Centro de humanidades



Baixar 28.68 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho28.68 Kb.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

REPRESENTAÇÕES

Anderson Weskley dos Santos Sabóia

José Maria de Almeida Neto

José Nilo Bezerra Diniz

Leonardo Ibipina Beviláqua

Lucas dos Santos Nogueira

Setembro/2011

Representação
Uma análise do conceito de representação nos leva a uma gama de possibilidades dada sua polissemia, de modo que sua apropriação pode ser feita por estudiosos de várias disciplinas, entre elas a história, onde os usos do termo podem ser readequados de maneira a expressar um daqueles muitos sentidos.

Sua análise pode ser apreendida pela história social de forma diacrônica, observando para o termo seus diferentes significados ao longo do tempo e as rupturas e permanências subjacentes ao próprio conceito, no intuito de compreender seus significados contemporâneos. Como afirma Koselleck, “é apenas por meio da perspectiva diacrônica que se pode avaliar a duração e o impacto de um conceito social ou político, assim como das suas respectivas estruturas” (KOSELLECK, 2006: 105).

Buscaremos, então, perceber os sentidos do conceito de representação para a disciplina histórica, mesmo que este tenha outros significados e apropriações em outras disciplinas, como a psicologia.1 Para tanto, investigaremos os usos do termo, fundamentalmente, nos trabalhos de Roger Chartier, Peter Burke e Carlo Ginzburg, percebendo o caminho percorrido por cada um e que metodologias foram empregadas na apreensão do conceito.

Em seu livro A história cultural: entre práticas e representações – organização de oito ensaios publicados entre 1982 e 1986 – Chartier tece críticas acerca da história cultural francesa praticada nos anos 60 e 70, conhecida em suas duas vertentes, história das mentalidades e história serial, ao mesmo tempo em que apresenta suas análises sobre o modo pelo qual essas desembocaram na chamada nova história cultural. Seu estudo consiste em investigar as práticas de leitura camponesas na França do século XVIII, bem como a maneira pela qual esses leitores eram representados por outros indivíduos, que por sua vez possuíam fortes pontos em comum (CHARTIER, 2002: 143).

Nesse sentido, o autor lança mão de três conceitos-chaves em suas reflexões: a primeira é a apropriação. Tomada de empréstimo de Michel de Certeau, ela está relacionada à noção de “consumo produtivo” que substitui as teorias da recepção;2 a segunda é a prática, pensada a partir das representações que a compõe; por fim, o conceito de representação, que segundo o autor seria a “pedra angular” da história cultural. É sobre esse último conceito que trabalharemos a partir de agora.

O estudo das representações, segundo Chartier, é fundamental ao conhecimento histórico se pensado como um campo de “concorrências e de competições” entre diversos grupos sociais que tentam legitimar seus projetos, suas escolhas, seu indivíduos. Assim entendidas,


as lutas de representações têm tanta importância como as lutas económicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio (CHARTIER, 2002: 17).
Grande estudioso do Antigo Regime, Chartier busca perceber o conceito de representação inscrito nesse período. Inicialmente demonstra que a noção não era estranha a essa sociedade ao apresentar seu duplo significado segundo o Dicionário Universal de 1690 de Furetière:
[...] por um lado, a representação como dando a ver uma coisa ausente, o que supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado; por outro, a representação como exibição de uma presença, como apresentação de pública de algo ou de alguém (OP. CIT.:20).
Assim, no primeiro significado, a representação é “um instrumento de conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente através da sua substituição imediata”. Para exemplificar isso, o autor faz uso das análises de Ernst Kantorowicz acerca dos dois corpos do rei. Bonecos de madeira, de couro ou de cera, apelidados não por acaso de “representações”, eram depositados nos féretros durante os funerais dos soberanos ingleses e franceses. Sua função era simbolizar a “dignidade imortal perpetuada na pessoa mortal do rei”.

Nesta linha de raciocínio, o historiador britânico Peter Burke adverte que não se pode desconsiderar a importância do uso de símbolos ou de imagens como representações como elementos de interferências no ambiente sócio-cultural. Para isso, ele introduz a ideia de fabricação para o entendimento da construção da imagem do rei Luís XIV. Cabe ressaltar que esse termo não deve ser entendido no sentido de que o monarca francês não participa ou é passivo no contexto de formação da sua imagem. Ao contrário, ele – juntamente com suas atitudes – é um dos elementos nesse processo de fabricação. Burke explica que, na França do Antigo Regime, toda uma estrutura era mantida para que os súditos respeitassem não só o rei, mas tudo aquilo que o representasse. O historiador afirma que “as representações de Luís eram encomendadas para aumentar sua glória.” Nesse sentido, a “propaganda” do rei era uma tentativa de moldar e persuadir a “opinião pública”.3 (BURKE, 1994: 16)

Direcionando a análise para o primeiro entendimento que Chartier dá ao termo, Burke explicita a existência de imagens, do nome e das referências a Luís XIV em moedas, quadros, documentos ou cargos de modo que o respeito dos súditos extrapolasse a presença física do monarca. Por exemplo, na França era uma ofensa grave dar as costas a uma gravura do rei. Assim como embaixadores, governadores de províncias e magistrados participavam de eventos e solenidades como representantes de Luís. Desta forma entendido, o termo significava “tomar o lugar de alguém”.

Um estudo de caso interessante é o que o próprio Roger Chartier faz sobre a dessacralização do rei como fator importante para o entendimento das origens Revolução Francesa. Longe de querer resumir o processo a uma só causa de um só âmbito – econômico, social, cultural, político etc. –, Chartier procura ver alguns dos aspectos culturais da França do século XVIII que expliquem por que os franceses foram responsáveis por uma ruptura tão intensa. Uma dos pontos abordados pelo historiador francês é a questão da dessacralização do rei, que está diretamente relacionada às suas representações. Para ele, alterações nos rituais funerários dos monarcas franceses, juntamente com o constante distanciamento do público com o processo cerimonial foram responsáveis pela alteração na forma com que os súditos viam seu rei. Ou seja, a interpretação do autor é de que as mudanças das formas de representações causaram alterações nos modos de apreensão do poder real, o que ocasionou a diminuição da crença no caráter sagrado dos reis que, por sua vez, gerou a possibilidade de se questionar o próprio monarca. A partir disso, percebe-se que as representações, entendidas desta forma, alteram, influenciam e limitam os meios de ação sociais.

Por outro lado, Burke se apropria do conceito da forma como o sociólogo Erving Goffman o faz, qual seja, no que o associa a ideia de representação teatral. Esse autor, reflete sobre as formas que os indivíduos agem em sociedade de maneira diferenciada de acordo com o ambiente que freqüenta. Ou seja, para ele, vivemos, nas diversas esferas de nossas vidas, diferentes situações, em contato com diferentes pessoas e, a cada momento, precisamos nos adequar a essas ocasiões. Desta forma, Burke se apropria disso para perceber como há relatos de que o próprio Luís XIV, quando surpreendido pela entrada de alguém em determinado local, mudava suas feições e postura de modo a parecer mais imponente, menos descontraído.

É a partir destes entendimentos que Peter Burke sugere o termo fabricação, pois entende que Luís XIV, juntamente com seus secretários, embaixadores etc. construíram, fabricaram, sua imagem perante os súditos.

O segundo sentido do termo consiste, segundo o dicionário de Furetière, na “representação segundo um pouco de moral através das imagens ou das propriedades das coisas naturais”. Nesse último caso é estabelecida uma relação entre “signo visível e o referente por ele significado”. Não obstante, no Antigo Regime, a diferenciação entre significado e significante é distorcida pelos modos de teatralização da vida social que buscam fazer da representação do ser sua própria identidade. A partir de sua leitura de Nobert Elias, Chartier escreve um capítulo mostrando como a representação é importante na sociedade de corte, na medida em que relaciona a posição que cada indivíduo ocupa com as representações que este cria de si próprio e os créditos que lhe são atribuídos pelos outros indivíduos (op.cit.: 22, 111-112).

Carlo Ginzburg em “Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância” dedica o terceiro capítulo ao estudo da representação. A partir da definição de Furetière e do seu exemplo acerca do uso de manequins de madeira, couro e cera nos funerais reais franceses e ingleses, Ginzburg realiza um estudo transcultural entre práticas largamente separadas no espaço e no tempo, com intuito de perceber tanto os pontos de contatos entre os ritos, quanto suas especificidades. Seu procedimento foi procurar pontos de convergência entre as representações inglesas e francesas da Idade Média tardia, a consecratio4 em Roma e o kolossoí5 grego.

Carlo Ginzburg embora considere muitas semelhanças nos modos de cada ritual, considera que as motivações subjacentes a cada atividade são plurais. Assim, o autor percebe que no caso romano o emprego do boneco ocorria porque o espaço da cidade não podia ser conspurcado pelos corpos dos mortos, o que era solucionado com a presença de um segundo corpo, permanente e sagrado. O caso grego é marcado por uma cisão profunda com o nosso pensamento, pois a imagem tinha a função de criar uma conexão real com o além, “de realizar sua presença aqui” (GINZBURG, 2001: 102). Por fim, a efígie do rei significava o símbolo concreto da abstração do Estado, tal como a presença “concreta, corpórea de Cristo no sacramento”.

Em conclusão, podemos sintetizar que as conceituações apresentadas pelos diversos autores trabalhados indicam que as representações se diferem do real e que essa diferença parte de tentativas de limitação das interpretações possíveis. Ou seja, nos livros, nas imagens, nos modos de portar-se perante os outros etc. podemos identificar que há sentidos para o qual essas representações apontam de modo a impor uma apreensão do real. Por outro lado, é consenso também que as representações são apropriadas de diferentes formas pelos diversos agentes sociais. Sendo assim, as tentativas de limitação das interpretações podem sofrer desvios que causarão entendimentos diversos daqueles desejados pelos que desenvolvem as representações. Além disso, de todo modo, o estudo das representações é importante na medida em que, apesar delas diferirem da realidade, produzem diferentes práticas sociais.


REFERÊNCIAS
- BURKE, Peter. Apresentação a Luís XIV. In: ­______. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

- CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 13° edição. Petrópolis: Vozes, 2007.

- CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. 2ª ed. Lisboa: DIFEL, 2002.

-______. Um rei dessacralizado. In: ______. Origens culturais da Revolução Francesa. São Paulo: UNESP, 2009.

- GINZBURG, Carlo. Representação: a palavra, a idéia, a coisa. In: ______. Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

- GOFFMAN, Erving. Introdução. In: ______. A representação do Eu na vida cotidiana. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.



KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC- Rio, 2006.

1 Referimos-nos aqui a noção da psicologia social que entende a representação como o modo de ver o mundo que cada indivíduo possui, capaz de produzir sua própria visão do real. SCHIMIDT, Maria Auxiliadora (org.). A construção de conceitos históricos. In: Ensinar História. 2006, p.62.

2 Nessa ótica, a leitura é pensada como uma “prática criadora”, capaz de sentidos e significações e, por tanto, não pode ser uma relação imediata entre texto e leitor, entre o que é produzido e o horizonte de expectativa dos consumidores. Ver CERTEAU, 2007. Sobretudo o sétimo capítulo, intitulado “Ler: uma operação de caça”.

3 Ressalta-se aqui que os termos “propaganda” e “opinião pública” não existiam no período, sendo formas modernas de explicar o objeto de estudo.

4 As cerimônias que seguiram a morte o imperador romano Sétimo Severo indicam as semelhanças entre a consecratio e os funerais reais ingleses e franceses entre os séculos XIV e XVII. O corpo de Severo foi substituído por um boneco de cera que, deitado em uma cama por sete dias, foi visitado por médicos que atestavam o agravamento do estado de saúde do boneco.

5 Kolossoí eram fantoches de madeira ou argila, de sexo masculino ou feminino, usados para evocar a proteção dos mortos quando a pessoa acolhia em sua casa um suplicante estrangeiro.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal