Centro espírita nosso lar grupo de estudo das obras de andré luiz e manoel philomeno de miranda



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CENTRO ESPÍRITA NOSSO LAR
GRUPO DE ESTUDO DAS OBRAS DE ANDRÉ LUIZ E
MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA
13º LIVRO - AÇÃO E REAÇÃO
ANDRÉ LUIZ - 1957 - 8 REUNIÕES.
1a REUNIÃO
(Fonte: prefácio e capítulos 1 a 3.)
1. Justiça Divina - Emmanuel nos diz que este livro des­vela uma nesga das regiões inferiores a que se projeta a consciência culpada, além do corpo físico, mostrando a importância da existência carnal, como verdadeiro favor da Divina Misericórdia, a fim de que nos adapte­mos ao mecanismo da Justiça Indefectível. Asseverando que o in­ferno exterior nada mais é que o reflexo de nós mesmos, quando, pelo relaxa­mento e pela crueldade, nos entregamos à prática de ações depri­mentes, Emmanuel observa que, segundo o eminente criminalista Von Liszt, o Es­tado, em sua expressão de organismo superior, não prescinde da pena, a fim de sustentar a ordem jurídica. "A necessidade da con­servação do próprio Estado justifica a pena", assevera Von Liszt. André Luiz faz-nos sentir, contudo, que o Espiritismo revela uma concepção de justiça ainda mais ampla. A criatura não se encontra su­bordinada simplesmente ao critério dos penalogistas do mundo: quanto mais esclare­cida, tanto mais responsável e entregue aos arestos da própria cons­ciência, na Ter­ra ou fora dela, toda vez que se envolve nos espi­nheiros da culpa. André mostra, assim, que os princípios codificados por Allan Kardec abrem uma nova era para o Espírito humano, compe­lindo-o à auscultação de si mesmo, no reajuste dos caminhos traçados por Jesus ao verdadeiro progresso da alma, e explica que o Espiri­tismo, por isso mesmo, é o disciplinador de nossa liberdade, não ape­nas para que tenhamos na Ter­ra uma vida social dignificante, mas tam­bém para que mantenhamos, no campo do espírito, uma vida individual harmoniosa, devidamente ajus­tada aos impositivos da Vida Universal Perfeita. Em síntese, ele de­monstra-nos que as nossas possibilidades de hoje nos vinculam às som­bras de ontem, exigindo-nos trabalho infa­tigável no bem, para a cons­trução do Amanhã, sobre as bases redentoras do Cristo. ("Ante o Cente­nário", pp. 9 a 11)
2. "Mansão Paz" - Todas as civilizações que antecederam a glória ocidental nos tempos modernos consagraram especial atenção aos problemas de além-túmulo. O Egito mantinha incessante intercâmbio com os trespassados e ensinava que os mortos sofriam rigoroso julgamento entre Anúbis, o gênio com a cabeça de chacal, e Hórus, o gênio com cabeça de gavião, diante de Maât, a deusa da justiça, que decidia se as almas deveriam ascender ao esplendor solar ou voltar aos labirintos da provação na Terra, em corpos deformados e vis. Os hindus admitiam que os desencarnados, conforme as resoluções do Juiz dos Mortos, subiriam ao Paraíso ou desceriam aos precipícios do reino de Varuna, o gênio das águas, para serem insulados em câmaras de tortura, amarrados uns aos outros por serpentes infernais. Hebreus, gregos, gauleses e romanos sustentavam crenças mais ou menos semelhantes, convictos de que a elevação celeste era reservada aos Espíritos retos e bons, puros e nobres, guardando-se os tormentos do inferno para quantos se rebaixavam na perversidade e no crime, nas regiões de suplício, fora do mundo ou no próprio mundo, através da reencarnação em formas envilecidas pela expiação e pelo sofrimento. Essas palavras, ditas por Druso, diretor da "Mansão Paz", encantavam André Luiz e Hilário, que ali estavam em visita. O estabelecimento, localizado nas regiões inferiores, era uma espécie de mosteiro São Bernardo, com a diferença de que, em lugar da neve, circundava-o uma sombra espessa. Vinculado à colônia "Nosso Lar", o pouso fora fundado havia mais de três séculos e se dedicava a receber Espíritos infelizes ou enfermos, decididos a trabalhar pela própria regeneração, elevando-se uns a colônias de aprimoramento na Vida Superior, e retornando outros à esfera dos homens para a reencarnação retificadora. (Capítulo 1, pp. 13 e 14)
3. A tempestade - O casario enorme que forma a "Mansão Paz", se­melhante a vasta cidadela instalada com todos os recursos de segurança e defesa, mantém setores de assistência e cursos de instrução, nos quais médicos e sacerdotes, enfermeiros e professores encontram, de­pois da morte terrestre, aprendizados e quefazeres da mais elevada im­portância. A Terra é para nós -- asseverou Druso -- "valiosa arena de serviço espiritual, assim como um filtro em que a alma se purifica, pouco a pouco, no curso dos milênios, acendrando qualidades divinas para a ascensão à glória celeste". "Por isso, há que sustentar a luz do amor e do conhecimento, no seio das trevas, como é necessário man­ter o remédio no foco da enfermidade." Nesse momento, André reparava, através do material transparente de larga janela, a convulsão da Natu­reza. Uma ventania ululante, carreando consigo uma substância escura, semelhante à lama aeriforme, remoinhava com violência, à maneira de treva encachoeirada, e do corpo monstruoso daquele turbilhão terrível surdiam rostos humanos em esgares de horror, vociferando maldições e gemidos. Apareciam de relance, jungidos uns aos outros como vastas cor­rentes de criaturas agarradas entre si, em hora de perigo, na ânsia instintiva de dominar e sobreviver. Hilário indagou, então, ao diretor do abrigo: "Por que não descerrar as portas aos que gritam lá fora? Não é este um posto de salvação?" Sensibilizado, Druso respondeu-lhe: "Sim, mas a salvação só é realmente importante para aqueles que dese­jam salvar-se". E prosseguiu: "Para cá do túmulo, a surpresa para mim mais dolorosa foi essa, o encontro com feras humanas, que habitavam o templo da carne, à feição de pessoas comuns. Se acolhidas aqui, sem a necessária preparação, atacar-nos-iam de pronto, arrasando-nos o ins­tituto de assistência pacífica. E não podemos esquecer que a ordem é a base da caridade". Logo após, o Instrutor aduziu: "Somos hoje defron­tados por grande tempestade magnética, e muitos caminheiros das re­giões inferiores são arrebatados pelo furacão como folhas secas no vendaval". Druso explicou então que raros deles guardavam consciência desse fato, porque as criaturas que se mantêm assim desabrigadas, de­pois do túmulo, são aquelas que não se acomodam com o refúgio moral de qualquer princípio nobre. (Capítulo 1, pp. 14 a 16)
4. Espíritos culpados - Aqueles Espíritos traziam o íntimo tur­bilhonado e tenebroso, qual a própria tormenta, em razão dos pensamen­tos desgovernados e cruéis de que se nutriam. "Odeiam e aniquilam, mordem e ferem", informou o diretor. Alojá-los ali seria o mesmo que asilar tigres desarvorados entre fiéis a orar num templo. Felizmente, essa fase de desvario passa com o tempo, eis que a alma, batida pelo temporal das provações, refunde-se pouco a pouco, tranqüilizando-se para abraçar, por fim, as responsabilidades que criou para si mesma. André Luiz estava intrigado. "Quer dizer, então -- disse ele --, que não basta a romagem de purgação do Espírito depois da morte, nos luga­res de treva e padecimento, para que os débitos da consciência sejam ressarcidos..." O Instrutor foi taxativo: "Perfeitamente, o desespero vale por demência a que as almas se atiram nas explosões de inconti­nência e revolta. Não serve como pagamento nos tribunais divinos". "Cessada a febre de loucura e rebelião, o Espírito culpado volve ao remorso e à penitência. Acalma-se como a terra que torna à serenidade e à paciência, depois de insultada pelo terremoto, não obstante amar­fanhada e ferida. Então, como o solo que regressa ao serviço da plan­tação proveitosa, submete-se de novo à sementeira renovadora dos seus destinos." Druso lembrou, então, que a existência humana, por mais longa, é simples aprendizado em que o Espírito reclama benéficas res­trições para restaurar o seu caminho. Usando novo corpo entre os se­melhantes, deve ele atender à renovação que lhe diz respeito e isso exige a centralização de suas forças mentais na experiência terrena a que, transitoriamente, se afeiçoa. André estava curioso, e se pergun­tava mentalmente: "Que tipo de Espíritos sofriam a pressão daquela tormenta?" Druso percebeu sua dúvida e, de pronto, aclarou: "Obrigado a pacientes e laboriosas investigações, por força de meus deveres, posso adiantar-lhes que às densas trevas em torno somente aportam as consciências que se entenebreceram nos crimes deliberados, apagando a luz do equilíbrio em si mesmas". (Capítulo 1, pp. 16 a 18)
5. Regiões infernais - "Nestas regiões inferiores -- prosseguiu Druso -- não transi­tam as almas simples, em qualquer aflição purga­tiva, situadas que se encontram nos erros naturais das experiências primárias. Cada ser está jungido, por impositivos da atração magné­tica, ao círculo de evo­lução que lhe é próprio. Os selvagens, em grande maioria, até que se lhes desenvolva o mundo mental, vivem quase sempre confinados à floresta que lhes resume os interesses e os so­nhos, retirando-se vagarosamente do seu campo tribal, sob a direção dos Espíritos benevolentes e sábios que os assistem..." Nas zonas in­fernais propriamente ditas residem apenas os que, conhecendo suas res­ponsabilidades morais, delas se ausentaram, deliberadamente. O inferno pode ser definido, pois, como vasto campo de desequilíbrio, estabele­cido pela maldade calculada, nascido da cegueira voluntária e da per­versidade completa. Estando em conexão com a Humanidade terrestre, de vez que todos os padecimentos infernais são criações dela mesma, esses lugares funcionam como crivos necessários para todos os Espíritos que escorregam nas deserções de ordem geral e menosprezam as responsabili­dades que o Senhor lhes outorga. Os gênios infernais que supõem gover­nar a região, com poder infalível, ali vivem por tempo indeterminado; as criaturas perversas que com eles se afinam, embora lhes padeçam a dominação, prendem-se ali por largos anos, e as almas transviadas na delinqüência e no vício, com possibilidades de próxima recuperação, ali permanecem em estágios ligeiros ou regulares, aprendendo que o preço das paixões é demasiado terrível. Druso concluiu, então: "Segundo é fácil reconhecer, se a treva é a moldura que imprime desta­que à luz, o inferno, como região de sofrimento e desarmonia, é per­feitamente cabível, representando um estabelecimento justo de filtra­gem do Espírito, a caminho da Vida Superior. Todos os lugares infer­nais surgem, vivem e desaparecem com a aprovação do Senhor, que tolera semelhantes criações das almas humanas, como um pai que suporta as chagas adquiridas pelos seus filhos e que se vale delas para ajudá-los a valorizar a saúde". (Capítulo 1, pp. 18 a 21.)
6. Estamos ligados às nossas obras - A expressiva assembléia que lotava o recinto era, em grande parte, desagradável e triste. O número de enfermos perfazia, aproximadamente, duas centenas, sendo que mais de dois terços apresentavam deformidades fisionômicas. A quase com­pleta quietude reinante no ambiente, apesar da tempestade que rugia lá fora, devia-se ao fato de estarem os enfermos localizados em um salão interior da cidadela, revestido exteriormente de abafadores de som. Druso pediu a um dos enfermos que proferisse a oração de início e, em seguida, como se estivesse conversando numa roda de amigos, falou com naturalidade: "Irmãos, continuemos hoje em nosso comentário acerca do bom ânimo. Não me creiam separado de vocês por virtudes que não pos­suo. A palavra fácil e bem posta é, muita vez, dever espinhoso em nossa boca, constrangendo-nos à reflexão e à disciplina. Também sou aqui um companheiro à espera da volta. A prisão redentora da carne acena-nos ao regresso". O Instrutor falou-lhes então da idéia errônea que as pessoas fazem da morte, julgando que esta seja ponto final dos nossos problemas, enquanto muitos se acreditam privilegiados da Infi­nita Bondade, por haverem abraçado atitudes de superfície, nos templos religiosos. "A viagem do sepulcro, no entanto, ensinou-nos uma lição grande e nova -- a de que nos achamos indissoluvelmente ligados às nossas próprias obras", acentuou Druso. "Nossos atos tecem asas de li­bertação ou algemas de cativeiro, para a nossa vitória ou nossa perda. A ninguém devemos o destino senão a nós próprios." (Capítulo 2, pp. 23 a 25)
7. O pretérito fala em nós, exigente - Continuando, o Instrutor falou sobre a sabedoria e a bondade do Pai Celeste, cuja justiça "não se revela sem amor". "Se somos vítimas de nós mesmos -- disse Druso -- somos igualmente beneficiários da Tolerância Divina, que nos desce­rra os santuários da vida para que saibamos expiar e solver, restaurar e ressarcir. Na retaguarda, aniquilávamos o tempo, instilando nos ou­tros sentimentos e pensamentos que não desejávamos para nós, quando não es­tabelecíamos pela crueldade e pelo orgulho vasta sementeira de ódio e perseguição." A desarmonia e o sofrimento resultam, pois, de semelhan­tes atitudes: "O pretérito fala em nós com gritos de credor exigente, amontoando sobre as nossas cabeças os frutos amargos da plantação que fizemos... Daí os desajustes e enfer­midades que nos assaltam a mente, desarticulando-nos os veículos de manifestação". Druso lembrou-lhes, então, que as ligações com a reta­guarda continuam vivas e que laços de afetividade mal dirigida e ca­deias de aversão os aprisionavam, ainda, a companheiros encarnados e desencarnados, muitos deles em desequilí­brios mais graves e constrin­gentes... Sua mensagem era de ânimo: "Achamo-nos imbuídos do sonho de renovação e paz, aspirando à imersão na Vida Superior, en­tretanto, quem poderia adquirir respeitabilidade sem quitar-se com a Lei?" "Ninguém avança para a frente sem pagar as dívidas que contraiu." Após breve pausa, e indicando com um gesto a torturante paisagem exte­rior, Druso prosseguiu em tom comovente: "Em derredor do nosso pouso de trabalho e esperança, alongam-se flagelos infernais... Quantas al­mas petrificadas na rebelião e na indisciplina aí se desmandam no aviltamento de si mesmas?" Lembrou, porém, que a Lei Divina funciona com igualdade para todos. E' por isso que nossa consciência reflete a treva ou a luz de nossas criações individuais. A luz, aclarando-nos a visão, descortina-nos a estrada. A treva, ence­guecendo-nos, agrilhoa-nos ao cárcere de nossos erros. O Espírito em harmonia com a Vontade Divina descortina o horizonte e caminha, para diante; no entanto, aquele que abusa da vontade e da razão, quebrando a corrente das bên­çãos divinas, modela a sombra em torno de si mesmo, insulando-se em pesadelos aflitivos, incapaz de seguir à frente. A re­encarnação, como recomeço de aprendizado, é-nos, pois, concessão da Bondade Excelsa que nos cabe aproveitar, no resgate imprescindível. (Capítulo 2, pp. 25 e 26)
8. A porta de saída do inferno - Druso mostrava com suas palavras que, dispondo de novas oportunidades de trabalho no campo físico, é possível refazer o destino, "solvendo obscuros compromissos e, sobre­tudo, promovendo novas sementeiras de afeição e dignidade, esclareci­mento e ascensão". De volta à carne -- explicou ele --, teremos a fe­licidade de reencontrar velhos inimigos, sob o véu de temporário es­quecimento, o que nos facilitará a reaproximação preciosa. Dependerá, desse modo, apenas de nós mesmos convertê-los em amigos e companhei­ros, de vez que, padecendo-lhes a incompreensão e a antipatia, com hu­mildade e amor sublimaremos nossos sentimentos e pensamentos, plas­mando novos valores de vida eterna em nossas almas. A assembléia escu­tava o Instrutor, suspensa nas flamas de elevada meditação. Alguns dos enfermos tinham lágrimas nos olhos, enquanto outros mostravam o sem­blante extático dos que se conservam entre o consolo e a esperança. Druso, então, continuou: "Somos Espíritos endividados, com a obrigação de dar tudo, em favor da nossa renovação. Comecemos a articular idéias redentoras e edificantes, desde agora, favorecendo a reconstrução do nosso futuro. Disponhamo-nos a desculpar os que nos ofenderam, com o sincero propósito de rogar perdão às nossas vítimas. Cultivando a ora­ção com serviço ao próximo, reconheçamos na dificuldade o gênio bom que nos auxilia, a desafiar-nos ao maior esforço. Reunindo todas as possibilidades ao nosso alcance, espalhemos, nas províncias de treva e dor que nos rodeiam, o socorro da prece e o concurso do braço frater­nal, preparando o regresso ao campo de luta -- o plano carnal --, em que o Senhor pela bênção de um corpo novo nos ajudará a esquecer o mal e replantar o bem. Para nós, herdeiros de longo passado culposo, a es­fera das formas físicas simboliza a porta de saída do inferno que criamos". Druso, que estampava na voz a inflexão de quem trazia uma dor imensamente sofrida, concluiu então a sua mensagem: "Supliquemos ao Senhor nos conceda forças para a vitória --, vitória que nascerá em nós para a grande compreensão. Somente assim, ao preço de sacrifício no reajuste, conseguiremos o passaporte libertador!..." (Capítulo 2, pp. 27 e 28)
9. Efeitos do amor mal conduzido - Tão logo Druso se calou, uma senhora triste dirigiu-se a ele em lágrimas: "Meu amigo, releve-me a intromissão. Quando partirei para o campo terrestre com meu filho? Tanto quanto posso, visito-o nas trevas... Não me vê, nem me escuta... Sem se dar conta da miséria moral a que se acolhe, continua autoritá­rio e orgulhoso... Paulo, no entanto, não é para mim um inimigo... é um filho inolvidável... Ah! como pode o amor contrair tamanho dé­bito?!..." O Instrutor, antes de dizer àquela senhora que em breve se daria o retorno de ambos ao cenário terrestre, para o necessário res­gate, ponderou-lhe que o amor é força divina que freqüentemente avil­tamos. Com ela temos inventado o ódio e o desequilíbrio, a crueldade e o remorso, que nos fixam indefinidamente nas sombras... "Quase sempre -- disse ele --, é mais pelo amor que nos enredamos em pungentes labi­rintos no tocante à Lei... amor mal interpretado... mal conduzido..." A pobrezinha se retirou com um sorriso de paciência e Druso confiden­ciou: "Nossa irmã possui excelentes qualidades morais, mas não soube orientar o sentimento materno para com o filho que jaz nas sombras. Instilou nele idéias de superioridade malsã, que se lhe cristalizaram na mente, favorecendo-lhe os acessos de rebeldia e brutalidade. Trans­formando-se em tiranete social, o infeliz foi fisgado, sem perceber, ao pântano tenebroso, em seguida à morte do corpo, e a desventurada genitora, sentindo-se responsável pela sementeira de enganos que lhe arruinou a vida, hoje se esforça por reavê-lo". E, respondendo uma pergunta de Hilário, informou: "Nossa irmã, que amoleceu a fibra da responsabilidade moral no excesso de reconforto, voltará à reencarna­ção em círculo paupérrimo, recebendo aí, quando novamente mulher jo­vem, então desprotegida, o filho que ela própria complicou nas antigas fantasias de mulher fútil e rica. Ser-lhe-á, na carência de recursos econômicos, a inspiradora de heroísmo e coragem, regenerando-lhe a vi­são da vida e purificando-lhe as energias na forja da dificuldade e do sofrimento". Se vencerem, eis a felicidade almejada. Se novamente se perderem, "regressarão em piores condições aos precipícios que nos circundam", acrescentou Druso. (Capítulo 2, pp. 28 a 30)
10. Esquecimento do passado - Logo depois, um velhinho cambale­ante aproximou-se dizendo: "Ah! meu Instrutor, estou cansado de tra­balhar nos tropeços daqui!... Há vinte anos carrego doentes loucos e revoltados para este asilo!... Quando terei meu corpo na Terra para descansar no esquecimento da carne, aos pés dos meus?" Druso afagou-lhe a cabeça e respondeu, comovido: "Não desfaleça, meu filho! Con­sole-se! Também nós, faz muitos anos, estamos presos a esta casa, por injunções de nosso dever. Sirvamos com alegria. O dia de nossa mudança será determinado pelo Senhor". O ancião calou-se. Um moço quis saber, então, por que não se lembrava de suas existências anteriores. O Ins­trutor respondeu: "Bem, os Espíritos que na vida física atendem aos seus deveres com exatidão, retomam pacificamente os domínios da memó­ria, tão logo se desenfaixam do corpo denso, reentrando em comunhão com os laços nobres e dignos que os aguardam na Vida Superior, para a continuidade do serviço de aperfeiçoamento e sublimação que lhes diz respeito; contudo, para nós, consciências intranqüilas, a morte no veículo carnal não exprime libertação. Perdemos o carro fisiológico, mas prosseguimos atados ao pelourinho invisível de nossas culpas; e a culpa, meu amigo, é sempre uma nesga de sombra eclipsando-nos a vi­são". "Nossas faculdades mnemônicas, relativamente às nossas quedas morais, assemelham-se, de certo modo, às conhecidas chapas fotográfi­cas, as quais, se não forem convenientemente protegidas, sempre se inutilizam." Após ligeira pausa, Druso continuou: "Imaginemos a mente como sendo um lago. Se as águas se acham pacificadas e límpidas, a luz do firmamento pode retratar-se nele com segurança. Mas, se as águas vivem revoltas, as imagens se perdem..." Se nosso pensamento vive preso aos sítios e paisagens da Crosta, identificando-se com as remi­niscências que permanecem ao longe -- o lar, a família, os compromis­sos mal resolvidos --, tudo isso representará lastro, inclinando a mente para o mundo físico... Indispensável, pois, libertar o espelho da mente que jaz sob a alma do arrependimento, do remorso e da culpa, "e esse espelho divino refletirá o Sol com todo o esplendor de sua pu­reza". (Capítulo 2, pp. 30 a 32)
11. Dificuldades à vista - A explicação de Druso foi interrompida com a chegada do Assistente Barreto, que, exibindo recôndita aflição a sombrear-lhe os olhos, avisou que, na Enfermaria Cinco, três dos ir­mãos recém-acolhidos entraram em crise de angústia e rebeldia... Druso determinou, de imediato: "Retire os enfermos normais e aplique na en­fermaria os raios de choque. Não dispomos de outro recurso". Tratava-se de um caso de loucura por telepatia alucinatória. Os recém-chegados não estavam, ainda, suficientemente fortes para resistir ao impacto das forças perversas que lhes eram desfechadas, a distância, por com­panheiros infelizes. Logo que Barreto saiu, outro servidor notificou: "Instrutor, a tela de aviso que não funcionava, em conseqüência da tormenta agora em declínio, acaba de transmitir aflitiva mensagem... Duas das nossas expedições de pesquisas estão em dificuldade nos des­filadeiros das Grandes Trevas..." Druso recomendou-lhe desse ciência do fato ao diretor de operações urgentes, para que o auxílio fosse en­viado o mais depressa possível. Chegou então, de modo inesperado, ou­tro colaborador, que pediu: "Instrutor, rogo-lhe providências na solu­ção do caso Jonas. Recolhemos agora um recado de nossos irmãos, cien­tificando-nos de que a reencarnação dele talvez seja frustrada em de­finitivo". O dirigente da Mansão, mostrando intensa preocupação no olhar, indagou: "Em que consiste o obstáculo?" "Cecina, a futura mãe­zinha -- informou o mensageiro --, sentindo-lhe os fluidos grosseiros, nega-se a recebê-lo. Estamos presenciando a quarta tentativa de aborto, no terceiro mês de gestação, e vimos fazendo o que é possível por mantê-la na dignidade maternal." O Instrutor, esclarecendo ser preciso que Jonas ficasse pelo menos sete anos no corpo físico, deter­minou que Cecina fosse trazida até a Mansão, tão logo se entregasse ao sono natural, para que a pudessem auxiliar com a necessária interven­ção magnética. (Capítulo 3, pp. 33 e 34)
12. Reencarnações expiatórias - André Luiz estava intrigado. Quem eram aqueles funcionários que se dirigiam assim ao Instrutor, com tan­tas consultas, quando os trabalhos da administração poderiam ser sub­divididos? O Assistente Silas, a quem André dirigiu suas dúvidas, in­formou que aqueles mensageiros não eram simples tarefeiros, mas condu­tores de serviço em subchefias determinadas, todos eles Assistentes e Assessores, cultos e dignos, com enormes responsabilidades, e que so­mente demandavam a presença de Druso, depois de movimentarem todas as providências cabíveis no âmbito de sua autoridade. O problema não era, pois, de centralização, mas de luta intensiva. Para explicar o caso da reencarnação de Jonas, que perigava, Silas falou-lhe: "Para que me faça compreendido, convém esclarecer que, se existem reencarnações li­gadas aos planos superiores, temos aquelas que se enraízam diretamente nos planos inferiores. Se a penitenciária vigora entre os homens, em função da criminalidade corrente no mundo, o inferno existe, na Espi­ritualidade, em função da culpa nas consciências. E assim como já po­demos contar na esfera carnal com uma justiça sinceramente interessada em auxiliar os delinqüentes na recuperação, através do livramento con­dicional e das prisões-escolas, organizadas pelas próprias autoridades que dirigem os tribunais humanos em nome das leis, aqui também os re­presentantes do Amor Divino podem mobilizar recursos de misericórdia, beneficiando Espíritos devedores, desde que se mostrem dignos do socor­ro que lhes abrevie o resgate e a regeneração". Há, assim, reen­carnações que valem como "preciosas oportunidades de libertação dos círculos tenebrosos". Como tais renascimentos na carne não possuem se­não característicos de trabalho expiatório, em muitas ocasiões são em­preendimentos planejados e executados ali mesmo, por benfeitores cre­denciados para agir e ajudar em nome do Senhor. Druso gozava, nesse sentido, de relativa competência, como autoridade intermediária, nos processos reencarnatórios. Duas vezes por semana, ele e seus Assisten­tes reuniam-se no Cenáculo da Mansão (templo íntimo da instituição) e os mensageiros da luz -- prepostos das Inteligências angélicas --, por instrumentos adequados, deliberavam quanto ao assunto, apreciando os processos que a Casa lhes apresentava. Silas, sorrindo, acrescen­tou: "Assim como o doente exige remédio, reclamamos a purgação espiri­tual, a fim de que nos habilitemos para a vida nas esferas superiores. O inferno para a alma que o erigiu em si mesma é aquilo que a forja constitui para o metal: ali ele se apura e se modela conveniente­mente..." (Capítulo 3, pp. 35 e 36)
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