Cathy williams



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CAPÍTULO TRÊS

O restaurante do prédio comercial de vidro era, como todo o resto, espetacular. Era uma das vantagens invisíveis quando se trabalhava para Gabriel. Ficava aberto o dia inteiro, oferecia uma grande escolha de pratos de primeira classe e recebia tantos subsídios que as refeições custavam muito pouco.

Quando Gabriel não estava ocupado, costumava descer para almoçar, para manter contato com seus empregados. Conversava com eles, fazia-os falar, ouvia suas idéias. Mas sob essa superfície afável, era fácil ver a reverência com que eles lhe respondiam. Ele não era apenas rico e poderoso, mas aparentava isso, o que já era o bastante para que a maioria dos empregados suasse de nervoso na sua presença.

Às 14h30, o restaurante estava vazio, fora duas serventes da cozinha tomando café com rosquinhas e alguns homens conversando animadamente sobre folhas de gráficos e números. Condições perfeitas para que Rose fosse bebericar uma xícara de café e repassar morosamente os acontecimentos da noite anterior.

Ele solicitara as opiniões dela e, num primeiro momento, ela não tivera dificuldade alguma em aceitar o convite. Ela tinha se comportado da maneira habitual, observando-o interrogativamente, baixando os olhos sobre a xícara de café.

Ele também a tinha observado, sem pressa de ir embora. Ele a interrogara sobre o tipo de curso que queria fazer, que qualificação estava buscando, se gostaria de um emprego onde supervisionasse outras pessoas ou preferia trabalhar sozinha. Questões bobas. Até mesmo quando a questionara sobre seus pais, envolvera a pergunta numa observação inteligente sobre a influência dos pais sobre os filhos.

— Meus pais acham que deveria ter-me casado há muito tempo, ter filhos e um cachorro. — Ele sorriu para ela com ar de deboche, convidando-a a partilhar o leve espírito crítico sobre seu estilo de vida pouco convencional.

— Posso imaginar o cachorro — respondeu Rose, apoiando o queixo nas mãos. Jamais teria pensado que aquela carta de demissão a levaria a ficar sentada em sua cozinha, tomando uma xícara de café com ele, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. — Um muito grande.

— Porque tenho mais de um metro e noventa? Esse comentário a forçou a levantar os olhos para aquele metro e noventa de homem dominador de olhos azuis e cabelos negros.

— E melhor você ir embora — disse ela abruptamente, pondo-se de pé.

— Mais 15 minutinhos. Harry foi encher o tanque e acho que ainda não voltou.

— Por que você fez isso? — espantou-se Rose, dirigindo-se para a sala de estar.

— Porque — disse uma voz por trás dela — ele detesta ficar no carro esperando por mim no escuro.

— Poderia acender a luz e ler!

— Desde que tivesse trazido um livro. Rose lhe lançou um olhar conformado.

— Harry está sempre com um livro.

— Como é que você sabe disso?

— Porque uma vez perguntei como é que ele agüentava ficar esperando você, às vezes por horas, até que tivesse acabado a reunião ou qualquer outra coisa que estivesse fazendo.

— Você já conversou com meu motorista? — Seu tom de voz tentava mostrar que ela escondera dele um segredo indecente.

— Às vezes andávamos juntos até o ponto de ônibus. Não fique tão estupefato assim, Gabriel. As pessoas têm vidas fora de sua firma.

— Sei disso!

— Então pare de agir como se tudo o que se passa fora de seu pequeno mundo não existisse.

— Eu não vivo num pequeno mundo — irritou-se Gabriel.

— Claro que vive. — Ela suavizou a crítica com uma afirmação genérica. — Qualquer um em posição similar o faria. Você dirige uma grande corporação onde dita as regras, estala os dedos e sabe que vai ser obedecido... Isso não é o mundo real.

Os olhos de Gabriel se estreitaram.

— Então não passo de um pequeno ditador?

— Não foi o que disse, de maneira alguma!

Dou ordens, estalo meus dedos e espero ser obedecido. O próximo passo será publicar um edito real dizendo que meus súditos devem se ajoelhar quando eu passar!

— Desculpe se o ofendi.

— Você não me ofendeu — disse Gabriel friamente. — Como minha funcionária, gosto que dê sua opinião. Desejaria apenas que tivesse tido coragem de me dizer tudo isso um pouco antes, em vez de ficar sorrindo, obedecendo e alimentando ressentimentos.

Rose olhou para ele boquiaberta.

— Não estou alimentando nenhum ressentimento — negou, ruborizada.

— Não? — Gabriel sentiu como se lhe tivessem dado um golpe baixo e seu férreo autocontrole vacilou, sensação nada agradável, sobretudo vindo de uma mulher que não era mais do que sua secretária. Um membro valioso da equipe, sem dúvida, mas sem nenhum valor pessoal para ele.

— Não... se tivesse algum problema em trabalhar para você... bem, eu já lhe teria dito... — Rose podia ver como ele chegara àquela conclusão. Ela fazia seu trabalho e voltava para casa. Sua própria confusão e vulnerabilidade emocionais a tinham tornado mais silenciosa do que era por natureza. Ele via uma mulher quieta e eficiente, altamente competente, que só se manifestava sobre assuntos de trabalho. Uma mulher, até três meses antes, meio cheinha...

Rose conhecia a maioria das mulheres que ele namorara porque freqüentemente vinham encontrá-lo no escritório, esperando que terminasse de trabalhar. Elas ficavam sentadas, com as longas pernas cruzadas, e o aborrecimento inscrito nos rostos perfeitos. Louras, morenas, ruivas... Gabriel não tinha preferência; seu único critério era que fossem lindas e intelectualmente pouco exigentes.

Ela se via pelos olhos dele. Uma secretária gorducha correndo discretamente de um lado para outro, fazendo o que lhe fora pedido. Não era de surpreender que tivesse se espantado quando ela voltara da Austrália inteiramente mudada e agarrada à sua carta de demissão.

Ela era uma mulher diferente agora. Tinha mudado por dentro também. Ela não tinha nada a perder. Decidira que sua vida ia tomar um outro rumo e, se ainda continuava a trabalhar para ele, era porque estava dando tempo ao tempo.

Ela gostava dessas palavras, dar tempo ao tempo. Isso lhe dava coragem.

— Não tenho problema em trabalhar para você, Gabriel, não tenho medo de você. Trabalhei bastante tempo a seu lado para saber...

— Como lidar comigo...?

— Como avaliar seus diferentes humores...

— O que é uma coisa boa.

Rose percebeu sua expressão de auto-satisfação e cerrou os dentes.

— Sim, é mesmo. Agora que você me convenceu a continuar trabalhando para você, desde que isso não entre em conflito com meu curso... não quero que esqueça que vou tentar isso por três meses, tempo durante o qual treinarei alguém para assumir o trabalho de maneira independente, se eu decidir ir embora...

Ele quase a informou de que não gostava de chantagem, emocional ou de qualquer outro tipo, mas mordeu os lábios ao se lembrar da sucessão desesperadora de temporárias.

— Quais são suas exigências? Pensei que a negociação financeira tivesse sido bastante atraente.

— Não tem nada a ver com dinheiro. — Rose respirou profundamente e olhou firme para ele. — Em primeiro lugar, quero que me avise com maior antecedência quando eu tiver que trabalhar até mais tarde...

— Que a avise antes? — explodiu incredulamente Gabriel. — Quanto tempo antes? Uma semana? Duas semanas? Um mês? — Ele se levantou bruscamente e ficou andando pela sala, carrancudo. Sua secretária tão confiável desaparecera durante três meses e voltara pior do que um gato selvagem. Só Deus sabe que idéias a irmã tinha posto em sua cabeça.

— Um ou dois dias bastam — disse Rose calmamente. Gabriel parecia atravancara tranqüila sala creme, com sua pequena lareira e suas estantes de carvalho bem arrumadas. Ele não conseguia se comportar como um ser humano normal: observar as leis básicas da cortesia, sentar-se de maneira polida, ouvir o outro sem interromper!

— Eu teria que colocar isso por escrito? — perguntou sarcasticamente Gabriel.

— Não estou sendo pouco razoável...

— Não? Você acha que é comum uma pessoa, exercendo um emprego de responsabilidade, recebendo um salário bem mais alto do que a média nacional, se limitar apenas a cumprir o horário a menos que lhe seja dada uma notificação prévia?

Rose já tinha visto Gabriel em ação antes. Ele era fisicamente intimidador e não hesitava em forçar seus opositores à submissão.

— Não disse que vou apenas cumprir o horário, Gabriel. Não tenho nada contra trabalhar de vez em quando até tarde da noite, já fiquei tantas vezes no escritório até meia-noite para aprontar documentos que tinham prazo de entrega...

Tantas vezes é um certo exagero — murmurou Gabriel.

— Que seja. Vou estar estudando e penso que é justo você respeitar isso.

— O que quer dizer “tarde da noite” para você?

— Qualquer coisa além de 18h30. — Rose, esperou por sua reação, que não veio. Ele a olhou como se a estivesse avaliando e deu de ombros.

— Tudo bem.

— Você não se importa?

— Vai ser inconveniente para mim, mas você tem razão. Vai estar estudando, a última coisa que desejaria é desviá-la disso... — Ele baixou os olhos. — Você tem que se certificar de que sua substituta não seja uma fanática por horários.

— Talvez você ache difícil encontrar uma substituta que não se incomode em ficar o tempo que você arbitrariamente decidir. — Sua substituta? O tom definitivo dessa frase lhe provocou um frio na espinha, embora isso fosse o que ela sempre quisera.

— Não se eu agitar bastante dinheiro diante dela... e lhe prometer o emprego em caráter permanente.

— Você já está me pondo para fora? — perguntou Rose suavemente. — Pensei que fosse indispensável.

— Eu também.

Mas em algum momento ele mudara de opinião, talvez ao compreender que ela só aceitava continuar no cargo sob uma ou duas condições difíceis de engolir. Queria alguém que o obedecesse cegamente, apesar do discurso vazio com que encorajava os empregados a se expressarem livremente. Ele queria poder lhe dizer, às 17h30, que receberia a visita de dois advogados às 18h e que ela teria que ficar até que todos os pontos de algum contrato tivessem sido aplainados. Compromissos exteriores não o interessavam e certamente não lhe convinha ter que dar uma notificação prévia pela inconveniência.

Enquanto ela fosse competente e silenciosamente invisível, tudo correria bem. O dinheiro lhe escorreria pelas mãos, ele lhe daria carros da firma. Rose passara quatro anos servindo-o exatamente assim.

— Há mais — disse ela, seguindo o provérbio "perdido por um, perdido por mil".

— Desde quando você decidiu que me irritar é uma vantagem para sua carreira? — Seu tom suave deixava transparecer uma ponta de descontentamento.

— Pensei que recebesse bem as opiniões de seus empregados... — disse Rose inocentemente.

— Claro que quero escutar o que meus empregados pensam — respondeu Gabriel, irritado. Ele viu sua expressão irônica e rosnou. — Bem, o que mais tem a dizer? Que outras queixas ainda guarda?

Gabriel era mestre em virar a mesa, pensou Rose, e interpretar cada ponto válido como um golpe baixo.

— Essas suas mulheres...

— Que mulheres...? — Gabriel estreitou os olhos. — Não enverede por aí, Rose.

Rose sentiu alguns segundos de simpatia por ele. Além das exigências repentinas de mudar suas horas de trabalho, estava a ponto de informá-lo de que cuidar de suas mulheres não fazia parte de sua função e que pretendia parar de fazer isso. Se ele quisesse encomendar flores no fim de uma relação poderia telefonar ele mesmo ao florista. Se necessitasse urgentemente de uma lembrança cara para compensar o cancelamento de algum encontro poderia comprá-la pessoalmente.

— Preciso dizer o que penso, Gabriel...

— O que não inclui fazer sermões sobre a maneira como levo minha vida fora do trabalho. Isso, estou lhe avisando, vai bem além de suas funções. —A expressão peremptória, dura, fez com que Rose, de repente, reagisse.

— O que pensou que eu ia dizer, Gabriel? — Ela enfrentou placidamente seu olhar soturno. — Parece que, além de tudo, você ainda lê pensamentos?

— Não é preciso ser um gênio para saber o que você está pensando — falou Gabriel com voz áspera. Ele estava começando a lamentar o instinto que o fazia agarrar-se tanto à sua secretária maravilhosamente confiável. Parece que ela fora para a Austrália e ficara por lá. No lugar dela, voltara essa criatura direta, quase agressiva, que decidira fazer dele saco de pancadas. — Você deixou claro que desaprova meu comportamento com relação ao sexo oposto. Não lhe passou pela cabeça que as mulheres que namoro podem se divertir quando saem comigo, ainda que venhamos eventualmente a romper nossa relação?

Rose levantou as sobrancelhas, como se questionasse sua sanidade mental por sequer pensar uma coisa dessas, e Gabriel a fuzilou com o olhar.

— Elas se divertem bastante comigo — ele se ouviu dizer. — Entre outras coisas, levo-as para jantar, ofereço-lhes um bom vinho... E pode acreditar, Rose, quando digo que, com relação às outras coisas, dou-lhes bastante prazer... — Para sua satisfação, um lento rubor invadiu-lhe o rosto.

— Que bom para elas — disse ela, recuperando o sangue-frio. — Bons vinhos, bons jantares e boa cama até serem relegadas aos livros de história.

Gabriel ficou tão chocado quanto Rose. Ela enrubesceu e desviou o olhar, mas recusou-se a voltar atrás, a se desculpar. Sua irmã lhe fizera longos discursos sobre a loucura de se apaixonar por um homem que não a notava mesmo que dançasse nua sobre a mesa. Sua única chance de recuperar seu senso de dignidade era abandonar aquele emprego.

Bem, apesar de não o ter abandonado, ela ia ser uma mulher de caráter que não tinha medo de dizer o que pensava.

— Perdão? — disse Gabriel numa voz extremamente estressada.

— Você me ouviu, Gabriel.

O diagnóstico de sua irmã tinha sido extremamente correto. Rose superava qualquer um em matéria de competência e trabalho árduo. Inteligente e ambiciosa, poderia obter tudo o que queria. Diferente de mim, acrescentou Grace. Mas sob esse exterior capaz, seu coração aspirava por romance. Por isso ela tinha deixado que os sentimentos pelo patrão se desenvolvessem incontroladamente durante quatro anos. Já Grace, tão pouco prática no que se referia ao trabalho de um escritório, era inteiramente prática quanto a assuntos do coração. Jamais perdera tempo sonhando acordada com garotos inatingíveis, e Rose estava inclinada a seguir seus conselhos. Afinal de contas, comparando os dois casos, quem se encontrava em melhor situação?

Na verdade, não dou a menor bola para o que você faz com as mulheres que passam pela sua vida. O que me interessa são seus impactos na minha.

— E quais são eles? — perguntou Gabriel, com súbito interesse.

— Olhe só, você encontra uma mulher e a cobre de presentes. Quem compra os presentes sou eu, quase sempre na minha hora de almoço ou no fim de semana, sempre em meu tempo livre. Depois, tenho que reservar restaurantes, enviar flores sem trocar as mensagens. Quantas vezes tive que rechaçar mulheres aos prantos que não viam as coisas como você; ou seja, que sair com você tinha sido um privilégio e que agora já era tempo de pegar a saída mais próxima? Algumas delas pareciam alimentar a ilusão de que você gostava delas. — Em sua voz estava implícito pobres idiotas.

As surpresas se acumulavam a cada minuto. Gabriel nunca sentira nenhum ressentimento quando lhe pedira para fazer o que sempre fizera parte das funções de um boa secretária pessoal, ou seja, cuidar dos incidentes dos quais ele não tinha tempo de se ocupar. Tempo ou vontade. Qual era o problema em encomendar algumas flores por telefone de vez em quando? Ou ir a uma joalheria comprar um bracelete?

— Você está com ciúmes? — A voz de Gabriel era uma seda e Rose sentiu o coração se acelerar. Ela admitira para si mesma, tarde da noite, que estava mesmo com ciúmes.

— Claro que não estou com ciúmes — respondeu friamente. — Você acha realmente... — Mas se interrompeu na hora exata.

— Acha realmente... o quê?

— Nada.

— Pode dizer. Afinal de contas , hoje é o dia das revelações.



Rose se perguntou como reagiria se lhe contasse a verdade. Se tinha se assombrado com as revelações que ela fizera hoje, entraria num estado de choque cataclísmico se ela realmente decidisse revelar tudo!

— Como queira. Você perguntou se eu realmente tenho ciúmes de todas essas mulheres que você namorou... — Rose riu sem humor. — Para começar, elas não são as mais espertas do planeta...

— E quem disse que eu as queria espertas? — Na verdade, ele pensou, quem foi que disse que eu gostaria de discutir esse assunto? Mas aquela mulher, cujos pensamentos jamais conhecera, estava se abrindo naquele momento, e isso o fascinava. Ele não conseguia desviar os olhos de seu rosto. — Uma mulher inteligente é uma espécie superestimada — disse ele, inspecionando os livros ao lado da lareira, mas sem deixar de observar seu rosto para ver como reagiria àquela observação incendiaria. Ao ver sua indignação ultrajada, decidiu prosseguir, para ver onde isso o levaria. — Quero dizer, uma mulher inteligente terminará por abalar os nervos de um homem. — Displicentemente pegou um livro e constatou, com surpresa, que era uma primeira edição e que não tinha sido barato. Aquela mulher era inteligente e tinha bom gosto. Repôs o livro no lugar e virou-se para encará-la. — As discussões intermináveis... a seriedade... o tédio de alguém com um ponto de vista... — Ele imitou um bocejo e divertiu-se com o brilho perigoso dos olhos dela. — Você já notou que uma mulher inteligente sempre defenderá seu ponto de vista, ainda que todo mundo já tenha concordado com ela por puro enfado?

— Você já notou — Rose embarcou na discussão, ainda que o bom senso lhe dissesse que aquilo era ridículo — que uma loura burra despejará tanta asneira que você acabará perdendo a vontade de viver...?

Gabriel riu alto. Quando se acalmou, murmurou com um deleite perverso:

— Não vou negar que algumas vezes elas despejam muitas asneiras, mas posso garantir-lhe que, quando estou na cama com uma delas, nunca perco a vontade de viver...

Rose respirou profundamente e teve a impressão de que ele estava se aproximando dela. Mas, em vez disso, ele se sentou com um olhar satisfeito, como se estivesse passando mentalmente em revista suas conquistas passadas. Um ciúme estúpido quase a fez desfalecer.

— Acho que sinto pena delas... — prosseguiu com voz glacial, ainda que a raiva estivesse fervendo dentro dela. — Você pode pensar que as trata bem, mas o que uma mulher deseja vai muito além das coisas que o dinheiro pode comprar.

— É mesmo?

— Já conversei com mulheres que você descartou para saber que sofrem muito mais do que você pensa! — disse Rose, na defensiva, consciente de que tinha traído bastante seus pensamentos.

A conversa parecia estar tomando um caminho indesejável, e Gabriel franziu o cenho.

— Não sei onde aonde pretendemos chegar com esse papo...

— Você me forçou a dar minha opinião...

— Como é que nunca vi em você essa mulher teimosa, obstinada, absolutamente enlouquecedora que você obviamente é? — falou Gabriel, irritado.



Então não devia se importar em se livrar de mim depois que tiver treinado uma substituta, pensou Rose, sem ousar dizê-lo em voz alta. Por razões que lhe eram próprias, queria ser ela a tomar a decisão de ir embora. Dessa maneira, provaria a si mesma que mantinha o controle, na medida em que seu estado emocional lhe permitisse.

Ela permaneceu num silêncio insubordinado, receando não ser discreta ao falar. Obstinada, estúpida, enlouquecedora não eram insultos fáceis de serem esquecidos com um sorriso polido e uma mudança de assunto.

Um silêncio prolongado se seguiu. Gabriel sabia se controlar formidavelmente quando se tratava de mulheres. Elas nunca o interessavam realmente, nunca se apaixonava por elas, nunca mesmo. O ar calmo de Rose emprestava a seu rosto um sentimento de frustração.

— As mulheres que namorei não têm porque achar que fizeram algo de errado — ouviu sua própria voz, reconhecendo ao mesmo tempo que dizer aquilo era uma fraqueza. — Seria diferente se não soubessem, desde o início, que o programa não incluía nenhum compromisso. Nenhuma pode me criticar por não ter sido justo. Os passeios no parque, as refeições caseiras, a lareira... são justamente essas pequenas cenas domésticas que poderiam lhes dar uma impressão errada... E voltando às suas queixas... — disse abruptamente Gabriel — não haverá longas horas de trabalho sem aviso prévio, nem tarefas adicionais além do definido pelo estrito dever.

— Bem, nenhuma tarefa adicional... que não tenha que ver com o trabalho — concordou Rose. — Desculpe... — sentiu-se obrigada a acrescentar, porque definir regras e regulamentos depois de quatro anos de trabalho conjunto era um ponto delicado.

— Mais alguma coisa?

— Não, isso é tudo. Gabriel, isso é só porque preciso estabelecer prioridades...

— Vamos esperar que valha a pena. — Ele se levantou, meteu as mãos nos bolsos e observou-a enquanto ela se erguia, alisando a roupa. Pelo menos esse hábito tranqüilizador não mudara!

— Vai valer — garantiu Rose, indo em direção à porta. — Vou ter que trabalhar muito mas, no fim de tudo, poderei construir uma carreira satisfatória. O que não quer dizer — apressou-se ela a acrescentar — que não tenha sido feliz trabalhando para você.

— Trabalhando comigo. Você quase me enganou... depois de tudo o que despejou em cima de mim nesta tarde.

Ambos fizeram uma pausa ao lado da porta de entrada. Seus olhares se cruzaram, olhos castanhos enfrentando olhos azul profundo. Rose teve que apoiar a mão no umbral para se firmar.

— Então você pretende ter tudo, não é? — enunciou Gabriel. — Emprego, carro, crianças e um marido que ficará em casa cuidando deles... — Ele nunca pensara que tudo aquilo pudesse interessá-la. Com honestidade irônica, tinha que confessar que, até então, pensara que ele lhe bastava.

— Quanto a isso, não saberia dizer. — Agora que ele ia embora, ela sentia que podia finalmente relaxar.

— Sou muito fora de moda para ser feliz nesse cenário do marido caseiro.

— Você ainda vê o homem como um protetor, não é verdade?

— Não, de maneira alguma! Bem, pelo menos não em termos tão simplistas. — A maneira como a meia-luz do corredor dava ângulos estranhos ao rosto dele a fascinava.

— Por quê? Concordo com você. Sou o tipo de homem que desejaria proteger minha mulher. É melhor você tomar cuidado, então. O homem das cavernas normal não se sente atraído por uma mulher que sabe caçar tão bem quanto ele. Não lute por muita independência. O feitiço pode virar contra a feiticeira.

— Jamais me sentiria atraída por um homem que se sentisse ameaçado por minha independência — disse Rose, um pouco sem fôlego demais para seu gosto, mas ele estava muito perto, não só perto como lhe dedicando uma total atenção masculina. Para evitar que visse o brilho intenso de seus olhos e o interpretasse mal, ou melhor, o interpretasse de maneira certa demais, ela disse: — E, para sua informação, posso não ser suficientemente feminista para ter um marido caseiro, mas certamente não vou querer um homem das cavernas.

Touché — disse secamente Gabriel. Ambos se empertigaram. Sentiu um impulso intenso de tocá-la, de acariciar sua face, mas, em vez disso, abriu a porta. — Mas não sou o homem das cavernas que parece achar que sou no que se refere às mulheres...

— Não? Você poderia ter me enganado.

— Você não deveria dizer coisas como essa — reprovou ele suavemente, inclinando-se em sua direção de tal maneira que ela sentiu que suas pernas poderiam dobrar a qualquer instante. — Eu poderia ficar tentado a provar que está errada.

CAPÍTULO QUATRO

Sentado num canto afastado do restaurante dos funcionários, Gabriel tinha uma boa visão de Rose, que brincava com a salada, parecendo estar a quilômetros de distância, pensando só Deus sabe em quê. Aquele mês de junho estava quebrando recordes de temperatura, com o céu sem uma nuvem. Claro que, no restaurante, todos se sentiam como se, lá fora, fosse um lindo dia de outono. O ar-condicionado central explicava por que o lugar estava tão cheio.

Talvez por isso Rose não tivesse notado sua presença, escondido entre dois empregados da área financeira e um advogado da firma, discutindo sua mais recente aquisição. Gabriel se desligara da conversa há algum tempo. Na verdade, ele nem deveria estar ali. Delegara a seu principal executivo um almoço de negócios no Savoy Grill só para poder desfrutar, despudorada-mente, daquela visão panorâmica de sua secretária.

Certamente houvera uma mudança entre eles. Antes da ida dela para a Austrália, sua relação de trabalho sempre fora exemplar. Ele não tinha certeza se isso se devia à mudança física que sofrerá, ou se tinha sido causado pela noite que tinham passado juntos, primeiro no restaurante, em seguida na casa dela, durante a qual ele percebera vislumbres torturantes da mulher de sangue quente que se escondia sob aquela aparência competente.

Gabriel sabia apenas que, durante as últimas semanas, seus olhos eram involuntariamente atraídos para ela, notando detalhes de seu rosto, como a suave chuva de sardas no nariz, os mil matizes diferentes de marrom e cobre do cabelo liso, o contraste entre os olhos castanho-claros e as pestanas escuras.

Ele se surpreendera sonhando com seu corpo no meio de reuniões, diante de seu laptop, no escritório de casa. Enquanto falava ao telefone com um cliente, observando-a pelo painel de vidro que separava seus escritórios, seu olhar recaía sobre os seios grandes delineados pelos vestidos leves e pelas finas blusas sedosas que o verão a levava a usar no trabalho. Até bem pouco tempo, ele não tinha realmente se dado conta desse corpo, escondido sob camadas de roupas escuras, pelo menos não no sentido sexual da palavra. Agora, ele parecia passar boa parte do tempo em que ficava acordado no limite de uma excitação constrangedora.

No início, tinha achado graça em sua maneira intensa de reagir a ela. Mas ficara um pouco perplexo, nem parecia que tinha passado os quatro últimos anos em sua companhia!

Muito rapidamente, no entanto, seu cérebro chegou a uma conclusão lógica: estava sofrendo de carência sexual. Há pelo menos três meses estava sem companhia feminina. A última com quem saíra, uma modelo chamada Caitlin, tinha sido uma parceira disposta e capaz, mas evidentemente quisera mais do que presentes e jantares caros e o sexo criativo que ele podia proporcionar. Sentira-se aliviado quando ela terminara com ele.

Tendo diagnosticado o problema, Gabriel resolveu solucioná-lo com a rapidez e eficiência com que atacava todos os outros. Ele simplesmente folheara seu caderninho de telefones e escolhera um nome. Conhecera a mulher em questão alguns meses antes e, durante as várias ocasiões sociais em que tinham se encontrado, ela insinuara que gostaria que ele lhe telefonasse.

Infelizmente, isso não tinha funcionado. O primeiro encontro deles fora num clube fechado, mas muito animado, um dos lugares favoritos de Gabriel, que gostava da orquestra de jazz de lá e da atmosfera descontraída. A culpa da insipidez daquela noite foi atribuída à música, que matara a conversa. O segundo tinha sido num restaurante onde não havia música, e, assim, não havia nenhuma desculpa para o fato de que passara o jantar olhando para o relógio até se dar conta de que Arianna talvez não fosse o que desejava.

Era um problema inesperado, ter uma secretária de quem estava começando a gostar, mas que soubera manter distância desde aquela noite em que tinha se soltado um pouco mais. Mas seu corpinho continuava muito sexy e ela tinha um jeito de olhá-lo por sob as pestanas que o fazia querer fechar aquela maldita porta de comunicação com um pontapé, agarrá-la e fazer com ela tudo o que desejava sobre a grande mesa de mogno.

Sam Stewart, o advogado da firma, interrompeu aquele agradável sonho acordado que comportava Musas rasgadas e o arrancar de sutiãs de renda branca, com uma pergunta sobre o fundo de pensões de uma firma com quem estavam negociando. Quando Gabriel voltou à tona, notou que tinha perdido a maior parte daquela conversa tão importante e voltou sua atenção ao assunto em pauta. Nesse instante, Rose estava se levantando, olhando o relógio e alisando a saia, preparando-se para voltar ao escritório, onde ficaria até às 17h30 — quando arrumaria sua mesa e lhe desejaria cortesmente boa-noite.

Muito mais tarde, depois de uma noite passada sobre relatórios, em companhia de um copo de vinho branco gelado e um concerto de Mozart, Gabriel se deu conta de que essa situação preocupante requeria, providências urgentes.

A única solução para o problema estava na cama. Literalmente. Esse pensamento foi suficiente para fazer seu corpo enrijecer, em resposta imediata.

Na manhã seguinte, telefonou às 9hl5 para o escritório, e Rose atendeu.

— Você já não devia estar aqui, Gabriel? Conferi duas vezes as agendas, você tem uma reunião às 11h com a equipe Shipley...

— Desmarque todas as minhas reuniões de hoje, Rose. Frank pode resolver sozinho o caso da Shipley ou levar Jenkins com ele, para o caso de quererem uma opinião técnica.

— Onde é que você estar — Era tão raro que Gabriel fizesse algo imprevisto durante suas horas de trabalho que Rose sentiu um arrepio físico de apreensão.

— Em casa. Estou me sentindo mal.

— Você está se sentindo mal. Está doente! Mas você nunca fica doente, Gabriel!

— Diga isso aos estreptococos que invadiram minha garganta — disse ele, pigarreando de maneira convincente.

Rose pensou que, como um típico macho sem resistência, Gabriel simplesmente cedera a um resfriado, ou então estava realmente doente, a ponto de ir para o hospital.

— Mas você estava bem ontem — disse ela. — Tem certeza de que...você não está apenas com uma ressaca?

— Acho que tenho idade e experiência bastante para reconhecer quando estou de ressaca — respondeu Gabriel.

— Então você pegou apenas um micróbio. Há alguns pairando por aí. Vou cancelar suas reuniões e, ao longo do dia, você me dirá se tenho que marcar outras ou cancelar as que você marcou para amanhã.

— Você vai ter que vir aqui, Rose.

— Como disse?

— Vou precisar que você digite um material urgente para mim.

— Você não pode trabalhar se está doente!

— Você sabe meu endereço, não sabe?

— Não posso ir à sua casa, Gabriel!

— Por quê?

— Porque... porque tenho muito o que fazer aqui...

— Há muito que ser feito aqui também. Pegue um papel e anote meu endereço. E pelo amor de Deus, pegue um táxi. Quero que você esteja aqui antes do fim da semana.

— Mas...

— Estou me mantendo estritamente dentro de seu horário de expediente, Rose. Não estou lhe pedindo que trabalhe até mais tarde, apenas que mude de local de trabalho por umas duas horas. E então, pegou o lápis? — Sem lhe dar tempo de protestar, Gabriel ditou depressa o endereço e o repetiu lentamente. — Anotou direitinho?

— Sim, mas...

— Você deve levar uma meia hora para chegar aqui, mesmo com um pouco de trânsito. Eu a verei então por volta das 10h. Vou deixar a porta da frente aberta para que você possa entrar sem problema — desligou.

Rose ficou olhando para o telefone mudo durante alguns minutos, ordenando seus pensamentos. Dificilmente acreditava que Gabriel estivesse doente o bastante para tirar um dia de folga, ele era tão enérgico! Ficou olhando para o papel com o endereço. Quando imaginava que teria que ir à sua casa, apartamento, estúdio ou onde quer que ele morasse, ela se sentia fisicamente debilitada. Mas... e se ele estivesse realmente doente? Ela não podia imaginá-lo indo sozinho ao médico. Sabe Deus se tinha um médico!

Um mau pressentimento a fez juntar suas coisas rapidamente. Todos os CDs de que poderia precisar, o laptop que a firma colocara à sua disposição, algumas correspondências que necessitavam ser conferidas, cartas que precisavam da assinatura de Gabriel. Então remarcou seus compromissos e comunicou-s,e com as pessoas do setor financeiro que teriam que se responsabilizar pelas tarefas de Gabriel, pelo menos durante aquele dia. E tomou um táxi que acabara de deixar um passageiro bem em frente ao escritório.

Ao fechar a porta do táxi e dar o endereço de Gabriel ao motorista, já começou a sentir as faces acaloradas, a blusa de mangas curtas se colar ao corpo. A saia estampada com flores, que lhe parecera tão fresca esta manhã, começou a apertá-la horrivelmente. Mesmo seus cabelos pareciam colar-se ao crânio, fazendo-a desejar que os tivesse prendido.

Ao olhar pela janela, viu que todo mundo se sentia tão desconfortável quanto ela: rostos avermelhados, leques improvisados, pescoços suados.

Mas pelo menos o desconforto deles parava aí. Ela ia penetrar pela primeira vez no território de Gabriel e esperava que a vizinhança não fosse muito imponente.

Soube que se enganara tão logo o táxi parou diante de uma imponente casa vitoriana, localizada numa rua grã-fina em forma de meia-lua, com carros de luxo estacionados um atrás do outro. Ela pagou ao motorista e pediu um recibo, enquanto olhava impressionada aquela fileira de casas tão conservadas.

Como ele prometera, a porta não estava fechada a chave. Então ela entrou... na casa dele. O termo casa vitoriana era muito pouco imaginativo para o lugar onde se encontrava. O piso era de uma rica madeira escura, apenas interrompido no vestíbulo por um tapete de impressionante padrão geométrico azul e vermelho; as paredes creme serviam de mostruário para obras de arte que pareciam terrivelmente caras.

Rose resistiu ao impulso de dar uma olhadinha nos outros quartos e se dirigiu para a escada.

— Já cheguei!

Foi apanhada de surpresa pela voz dele, vinda de trás, e, virando-se, o viu de pé ao lado de uma porta. Ou melhor dizendo, pensou, indolentemente recostado na porta, vestido com um roupão de seda preta atado frouxamente ao redor da cintura, deixando entrever a pele nua.

O coração de Rose se acelerou e ela quase gritou, esforçando-se para não olhar as pernas nuas cobertas de pêlos pretos, a faixa de peito bronzeado que emergia das lapelas entreabertas. Será que pelo menos estava usando alguma roupa de baixo?, pensou ela.

— Estava esperando você mais cedo. Feche a porta da frente, por favor.

Rose obedeceu aliviada. Qualquer coisa que a protegesse dessa visão de Gabriel Gessi com tão pouca roupa era bem-vinda.

Quando voltou, ele tinha desaparecido num quarto, para onde ela se dirigiu.

O quarto era espantoso, não pelo tamanho, mas pela decoração. Azuis ricos e profundos forneciam um pano de fundo dramático ao piso de tábuas corridas e às paredes cobertas de estantes. As janelas de guilhotina estavam recobertas por camadas de musselina que se acumulavam sobre o chão. A peça era dominada por uma grande mesa de trabalho com todos os aparelhos modernos: um grande computador, um laptop, um fax, dois telefones. A única parede que não fora ocupada por estantes ou janelas ostentava um sofá longo e baixo, forrado num rico estampado Paisley, cuja beleza só era prejudicada pelo travesseiro e pelos lençóis.

Gabriel, constatou ela, estava deitado nesse sofá, olhando-a de maneira divertida enquanto ela observava o ambiente.

— Culpe minha mãe e minha irmã pela decoração. Por mim, queria tudo branco. Bem, não fique parada aí de boca aberta. Sente-se!

— Onde?


— Ora, só há uma cadeira disponível, não? A menos que queira sentar-se ao meu lado, aqui no sofá? — Ele bateu com a mão sobre o sofá e Rose rapidamente sentou-se atrás da mesa, pronta para a ação. Chegou mesmo a pegar a pilha de cartas que trouxera e começou a ordená-las por ordem de prioridade, esperando que lhe dissesse por onde queria começar. Sem olhar para ele, porque todo aquele corpo exposto tinha conseqüências desastrosas sobre seu sistema nervoso.

— Não vai me perguntar como estou?

— Desculpe... — Rose olhou para ele, perturbada. — Como está se sentindo, Gabriel?

— Muito mal.

— Você não parece tão mal assim — arriscou ela, dizendo a verdade.

— Porque estou enfrentando a situação com coragem. Mas tive uma noite horrível, sem descansar, rolando de um lado para o outro na cama.

Rose engoliu em seco. Seu pensamento a levou a imaginar Gabriel numa cama king size, seu corpo nu e Poderoso se debatendo. Ela se sentiu desfalecer.

— Nesse caso, deveríamos terminar as coisas aqui o mais rapidamente possível, para que você possa dormir um pouco! É a melhor maneira de se curar. Por onde quer que comecemos? Trouxe a correspondência; pensei que você poderia querer dar uma olhadinha nela...

— O que eu gostaria mesmo — disse Gabriel, fechando os olhos — era de comer alguma coisa. Sei que isso vai além de suas funções e você tem todo o direito de recusar... mas não como... hummm... talvez desde ontem, na hora do almoço.

— Você me fez vir até aqui para cozinhar para você?

Gabriel a encarou através de olhos semicerrados e se perguntou se deveria dizer a ela que esse tom de voz particular não tinha nada de atraente. O que havia de errado em cozinhar para ele? Não lhe pedira que assaltasse um banco! Ele perdera a conta das mulheres que ansiavam por entrar em sua cozinha e começar a fazer mágica com as frigideiras!

— Esqueça isso — disse Gabriel abruptamente. — Deveria saber que seria impensável lhe causar algum incômodo. Eu mesmo faço — começou a se erguer do sofá, mas Rose sacudiu relutantemente a cabeça.

— O que é que você quer comer?

Gabriel jogou-se de novo no sofá e pousou os sonolentos olhos azuis sobre ela.

— Você parece estar com calor.

Estou com calor. — Rose ergueu o cabelo com uma das mãos e fez um rabo-de-cavalo, de maneira a poder abanar a nuca. Gabriel se perguntou se ela tinha

idéia de como estava provocante, como suas roupas delineavam o movimento de seus seios fartos.

— Você poderia tirar a roupa... — Ele se permitiu uma pausa ínfima. — E colocar algo mais fresco. Minhas irmãs costumam deixar algumas roupas lá em cima, nos quartos que elas usam; acho que são mais ou menos do seu tamanho. Você poderia pegar algumas emprestadas.

— Não! — disse Rose, horrorizada. Ela ainda ficava francamente horrorizada com a idéia de usar roupas de outras pessoas — sobretudo se, para isso, tivesse de tirar as suas... na casa de Gabriel...

— Foi só uma sugestão.

— Obrigada pelo oferecimento, mas estou bem. Agora, diga-me o que quer comer, verei o que posso fazer. Um sanduíche? Frutas?

— Uma omelete. Com torradas. E também um pouco de café... não, um chá, acho que é preferível quando se está doente. Com açúcar.

—Ah, espere um pouco. Vou pegar meu bloco para poder anotar isso tudo.

Gabriel sorriu. Sempre tinha apreciado seu seco senso de humor.

— Pense que está fazendo uma caridade para um homem doente.

— Só se você pensar que está se aproveitando de uma secretária de boa índole. — Rose saiu da sala ao som de seu riso tranqüilo. A casa não era uma mansão e ela conseguiu localizar a cozinha sem muita dificuldade. Era um paraíso de um homem rico e solteiro. Balcões de mármore negro, dupla geladeira cromada com congelador e distribuidor de gelo na porta, cafeteira elétrica que parecia requerer um diploma em eletrônica para ser manejada. Todo esse equipamento parecia ter sido raramente usado, o que significava que ou ele cozinhava para si próprio muito pouco ou tinha um produto de limpeza extremamente eficaz. A frigideira brilhava. Era quase um crime usá-la para algo corriqueiro como preparar comida.

Meia hora mais tarde ela ainda o encontrou re-costado no sofá. O roupão de seda negra revelava de maneira ainda mais pecaminosa o peito musculoso, e Rose pigarreou significativamente, para lhe dar tempo de se cobrir, o que ele não fez. Ele apenas se sentou, apoiando-se contra o braço de madeira do sofá.

— O cheiro está delicioso. Onde você encontrou essa bandeja?

Rose ergueu as sobrancelhas de maneira interrogadora, embora não se espantasse por ele não saber o que tinha em sua cozinha.

—Metida num buraco entre dois armários. Ninguém pensaria que já foi usada. Como o resto das coisas na cozinha. — Ela colocou a bandeja em seu colo, desviando os olhos da faixa tentadora de pele morena.

— Não cozinho muito — concordou Gabriel, metendo a comida na boca com evidente entusiasmo.

— Para dizer a verdade — e ele parou para olhá-la

— a última vez que comi em casa foi... há três meses, quando voltei de uma semana na Itália.

— Você não pode comer o tempo todo fora, Gabriel! — Rose mostrou-se chocada com esta idéia.

— É pouco prático, independentemente da despesa.

— Por quê?

— Porque... é. Não é nutritivo.

— Você cozinha todos os dias para você?

— Sim, claro, adoro cozinhar. É extremamente re-laxante.

— Talvez você possa vir cozinhar para mim de vez em quando. — Ele viu a expressão em seu rosto e reteve sua repentina impaciência. — É só uma brincadeira, Rose. Não há necessidade de pedir os sais por medo de desmaiar só de pensar nisso.

— Minha comida não é sofisticada — disse ela, tentando acalmar um pouco a situação. Um Gabriel confinado podia se tornar perigoso, especialmente agora que as fronteiras entre eles tinham se diluído. — Não é o tipo de comida que você aprecia.

— Estou gostando dessa aqui.

— Pare de ser difícil, Gabriel. Você entendeu o que quero dizer.

— Você sabe que é a única mulher que pode falar assim comigo? Além de minha mãe e, claro, de minhas irmãs, que pensam ter o dever de me manter em meu lugar.

Rose sorriu ao pensar que alguém podia tentar manter Gabriel em seu lugar.

— O que autoriza você a pensar que sabe o tipo de comida de que eu gosto?

Era sua imaginação ou ele estava prolongando esse café-da-manhã? Normalmente Gabriel trabalhava a pleno vapor, parando apenas para respirar. Não era o jeito dele, chamá-la com urgência apenas para bater papo.

— Não tenho a menor idéia. — Rose deu de ombros e olhou seus dedos, em cujas unhas tinha aplicado esmalte rosa pálido no dia anterior. Estava gostando do jeito delas, faziam com que se sentisse muito feminina.

— E os cursos, já descobriu algum que lhe convenha? Já se decidiu por algum? — Como sua tentativa de levar a conversa para um terreno mais pessoal não estava dando frutos, Gabriel mudou de rumo.

Ele não sabia exatamente porque tinha se metido nessa farsa ridícula. Sentia-se em plena forma, mas fora incapaz de resistir ao impulso de fazê-la vir ao seu território, para ver como ele era quando estava nele. Por quê? Ele se achava acima da curiosidade sexual, mas claramente não estava, considerando que tivera que encontrar uma desculpa idiota para que ela viesse à sua casa num dia de semana, quando ele deveria estar em reunião. Que diabos, ele trabalhava quase todas as horas do dia, decidiu ele, calando sua consciência culpada. Merecia uma pausa de vez em quando. E quando fora mesmo a última vez que uma mulher povoara sua imaginação?

— Sim, acho que sim. — Ela ruborizou e olhou de novo para as unhas. Se ele soubesse que a pesquisa de um curso a tinha levado para terrenos muito interessantes...

— Você acha? E já não deveria ter-se inscrito?

— Na verdade, já me inscrevi.

Os olhos de Gabriel se apertaram, fixando seu rosto embaraçado. Sentia que ela estava lhe escondendo alguma coisa e perguntou-se o que seria. Não precisaria assumir esse ar de segredo para discutir cursos de administração de empresas. Passou-lhe pela cabeça que sua eficiente secretária não tinha se inscrito em nenhum curso de administração de empresas, mas talvez num curso de pole dancing. Isso sim poderia deixar seu rosto ruborizado de culpa.

— E? — provocou ele.

— Começa no início de outubro, mas terei que tirar um dia em setembro para a orientação. Eu lhe informarei quando chegar a hora.

— E o que mais?

— O quê?


— Tudo aquilo que você ainda pretende jogar para cima de mim?

— Não há mais nada a dizer! Se está tão interessado, posso lhe mostrar os prospectos. — Quando não estava de bom humor, como agora, Gabriel podia levar a loucura a um alto grau de requinte, olhando-a de um modo que fazia seu estômago revirar, abrindo caminho em sua vida privada como um rolo compressor, mesmo que ela tivesse mostrado claramente que queria mantê-lo afastado.

— Vamos voltar para o trabalho?

Rose ficou surpreendida com a nova mudança de rumo, mas topou alegremente Meia hora depois, seu pulso e sua voz haviam voltado ao normal.

Ela olhou para o relógio, já era hora do almoço. Haviam trabalhado intensamente por quase três horas!

— Vamos parar. — Gabriel a observou enquanto ela flexionava os dedos e tentava se descontrair. — Venha aqui.

— O que disse?

— Venha aqui.

Obedientemente, Rose reuniu seu material e se aproximou dele.

— Sente-se. — Gabriel moveu as pernas, abrindo um espaço a seu lado, no sofá. — Não se preocupe, não mordo... — A hesitação dela tinha algo de extremamente feminino. Era uma mudança refrescante no que dizia respeito a mulheres tão sexualmente agressivas como os homens, que não precisavam de convite para se aproximar e se comportar como se fossem íntimas.

— Não quero pegar nada.

— Você não vai se contagiar. — Como isso era verdade, pensou ele ironicamente. — Vou simplesmente massagear seus ombros, para livrá-la dessa tensão. Venha, sente-se aqui. Sou um excelente massagista.

Rose respirou fundo. Suas juntas ficaram brancas quando se agarrou desesperadamente à pilha de papéis. Ele estava falando sério? Massagear suas costas? Que sugestão maluca! Deu um passo para trás, mas depois pensou que poderia estar reagindo excessivamente, ele não encostaria um dedo nela. Recuou ainda dois passos mais e foi aí que as coisas aconteceram. Era a Lei de Murphy, pensou ela, lutando para se levantar, esse raio de tamborete tinha que estar justo atrás de seu tornozelo esquerdo. Somente mais tarde, Rose se deu conta de que, para alguém que estava supostamente doente, Gabriel tinha se levantado do sofá com uma celeridade espantosa e, horror dos horrores, estava inclinado sobre ela, o roupão escancarado, permitindo que percebesse, num relance, suas cuecas.

Meu Deus, será que as coisas podiam ficar ainda piores?

Rose conseguiu se levantar e puxar a saia para baixo, justo no momento em que Gabriel a agarrou, ignorando seus gritinhos de desespero. A saia subiu de novo expondo um grande pedaço das coxas. Os braços em volta dela pareciam de aço, forçando sua cabeça em direção a seu peito nu.

Todo esse episódio deve ter durado cinco segundos no total, mas para Rose foi uma eternidade. Tudo parecia se passar em câmara lenta, até que ele a pôs no sofá e se ajoelhou diante dela.

— O que você está fazendo?

— Gire seu pé. Você caiu de mau jeito, precisamos nos assegurar de que não torceu nada.

— Estou bem.

— Se você não tivesse se precipitado como um coelhinho assustado, não teria tropeçado.

Rose teve vontade de quebrar a cabeça dele com o objeto mais próximo.

— Se você não tivesse sido...

— Tivesse sido o quê?

— Você se incomoda em me devolver meu pé? — Ele tirara o sapato dela e estava massageando seu pé, os dedos trabalhando a sola macia, girando-o com uma pressão deliciosa até ela ter vontade de gritar ou de gemer. — Não há nada errado com ele! Está tudo bem!

— Não tivesse sido o quê? — Gabriel se levantou, ficando na mesma altura que ela e perigosamente próximo. Ela poderia escorregar facilmente a mão sob o roupão de seda. Quatro anos de fantasias a varreram como uma onda na maré alta e Rose fechou os olhos.

— Então?


Ela reabriu os olhos e percebeu que ele estava ainda mais perto. Divertindo-se. Aqueles olhos que pretendiam ser sérios e interessados escondiam um sorriso. Ela tentou desesperadamente combater o efeito que ele tinha sobre ela. Não era justo! Quatro anos lutando contra essa atração letal e, de repente, aquele homem decidira que podia ser divertido flertar com ela, quando não tinha nada melhor a fazer.

Cada fibra de seu ser lamentava a decisão que tomara de ficar lá um pouco mais.

— Se você não estivesse flertando comigo... — disse Rose friamente. — Isso é bem pouco apropriado. Esperava mais de você.

— Flertando... — Ele inclinou a cabeça para um lado, como se estivesse refletindo sobre o novo conceito. — Você tem razão. Talvez flertar não seja uma má idéia. Talvez... — Sua voz era macia como veludo e rica de uma sexualidade velada. — É isso que eu realmente deveria ter feito...

O tempo permaneceu estático durante três segundos. Sua boca procurou a dela com delicada curiosidade, depois com uma urgência febril, que a fez agarrar-se a ele, igualando seu desejo ao dela. A dura realidade levou dez segundos para se manifestar.

— Não faça isso! — Rose o empurrou de maneira tão violenta que ele tropeçou para trás, dando-lhe tempo de se afastar dele. — Como é que você se atrever.

Gabriel se levantou, mas não estava zangado. De jeito nenhum. O que era ainda mais amedrontador. A expressão em seu rosto deixava ver que ele resolvera alguma coisa em sua cabeça.

— Vou fazer de conta que isso nunca aconteceu — falou Rose por entre os dentes. — Mas se acontecer de novo, vou embora! Está me ouvindo? — Ela enfiou o pé no sapato e inclinou-se para pegar todos os papéis, de qualquer jeito. O silêncio dele era desconcertante. Ela sentia que ele a estava observando. Será que se dava conta de como seus seios ainda estavam palpitantes, ansiando para serem acariciados? Ou da umidade que invadia o vão entre suas pernas, orvalho de mel gritando por seu toque? Rose queria morrer mil mortes. Finalmente, ela conseguiu apanhar os últimos papéis e o encarou com um olhar gelado.

— Está bem. — Gabriel olhou para ela. — Vamos fazer isso. Vou fingir que isso nunca aconteceu e você pode fingir que não queria que isso acontecesse...

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