Cathy williams



Baixar 0.49 Mb.
Página4/8
Encontro29.07.2016
Tamanho0.49 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

CAPITULO CINCO

As entrevistas não estavam correndo como Rose imaginara. Ela previra encontrar e acomodar rapidamente alguém de forma que, em tempo hábil, ela pudesse entregar de novo a Gabriel a carta de demissão e ir embora, desta vez com a consciência tranqüila.

Gabriel a estava deixando louca. Ele nunca mais mencionara aquele beijo, mas cada vez que chegava a dois passos dela, ela podia sentir seu corpo ficar tenso por antecipação, receando qualquer contato físico.

Não faltaram ocasiões para isso. Um leve toque de seus dedos no braço dela, quando se inclinava para ler sobre seu ombro, um roçar de dedos quando ela lhe entregava a xícara de café ou quando ele se sentava perto dela para verificar algum detalhe de um relatório sobre o qual ambos trabalhavam.

Seu corpo não lhe permitia fingir que nada acontecera. Bastava ele chegar perto e ela se sentia desfalecer. O desafio da semana anterior, de que ele fingiria esquecer o que acontecera se ela pudesse fingir que não queria que aquilo acontecesse, se mostrara profético.

Daí seu crescente desespero para achar o mais rapidamente possível alguém que pudesse substituí-la. E Gabriel estava se mostrando muito pouco cooperativo. Eles tinham passado assim os três últimos dias, lendo currículos e entrevistando candidatas, cada vez que Gabriel tinha um momento livre. Duas que pareciam preencher as exigências tinham sido recusadas por Gabriel, sob o pretexto de que não podia se ver numa relação de trabalho prolongada e sem problemas com nenhuma delas.

— Mas seria apenas por dois dias na semana — murmurou Rose de maneira pouco convincente porque, em sua cabeça, já tinha planejado sua substituição em tempo integral,

— Será? —perguntou ele, soturno; e ela lhe devolveu um sorriso meio sem graça.

Às 17h30, eles tinham justamente acabado de ver a última daquele dia e Rose pressentia que seria mais uma entrevista inútil.

Ela detestava a hora em que era obrigada a descer para a grande área de recepção, fazendo o máximo para evitar perguntas precisas e ansiosas sobre o resultado da entrevista. Esta tarde até que não fora muito ruim. As escassas qualificações de Elaine Forbes haviam tornado a rejeição mais fácil do que de hábito. Cinco minutos para prestar contas a Gabriel e ela poderia começar seu fim de semana.

Quando ela voltou à sua sala, ele estava reclinado na cadeira dela, com os pés em cima da mesa e as mãos cruzadas atrás da cabeça.

— Então? — perguntou. — O que achou da senhora Forbes?

— Acho que podemos riscar seu nome da lista — disse-lhe Rose, juntando suas coisas para ir embora. Ela podia sentir seus olhos sobre ela e odiou-se quando percebeu que estava excitada. Ela também detestava quando ele invadia seu espaço. Era muito mais fácil sair do escritório dele e fechar a porta.

— O que a faz dizer isso? — perguntou Gabriel com voz surpresa, e Rose parou para lançar-lhe um olhar preconceituoso.

— Ah, sei lá, Gabriel. Talvez sua espantosa incompetência em dominar o teste básico que lhe apliquei para verificar sua familiaridade com nosso sistema de computação. Ou talvez a lentidão e incapacidade em tomar notas precisas do que eu estava ditando. — Rose conhecia Gabriel bastante bem para saber que não costumava repetir o que dizia e esperava uma compreensão imediata. Ele não gostava de pessoas desajeitadas e Elaine Forbes tinha se comportado assim durante todo o tempo.

— Ela era extremamente atraente, você notou?

Rose enrubesceu. Sim, ela se dera conta, impossível não fazê-lo. Um metro e oitenta de curvas dentro de uma microssaia e um bustiê que mal lhe chegava à cintura. Sob os longos cabelos louros, seus imensos olhos verdes mediram Gabriel de alto a baixo e claramente não o acharam insatisfatório.

— Não sei o que isso tem a ver com o resto.

— Seu currículo não suportava um exame mais profundo — disse ela, irritada com o sorriso que brincava no canto de seus lábios.

— O que não quer dizer que não sejamos capazes de fazê-la aumentar um pouco sua velocidade. Desde que tenha a atitude correta...

— E como... — começou a dizer Rose, correndo o risco de perder o controle — você definiria uma atitude correta'?

— A habilidade de trabalhar comigo em perfeita harmonia. Quer dizer, fazer o que eu quiser sem se queixar.

Rose esteve a ponto de perguntar se ele tinha um problema com ela apenas porque ousara fazer duas pequenas queixas em quatro anos, mas se deu conta de que ele estava brincando.

— Ah, ah, ah.

— Admito que ela não tem as qualidades intelectuais para preencher a vaga — concedeu Gabriel — apesar de todas as outras vantagens tão evidentes.

Rose estava ficando cansada de ser provocada.

— Realmente, Gabriel, tenho que ir embora.

— Calma.


— Bem, não há muito mais a dizer sobre a senhorita Forbes. Fico satisfeita em ver que estamos de acordo sobre o fato de que a pessoa que preencher o cargo deverá possuir mais do que pernas longas, cabelos compridos e belos seios.

— Não quero prolongar a discussão sobre a adorável senhorita Forbes. Ia dizer a você que preciso mandar alguns e-mails ainda hoje. Você terá que ficar mais uma hora ou duas. — Ele estendeu as mãos, como se estivesse se defendendo de um possível ataque. — Sei que isso provavelmente afeta sua noção de cumprimento de horário, mas gostaria de lembrá-la de que seu salário é muito generoso.

— Nenhum problema em trabalhar uma ou duas horas a mais, Gabriel. Você sabe disso! Só tenho problemas quando você me pede para trabalhar numas horas ridículas e, como vou estudar, preciso definir prioridades.

Gabriel estava começando a se perguntar como nunca notara aquele lado suscetível, provocador, da personalidade de sua perfeita secretária. Como pudera algum dia achar que ela o apaziguava? Ela era tão capaz de apaziguar quanto um tubarão sedento de sangue. Felizmente, ele era homem bastante para enfrentar qualquer tipo de tubarão e ainda se divertir com a luta árdua. Agorinha mesmo, ele se divertira muito ao vê-la ficar toda cor-de-rosa porque a provocara. Fora a atração que sentia, ele apreciava também o fato de ver que, sob aquela aparência fria e cuidadosamente cultivada, que o enganara por tanto tempo, ela reagia a ele enquanto homem. Tinha certeza de que ela não conseguira relegar aquele beijo ao fundo de sua memória, da mesma maneira que ele não fora capaz de esquecê-lo. Sentir seus frios lábios contra os dele, pensar, naquele instante passageiro em que ela correspondera ao beijo com um calor que não pudera disfarçar, era o bastante para fazê-lo ficar excitado como um adolescente na agonia de sua primeira paixão.

— Sei disso! Fico contente em saber que você não vê nenhum inconveniente em terminar este trabalho. — Ele se esticou e esfregou a nuca. — Se você vier para o meu escritório, podemos começar baixando os arquivos de que vamos precisar. Você tem minha palavra de que não a reterei além da meia-noite, hora das bruxas.

— Receio que haja um certo problema para hoje à noite — disse ela meio sem jeito, acompanhando-o, mas ficando na porta, com as mãos nos bolsos do blazer.

Gabriel, que estava inclinado sobre a mesa, preparando o computador, a encarou e franziu o cenho.

— Pensei que tivéssemos resolvido isso — disse abruptamente.

— Você não está entendendo. Não posso trabalhar hoje à noite porque estou ocupada...

— Você está ocupada?

Ele parecia estar realmente chocado. Durante os quatro anos que trabalhara para ele, Rose raramente negara seus pedidos para trabalhar além da hora, pois colocava o trabalho acima de tudo. Com o passar do tempo, formara a idéia de que ela não tinha vida social, nada que a distraísse de sua dedicação servil a ele.

Ela sentiu um arrepio travesso de prazer ao esclarecer a situação.

— Estou ocupada — repetiu, com uma ligeira inclinação de cabeça. — Posso trabalhar até tarde na segunda-feira.

— Não vai ser possível esperar até lá — disse Gabriel irritado. — Coisas deste porte não podem esperar indefinidamente, Rose. Os negócios não tiram férias...

Isso era o frio humor sarcástico de Gabriel, a voz que reservava para quando estava verdadeiramente irado. Não chegara àquelas alturas sendo bondoso, contido e tendo consideração pelos outros. Por mais encantador, bem-humorado e descontraído que fosse, havia sempre a mão de ferro sob a luva de pelica.

— Bem, Gabriel, não posso fazer nada quanto a isso. Se quiser, posso ver se Emily está livre e não se importa de trabalhar hoje até tarde

— Tenho uma idéia melhor. Por que não cancela o que vai fazer? Diga às suas amigas que, por mim, estão todas convidadas para sair na semana que vem, onde quiserem ir, pouco importa o preço. Uma espécie de compensação pela inconveniência.

— Não vou sair com minhas amigas — respondeu Rose.

— Não?

— Não.


— Então o que é tão importante que você não pode cancelar...?

— Realmente, Gabriel, você não tem nada a ver com isso. — Ela não entendia por que estava resistindo tanto, ela não estava escondendo nenhum segredo vergonhoso...

— Creio que mereço uma desculpa decente...

Vou sair com um homem, se quer saber. Vou ao teatro ver Les misérables. Sempre quis ver essa peça, mas as entradas estavam sempre esgotadas. Depois, Joe e eu vamos comer alguma coisa. Você vê que realmente não posso ficar até mais tarde esta noite. Lamento.



Teatro? Joe? Mas quem diabos será esse Joe? Uma aventura passageira?

— Vou ter que ir ou vou chegar atrasada.

— Quem é esse tal de Joe?

— Tenha um bom fim de semana; até segunda-feira, Gabriel. — Com essas palavras, Rose desapareceu, movendo-se depressa a fim de evitar uma enxurrada de perguntas por parte de Gabriel. Ela só respirou aliviada quando já estava no táxi, e só ficou totalmente descontraída ao parar na porta do teatro e ver Joe acenando para ela no meio da multidão.

Ia ser o primeiro encontro deles, e Rose hesitava entre ansiedade e apreensão. Afinal de contas, ela não o conhecia tão bem assim. Eles tinham se encontrado apenas umas poucas vezes antes disso. Rose tinha ido a uma das faculdades de sua lista e, ao buscar o departamento de administração, terminara batendo na porta errada. Felizmente para ela, fora Joe quem abrira aquela porta. Ele se mostrara tão simpático e a ajudara tanto que, enquanto tomavam café na cantina da faculdade, Rose se viu fazendo-lhe confidencias sobre sua completa ignorância do sistema de educação a distância. Espantou-se também ao se ver rodeada de estudantes carregando laptops, com iPods nos ouvidos, que a faziam se sentir como se pertencesse a uma outra era. Numa tentativa de se misturar, pusera jeans e tênis para ir à faculdade, mas suas roupas eram da marca errada, um pouco fora de moda. O curso não era exatamente o que ela desejava, e aquela faculdade fora descartada, mas ela tinha feito um novo amigo, eles trocaram telefones e uma crescente amizade desabrochara a partir desse encontro peculiar. Rose não sabia ainda quais seriam as conseqüências disso, mas queria ver onde esse caminho ia dar.

A noite foi um grande sucesso. A peça foi ótima, e eles conversaram sobre ela, entre mil outras coisas, durante um jantar bastante tardio. Ela chegou mesmo a lhe falar de Gabriel e de seus modos imprevisíveis. Depois, falaram tranqüilamente sobre o que Joe fazia e, antes que ela se desse conta, passava da meia-noite, e ele foi chamar um táxi para ela.

— Acho que já é hora de perguntar se você se arriscará a sair comigo outra vez — disse ele, segurando-a e beijando-a na testa. Um fim perfeito para uma noite perfeita, pensou Rose. Nenhuma pressão para irem para a cama, nenhuma agressividade. E, além do mais, ele era uma gracinha: cabelos louros, olhos azuis que se franziam quando sorria, e ele sorria bastante.

— Acho que consigo fazer isso... — disse Rose, sorrindo de volta para ele. — A noite foi ótima.

— E acabamos não discutindo que tipo de curso você escolheu finalmente.

— Ah, essa é a conversa mais fascinante do mundo!

— Extremamente fascinante. Não se esqueça de que sou um educador. Gosto de saber o que interessa a vocês, estudantes. — Ele sorriu de novo e se virou para abrir a porta do carro para ela, — Portanto, não tem desculpa, temos que nos encontrar de novo. Ligo para você na segunda-feira assim que acordar. 0 monstro do seu patrão permite que você use o telefone para chamadas pessoais ou tenho que ligar para o celular?

— Para o celular... — disse Rose depressa. — Sem dúvida, para o celular.

— Será que ele vai amarrar você ao computador e forçá-la a digitar mil vezes... Não devo desobedecer às regras da firma...

— Ah, não. Gabriel é muito justo.

— Estava brincando, Rose — interrompeu gentilmente Joe. — Agora, dê o fora, Cinderela, antes que o táxi decida deixá-la para trás. Ligo para você segunda-feira.

Ele o faria. Havia em Joe essa confiabilidade que todas as mulheres desejam. Se dizia que iria telefonar, ele o faria. Ela foi dormir murmurando que ele era um homem decente, incapaz de enganar uma mulher ou achar que ter carinho equivalia a dar presentes caros. Mas tampouco era um homem capaz de deixá-la arrepiada cada vez que se aproximava dela.

Seu andar era saltitante quando chegou ao trabalho na segunda-feira seguinte. Joe lhe tinha enviado algumas pequenas mensagens, fazendo-a rir com suas histórias.

Quando ela chegou, Gabriel já estava em sua escrivaninha e, a julgar pelas mangas arregaçadas e ausência de gravata, já estava lá há algum tempo. E não parecia estar em seu melhor humor.

Rose decidiu que não permitiria que isso a desanimasse. Antes de entrar no escritório, apanhou um café para ele e manteve seu sorriso quando ele ergueu a cabeça e franziu o cenho para ela.

— Fico feliz em ver que pelo menos um de nós teve um bom fim de semana.

— Bom dia, Gabriel! — Ela se sentou em sua cadeira habitual, diante da escrivaninha dele, bloco no colo, pronta para começar o dia. Ele apenas grunhiu.

— Trouxe café para você. Há alguma coisa urgente ou devo apenas abrir os e-mails de sexta-feira? Não se esqueça de que ainda temos duas pessoas para ver esta tarde. Já fiz entrevistas preliminares com cada uma delas e ambas parecem promissoras.

— Cancele-as.

— O quê? Por quê?

— Porque um de nossos prédios no Caribe está com a construção atrasada e, como há uma restrição de equipamentos essenciais, temos que resolver isso antes do fim da semana, de preferência antes do fim do dia.

— Por que tanta urgência? — Rose sabia bem de que empreendimento específico se tratava. Desde o primeiro dia, tinham tido problemas com ele. A ilha era muito pequena e de difícil acesso. Nas primeiras fases da construção tinha sido um pesadelo embarcar o material, e as coisas, tinham prosseguido assim. Esse empreendimento perdera sua atração como projeto comercial mas, por seu jeito de falar, ela sabia que Gabriel desenvolvera uma espécie de afeição por aquele lugar. O projeto original do hotel tinha gradualmente se transformado em uma vila implantada sobre o lado selvagem do Atlântico, mais apropriada para uma residência privada do que para um local turístico. Gabriel acalentava agora o plano de transformá-la numa casa de campo exclusiva de 14 quartos, que seria alugada a firmas, para férias coletivas, ou então a pessoas extremamente ricas.

— Parece que há um furacão se aproximando. Eileen está varrendo tudo em direção à Flórida, mas pode ser que se desvie de seu itinerário. Se vier em nossa direção, isso seria fatal para o projeto. A construção não tem sequer tijolos suficientes para agüentar um furacão de nível quatro.

— Vou ver o que posso fazer... — disse Rose, pensando consigo mesma que não podia fazer nada. Pelo que lera nos arquivos, a infra-estrutura da ilha era mínima: algumas lojas, uma escola, transporte para ir e voltar da ilha. Os negócios aconteciam em terra firme, na maior parte das vezes.

— Nesse meio-tempo, vá selecionando vôos para que eu vá para lá. Quero viajar amanhã de manhã cedo, ou até mesmo hoje, se não houver passagens para amanhã.

— Viajar? — Rose o olhou espantada, sentindo o sangue sumir do seu rosto. — Viajar para uma ilha em alerta de furacão? Onde você vai se hospedar quando chegar lá? Você já esteve lá, Gabriel, e vimos fotografias detalhadas desse lugar. Não há hotéis.

— Sempre posso acampar na praia. — Ele se levantou e começou a percorrer o escritório de um lado para outro, imerso em seus pensamentos. Enquanto isso, Rose imaginava Gabriel no meio de um furacão, a mercê das forças da natureza. A viagem para aquela ilha era complicada, envolvendo dois aeroportos e uma travessia de barco. E se o furacão o pegasse na travessia? Ele estaria tão vulnerável quanto uma formiga dentro de uma caixa de fósforos precipitada de uma cachoeira. Ela despertou daquele sonho acordado, que mais parecia um pesadelo, para encontrá-lo inclinado sobre ela, com o rosto irado.

— Acorde, Rose!

— Desculpe... — Ela ergueu o queixo de maneira defensiva e deu graças a Deus que ele não soubesse ler pensamentos. Se fosse o caso, não levaria muito tempo para decifrar o pavor que sentia, ao ver a loucura que ele se propunha a fazer.

— Você não me serve para nada se ficar aí sonhando — disse ele de maneira cortante, avançando agressivamente o rosto em direção ao dela. — Você veio aqui para trabalhar, Rose, deixe seus assuntos amorosos em casa!

Ela percebeu ao que ele estava se referindo e abriu a boca para protestar, mas pensou melhor. Tinha havido muita mistura entre sua vida privada e sua vida profissional, já era tempo de redefinir as fronteiras.

— Tudo bem — disse prontamente, recebendo de volta um cenho ainda mais fechado quando ele voltou a se sentar atrás da mesa de trabalho.

— Cancele tudo que tenho na agenda para a próxima semana. Não devo ficar lá mais do que uns dois dias, mas as previsões do tempo não são confiáveis.

— É um plano ridículo, Gabriel.

— Obrigado por sua opinião. Isso será tudo por enquanto. — Ele achava inteiramente errado que sua secretária perfeita passasse a noite fazendo amor apaixonadamente com um homem que mal conhecia. Mas ela não tinha negado, e ele a conhecia o suficiente para saber que ela se defenderia vigorosamente caso fosse inocente. Apesar da mudança de aparência, seu senso de moralidade continuava muito arraigado.

O que ela fazia ou deixava de fazer era, na verdade, um problema secundário. Havia outros muito maiores na balança para que ele se importasse com a idéia de Rose nos braços de outro homem, mas estava achando muito difícil se livrar dessa imagem.

— Como foi sua ida ao teatro na sexta-feira? — pegou-se perguntando. — Vocês se divertiram?

— O quê?


O teatro, na sexta-feira passada?! Você ia ver Les Misérables.

— Ah, é verdade. Claro, foi sim. Genial. Muito obrigada. — Rose imaginou que essa mudança de assunto era apenas uma maneira encontrada por Gabriel de liberar a mente dos enormes problemas que envolviam centenas de milhares de libras investidas numa construção inacabada, que corria o risco iminente de ser reduzida a pó. Na verdade, ele parecia prestar-lhe um mínimo de atenção. — Joe é uma companhia maravilhosa! — acrescentou ela, para lembrar-se de que existiam nesse planeta homens normais, genuínos, carinhosos, homens que mereciam muito mais seu carinho do que a pessoa incansável e melancólica sentada diante dela.



O que significava isso?, perguntou-se Gabriel. O mero fato de estar se interrogando era bastante para suscitar raiva contra sua própria fraqueza. Ao contrário da maior parte dos homens, ele pessoalmente nunca tinha achado que as mulheres eram uma espécie incompreensível, muito pelo contrário. As que ele tinha levado para jantar, e depois, para a cama, tinham sido transparentes como vidro. Rose era de uma feitura genética diferente. Em certos momentos, ela se enquadrava muito bem nas categorias preestabelecidas de sua cabeça; no minuto seguinte, já estava mostrando que tudo o que ele pensara sobre ela estava errado. De uma secretária capaz, controlada, reservada, inofensiva, levemente fria, ela passara a ser uma mulher sexy, com novo estilo, nova aparência, de repente ambiciosa, com fogo interior, para passar, mais tarde, aparentemente, a uma devassa que dormiria alegremente com o primeiro homem que conhecesse.

Será que ela estava realmente pensando que ele queria conversar sobre o joão-ninguém que ela estava namorando, quando tinha tantas coisas importantes na cabeça?

— Essa é a linguagem feminina para o perfeito cavalheiro! — perguntou Gabriel com desprezo.

Imagino que, no mundo de Gabriel Gessi, ser um perfeito cavalheiro seja um crime. — disse Rose zangada.

— Um crime, não. Apenas algo um pouco... sem graça.

— Joe é tudo menos sem graça...

— Não há necessidade de ficar tão na defensiva, Rose! Acredito em você! Jamais poderia imaginar você saindo com alguém sem graça. De fato, não sei como alguém assim saberia como lidar com você!

— Eu não preciso que lidem comigo. Não sou nenhum animal selvagem.

— Em todo caso, você tampouco corresponde à idéia que a maioria dos homens faz de uma mulher submissa. Pelo menos no que se refere a trabalho.

— Não vou cair nessa — Respirou fundo para se acalmar. Até bem pouco tempo atrás, ela tinha sido bastante submissa justamente no que dizia respeito ao trabalho. — Não quero falar sobre Joe.

— Foi você mesma quem trouxe o assunto à baila — disse Gabriel, sacudindo os ombros. Perfeitos cavalheiros normalmente não costumam levar as mulheres para a cama no primeiro encontro. Assim, aquela noite provavelmente não acabara com uma vigorosa travessura no colchão, o que já bastava para melhorar seu humor. — Você tem razão, há coisas mais importantes a serem discutidas. Quando tiver selecionado os vôos e as conexões, avise-me imediatamente. Vou precisar me reunir também algum tempo com os rapazes do setor financeiro para informá-los dás coisas que terão de gerir na minha ausência.

Sua atenção já se afastara dela e de seu encontro. Era típico de sua parte intrometer-se num assunto e passar rapidamente adiante, deixando-a a encaixar seus pensamentos esparsos e confusos.

— Ainda não sei como pensa em ir lá se há um alerta de furacão — disse Rose, vendo de novo Gabriel como vítima do furacão. — Não há nada de engraçado nesta situação, Gabriel. — Seu coração se contraiu dolorosamente. — Pessoas morrem em situações similares e é perfeitamente ridículo adotar uma atitude machista e pensar que você pode lidar com isso.

— Alguém tem que fazê-lo — falou seriamente Gabriel — e não vai ser o administrador local. Esse projeto é responsabilidade minha.

— Isso é tão incrivelmente típico de você, Gabriel Gessi! — explodiu Rose com uma combinação de medo doentio e pura frustração. — Você acha que pode resolver qualquer coisa! Que você é invencível, quando não é\ Não admitir nunca que você pode ser fraco não é uma prova às forçai

— Você está preocupada comigo?

— Claro que estou! Qualquer um estaria!

— Não há necessidade — disse Gabriel gentilmente. Estava louco para chegar perto dela e apertá-la contra o peito. — O edifício não está pronto, mas é estruturalmente sólido, pode resistir. Terei um teto sólido sobre minha cabeça. Imagino que ficaremos sem água e eletricidade se o furacão realmente passar mas, fora isso, estarei bem. — Ele sorriu. — Todo mundo não anseia por estar perto da natureza? Essa vai ser minha grande oportunidade.

Rose olhou para aquele rosto diabolicamente belo e suspirou. Ela acreditava quando dizia que a estrutura era sólida, mas sabia que ele teria ido para a ilha de qualquer maneira. Em sua vida pregressa, ele fora um piloto de Fórmula 1, brincando de desafiar a morte. As lágrimas pareciam querer saltar de seus olhos, mas ela não podia se permitir esse nível de emoção.

— Se você está tão preocupada assim — ronronou ele com voz macia — poderia vir comigo. Excelente oportunidade para ver exatamente quanto trabalho ainda precisa ser feito no local, em vez de confiar em e-mails e relatórios...


1   2   3   4   5   6   7   8


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal