, em qualquer lugar e a qualquer hora do dia ou da noite. Em mais quatro anos, suas emoções estariam tão atadas a ele que não poderia mais escolher um parceiro sem fazer comparações desfavoráveis.

Olhou para a carta desconfiado, mas acabou abrindo-a e percorreu por várias vezes o conteúdo, obviamente achando que tinha lido mal alguma coisa. Finalmente, quando os nervos dela estavam a ponto de ceder, ele disse com voz muito suave.

— O que está acontecendo aqui, Rose? — Seus olhos de um azul profundo refletiam choque e incredulidade, e Rose, automaticamente, sentiu que sua vivacidade normal a abandonara diante dessa energia concentrada.

— É minha carta... de... demissão...

— Sei muito bem o que é isso! Sou perfeitamente capaz de ler sozinho! O que não entendo é por que se encontra em minhas mãos!

O dia prazeroso que. antecipara desde que acordara, pensando com satisfação que sua vida ia retornar ao normal, parecia agora coisa do passado.

Chegara muito mais tarde do que de hábito, com uma nova aparência que teria virado a cabeça de qualquer homem. Como se isso não fosse suficiente, tinha jogado uma carta de demissão sobre sua mesa, parecendo não estar dando nenhuma importância a isso.

Gabriel, além da raiva e perturbação, foi dominado por um sentimento de amarga traição.

— Acho apenas...

Quero dizer, nenhum aviso prévio! — disse ele, interrompendo-a brutalmente, sacudindo o pedaço de papel de maneira acusatória. — Você entra aqui sabe Deus a que horas...

— Às 8h45! — objetou Rose. — Quinze minutos antes da hora em que, tecnicamente, devo começar a trabalhar!

Gabriel ignorou sua intervenção.

— E, de repente, vem me dizer que está me abandonando!

— Não estou abandonando você — disse Rose, limpando a garganta e tentando ser forte o bastante para encará-lo. — Você está sendo melodramático...

Não ouse me acusar de melodramático! — esbravejou Gabriel, que se pôs de pé, mãos espalmadas sobre a mesa, cada músculo de seu corpo retesado em ameaça. Sua demissão o chocara tanto quanto se tivesse entrado no escritório e se deparado com um buraco negro em seu lugar.

— Deixei que você fosse para a Austrália — trovejou ele — apesar dos enormes inconvenientes que isso me causaria...

Embora não querendo agitar bandeiras vermelhas diante de um touro já irritado, Rose não pretendia deixar que Gabriel prosseguisse com a insinuação de que ela caído se fora durante três meses, deixando-o numa posição vulnerável. Ela podia contar nos dedos de uma das mãos as vezes em que não estivera disponível para ele. Tinha trabalhado até tarde mais vezes do que conseguiria se lembrar, tinha jantado em sua sala várias vezes depois que o pessoal do escritório já fora embora, tinha cancelado em cima da hora compromissos com seus amigos para não deixá-lo na mão.

— Consegui uma boa substituta para você durante minha ausência — refutou tranqüilamente.

— Você deixou que um trapo emocional tomasse conta do escritório! Uma mulher que ficou o tempo todo à beira de uma crise de nervos! Não é essa minha idéia de uma boa substituta!

— E as outras? — retrucou Rose, já mantendo! a paciência com dificuldade.

— Todas umas inúteis. Não posso imaginar o que aquela agência tinha na cabeça quando as colocou no catálogo.

Suas tentativas de acalmá-lo só pioraram as coisas, fazendo com que ele pulasse da cadeira, desse a volta em torno da mesa e fosse até onde ela estava sentada, acuada contra o couro da cadeira, punhos contraídos no colo.

Rose sempre soubera que a carta de demissão não encontraria acolhida favorável. Era muito competente profissionalmente e, com o passar dos anos, Gabriel se acostumara com ela. Trabalhavam juntos em perfeita harmonia, por vezes sem necessidade sequer de se comunicar verbalmente para compreender o que o outro queria dizer. Diferentemente das outras secretárias que Gabriel tivera no passado, Rose nunca sentira medo dele. Presenciara seus acessos de raiva quando um empregado cometia alguma falta no trabalho por incompetência, mas sempre conseguira neutralizá-los, em geral, ignorando-os.

Sabia que sua imperturbabilidade significava muito para ele, e que não gostaria da enorme mudança de rotina que sua demissão acarretaria.

— Estou esperando!

— Não darei nem mais uma palavra, Gabriel, a menos que você... deixe de se inclinar sobre mim. Você está fazendo me sentir ameaçada... — Ele se afastou dela, correndo os dedos pelos espessos cabelos negros, em frustração. Rose sentiu sua respiração voltar instantaneamente ao normal. — Você intimida as pessoas, Gabriel. Provavelmente intimidou cada uma dessas substitutas.

— Eu?! Eu intimido as pessoas? — Ele voltou à posição anterior, empoleirado em sua mesa, podendo, portanto, olhá-la de cima. — Talvez ocasionalmente

— admitiu, relutante. — Mas você sabe que uma certa intimidação faz parte das ferramentas úteis no mundo dos negócios. É por isso que está indo embora? Por que simplesmente não gosta de trabalhar para mim?

— Gabriel franziu o cenho, tentando entender o que lhe parecia incompreensível. Antes de partir para a Austrália, ela parecia bastante satisfeita com seu trabalho. E agora aí estava ela ansiosa, de repente, por partir para gramados mais verdes.

Não que eles existissem. Sua situação trabalhista era excelente no escritório de Gabriel. Dificilmente outra companhia em Londres, talvez mesmo em toda a Inglaterra, poderia igualar seu salário.

Perguntou-se o que a irmã dela teria dito sobre seu trabalho em Londres. Enfurnada no interior australiano, ela provavelmente estimulara Rose a assumir uma situação idêntica à sua, talvez no sentido de abandonar o frenético ritmo urbano em prol de um lugar um pouco mais tranqüilo.

— Essa sua irmã tentou persuadi-la de que deixar Londres é uma boa idéia...? — Ele franziu as sobrancelhas enquanto as peças do quebra-cabeça se reajustavam em sua mente. — Não me diga que está pensando em se mudar para a Austrália! — Um choque misturado com alguma coisa indefinível cruzou o peito de Gabriel. — Apenas porque sua única parenta viva mora lá! E se ela decidir ir para outro lugar? E se o marido dela for transferido para algum lugar ainda mais improvável? Você arrancaria de novo suas raízes para segui-los? — Bufou com uma risada de descrença.

— Se sou tão estúpida assim, por que você se incomoda tanto com minha demissão?

Gabriel começou a andar pela sala, olhando-a com desaprovação acusatória.

— Você sabe que valorizo o que faz para mim. Não preciso reafirmar isso. Você está pensando em ir para a Austrália?

Tentou imaginá-la fazendo a vida no interior australiano, no meio do nada. Baixando os olhos azuis, observou a imagem esbelta à sua frente, a pele bronzeada e saudável dos três meses passados ao sol, os cabelos castanhos com luzes acobreadas, caindo num suave corte sobre os ombros. Qualquer rancheiro neandertalense do interior ficaria extremamente feliz em brincar de homem das cavernas com ela...

— Não — informou-lhe Rose, demonstrando cansaço. — Não estou pensando em me mudar para a Austrália e sei que você dá valor ao que faço aqui.

— Então por quê? — Ele lançou um olhar rápido e crítico à carta que jazia sobre a mesa. — Um parágrafo polido é tudo o que mereço depois de ter sido um patrão generoso e exemplar para você durante quatro anos?

— Nunca pensei que gostasse de discursos floreados. E de toda maneira, não havia mais nada a dizer. Estou partindo porque penso realmente que tenho outras coisas a fazer no mundo e é impossível realizá-las enquanto ainda estiver trabalhando aqui. — Gabriel franziu a testa. — Eu... sim...

— Que coisas?

— Na verdade, um curso de administração de empresas. — Entre outras coisas, pensou ela, como ter uma vida pessoal, encontrar um companheiro adequado, me estabelecer, ter uma família, fazer todas as coisas que a maioria das mulheres sonha em fazer desde a mais tenra idade.

— Você quer fazer um curso de administração de empresas? — Ele fazia isso soar como se ela tivesse revelado um desejo secreto de voar até a lua.

— Quero sim! — Rose levantou o queixo num movimento defensivo. — Saí de casa aos 18 anos — atalhou ela, revelando ainda um pouco mais da vida que antes mantivera cuidadosamente encoberta — para cuidar de minha mãe e, quando ela morreu, fiz um curso de secretariado, assumi uma série de empregos temporários até poder reunir fundos suficientes para seguir um curso realmente bom e intensivo... Se você bem se lembra, eu vim trabalhar para você como temporária... e acabei ficando aqui em caráter permanente.

— Mas você nunca disse... — murmurou Gabriel. Então sua fria, calma e razoável secretária tinha fogo nas veias. Claro que suspeitara disso desde o início. — O que fazia sua irmã enquanto você cuidava de sua mãe? — perguntou-lhe com curiosidade.

Rose contemplou seu rosto diabolicamente atraente e, após alguns instantes de silêncio pesado, tenso, ela deu de ombros e desviou os olhos.

— Grace estava na universidade, foi lá que ela encontrou Tome que tudo se tornou... muito atribulado para ela. Daí... De qualquer forma, isso é uma das coisas que desejo fazer...

— E você se informou sobre esses cursos de administração?

— Bem...


— Não adianta perder tempo fazendo um curso só para descobrir que ele a qualifica para voltar para cá...

— Obrigada pela informação, Gabriel. Procurarei examinar com cuidado o tipo de curso em que vou me inscrever.

Ele a examinava pensativamente, de um jeito que a fez esperar alguma observação da qual sabia que não iria gostar.

— Sem dúvida trabalharei durante o período de aviso prévio — disse ela durante o longo silêncio, sem obter resposta. Ela continuou, se perguntando se aquela tática silenciosa era destinada a fazê-la se sentir culpada. Gabriel não hesitaria em usar todos os truques do manual para conseguir que ela ficasse, se tal fosse seu objetivo, especialmente agora que, depois de três meses com funcionárias temporárias insatisfatórias, tinha um padrão com o qual compará-la. — Pretendo apenas tirar uns dois meses de férias depois que sair daqui, curtir o verão... talvez visitar algum país no exterior... e então fazer o curso que começará em setembro...

— E nunca lhe ocorreu que poderíamos discutir isso...? E talvez chegar a uma conclusão satisfatória para ambos...?

— Não, na verdade. Quero dizer...

— Por que não? Porque, no fundo, você tem um problema em trabalhar para mim?

— Claro que não! — A última coisa que queria era deixar o ego de Gabriel massageado pela impressão de que exercia algum efeito sobre ela.

— Então por que não veio discutir seu dilema comigo?

— Só pensei realmente nisso quando estava na Austrália — admitiu Rose. — Lá, tive tempo para refletir e perceber que precisava fazer umas mudanças, se quisesse progredir profissionalmente.

Lutando com a perspectiva de enfrentar uma sucessão de secretárias incompetentes, ele tornou a maldizer mentalmente a tal irmã, que introduzira a discórdia em sua vida profissional anteriormente tão simples.

— E estou de acordo com você — disse ele de repente.

— Está?

— Claro que estou. — Ele se recostou, cruzando os dedos atrás da cabeça, e examinou-a. —Você é jovem, inteligente... — Ele deu tempo para que o cumprimento fosse absorvido. — É normal que deseje algo mais do que receber ordens de mim. Não — sentiu-se obrigado a explicar — que eu não lhe tenha dado uma boa parcela de transferir ligações. Considerando que seus deveres originais eram arquivar, datilografar e desviar telefonemas, você percorreu um longo caminho. Mas isto é secundário.



Rose tentou compreender essa espantosa reviravolta. Gabriel era sempre muito imprevisível. Ela apenas não tinha previsto essa reação ao seu pedido de demissão. Então ele acabara aceitando. Por que sentir-se desapontada com um resultado que ela sabia ser perfeitamente inevitável?

— Posso entender seu desejo de ir mais longe... Afinal de contas, eu também passei por isso, tentei subir na vida...

— Não pretendo atingir alturas astronômicas...

— Já lhe contei que meus pais partiram do nada? Que o negócio de meu pai começou como um incipiente comércio de roupas? Ele só tinha dinheiro bastante para nos criar sem maiores dificuldades, mas não o suficiente para que não percebêssemos, desde muito jovens, a importância da educação e de extrair o máximo de nossos talentos...

— Não se preocupe, Gabriel, em dois anos ainda não terei nível para competir com você!

Seus olhos se encontraram num perfeito entendimento quando ele apreciou a gentil e provocadora ironia dessa observação. Ele a conhecia melhor do que ninguém e certamente compreendia seu senso de humor informal mais rapidamente do que os outros, até mesmo Grace.

— Se você tivesse me dito isso antes, eu teria financiado seu curso com muito prazer.

— Como disse?

— Teria liberado você durante dois dias na semana. Você conservaria o salário com o qual está acostumada, desde que treinasse alguém para substituí-la quando estivesse ausente. E quando seu curso acabasse, eu poderia lhe garantir uma posição de júnior nas mais altas esferas. Eu estava mesmo pensando em recompensar seus esforços com um carro da firma porque...

— Não sei se...

— Então voltamos à tal razão invisível de sua demissão; já que não tem nada a ver com os benefícios que tenho a lhe oferecer, deve ter algo a ver comigo pessoalmente...

— Claro que não! Já lhe disse, não é isso.

— Então, Rose, por que não tentar? — Gabriel pôs os cotovelos sobre a mesa. — Não quero que você vá embora... — Rose sentiu a carícia de seus olhos azul-escuros e estremeceu com um prazer culpado.

Não quero que você vá embora — palavras de um amante. — Preciso de você — ele conciliou a ambígua intimidade de uma súplica prévia com um murmúrio profundo. — Se esse arranjo não a satisfizer, aí você poderá me deixar. Sem ressentimentos. — Então, ele fez uma coisa que jamais fizera antes: pediu por favor.


  1   2   3   4   5   6   7   8


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal