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Sem medo


de viver

Capa:


Kátia Cabello

Revisão c Editoração Eletrônica:

João Carlos de Pinho

Eoto 4ª capa:



Renato Cirone



2ª edição

28ª impressão

Maio ● 2004

10.000 exemplares


Publicação, Distribuição

Impressão e Acabamento



CENTRO DE ESTUDOS

VIDA & CONSCIÊNCIA EDITORA LTDA.

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Zibia Gasparetto

ditado por Lucius

Sem medo

de viver


Prólogo

Sérgio chegou em casa muito nervoso. Esperara tanto tempo por aquela promoção e agora, quando tudo indicava que ela aconteceria, outro tomara-lhe o lugar.

Fechou a porta do pequeno apartamento onde morava e deixou-se cair em uma poltrona da modesta sala, desanimado. De que lhe adiantara mourejar no trabalho com tanto empenho? De que lhe valera colocar os negócios da empresa em primeiro lugar, se na hora em que deveria colher a recompensa merecida passavam-no para trás?

Um sentimento de rancor o acometeu. Tanta dedicação e esforço haviam sido inúteis. Por que, para ele, as coisas saíam sempre erradas?

Passou a mão pelos cabelos num gesto impaciente. Tinha consciência de ter agido sempre com honestidade. Era uma pessoa decente e esforçada. Por que nada dava certo? Parecia que a vida se comprazia em destruir todos os seus sonhos desde a adolescência.

Havia desejado estudar, graduar-se em medicina, mas nunca conseguira condições financeiras para isso. Vinha de uma família muito pobre do interior de São Paulo. Seus pais nunca puderam financiar-lhe os estudos. Fez até o ginásio com muito esforço e aos quinze anos deixou a pequena cidade onde nascera e veio para a capital na esperança de conseguir o que pretendia.

Tinha uma boa aparência e muita vontade de trabalhar. Depois de alguns dias conseguiu emprego em uma loja do centro da cidade como mensageiro. O salário era pequeno, mas para ele representava um bom começo. Arranjou vaga em uma pensão de um bairro afastado e todos os dias, antes das sete, já se pendurava no estribo do bonde para entrar na loja pontualmente às oito.

Durante o dia inteiro, até as dezoito e trinta, envergando a fardinha com o emblema da loja, ele ia e vinha, fazendo entregas, comprando pequenas coisas, indo ao banco, ao correio, com diligência e boa vontade. No princípio havia sido duro, porque ele não conhecia a cidade. Mas comprou um guia e dentro de poucas semanas já circulava por todos os lugares muito bem.

Logo descobriu que o salário que lhe parecera uma fortuna mal dava para cobrir-lhe as despesas indispensáveis. O sonho de poder estudar ficava mais distante a cada dia. Decidiu procurar outro emprego, mas era muito jovem e teve de sujeitar-se a trabalhar naquele serviço durante três anos, até que completasse dezoito anos.

Conseguiu fazer um curso noturno de datilografia e passou a procurar outro emprego. Descobriu que para passar nos testes a que era submetido teria de praticar melhor a datilografia e estudar um pouco mais de matemática. Arranjou um estudante, colega de pensão, para dar-lhe algumas aulas e conseguiu treinar a datilografia em casa da vizinha, que possuía uma máquina e o deixava usá-la à noite.

Sérgio suspirou recordando-se de sua alegria quando conseguiu ir trabalhar no escritório de uma fábrica de biscoitos. Além de ganhar mais, seria um escriturário. Sentiu-se feliz. Ele estava ficando importante! Logo conseguiria recursos para continuar os estudos. Naqueles tempos, imaginava cursar a faculdade, graduar-se e ser doutor! Ter o nome escrito em uma placa do lado de fora do seu consultório e ganhar dinheiro para poder ajudar a família.

Vicente, seu pai, era lavrador; Rita, sua mãe, mulher simples e trabalhadeira, bem como Dirce e Diva, suas irmãs mais novas. Havia ainda o irmão mais velho, Rubens, que, ao contrário dele, aceitara a vida simples da sua cidade e trabalhava na lavoura como o pai.

Imaginava sua volta à terra natal, formado, rico, levando presentes para todos, podendo oferecer-lhes uma vida melhor.

Contudo, os anos haviam passado e, por mais que perseguisse esse sonho, nunca conseguiu realizá-lo. Esforçara-se muito, progredira, tinha aprendido muitas coisas durante os quinze anos que viveu na cidade, e nos últimos anos, trabalhando em uma grande empresa onde tantos colegas haviam conseguido progredir, acreditou que finalmente conseguiria o que desejava.

Claro que não pensava mais em estudar medicina. Renunciara a esse sonho da juventude, mas ainda guardava a esperança de poder subir na vida e ajudar a família e, principalmente, mostrar-lhes que ele não se havia enganado. Que valera a pena ter saído de casa tão cedo, ter se esforçado. Queria ser vencedor.

Quando tudo parecia favorecê-lo, e pela ordem das coisas o cargo já era seu, a direção nomeou outra pessoa para ocupá-lo. A ele, nem uma palavra, nenhuma explicação, nada. Além da decepção, o descaso feriu-o fundo. Afinal, ele se dedicava muito ao trabalho.

O telefone tocou e ele fez um gesto de contrariedade. Não sentia vontade de falar com ninguém. Contudo, depois do terceiro toque levantou-se da poltrona e atendeu.

— Pronto.

— Sérgio? O que aconteceu? Estou esperando há mais de meia hora. Esqueceu que combinamos ir ao cinema? Já perdemos a sessão das oito.

— Desculpe, Flora. Tive um contratempo e me atrasei. Hoje não estou me sentindo bem.

— Está doente?

— Não. Apenas indisposto. Sinto muito tê-la feito esperar.

— Está mesmo indisposto ou está me evitando?

— Por que faria isso?

— Não sei. Mas se não lhe agrada sair comigo, posso compreender. Não precisa desculpar-se.

— Não é nada disso. Você está enganada.

— Não gosto de me sentir assim.

— Assim como?

— Você não apareceu, nem telefonou para avisar. Acho até que se esqueceu do nosso encontro. Por isso, é melhor ficarmos por aqui. Não me procure mais. Não gosto de ser colocada em segundo plano, e não telefonaria para procurá-lo se não fosse para dizer-lhe isto. Portanto, adeus.

Ela desligou. Desapontado, Sérgio colocou o telefone no gancho.

— E essa, agora? — pensou. Além de perder o cargo ainda perdia a namorada! Isso não ia ficar assim.

Ele reagiu. Apanhou o telefone e ligou para ela. O telefone tocou, tocou, mas ninguém atendeu. Irritado, insistiu várias vezes até que uma voz masculina atendeu.

— A Flora? Ela saiu. Quem está falando?

— Um amigo dela. Boa noite e obrigado.

Deixou-se cair novamente na poltrona. Além da decepção, agora estava com raiva. Gostava de Flora, mas não estava apaixonado. O namoro já se estendia por seis meses. Ela era bonita, inteligente, agradável, porém demasiado exigente. Ambiciosa, inteirava-se de suas atividades profissionais, dizendo claramente que esperava vê-lo prosperar na empresa.

Ele achava bom o interesse dela. Contava-lhe todos os problemas relacionados ao seu trabalho e acatava suas opiniões. Sentia que ela o apoiava para subir na vida e fazer carreira. Ela cursava a faculdade de direito e Sérgio a admirava por isso. Os pais de Flora estavam bem de vida e ela nunca precisou trabalhar. Terminaria o curso universitário naquele ano e o pai já estava providenciando um escritório para ela, junto a um famoso advogado.

Para ele, que sempre lutara com dificuldade, a situação de Flora já era ótima. Entretanto, ela desejava muito mais. Não queria ser apenas uma advogada de fama, mas uma milionária. Seu objetivo era enriquecer. Sonhava com muito luxo, em freqüentar a alta sociedade. Amava as jóias caras, os lugares da moda, estar em evidência.

Sérgio percebeu isso e até certo ponto achava positivo. Era um estímulo para que ele progredisse. Tinha certeza de que jamais seria milionário. Uma fortuna não se faz de um dia para o outro. Ele nunca teve sorte.

Flora teria percebido isso? Ela sempre acreditou que ele havia de ser muito rico um dia, que chegaria a ser não só diretor-presidente da empresa como seu maior acionista. Claro que ela delirava. Mas ele se sentia envaidecido, mesmo sabendo que o sonho dela nunca aconteceria.

De repente, ele percebeu tudo: Flora descobriu que a esperada promoção não acontecera. Por isso, deu-lhe o fora. Não quis esperar mais. Compreendeu a verdade. Um simples atraso de meia hora não era motivo bastante forte. Já aconteceu antes e ela tinha reagido de outra forma

Apesar de sua desilusão e desconforto, Sérgio começou a rir. A ambição de Flora tornou-a interesseira e vulgar. Pensando bem, ela era vulgar mesmo. Estava sempre representando, utilizando regras, fazendo jogos de interesse para se beneficiar, tornar-se evidente, admirada, aplaudida, valorizada.

Usou-o enquanto achava que ele poderia oferecer-lhe o que ela pretendia. Percebendo seu engano, não hesitou em colocá-lo de lado, e certamente sairia à procura de outro que pudesse dar-lhe o que desejava.

Mesmo sem estar apaixonado por ela, essa conclusão irritou-o mais ainda. Além disso, a lembrança de quem o havia substituído na escolha para a diretoria só piorou seu estado de ânimo.

Levantou-se e começou a andar de um lado a outro da pequena sala pensando:

— Eu sou capaz! Tenho a certeza de que eu desempenharia aquelas funções melhor do que ele, que foi nomeado para o cargo apenas por ser sobrinho do dono.

Estudara, trabalhara, tinha competência. Estava cansado de ser preterido, de ficar em segundo plano, de esperar que os outros reconhecessem sua capacidade. Tinha de fazer alguma coisa. Não podia continuar mais assim. Estava com trinta e dois anos. O tempo passava rapidamente e nada acontecia.

— Nenhuma mulher pretensiosa e interesseira vai desligar o telefone na minha cara, nem nenhum patrão protecionista vai passar seus apadrinhados por cima dos meus direitos. Não vou aceitar isso. De hoje em diante, as coisas vão mudar. Eles vão ver do que sou capaz! Até agora, obedeci às regras do esforço, do jogo aberto, da honestidade. Não deu certo. De agora em diante, cuidarei dos meus interesses. Eles ainda vão voltar atrás, e eu é que direi não! Isso vai acontecer, eu juro!

Foi até a cozinha, fez um sanduíche, abriu uma garrafa de vinho, encheu o copo e, levantando-o, disse:

— Ao meu sucesso!

Depois de comer, foi até o quarto, apanhou sua agenda e, sentado na cama, à luz fraca do abajur, começou a escrever. Acabava de ter algumas idéias e desejava pô-las em prática no dia seguinte. Haveria de conquistar seu lugar, aquilo a que tinha direito, e ninguém o impediria de chegar aonde queria.

Estava determinado. O mundo era um jogo de interesses. O mais astuto levava vantagem sempre. Se esse era o caminho para o sucesso, ele o percorreria. As pessoas, no mundo dos negócios, eram insensíveis a quaisquer sentimentos de solidariedade ou de fraternidade. O lucro era mais importante do que tudo. Tudo era competição, e em uma competição era preciso ganhar. Estava cansado de perder, e para ganhar tinha que aprender as regras do jogo. Para entrar nessa disputa tinha que usar as mesmas armas; para vencer, era preciso endurecer os sentimentos e enxergar só o próprio objetivo: o sucesso, o dinheiro.

Tomou um banho e foi deitar-se. Pretendia levantar-se cedo no dia seguinte. Tudo iria mudar e ele precisava estar bem-disposto para começar.

Capítulo 1

Ao chegar pontualmente na manhã seguinte, Sérgio sentiu logo o clima de expectativa entre seus funcionários. Percebeu que o olhavam disfarçadamente, tentando descobrir como ele reagiria. Eles, tanto quanto Sérgio, tinham como certa a promoção dele.

Sérgio procurou aparentar indiferença e agir da maneira habitual. Se pensavam que ele estava arrasado, enganavam-se. Sentiu a raiva aumentar, mas controlou-se. Tinha vontade de pedir demissão, de dizer como se sentia injustiçado, de quanto se esforçara para progredir na empresa, e de sua certeza de estar perfeitamente preparado para exercer o novo cargo.

Não disse nada, porém. Para quê? Serviria apenas para revelar aos colegas o quadro da sua insatisfação e do seu fracasso.

Quando o chamaram para apresentar-lhe o novo chefe, ele precisou de todo o controle para dissimular sua contrariedade. Olhou para o moço bem-posto e sorridente, vestido na moda e muito seguro de si, e foi tomado por um sentimento desagradável de inveja.

Cumprimentou-o sério, porém com amabilidade, entreabrindo os lábios em um sorriso de boas-vindas que procurava encobrir o mal-estar.

— Este é o Dr. Flávio, nosso novo diretor administrativo — disse o presidente da empresa. — É com ele que você deverá tratar daqui por diante.

— Sim, senhor — respondeu Sérgio.

Ele era doutor! Bonito, elegante, rico. Sobrinho do presidente da empresa. Certamente um "filhinho de papai" que lhe daria muito trabalho para introduzir nos assuntos administrativos. Doutor! De quê?

Esse pensamento aumentou sua raiva. Era injusto que alguém que não merecia lhe roubasse o que lhe pertencia por direito. Ele trabalhara duro, dedicara-se tenazmente e era quem tinha o direito de crescer com a empresa.

A vida era injusta e cega com as pessoas. A desigualdade, o protecionismo acentuavam sua revolta. Todavia, nada deixou transparecer.

Flávio fixou-o com certa indiferença dizendo:

— Meu tio falou muito bem de você. Hoje desejo percorrer todos os departamentos, mas amanhã começaremos a trabalhar.

Sérgio curvou-se levemente.

— Estarei à disposição.

Saiu da sala tentando disfarçar, sentindo o olhar curioso dos colegas. Em sua sala, sentou-se atrás da escrivaninha e fingiu que começava a trabalhar.

A disposição da véspera tinha esmaecido. Sentia-se muito desanimado, mas o orgulho falou mais alto. Ninguém haveria de perceber. Alguns colegas tentaram mostrar solidariedade, procurando tocar no assunto, mas Sérgio sorriu e respondeu:

— Não estou nem um pouco preocupado com o novo diretor! Tenho outros planos em vista!

Eles o olharam com incredulidade. Sabiam como Sérgio gostava da firma e quanto se dedicava. Com certeza ele dissimulava. Fingia para não demonstrar toda a sua decepção.

Vendo-os sair calados e pensativos, Sérgio compreendeu que não conseguira enganá-los. Irritado, pegou sua agenda e procurou alguns telefones. Fechou a porta da sala e, sozinho, começou a ligar. Eram pessoas que tinham negócios com a empresa e que o cumulavam de gentilezas, algumas oferecendo vantagens e dinheiro a troco de favores.

Marcou vários almoços e fez apontamentos. Sabia que precisava ser cauteloso. Dali para a frente, só importaria seu sucesso, seu bem-estar, seus interesses. Depois disso, sentiu-se mais calmo. Estava dando o troco.

Ele não desejava lesar a empresa. Mas iria aproveitar as vantagens que seu cargo lhe oferecia e prestaria favores a outras firmas para obter lucro e fazer seu próprio capital. Pensava que ainda poderia ter seu próprio negócio. Prática de mercado não lhe faltava. Só precisava de dinheiro para começar. Isso ele havia de conseguir em pouco tempo.

Satisfeito, saiu para almoçar e quando encontrou os colegas, principalmente seus amigos, sentia-se muito bem. Tão bem que eles começaram a pensar que haviam se enganado, que Sérgio realmente não se incomodara com a preterição.

Nos dias que se seguiram, Sérgio sentiu-se muito melhor. Na verdade, prestar esclarecimentos e assessoria ao novo diretor não lhe custava nada, uma vez que, por outro lado, começara a realizar alguns negócios com os quais ganhara bom dinheiro ao dar preferência a algumas firmas para fornecimento de determinados materiais.

Um dos seus almoços fora com o dono de uma agência de publicidade que lhe pagou gorda comissão para conseguir a conta da empresa. Sérgio aceitou, e notando crescer sua conta bancária, sentiu-se satisfeito.

O novo diretor era muito diferente do que Sérgio havia imaginado. Nunca parecia estar trabalhando. Dava impressão de um visitante, sempre impecavelmente vestido e com a mesa sempre arrumada e limpa.

— Um almofadinha! Não quer nada com o trabalho — pensou Sérgio com certo prazer.

Claro que ele torcia para que Flávio fizesse muitas asneiras. Tinha a certeza de que esse grã-fino nunca saberia levar o trabalho a sério. Fizera-lhe apenas algumas perguntas e nada mais.

As secretárias viviam suspirando por ele. Certamente um bom partido. Trinta anos, solteiro, rico.

— As mulheres sempre são interesseiras — pensou ele. Isso aumentava sua raiva. Sabia que o estava invejando, e tal sentimento incomodava-o, mas não conseguia evitá-lo. Se ao menos ele se mostrasse mais humano, cometesse algum erro, falhasse de alguma forma, seria mais fácil suportá-lo. Contudo, Flávio guardava distância, era discreto, e não trocava qualquer tipo de comentário com ele. Falava pouco e Sérgio nunca sabia se ele concordava ou não.

Se a presença de Flávio o incomodava, sua personalidade começou a intrigá-lo, e ele prestava atenção a tudo quanto o novo diretor dizia ou fazia. Sabia quantos ternos ele trocava por semana, como combinava as cores das camisas e das gravatas, quantos cafés ele tomava, a que horas chegava, a que horas saía.

Depois de um mês, começou a perguntar-se o que ele fazia fora da empresa. Como gastava seu tempo, os lugares que freqüentava... Quando o via sair em seu carro sempre limpo e bem cuidado, imaginava onde ele iria, o que faria, como seria sua vida.

Quando ele fosse rico, saberia aproveitar bem o tempo. Todas as mulheres haveriam de querer sua companhia. Teria roupas e carro de luxo.

Sérgio sonhava com o futuro, imaginando-se a desfrutar de posição e vida social.

A campainha do interfone soou e ele atendeu.

— Sim?

— Venha à minha sala, precisamos conversar.



Sérgio levantou-se imediatamente e dirigiu-se à sala de Flávio. Bateu levemente na porta e entrou.

— Sente-se, por favor — pediu ele. Vendo-o acomodado, continuou. — Tenho algumas perguntas a fazer-lhe.

— Estou à sua disposição.

— Primeiro, nós mudamos de agência publicitária. Certamente você teve uma boa razão.

Sérgio admirou-se. Não esperava que ele se ocupasse desses detalhes. Apressou-se a responder.

— É verdade. Durante muito tempo permanecemos com a mesma empresa, porém, estudando bem, notei que os resultados eram insignificantes e resolvi mudar. A nova agência apresentou-me um programa melhor e acredito que venhamos a obter maiores resultados.

— Desejo cumprimentá-lo por isso. Na verdade, nossa publicidade estava muito antiquada e nada agressiva. A nova campanha está muito melhor. Talvez possamos melhorar ainda mais. Confesso que você me surpreendeu.

Sérgio olhou-o curioso.

— Por quê?

Flávio sorriu levemente.

— Não pensei que tivesse essa atitude. Não é sua postura habitual. — Olhou-o firme nos olhos e continuou. — Alguma coisa está mudando em você. Para melhor.

Sérgio sorriu enquanto dizia:

— Talvez. Sinto vontade de fazer coisas novas. Flávio balançou a cabeça aprovando.

— Isso mesmo. Você me parecia muito conservador. Sérgio surpreendeu-se. Não era essa a idéia que fazia de si mesmo.

— Eu? Conservador? Tem uma opinião errada a meu respeito. Toda minha vida sempre fui diferente dos meus. Deixei-os lá no interior e vim para a cidade. Na minha família, só eu tive essa coragem.

Flávio olhou-o sério, como se medindo bem o que ia dizer.

— É verdade. Saiu de lá, mas nunca os deixou realmente. Tudo quanto fez aqui tem sido no sentido de provar-lhes que você estava certo. Que era melhor do que eles.

Sérgio não ocultou a surpresa. Flávio mal o olhava, como podia saber tanto a seu respeito? Fez um gesto evasivo.

— Por que diz isso? Eu nunca pretendi ser melhor do que eles. Sempre fui um bom filho e amo minha família.

— Não duvido disso. Falo da sua postura interior. Do que está oculto em suas atitudes. Essa postura deve tê-lo limitado muito. Aposto que tudo para você tem sido muito difícil, e com muita luta.

Sérgio não escondeu um travo de amargura.

— E verdade. Mas a vida não é nada fácil para um pobre menino como eu que veio do interior, sem cultura, e não conseguiu sequer ir para uma universidade.

— Se cultiva essa espécie de pensamento, posso compreender por que não conseguiu o que pretendia.

Aprendi que a honestidade, a vontade de trabalhar e o esforço eram o caminho para o sucesso. Mas tudo o que conquistei tem sido com muito esforço e muita luta. Não acredito que na vida as coisas possam ser diferentes.

— Se isso fosse verdade, os desonestos e ociosos nunca teriam sucesso. Eu posso apontar-lhe alguns nomes de homens conhecidos e até famosos, ocupando altos cargos na política, que fraudaram todas as leis dos homens e até de Deus.

Sérgio não concordou.

— É verdade, mas não é justo. Onde ficam os valores sagrados da religião e da vida? Acreditar nisso é perder todos os referenciais do que é bom ou mau.

— Você fala das regras da sociedade. Hum... Elas nem sempre são verdadeiras.Todavia, pense nisto. O sucesso não depende dos valores morais de cada um. Ele pode ocorrer mesmo quando a pessoa é despudorada e desonesta.

Sérgio sacudiu a cabeça negativamente.

— Sei que é verdade, mas não me conformo. Está tudo erra­do. Como a vida pode premiar o mal? Nesse caso, onde está Deus?

Flávio sorriu e, pela primeira vez, Sérgio viu seus dentes alvos e bem distribuídos.

— Está enganado. A vida nunca erra. Tudo está certo como está. Pense nisso. Agora fiquemos por aqui.

Sérgio saiu da sala intrigado. Flávio o elogiara logo quando ele não tinha agido de acordo com seus manuais de honestidade! Ele estava enganado, com certeza. Que idéias malucas lhe passariam pela cabeça?

Ele, querendo ser melhor do que todos na família! Era verdade que sempre desejara progredir para ajudá-los. Traze-los para a cidade, dar-lhes presentes e fazê-los subir na vida. Isso não poderia ser um mal. Ao contrário. Ele era um bom filho.

O resto do dia Sérgio não conseguiu esquecer sua conversa com Flávio. Reconhecia que ele estava muito bem informado. Parecia seguro e nunca demonstrara qualquer dúvida. Chegara a examiná-lo, a observar suas atitudes.

Sérgio sentiu-se envaidecido. Flávio prestara atenção nele. Estar-se-ia perguntando por que não o haviam promovido? Perceberia que lhe roubara o lugar na hora em que ele, Sérgio, mais esperava por isso?

Se isso fosse verdade, haveria de mostrar-lhe que era melhor do que ele mesmo. As palavras de Flávio não lhe saíam da cabeça. "Saiu de lá, mas nunca os deixou realmente." Estaria a chamá-lo de provinciano? Foi até o banheiro e olhou-se no espelho. Talvez o corte de cabelo pudesse melhorar. O colarinho era um tanto acanhado. Também, ele nunca dispusera de dinheiro para comprar boas roupas.

Na manhã seguinte, um sábado, Sérgio decidiu fazer compras. Afinal, agora ele dispunha de mais dinheiro e ninguém haveria de chamá-lo de provinciano. Morava na cidade há bastante tempo e se considerava um homem elegante. Lembrou-se dos ternos bem talhados de Flávio, suas camisas finas e gravatas sempre combinando e decidiu-se. Estava disposto a gastar e a vestir-se melhor.

Parado em frente à vitrine de uma luxuosa loja, ele olhava com atenção cada roupa exposta. Ficou encantado com um blazer azul-marinho, vestido em elegante manequim, a camisa de seda cor de palha e a gravata estampada, com delicado toque cor de vinho. Olhou, olhou e finalmente resolveu entrar.

Sentia-se envergonhado. Nunca conseguira entrar em uma loja luxuosa como aquela. Sempre pensara que essas coisas não eram para ele e que nunca poderia comprá-las. Timidamente pediu para ver a roupa, e no provador, vendo-se vestido com ela, sentiu-se outra pessoa. Num assomo de entusiasmo, comprou tudo, não só o blazer, a camisa e a gravata, mas a calça combinando com a camisa, os sapatos de cromo alemão e até as meias de seda.

Gastou quase todo o dinheiro que tinha, mas não se importou. Sentia-se eufórico, feliz. Ele nunca pensara em si mesmo; agora, estava na hora de, pelo menos, viver melhor.

À noite, tomou um banho caprichado, vestiu-se com a roupa nova e, diante do espelho, sentiu-se entusiasmado. Parecia outro homem, mais alto e muito elegante. Virando-se e olhando-se, pensou:

— Hoje não vou pensar em tristeza, nem em minha vida pobre. Sou rico, estou preparado para o sucesso!

Uma vez na rua, conjeturou: aonde iria? Não sentia vontade de ir a um simples cinema ou aos lugares costumeiros. Decidiu ir à cinelândia, dar uma olhada. Andando pela avenida São João, sentia-se o dono do mundo. As mulheres olhavam-no interessadas e ele pensava com satisfação:

— Elas imaginam que tenho dinheiro!

Ele procurava andar com naturalidade. Os ricos são descontraídos e naturais. Iria a um teatro. Talvez fosse melhor. Depois veria o que fazer. O que será que Flávio fazia nas noites de sábado? Ele tinha carro e isso mudava muito as coisas.

Depois do teatro, sentiu fome e resolveu cear em um bom restaurante. Aquela noite teria que ser completa. Ele não estava à vontade em um lugar de luxo, porém, naquela noite, sentiu-se muito bem, observando a atenção do maître, a gentileza dos garçons, a beleza do lugar.

Pediu um aperitivo, encomendou o jantar, provou o vinho. Estava deliciando-se com a comida e com o piano que tocava suavemente, quando o garçom aproximou-se respeitoso.

— Senhor, aquele cavalheiro convida-o a jantar com eles.

Admirado, Sérgio voltou-se e não conteve um gesto de surpresa. Sentado alguns metros atrás, estava Flávio, em companhia de duas moças. Uma delas era Flora. O que significaria aquilo? Pensou em recusar, mas sentiu-se envaidecido. Era uma oportunidade para mostrara Flora e a Flávio, ao mesmo tempo, que ele não era o provinciano fracassado que eles julgavam.

Sorriu cortesmente. O garçom continuou:

— Ele disse que lhe daria muito prazer.

— Foi ele quem convidou?

— Sim, senhor.

— Muito bem. Aceito.

Sérgio levantou-se e dirigiu-se à mesa deles, cumprimentando-os.

— Que prazer vê-lo aqui! Venha fazer-nos companhia! — disse Flávio com um sorriso. — Esta é Flora, e esta é Arlete, minha prima.

Sérgio curvou-se, estendendo a mão para Flora.

— Como vai, Flora?

— Bem... — respondeu ela.

Sérgio percebeu que ela estava contrariada. Sentiu-se alegre com isso. Estendeu a mão para Arlete, dizendo com um sorriso:

— É um prazer conhecê-la.

O garçom já mudara o jantar de Sérgio e este sentou-se calmamente entre as duas moças. Olhando Flora com naturalidade, disse:

— Está tudo bem com você?

— Tudo ótimo.

— Vocês já se conheciam? — indagou Flávio, admirado.

— Já.

— Velhos amigos... — disse Flávio.



— É, eu diria velhos conhecidos — respondeu ela tentando dissimular o desagrado.

— Não sabia que você conhecia o Dr. Flávio. Ele é o novo diretor da nossa empresa.

— Nada de doutor, por favor — disse ele. — Não há necessidade de formalidades. Na verdade, estamos a nos conhecer hoje. Ela é colega de faculdade de Arlete.

— Ah! Você estuda advocacia também?

— Não. Eu estudo letras. Estou no último ano.

Ela sorriu. Era muito diferente de Flora. Seu rosto moreno e delicado, levemente corado, a pele muito bonita, olhos grandes e castanhos, seus cabelos escuros e levemente ondulados, davam-lhe um ar de menina.

— Não é muito cedo para estar no fim do curso? Com que idade começou a estudar? — indagou Sérgio.

Ela meneou a cabeça negativamente e sorriu. Tinha delicadas covinhas quando sorria e um brilho malicioso nos olhos ao responder:

— Quantos anos pensa que eu tenho?

— Não sei... talvez uns dezessete.

Tenho vinte e três.

— Arlete não aparenta a idade que tem. Aliás, é uma característica da nossa família. O pai dela parece mais irmão dos filhos do que pai — esclareceu Flávio.

A conversa prosseguiu agradavelmente. Flávio era delicado e falava pouco, Flora estudava um jeito de agradá-lo e Sérgio pensou:

— Ela preparou tudo, pretende dar o golpe do baú. Está furiosa porque eu apareci. Vai dar com os burros n´água. Flávio não vai interessar-se por ela.

Ele estava adorando o jantar. Arlete era bonita e graciosa. Amável e delicada. Não parecia ser de família tão importante. Para provocar Flora, Sérgio resolveu redobrar as amabilidades com Arlete. O que ela, Flora, estaria pensando, vendo-o tão bem vestido e freqüentando restaurante de luxo? Estaria arrependida de haver terminado o namoro? Haveria de arrepender-se muito mais, a interesseira.

Terminado o jantar, Flávio não permitiu de forma alguma que ele pagasse.

— Absolutamente. Está tudo pago. Eu tenho conta neste restaurante.

Sérgio agradeceu. Aquele era seu dia de sorte. Uma noite mágica que ele não queria ver terminar. Por isso, quando Flávio sugeriu irem a outro lugar, ele concordou deliciado.

— Está uma noite muito agradável — disse ele. — Poderíamos ir a uma boate.

— Está bem — disse Sérgio.

— Eu adoraria! — disse Arlete.

— Eu sei. Por isso estou convidando.

— Com você, papai deixa — continuou ela, sorrindo. Uma vez na boate, Sérgio sentia-se deslumbrado. Tantas coisas bonitas, muitas flores, gente bem vestida, música agradável, e ele, pela primeira vez em sua vida, sentia-se à vontade num lugar fino como esse. Havia bebido um pouco de vinho, sentia-se bem-disposto e alegre. Naquela noite, tudo lhe parecia natural e ele tinha vontade de cantar.

Convidou Arlete para dançar e logo estavam circulando pelo salão. Arlete era leve e dançava deliciosamente bem. Abraçando seu corpo delicado e bem torneado, Sérgio sentia-se como se fosse o astro de um filme americano. Um musical onde ele fosse o primeiro dançarino. Não é que ele gostava de dançar? Nunca imaginara isso antes.

Os dois continuaram dançando animadamente. Não paravam. Era rumba, bolero, samba, foxtrote, tudo. Até tango Sérgio animou-se a dançar. Flávio era mais comedido. Dançara algumas vezes com Flora, e Sérgio de vez em quando percebia o olhar dela fuzilando sobre ele. Quanto mais percebia que ela estava com raiva, mais feliz ele ficava. Estava saboreando a vingança.

Quando eles se sentaram à mesa, corados e alegres, Flávio considerou:

— Parece que Arlete encontrou um parceiro ideal. Eu não consigo acompanhá-la. Ela nunca se cansa.

— É tão raro eu poder vir a uma boate e, principalmente, que encontre alguém capaz de dançar divinamente como Sérgio, que quero aproveitar. Para dizer a verdade, estou muito feliz e gostaria que esta noite nunca acabasse.

Sérgio olhou-a com olhos brilhantes e respondeu:

— Pois eu também. Esta noite quero esquecer que sou um simples mortal e que o dia vai amanhecer.

— Nunca pensei que você apreciasse a dança — disse Flora admirada. — Nunca o vi dançar. Pensei que não soubesse dar um passo.

Havia ressentimento na voz dela e Sérgio respondeu:

— Depende da companhia e do lugar. Esta noite, encontrei uma parceira ideal. Ela dança divinamente. Parece uma pluma.

— Isso é verdade. Arlete, desde pequenina, sempre dançou muito bem e tem muito senso musical. Toca piano maravilhosamente, canta bem e se tio Antônio houvesse permitido ela teria se dedicado à vida artística.

Flora lutava para encobrir o desapontamento. Ela é que queria brilhar, ser a primeira em tudo, ter as atenções. Aquela menininha rica e sem graça, filhinha de papai, estava roubando-lhe o lugar. Os dois pareciam derreter-se diante dela.

— Está ficando tarde — disse. — Está na hora de irmos embora.

Arlete olhou para Flávio com ar suplicante.

— Não ainda, por favor. Está tão bom aqui!

— De fato, já é tarde — considerou ele consultando ligeiramente o relógio. — Fiquemos mais meia hora.

— Venha, Sérgio — disse Arlete levantando-se e puxando-o pela mão. — Não podemos perder tempo.

Logo os dois estavam circulando animadamente pela pista de danças.

— Não pensei que Arlete fosse tão animada! — tornou Flora.

— Na faculdade ela é sempre discreta.

— Ela é sempre discreta em tudo. Mas quando se trata de música, dança, ela muda. Parece que com o Sérgio acontece o mesmo. Nunca pensei que ele fosse tão extrovertido. No escritório é sempre muito discreto. Você o conhece há muito tempo?

— Quase um ano. Para dizer a verdade, se quer saber, ele foi apaixonado por mim. Chegamos a um namorinho sem importância. Eu não quis continuar.

Flávio olhava-a imperturbável. Ela continuou:

— Na verdade, ele sempre me pareceu, como direi... um tanto antiquado, é de família pobre, veio do interior, seus pais são lavradores. Pretendia fazer carreira, estudar, mas nunca conseguiu. Não sei se por falta de sorte ou de capacidade.

— Ele é um dos melhores funcionários da nossa empresa — disse Flávio com naturalidade.

Flora mordeu os lábios. Não esperava essa resposta.

— Claro. Trabalha lá há vários anos. Certamente.

— E você, o que espera fazer quando se formar? Os olhos dela brilharam de satisfação.

— Termino este ano e estou montando meu próprio escritório. Naturalmente, junto com um advogado famoso para que eu possa começar uma carreira bem assessorada. Sabe como é, eu tenho a certeza de que serei uma excelente profissional; contudo, uma mulher, e ainda mais recém-formada, não vai inspirar confiança aos clientes. Eles preferem entregar suas causas aos advogados experientes.

Eles continuaram conversando. Flora contando seus projetos, ele ouvindo calmamente.

Quando finalmente saíram da boate, Flávio ia levar as moças para casa e Sérgio não permitiu que ele o levasse. Não gostaria que eles vissem o lugar modesto onde residia.

— Absolutamente. Vou tomar um táxi. Você já fez demais por mim esta noite. Além de não me deixar pagar a conta.

Despediram-se, e quando chegou em casa Sérgio olhou em volta e o contraste de seu apartamento pobre e modesto o incomodou. Mas ele fechou os olhos. Não queria pensar. Não queria que aquela noite maravilhosa acabasse. Sentia-se feliz e realizado.

O dia estava amanhecendo quando ele se deitou e finalmente adormeceu.

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