Cathy williams



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Encontro29.07.2016
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CAPÍTULO DOIS

Rose passou a manhã seguinte pendurada ao telefone, fazendo uma pesquisa frenética sobre cursos de administração. Quando mencionara a Gabriel seu desejo de mudar de carreira, não tinha idéia do problema que criara. Se no mais profundo de sua alma, ela acalentara a idéia de ganhar mais qualificações, na realidade, seu desejo de partir se baseara em terreno mais pragmático, o de se desembaraçar da influência invasora de Gabriel em sua vida.

Mas ele a manobrara em direção à pouco invejável posição de embarcar num curso que supostamente teria analisado em profundidade. Ela teria ainda que recrutar e formar alguém para preencher suas funções quando não estivesse disponível.

Quando discutira sua situação com Grace, a renúncia lhe tinha parecido a solução mais apropriada. O fato de estar a muitos milhares de quilômetros de distância fizera com que Londres e seu emprego parecessem um sonho nublado, ao qual ela poderia dar um desfecho claro. Seu pedido de demissão, alguma surpresa por parte de Gabriel, a tentativa de persuadi-la a ficar, mas jamais se vira vacilando. Ela se imaginava dois anos mais tarde numa relação realizada com um desconhecido atencioso e cheio de consideração, com sinos de igreja tocando.

Jamais lhe ocorrera voltar ao escritório e rever Gabriel depois de três meses. Não levara em conta a força devastadora de seu sorriso nem imaginara que, com um jeito avassalador, o poderoso patrão iria encará-la dessa maneira suplicante, pedindo-lhe para ficar.

Deu graças a Deus que ele tivesse que ficar fora do escritório o dia inteiro, dando-lhe ampla oportunidade de começar sua pesquisa sobre os cursos. Na hora do almoço, já tinha selecionado dois que pretendia visitar até o fim da semana.

De qualquer modo, prometera a Gabriel apenas ir levando, o que lhe deixava a opção de dar o fora depois dos três meses, se assim preferisse. Às 18h30, ainda estava em sua mesa, botando em dia o trabalho que deixara de lado para telefonar para as universidades.

Só se deu conta da presença de Gabriel quando uma sombra se projetou sobre a mesa. Ergueu os olhos involuntariamente, prendendo a respiração quando seus olhos se encontraram.

— Acho que você sentiu falta disso... — ele sorriu. — Todo mundo já foi para casa... — Deixou cair algumas pastas sobre a mesa. — Mais algumas peças para mantê-la ocupada, mas pode deixar isso para amanhã. São problemas com esse novo hotel do Caribe. Precisamos encontrar um fornecedor mais confiável. Roberts, de Barbados, deve poder ajudá-la... Eu, no entanto, senti falta de sua eficiência — murmurou ele com sinceridade. — Saber que poderia sair do escritório e voltar sem encontrar as coisas num caos, com uma mulher incompetente chorando atrás da mesa...

Rose cerrou os dentes. Era justamente disso que ela não sentira falta! A eterna apreciação dele por ela como uma perfeita secretária.

— Por isso, queria levá-la para jantar fora esta noite.

— Como?


— Estou convidando você para jantar fora — repetiu Gabriel, meio ressabiado por sua patente falta de entusiasmo. — Você esteve fora do país durante três meses... — Ele tentou arduamente não se aborrecer diante de sua expressão vazia. — Há questões de trabalho a discutir e jamais teremos o tempo e a concentração necessários no escritório.

— Bem...


— Se não conseguir fazer você acelerar as coisas, você acabará ficando para trás.

— Está bem — respondeu Rose educadamente. — Vou só buscar meu casaco.

Desligou o computador, consciente de que os olhos dele seguiam todos os seus movimentos. Ela também tinha consciência de seu corpo, ao colocar o blazer de linho preto que comprara recentemente, peça apropriada para a noite quente daquela primavera tardia.

Junto com sua mudança de formas, ela renovara o guarda-roupa. Desfizera-se dos trajes manequim 42 fora de moda, atrás dos quais costumava se esconder; em vez disso, tinha agora roupas manequim 38, com formas, texturas e cores que nunca usara antes.

— Preferia que não nos demorássemos muito — disse ela, curvando-se para pegar a bolsa no chão, ao lado de sua mesa. —Ainda tenho que desfazer minhas malas. E não precisa se preocupar com o atraso do trabalho. Vou passar o fim de semana em casa estudando alguns arquivos, certificando-me de que sei exatamente o que se passa com todas as nossas contas.

— Perfeito.

— Onde vamos comer? — Rose deu uma olhada , em suas roupas de trabalho. — Não estou vestida adequadamente para ir a um lugar elegante. — Ela sabia que Gabriel não gostava do estilo barato e alegre, pois nunca tivera necessidade disso. Fizera reservas para ele em muitos restaurantes, no passado, para perceber que não gostava de toalhas xadrez e assoalhos nus. Teve um impulso meio malvado.

— Conheço um excelente restaurante italiano — disse ela, encarando-o. — Fica bem perto de onde moro, de forma que poderei voltar para casa com relativa rapidez quando acabarmos de jantar.

— Tudo bem. — Gabriel já estava lamentando o convite. Não o tinha feito com a menor intenção de discutir trabalho, e sim de relaxar um pouco. Se fosse honesto consigo mesmo admitiria que, na verdade, o que queria era descobrir um pouco mais sobre aquela mulher que voltara tão mudada da Austrália.

— Você não se importa, não é mesmo? Gabriel deu de ombros.

— Tanto faz um restaurante ou outro se vamos discutir trabalho.

Ele pediu ao motorista que os apanhasse na porta ,do edifício e percebeu que estava pouco interessado nas perguntas de Rose sobre o que tinha acontecido no escritório durante sua ausência.

Quando chegaram ao restaurante, ele já se cansara de discutir fusões e aquisições, mais ainda do tom impessoal da conversa. Não se lembrava de ter tido antes uma necessidade tão urgente de mergulhar além da superfície calma e tranqüila da mulher que o acompanhava.

— Espero que não seja muito informal para você, Gabriel.

Ele estreitou os olhos, tentando perceber se aquela preocupação polida escondia uma ponta de insolência.

— Por que seria? — perguntou enquanto entravam. Aquele lugar parecia mais um pub do que um restaurante, com pessoas recém-saídas do trabalho em volta do bar, enquanto pequenos grupos animados se sentavam às mesas de madeira. Rose parecia conhecer bem o lugar. Alguém se materializou bruscamente, sorrindo e beijando-a nos dois lados do rosto, antes de conduzi-los a uma mesa afastada, no fundo da sala.

— Porque sei que você tende a gostar de lugares mais caros.

— Ah, é assim?

— É. — Ela virou-se para ele, sorrindo secamente. — Não se esqueça de que era eu quem os reservava para você. — Ela se esgueirou em sua cadeira. — Você me disse um dia que mulheres bonitas gostam de restaurantes caros, gostam da sensação de estar num aquário cheio de peixes dourados. Por isso você as levava a lugares onde metade da graça era ver quem estava lá.

— Fico surpreso de que você não tivesse me acusado de ser leviano.

Rose deu de ombros.

— Cada um busca o melhor para si. Além disso, trabalho para você.

— Isso nunca a impediu de dizer o que pensava. Rose enrubesceu e ficou calada. Sim, nunca temera

discordar dele e sempre falara o que pensava, porque ele podia ser um chefe duro no trabalho, mas era também o homem mais justo que encontrara, permitindo que as pessoas expressassem suas opiniões desde que pudessem justificá-las.

— Você costuma vir aqui? — perguntou Gabriel, mudando de assunto. Olhou ao redor. — Não imaginei que gostasse disso.

— Por quê? — replicou Rose asperamente.

— Porque... é bastante barulhento.

— E pareço o tipo de pessoa mais chegada a uma biblioteca?

— Você está pondo palavras em minha boca, Rose.

— Estou cansada. — Ela ficou contente com a interrupção do garçom, e fez seu pedido sem nem olhar o cardápio. — Por que não me diz o que andou acontecendo? Seus e-mails me contaram algumas coisas, mas gostaria de mais detalhes para me situar.

— Esse vôo para a Austrália é bastante longo — disse Gabriel, evitando falar de trabalho. — Posso compreender por que se sente cansada. E sua irmã lhe faz falta, não?

— Claro que sim. Mas eles estão pensando em voltar para a Inglaterra no ano que vem. Ambos sentem que já é tempo de voltar para casa, agora que Ben chegou.

A comida foi servida, e Rose se divertiu ao ver a surpresa de Gabriel com a qualidade dos pratos. Ele sorriu.

— Agora vou ouvir um sermão sobre a loucura das pessoas que pagam muito mais por uma refeição que podem facilmente obter em outro lugar pela metade do preço...

— Não, imagine!

— Eu viria a lugares como esse, não fosse pelo fato de que os clientes e as mulheres esperam um divertimento mais elaborado.

— Posso entender quanto aos clientes, mas talvez você precise escolher outro tipo de mulher.

— Nunca soube o que você realmente pensava de minhas... mulheres... mas você deve ter desenvolvido uma opinião sobre elas ao longo dos anos. Afinal de contas, você conheceu todas...

— Na verdade, não... —Ah, sim, ela bem que forjara uma opinião sobre elas! Bonitas, cabeças ocas, totalmente inofensivas. Durante muito tempo ela se perguntara como um homem tão dinâmico e astuto como Gabriel podia se interessar por mulheres que eram a personificação da loura burra. Podia entender seu desejo de ter uma mulher bonita ao lado, mas ele não se sentiria mais desafiado por uma mulher capaz de ter sua própria opinião? Gradualmente se deu conta de que ele já tinha desafios suficientes no trabalho. Se um dia decidisse constituir família, exigiria, sem dúvida, uma vida doméstica calma e repousante, com uma mulher dócil que deveria ficar contente em servi-lo, gerar suas crianças e esperar pacientemente enquanto ele trabalhava.

— É por isso que você me olha com tanta desaprovação? — perguntou Gabriel, e Rose se deu conta disso com um ligeiro estremecimento.

Ele sorriu sobre o copo de vinho que segurava. Ela preferira água, mas Gabriel decidira tomar uns dois copos de vinho, já que o motorista os esperava.

— O que você faz em sua vida privada é assunto inteiramente seu — disse Rose, com voz afetada. — Se prefere sair com mulheres cujo QI se mede por um só algarismo, isso é problema seu!

— Ah, nunca pensei que você fosse uma esnobe intelectual! — murmurou Gabriel com voz cordial.

— Eu não sou uma esnobe intelectual! — defendeu-se Rose com raiva.

— Como é então — disse Gabriel — que condena as mulheres que gostam que se gaste dinheiro com elas? A menos que já tenha estado antes nessa posição... — Ele se interrompeu. — Você já esteve?

— Não, mas...

— Quero dizer, como é que pode saber que não gostaria de ser levada aos restaurantes mais finos? Que lhe oferecessem pérolas e diamantes? Que a levassem para passar o fim de semana em Paris ou Veneza?

— Não me lembro de ter reservado muitos vôos para fins de semana em Paris ou Veneza — disse Rose, com voz meio amarga. Gabriel gastava altas somas em presentes para as mulheres que iam e vinham em sua vida, mas dedicar tempo era coisa inteiramente diferente. Quando tinha tempo livre, o que era relativamente raro, ia invariavelmente à Itália visitar a família.

— Você sabe o que quero dizer — disse Gabriel, com voz irritada.

Por uma vez, Rose resolveu deixar de lado a determinação de calar seus pensamentos.

— Não preciso ter coisas caras para saber o que não quero. Meus pais sempre nos instilaram uma sadia consciência de que dinheiro não compra felicidade.

— Ora, também sei que dinheiro não compra felicidade — concordou Gabriel precipitadamente. — Pelo menos não uma felicidade duradoura... mas pode ser divertido...

— Tudo depende de se você considera divertido ter uma relação de seis meses, sacudir a poeira e passar adiante — balbuciou Rose.

— Imagino que você não pensa assim...

— Essa conversa está ficando ridícula. Não deveríamos estar discutindo trabalho?

Gabriel sabia muito bem que seu comentário era injustificado, mas que raios, não podia pensar em nada mais aborrecido do que convidar uma mulher para jantar e ficar discutindo compras, lucros, crises na oferta e na procura dos hotéis, quando a alternativa era muito mais interessante.

O garçom veio tirar os pratos e lhe ofereceu mais um copo de vinho. Diante de sua expressão, ele a olhou de maneira indagadora.

Por favor, não me diga que sua crítica a esse conceito perverso chamado diversão abrange também um excesso ocasional de álcool... — Tinha certeza de que isso ia lhe provocar uma reação, como de fato aconteceu.

— Claro que bebo de vez em quando! Tenho uma vida fora do trabalho, Gabriel!

— Então me fale sobre ela. — Ele aproveitou a oportunidade e pediu ao garçom que trouxesse dois grandes copos de vinho. — Nenhum namorado com hábitos de prodigalidade, suponho... isso seria ruim para a saúde e para a alma...

Rose chegou a abrir a boca, mas preferiu dirigir-lhe apenas um olhar irônico.

— Sinto pena dessas pobres moças, Gabriel, se você agia assim com elas.

— Nenhuma delas tinha condições de lidar com isso.

— Se tivessem, talvez você as respeitasse mais... — insinuou Rose em voz baixa.

— Não seja ridícula. Você realmente pensa assim? Que não a respeito? Ou está apenas jogando verde para colher maduro? — Diante de seu silêncio, ele correu os dedos pelos cabelos e lhe dirigiu um olhar frustrado. — Nenhuma delas tinha muita utilidade. Estava sendo sincero quando disse que precisava de você, Rose. É a pura verdade. — Seus magníficos olhos azuis a examinaram detalhadamente e ele acrescentou, de maneira maliciosa. — Preciso de você e quero você...

As faces de Rose se incendiaram. Sentia-se vulnerável e inquieta diante daquele charme sedutor, que ela sempre presumira ser reservado às mulheres, com quem ele saía. Conseguiu dizer, com voz desprovida, de inflexão, tomando um gole de vinho.

— Você pensa que sim, Gabriel, mas ninguém é indispensável, muito menos uma secretária.

— Não se subestime.

— Não se trata disso. Não creio que sua vida profissional pare se eu não estiver presente.

— Talvez ela mo pare efetivamente — admitiu Gabriel. — Mas seu ritmo será bem menos suave. Tive três meses para me dar conta disso.

Ele estava se divertindo ao constatar que, pela primeira vez, ela ousara expressar sua opinião sobre as mulheres com as quais ele saía, dando igualmente a perceber um certo desagrado quanto à maneira pela qual ele conduzia sua vida privada. Levou um certo tempo para perceber que, com sua complacência, ela ultrapassara bastante os limites. Como é que isso fora possível? Um saudável espírito crítico no trabalho devia de fato ser encorajado, mas sua vida pessoal não estava em discussão.

Ela fora em frente e agora definia o papel de uma secretária explicando por que ele era relativamente fácil de ser executado. Gabriel grunhiu vagamente.

— Resumindo — concluiu ela — se quiser que eu seja bem-sucedida ao recrutar alguém, você terá de me dizer exatamente o que está procurando.

Naturalmente, você continuará a lidar com os clientes mais suscetíveis e com tudo o que for de natureza confidencial. — Ele pediu a conta. —A principal qualidade que busco é a capacidade de exercer as funções sem se comportar como um coelhinho aterrorizado cada vez que eu abrir a boca.

— Já examinamos isso — disse Rose, com paciência. Era muito mais tarde do que imaginara e eles ainda não tinham abordado todas essas tarefas sobre as quais aparentemente ela precisava ser informada.

— Não chegamos nem mesmo a discutir sobre o trabalho — comentou ela.

— Você já tem que ir embora? Porque senão pode virar abóbora? Vou deixá-la em casa. — Ele digitou o número do cartão de crédito.

— Não é preciso, moro muito perto daqui.

— Que absurdo. Jamais deixaria uma mulher andar até em casa a essa hora da noite.

— Faço isso todos os dias, Gabriel. Você pensa que pego táxi para ir e voltar do trabalho? O ônibus pára bem aqui e ando até minha casa sem problemas, mesmo quando já está escuro. — Mas Gabriel sempre fazia exatamente o que bem entendia e, naquele momento, queria representar o papel do cavalheiro que a deixaria na porta de casa.

— Você precisa de um carro — disse ele abruptamente.

Rose se imobilizou e olhou para ele boquiaberta.

— Preciso de quê?

— De um carro da firma. Foi negligência minha nunca lhe ter oferecido um. Não é nada de mais que uma secretária pessoal da diretoria disponha de um carro da firma. — Ele abriu a porta do carro para ela.

— Onde é que você mora?

Rose deu as instruções ao motorista. Hoje, tinha sido um dia onde quase tudo acontecera pela primeira vez para ela. Era a primeira vez que Gabriel ultrapassara as barreiras que ela conservara cuidadosamente. Não tinham propriamente trocado confidencias frente à uma garrafa de vinho, mas sua máscara profissional escorregara, o que não era boa coisa. Tinha sido também a primeira vez que ele flertara com ela. Ou pelo menos, que lhe falara com aquela voz de veludo que usava ao telefone com algumas de suas mulheres. Era também a primeira vez que tinham partilhado uma refeição num restaurante, os dois sozinhos, sem nenhum programa particular de trabalho. Nenhuma dessas primeiras vezes contribuíra para acalmar seus nervos desgastados por estar de novo em companhia dele.

Era estranho, parecia que uma porta tinha se aberto entre os dois. Durante todo esse tempo, ela conseguira lidar com seus sentimentos tomando cuidado em manter os papéis muito bem definidos. Ele era o patrão, um homem que respeitava, com quem se dava bem, mas, em última instância, um homem que lhe dava ordens que ela era obrigada a cumprir. Nunca se iludira achando que era para ele algo mais do que um instrumento extremamente útil. Ele certamente lhe pedira para fazer coisas que ultrapassavam as funções de uma secretária. Comprar presentes para suas namoradas, enviar-lhes flores quando um caso chegava ao fim, reservar mesas em restaurantes... E ela as realizara sem discutir. Mas jamais omitira uma opinião não solicitada. Hoje à noite essas barreiras tinham se desfeito e Rose se sentia desprotegida.

Só de pensar nisso já ficava arrepiada. Ficou aliviada quando o carro parou em frente à sua casa. Saiu com um sorriso e um "obrigada" apressado e só se deu conta de que ele a seguira até a porta quando Gabriel estendeu a mão para apanhar o molho de chaves de sua mão.

— Minha mãe sempre dizia para levar uma mulher até a porta de sua casa. Você está tremendo.

— Está um pouco frio aqui fora. — Rose observou os longos dedos girarem a chave na fechadura. — Acho que me acostumei com o tempo mais ameno da Austrália. — Ele lhe devolveu as chaves, e seus dedos se roçaram. — Bem — Rose se plantou no meio da porta e o encarou de forma direta — boa noite e obrigada mais uma vez pelo jantar. Lamento que não tivéssemos podido discutir assuntos ligados ao trabalho. Talvez seja melhor eu consultar sua agenda da próxima semana e marcar uma hora conveniente para que possamos discutir os assuntos pendentes...?

— Vou deixar em sua mesa um bilhete sobre os arquivos que precisa consultar e você poderá dar uma olhada neles quando tiver um momento livre. — Sem que Rose notasse, ele pôs um pé no batente da porta. De repente ela ficou preocupada: se o trabalho podia se resolver de maneira tão simples, por que a convidara para sair?

— Você poderia ter começado por me dizer isso, Gabriel!

— É verdade — admitiu. — Mas na realidade queria discutir com você o assunto de sua substituição temporária.

— Meu curso só vai começar em setembro. Não há nenhuma urgência; estamos apenas em maio!

— Fim de maio — disse Gabriel, de modo soturno.

— Daqui a pouco estaremos em julho, e você sabe como tudo pára durante o verão. Depois que vi os fantásticos exemplos oferecidos, diria que o processo de entrevistas tem que começar mais cedo.

Rose soltou um suspiro frustrado.

— Vê algum problema nisso?

— Não, nenhum. É você quem paga meu salário. Como posso ver um problema nisso? — Ela sorriu, tentando dar um sentido brincalhão àquela frase, mas os olhos dele não reagiram ao humor.

Em outras palavras, seu salário compra sua aquiescência, ainda que você não esteja de acordo com o que estou lhe pedindo.

A observação feita por ele estava tão próxima ao que ela mesma estivera pensando alguns minutos atrás que ela enrubesceu e olhou para baixo, vendo onde seu pé tinha se plantado com firmeza.

— Estou começando a achar que todo esse papo de que trabalhar para mim atrasa sua carreira profissional é uma grande bobagem... —. Ele meteu o pé um pouco mais firmemente na soleira da porta e se recostou contra o umbral, com os braços cruzados e uma expressão de suspeita. — Sinto cheiro de rebelião entre as tropas, e minha experiência me ensinou que a revolta sempre nasce em terreno pessoal...

— Você tem uma imaginação fértil, Gabriel...

— Umedeceu nervosamente os lábios, não via onde esse papo podia levá-los. — Se tivesse... qualquer problema pessoal em trabalhar para você, eu lhe teria dito...

— Teria mesmo? — Ele passou adiante dela, para sua grande surpresa. — Dinheiro pode comprar lealdade, mas isso não me convém. — Rose foi forçada a admirar a rapidez com que ele conseguira entrar em sua casa.

— Não poderíamos discutir isso amanhã de manhã?

— Por quê? Você sabe, passa apenas um pouco das 21h. Você se recuperará mais rapidamente ao jet lag se mantiver seus horários normais. E se há um problema subjacente, gostaria muito de saber qual é.

— Já lhe disse... — Ela esperava ser a única a se dar conta do desespero em sua voz.

— Jamais a impedirei de dizer o que pensa... — disse lentamente Gabriel, percorrendo com os olhos seu rosto embaraçado. — Sinto-me insultado que você me veja como um autocrata diante de quem você hesita em expressar suas opiniões com medo de que eu possa despedi-la... ou baixar seu salário...

— Mas nem pensei nisso!

Gabriel podia distinguir uma resposta sincera quando a ouvia. De qualquer forma, não pensava poder controlá-la mediante compensações financeiras, mas ela o tinha feito refletir. A começar por sua carta de demissão, e terminando com observações que, de um jeito que ele não conseguia distinguir, comportavam uma sombra de crítica. Algo no tom de sua voz, no baixar de seus olhos, tinha despertado sua curiosidade, emoção pouco explorada por Gabriel. Nenhuma mulher incitara tanto sua curiosidade quanto Rose, sobretudo agora com o desmoronamento das idéias preconcebidas que formara sobre ela.

— Por que você não faz um café para nós dois...?

— Eu não!

— Porque, apesar de todos os sim, senhor e não, senhor, você na verdade não agüenta ficar confinada comigo por muito tempo?

Isso estava tão distante da verdade que Rose começou a rir e, depois de um momento, Gabriel também permitiu, meio contra a vontade, que seus músculos relaxassem.

— Tudo bem. Uma pequena xícara rápida. Não quero deixar o motorista esperando. — Ela se dirigiu para a cozinha, mentalmente adicionando outra primeira vez àquela pilha já grande. Era a primeira vez que Gabriel entrava em sua casa. Ele saíra para informar ao motorista que haveria uma pequena espera. Quando voltou, o café estava pronto, forte, sem leite nem açúcar, como ele gostava.

Rose se sentara à mesa da cozinha e colocara a outra caneca do lado oposto.

— Fale comigo — disse Gabriel, sentando-se por sua vez.

— Quando você quer que eu comece a entrevistar as pessoas? Segunda-feira próxima? Ou ainda mais cedo?

— Quero que me explique sua observação de que só me obedece por causa do salário.

— Lamento ter dito isso, não era o que eu queria dizer.

— Desde quando você pensa dessa maneira? Desde que começou a trabalhar comigo? Nos últimos meses? Apenas depois que chegou da visita à sua irmã? Quando, exatamente?

— Isso não tem nenhuma importância, Gabriel.

— Para mim tem sim. Agora me diga: do que você discorda? Pode falar livremente, sei ser bastante simpático. Não quero perdê-la e, se acumulou algum ressentimento sobre meu modo de dirigir as coisas, agora é a hora de me falar sobre isso.


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