«Cem maristas para um projeto. Objetivo: Ásia»



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19-01-2007


«Cem maristas para um projeto. Objetivo: Ásia»
Seán Sammon, Superior geral dos Irmãos Maristas, de passagem pela Catalunha

Entrevista realizada pelo Ir. Lluís Serra e Llansana


Que respostas são dadas pelo Instituto marista ao problema da pobreza e da justiça social, da discriminação e da exploração infantil, etc.?

Esta pergunta é importante porque eu acredito que, procurando abordar estes temas das crianças e dos jovens de hoje em dia, isto é, sobre sua exploração e sua discriminação, queremos refletir também sobre o que fez o Padre Champagnat. Mas também percebemos que o mundo no qual nós vivemos é diferente. Por exemplo, o Padre Champagnat procurou resolver as necessidades das crianças de sua região. Acho que foi em 1816, quando o governo francês publicou um decreto sobre as escolas elementares, falando de uma educação elementar universal para todas as crianças e particularmente para os daquela região, e indicou que deveriam ser encontrados os recursos necessários para que isso fosse proporcionado a elas, inclusive àquelas crianças cujas famílias não podiam pagá-la. Levando em consideração este decreto e sua experiência de ter acompanhado o jovem Jean-Baptiste Montagne nos últimos momentos de sua vida, ele se dedicou a fundar um Instituto para a proclamar a palavra de Deus às crianças e aos jovens. Mas sua visão da educação é muito mais ampla do que um punhado de exemplos. Ele viu a necessidade de formar bons cidadãos e bons cristãos. Tinha uma visão muito mais global, mas deveria usar os meios que tinha à sua disposição naquele tempo. Hoje dispomos de outros recursos. Vivemos em um mundo globalizado. Agora mais recentemente, estamos procurando estabelecer um programa, com o qual poderemos ter uma influência maior nas decisões das Nações Unidas.

Na minha opinião, hoje temos que fazer um trabalho tanto local como universal, porque a exploração não está acontecendo somente em áreas locais, mas em escala internacional, universal. Por exemplo, o tráfico de crianças: não podemos fazer tudo o que seja necessário, mas precisamos manter um esforço universal bem planificado e organizado, para nos movermos em todas as frentes e para garantir que nós estamos representando as crianças, que enfrentamos as injustiças, que oferecemos educação, que conseguimos mudar as vidas das crianças com uma maneira singular, particular, que é a de falar em nome daqueles que não têm ninguém que fale por eles.
No que consiste o projeto ad gentes, decidido em uma reunião realizada no Sri Lanka há um ano?

O projeto Missão ad Gentes, que foi apresentado pela primeira vez de maneira oficial na última conferência geral marista, é algo que tem sua origem nos apelos feitos pelo Papa João Paulo II. Ele destacou que cada um dos continentes e áreas do mundo teve o seu momento, no que se refere à evangelização. Agora tinha chegado a hora da Ásia. Ele pediu particularmente às ordens religiosas, para que considerassem a Ásia como campo de seu apostolado. Em conseqüência disso, nós estamos procurando abordar este tema nos últimos meses. Somos um Instituto que em todo o mundo conta com 4.200 irmãos e um grande número de leigos que trabalham com meio milhão de jovens durante todo o ano. Apesar disso, na Ásia, temos uma representação muito pequena de irmãos e leigos, razão pela qual procuramos incrementar este número.

Sem dúvida, esta é uma nova forma de missão, à qual o Papa estava chamando. Na realidade, é uma forma de missão enraizada no diálogo, no espírito de reconciliação, para que sejam construídas relações com pessoas de outras crenças. Obviamente, a Igreja cometeu alguns erros no passado, no que se refere à evangelização. Hoje, com esperança, podemos fazê-lo de uma forma nova e podemos aprender a respeitar outras crenças e a trabalhar conjuntamente, sem que nos reduzamos ao relativismo. Por esta razão, acredito que precisamos mudar nosso coração e nosso pensamento para que possamos fazer isso, o que terá uma influência enorme em nosso Instituto. Isto tudo sem esquecer que dois terços da população mundial vivem na Ásia.

Em segundo lugar, alguns informes das Nações Unidas indicam que as crianças mais pobres do mundo estão no sudeste asiático. Com a nossa resposta, integrando a resposta da Igreja, que é a disponibilidade para trabalhar com os mais necessitados, acreditamos que estaremos a serviço de todo aquele setor da juventude, pois foi para o bem deles que nós fomos fundados.


Por que a Ásia?

É a Ásia por várias razões. Primeiramente, pelos apelos lançados pelo Papa. João Paulo II disse que a vida religiosa tem uma história gloriosa para ser contada, mas também tem uma história gloriosa para ser vivida ainda. Ressaltando o trabalho missionário que os religiosos têm feito através dos séculos, ele nos pedia que neste momento histórico nós dirigíssemos nosso olhar para a Ásia. Como já dissemos, na Ásia vivem dois terços da população mundial. Um bilhão de pessoas vivem na Índia e mais de um bilhão na China. Vivendo ali dois terços da população mundial e tendo um número tão pequeno de irmãos nesta região, nos pareceu oportuno responder ao apelo do Papa e procurarmos aumentar a nossa presença ali. Finalmente, o número de crianças pobres no sudeste asiático nos estimula bem a encontrar uma correspondente resposta na visão de nosso fundador, que é a de evangelizar as crianças e os jovens mais pobres.


Levando-se em consideração que existem dificuldades de língua, de religião, de cultura, etc., qual foi a resposta dos irmãos maristas a este chamado?

Haverá sempre desafios relativos ao idioma, à religião, à cultura, enfim, a todas as diferenças. Nós sempre enfrentamos isso quando se trata de missão. E a respeito disso, gostaria de repetir o que os antigos missionários disseram, isto é, que eles esperam que nós, desta vez, que façamos as coisas corretamente.

No passado, muitos irmãos foram destinados às missões, sem saber direito o idioma local, sem uma real compreensão das diferenças culturais, sem um verdadeiro apreço pelas pessoas de diferentes crenças. Por conseguinte, eles fizeram o melhor que sabiam fazer, mas encontraram problemas em suas atividades quotidianas.

O que procuramos obter, através do programa que se desenvolve em Davao, é em primeiro lugar ajudar os irmãos a discernir se este é realmente um chamado de Deus dirigido a eles individualmente. Se os irmãos acreditam que é assim, e o Instituto também, então eles passarão a um outro plano, onde lhes será proporcionada uma preparação para o idioma, na missiologia, nos estudos das culturas e na estima das pessoas de outras crenças. É um trabalho que investe no futuro e queremos que os irmãos estejam bem preparados para que, ao serem enviados a uma determinada região, eles se sintam integrados e aptos a compreender a forma de vida local.


Concretamente, vocês já pensaram de estar presentes em alguns destes países?

Sim, de algum modo procuramos incrementar nossa presença em países onde, de uma forma ou de outra, já estamos presentes. Mas, além disso, estamos planejando ir a novas regiões. Devo confessar também que, em parte, isto está relacionado com a questão vocacional. Há vocações na Indonésia, no Vietnam. Nós procuramos estabelecer ali nossa presença, não apenas por causa das possíveis vocações, mas consideramos isto como um efeito indireto desejável.

A China representa uma grande fonte de esperança, no que diz respeito ao trabalho de evangelização. Obviamente, em algum momento no futuro, e de modo otimista esperamos que seja em um futuro próximo, haverá uma aproximação entre as autoridades vaticanas e as chinesas. Isto representaria uma abertura para um trabalho de evangelização mais direta em toda a China, que é um país com uma população jovem e que está enfrentando muitas mudanças em termos econômicos. Eu acredito que apenas com nossa presença ali, através da maneira simples como vivemos nossas vidas, será suficiente para torná-la atrativa, divulgando estes mesmos valores com os quais nós vivemos, e fazendo com que as pessoas venham aprender alguma coisa sobre o cristianismo. No sudeste asiático temos uma longa história de trabalho missionário, particularmente dos franceses na Indonésia. Já na região da antiga Indonésia existe uma longa história da Igreja, que nos servirá como bons fundamentos, sobre os quais nós podemos edificar.
Qual é a opinião dos bispos daquela região sobre este projeto que vocês levam nas mãos?

Eu penso que os bispos trabalharão em comunhão conosco. Espero que alguns compreendam bem o que estamos empreendendo. Todos receberam com entusiasmo a possibilidade de nossa presença ali, coisa que é muito positiva. Com certeza, alguns verão em nós as pessoas que poderão se ocupar de algumas atividades que eles irão definir quais sejam, de acordo com as suas necessidades. Por exemplo, um bispo nos pediu para que fôssemos os professores de seu seminário. Mas esta não é a razão principal porque estamos indo ali. Na realidade, estamos indo ali para atender às necessidades das crianças e dos jovens mais pobres.

Acho que os bispos, quando entenderem mais profundamente o nosso projeto e uma vez que descubram o trabalho que realizamos no mundo, apreciarão muito os esforços do projeto em si e o que ele pode contribuir para a sua diocese. Além disso, para mim, a vida religiosa tem sempre uma ação um pouco à parte da Igreja. Por conseguinte, esperamos levar a eles um serviço e um apostolado que não estejam sendo realizados naquela área determinada. Desta maneira, estamos tentando ir a lugares onde a Igreja não está dispondo de todos os recursos que pode até ter em outros lugares do mundo.
Existe uma presença marista em 76 países. Você esteve em todos eles. Há alguns aspectos que são comuns a todos eles?

Claro que sim. Eu penso que, se alguém vai a um apostolado marista em qualquer parte do mundo, pelo menos encontrará, como coisas básicas, as cinco qualidades do educador marista: presença em meio às crianças, amor ao trabalho, espírito de família, simplicidade e o fato de fazer as coisas à maneira marista. Estas coisas eu penso que podem ser encontradas refletidas nas vidas dos leigos, homens e mulheres, assim como nas vidas dos irmãos.

Em segundo lugar, um apostolado marista, seja que se realize na escola ou em outro lugar, é algo que reflete muito um espírito de família. Acredito também que o aspecto da fé é central para o trabalho. Portanto, quando as pessoas olham qualquer apostolado marista, eu penso que elas não ficam inspiradas somente por um sentimento geral de que existe algo em comum, mas existem aspectos reais do apostolado que elas terão condições de identificar claramente. Espero também que seja reconhecido que um dos aspectos que nos distinguem no mundo é o nosso serviço prestado às crianças e aos jovens que são pobres. Existem crianças que se beneficiam da educação que oferecemos, mas que realmente não a necessitam. Ao mesmo tempo em que existem outras crianças que não têm oportunidade e têm uma desesperada necessidade de saber que em torno deles há adultos com um sistema de valores tais como os nossos, que se preocupam com o cuidado deles. Eu acho que devemos ter iniciativas arrojadas, para assegurar nossa presença principalmente nessas regiões, e não necessariamente em outras, onde já se faz um bom trabalho e não necessitam tanto de nós.
Qual é a problemática que se vive na África?

Para a Igreja, para a vida religiosa na África, um dos maiores desafios é a situação econômica dos países onde estamos presentes.

Em segundo lugar, a violência que acontece em muitos lugares. Recentemente houve uma guerra entre Ruanda e o Congo. Existem vários conflitos em outras partes do continente africano, como no Sudão, por exemplo, onde está ocorrendo um genocídio. O continente é sacudido por uma grande quantidade de focos de violência.

Em terceiro lugar, todos estes países, por uma razão ou por outra, sofrem com a instabilidade econômica. E poderíamos analisar longamente quais são estas razões. Nossa esperança, enquanto Instituto, é a de conseguir uma maior estabilidade econômica nos próximos anos, pelo menos em nosso próprio Instituto. Com isso gostaríamos que prosseguissem os esforços para mudar os métodos que orientam atualmente os trabalhos ali, pois o antigo modelo de se apoiar nas províncias fundadoras é algo que está se transformando rapidamente e não pode continuar no futuro.

Enfim, eu penso que deveremos ser mais ativos politicamente, enfrentando os governos onde há corrupção, ou os governos onde se pratica um certo tipo de nepotismo. Sou consciente de que estes aspectos estão presentes em qualquer país, mas se estamos dispostos a ensinar a justiça nas escolas, temos que começar a praticar a justiça já em comunidade.

Por esta razão, nosso desejo é de poder trabalhar conjuntamente com nossos irmãos africanos, com os irmãos nascidos naquele continente, para construirmos nessa parte do mundo a nova sociedade que eles estão suspirando e para que a África possa finalmente ocupar o lugar que lhe corresponde dentre as nações da comunidade mundial.


Os maristas, desde quase a sua fundação, têm uma presença singular na Oceania. Você poderia descrever algumas das principais dificuldades que observou em suas recentes visitas?

Sim, certamente. A Oceania foi a primeira missão do Instituto, e foi assumida pelos padres maristas. Meu sentimento pessoal é de que foi dada aos maristas porque ninguém mais a queria. O que não deixa de ser uma boa maneira de começar, porque fomos a uma região que possivelmente não era considerada atrativa para outros e pudemos iniciar ali um trabalho realmente missionário. O que eu observei na Oceania foram os esforços concretos da parte dos irmãos e dos leigos para se integrarem às culturas nas quais eles vivem. Observei isso, principalmente nos irmãos missionários.

Existem culturas magníficas na Oceania, que em si mesma é uma parte muito complicada do mundo, e necessitamos ajudar as pessoas dali a descobrir sua própria cultura, a celebrar sua cultura, a compartilhá-la. Também precisamos fazer tudo isso no contexto da fé. Isto significa, por conseguinte, que respeitando suas culturas, devemos nos assegurar que a fé esteja viva nesta parte do mundo. Não vamos levar Deus às pessoas da Oceania. Deus já está ali. Devemos simplesmente ajudá-los a descobrir Deus no meio deles próprios.

O que também encontrei é que, em muitas partes da Oceania, as pessoas são de alguma maneira consideradas exóticas para o resto do mundo. É como andar em marcha à ré no tempo, e para isto temos que ser muito cuidadosos para apreciarmos os valores que existiram no passado, valores que foram valorizados durante decênios, e não podemos impor às pessoas valores que são estranhos a elas e que poderão desbaratar a sua sociedade e suas culturas. Estes valores estranhos não são tão profundos como os que eles vivem ali, embora pareçam mais atrativos.

Observei também que os países da Oceania são complicados. Ela cobre uma área que vai desde Guadalcanal, nas Ilhas Salomão, até Bougainville, em Papua-Nova Guiné, Vanuatu, Austrália e Nova Zelândia. Encontramos algumas áreas muito complexas e eu acredito que devemos abordá-las cuidadosamente, sob o ponto de vista do trabalho missionário. Devemos abordá-las respeitando as diversas culturas que existem nas diferentes regiões, ou seja, integrando as culturas indígenas e as culturas que levamos ali. De toda maneira, tenho aquele sentimento de orgulho pelo fato de que a Oceania foi a nossa primeira missão, e tenho a esperança que eles se conservem nos limites das nossas principais propostas, que é a de continuar atendendo às necessidades das crianças e dos jovens mais pobres.
Nos últimos anos, vários irmãos maristas deram a sua vida na África e na América latina por estarem próximos dos necessitados. Como foram vividos estes seus martírios?

Minha sensação é a de que este argumento precisa ser abordado juntamente com o tema dos pobres e dos mais necessitados, até enquanto esta questão não esteja suficientemente resolvida. E não penso que já tenha sido encontrada uma solução, até mesmo porque é um problema muito complicado. Por exemplo, a opção preferencial pelos pobres, como a entendo, já está na Bíblia. Refere-se aos «anawin» e diz ainda que a palavra de Deus muitas vezes provém dos lugares mais inesperados.

Não penso que nós devemos politizar estes temas. Ao mesmo tempo, acho que na América do Sul tem gente que padece com a opressão política e por sistemas econômicos injustos, e que os Estados Unidos, em grande parte, interfere nos assuntos internos desses países, assim como o faz no continente africano.

Mas acho também que o tema é muito complexo. Na África há ainda a questão da corrupção dos governos. Todos estes fatores são convergentes e precisam ser resolvidos. Mas nós, particularmente, nossa missão é viver encontrando as crianças mais pobres destes dois continentes, para servi-las.

Nós podemos considerar rapidamente a situação, e ver que estamos dirigindo um sistema escolar muito bom, porque isto nós fazemos realmente bem em todas as partes. O que nós devemos continuar nos perguntando é o que nos diria o Padre Champagnat, se voltasse hoje entre nós e observasse qualquer um dos nossos apostolados: nos diria que estamos onde deveríamos estar ou nos desafiaria, sacudindo-nos? Dizendo isto não quero de nenhuma maneira criticar o trabalho que foi feito no passado. Foi um trabalho maravilhoso, realizado conforme os meios da época em que foi feito. Mas, olhando o momento atual, o mundo que estamos vivendo hoje, creio que devemos nos perguntar a que coisa o Senhor está nos chamando? O que está nos pedindo o Espírito, à luz do nosso carisma, de nossas tradições, de nossos recursos, do amor que temos pelas crianças e pelos jovens mais pobres e à luz do nosso desejo de fazer deles bons cristãos e bons cidadãos?
Todo o mundo olha na direção dos Estados Unidos, interpelando-os em relação à guerra do Iraque e sobre o tema do terrorismo internacional. Você, como cidadão americano, com suas raízes irlandesas, como pensa que deveria ser o papel da Igreja, no que se refere às relações entre cristãos e muçulmanos?

Acho, de novo, que existe aqui uma situação complexa. Minha opinião pessoal, e as pessoas me dizem que sou muito inocente, é que os Estados Unidos teve uma grande oportunidade para mudar a face do mundo depois do 11 de setembro, quando países que se consideravam inimigos naturais dos Estados Unidos se comoveram por aquilo que aconteceu nas torres gêmeas, no World Trade Center.

Para mim, a forma para deter o terrorismo é cortar o seu financiamento. Não acho que as guerras resolvam alguma coisa. Penso que matar as pessoas consegue apenas criar uma outra geração de ódio no cenário internacional, e o que estamos observando no Iraque é justamente uma escalada de violência. E isso não apenas no Iraque, mas também em outras partes do mundo, sempre em conseqüência da guerra.

Acho que a pergunta básica que deveríamos fazer é de como devemos estabelecer pontes entre o islamismo e o cristianismo? Quando falamos de terrorismo, falamos de grupos radicais. Não estamos falando do cristão normal ou do muçulmano normal. Sejam cristãos ou muçulmanos, eles são pessoas de fé. A maioria das pessoas procura educar seus filhos em uma mesma fé, procurando encontrar uma vida melhor para eles e fazendo-os respeitar sua tradição.

Como chegar a estas pessoas, que se constituem a maioria? Como formar um grupo que queira a paz, que procure encontrar uma forma de viver juntos e de trabalhar contra o terrorismo, mas de uma maneira que não seja violenta? Minha opinião pessoal é que se deve deter o financiamento do terrorismo, porque está claro que alguém o está financiando. Esta seria uma maneira muito mais efetiva do que ficar lançando bombas contra as pessoas. As bombas estão alimentando a indústria militar, tornando mais ricas algumas pessoas e matando outras. Percebo que há momentos na história em que algumas nações acreditam que a violência é a única maneira de resolver um problema. Para mim, este seria absolutamente o último ponto a considerar. Acho que é muito triste que haja alguém que creia em suas fantasias e que considere que tudo o que está sucedendo é justificável. Para mim, o tema básico para o Instituto é de como levar adiante corretamente a idéia de uma reconciliação.

Os escritos do Ir. Henri Vergès são um exemplo maravilhoso daquilo que se pode fazer diante das realidades do quotidiano, como a convivência e o trabalho desenvolvido em uma outra cultura, respeitando-a, ao mesmo tempo em que se procura também compartilhar a sua própria.

Finalmente, gostaria de citar um poema que trago sempre comigo e que é fragmento de um outro que me foi enviado pelo jesuíta Daniel Berrigan. Ele estava na prisão em Siracusa, quando eu estava no escolasticado. Eu admirava a obra que ele realizava, opondo-se à guerra do Vietnam. Eu lhe enviei uma carta e ele me respondeu, juntando este fragmento do poema, cuja primeira linha diz: «Peacemaking is hard – hard almost as war», ou seja, «Fazer a paz é difícil, quase tão difícil como fazer a guerra». Esta é uma coisa na qual eu penso muito freqüentemente, porque acredito que fazer a paz requer enormes sacrifícios, os mesmos sacrifícios que são necessários para fazer a guerra. Nós estamos empenhados em uma guerra para a paz, para construir uma sociedade pacifista e respeitosa, entre pessoas de diferentes crenças, de diferentes culturas e de diferentes formas de pensar.
Qual é a atualidade da missão marista dentre as crianças e os jovens?

Pessoalmente considero que existem três elementos na missão, na missão marista dentre as crianças e os jovens. Que proclamemos a palavra de Deus, que a proclamemos às crianças e aos jovens e que a proclamemos às crianças e aos jovens pobres. Estes são para mim os elementos básicos. Portanto, creio que Jesus e Maria fazem parte dele e que nós devemos procurar viver no meio das crianças, seguindo o que o nosso fundador nos disse, isto é, respeitando-as, pois assim obteremos o respeito delas. Marcelino disse que para transformar os corações e as mentes das crianças devemos ser mestres. E para isto devemos viver no meio delas, fazendo isto durante muito tempo. Seja nas escolas, nas associações sociais ou em outros apostolados, prosseguimos no trabalho comunitário e trabalhando com os jovens.

Hoje em dia realizamos este trabalho juntamente com homens e mulheres leigos, de uma maneira que demonstra o mútuo apreço que existe entre nós, compartilhando os dons que juntos recebemos e proclamando a palavra de Deus às crianças e aos jovens. Não creio que o Padre Champagnat nos fundou para estabelecer um sistema escolar. Não creio que nos fundou simplesmente para sermos catequistas. Mas creio que ele tinha uma visão muito mais ampla a respeito da educação, isto é, que a educação transformaria as mentes e os corações da juventude.
Você tem algum motivo para ser otimista a respeito do futuro da vida religiosa e, mais concretamente, da vida marista?

Começo com a vida marista. Acho que o Padre Champagnat perderia muitas vezes a paciência conosco. Temos gente no Instituto, que eu chamaria de «cantores da morte». São pessoas que acreditam que o Instituto está em seus últimos dias, porque a visão que têm, a realidade que conseguem ver, não coincide com a realidade que eles pensam que deveria ser.

Marcelino nos fundou sem ter dinheiro, com dois jovens aspirantes, sendo que um deles era soldado do exército de Napoleão e o outro trabalhava em uma granja, e viviam em uma casa que o melhor que poderíamos dizer dela é que precisava de muitos consertos. Mas ele tinha um sonho e estava dominado por um zelo e uma audácia que o fizeram seguir adiante e fundar um Instituto que hoje em dia está em 76 países do mundo, procurando atender as necessidades de meio milhão de jovens.

Muitas vezes nós acreditamos em nossas próprias pseudo-profecias. Mas eu sou otimista, porque posso ver a generosidade das pessoas, a bondade delas e os imensos recursos que dispomos como maristas e como religiosos. Penso que, ao invés de lamentar nossa situação, devemos nos ocupar daquilo para o qual nós fomos chamados e devemos convidar os outros para que se unam a nós e assim realizarmos juntos este trabalho. Não penso que a renovação venha de planos pastorais, nem que venha de planos de estratégia, de estudos ou de qualquer outra coisa. A renovação vem de uma transformação básica do coração. Posso observar este processo de transformação do coração em muita gente, por isso sou otimista em relação ao futuro. Primeiro, porque creio que temos à disposição imensos recursos, e segundo, porque vejo uma crescente conscientização dentre os irmãos e outros colaboradores.



Nós precisamos nos dedicar muito intensamente a convidar outros jovens, para que realizem estes esforços como irmãos. Não pode haver trabalho conjunto, a menos que haja irmãos e leigos, homens e mulheres, trabalhando juntos. Em algumas partes do mundo ouço falar do momento hipotético, de quando não haverá mais irmãos. Se os irmãos se vão, não se poderá mais falar em trabalho conjunto. Mas não creio que os irmãos desapareçam. O que lamento é que estas pessoas façam suas pseudo-profecias a respeito do desaparecimento dos irmãos e que acreditem que estas profecias se cumprirão, ao mesmo tempo em que não fazem nada, não tenham nenhum empenho para garantir que os irmãos continuem ainda existindo no futuro. Precisamos ser «boa nova» para a juventude, devemos ser muito explícitos, muito claros, sobre a nossa alegria de viver esta forma de vida. Finalmente, precisamos lhes dizer que a nossa é uma maravilhosa maneira de viver a própria vida e devemos lhes perguntar porque não se unem a nós, porque não participam deste esforço de servir as crianças e os jovens mais pobres e em nome de Jesus Cristo. No núcleo de tudo isto deve estar este entusiasmo por Jesus e pela sua boa nova.




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