Celebração da Disciplina o caminho do Crescimento Espiritual



Baixar 493.9 Kb.
Página9/13
Encontro04.08.2016
Tamanho493.9 Kb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   13

Passos para a Solitude


As Disciplinas Espirituais são coisas que fazemos. Nunca devemos perder de vista esse fato. Podemos falar piedosamente acerca da “solitude do coração”, mas se isto, de certo modo, não abrir caminho para nossa experiência, então erramos o alvo das Disciplinas. Estamos lidando com ações, e não apenas com estados mentais. Não é suficiente dizer: “Bem, muito certamente estou na posse da solitude e silêncio interiores; não há nada que eu necessite fazer.” Todos quantos chegaram aos silêncios vivos fizeram determinadas coisas, ordenaram suas vidas de uma forma especial, de modo que recebessem a “paz de Deus, que excede todo o entendimento”. Se desejamos ter êxito, devemos ir além do teorético para as situações da vida.

Quais são alguns passos para a solitude? A primeira coisa que podemos fazer é tirar vantagem das “pequenas solicitudes” que enchem nosso dia. Consideremos a solitude daqueles primeiros momentos matutinos na cama, antes que a família desperte. Pense na solitude de uma xícara de café pela manhã, antes de começar o trabalho do dia. Existe a solitude de pára-choque de um carro junto ao pára-choque de outro durante a correria do tráfego na hora de mais movimento.

Pode haver poucos momentos de descanso e refrigério quando dobramos uma esquina e vemos uma flor ou uma árvore. Em vez da oração audível antes de uma refeição, considere convidar a todos para reunir-se em uns poucos momentos de silêncio.

De quando em quando, dirigindo um carro lotado de crianças e adultos conversadores, eu exclamava: “Vamos brincar de fazer silêncio e ver se ficamos absolutamente calados até chegarmos ao aeroporto” (cerca de cinco minutos adiante). Funcionava. Encontre nova alegria e significado no pequeno trecho que vai do metrô ou do ponto de ônibus até à sua casa. Saia um pouquinho antes de ir deitar-se, e prove da noite silenciosa.

Muitas vezes perdemos esses pequeninos lapsos de tempo. Que pena! Eles podem e deveriam ser redimidos. São momentos para silêncio interior, para reorientar nossas vidas como o ponteiro de uma bússola. São pequenos momentos que nos ajudam a estar genuinamente presentes onde estamos.

Que mais podemos fazer? Podemos encontrar ou criar um “lugar tranqüilo” para silêncio e solitude. Constantemente estão sendo construídas novas casas. Por que não insistir em que um pequeno santuário interior seja incluído nas plantas, um pequeno lugar onde um membro da família possa estar a sós e em silêncio? Que é que nos impede? Construímos esmeradas salas de estar, e achamos que vale a pena a despesa. Se você já possui uma casa, considere murar uma pequena seção da garagem ou pátio. Se mora num apartamento, seja criativo e ache outros meios de permitir-se a solitude. Sei de uma família que tem uma cadeira especial; sempre que uma pessoa se assenta nela, é como estar dizendo:

“Por favor, não me amole; quero estar a sós.”

Encontre lugares fora de sua casa: um local num parque, o santuário de uma igreja (dessas que mantêm abertas suas portas), mesmo um depósito em algum lugar. Um centro de retiro perto de nós construiu uma bonita cabana para uma pessoa, especificamente para meditação particular e solitude. Chama-se “Lugar Tranqüilo”. As igrejas investem somas enormes de dinheiro em edifícios. Que tal construir um lugar onde alguém possa ir para estar a sós durante alguns dias? Catherine de Haeck Doherty foi a pioneira no desenvolvimento de Poustinias (palavra russa que significa “deserto”) na América do Norte. São lugares destinados especificamente para solitude e silêncio.

No capítulo sobre estudo, consideramos a importância de observar a nós mesmos para ver com que freqüência nossa conversa é uma tentativa frenética de explicar e justificar nossas ações. Tendo observado isto em você mesmo, experimente praticar ações sem nenhuma palavra de explicação. Note seu senso de temor de que as pessoas entendam mal você por que você fez o que fez. Tente deixar que Deus seja seu justificador.

Discipline-se, de modo que as suas palavras sejam poucas mas digam muito.

Torne-se conhecido como uma pessoa que, quando fala, sempre tem algo a dizer.

Mantenha clara sua linguagem. Faça o que diz que fará. “Melhor é que não votes do que votes e não cumpras” (Eclesiastes 5:5). Quando a língua se encontra sob a nossa autoridade, as palavras de Bonhoeffer se tornam verdadeiras com relação a nós: “Muita coisa desnecessária fica por dizer. Mas a coisa essencial e útil pode ser dita em poucas palavras.”

Dê outro passo. Tente viver um dia inteiro sem proferir palavra alguma. Faça-o, não como uma lei, mas como um experimento. Note seus sentimentos de desamparo e excessiva dependência das palavras para comunicar-se. Procure encontrar novos meios de relacionar-se com outros, que não dependam de palavras. Aproveite, saboreie o dia. Aprenda com ele.

Quatro vezes por ano retire-se durante três a quatro horas com a finalidade de reorientar os alvos de sua vida. Isto pode ser facilmente feito em uma noite.

Fique até tarde no escritório, faça-o em casa, ou procure um canto sossegado em uma biblioteca pública. Reavalie suas metas e objetivos. Que é que você deseja ver realizado daqui a um ano? Daqui a dez anos? Nossa tendência é superestimar em alto grau o que podemos realizar em dez. Estabeleça metas realistas, mas esteja disposto a sonhar, esforçar-se. No sossego dessas breves horas, ouça o trovão do silêncio de Deus. Mantenha um registro diário do que lhe acontece.

A reorientação e fixação de metas não precisam ser frias e calculadas, como alguns imaginam, feitas com uma mentalidade de análise de mercado. Pode ser que, ao entrar num silêncio atento, você receba a deliciosa impressão de que este ano deseja aprender a tecer ou trabalhar com cerâmica. Essa lhe parece uma meta muito terrestre, antiespiritual? Deus está intencionalmente interessado em tais questões. Está você? Talvez você deseje aprender (experimentar) mais acerca dos dons espirituais de milagres, de cura e de língua. Ou você pode fazer, como um amigo que sei que está gastando longos períodos de tempo experimentando o Dom de socorros, aprendendo a ser servo. Talvez no próximo ano você gostaria de ler todas as obras de C. S. Lewis ou de D. Elton Trueblood. A escolha desses alvos soa-lhe como jogo de manipulação de um vendedor? Claro que não. Não se trata de meramente estabelecer uma direção para sua vida. Você está indo para algum lugar, por isso é muito melhor ter uma direção fixada pela comunhão com o Centro divino.

Na Disciplina do estudo examinamos a idéia de retiros de estudo de dois ou três dias. Tais experiências quando combinadas com uma imersão interior no silêncio de Deus, são enaltecidas. À semelhança de Jesus, devemos afastar-nos das pessoas de modo que possamos estar verdadeiramente presentes quando estivermos com elas. Faça um retiro uma vez por ano, sem outro propósito em mente que não a solitude.

O fruto da solitude é aumento de sensibilidade e compaixão por outros. Surge uma nova liberdade para estar com as pessoas. Há uma nova atenção para com suas mágoas. Thomas Merton observou:

“É na profunda solitude que encontro afabilidade com a qual posso verdadeiramente amar a meus irmãos. Quanto mais solitário estou, tanto mais afeição sinto por eles. É pura afeição e cheia de reverência pela solitude dos outros. Solitude e silêncio ensinam-me a amar meus irmãos pelo que eles são, e não pelo que dizem.”

Não sente você um toque, um anseio de aprofundar-se no silêncio e solitude de Deus? Não deseja uma exposição mais profunda, mais completa à Presença de Deus?

A Disciplina da solitude é que abrirá a porta. Você está convidado a vir e “ouvir a voz de Deus em seu silêncio todo-abrangente, maravilhoso, terrível, suave e amoroso”.

8. A Disciplina da Submissão


O cristão é o mais livre de todos os senhores, e não está sujeito a ninguém; o cristão é o mais submisso de todos os servos, e está sujeito a todo mundo.” - Martinho Lutero

De todas as Disciplinas Espirituais, nenhuma tem sofrido mais do que a Disciplina da submissão. De certo modo, a espécie humana tem uma habilidade extraordinária para tomar o melhor ensino e transformá-lo nos piores fins. Nada pode escravizar tanto as pessoas como na religião tem feito mais para manipular e destruir as pessoas do que um ensino deficiente sobre a submissão. Portanto, devemos entrar nesta Disciplina com grande cuidado e discernimento a fim de garantir que somos ministros da vida e não da morte.

Toda Disciplina tem sua liberdade correspondente. Se me preparei na arte da retórica, estou livre para proferir um comovente discurso quando a ocasião o exigir. Demóstenes ficou livre para ser orador somente porque suportou a disciplina de falar mais alto do que o rugido do oceano, com pedrinhas na boca.

O propósito das Disciplinas é a liberdade. Nosso objetivo é a liberdade, não a Disciplina. No momento em que fazemos da Disciplina nosso foco central, tornamo-la em lei e perdemos a correspondente liberdade.

As Disciplinas não têm, em si mesmas, nenhum valor. Elas só têm valor como meio de colocar-nos diante de Deus de sorte que ele possa dar-nos a libertação que buscamos. A libertação é o alvo; as Disciplinas são meramente os meios. Elas não são a resposta; apenas nos conduzem à Resposta. Devemos entender com clareza esta limitação das Disciplinas se quisermos evitar a escravidão. Não só devemos entendê-la, mas precisamos sublinhá-la para nós mesmos repetidas vezes, tão grave é nossa tentação de concentrar-nos nas Disciplinas.

Concentremo-nos sempre e Cristo e consideremos as Disciplinas Espirituais como um meio de aproximar-nos mais do coração do Mestre.


Liberdade na Submissão


Eu disse que toda Disciplina tem sua liberdade correspondente. Que liberdade corresponde à submissão? É a liberdade de render a terrível carga de sempre necessitar de fazer as coisas ao nosso próprio modo. A obsessão de exigir que as coisas marchem de acordo com a nossa vontade é uma das maiores escravidões da sociedade humana hodierna. As pessoas passam semanas, meses, até mesmo anos em perpétua agonia porque alguma coisinha não lhes saiu como desejavam. Elas queixam-se e se revoltam. Ficam furiosas e agem como se sua própria vida dependesse disso. Podem até adquirir úlceras por causa da situação.

Na Disciplina da submissão ficamos livres para deixar de lado a questão, para esquecê-la. Francamente, a maioria das coisas na vida não são tão importantes como pensamos. Nossa vida não se acaba se isto ou aquilo não acontece.

Se você observar essas coisas, há de ver, por exemplo, que todas as lutas e divisões na igreja ocorrem porque as pessoas não têm a liberdade de submeter-se umas às outras. Insistimos em que está em jogo um problema crítico; estamos lutando por um princípio sagrado. Talvez seja verdade. Geralmente não o é. Com freqüência não significaria não conseguir as coisas do nosso jeito. Só na submissão é que nos capacitamos a levar esse espírito a um lugar onde ele não mais nos controle. Só a submissão pode livrar-nos suficientemente para capacitar-nos a distinguir os problemas autênticos e a obstinada vontade-própria.

Se ao menos pudéssemos ver que a maioria das coisas na vida não são problemas importantes, então poderíamos dar-lhes pouca importância. Descobrimos que não são grande coisa. Por isso dizemos com freqüência; “Bem, não me importo”, quando o que realmente queremos dizer (e o que transmitimos aos outros) é que nos importamos um bocado. É precisamente aqui que a Disciplina do silêncio se ajusta tão bem a todas as demais Disciplinas. Em geral, o melhor modo de lidar com a maioria das questões de submissão é ficar calado. Há necessidade de um espírito de graça todo-abrangente que ultrapasse qualquer tipo de linguagem ou ação. Quando assim procedemos, libertamos os outros e a nós também.

O ensino bíblico sobre a submissão concentra-se, antes de tudo, no espírito com que vemos as outras pessoas. A Escritura não tenta expor uma série de relacionamentos hierárquicos, mas comunicar-nos uma atitude interior de mútua subordinação. Pedro, por exemplo, apelou para os escravos de seu tempo a que vivessem em submissão a seus senhores (1 Pedro 2:18). O conselho parece desnecessário até percebermos que é perfeitamente possível obedecer a um senhor sem viver num espírito de submissão a ele. Exteriormente podemos fazer o que as pessoas pedem e internamente estar em rebeldia contra elas. A preocupação por um espírito de apreço a outras pessoas permeia todo o Novo Testamento. O antigo pacto estipulava que não devemos matar. Jesus, porém, acentuou que o verdadeiro problema era o espírito interior de homicídio com o qual consideramos as pessoas. O mesmo se verifica com o problema da submissão; o verdadeiro problema é o espírito de consideração e deferência que temos quando estamos com outras pessoas.

Na submissão estamos, afinal, livres para valorizar outras pessoas. Seus sonhos e planos tornam-se importantes para nós. Entramos numa nova, maravilhosa e gloriosa liberdade - a liberdade de abrir mão de nossos próprios direitos para o bem do próximo. Pela primeira vez podemos amar as pessoas incondicionalmente.

Abrimos mão do direito que temos de que elas retribuam nosso amor. Já não sentimos que temos de ser tratados de determinado modo. Podemos regozijar-nos com os sucessos delas. Sentimos verdadeiro pesar por seus fracassos. Pouco importa que nossos planos se frustrem, se os delas têm êxito. Descobrimos que é muito melhor servir ao próximo do que fazer como bem entendemos.

Você conhece o livramento que há em abrir mão de seus direitos? Significa que você está livre da ira fervente e da amargura que sente quando a atitude de alguém não é a que você esperava. Significa que, afinal, você pode quebrar a perversa lei de comércio: “Você coça minhas costas, eu coço as suas; você faz sangrar meu nariz, eu faço sangrar o seu.” Significa liberdade de obedecer à ordem de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44). Significa que, pela primeira vez, entendemos como é possível render o direito de retaliar: “A qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra” (Mateus 5:39).


Pedra de Toque


Como talvez você tenha notado, entrei no assunto da submissão pela porta dos fundos. Comecei explicando que ela faz por nós antes de definir o que ela é. Assim fiz com uma finalidade. Muitos de nós temos sido expostos a uma forma tão mutilada de submissão bíblica que ou temos aceito a deformidade ou temos rejeitado totalmente a Disciplina. A primeira atitude leva-nos a odiar-nos a nós mesmos; a Segunda conduz à arrogância. Antes de nos agarrarmos às pontas do dilema, consideremos uma terceira alternativa.

A pedra de toque para o entendimento bíblico da submissão é Marcos 8:34:

Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.”

Quase instintivamente recusamos em face dessas palavras. Sentimo-nos muito mais à vontade com palavras como “auto-realização” do que com a idéia de “negação de si mesmo”. (Em realidade, o ensino de Jesus sobre a negação de si mesmo é a única coisa que geralmente traz auto-realização.) A negação de si mesmo faz aparecer em nossa mente toda espécie de imagens de aviltamento e de ódio de si mesmo. Imaginamos que, com absoluta certeza, significa a rejeição de nossa individualidade e provavelmente nos conduzirá a várias formas de automortificação.

Pelo contrário, Jesus nos chamou a negar-nos a nós mesmos sem querer que nos odiemos a nós mesmos. A autonegação é simplesmente uma forma de vir a entender que não temos de fazer nossa própria vontade. Nossa felicidade não depende de conseguir o que desejamos.

Autonegação não significa a perda de nossa identidade, como pensam alguns. Sem identidade não poderíamos nem mesmo sujeitar-nos uns aos outros. Perdeu Jesus a identidade quando voltou o rosto para o Gólgota? Perdeu Pedro a identidade quando respondeu à ordem de Jesus de carregar sua cruz: “Segue-me” (João 21:19)? Perdeu Paulo a identidade quando se entregou Àquele que havia dito:

Pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (Atos 9:16)?

Claro que não. Sabemos que o contrário é verdadeiro. Eles encontraram identidade no ato de negar-se a si mesmos.

Autonegação não é a mesma coisa que desdenhar-se. O desdenhar a si mesmo alega que não temos valor, e mesmo que tivéssemos, deveríamos rejeitá-lo. A autonegação declara que somos de valor infinito e ainda nos mostra como percebê-lo. O autodesdém nega a bondade da criação; a autonegação afirma que ela foi realmente boa. Jesus fez da capacidade de amar-nos a nós mesmos o requisito indispensável para alcançarmos os outros (Mateus 22:39). O amor-próprio e a autonegação não estão em conflito. Jesus deixou perfeitamente claro, mais de uma vez, que a autonegação é o único meio seguro de amar-nos a nós mesmos. “Quem acha a sua vida, perdê-la-á” (Mateus 10:39).

Repito, devemos sublinhar para nós mesmos que a autonegação significa a liberdade de submeter-nos a outros. Significa manter os interesses alheios acima do nosso próprio. Desta maneira, a autonegação libera-nos da autopiedade.

Quando vivemos fora da autonegação, exigimos que as coisas andem segundo nosso entender. Quando não andam, voltamo-nos para a autopiedade. “Pobre de mim!” Exteriormente podemos submeter-nos, mas o fazemos num espírito de martírio. O espírito de autopiedade, de martírio, é sinal seguro de que a Disciplina da submissão malogrou. É por isso que a autonegação é a base da Disciplina; ela salva-nos da autopiedade.

Homens e mulheres dos nossos tempos acham extremamente difícil ler os grandes mestres devocionais porque fazem uso tão pródigo da linguagem da autonegação. É-nos difícil abrir-nos às palavras de Thomas de Kempis: “Não formar opinião de nós mesmos, e sempre pensar em termos elevados com relação aos outros, é grande sabedoria e perfeição.” É difícil dar ouvidos às palavras de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34). Tudo isto porque temos falhado em entender o ensino de Jesus de que o caminho da auto-realização passa pela autonegação. Salvar a vida é perdê-la; perdê-la por amor a Cristo é salvá-la (Marcos 8:35). George Matheson introduziu a hinologia da igreja este maravilhoso paradoxo meditante a autonegação:

Faze-me um cativo, Senhor,

E livre então serei;

Obriga-me a entregar a espada,

E serei conquistador.

Nos alarmes da vida me afundo

Quando estou só;

Aprisiona-me em teus braços,

E forte minha mão será.”

Talvez o ar tenha sido suficientemente aclarado de modo que possamos considerar a autonegação como a libertação que ela realmente é. Devemos convencer-nos disto, porque, como ficou dito, a autonegação é a pedra de toque da Disciplina da submissão.


Subordinação Renovadora Conforme Ensinada por Jesus


O mais radical ensino social de Jesus foi a inversão total que ele fez da noção contemporânea de grandeza. A liderança está em tornar-se servo de todos. O poder se descobre na submissão. O símbolo supremo desta radical condição de servo é a cruz. “[Jesus] a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). Mas observe isto: Cristo não somente morreu uma morte de cruz, ele viveu uma vida de cruz. O caminho da cruz, o caminho do servo sofredor, foi essencial ao seu ministério. Jesus viveu a vida de cruz em submissão ao próximo. Ele foi o servo de todos. Ele rejeitou de planos os títulos culturais de posição e poder quando disse: “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi. ... Nem vos chameis mestres” (Mateus 23:8-10, Ed. Rev. Cor.). Jesus rompeu os costumes de seu tempo quando sobreviveu à vida de cruz tomando a sério as mulheres e dispondo-se a encontrar-se com as crianças. Ele viveu a vida de cruz quando tomou uma toalha e lavou os pés dos discípulos.

Este Jesus que poderia facilmente ter pedido uma legião de anjos pra ajudá-lo, preferiu escolher a morte de cruz do Calvário. A vida de Jesus foi a vida de cruz de submissão e serviço. A morte de Jesus foi a morte de cruz da conquista pelo sofrimento.

É impossível exagerar o caráter renovador da vida e ensino de Jesus neste ponto. Este caráter renovador acabou com todas as reivindicações para posição privilegiada e status. Pôs em vigor toda uma nova ordem de liderança. A vida de cruz de Jesus solapou todas as ordens sociais baseadas no poder e no auto-interesse.

Conforme observei anteriormente, Jesus chamou seus seguidores para viverem a vida de cruz. “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34). Ele disse claramente a seus discípulos: “Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos” (Marcos 9:35).

Quando Jesus imortalizou o princípio da vida de cruz lavando os pés dos discípulos, ele acrescentou: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (João 13:15).

A vida de cruz é a vida de submissão voluntária. A vida de cruz é a vida de servo livremente aceita.


Subordinação Conforme Ensinada nas Epístolas


O exemplo de Jesus e o chamado para seguir o caminho da cruz em todas as relações humanas formam a base do ensino das epístolas sobre a submissão. O apostolo Paulo baseia o imperativo da igreja de considerar “cada um os outros superiores a si mesmo” na submissão e na autonegação do Senhor por nossa salvação. “A si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Filipenses 2:4-7). O apóstolo Pedro, instruindo sobre a submissão, apelou diretamente para o exemplo de Jesus como motivo dela. “Porquanto para isto mesmo foste chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos... pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pedro 2:21-23). Como prefácio ao Haustafel Efésio (termo cunhado por Martinho Lutero que significa literalmente “mesa de casa”, daí uma tábua de regra para a família cristã), lemos: “Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Efésio 5:21). O chamado para que os cristãos vivam a vida de cruz fundamenta-se na vida de cruz do próprio Cristo.

A Disciplina da submissão tem sido terrivelmente mal interpretada e difamada por aqueles que falham em ver este contexto mais amplo. Submissão é um tema ético que percorre todo o Novo Testamento. É uma postura obrigatória a todos os cristãos: homens e mulheres, pais e filhos, senhores e servos. Ordena-se que vivamos uma vida de submissão porque Jesus viveu uma vida de submissão, e não porque estamos num determinado lugar ou posição na vida. A autonegação é uma postura que se ajusta aos que seguem o Senhor crucificado. Por todo o Haustafel, o único motivo que impele à submissão é o exemplo de Jesus.

Esta singular base lógica para a submissão é estonteante quando a comparamos com outros escritos do primeiro século. Neles havia um constante apelo à submissão porque foi assim que os deuses criaram as coisas; era uma estação na vida do homem. Nenhum escritor do Novo Testamento apela para a submissão nessa base. O ensino é revolucionário. Eles ignoraram por completo todos os costumes contemporâneos de sobre-ordenar e subordinar e chamaram a todos a considerar “cada um os outros superiores a si mesmo” (Filipenses 2:3).

As epístolas chamam à subordinação primeiramente os que, em virtude da própria cultura, já são subordinados.

“Esposas, sede submissas aos próprios maridos. .... Filhos, em tudo obedecei a vossos pais. ... Servos, obedecei em tudo aos vossos senhores...” (Colossenses 3:18-22 e passagens paralelas). O aspecto renovador deste ensino é que as pessoas, às quais a cultura do primeiro século não permitia escolha nenhuma, são consideradas como agentes morais livres.

Paulo deu responsabilidade moral pessoal aos que não tinham nenhum status legal ou moral em sua cultura. Ele faz com que as pessoas proibidas de tomar decisões, tomem decisões.

É surpreendente que Paulo os tenha chamado à subordinação, uma vez que já eram subordinados em virtude de seu lugar na cultura do primeiro século. A única razão significativa para tal ordem era o fato de que, por força da mensagem do evangelho, eles já se viam livres de um status subordinado na sociedade. O evangelho havia constatado todas as cidadanias de segunda classe como eram conhecidas. Paulo insistiu na subordinação voluntária, não por causa da posição deles na vida, mas porque “convém no Senhor” (Colossenses 3:18).

Esta forma de endereçar o ensino moral aos subordinados culturais é, também, um contraste radical com a literatura da época. Os estóicos, por exemplo, dirigiam-se somente à pessoa que se encontrava em elevada posição na ordem social, incentivando-a a fazer um bom trabalho nessa posição que ela já antevia como sua. Mas Paulo falou primeiro às pessoas que sua cultura recomendava não dirigir-se a elas, e chamou-as para a vida de cruz de Jesus.

A seguir, as epístolas se voltam para o parceiro culturalmente dominante no relacionamento e também o chamam para a vida de cruz de Jesus. O imperativo da subordinação é recíproco. “Maridos, amai a vossas esposas. ... Pais, não irriteis os vossos filhos. ... Senhores, tratai aos servos com justiça e com eqüidade...” (Colossenses 3:19-4:1 e textos paralelos). Com toda a certeza se objetará que a ordem para o parceiro dominante não emprega a linguagem da submissão. O que deixamos de ver é o quanto de submissão essas ordens exigiam do parceiro dominante em seu ambiente cultural. Para um marido, pai e senhor do primeiro século obedecer à injunção de Paulo significaria uma dramática diferença em seu comportamento. A esposa, o filho, o servo do primeiro século não teriam necessidade de efetuar a mínima mudança para obedecer à ordem de Paulo. Quanto mais não seja, o ferrão do ensino atinge é o parceiro dominante.

Precisamos ver, também, que esses imperativos aos maridos, pais e senhores constituem outra forma de autonegação. São apenas outro conjunto de palavras para transmitir a mesma verdade, a saber, que podemos livrar-nos da necessidade de fazer as coisas segundo nosso entender. Se um marido ama a esposa, ele considerará suas necessidades. Ele estará disposto a considerá-la superior a si mesmo. Ele pode cuidar das necessidades de seus filhos e considerá-los superiores a si próprio (Filipenses 2:3).

Na carta aos Efésios, Paulo exorta os servos a viverem num espírito alegre, voluntário, dispostos a servir a seus senhores terrenos. Então exortou os senhores: “De igual modo procedei para com eles” (Efésios 6:9). Tal idéia era incrível aos ouvintes do primeiro século. Os servos eram tidos como propriedade de seus donos, não como seres humanos. Mas Paulo, com autoridade divina, aconselhou os senhores a suprirem as necessidades de seus servos.

Talvez a mais perfeita ilustração de subordinação renovadora seja a pequenina carta a Filemom. Onésimo, escravo fugitivo de Filemom, fez-se cristão. Ele estava regressando voluntariamente para Filemom como parte do que para ele significava ser discípulo de Cristo. Paulo instou com Filemom a que recebesse Onésimo “não já como escravo; antes, muito acima de escravo, como irmão caríssimo” (Filemom 16). John Yoder observa: “Isto significa que Paulo está instruindo a Filemom. Filemom devia subordinar-se a Onésimo pondo-o em liberdade. Ambos deviam ser mutuamente subordinados 'no temor de Cristo'“ (Efésios 5:21).

As epístolas não consagraram a estrutura social hierárquica existente. Fazendo universal a ordem à subordinação, elas a relativizaram e a minaram. Elas exigiam que os cristãos vivessem como cidadãos de uma nova ordem - e o aspecto mais fundamental desta nova ordem é a subordinação universal.

Limites da Submissão


Os limites da Disciplina da submissão estão nos pontos em que ela se torna destrutiva. Ela se torna, pois, numa lei do amor conforme ensinada por Jesus e é uma afronta à verdadeira submissão bíblica (Mateus 5, 6, 7 e especialmente 22:37-39).

Pedro chamou os cristãos à submissão radical ao estado quando escreveu:

“Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como soberano; quer às autoridades...” (1 Pedro 2:13, 14). Não obstante, quando o governo apropriadamente autorizado de seu tempo ordenou à igreja nascente que parasse de proclamar a Cristo, foi Pedro quem respondeu: “Julgai se é justo diante de Deus ouvirmos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4:19, 20). Em ocasião semelhante, Pedro declarou simplesmente: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

Entendendo a vida de cruz de Jesus, Paulo disse: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores” (Romanos 13:1). Porém, quando Paulo viu que o Estado estava deixando de cumprir sua função ordenada por Deus de prover justiça para todos, ele admoestou-o com energia e insistiu em que o erro fosse corrigido (Atos 16:37).

Estavam esses homens em oposição ao seu próprio princípio de autonegação e submissão? Não. Eles simplesmente entenderam que a submissão chega ao extremo de sua peia quando se torna destrutiva. Em verdade, eles exemplificaram a subordinação renovadora recusando-se com mansidão a obedecer a uma ordem destrutiva e dispondo-se a sofrer conseqüências. O pensador alemão Johannes Hamel disse que a subordinação inclui “a possibilidade de uma resistência orientada pelo espírito, de um repúdio apropriado e uma recusa pronta a aceitar o sofrimento neste ou naquele ponto particular”.

Às vezes é fácil de ver os limites da submissão. Pede-se a uma mãe que bata em seu filho irracionalmente. Pede-se a uma criança que ajude numa prática ilegal.

Pede-se a um cidadão que viole os ditames da Escritura e da consciência por amor ao Estado. Em cada caso, o discípulo recusa, não com arrogância, mas num espírito manso e submisso.

Muitas vezes é extremamente difícil de definir os limites da submissão. Que dizer do parceiro matrimonial que se sente suprimido e impedido de realização pessoal por causa da carreira profissional do cônjuge? É esta uma forma legítima de autonegação ou é destrutiva? Que dizer do professor que é injusto ao dar nota a um aluno? Deve o aluno submeter-se ou deve resistir? Que dizer do empregador que promove seus empregados na base de favoritismo e de interesses pessoais? Que faz o empregado prejudicado, especialmente se a promoção é necessária para o bem de sua família?

Essas são questões extremamente complicadas pelo simples fato de que as relações humanas são complicadas. São questões que não se sujeitam a respostas simplistas. Não existe uma lei de submissão que cubra todas as situações.

Devemos ser cépticos no tocante às leis que pretendem aplicar-se a qualquer circunstância. A ética casuística sempre falha.

Não é fugir ao problema dizer que ao definir os limites da submissão somos lançados em uma profunda dependência do Espírito Santo. Afinal de contas, se tivéssemos um código de leis para cobrir todas as circunstâncias da vida, não necessitaríamos de dependência. O Espírito é um discernidor preciso dos pensamentos e dos intentos do coração, tanto dos outros como dos nossos. Ele será para nós um Mestre e Profeta presente e nos instruirá quanto ao que fazer em cada situação.

Atos de Submissão


A submissão e o serviço funcionam concomitantemente. Daí que grande parte do fluxo prático da submissão virá no próximo capítulo. Há, contudo, sete atos de submissão que serão comentados brevemente.

O primeiro ato de submissão é ao Deus Trino e Uno. No começo do dia esperamos diante do Pai, do Filho e do Espírito Santo, calmos e submissos. As primeiras palavras de nosso dia formam a oração de Thomas de Kempis: “Como quiseres; o que quiseres; quando quiseres.” Submetemos o corpo, mente e espírito para propósitos divinos. Semelhantemente, o dia é vivido em atos de submissão entremeados de constantes demonstrações de submissão interior. Visto como as primeiras palavras matutinas são de submissão, assim também as últimas palavras da noite. Entregamos o corpo, mente e espírito nas mãos de Deus para que faça conosco conforme lhe apraz durante a longa escuridão.

O segundo ato de submissão é à Bíblia. Como nos submetemos à Palavra de Deus viva (Jesus), assim nos submetemos à Palavra de Deus escrita (a Bíblia).

Rendemo-nos primeiro para ouvir a Palavra; em segundo lugar para receber a Palavra, e em terceiro lugar para obedecer à Palavra. Buscamos o Espírito, que inspirou as Escrituras, para interpretá-las e aplicá-las à nossa condição. A palavra da Escritura, vivificada pelo Espírito Santo, vive conosco durante dia.

O terceiro ato de submissão é à nossa família. O lema para a família deveria ser: “Não tenha cada um em vista o que é dos outros” (Filipenses 2:4). Livre e graciosamente os membros da família fazem concessão uns aos outros. O ato básico de submissão é o compromisso de ouvir os demais membros da família. Seu corolário é uma disposição de partilhar, que, por si própria, é obra da submissão.

O quarto ato de submissão é a nossos vizinhos e aos que encontramos no curso de nosso viver diário. A vida de simples bondade é vivida diante deles. Se estiverem em necessidade, nós os ajudamos. Executamos pequenos atos de bondade e de urbanidade comum: repartimos nosso alimento, cuidamos de seus filhos quando os pais se ausentam, cortamo-lhes a grama, arranjamos tempo para visitá-los, compartilhamos nossas ferramentas. Nenhuma tarefa é pequena demais, insignificante demais, pois cada uma delas é uma oportunidade de viver em submissão.

O quinto ato de submissão é à comunidade crente, o corpo de Cristo. Se há serviços a completar e tarefas a realizar, examinamo-las de perto para ver se são convites de Deus para a vida de cruz. Não podemos fazer tudo mas podemos fazer algumas coisas. Às vezes são assuntos de natureza organizacional, mas com muita freqüência são oportunidades espontâneas para pequenas tarefas de serventia. Pode, às vezes, tratar-se de chamados para servir a igreja universal e se o ministério for confirmado em nossos corações, podemos submeter-nos a ele com segurança e reverência.

O sexto ato de submissão é aos alquebrados e desprezados. Em toda cultura há “viúvas e órfãos”; isto é, os desamparados, os indefesos (Tiago 1:27). Nossa primeira responsabilidade é estar entre eles. Como Francisco de Assis, no século treze, e Kágawa no século vinte, devemos descobrir meios de verdadeiramente identificar-nos com os oprimidos, os rejeitados. Aí devemos viver a vida de cruz.

O sétimo ato de submissão é ao mundo. Vivemos numa comunidade internacional interdependente. Não podemos viver em isolamento. Nossa responsabilidade ambiental, ou sua ausência, afeta não somente as pessoas ao redor do mundo mas também as gerações que estão por nascer. As nações que padecem fome afetam-nos. Nosso ato de submissão é uma determinação de viver como membro responsável de um mundo cada vez mais irresponsável.

Nota Final


Em nosso dia tem surgido um problema especial acerca da submissão no tocante à autoridade. O fenômeno que passo a descrever é algo que tenho observado repetidamente. Quando as pessoas começam a mudar-se para o reino espiritual, vêem que Jesus está ensinado um conceito de autoridade que se opõe inteiramente ao pensamento dos sistemas deste mundo. Elas chegam a compreender que a autoridade não reside em posições ou graus, ou títulos, ou bens, ou qualquer símbolo exterior. O caminho de Cristo segue totalmente em outra direção: o caminho da autoridade espiritual. A autoridade espiritual é ordenada e sustentada por Deus. As instituições humanas podem ou não reconhecer esta autoridade; igualmente, não faz diferença alguma. A autoridade espiritual é marcada tanto por compaixão como por poder. Os que andam no Espírito podem identificá-la imediatamente. Sabem, sem dúvida, que a submissão é devida à palavra que foi dada em autoridade espiritual.

Mas, e aqui está a dificuldade, que dizer às pessoas que estão em “posição de autoridade” mas não possuem autoridade espiritual? Uma vez que Jesus deixou claro que a posição não dá autoridade, deveria esta pessoa ser obedecida? Não é preferível desconsiderar toda autoridade humanamente ordenada e buscar a autoridade espiritual e só a ela submeter-nos? Esses são tipos de questões levantadas por pessoas que sinceramente desejam andar no caminho do Espírito.

As perguntas são legítimas e merecem uma resposta cuidadosa.

A resposta não é simples, mas também não é impossível. A subordinação renovadora nos mandaria viver em submissão à autoridade humana enquanto esta não se torna destrutiva. Tanto Pedro com Paulo exigiram obediência ao estado pagão porque entenderam o grande bem resultante desta instituição humana.

Tenho verificado que as “autoridades” humanas muitas vezes têm uma grande dose de sabedoria que negligenciamos com perigo para nós.

A isto eu acrescentaria outro motivo por que, no meu entender, devemos submeter-nos às pessoas investidas de autoridade, que não conhecem a autoridade espiritual. Devemos submeter-nos por delicadeza comum e por compaixão pela pessoa que se encontra nessa situação difícil. Tenho profunda empatia pelos indivíduos que se encontram nessa posição, pois eu mesmo já estive aí mais de uma vez. É um pântano frustrante, quase desesperador, estar numa posição de autoridade e saber que nossas raízes não têm profundidade suficiente na vida divina para comandar com autoridade espiritual. Conheço a sensação frenética que faz uma pessoa empertigar-se e esbaforir-se, e imaginar truques inteligentes para induzir as pessoas à obediência. Alguns podem achar fácil rir-se dessas pessoas e desconsiderar sua “autoridade”. Eu não. Choro por elas porque conheço a dor e o sofrimento interiores que devem ser enfrentados para viver-se em tal contradição.

Além do mais, podemos orar por tais pessoas para que sejam cheias de novo poder e autoridade. Podemos, também, tornar-nos seus amigos e ajudá-las no que estiver ao nosso alcance. Se vivermos a vida de cruz perante elas, muito em breve podemos descobrir que estão crescendo em poder espiritual, e nós também.

9. A Disciplina do Serviço


Aprenda esta lição: se você tem de fazer o trabalho de um profeta, você precisa não de um cetro mas de uma enxada.” - Bernardo de Clairaux

Como a cruz é o símbolo da submissão, assim a toalha é o símbolo do serviço.

Quando Jesus reuniu seus discípulos para a última Ceia, eles debatiam sobre quem era o maior. Este problema não lhes era novo. “Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior” (Lucas 9:46). Sempre que houver problema acerca de quem é o maior, haverá problema acerca de quem é o menor.

Esse é o ponto crucial da questão para nós, não é mesmo? Muitos de nós sabemos que nunca seremos os maiores; assim também, não sejamos os menores.

Reunidos na festa da Páscoa, os discípulos sabiam perfeitamente que alguém tinha de lavar os pés dos outros. O problema era que só os menores é que lavavam os pés dos outros. De modo que ficaram com os pés empoeirados. Era um ponto tão melindroso que eles nem mesmo iriam falar sobre o assunto. Ninguém desejava ser considerado o menor. Então Jesus tomou uma toalha e uma bacia, redefinindo, assim a grandeza.

Havendo dado o exemplo de servo perante eles, ele os chamou para o caminho do serviço. “Ora, se eu, sendo o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (João 13:14,15). De certo modo, preferiríamos ouvir o chamado de Jesus para negar pai e mãe, casas e terra por amor do evangelho, a ouvir sua ordem para lavar pés. A autonegação radical dá uma sensação de aventura. Se abandonarmos tudo, teremos até mesmo a possibilidade de um glorioso martírio. Mas no serviço somos levados para o mundano, para o ordinário, para o trivial.

Na Disciplina do serviço há também grande liberdade. O serviço capacita-nos para dizer “não!” aos artifícios de promoção e autoridade do mundo. Ele acaba com nossa necessidade (e desejo) de uma “ordem de importância”. Esta expressão é muito significativa, muito reveladora. Como nos assemelhamos a galináceos! No galinheiro não há paz até que fique claro quem é o mais importante, o menos importante, e quem fica entre o poleiro de cima e o de baixo. Um grupo de pessoas não é capaz de estar junto por muito tempo até que fique claramente estabelecida a “ordem de importância”. Podemos vê-lo facilmente em situações tais como onde as pessoas se assentam, como caminham em relação uns com os outros, quem sempre cede quando duas pessoas falam ao mesmo tempo, quem fica atrás quando determinado trabalho precisa ser feito e quem se prontifica a fazê-lo. (Dependendo do trabalho, pode ser um símbolo de senhorio ou um símbolo de servidão.) Essas coisas estão estampadas no rosto da sociedade humana.

O ponto não é que devemos abolir a liderança ou a autoridade. Qualquer sociólogo demonstraria de imediato a impossibilidade de tal tarefa. Mesmo entre Jesus e os discípulos vêem-se facilmente a liderança e a autoridade. O importante é que Jesus redefiniu completamente a liderança e a autoridade.

Jesus nunca ensinou que todos tinham igual autoridade. Na verdade, ele tinha muito que dizer sobre autoridade espiritual autêntica e deixou claro que muitos não a possuíam. Mas a autoridade da qual Jesus falou não é aquela em que o indivíduo atribui importância a si mesmo. Devemos entender com clareza a natureza radical do que Jesus ensinou sobre este assunto. Ele não estava simplesmente invertendo a “ordem de importância”, como muitos supõem. Ele a estava abolindo. A autoridade da qual ele falou não era uma autoridade para manipular e controlar. Era uma autoridade de função, não de status.

Jesus declarou: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós.” Ele rejeitou total e completamente os sistemas de ordem de importância de seu tempo. Como, pois, devia ser entre eles? “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva... tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir” (Mateus 20:25-28). Portanto, a autoridade espiritual a que Jesus se referia não era uma autoridade que se encontrava numa posição, num título, mas numa toalha.


Serviço Farisaico X Serviço Verdadeiro


Se o verdadeiro serviço deve ser entendido e praticado, é preciso distingui-lo claramente do “serviço farisaico”.

O serviço farisaico é prestado pelo esforço humano. Ele gasta somas imensas de energia calculando e planejando como prestar o serviço. Gráficos e mapas sociológicos podem ser projetados de modo que podemos “ajudar essas pessoas”. O verdadeiro serviço provém de um relacionamento com o Outro divino em nosso íntimo. Servimos por instigações cochichadas, por insistências divinas.

Despende-se energia, mas não é a energia frenética da carne. Thomas Kelly escreve: “Descubro que ele [Deus] nunca nos guia a uma mixórdia intolerável de intranqüilidade ofegante.”

O serviço farisaico impressiona-se com a “aparência”. Ele está interessado em registrar lucros impressionantes no “placar” eclesiástico. Gosta de servir, especialmente quando o serviço é titânico. O serviço verdadeiro acha quase impossível distinguir entre serviço pequeno e serviço grande. Onde se observa a diferença o verdadeiro servo parece ser freqüentemente atraído para o serviço pequeno, não por falsa modéstia, mas porque ele o vê genuinamente como serviço importante. Ele recebe com agrado, indiscriminadamente, todas as oportunidade de servir.

O serviço farisaico demanda recompensas exteriores. Ele precisa saber que as pessoas vêem e apreciam o esforço. Ele busca o aplauso dos homens - com a devida modéstia religiosa, é claro. O verdadeiro serviço descansa contente no anonimato. Ele não teme as luzes e o frêmito da atenção, mas também não os busca. Uma vez que ele vive a partir de um novo Centro de Referência, o aceno divino de aprovação é quanto basta.

O serviço farisaico está muitíssimo preocupado com os resultados. Ele espera ansiosamente para ver se a pessoa servida retribui na mesma moeda. Amargura-se quando os resultados ficam aquém das expectativas. O verdadeiro serviço está livre da necessidade de calcular resultados. Ele deleita-se apenas no serviço.

Pode servir os inimigos com a mesma liberdade com que serve os amigos.

O serviço farisaico escolhe minuciosamente a quem servir. Às vezes os nobres e poderosos são servidos porque isso trará certa vantagem. Às vezes os humildes e indefesos são servidos porque isso garantirá uma imagem humilde. O verdadeiro serviço não discrimina em seu ministério. Ele ouviu a ordem de Jesus de ser “servo de todos” (Marcos 9:35). Francisco de Assis escreveu: “Sendo servo de todos, estou obrigado a servir a todos e administrar as palavras suavizadoras de meu senhor.”

O serviço farisaico é afetado por estados de ânimo e caprichos. Ele só pode servir quando há um “sentimento” de servir (“movido pelo Espírito”, conforme dizemos). Saúde ruim ou sono insuficiente controlarão o desejo de servir. O verdadeiro serviço ministra simples e fielmente porque há uma necessidade. Ele sabe que o “sentimento de servir” pode, muitas vezes, constituir-se em obstáculo ao verdadeiro serviço. Ele recusa permitir que o sentimento controle o serviço, mas permite que o serviço discipline os sentimentos.

O serviço farisaico é temporário. Funciona somente enquanto se executam os atos específicos do serviço. Havendo servido, pode descansar sossegado. O verdadeiro serviço é um estilo de vida. Ele atua a partir de padrões arraigados de vida.

Brota espontaneamente para satisfazer a necessidade humana.

O serviço farisaico não tem sensibilidade. Ele insiste em satisfazer a necessidade mesmo que o resultado seja destrutivo. Ele exige a oportunidade de ajudar. O serviço verdadeiro pode deixar de prestar o serviço tão livremente quando executá-lo. Pode ouvir com ternura e paciência antes de atuar. Pode servir enquanto espera em silêncio. “Servem, também, aqueles que apenas ficam firmes e esperam.”

O serviço farisaico fratura a comunidade. Na análise final (uma vez removidas todas as armadilhas religiosas) ele se concentra na glorificação do indivíduo.

Portanto, ele coloca os outros a nosso débito e se torna uma das mais sutis e destrutivas formas de manipulação conhecidas. O resultado é a ruptura da comunidade.

O verdadeiro serviço, por outro lado, edifica a comunidade. Silenciosa e despretensiosamente ele vai aqui e ali cuidando das necessidades alheias; não obriga ninguém a retribuir o serviço. Ele atrai, une, cura, edifica. O resultado é uma comunidade unida.

Serviço e Humildade


Mais do que qualquer outro meio, a graça da humildade é produzida em nossas vidas pela Disciplina do serviço. A humildade, como todos sabemos, é uma daquelas virtudes que nunca são ganhas por buscá-las. Quanto mais a buscamos, mais distante ela fica. Pensar que a temos é prova segura de que não a possuímos. Portanto, muitos de nós supomos que nada podemos fazer para ganhar esta honrada virtude cristã, e assim nos acomodamos.

Mas existe algo que podemos fazer. Não é preciso atravessarmos a vida esperando que algum dia a humildade caia sobre nós. De todas as Disciplinas Espirituais clássicas, o serviço é a mais conducente ao crescimento da humildade. Ocorre uma profunda mudança em nosso espírito quando iniciamos um curso de ação, conscientemente escolhido, que acentua o bem dos outros e em sua maior parte é um trabalho oculto.

Nada como o serviço para disciplinar os desejos desordenados da carne, e nada como servir no anonimato para transformar os desejos da carne. A carne choraminga contra o serviço, porém, contra o serviço feito no anonimato, ela apronta uma gritaria. Ela se esperneia por obter honra e reconhecimento. Ela imagina meios sutis, religiosamente aceitáveis a fim de chamar a atenção para o serviço prestado. Se ousadamente nos recusarmos a ceder à luxúria da carne, nós a crucificamos. Toda vez que crucificamos a carne crucificamos nosso orgulho e arrogância.

O apóstolo João escreveu: “Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1 João 2:26). Deixamos de entender a força desta passagem por causa de nossa tendência de relegá-la totalmente ao pecado sexual. A “concupiscência da carne” refere-se ao fracasso de pôr sob nosso controle - disciplinar - as paixões humanas naturais. C. H. Dodd disse que a “concupiscência dos olhos” refere-se à tendência de ser cativado pela exibição exterior. Ele define a “soberba da vida” como “egoísmo pretensioso”. Em cada caso se observa a mesma coisa: enfatuação com poderes e capacidades humanos naturais sem nenhuma dependência de Deus. Isso é a carne em operação, e a carne é o inimigo mortal da humildade.

É necessário exercer a mais estrita disciplina diá ria para conter essas paixões. A carne deve aprender a dolorosa lição de que ela não tem direitos próprios. É a obra do serviço anônimo que realizará esta auto-humilhação.

Willian Law causou um duradouro impacto sobre a Inglaterra do século dezoito com seu livro, A Serious Call to Devout and Holy Life (Um Chamado Sério para uma Vida Devota e Santa. Nele, Law insistia em que cada dia seja considerado como um dia de humildade. Como faremos de cada dia um dia de humildade?

Aprendendo a servir aos outros. Law entendia que a Disciplina do serviço é que traz humildade à vida. Se quisermos humildade, ele nos aconselha a

... condescender em todas as fraquezas e enfermidades do próximo, ocultar suas fragilidades, amar o que ele tem de excelente, incentivar suas virtudes, aliviar suas necessidades, regozijar-se em suas prosperidades, compadecer-se de suas tristezas, receber sua amizade, ignorar suas indelicadezas, perdoar-lhe a malícia, ser servo de servos, e condescender em executar o mais inferior dos ofícios para os mais íntimos da humanidade.”

Então, o resultado da disciplina diária da carne será o surgimento da graça da humildade. Ela nos virá sem que o percebamos. Embora não sintamos sua presença, estaremos cônscios de um novo zelo e alegria de viver. Maravilhar-nos-emos em face do novo senso de confiança que marcará nossas atividades. Embora as demandas da vida sejam tão grandes como sempre, viveremos em um novo senso de paz sem pressa. As pessoas a quem outrora invejávamos, agora as vemos com compaixão, porque vemos não somente sua posição mas também seu sofrimento. As pessoas que teríamos ignorado, agora as vemos e consideramos como indivíduos agradáveis. Sentimos um novo espírito de identificação com os párias, a “escória” da terra (1 Coríntios 4:13).

Mais até do que a transformação que ocorre dentro de nós, estamos cônscios de um amor e de uma alegria mais profundos em Deus. Nossos dias estão pontilhados de expressões espontâneas de louvor e adoração. O jubiloso serviço anônimo prestado ao próximo é uma oração de ações de graça posta em prática. Parece que somos dirigidos por um novo Centro de Controle - e de fato o somos.


Sim... Mas


Uma hesitação natural e compreensível acompanha qualquer discussão séria do serviço. A hesitação é boa desde que seja sábia para calcular o custo antes de entrar em cheio em qualquer Disciplina. Experimentamos um temor que surge mais ou menos assim: “Se eu fizer isso, as pessoas vão tirar vantagem de mim; elas me pisarão.”

É aqui que devemos ver a diferença entre escolher servir e escolher ser servo.

Quando escolhermos servir, ainda estamos no comando. Decidimos a quem e quando servir. Se estamos no comando, preocupar-nos-emos muito sobre alguém pisar-nos, isto é, dominar-nos.

Mas quando escolhemos ser servos, damos de mão ao direito de estar no comando.

Há nisso uma grande liberdade. Se voluntariamente escolhemos deixar que tirem vantagem de nós, então não podemos ser manipulados. Quando escolhemos ser servos, sujeitamos ou rendemos o direito de decidir a quem e quando servir.

Tornamo-nos disponíveis e vulneráveis.

Considere a perspectiva de um escravo. O escravo vê a vida toda da perspectiva da escravidão. Ele não vê a si mesmo como possuindo os mesmos direitos de homens e mulheres livres. Por favor, entenda-me: quando esta escravidão é involuntária, ela é cruel e desumanizante. Quando a escravidão é livremente escolhida, porém, tudo se muda. A servidão voluntária é uma grande alegria.

A idéia da escravidão pode ser-nos difícil, mas não constituía problema para o apóstolo Paulo. Freqüentemente ele se jactava de sua escravidão a Cristo, fazendo uso pródigo do conceito do primeiro século de “escravo de amor” (isto é, o escravo que, por amor, escolheu livremente permanecer nessa condição).

Fazemos o melhor do nosso esforço por suavizar a linguagem de Paulo, traduzindo a palavra “escravo” por “servo”. Mas, seja qual for a palavra que resolvamos empregar, estejamos certos de entender que Paulo queria dizer que de livre vontade ele abria mão de seus direitos.

Portanto, justifica-se o receito de que se aproveitem de nós e nos pisem. Isso é exatamente o que pode acontecer. Mas quem pode magoar àquele que livremente escolheu ser pisado? Thomas de Kempis instrui-nos a estar “sujeitos... para que todos os homens possam passar sobre vós e pisar-vos como pisam a lama da rua”.

Há em The Little Flowers of St. Francis (As Florezinhas de S. Francisco) uma deliciosa história sobre como Francisco de Assis ensinou ao Irmão Léo o significado da alegria perfeita. Enquanto os dois caminhavam juntos sob a chuva e o frio intenso, Francisco lembrava a Léo todas as coisas que o mundo acreditava trazer alegria - inclusive o mundo religioso -, acrescentando cada vez: “A alegria perfeita não está nisso.” Finalmente, em exasperação, o Irmão Léo pediu: “Rogo-te, em nome de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria.” Então Francisco passou a enumerar as mais humilhantes coisas que ele podia imaginar, acrescentando cada vez: “Oh, Irmão Léo, escreva que a perfeita alegria está aí.” Para explicar e concluir a questão, ele lhe disse: “Acima de todas as graças e dons do Espírito Santo que Cristo dá a seus amigos, está a de conquistar a si mesmo e de boa vontade suportar os sofrimentos, os insultos, as humilhações e as privações pelo amor de Cristo.”

Achamos difícil aceitar essas palavras hoje. (É preciso entender que eu, também, luto até para ouvir os mestres devocionais sobre este ponto.) Receamos que tal atitude conduza irrevogavelmente ao caminho do ascetismo excessivo e à automortificação. Na igreja, só agora estamos emergindo de uma “teologia de verme” que desvalorizou terrivelmente a capacidade e o potencial humanos. O serviço reconduz a essa situação? Não, por certo que não. Sem dúvida, é um perigo contra o qual devemos sempre guardar-nos. Mas também devemos tomar cuidado com o inimigo em direção oposta. Como disse Bonhoeffer: “Se não houver elemento de ascetismo em nossa vida, se dermos rédea solta aos desejos da carne... acharemos difícil treinar-nos para o serviço de Cristo.”


Serviço no Mercado


Serviço não é um rol de coisas que fazemos, embora nele descubramos coisas a fazer. Não e um código de ética, mas um modo de vida. Executar atos específicos de serviço não é o mesmo que viver na Disciplina do serviço. Assim como no jogo de basquete há mais do que o livro de regras, o serviço significa mais do que atos específicos de servir. Uma coisa é atuar como servo; outra coisa muito diferente é ser servo. Como em todas as Disciplinas, é possível dominar a mecânica do serviço sem experimentar a Disciplina.

Todavia, não é suficiente acentuar a natureza interior do serviço. Para que o serviço seja serviço é preciso que ele tome forma e conformação no mundo em que vivemos. Portanto, devemos buscar perceber qual a semelhança do serviço no mercado de nossa vida diária.

De início há o serviço anônimo. Mesmo os líderes públicos podem cultivar tarefas de serviço que permanecem geralmente incógnitas. Se todo o serviço que prestamos é feito perante outros, seremos em realidade pessoas superficiais.

Ouçamos a orientação espiritual de Jeremias Taylor: “Tenha em grande apreço o ficar escondido, e pouco estimado: alegre-se com a falta de louvor; nunca se perturbe quando for desconsiderado ou depreciado...” O anonimato é uma censura à carne e pode desferir um golpe fatal ao orgulho.

A princípio pareceria que o serviço anônimo é só por causa do indivíduo que o recebe. Não é esse o caso. Os ministérios anônimos, ocultos, afetam até mesmo as pessoas que nada sabem deles. Há um amor e compaixão mais profundos entre as pessoas, muito embora não saibam explicar o sentimento. Se um serviço oculto é feito a favor delas, elas são inspiradas a uma devoção mais profunda, pois sabem que a fonte do serviço é muito mais profunda do que podem ver. É um ministério no qual todas as pessoas podem engajar-se com freqüência. Ele propaga ondulações de alegria e celebração em qualquer comunidade.

Há o serviço de pequenas coisas. À semelhança de Dorcas, encontramos meios de fazer “túnicas e vestidos” para as viúvas (Atos 9:39). A história a seguir é verídica. Enquanto me achava nas frenéticas agonias finais do preparo de minha tese de doutorado, recebi um telefonema de um amigo. Sua esposa havia saído com o carro e ele queria saber se eu poderia levá-lo a alguns lugares. Apanhado de surpresa, consenti, interiormente maldizendo a minha sorte. Ao sair, agarrei o livro de Bonhoeffer, Life Together (Vida Juntos), pensando que eu pudesse ter oportunidade de lê-lo. A cada lugar que chegávamos eu me impacientava interiormente pela perda de tempo precioso. Finalmente, num supermercado, a última parada, disse a meu amigo que eu esperaria no carro. Apanhei meu livro, abri-o onde estava o marcador e li estas palavras:

O segundo serviço que se deveria prestar a outrem numa comunidade cristã é o de ajuda ativa. Isto significa, inicialmente, simples assistência em questões insignificantes, exteriores. Há uma multidão dessas coisas aonde quer que as pessoas vivam em comunidade. Ninguém é bom demais que não possa prestar serviço mais humilde. Quem se preocupa com a perda de tempo causada por esses pequenos e exteriores atos de ajuda, geralmente está tirando importância de sua própria carreira com muita solenidade.”

Francisco de Sales diz que as grandes virtudes e as pequenas fidelidades são como açúcar e sal. O açúcar pode ter um sabor mais delicioso, porém seu uso é menos freqüente. O sal é encontrado por toda parte. As grandes virtudes são uma ocorrência rara; o ministério das pequenas coisas é um serviço diário. Tarefas grandes demandam grande sacrifício por um momento; as coisas pequenas demandam sacrifício constante.

As ocasiões sem importância... retornam a cada momento.

.... Se desejamos ser fiéis a coisas pequenas, a natureza nunca tem tempo para respirar, e devemos morrer para todas as nossas inclinações. Deveríamos preferir, cem vezes, fazer alguns grandes sacrifícios para Deus, conquanto violentos e dolorosos, sob a condição de termos liberdade de seguir nossos gostos e hábitos em cada pequeno detalhe.”

No reino do espírito cedo descobrimos que os verdadeiros problemas se encontram nos insignificantes escaninhos da vida. Nossa enfatuação com a “importância” cegou-nos para este fato. O serviço das coisas pequenas nos colocará em desacordo com nossa indolência e problemas centrais. Fénelon disse: “Não é elevação de espírito sentir desprezo pelas coisas pequenas. É, pelo contrário, devido a pontos de vista estreitos demais que consideramos como pequeno o que tem conseqüências de tão longo alcance.”

Há o serviço de proteger a reputação alheia. Ou, como disse Bernardo de Clairvaux, o serviço de “Caridade”. Quão necessário é este se desejamos ser salvos de calúnia e mexericos. O apóstolo Paulo ensinou-nos a não difamar a ninguém (Tito 3:2). Podemos revestir nossa calúnia com toda a solenidade religiosa que desejarmos, mas ela permanecerá como veneno mortífero. Há uma disciplina em refrear a língua que pode operar maravilhas em nosso íntimo.

Nem deveríamos tomar parte na conversa difamadora de outros. Temos uma norma na equipe pastoral de nossa igreja que o povo tem prezado. Recusamo-nos a permitir que qualquer membro da congregação fale descaridosamente de um pastor para outro. Gentilmente, mas com firmeza, pedimos-lhes que se dirijam diretamente ao pastor criticado. Por fim as pessoas entendem que não lhes permitimos falar-nos sobre o pastor Fulano de tal. Esta norma, sustentada por toda a nossa equipe, tem obtido resultados benéficos.

Bernardo advertiu-nos de que a língua malévola “desfere um golpe mortal na caridade de todos quantos a ouvem e, até onde possível, destrói raiz e galho, não somente nos ouvintes imediatos mas também em todos os outros a quem a calúnia, voando de lábio em lábio, é repetida depois”. Proteger a reputação dos outros é um serviço profundo e duradouro.

Há o serviço de ser servido. Quando Jesus começou a lavar os pés dos que ele amava, Pedro recusou. Nunca ele permitiria que seu Mestre se humilhasse a executar um serviço tão servil em seu favor. Parece uma declaração de humildade; realmente, era um ato de orgulho velado. O serviço de Jesus era uma afronta ao conceito de autoridade de Pedro. Se Pedro fosse o senhor, ele nunca lhes teria lavado os pés!

É um ato de submissão e serviço permitir que os outros nos sirvam. Esse ato reconhece que eles têm “autoridade do reino” sobre nós. Graciosamente recebemos o serviço prestado, jamais sentindo que devemos retribuí-lo. Os indivíduos que, por orgulho, se recusam a ser servidos, falham em submeter-se à liderança divinamente indicada no reino de Deus.

Há o serviço de cortesia comum. Tais atos de compaixão têm encontrado dificuldades em nossa época. Nós, porém, que somos a luz, nunca devemos desprezar os rituais de relacionamento que há em cada cultura. É um dos poucos meios restantes na sociedade moderna de reconhecer o valor uns dos outros.

Conforme Paulo aconselhou a Tito, devemos ser “cordatos, dando provas de toda cortesia, para com todos os homens” (Tito 3:2).

Os missionários entendem o valor da cortesia. Eles não se atreveriam a cometer o disparate de entrar em alguma aldeia exigindo ser ouvidos sem primeiro conhecer os rituais adequados de apresentação e familiaridade. No entanto, achamos que podemos violar esses rituais em nossa própria cultura e ainda ser recebidos e ouvidos. E nos perguntamos por que ninguém quer ouvir.

“Mas esses rituais são tão inexpressivos, tão hipócritas”, queixamo-nos. Isso é um mito. Eles são extremamente significativos e não são hipócritas de maneira alguma. Uma vez que vencemos nossa arrogância egocêntrica pelo fato de que as pessoas realmente não desejam saber como estamos quando dizem “Como vai você?”, podemos ver que é apenas um modo de reconhecer nossa presença. Podemos acenar com a mão e reconhecer a presença delas também sem sentir a necessidade de fazer uma prognose de nossa última dor de cabeça. Palavras como “muito obrigado” e “sim, por favor”, cartas de apreço e respostas RSVP (responda, por favor) são todas serviços de cortesia. Os atos específicos variam de cultura para cultura, mas o propósito é sempre o mesmo: reconhecer outros e afirmar seu valor. O serviço de cortesia é extremamente necessário em nossa sociedade cada vez mais computadorizada e despersonalizada.

Há o serviço da hospitalidade. Pedro insta conosco que sejamos “mutuamente hospitaleiros sem murmuração” (1 Pedro 4:9). Paulo diz o mesmo e até faz dele uma das exigências para o oficio de bispo (Romanos 12:13, 1 Timóteo 3:2, Tito 1:8). Existe hoje uma desesperada necessidade de lares que possam abrir-se uns aos outros. A antiga idéia da hospedaria tornou-se obsoleta pela proliferação de hotéis e restaurantes, mas podemos questionar seriamente se a mudança representa progresso. Tenho andado pelas missões espanholas da Califórnia e fico maravilhado em face da graciosa e suficiente provisão feita para os visitantes. Talvez os modernos hotéis brilhantes e despersonalizados é que sejam obsoletos.

Conheço um casal que tem procurado fazer do ministério da hospitalidade uma prioridade em suas vidas. Em qualquer mês do ano eles podem ter certeza de setenta pessoas em seu lar. É um serviço para o qual eles crêem que Deus os chamou. Talvez a maioria de nós não possa fazer tanto assim, mas podemos fazer alguma coisa. Podemos começar em algum ponto.

Às vezes nos limitamos porque tornamos a hospitalidade complicada demais.

Lembro-me de uma ocasião em que a hospedeira corria apressada de um lado para outro cuidando disto e daquilo, desejando sinceramente fazer com que todos se sentissem à vontade. Um amigo meu surpreendeu-nos a todos (e pôs todo o mundo à vontade), dizendo: “Helen, não quero café, não quero chá, não quero bolachas, não quero guardanapo, só quero conversar. Venha assentar-se e conversar conosco!” Apenas uma oportunidade de estar juntos e trocar experiências - isto é a essência da hospitalidade.

Há o serviço de ouvir. “O primeiro serviço que se presta a outros na comunidade consiste em ouvi-los. Assim como amar a Deus começa com ouvir a sua Palavra, assim o começo do amor aos irmãos está no aprender a ouvi-los.” Necessitamos com urgência da ajuda que pode resultar do ouvir uns aos outros. Não precisamos ser psicanalistas experientes para ser ouvintes preparados. As exigências mais importantes são compaixão e paciência.

Não temos de ter as respostas corretas para ouvir bem. Com efeito, freqüentemente as respostas corretas constituem um obstáculo para se ouvir, pois estamos mais ansiosos por dar a resposta do que para ouvir. Uma impaciente meia-atenção é uma afronta à pessoa que fala.

Ouvir aos outros acalma e disciplina a mente para ouvir a Deus. Cria uma obra interior no coração que transforma as afeições da vida, e até mesmo nossas prioridades. Quando nos tornamos obtusos à voz de Deus, seria bom ouvir os outros em silêncio e ver se não é Deus que nos fala. “Aquele que pensa que seu tempo é valioso demais para gastá-lo em silêncio, finalmente não terá tempo algum para Deus e para o próximo, mas só para si mesmo e para suas loucuras.”

Há o serviço de levar as cargas uns dos outros. “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6:2). A “lei de Cristo” é a lei do amor, a “lei régia” como lhe chamou Tiago (Tiago 2:8). O amor se cumpre com o máximo de perfeição quando levamos as mágoas e sofrimentos uns dos outros, quando choramos com os que choram.

Se houver interesse de nossa parte, aprenderemos a levar suas tristezas. Digo “aprenderemos” porque esta é, também, uma disciplina a ser aprendida. Muitos de nós supomos com demasiada facilidade que tudo o que temos de fazer é decidir levar as cargas alheias. Então tentamos fazer isso por algum tempo e logo se vai embora a alegria da vida e nos achamos carregados das tristezas alheias.

Não é preciso ser assim. Podemos aprender a suportar as cargas alheias sem que elas nos destruam. Jesus, que levou as cargas do mundo inteiro, podia dizer:

“O meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11:30). Podemos aprender a erguer as tristezas e dores dos outros até aos braços ternos de Jesus de sorte que nosso fardo seja mais leve? Claro que podemos. Mas isso demanda alguma prática, por isso, em vez de apressar-nos a levar as cargas do mundo inteiro, comecemos mais humildemente. Comecemos em algum cantinho, nalgum lugar, e aprendamos. Jesus será nosso Mestre.

Finalmente, há o serviço de partilhar a palavra da Vida uns com os outros. As Poustinias, estabelecidas por Catherine Doherty, tinham uma norma: os que adentravam os desertos do silêncio e da solitude faziam-no pelos outros.

Quaisquer palavras que recebessem de Deus, deviam trazê-la e comunicá-la aos outros. Este é um serviço gracioso a ser prestado, pois ninguém pode ouvir tudo quanto Deus deseja dizer. Dependemos uns dos outros para receber o pleno conselho de Deus. O menor dos membros pode trazer-nos um recado - não nos atrevamos a desprezar o seu serviço.

É, naturalmente, uma coisa terrível proclamar essas palavras uns aos outros.

Freqüentemente há mistura: “De uma só boca procede bênção e maldição” (Tiago 3:10). Tais realidades nos humilham e nos arrojam em profunda dependência de Deus. Não devemos, porém, recuar-nos deste serviço, pois o mundo atual necessita dele desesperadamente.

O serviço motivado pelo dever respira morte. O serviço que flui de nosso íntimo é vida, alegria e paz. O Cristo ressurreto convida-nos para o ministério da toalha. Talvez seria bom você começar experimentando fazer uma oração que muitos de nós temos feito. Comece o dia orando: “Senhor Jesus, eu gostaria tanto que me trouxesse alguém, hoje, a quem eu possa servir.”


Catálogo: 2007
2007 -> Da Instrução Normativa srf n
2007 -> Descrição do Cálculo do Preço a ser Oferecido aos Acionistas da Arcelor Brasil
2007 -> Hintze ribeiro: da regeneraçÃo ao crepúsculo da monarquia
2007 -> Prefeitura municipal de contenda
2007 -> Tribunal de Contas Anexo I a receitas Municipais
2007 -> Desenvolvimento de um despachante de tarefas de tempo real considerando restrições de energia
2007 -> Psicanálise, gerontologia e geriatria: investigaçÃo e assistência multi e interdisciplinar à saúDE MENTAL DO IDOSO CADASTRADO NAS EQUIPES DE saúde da família, no município de dourados-ms
2007 -> Breves comentários sobre crimes contra a administraçÃo pública artigos 312 a 359 do código penal professor Jéferson Botelho
2007 -> InauguraçÃo da morada da escrita – casa armando côrtes-rodrigues ponta Delgada, 12 de Janeiro de 2007
2007 -> Desmatamento na Amazônia: nada a comemorar


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   13


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal