Celso Candido



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68 - A revolução do desejo?*

Celso Candido


O que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre esse planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do considerável crescimento demográfico. Em função do contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico redobrado pela revolução informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Mas com que finalidade? A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou a da cultura, da criação, da pesquisa, da re-invenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?

Félix Guattari, As Três Ecologias


Introdução


Não é simples, trinta anos depois, falar sobre o sentido dos movimentos político-culturais de 68. Muito se disse a respeito nestes últimos anos. Para uns, ele representou um marco considerável na história da humanidade, com suas palavras de ordem desconcertantes, o heroísmo de uma juventude que recusava a função instrumentalizante (mercantilizante) do saber, com seu repúdio às segregações raciais, às guerras imperialistas, às ditaduras, à subjetividade coisificante do capitalismo liberal e do socialismo burocrático, então hegemônicos, no mundo. Para outros, ele representou apenas um movimento passageiro, "pequeno-burguês", sem deixar muito para a história. As interpretações são muitas. Pedem-me para falar das "idéias de 68". Desafio árduo, porém irrecusável.

I


Antes de fazer um juízo condenatório ou uma apologia de 68, gostaria perguntar: Por que trinta anos depois nos colocamos, uma vez mais, a questão e o sentido de "68"?

Pensar as "idéias de 68" é pensar toda uma geração, suas vitórias e fracassos; é pensar, em certo sentido, um bom pedaço de nossas vidas.

68, em especial o maio francês, foi uma referência essencial para minha geração militante no campo do modo de vida, da prática militante, do discurso, da organização, da teoria. O famoso "Maio 68" era um acontecimento histórico, tal como a Comuna de Paris ou ainda as revoluções cubana, russa, chinesa, ainda que não tenha sido tão significativa a ponto de caracterizar-se como uma revolução social - mas sem dúvida era reflexão obrigatória para todos aqueles pretendiam construir um projeto revolucionário.

Mas 68 aconteceu em vários países. Na China de então sob o regime comunista do governo de Mao-Tsé-Tung já em processo de burocratização, com a revolução cultural. Sentiam as massas juvenis talvez já o efeito da burocracia galopante no eterno império chinês. No Brasil, com o combate direto à ditadura militar totalitária. Nos EUA com a luta contra o racismo e à guerra do Vietnã. Na França com suas barricadas e seus grafitis.

Em certa medida pode dizer-se que existiram dois 68. Aquele ocorrido nos países de primeiro mundo, (EUA, França, p. ex.) - e tão importante quanto - aquele nos países de terceiro mundo (Brasil, China, p. ex.). Nestes, enfrentamento se deu em escala de massas, como lá, mas com inquietações diferentes, era mais político que existencial, mais econômico que cultural. Dizer isto não significa querer desqualificar um ou outro, ao contrário, pretende-se situar o quadro conjuntural das idéias-força presentes em cada momento. O que, também, não quer dizer que nos EUA ou na França não se colocassem questões militares ou políticas ou econômicas para a juventude e que, no Brasil ou na China, não estivessem presentes questões culturais e existenciais. O Vietnã e o Tropicalismo, por exemplo.

Os principais atores de 68 foram os jovens, em especial os estudantes. Na França por exemplo o movimento operário articulou-se como o estudantil, mas como que à reboque, pois era puxado (ou refreado) pelo reformismo sindical. No Brasil, também, os grandes movimentos sociais foram os organizados e feitos pelos jovens estudantes. Na China a revolução cultural era liderada pela juventude e nos EUA o quadro era o mesmo. E talvez tenha sido justamente pela ausência de articulação em nível macro-estrutural com a classe trabalhadora e as forças políticas macro-institucionais que o movimento de rebelião juvenil não tenha conseguido constituir-se em uma revolução social em larga escala.


II


O ambiente cultural e intelectual de 68 foi marcado por diversas tendências éticas, estéticas e políticas, tendo como referência o Maio 68.

No campo das idéias, 68 não apenas fez viver e reviver grandes pensadores, mas sobretudo recriou uma nova forma de compreender o mundo, inclusive e fundamentalmente a da "esquerda". Inúmeros eram os símbolos e as idéias presentes em 68. Do surrealismo ao guevarismo. Do marxismo ao anarquismo. Do trotskismo ao existencialismo. O certo é que o clima e a disposição eram de luta e revolta, que o sentido do movimento era revolucionário.

Sem dúvida, estavam presentes em 68 os ideários de Marx, Nietzsche, Freud, Heidegger como fizeram notar Ferry/Renaut em seu livro Pensamento 68. Mas é preciso reconhecer também a presença marcante de Reich e, sobretudo, de Herbert Marcuse. Aqui, entretanto, não se trata de tentar nomear "uma paternidade" ao movimento 68, isto seria tirar deste uma de suas forças prima, a diversidade de perspectivas teóricas e desejantes.

Mas, sem dúvida, Marcuse foi um autor que anunciou com muita perspicácia os acontecimentos revolucionários - e que viriam tomar forma em 68 - nos país desenvolvidos em seu livro A Ideologia Sociedade Industrial, o homem unidimensional, escrito em 1964. Marcuse, como nenhum outro, teve a sensibilidade para perceber o ambiente de então. Neste livro, analisando as sociedades industriais avançadas, Marcuse pretendia que nestas os principais agentes revolucionários não seriam mais os operários - tal como imaginava a tradição marxista hegemônica ou dogmática (e Marcuse nunca deixou de ser marxista, ou pelo menos, de partilhar idéias fundamentais do marxismo) -, mas fundamentalmente a juventude. Esta era fisiologicamente incapaz de aceitar a sociedade industrial e seus procedimentos de disciplinarização do corpo e do espírito. E não seria a classe operária porque esta havia sido, por assim dizer, consumida pelas necessidades de sobrevivência no contexto do capitalismo industrial, ao passo que a juventude não. Assim, as questões de discriminação racial, sexual, do cotidiano, seriam colocadas pelos movimentos juvenis, além das questões do trabalho. E estes movimentos com suas questões constituiriam o centro dos futuros processos revolucionários nas sociedades avançadas. (Note-se que aí está presente a decadência da universidade aristocrática e a emergência da universidade popular - do qual os EUA é o mais evidente e exemplar representante - que certamente coloca novos problemas sociais. O saber é uma arma política não menos que um fuzil. Ora, uma vez que o saber vai muito além das camadas aristocráticas e mesmo das simples camadas ricas, é natural que uma resistência intelectual-moral apareça no campo social.)

Evidentemente, no horizonte da sociedade informática, da "vida digital", da Idade do Computador, hoje, as coisas se colocam em certa medida de outra forma, mas em 68 as questões colocadas por Marcuse ganham consistência histórica efetiva.

Como disse, Reich também estava no horizonte de tais movimentos. Uma das principais teses de Reich, rechaçadas à época tanto pela esquerda como pela direita, era fundamentalmente a tentativa de articulação produtiva das teorias do desejo e da lutas de classes. A energia biológica como matéria viva dos processos de transformação social. Tal era, por exemplo, uma pichação nos muros de Paris. Quanto mais eu faço amor mais eu tenho vontade de fazer a revolução, quanto mais eu faço a revolução mais eu tenho vontade de fazer amor.

Falamos de Marcuse e Reich, mas poderíamos falar ainda de Castoriadis, Lefort, Morin, sem dúvida, cumpriram um papel teórico predecessor às idéias do movimento, por exemplo, com a crítica ao stalinismo que seu pequeno grupo "Socialismo ou Barbárie" já elaborava há vários anos.

De certa forma, foi somente a partir das questões suscitadas em 68 que se colocou com radicalidade a revolução do cotidiano e o questionamento das teorias políticas tradicionais que pretendiam falar de um poder simplesmente macroestrutural. Tanto Foucault como, principalmente, Guattari compreenderam esta dimensão "microfísica", ou "molecular", das relações de poder evocadas pelo movimento e, portanto, a necessidade de se inventar estratégias de luta nesta dimensão, procurando, ao mesmo tempo, articular tais lutas micropolíticas com as macropolíticas.

Assim, criam-se as condições no imaginário social para se estabelecer a posteriori um novo estatuto político e teórico para as até então "questões menores" ou secundárias, dos negros, das mulheres, das minorias étnicas e sexuais, dos presos, dos "loucos", dos poetas, enfim, as questões da subjetividade existencial. Aí, elas não são questões menores diante das "grandes questões" econômicas, estatais, internacionais. Ao contrário, são consideradas da maior importância, aliás, sem as quais àquelas grandes questões não teriam sentido algum.

Pode-se dizer, com certa ousadia talvez, que a verdadeira filosofia de 68, foi a filosofia das ruas, das barricadas. As idéias pichadas nos muros de Paris sintetizavam, em grande parte, o sentido do movimento. "Imaginação ao poder." "Aquele que fala de revolução sem mudar a vida cotidiana tem na boca um cadáver." "Decreto: 'O Estado de felicidade permanente' nas barricadas." "É proibido proibir." Quer dizer, todo um espírito que procura uma intensificação da experiência e deseja efetuar uma reapropriação da própria subjetividade.

É verdade que, hoje, a imaginação não está no poder. É verdade também que a vida cotidiana vai de mal a pior, que as proibições são incalculáveis e o que Estado é de infelicidade geral, mas, com efeito, a desterritorialização desejante de certas questões colocadas pela geração 68 foi considerável, em especial, no terreno da subjetividade e da liberdade existencial.

Talvez este anseio de liberdade e reapropriação da subjetividade tenha sido mais facilmente recuperado/assimilado pelo capitalismo liberal do que pelo socialismo burocrático justamente porque no primeiro a liberdade privada é uma força produtiva, enquanto no segundo ela não deve nem mesmo existir, na verdade é já sua superação. No socialismo burocrático a liberdade individual deve ser eliminada, ela em si mesma é um incômodo. No capitalismo, apesar de efetivamente poder ser, em algum momento, incômodo ao sistema como um todo, esta liberdade criadora existencial deve ser assimilada de alguma forma pelo mercado (ou então perecer nas listas de desempregados ou marginalizados que aumentam no mundo todo a cada dia).

Mas a liberdade individual que alguns tentam exaltar no capitalismo liberal é, na verdade, uma pseudo-liberdade. Não existe liberdade na ideologia da "consciência unidimensional", como criticava Marcuse. Ou, como dizia Castoriadis, as pessoas têm apenas a "ilusão de sua liberdade individual". Livres para fazer o quê? Seria preciso talvez discutir o que se entende mesmo por "liberdade individual". A liberdade individual do capitalismo "mundial integrado" liberal é, sobretudo, uma liberdade de morte, de vazio de sentido e ausência de valores nobres, a liberdade da alienação privada, da coisificação do indivíduo e da degradação social e ambiental.

Sem dúvida, é preciso considerar que muitas coisas aconteceram nestes últimos trinta anos no mundo. Da revolução cibernética à clonagem. Da conquista do espaço à guerra nuclear virtual. Da Aids à derrocada do ideal socialista. Da internet à ecologia.

O contexto internacional não pode deixar de ser de perplexidade e espanto. Se realmente o socialismo representa um ideal ultrapassado - ou a ultrapassar - o que nos resta? Aceitar simplesmente o princípio de realidade e render-se mais ou menos cinicamente ao capitalismo triunfante? Isto seria render-se a pura estupidez ou a simples covardia, pois o capitalismo liberal atual continua sendo um regime radicalmente degradante não apenas da condição humana, mas do conjunto da vida da natureza.

Concluindo. Talvez possamos agora tentar responder parcialmente a pergunta que nos fazíamos acima. Por que, ainda hoje, nos colocamos o sentido de 68?

Talvez porque, além de ser uma "agradável e doce lembrança" de nossas artes infantis, as questões de 68, representam ainda hoje uma viva referência no questionamento dos modos de vida e idéias dominantes, uma crítica ainda válida ao capitalismo e mesmo ao ideário socialista. Um certo direito irreverente à singularidade existencial. Um certo modo de dizer "aqui e agora". A busca de um novo lugar para a imaginação e a arte. A busca da superação da sociedade de exploração, da burocracia política, da opressão interracial, intersexual e a constituição de uma subjetividade existencial que possa valer a pena ser vivida. A afirmação da subjetividade e da autonomia criadoras radicalmente anti-stalinista e anti-capitalista.

Talvez, sobretudo, porque a utopia 68, significa ainda hoje a validade de um projeto de busca interminável de um estatuto outro para a existência humana, individual e coletiva, aquele que visa afirmar o sentido de velhos mas muito belos desejos humanos, o de liberdade e felicidade.

Porto Alegre, maio 1998.

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* Publicado na edição especial comemorativa da Revista Porto & Virgula 1968, o ano de muitas primaveras, maio 98.




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