Cathy williams



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CAPÍTULO SEIS

Quanto mais Gabriel pensava no assunto, mais gostava da idéia de fazer Rose acompanhá-lo até a ilha. Estava convencido de que não correriam perigo físico e a idéia de tê-la como companhia era muito atraente.

— Poderemos fazer progressos na resolução dos problemas que tanto prejudicaram esse projeto — ressaltou ele. — Ter você comigo significa trabalhar duas vezes mais depressa porque não terei que fazer transcrições. Em quatro dias, tudo estaria sob controle.

Rose o encarou como se ele tivesse perdido o juízo.

— Você espera trabalhar enquanto um furacão varre tudo lá fora?

— Não há certeza de que o furacão passará pela ilha.

— O pessoal da meteorologia parecia bastante convencido disso. .

— As previsões meteorológicas estão sempre erradas. Em qualquer outro setor de trabalho, já teriam sido postos na rua por ineficiência.

— De qualquer jeito, não vai haver ninguém nessa ilha — observou Rose. — Com quem você está pensando em discutir o que está acontecendo se não vai haver ninguém lá?

— Claro que tem gente lá! Você acha que eles vão desaparecer cada vez que há um aviso de furacão?

Rose enrubesceu.

— Vou verificar os vôos disponíveis.

— Reserve duas passagens.

Rose parou junto à porta, com o coração palpitando no peito.

— Receio não poder fazer isso, Gabriel... Os olhos de Gabriel se estreitaram.

— Não é por causa desse homem, é?

— Claro que não! — No fundo de sua mente, sabia que não havia qualquer necessidade imperiosa de defender sua decisão, mas o silêncio cortante de Gabriel e seu infinitesimal levantar de sobrancelhas eram o bastante para desencadear seus mecanismos de defesa.

— Joe nunca seria chauvinista a ponto de ditar minha conduta de trabalho...

— Não, tinha esquecido que ele é o perfeito cavalheiro. — Gabriel sorriu, obtendo em resposta uma bem merecida careta.

— Não posso ir com você porque...

— Você poderia me ajudar incrivelmente... Rose ignorou a interrupção.

— Porque... há muito o que fazer aqui...

— O patrão sou eu. Estou liberando você nos próximos quatro dias. Há muito a ganhar em termos de rapidez, se você me acompanhar...

— Você pode levar Ralph... Uma pessoa do conselho será mais útil a você lá...

— Por alguma razão, não consigo imaginar Ralph muito interessado em desempenhar o papel de minha secretária. E duvido que saiba digitar tão rápido quanto você. Não estou entendendo, Rose... Você nunca teve problemas para me acompanhar em viagens...

— Não para ilhas sacudidas por tempestades no meio do oceano...

— O que nos traz de volta às previsões pessimistas daqueles malditos caras da meteorologia. Por que você não reserva as passagens? Se decidir ir, ficarei muito agradecido.

Voltou a atenção para a tela do computador e Rose, percebendo a indireta, saiu do escritório. Tudo bem, ela reservaria duas passagens, já que ele lhe permitira mudar de idéia. A firma podia perfeitamente arcar com o prejuízo.

As passagens foram reservadas para o dia seguinte de manhã. Segundo a Internet, as probabilidades de que o furacão passasse sobre a ilha eram bastante remotas. Ela parou para pensar sobre a facilidade com que tinha decidido acompanhá-lo.

Afinal, ele tinha razão. Ela nunca se queixara antes de ir com ele a reuniões ou de passar a noite no mesmo hotel. Sua recusa poderia levá-lo a pensar que ela tinha se transformado numa dondoca cuja vida privada influenciava a vida profissional ou, ainda pior, que ela temia sua companhia. Além disso, ela sabia, no fundo de sua mente, que gostaria de estar a seu lado, se ele corresse perigo.

Ela teria que lidar mais tarde com a questão de Joe, o perfeito cavalheiro, a síntese de tudo o que uma mãe desejaria para sua filha.

Quatro dias não eram muita coisa e, dependendo das circunstâncias, talvez demorasse até menos, pensou enquanto fazia a mala. Ainda que Gabriel levasse seu laptop, Rose achou melhor colocar na mala blocos de anotações e canetas. Os velhos instrumentos eram freqüentemente os melhores, quando se trabalhava sob pressão.

Eles trabalharam durante boa parte do vôo para uma das ilhas maiores. O resto do dia foi perdido nas correspondências. Finalmente, pegaram um barco, cujo responsável disse que eles eram malucos de fazer aquela viagem quando o tempo ia mudar.

Quando finalmente chegaram ao destino, Rose estava morta de cansaço, mal podendo apreciar o cenário. Tudo que queria era dormir. Como é que Gabriel conseguia funcionar tanto tempo sem sinais de fadiga? Ele nem parecia amassado, talvez porque tivesse escolhido suas roupas de forma mais inteligente. Em resposta ao que ele lhe estava dizendo, Rose abriu a boca num bocejo.

— Não é o tipo de reação que geralmente desperto numa mulher — murmurou ele. Quando ela bocejou de novo, ele bateu no ombro, convite irresistível para que ela repousasse ali sua cabeça. Ela só despertou quando o carro estava parando. Que horror, havia uma mancha úmida no ombro dele, ela tinha babado! Quando seus olhos se encontraram, ele deu um sorriso meio sem graça para ela.

— Não se preocupe, isso é humano. Achei até simpático você descansar a cabeça no meu ombro e babar um pouquinho.

Tão logo Rose olhou para a obra diante dela, sua mortificação se dissolveu. Era algo tão ambicioso e impressionante que, mesmo naquele estado inacabado, a fez perder o fôlego.

— Gostou? — Gabriel estava bem atrás dela, curvando-se para murmurar em seu ouvido.

— Ainda há muito que fazer — respondeu ela prosaicamente.

— Covarde. Por que não admite que gostou? E uma aventura arquitetônica.

— Quem fez o projeto?

— Eu mesmo.

Você?

— Não precisa ficar tão espantada. Não é só você que tem segredos.

O hotel, cujo projeto original contava com uma ampla rede de apartamentos ultra-modemos, tinha sido transformado em três casas contíguas, cada uma com uma pequena torre, em volta das quais havia um amplo pátio, ainda em construção, que seria feito de madeira resistente às intempéries.

A terra originalmente reservada para a vila seria um campo de golfe — uma pista de nove buracos, curta mas mortal, que se beneficiaria da brisa marítima.

Essa mesma brisa marítima ainda permanecia suave, apesar de que o motorista lhes dissera que as pessoas que podiam já tinham começado a abandonar a ilha, e as que não podiam estavam se preparando para o pior, estocando comida enlatada e água.

Rose tentou ansiosamente imaginar a estatura dessa estrutura sob um furacão violento, Parecia bastante sólida e quase inteiramente acabada, mas ela tinha como avaliar o estado das fundações.

— O céu está tão azul... difícil pensar que um furacão está a caminho.

— Nesta parte do mundo o tempo pode mudar numa questão de minutos, não é mesmo, Júnior?

Júnior, o motorista, do alto da experiência de seus setenta anos, enveredou por um longo monólogo informativo sobre os padrões do tempo nas ilhas do Caribe.

Se a fachada já era bastante impressionante, a parte interna fora concebida por uma imaginação extremamente fértil. Ladrilhos pretos e brancos constituíam o pano de fundo para uma cascata no canto mais afastado da entrada. As peças do primeiro andar seriam destinadas às cozinhas, ao restaurante e às necessidades domésticas, inclusive um spa. O segundo andar abrigava quartos e salas que os hóspedes poderiam utilizar a qualquer momento, para terem a impressão de estar em casa longe de casa.

—Não conheço ninguém que tenha uma casa como essa — murmurou Rose, observando os detalhes da carpintaria e do trabalho artístico. — Você bolou tudo isso sozinho?

— Sou um arquiteto frustrado — disse Gabriel, sem sorrir. — Pode deixar as malas aqui, Júnior. Vá para casa. Vamos ficar bem, temos comida e bebida suficiente. Você voltará quando o pior tiver passado.

Rose avançou para o interior da casa, notando que estava finalmente bem mais acabada do que esperara. O piso de cerâmica da entrada conduzia a esplêndidos assoalhos de madeira, as janelas estavam protegidas por venezianas coloniais, as paredes e o teto estavam inteiramente pintados. Só faltava a água da cascata e as plantas para ornamentar.

— Não tinha idéia de que este lugar estava praticamente pronto! — disse Rose de maneira acusadora. — Onde está Júnior?

— Saiu para cuidar da família.

O que deixava os dois sozinhos. Na urgência dos planos, com a natureza brusca da viagem, Rose não considerara qual seria a situação real deles quando chegassem ao seu destino. Em sua ingenuidade, pensara que o hotel estaria inabitável e que teriam que se alojar numa pousada qualquer. Mas a casa estava habitável, só que não havia mais ninguém lá. Seu coração bateu mais devagar. Uma enorme quantidade de quartos vazios e apenas eles dois. Partilhando as refeições. Esperando a tempestade iminente. E se a corrente elétrica falhasse, como sem dúvida aconteceria? Ela os imaginou metidos num quarto escuro, tendo apenas um ao outro como companhia. Não era uma situação ideal para um papo seguro sobre trabalho.

— Vamos ver o que conseguimos nas cozinhas e, depois, arrumar as coisas para dormir.

Rose podia ouvir o som das ondas lá fora e os ruídos das criaturas noturnas. Isso fez com que se lembrasse da Austrália, o que, por sua vez, lembrou-a de que não deveria estar aqui com Gabriel. Na verdade, deveria ter pedido demissão do emprego e procurado trabalho em outro lugar.

Ao vê-lo se afastar em largas passadas, Rose correu atrás dele. Estava cansada e com calor depois da longa viagem. Uma boa chuveirada e algumas horas de repouso lhe permitiriam recarregar suas baterias. Eles atravessaram várias peças, todas praticamente terminadas.

— Pensei que você tivesse dito que ainda havia muito trabalho a ser feito, que precisava estar aqui, para o caso de acontecer alguma coisa à estrutura, na hipótese de que o furacão viesse.

Finalmente chegaram às cozinhas, equipadas de forma rudimentar. Havia uma geladeira, obviamente utilizada pelos operários que trabalhavam na casa de campo, e vários outros utensílios. Não havia forno, apenas um pequeno fogão portátil onde seria possível cozinhar refeições simples. Uma mesa tosca.

— Tudo isso será removido mais cedo ou mais tarde. — Ele abriu a geladeira e ficou contente ao ver alguns alimentos perecíveis, inclusive queijo, ovos e manteiga. Ele já sabia o que havia nos armários porque, assim que decidira voar para ilha, tinha pedido ao gerente que fizesse um estoque, antes de saber que Rose viria com ele.

Gabriel ainda estava um pouco surpreso de que ela estivesse lá com ele. Apesar de sua mania de ditar regras, Rose era uma perfeccionista em tudo o que dizia respeito ao trabalho. Fora educada dessa maneira, e ele a admirava por isso. Entrava de cabeça em tudo que fazia. Ele tinha visado seu calcanhar-de-Aquiles, ou seja, seu senso do dever, ao evocar o que tinha sido um problema espinhoso para ambos durante muito tempo. A construção daquela vila sofrerá muitos contratempos e ela não pôde resistir ao convite para acompanhá-lo à ilha para averiguar como estava. Diferentemente da maioria das outras mulheres, na verdade, de todas as outras mulheres que conhecera, saber que um furacão poderia passar por ali não a tinha desencorajado. Ela não se amedrontava facilmente.

Considerando-se que passara a maior parte do dia viajando em transportes nem sempre confortáveis, ela estava em forma. Os cabelos, soltos no início, estavam agora presos num rabo-de-cavalo, mas ela ainda parecia sexy; sem qualquer maquiagem, seu rosto parecia tão lavado como no início da viagem. Estava também um pouco aborrecida e, provavelmente, faminta.

— O que é que você quer? — Rose lançou-lhe um olhar mal-humorado.

— Você está com fome?

— Não, estou bem.

— Não dê uma de mártir, Rose. Não há nada mais aborrecido.

— Ah, claro. Atravessei metade do Atlântico porque pensei que precisasse de mim para ajudá-lo a resolver os problemas desse lugar e, de repente, estou dando uma de mártir.

— Vou lhe preparar alguma coisa para comer, você vai dizer gentilmente obrigada e parar de ficar na defensiva.

— Tudo isso e mais o quê?... — perguntou Rose, amuada, olhando Gabriel tirar panelas e pacotes dos armários. Nada mais justo, pensou. Ela cozinhara uma vez para ele, ele bem podia retribuir a gentileza, considerando que a trouxera para cá sob falsos pretextos.

Gabriel olhou-a de relance, e Rose se perguntou de novo como podia parecer tão fantasticamente bem vestido após horas de viagem, enquanto ela se sentia como se tivesse sido vomitada por um gato.

— Pensei que estivesse construindo um hotel aqui, Gabriel. Não tinha idéia de que tinha mudado as especificações.

— Ainda é um hotel, mas numa escala muito mais pessoal do que tinha sido previsto no projeto original.

— Não há nada disso no computador...

— Você provavelmente não pôde acompanhar a papelada toda. Esse lugar não está mais sob o controle da firma. Ele é agora minha cria pessoal, por assim dizer.

Sua cria pessoal?

— Claro, ele ainda é uma opção rentável, mas essa não é sua função primária.

— Você me trouxe aqui para trabalhar num projeto que não tem nada a ver com afirmar.

— Foi você que decidiu vir.

Ele parecia se virar bem com os utensílios básicos: o que preparara no fogão provisório tinha um cheiro muito bom, mesmo feito a partir de algumas latas e de um pacote de macarrão.

Rose percebeu que ele interrompera o que fazia para olhar para ela e enrubesceu.

— Pensei que precisasse de mim para trabalhar.

— E é verdade. Ainda tem muita coisa a ser resolvida aqui.

— Mas coisas que não têm nada a ver com o trabalho.

— Para que ficar esmiuçando as coisas, Rose? Não Podemos voltar imediatamente. Você já está aqui, ficar discutindo se queria ou não queria vir é perda de tempo. Quando voltarmos para Londres, tratarei de compensá-la financeiramente.

— Isso não tem nada a ver com dinheiro — disse Rose, sentindo-se mesquinha por estar especulando sobre ninharias. A quem ela pensava enganar? Estava curiosa para ver aquele local que ele decidira adotar como seu, interessada em saber um pouquinho mais sobre aquele homem.

— Ora, pelo amor de Deus. — Gabriel correu os dedos pelos cabelos de pura exasperação. — Por que não tenta assumir um pouco de responsabilidade sobre as coisas aqui, Rose? Você sabe que os planos foram alterados. Pensei que tivesse lido os relatórios financeiros e visto que o projeto inteiro fora transferido para fora da alçada da firma e posto sob a responsabilidade do meu banco particular.

— Eu... só dei uma olhada no relatório financeiro. Ah, você está certo. Já que estou aqui... por que não me informa o que o fez você mudar de idéia sobre... o objetivo deste lugar...?

Entre seus muitos investimentos financeiros, Gabriel possuía uma pequena cadeia de hotéis de elite em lugares pouco usuais, a cujos objetivos aquela ilha se adaptava perfeitamente. Afastada, sem um turista à vista, pequena o bastante para ser deliciosa, mas não para impedir a instalação de certas amenidades imprescindíveis. Depois de lidar muito tempo com as reclamações dos turistas, Rose descobrira que gostavam de coisas exóticas, mas não desconfortáveis. Exótico era o ventilador de teto associado à opção do ar-condicionado, em oposição ao ventilador de pé associado às janelas abertas para deixar entrar a brisa.

— Foi muito simples, acabei me envolvendo com o projeto. — Ele trouxe dois pratos de macarrão com molho de tomate recoberto de queijo, fatias de pão e manteiga. Quando Rose atacou avidamente o seu, descobriu que o gosto era tão bom quanto o cheiro.

— Você termina envolvido com todos os seus projetos — sublinhou ela. — A propósito, isto aqui está ótimo.

— Que bom que você acha — disse secamente Gabriel. — E trate de aproveitar, pois não costumo cozinhar para mulheres.

Isso era óbvio, pensou Rose. Refeições caseiras faziam par com a domesticidade, que não era algo que ele gostasse que suas namoradas experimentassem. Divertimento, excitação, sim. Domesticidade, de modo algum.

— Você estava me contando por que mudou de idéia quanto a este projeto.

— Há dois meses, tivemos problemas aqui. Despedi o arquiteto que trabalhava nele e decidi eu mesmo experimentar.

— Você é formado em arquitetura?

— Eu... — Gabriel ficou olhando para ela, com o garfo na mão. O olhar de Rose brilhava de curiosidade. — Sou formado em engenharia. E sempre gostei de arte... Ou será que admitir isso não é coisa de macho?

— Ao contrário, é coisa de macho sim. — Rose sentiu a boca seca quando seus olhos se encontraram.

— Você não sabe que um homem sensível é a coisa mais sexy do mundo?

— Essa é sua maneira de dizer que me acha sexy?

— É apenas minha maneira de dizer que arte é uma coisa maravilhosa. — Ela podia sentir a transpiração escorrendo enquanto os olhos dele percorriam seu rosto enrubescido. — Sei que você gosta de arte. Apenas nunca me dera conta de que gostava disso na prática...

— Arte foi uma das áreas em que me destaquei. Junto com matemática, francês e física.

— Quer dizer que poderia ter sido um pintor?

— Não exatamente. — Gabriel deu um sorriso meio torto. — Tinha pouca criatividade que, combinada com matemática, e, mais tarde, com minha graduação em engenharia, provou ser bastante prática quando se tratava de projetar alguma coisa. Não havia lugar para ela no mundo dos negócios, mas acabou aflorando quando despedi Jones deste projeto.

Quando Rose acabou de comer, Gabriel fez o serviço, ordenando-lhe que ficasse sentada enquanto ele lavava os pratos e arrumava a cozinha. Afinal de contas, sublinhou, ela estava lá apenas por sua grande generosidade.

— Então tudo isso... é criação sua?

— A maior parte. O que acha?

— Bem, suponho que todo mundo tem que fazer alguma coisa em seu tempo livre — disse Rose prosaicamente, para não alimentar aquele ego já inflado.

— Fale-me disso.

Rose esqueceu que estava cansada, com calor e suada. Ouviu atentamente tudo o que ele dizia enquanto lavava os pratos. Quando Gabriel acabou de lhe preparar uma xícara de café com leite, ela partilhava o sonho dele por aquele projeto, a vontade de, com o tempo, vê-lo expandir-se e virar um condomínio em estilo campestre, que poderia acomodar todos os membros de sua extensa família. Ela quis perguntar-lhe se isso incluía sua própria família, seus filhos, mas não teve coragem.

— Amanhã será um dia longo — disse Gabriel em conclusão. — Se vier para cá, o furacão passará dentro das próximas 24 horas. Temos que dormir um pouco.

Rose se sentiu meio alquebrada ao levantar.

— Preciso tomar uma boa chuveirada. Está tudo devidamente instalado?

— Instalado e pronto para funcionar. Como disse, as interrupções foram irritantes e prolongadas, mas o essencial está feito, o que é uma bênção.

Ela trouxera toalha e sabonete, como ele aconselhara. E também uma certa quantidade de repelente para mosquito. Não havia camas, apenas colchões no chão, trazidos especialmente para eles. E ainda havia eletricidade, embora ele a tivesse prevenido de que não contasse mais com isso se o furacão passasse no dia seguinte.

O quarto para onde ele a levou era bastante adequado. Não havia móveis, mas era uma suíte grande e arejada, com um imenso banheiro. O piso era de madeira nobre, como o do resto das peças. As paredes estavam até mesmo pintadas, e havia venezianas nos janelões que se abriam diretamente para o pórtico externo.

— Quando esse lugar estiver pronto e funcionando, vou instalar aqui e ali algumas redes para que as pessoas possam relaxar protegidas do sol, mas ao ar fresco.

— Idéia sua?

— Com um empurrãozinho de minhas irmãs, que alegam precisar mais de relaxamento do que eu, porque têm filhos. — Ele andou até o banheiro e percorreu-o com os olhos. — Não há mosquiteiro — disse-lhe, recostando-se na parede — nem ar-condicionado, portanto, cuidado com os insetos. Você pode acender uma dessas espirais espanta-mosquito

— ele apontou para o chão do banheiro — mas sua eficácia é limitada. Aconselho você a dormir com as janelas fechadas, deixando apenas uma pequena fresta para que entre uma corrente de ar fresco. Pode deixar também a porta aberta. Você não vai morrer de calor, pois aqui costuma esfriar à noite. Vou levantar muito cedo amanhã e a acordarei. Provavelmente você ainda estará cansada, mas precisamos cuidar de pôr as coisas em segurança e nos preparar para o pior.

— Certo.

— Está com medo?

— De quê?

— Dos seres rastejantes? De passar a noite num lugar desconhecido? Da ameaça de um furacão?

Rose deu de ombros e sacudiu a cabeça. Nada era tão ameaçador quanto a presença daquele homem re-costado preguiçosamente na parede diante dela.

— Moça corajosa — murmurou Gabriel, com uma ponta de sarcasmo na voz.

— Nem toda mulher gosta do papel de donzela desvalida.

— A maior parte delas nunca tem que representá-lo — comentou ironicamente Gabriel. — Elas entram em pânico naturalmente ao pensar em insetos, tempestades e trovões. Bem... Boa noite. Se precisar de alguma coisa... estou no quarto ao lado...

— Obrigada, mas não será necessário.

Ela se assegurou de que a porta estava bem trancada, caso ele imaginasse que, no fundo, ela fosse mesmo uma donzela desvalida, que realmente precisasse dele para verificar se não estava encolhida entre os lençóis, com medo dos mosquitos. Suspeitava que ele estava se sentindo culpado por tê-la atraído até ali sob pretextos falsos, apesar de ter dito que ela deveria conhecer suficientemente a situação. A culpa bem poderia transformá-lo num cavalheiro.

Trancou também a porta do banheiro, embora seu banho tenha sido curto e frio. Pendurou a toalha molhada na janela do banheiro para que secasse naturalmente, porque os secadores de toalha ainda não tinham sido instalados, e o chão ficou molhado porque o boxe do chuveiro ainda não tinha porta.

Mas, por mais simples que fosse, o colchão era confortável e, através da janela aberta, os sons da vida noturna eram estranhamente soporíficos. Rose caiu rapidamente no sono. Mas acordou abruptamente, com a sensação aguda de que alguma coisa não estava certa. Levou alguns segundos para se orientar e dar sentido ao contexto. Foi aí que ela percebeu o que estava errado.



CAPÍTULO SETE

A calmaria a acordara. Os sons noturnos tinham cessado, sons aos quais a vida em Londres a acostumara. Sua ausência dava medo.

Ela se levantou, abriu as venezianas e a janela. O silêncio era profundo, o ar sem brisa. Amedrontada, Rose se perguntou o que deveria fazer. Acordar Gabriel? Ela não sabia nada sobre furacões. Estava assustada, mas esse silêncio bem podia ser característico dos trópicos. Sem parar para pensar no assunto, Rose enfiou uma calça jeans, permanecendo com a camiseta larga que usara para dormir. Parecia-lhe urgente ir até onde estava Gabriel, acordá-lo, mesmo que ele debochasse dela e a mandasse voltar para a cama.

Rose empurrou a porta. Gabriel dormia profundamente, espalhado no colchão. Esta seria a única vez em que o veria desprevenido. Assim, esqueceu o medo elementar que a tinha trazido até seu quarto e se aproximou dele na ponta dos pés. Rose umedeceu nervosamente os lábios, incapaz de se livrar do fascínio daquele corpo perfeito. Ele parecia muito moreno, em contraste com os lençóis brancos. O peito era largo e musculoso, recoberto de másculos pêlos negros. Decidiu que seria bobagem acordá-lo, o medo acabaria passando. Estava quase indo embora quando ouviu sua voz ligeiramente divertida.

— Já acabou de me admirar ou quer olhar mais um pouco?

Rose quase bateu os dentes, de tão chocada.

Pensei que estivesse dormindo!

— Estava mesmo, até que você entrou. O que houve? — Ele se sentou, expondo outras partes de seu corpo.

— Sei que vai parecer meio estúpido mas eu... não consegui ouvir nenhum ruído e fiquei um pouco nervosa...

— O que quer dizer com não consegui ouvir nenhum ruído!

— Tudo está quieto demais lá fora. — Rose riu nervosamente. — Sei que você vai apenas me dizer que volte para a cama...

— O que vou lhe dizer é que vá tratando de olhar para outro lado, se não quiser ver mais de mim do que gostaria... — Ele jogou longe os lençóis e Rose deu um gritinho, ao notar que ele estava inteiramente nu.

Ele estava falando algo sobre furacões, mas tudo o que sua mente pôde captar foi que, a cerca de um metro e meio de distância, seu patrão sexy estava vestindo as calças enquanto ela, de costas para ele, tentava não pensar no que poderia ver se se virasse.

—... por isso, precisamos ir lá fora e controlar tudo. Você pode ficar aqui, mas dois pares de mãos e de olhos podem ser mais úteis do que apenas um...

Ela o encarou, preocupada.

— O que você quer dizer?

— Pensei que tivesse sido claro. — Gabriel ainda estava superando a sensação agradável e loucamente sexy de pegá-la a olhar para ele. E agora ela o fitava com aquele jeito bem feminino, de olhos arregalados, depois de lhe ter afirmado, na noite anterior, que não gostava do papel de donzela desvalida.

Tinham que verificar tudo enquanto era dia. Mas ele não podia deixar de observar que ela estava sem sutiã sob a camiseta frouxa.

— A calmaria antes da tempestade... — Ele se dirigiu para a porta e ela o seguiu, ainda mais amedrontada porque ele parecia realmente preocupado. Gabriel não era homem de ficar nervoso por qualquer coisa. Mas estava se movendo depressa, acendendo as luzes na casa, prevenindo-a de que poderiam ficar sem eletricidade dentro em pouco.

— Vamos percorrer juntos o lugar — disse-lhe, fazendo uma pausa quando chegaram do lado de fora, para julgar a gravidade da situação.

O tom de sua voz fez Rose estremecer e chegar mais perto dele.

O lado de fora estava quente, úmido e muito escuro. As luzes internas da casa iluminavam apenas uma pequena área na frente da porta principal, mas todo o resto estava escuro como breu. Rose nunca vira nada assim.

— Vai acontecer, não vai?

— Não precisa sussurrar. — À luz das duas tochas trazidas por ele, percorreram a casa e constataram, Para satisfação de Gabriel, que tudo estava como devia.

— Tudo bem. Vamos verificar a parte interna. Como não há linha telefônica, não podemos ver na Internet as previsões meteorológicas mais recentes, mas vamos encher alguns baldes de água e cobri-los, para nos lavarmos amanhã cedo. Vamos também começar a acender algumas lâmpadas a óleo e velas, mas evite acender velas onde haja risco de incêndio. Acha que pode fazer isso?

Rose se indagou o que ele diria caso ela dissesse não. Ele não a tinha trazido para cá para tomar conta dela. Antes de mais nada, ela era sua secretária muito prática!

— Acho que sim — afirmou.

— Boa menina.

Mal tinham chegado às portas da frente quando a ameaçadora calmaria foi quebrada por um raio, imediatamente acompanhado pelo ruído ensurdecedor de um trovão. Seguiu-se um som ameaçador que ficava cada vez mais alto enquanto eles corriam para casa, evitando os restos de construção que estavam no caminho.

— Chuva! — gritou Gabriel, exatamente na hora em que uma pancada raivosa de água caiu sobre eles, acompanhada pelos uivos dos ventos que se aceleravam.

Rose nunca tinha vivido nada semelhante. Em trinta segundos, ela ficou ensopada, tendo que lutar para não ser levada para trás. Podia ver as palmeiras se curvando, como se uma força poderosa tentasse arrancá-las do solo.

Tão logo se sentiram em segurança dentro de casa, Gabriel começou a se mover rápida e objetivamente, sabendo exatamente onde procurar as lâmpadas a óleo. Obviamente, tinha pensado em tudo e dado instruções detalhadas ao gerente antes de viajar.

— Sei que deve estar se sentindo desconfortável nessas roupas molhadas, mas vamos primeiro arrumar as lâmpadas aqui e depois vamos ambos trocar de roupa.

Mesmo com a atenção concentrada em outra parte, Rose tinha a perfeita consciência de que a camiseta molhada aderia a seu corpo mostrando os seios, não deixando nada à imaginação. Disfarçadamente, tentou fazer com que ficasse mais conveniente, mas foi inútil. Ela não podia escapar para mudar de roupa, porque a situação de emergência que estavam enfrentando requeria todas as forças disponíveis.

Do lado de fora vinha o som aterrador dos fortes ventos sacudindo as paredes e os ruídos distantes de objetos sendo levados pelo ar.

Ela estava começando a sentir frio nas roupas molhadas e tinha que fazer um grande esforço para que seus dentes não batessem. Num golpe de sorte, tinham acabado de acender a última das quatro lâmpadas a óleo quando faltou eletricidade, deixando-os na mais total escuridão, não fosse sua débil luz.

— Tudo bem. — Gabriel lhe estendeu duas das lâmpadas. — Pelo menos acendemos estas e há velas nos quartos, mas, por enquanto, estas são suficientes. Você está bem?

Não.

— Estou. Sou uma especialista em situações de crise como esta!

Apesar da escuridão, ela soube que Gabriel sorrira.

— Quando não resta mais nada, o senso de humor é tudo de que se precisa para ir em frente. Mantenha-o!

— Vou tentar, mas nunca tive alma de mascote. Eles se encontravam de volta no quarto dela.

— Você precisa mudar de roupa e depois vamos dormir no mesmo quarto. Só por precaução.

— Precaução contra o quê?

— Caso esse mau tempo piore ainda mais. Um furacão forte pode até levantar o teto de uma casa, embora não creia que corramos esse risco aqui. Mas é melhor prevenir do que remediar. Se a situação piorar, não quero ter ainda que sair procurando você.

Rose concordou. Tudo o que não queria era ficar sozinha naquela hora.

— Venho ficar junto com você daqui a um minuto, assim que tiver trocado de roupa.

Rapidamente, ela vestiu a outra calça jeans que trouxera e uma camiseta de algodão, por cima de um sutiã; depois estendeu cuidadosamente no chão suas roupas molhadas para que secassem.

O vento penetrava por todo tipo de frestas com um barulho incrível. Ela temia que pudesse arrancar as paredes e levá-la pelos ares, mas claro que isso não ia acontecer. Ainda assim, era um alívio estar batendo à porta do quarto de Gabriel, prevenindo-o de que ia entrar, aliviada ao ver que ele também já trocara de roupa, uma bermuda e uma camiseta.

— Você vai ficar confortável tentando dormir com essa roupa?

— Vou ficar bem. Vamos buscar meu colchão?

— Só um minutinho.

Um minuto depois, ele estava de volta, trazendo o colchão dela e colocando-o ao lado do seu. De repente, a presença confortadora de outro corpo a seu lado, quando o mundo inteiro parecia ter enlouquecido lá fora, não lhe parecia uma idéia tão boa.

— Você está meio verde — disse Gabriel. — Não fique preocupada. O prédio não vai cair em volta de nós. Verifiquei tudo, desde as fundações até as paredes, e conheço um bocado sobre estruturas de construções.

Rose ficou satisfeita que ele interpretasse sua aparência doentia de maneira errada. Ela se sentiu também muito aliviada pelo fato de que a única luz daquele quarto viesse de duas lâmpadas a óleo, porque as duas outras, diminuídas ao máximo, tinham sido postas no banheiro.

— Você quer comer alguma coisa? — perguntou ele, interrompendo o curso desastroso de seu pensamento. Ela balançou a cabeça.

— Certo. De qualquer forma, precisa beber alguma coisa. Espere aqui.

Ele nem lhe deu tempo de argumentar. Ela podia sentir a exaustão invadir seu corpo, mas a ansiedade de ter que deitar ao lado dele prometia mantê-la de olhos abertos pelo resto da noite. Não podia imaginar melhor momento para um ou dois copos da bebida 4ue ele fosse capaz de desencavar.

Ele trouxera rum da Jamaica e soda, cujas reservas pareciam ser copiosas. Ele tinha trazido uma garrafa de rum, seis pequenas garrafas plásticas de soda e dois copos.

O gosto era fantástico. Ela bebeu rapidamente o primeiro, sentindo seus efeitos quase imediatamente. Seus nervos começaram a se acalmar. Depois do segundo drinque, ela se sentiu bem de estar sentada no colchão diante dele, conversando sobre as experiências de ambos com relação a mau tempo. O dilúvio batendo nas paredes e no telhado e o barulho zangado do vento que soprava na costa ficavam muito mais fáceis de suportar depois de algumas doses de álcool. Finalmente, Rose bocejou.

— Está com sono?

— De repente.

— Você nunca vai conseguir dormir nessas calças, sabe? Quando conciliar o sono, vai acordar de novo porque vai sentir muito calor. — Ele diminuiu tanto a luz que o quarto ficou mergulhado numa quase escuridão. Ele se cobrira com seus próprios lençóis e Rose se sentiu bem abrigada, em segurança. — Você vai perceber também que são muito apertadas para que você respire à vontade, e amanhã vai se sentir fora de forma porque passou uma noite mal dormida — bocejou com prazer, dando as costas para ela, deixando-a refletir sobre seu conselho.

Ela esperou alguns minutos, pensando que, como ele dissera, as calças jeans eram mesmo muito apertadas. Sentiu-se também meio ridícula por estar querendo dormir inteiramente vestida. Era psicológico, claro, mas uma vez que metera na cabeça que se sentia desconfortável, não podia se livrar da idéia de que não pregaria o olho a menos que as despisse. E assim ela o fez, da maneira mais discreta que pôde, decidindo tirar também o sutiã, com um suspiro de alívio. Colocou ambas as coisas ao lado do colchão, para poder apanhá-las com facilidade se necessitasse.

Gabriel já estava dormindo. Ela podia observar o rítmico abaixar e levantar de seus ombros, e as pálpebras dela também começaram a ficar pesadas. O álcool agia nela como um anestésico. Podia sentir fisicamente como a fazia ir caindo no sono e, de repente, apagou.

A paz durou cerca de uma hora e meia, quando sentiu necessidade de ir ao banheiro. O vento ainda estava uivando furiosamente, mas Rose preferiu ir até o banheiro apenas à luz das lâmpadas que tinham sido colocadas lá. Mas seus olhos caíram sobre a única coisa que preferiria não ver: bem ali, em cima da porta, havia algo vivo do tamanho de um pires. Estava imóvel, mas era vivo e cabeludo. Seu coração batia mais alto do que o som da tempestade lá fora. Será que aranhas podiam sentir o cheiro do medo? Como os tubarões? — perguntou-se.

Na volta, andou na ponta dos pés até a porta com um olho na aranha, outro no caminho pelo qual ia fugir, abriu a porta e literalmente se atirou no colchão, colidindo com Gabriel que acordou de repente, alerta como um gato.

— Que diabos está acontecendo?

— Há uma tarântula no banheiro! — Ambos falaram ao mesmo tempo, mas ela gritou bem mais alto do que ele. — Levante-se! — pediu freneticamente. — Você tem que ir matá-la! Já!

— Você quer dizer, antes que ela nos mate?

— Não tem a menor graça, Gabriel! — Rose estava a ponto de desatar em lágrimas. — Eu realmente... morro de medo de aranhas. — Ela a imaginou arrastando-se para fora do banheiro, correndo até chegar ao seu colchão e começou a suar frio.

— Tudo bem, espere aqui. — Ele se levantou, olhou em volta em busca de alguma coisa, pegou um dos copos e desapareceu no banheiro, tendo o cuidado de fechar a porta atrás de si. Em sua ausência, Rose se embrulhou o mais possível nos lençóis, tentando não pensar que criaturas pequenas e peludas poderiam entrar sob eles.

Onde estava agora a secretária calma e prática?, grunhiu para si mesma. Quando ele saiu do banheiro com um sorriso, mal pôde olhar para ele.

— Onde está ela? — perguntou Rose numa voz tímida. — Sinto muito. Não estou servindo para grande coisa, não é mesmo?

Gabriel se deitou, virando-se para olhar para ela.

— Joguei-a pela janela. Ela tinha mais medo de mim do que eu dela. — Tirou os cabelos do rosto de Rose, que não ficou tensa, como aconteceria normalmente. — Sei que não gosta desse papel de donzela desvalida, mas não precisa pedir desculpas por ter medo de uma aranha. A maior parte das pessoas tem medo delas.

— Menos você.

— Eu não tenho medo de nada.

Isso lhe arrancou um sorriso e ela disse suavemente.

— Mas não é por isso que estou aqui. Para ser um peso que necessita ser cuidada, com medo de aranhas, com medo do trovão e dos raios. Receio não estar funcionando adequadamente neste momento.

— Talvez você esteja com saudades de casa. — Gabriel nunca tivera tanta consciência de uma mulher como naquele momento. Se ela se aproximasse mais alguns centímetros, ele explodiria. — Ou talvez esteja sentindo falta do... como é mesmo o nome dele?

— Ele se surpreendeu ao ver que aquele cara, cujo nome nem sabia, tinha estado presente em sua cabeça.

— Você chegou a me dizer o nome dele? Ah, sim, é Joe. Talvez você esteja sentindo falta do Joe. A paixão provoca coisas estranhas no coração de uma mulher.

Em segurança naquele casulo, protegida contra os ventos violentos e a chuva barulhenta, a menção a Joe trouxe Rose à realidade. Ela esquecera inteiramente o simpático Joe, seu passaporte para superar seus sentimentos pelo inconveniente Gabriel Gessi. Ela se afastou, horrorizada por estar naquela posição comprometedora.

— Será que provoca mesmo? Sim, suponho que sim.

Não era a resposta que Gabriel esperava. Naquele momento, ele estava a ponto de admitir para si mesmo que queria aquela mulher, por razões que escapavam à sua compreensão.

— O que quer dizer isso? — disse ele, quase sem querer.

— Quer dizer que essa conversa é bastante inconveniente.

— Nada do que está acontecendo aqui e agora é conveniente, não percebeu? Estamos no meio do nada, com um furacão soprando lá fora, dividindo um colchão no chão e, ainda por cima, eu e você estamos quase nus.

— Eu.... eu...

— Sim? — disse suavemente Gabriel. — Você... quer discordar de algo que eu disse?

—Acho que a gente não devia estar tendo essa conversa! — Rose ouviu o pânico em sua voz, perguntando-se se ele o teria notado também.

— Por quê? Podíamos conversar sobre o trabalho, mas... não creio que as circunstâncias sejam apropriadas para isso tampouco.

— Devíamos ir dormir. Amanhã será um longo dia, com muita coisa para fazer.

— Eu estava dormindo quando você pulou em cima de mim.

— Mas eu tinha uma razão!

— Agora que estou inteiramente acordado e você também, vamos discutir esse súbito amor que você acha que descobriu. Engraçado, aconteceu tão de repente!

Estou curiosa para saber por que você está tão intrigado. — O desespero começara a se misturar ao pânico, mas voltar para seu próprio quarto era impensável, depois do episódio da tarântula.

— Porque é incongruente — disse-lhe Gabriel. — E tudo que é incongruente não pode estar direito.

— Você acha que me conhece, mas não é verdade

— murmurou Rose, pensando que ele ignorava tudo o que ela sentia por ele.

— Você quer dizer que sempre foi para a cama com homens que tinha acabado de conhecer?

Não fui para a cama com ninguém! — objetou Rose, e, ao ver seu sorriso satisfeito, lamentou ter dito a verdade.

— Bem, isso é mais condizente com a minha Rose.

— Gabriel sabia que as mulheres detestam ser estereotipadas. Rose era mais inteligente, mais engraçada e muito mais atenta do que as mulheres que namorara no passado, mas ainda assim era mulher. Uma mulher que ele queria cada vez mais. Tudo que lhe dizia respeito o tinha afetado recentemente, e estar deitado no mesmo colchão, em condições bastante estranhas, não fazia com que essa atração diminuísse.

Todos os seus instintos primitivos afloravam. Ele nunca sentira nada igual. Seu desejo de tê-la para si aqui e agora era extremamente poderoso. Acostumado a controlar seus sentimentos, aquela sensação de estar sendo levado numa montanha-russa de desejo era estranhamente erótica.

— Acha que sou insípida? — cortou Rose.

— De forma alguma.

— Não dormi com Joe porque ainda estamos nos conhecendo. — Ficou se perguntando como é que essa situação e a necessidade de reprimir sua excitação se encaixariam nos planos de tentar encontrar

alguém mais saudável para namorar. Como poderia avançar numa relação com outro homem se seu corpo ainda reagia de maneira tão obstinada e frenética a seu patrão? — Não acredito em apressar as coisas. Não se esperamos que sejam duradouras.

— E você pensa que uma relação com um homem com quem falou apenas algumas vezes vai durar!

— Por que não? — disse Rose, na defensiva. Era-lhe muito difícil desviar os olhos dele e o jeito lento e macio de sua voz parecia anular o caos do tempo lá fora.

— Todas as relações têm que começar por alguma coisa — murmurou ela, virando-se abruptamente no colchão e olhando para o teto. Ele não tinha encostado um dedo nela, mas seu corpo reagia à sua proximidade como se tivesse uma inteligência autônoma. A dor nos seios e a umidade entre as pernas a lembravam de maneira vergonhosa sua atração por ele.

— Nunca ouvi palavras mais verdadeiras — murmurou Gabriel.

O toque macio e suave de um dedo em seu braço fez com que se virasse para ele.

— O que é que você está fazendo? — grunhiu ela.

— Tocando em você. Gosta?

— Não. — Rose se sentiu a ponto de desmaiar.

— Gosta sim. — A voz de Gabriel era macia como seda. — Toda relação tem que começar por alguma coisa. Você tem a mais absoluta razão.

— Não sei o que está querendo dizer, Gabriel. — Suas palavras foram enfatizadas pelo som das venezianas sacudidas pelo forte vento que tentava penetrar na casa. Gabriel se levantou, lutando para colocá-las no lugar. Quando terminou, dirigiu-se para onde ela estava, meio sentada no colchão.

—Vou verificar o resto da casa — disse-lhe. — Certificar-me de que tudo está o mais seguro possível.

— Vou com você.

— Não.


— Mas...

— Você não vai ajudar, se qualquer coisa tiver que ser posta em segurança. Não sou nenhum chauvinista, mas tenho que reconhecer que sou mais eficiente no que diz respeito à força bruta. — E, além disso, pensou consigo mesmo, não queria vê-la assumir de novo a função de secretária. Não queria que ela enfiasse os jeans e recuperasse a consciência. Ele a queria quente, inocente, deitada ao lado dele. Ele a queria...

Seu corpo respondeu ao pensamento do que ele realmente desejava.

— Voltarei em meia hora. Fique aqui.

Certo, pensou Rose, tão logo ele deixou o quarto. Tempo de pensar, de pôr a cabeça para funcionar. Vou me vestir. Talvez até levar o colchão de volta para meu quarto.

Ela podia ter medo de tarântulas errantes, mas muito mais apavorante era a idéia de ver Gabriel voltar, tocá-la de novo, falando naquele tom velado, que fazia picadinho de suas boas intenções.

Gemeu docemente e sua mão moveu-se em direção a calcinha de algodão, inteiramente molhada. Ele não fizera mais do que falar com ela, mas só isso deixara

seu corpo palpitante e em chamas. Bastaria tocar ali e ela sabia que enlouqueceria de prazer.



Não!

Antes que ficasse pensando no calor que percorria seu corpo e em seu próprio desejo de tê-lo ali, saciando-o com seu toque, ela pulou do colchão e começou a puxá-lo em direção à porta. Era bastante pesado e desajeitado. Parecera leve quando Gabriel o puxara mas, como ele mesmo dissera, tinha jeito para as tarefas pesadas.

Ela estava de costas para a porta, tentando desesperadamente agarrá-lo de jeito que lhe permitisse puxá-lo melhor quando ouviu a voz dele e quase pulou de susto.

— Mas o que é que você está fazendo? Rose piscou de surpresa.

— Pensei que fosse demorar pelo menos meia hora. Para ver se tudo estava bem sólido. — Ela ainda segurava uma ponta do colchão e notou que o corpo dele estava úmido e seus cabelos negros brilhavam, provavelmente da chuva que penetrara em algum quarto.

— Tudo está bem firme. O que é que você está fazendo?

— Estou voltando para meu quarto — gaguejou Rose. —Acho que é melhor assim.

— Posso perguntar por quê?

Rose deixou cair o colchão, que bateu em sua perna, fazendo-a tropeçar. A menos que descobrisse de repente o segredo do deslocamento da matéria, ela não poderia deixar aquele quarto enquanto Gabriel ficasse parado em frente da porta com os braços cruzados.

— Porque essa situação parece ter escapado um pouco ao meu controle. — Rose buscou falar com a voz firme de costume, mas não lhe foi possível. Em seu lugar, saiu uma voz nervosa e pouco segura, e seus olhos se desviaram.

— Não vim para cá... para... porque... — Ela hesitou e pigarreou. — Esse tempo está fazendo com que nos comportemos de maneira incongruente.

— O tempo não tem nada a ver com isso — disse Gabriel, indiferente. — E estamos ambos nos comportando de maneira perfeitamente adequada...

— Não sei o que quer dizer — disse Rose, sem convicção.

— Pode correr de volta para o quarto se quiser, Rose. Não vou ficar em seu caminho, mas não se engane — nós desejamos um ao outro. Não adianta fingir que você tem o homem perfeito de reserva. Ele pode ser perfeito, mas não é perfeito para você, ou seu corpo não vibraria dessa forma quando eu toco você.

— Como é que você se atreve!? — disse Rose debilmente. — Isso não é verdade...

— Não? Então você não se incomodaria se eu testasse isso?

A mente de Rose gritou um frenético Sim! sim! Eu me incomodaria!, mas, quando abriu a boca, não conseguiu emitir uma só palavra. Pior, suas pálpebras bateram e, quando sua boca tocou a dela, cada osso de seu corpo se liquefez. Talvez por isso tenha se encontrado de repente apertada contra ele, as mãos em torno de seu pescoço, puxando sua cabeça para baixo enquanto ela retribuía seu beijo de modo ávido..

Nada a tinha preparado para isso. Aquele primeiro beijo tinha sido uma amostra, mas esse era de verdade. Ele tinha dito que a desejava e aquele beijo o estava mostrando.

A língua dele invadiu sua boca ansiosa e sua mão apertou-lhe a cintura, pressionando-a contra ele a ponto de sentir a rigidez de sua excitação.

Rose emitiu um lamento, mas, quando ele se afastou um pouco, ela se queixou, querendo-o mais perto de novo.

— Ainda quer voltar para o seu quarto? — murmurou Gabriel. — Porque se quiser, tem que me dizer agorinha mesmo, e levarei o colchão para você. Mas se ficar... — Rose sabia exatamente o que aquela frase inacabada queria dizer. Se ficasse, não havia volta possível. Eles fariam amor e azar para o que pudesse acontecer depois, azar para a realidade que os esperava logo ali na esquina. Ele estava lhe dando a oportunidade de mudar de idéia.

— E... amanhã? — Ela tinha que perguntar aquilo e ele entendeu perfeitamente, sabendo que amanhã não significava literalmente o dia seguinte.

— Para mim, o amanhã é uma incógnita. Mas não agora. Planejar indefinidamente o amanhã dilui a oportunidade de desfrutar do hoje. Eu penso assim. Você tem que decidir agora, Rose.

Rose sabia que o conhecia bem demais para fingir não entender o sentido de suas palavras. Estava lhe dizendo para ceder à luxúria e aproveitar o momento, pois nada mais viria de sua parte, ou abandonar a brincadeira enquanto ele lhe permitia.

Rose sorriu com pesar:

— Mas sempre vou botar a culpa disso no tempo — murmurou, acariciando o rosto dele com a palma da mão.


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