Cathy williams



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CAPITULO NOVE

Gabriel olhou para as fotografias da vila que tinham sido escaneadas e enviadas para ele. Cobriam virtualmente tudo. Dois meses e meio antes, ela tinha suportado a fúria do tempo e era como se isso tivesse sido o catalisador de uma mudança. Os equipamentos e materiais difíceis de encontrar de repente se tornaram disponíveis. Os operários recomeçaram a trabalhar com ânimo renovado. Cada coisa tinha encontrado claramente seu lugar.

Ele desligou o computador e se afastou da mesa de trabalho, girando sua cadeira e contemplando pela janela um dia cada vez mais sombrio.

O sol, a ilha, a paixão, aquela noite de chuva, vento e sexo selvagem, seguida por duas semanas do sexo mais liberado que jamais experimentara, pareciam um sonho. Ela mesma parecia um sonho. E Gabriel detestava mergulhar naquele sonho quando menos esperava, como naquele instante. Três dias depois ela o tinha deixado, aparentemente para ir ao enterro de uma parente, e Gabriel voltara para Londres para encontrar um escritório vazio e um bilhete.

Não acho que isso vá funcionar, afinal. Por favor, não tente me contatar. Já providenciei para que minha substituta comece a trabalhar assim que você chegar.

Rose


Ele sabia de cor cada palavra, porque guardara esse bilhete, que levava no bolso para se lembrar de que qualquer envolvimento emocional com uma mulher era um erro. Sim, ele tinha se envolvido emocional-mente com ela. Mais do que devia...

Seguira sua tendência natural de substituí-la por outra pessoa: tinha se apresentado nos lugares certos com a companhia certa, uma loura de um metro e oitenta de longas pernas agarrando-se a seu braço e olhando-o com admiração, mas aquela fórmula de esquecimento não funcionara. Ele fora incapaz de encontrar energia para cortejá-la; por sua vez, ela se sentira ferida, mortificada e, finalmente, com raiva.

Gabriel se entregara imediatamente ao trabalho, o que poderia ter funcionado, não fosse por momentos como esse, quando se encontrava sujeito ao poder impiedoso da memória.

A inconveniente imagem dela surgia em seu pensamento como uma projeção. Ele pensou que era porque, pela primeira vez na vida, uma mulher lhe tinha passado a perna. Sempre fora ele quem fizera o discurso contrito de que já era tempo de seguir adiante. Agora provara de seu próprio remédio e não gostara. Mas não tinha a menor intenção de procurá-la para reatar a discussão. Isso seria impensável.

Gabriel ficou de pé, espreguiçou-se, foi até a janela e ficou olhando o dia que terminava. A curiosidade mordia tenazmente o fundo de sua mente. O que pretendia ela? Teria já começado seu curso? Estaria vendo alguém? Com certeza, retomara a relação com aquele cara de quem tinha se separado. Seus dentes rangeram de raiva. Depois de ter dormido com ele, de ter provado que o cara não era compatível sexualmente com ela, ia voltar para ele só porque representava Deus sabe o quê... segurança, supunha ele!

Gabriel ficou olhando zangado através da janela. Naqueles três meses, chegara à conclusão de que dentro do peito daquela mulher sexy e sensível batia um coração que só buscava segurança. Ele deveria ter adivinhado que ela se sentiria aterrorizada por ter um caso com ele, com a liberdade sem limites que lhe oferecera. Ele a fizera liberar seu lado sexual quente e ávido, e isso fora um pouco demais. Pior para ela, se ia terminar vivendo uma vida de labuta e monotonia com um homem que claramente não amava e que nunca amaria!

Gabriel voltou a se sentar em sua mesa, bateu levemente numa das teclas do computador e a primeira versão de um relatório que precisava ser revisto apareceu na tela.

Era bem melhor que tivesse desaparecido, se tudo o que ela buscava era segurança! Ela devia saber muito bem que ele seria o último homem do mundo a oferecer uma jóia daquele preço a uma mulher. Quando chegasse seu tempo, ele se acomodaria, mas ainda faltava muito! A última coisa de que necessitava era uma situação confusa, envolvendo alguém que trabalhava para ele!

Sua satisfação era especular que, provavelmente, ela estava lamentando amargamente seu impulso apressado de partir. Quando voltasse ao normal, ele se daria conta das condições financeiras que tinha jogado fora. Quantas firmas estariam dispostas a oferecer a um empregado um tempo parcial com um salário daquele porte sem pedir garantias de que não as deixaria na mão quando terminasse seus estudos? Francamente, nenhuma. Não, ele estava quase certo de que ela estava sofrendo.

Fortalecido por esse pensamento, Gabriel voltou a contemplar as fotos da vila com a mente mais tranqüila. O local parecia incrível mesmo antes de estar acabado! Os aspectos paisagísticos, inclusive o campo de golfe, ainda tinham que ser terminados, mas isso viria por último; e as piscinas, três pequenas e uma grande, dando para o mar, estavam quase prontas.

Ele se perguntou se ia anunciá-lo de maneira agressiva como um hotel luxuoso e extremamente privado, acessível apenas a um punhado de gente seleta, ou se conservaria aquele tesouro para si, para emprestar aos amigos e passar tempo com sua família, cada vez que pudesse. Sua mãe estava sempre querendo fazer reuniões de família, poderia fazer reuniões incríveis lá!

Ele estava começando a contemplar a miríade de usos que podia dar àquela vila quando sua secretária bateu hesitantemente na porta.

Karen Davis estava provando ser uma excelente secretária substituta, se eficiência fosse o único pré-requisito. Infelizmente, na maior parte dos outros setores, eles não tinham se acertado. Aos vinte anos, ela era muito jovem, muito tímida e muito hesitante para tomar iniciativas. Realmente, tinha que lhe dar mais tempo para que ela se acostumasse com seu jeito mas... sempre que pensava dessa maneira, sua mente se voltava para Rose e disparava descontroladamente.

— O que é? — atalhou ele, adoçando a voz para um Sim? mais polido, quando Karen meteu a cabeça pela porta.

Ela era magra como exigia a moda mas, a seus olhos, parecia emaciada. Era bastante pálida, tinha cabelos longos e uma tendência a desviar os olhos cada vez que ele lhe dirigia a palavra. Era, no entanto, extremamente eficiente no que se refere aos mecanismos básicos de sua profissão. Gabriel relembrou a sucessão de nulidades que tinha empregado quando Rose fora para a Austrália e tentou suavizar sua expressão.

— Alguém quer falar com o senhor...

Gabriel tinha feito tudo para que ela o chamasse por seu nome de batismo, mas ela continuava a dizer senhor e ele tinha desistido.

— Quem é? Não há nada em minha agenda.

— Não, bem, senhor...

— Diga-lhe para marcar um encontro por seu intermédio. Não quero ficar até tarde hoje.

Karen hesitou e olhou por cima do ombro.

Parada onde Gabriel não podia vê-la, Rose olhou para a menina compassivamente. Pobre menina, tinha acabado de se diplomar no curso de secretariado. Aquele era provavelmente seu primeiro emprego real, mas não tinha nenhuma experiência em lidar com homens como Gabriel. Ela levou delicadamente um dedo à boca, instruindo a jovem para não continuar com aquele assunto e notou o lampejo de alívio em seus olhos.

Gabriel já tinha perdido interesse na identidade do misterioso visitante. Karen saiu e fechou a porta suavemente.

— Vá para casa — disse Rose delicadamente. — Eu vou entrar.

— Mas... — Karen voltou a olhar para a porta fechada e mordeu nervosamente os lábios — ele vai me matar se você entrar assim no escritório dele. Uma parte de minhas funções é justamente... você sabe... vetar as pessoas que desejam vê-lo...

— Não se preocupe com isso. Não se esqueça de que já trabalhei para ele, não sou uma estranha. — Rose encontrara Karen rapidamente, no mesmo dia em que viera limpar sua mesa, dois dias antes que Gabriel voltasse da ilha. Percebera que a menina estava curiosa em saber por que tinha sido recrutada com tanta urgência, mas fora convencida sobretudo pela generosidade do pagamento. O rosto de Rose lhe era familiar. Apesar de suspeitar que Rose não fosse uma visitante extremamente bem-vinda, Karen se limitou a seguir o caminho da menor resistência e deu o fora do escritório silenciosa e rapidamente.

Quando a porta se fechou, Rose tomou fôlego. Passara os quatro últimos dias tentando prever como se sentiria ao se ver dentro do escritório. Conhecia os horários de funcionamento e queria chegar quando a maioria do pessoal já estivesse saindo.

Seu estômago se contraía de ansiedade. Ela limpou na saia as mãos molhadas de suor e se forçou a caminhar até à porta, onde bateu.

— Sim! O que é agora?! — interpelou ele, ainda menos cortês do que quando Karen batera um pouco antes.

Ela abriu a porta de comunicação. Concentrado na tela do computador, Gabriel nem levantou a cabeça, permitindo que Rose ficasse contemplando-o por alguns segundos.

Como sempre, sua beleza masculina a tomou de assalto, mas ele lhe pareceu mais magro do que a última vez em que o vira, naquela noite fatídica em que ela se fora de sua vida. Para sempre. Ou pelo menos, era o que ela imaginara naquele momento.

— Gabriel! — Sua voz ecoou na sala. A cabeça de Gabriel se ergueu sob o choque, mas seu rosto assumiu uma expressão de quietude enigmática. Eles se encararam por alguns instantes que pareceram horas. Suas pernas pareciam que iam desmoronar. Ele foi o primeiro a romper o silêncio.

— O que é que você está fazendo aqui? — Gabriel se afastou da escrivaninha para cruzar as pernas e poder vigiar aquela mulher que estava ali diante dele, parecendo nervosa. O fato*de que tinha acabado de pensar nela deixara um gosto amargo em sua boca.

Rose sentiu que o discurso que ensaiara cuidadosa mente não sairia de sua boca seca.

— Sente-se. Embora tenha que lhe dizer... — ei olhou de relance para o relógio... — que não tenho muito tempo para conversas sociais. Estou saindo para um encontro e não creio que a moça em questão aprecie ficar me esperando por causa de um caso antigo. — Na verdade, ele não tinha nenhum encontro. Tinha desmarcado o encontro com uma ruiva alguns dias antes, preferindo a companhia de seu fiel laptop, mas não hesitou em mentir. Ele sabia que rejeitá-la como um caso antigo a feriria, que certamente sua fisionomia se contrairia — mas ela não desviou os olhos do seu rosto.

— Então, o que é que você quer?

— Eu...eu...

— ...você estava passando e quis dar um pulinho aqui pára ver como estou? — Gabriel ergueu suas sobrancelhas, incrédulo. — Acho meio difícil acreditar nisso.

— Sei que você ficou surpreso quando regressou a Londres... e encontrou.... encontrou o que lhe deixei. — Isso não era exatamente o que ela preparara para dizer, mas olhar para ele a tinha deixado fora de si.

— Mas o que foi que lhe deu essa idéia?! — perguntou Gabriel com um laivo de sarcasmo. — Será porque, na noite anterior à sua partida, fizemos amor de maneira apaixonada? Com certeza eu me iludi ao imaginar que você ia querer continuar nosso caso.

— As coisas mudam.

— Quando foi que decidiu que dar o fora era uma boa idéia? Foi quando voltou para o Reino Unido? — Ele percebeu o ínfimo sinal de hesitação em seu rosto e atacou com precisão mortal. — Você já tinha decidido isso antes, não tinha...? — disse Gabriel devagar. O silêncio dela era em si mesmo uma resposta. Ele tinha sido usado. Gabriel sentiu como se uma marreta o tivesse atingido na cabeça.

— Você não entendeu, Gabriel... — Rose se viu numa situação complicada.

— Ah, entendi perfeitamente. Posso lhe dizer como é que vejo as coisas...?

— Não!

Rose tentou controlar o tremor das mãos, mas aquele rosto cruel e magnífico a fascinava. Ela podia perceber suas intenções. E não tinha muita escolha porque, quando estava daquele jeito, Gabriel era uma força que nada podia deter.



— Você se tornou minha amante porque estava frustrada com o namoradinho que deixou aqui... Não me pergunte o porquê... talvez você tenha achado que ele não podia satisfazê-la... — Rose respirou com dificuldade, incrédula. Ela teria dado uma grande risada se ele não estivesse tão absorto naquela ridícula teoria. — E, como o destino escreveu, a gente acabou na cama. Embora... pode ser que a parte do destino tenha sido menor do que pensei... Afinal de contas, foi você que veio correndo para minha cama quando ouviu o primeiro trovão, foi você que saiu correndo do banheiro com essa história de aranha, e por acaso acabou caindo em cima de mim...

— Se você está bem lembrado, fui eu também quem disse que não queria que nada... acontecesse entre nós!

— Isso era impossível e você bem o sabia! — rejeitou Gabriel. — Você sabia que terminaríamos transando de qualquer jeito. Diga-me uma coisa, você repassou para seu namoradinho tudo o que aprendeu comigo?

Rose cerrou os punhos. Se estivesse mais perto dele, teria dado um soco naquele rosto sexy, debochado. Como é que ele ousava chegar àquelas conclusões horrendas? E por que se incomodar em lhe dizer que Joe nem existia mais? Joe, o homem que durara apenas um encontro!

Quando voltara, ela sabia, sem sombra de dúvida, que não poderia haver mais ninguém, exceto Gabriel. Pelo menos por algum tempo. Não era justo que qualquer outro homem sofresse a humilhação de ser comparado a ele.

— Como você pode pensar isso de mim, Gabriel? Como pode pensar que eu seria... calculista o bastante para ir para a cama com um homem apenas para me exercitar?

— Então, quando foi que você tomou a decisão de partir e por quê? — Com horror de si mesmo devido à sua fraqueza em querer saber, Gabriel lançou-lhe um olhar de frio desprezo.

— Na verdade, fiz um favor para você, Gabriel. — Ela o encarou firmemente, ainda que, por dentro, seus nervos estivessem em frangalhos. — Sabia que ia se cansar de mim mais cedo ou mais tarde. Evitei-lhe o embaraço de ter que se livrar de mim e evitei para mim a dor de...

A dor de quê?

— Deixe para lá. Não tem nenhuma importância. Nem tem nada a ver com a razão pela qual estou aqui.

Quando ela passara em revista na cabeça as possíveis conseqüências de sua visita, nenhuma lhe parecia muito confortadora. Quando ele não respondeu, ela perguntou, insegura.

— Você não quer saber por que estou aqui?

— Eu já sei.

Os olhos de Rose se arregalaram.

— Não sabe! Como poderia saber?

— É muito fácil. — Gabriel deu de ombros elegantemente. — Quando se ultrapassa todas essas besteiras, o que fala mais alto é o dinheiro.

— Mas...

Ele ergueu uma mão imperiosa.

— Como é que você está indo no curso?

— Na verdade... nem comecei. Mas o que tem isso a ver com o resto?

Gabriel não escondeu a amarga punhalada de desapontamento. Teria ele realmente pensado que ela era diferente do resto do gênero humano?

— Quanto?

— Quanto o quê? — perguntou Rose, estupefata.

— Quanto é que você quer para financiar o curso? — Ele andou até a janela, sentando-se no parapeito e olhando para ela com desprezo. — Fiquei imaginando quanto tempo levaria para se dar conta das excelentes condições financeiras às quais renunciou quando saiu daqui. Eu poderia ser implacável e mandar você dar o fora, mas que diabos, o que é um pouco de dinheiro em compensação pelo seu... esforço?

— Esqueça isso, Gabriel. — Rose se levantou com as pernas tremendo e se encaminhou para a porta.

Ir lá tinha sido um enorme erro, mas ela tinha discutido com a irmã, que vira aquele passo como a coisa correta e decente a ser feita. Naquele momento, ela se perguntava que aspectos do que era direito e decente um homem como Gabriel Gessi podia entender, dado que seu mundo era regido pelo dinheiro.

— Sente-se aí! — ordenou ele, mas ela já estava quase na porta.

Mas não chegou até lá. Ele correu até onde ela estava, agarrou-a pelos ombros e forçou-a a encará-lo. O toque da mão em seu corpo foi como a queimadura de um ferro em brasa. Ele a encarou, os dedos enterrando-se em sua carne, até que ela se afastou.

— Não vim aqui para ouvir suas acusações — disse ela apressadamente. — Não vim aqui para ser acusada de ser uma interesseira ou coisa desse tipo.

— Por que você veio, afinal? Para conferir e se certificar de que a secretária que pôs em seu lugar estava fazendo tudo direitinho? Está, sim. Não precisa se preocupar com isso.

— Vim para lhe dizer que estou grávida!

O silêncio que se instalou era tão profundo que chegava a ser ensurdecedor. Pela primeira vez desde que o conhecera, Rose viu o patrão perder literalmente a fala. As cores se retiraram de seu rosto e ele ficou olhando fixamente para ela por alguns segundos, durante os quais ela podia jurar que seu coração parou.

Mas ele se recuperou rapidamente. O choque cedeu lugar à suspeita.

— Impossível. Tomamos todo o cuidado.

— Não naquela primeira noite... Posso me sentar um pouco agora? — Se não o fizesse, suas pernas corriam o risco de desmoronar, elas pareciam de borracha. Ela se sentou na cadeira e, por um certo tempo, ele ficou de pé atrás dela, como se estivesse imobilizado. Rose se recusou a girar a cadeira para encará-lo. Não podia imaginar o que lhe passava pela cabeça, mas tinha certeza de que não era boa coisa. A paternidade era um preço muito alto a pagar por duas semanas de sexo com uma mulher destinada a ser apenas mais uma. Ela jamais figuraria em sua agenda se não tivesse voltado da Austrália com alguns quilos a menos, um pouco mais morena, mais condizente com seu padrão de mulher atraente.

Não ousou enfrentar o horror que devia ter-se estampado em seu belo rosto. Finalmente, ele andou em direção a ela, ultrapassou-a, foi até a janela e ficou olhando para fora no mais perfeito e revelador silêncio.

Ela queria muito lhe dizer que nunca lhe tinha ocorrido que podia ficar grávida apenas por um único deslize. Ela tinha estupidamente permitido que a paixão a fizesse esquecer as mais simples precauções. Gabriel, equivocadamente, pensara que estava tomando pílula e, no dia seguinte, quando lhe garantira que não estava protegida, ele assumira a questão da contracepção.

Ela nunca poderia imaginar que então já era tarde demais. Sua irmã levara seis meses tentando conceber uma criança!

— Quando foi que você descobriu? — perguntou friamente Gabriel, virando-se para ela.

— Há dez dias. — Seus olhos se desviaram da expressão fria e fechada. — Foi... quando fui ao dentista e ela me perguntou se havia possibilidade de que eu estivesse grávida, porque tinha que tirar uma radiografia. Daí me lembrei que a última vez que eu menstruara tinha sido há muito tempo. — Suas palavras tropeçavam umas nas outras, mas aquela expressão em seus olhos...

Quando ela ensaiara o que ia dizer, a cena nunca tinha se desenrolado assim em sua cabeça. Claro, ela previra que ficaria nervosa, mas tinha decorado bem seu discurso. Ela estava grávida e assumia inteira responsabilidade pelo que acontecera. Apenas achara justo que ele tomasse conhecimento da situação, mas não queria impor-lhe nada, financeira ou emocionalmente. Em sua cabeça, ela se via emergir dessa situação orgulhosamente independente, aberta e desejosa de negociar quaisquer direitos de visita que ele pudesse reivindicar, mas também aberta ao fato de que pudesse desejar muito pouco quanto a isso. Afinal de contas, uma criança nunca fizera parte de seus planos...

— Por que acha que vou acreditar em você? — perguntou Gabriel.

Rose o encarou, o ventre contraído de apreensão.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer — disse ele, num tom que não admitia contestação — que descobri de repente que você me achava irresistível. Você trabalhou anos para mim e, cinco segundos antes de chegar naquela ilha, de repente eu me tornei o homem de seus sonhos. Estranho, não acha? — Rose preferiu ficar calada, esperando que ele desenvolvesse seu raciocínio. — Particularmente estranho — prosseguiu Gabriel — considerando que você acabara de arranjar um namorado...

— Seu orgulho de macho ferido o levava a acusações que a expressão no rosto dela desmentia. Mas ele não podia parar. Sobretudo ao pensar na possibilidade de que ela estivesse vendo de novo aquele cara, dormindo com ele.

— Meses depois de abandonar seu emprego, você aparece aqui com essa história de que está grávida.-

— Sua boca se contraiu num esgar cínico. — Se você está mesmo grávida, quem me garante que já não estava quando viajou comigo? Quem me garante que aquela repentina urgência de pular na cama comigo não era um artifício para que você e seu amante viessem me extorquir dinheiro?

O choque de Rose podia ser visto em seu rosto branco e incrédulo; o bastante para que Gabriel sentisse uma pontada de culpa por ter descrito o caráter dela daquela maneira. Ela tentou se levantar, mas ele ficou na frente dela, seus braços prendendo-a como barras de aço.

— Nem pense nisso! — grunhiu. — Não pense que pode vir aqui, dizer que está carregando um filho meu e dar o fora de repente!

— E você, não pense que pode me acusar de ser uma alpinista social que só fez usá-lo\ Isso foi a coisa mais insultante que alguém me disse na vida! Como pode pensar que eu tinha um motivo oculto para dormir com você? O fato de que você possa dizer tais coisas sobre outra pessoa revela bastante sobre quem é você, Gabriel Gessi!

Gabriel recuou, enfiou fundo as mãos nos bolsos e virou-se para encará-la.

— O que você podia esperar? — gaguejou. — Você entra aqui com uma bomba e acaba de detoná-la na minha cara.

— Lamento. — Ela recuperara inteiramente a calma. Sua reação extremada era mais fácil de suportar do que se ele lhe tivesse oferecido ajuda ou compaixão. Ela não tinha nem certeza se estava mesmo assim tão surpreendida ou ferida diante daquelas acusações cruas. Gabriel era obscenamente rico e tinha a mente instintivamente desconfiada de alguém que era obscenamente rico. E ela reconhecia que, efetivamente, a gravidez podia ser o caminho mais rápido para o bolso de um homem. O que mais doía não era a interpretação fria do que ela dissera, era que ele pensara aquilo tudo, que tinha deixado sua mente tortuosa prevalecer sobre o conhecimento que certamente tinha dela depois de tanto tempo. — Sei que você está chocado — disse ela, sem entonação. — Pensei muito se devia vir aqui e dizer tudo a você ou não, mas, afinal, achei que tinha o direito de saber. E antes que você chegue a conclusões erradas, deixe-me dizer de cara que não estou atrás de seu dinheiro, não elaborei nenhum plano para arrancar dinheiro de você. Não posso voltar atrás no tempo e anular o que aconteceu entre nós naquela ilha, mas não fui cúmplice do que aconteceu.

— Ao olhar para ele, ela sentiu uma pontada de compaixão. — E é mesmo seu, Gabriel. Não me encontrei com Joe desde que voltei à Inglaterra e, de qualquer jeito, nunca fui para a cama com ele.

Ela se sentiu de repente exausta. Os últimos dez dias tinham sido uma luta. Ao voltar para Londres, tinha rapidamente encontrado um emprego temporário bastante decente. Mas era pouco inspirador e lhe deixava muito tempo livre para fazer o luto do que abandonara. Ela se torturava dizendo que devia ter ficado e aproveitado o trato que ele lhe oferecera, esperando para ver o que ia acontecer. Tinha salvaguardado seu orgulho, evitado o possível abandono, mas sua cama estava fria e sua mente não cessava de repassar argumentos e contra-argumentos durante a noite.

Ela também abandonara seus planos de formação. Não tinha cabeça para fazer um curso de administração de empresas naquele momento.

Ela vivera então numa espécie de torpor depressivo, um dia atrás do outro, até dez dias antes, quando o teste de gravidez lhe mostrara duas brilhantes linhas azuis.

E aí estava ela, depois de ter feito o que achava correto, enfrentando um bombardeio de acusações. Apertou os dentes para não chorar.

— Tudo bem, vamos dizer que acredito em você... — Ele acreditava mesmo, a verdade estava escrita no rosto dela. Não pensara nem por um segundo que ela fosse capaz de dormir com ele só para poder mais tarde jogar-lhe aquele conto trágico de gravidez na cara. Tampouco sabia o que o levara a agredi-la com tanta violência. Mas acreditava nela: ela estava carregando um filho seu.

167

Gabriel ficou chocado ao se dar conta de que seus sentimentos iniciais eram de pura satisfação viril. Ele se sentia como se tivesse triunfado.



— Acredita mesmo? — disse Rose com voz cansada.

— O que não me impede — acrescentou ele — de pedir um teste de DNA a qualquer momento... — Ele sabia que jamais o faria.

— Não estou mentindo para você, Gabriel. Você acreditaria mais facilmente em mim se lhe disser que vim aqui hoje porque julguei que era a coisa moralmente certa a ser feita?

— Você deve saber que, de jeito algum, deixarei um filho meu sem...

— Filho? Espere aí...

— Ou filha, claro. — Ele sacudiu os ombros de maneira elegante e começou a andar pela sala, obrigando-a a se virar para poder segui-lo com os olhos. — Seja lá o que for. Não permitirei que qualquer filho meu viva sem mim.

— Naturalmente, você pode decidir contribuir para o bem-estar dele ou dela, isso será decisão sua.

Contribuir? — Ele soltou uma gargalhada. — Contribuir? Você fala como se minha própria carne e meu próprio sangue fossem receber uma doação ocasional! Não, meu envolvimento será muito mais profundo do que um cheque enviado uma vez por mês...

Pela primeira vez, desde que ela desaparecera, Gabriel sentiu que a inquietação irritada dentro dele começara a ceder, diante da perspectiva de um futuro com que nunca sonhara.

— Em que está pensando? — perguntou Rose, com voz contida.

— Vamos colocar as coisas assim, Rose... — Ele voltou a se sentar atrás de sua escrivaninha e a encarou. Podia ver agora que ela tinha engordado um pouco e que parecia iluminada. — Nenhum filho meu será um bastardo.

— O que quer dizer...?

— Quero dizer que você terá que se casar comigo. Essa solução drástica deixou Rose chocada.

— Nem pensar! — falou ela de maneira inflexível. — Não estamos mais na Idade Média, Gabriel. Há montes de crianças nascendo sem que os pais sejam casados. Não há mais nenhum estigma social ligado a isso.

— Isso é irrelevante.

— Não, não é irrelevante! — Casar com ele? Viver a vida inteira sabendo que tinha se ligado a ela por causa de uma criança? Havia maneira melhor de fazer com que o casamento azedasse a relação entre duas pessoas? — Não posso me casar com você só porque estou grávida! — Rose, lutou para que ele aceitasse esse ponto de vista, sabendo que ele era um dinossauro tradicionalista. — É a pior idéia que já ouvi. Isso não foi escolha sua.

— Não vou negar isso.

— Desculpe, não vou deixar que você se enterre num casamento comigo só por obrigação...

— Não creio ter dado a você alguma escolha.

Os sonhos de casamento de Rose não incluíam ter um filho do homem que amava e ficar à espera de que ele viesse a amá-la por isso. Nem a eventualidade de que seu marido se cansasse dela e fosse dar suas voltinhas. Um casamento artificialmente sustentado por uma criança seria certamente forjado no inferno.

— Você vai se casar comigo, Rose. Pode escolher uma cerimônia simples e discreta ou um grande casamento com todo o luxo, mas vai se casar comigo de qualquer jeito!

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