Centro universitário ritter dos reis



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O papel exercido por Monteiro Lobato no quadro da Literatura Infantil nacional tem sido seguidamente reiterado, e com justiça. É com esse autor que se rompe o círculo da dependência aos padrões literários provindos da Europa, principalmente no que diz respeito ao aproveitamento da tradição folclórica. Valorizando a ambientação local predominante na época, ou seja, a pequena propriedade rural, Monteiro Lobato constrói uma realidade ficcional reincidente com a do leitor do seu tempo e inventa o Sítio do Picapau Amarelo.

Além disso, Monteiro Lobato, não apenas utiliza personagens nacionais, como cria uma mitologia autônoma que se repete em quase todas as narrativas, através da presença constante dos personagens de Pedrinho, Emília, Narizinho, Dona Benta, Tia Anastácia, Visconde. O emprego de crianças como heróis, é considerada uma das características que possibilita uma identificação imediata com o leitor.


Com relação aos personagens, outro fator que resultou em sucesso é o modo como ele resolve o lugar do adulto em seus textos. No mundo fictício do Sítio do Picapau Amarelo, microcosmo a partir do qual se desenvolvem os outros contextos ambientais de seus livros, num crescente avanço rumo aos espaços fantásticos, existem apenas dois seres mais velhos: Dona Benta e Tia Anastácia, sendo que experiência, maturidade e responsabilidade, propriedades específicas do adulto, são atributos específicos da primeira, a avó. As demais personagens são: as crianças, realistas (Pedrinho e Narizinho) ou fantásticas (Emília, o Visconde, Peninha), os animais mágicos (o Rinoceronte Quindim, o Burro Falante) e a cozinheira Tia Anastácia, cujo nível intelectual e comportamental não ultrapassa o dos pequenos, sendo, às vezes, até mesmo inferior.

Assim, unicamente uma personagem representa o universo do indivíduo adulto ressaltando-se que esta não desempenha uma função paterna. Dona Benta, dessa forma, tem apenas um papel fiscalizador e de sustentação financeira, sem a conotação problemática que a relação entre pais e filhos necessariamente contém.

As crianças ficcionais que vivem no Sítio do Picapau Amarelo são órfãs. Pedrinho passa as férias lá, longe de sua mãe e os pais de Narizinho não são mencionados. Por sua vez, Emília e o Visconde, as criaturas mais originais de Lobato, são inventadas por “bricolagem”, isto é, são originadas do aproveitamento do material existente no próprio meio onde moram os entes fictícios.

Tudo isso se torna a condição da liberdade deles, pois Dona Benta fica impedida de exercer qualquer poder de coerção. Inclusive, quando ela insinua o exercício de um procedimento desse tipo, acaba vítima do desafio dos pequenos protagonistas, sem que tal atitude implique desobediência (uma vez que não se trata de recusa a uma ordem paterna) ou falta de educação.

Outro aspecto que merece destaque nas criações de Monteiro Lobato diz respeito ao aproveitamento da sugestão oriunda do folclore, sendo que é desta fonte que se alimentou intensamente a literatura infantil nos seus primórdios. No Brasil, conforme Zilbermann (1987), deu-se, por muito tempo, o transplante da literatura estrangeira, sendo que as narrativas orais de cunho local não receberam atenção similar, mesmo durante a vigência de movimentos literários de cor nacionalista, como o Romantismo, o Regionalismo ou o Modernismo. Foi Monteiro Lobato quem procurou incorporar este acervo às suas histórias, através do aproveitamento de certas personagens fantásticas, como o Saci Pererê, históricas, como Hans Staden, por exemplo, e dos relatos populares através das lendas relativas à onça e ao jaboti, entre outras.

Monteiro Lobato emprega também a mitologia clássica (como em o Minotauro ou Os doze trabalhos de Hércules) e personagens oriundos da literatura européia (Peter Pan, D. Quixote) ou da religião (S. Jorge, em Viagem à Lua), integrando o universo infantil de suas pessoas imaginárias e leitores à história nacional e ocidental, assim como ao mundo cultural que os cerca.

Quanto à conotação pedagógica da obra de Monteiro Lobato, Zilbermann (1987) diz que o autor sempre teve em mente a formação do seu leitor, visando a dotá-lo de uma certa visão do real e da circunstância local, assim como de uma norma de conduta. Emerge daí a presença de uma doutrina nacionalista, transparente, sobretudo em seu livro mais polêmico: O Poço do Visconde. Preocupado com os interesses, Lobato investe contra o capital estrangeiro que, segundo ele, prejudicaria a autonomia econômica da nação.

Monteiro Lobato propõe, também, um certo modelo sócio-econômico ao partilhar a valorização da livre iniciativa e do empreendimento privado, independentemente da tutela do Estado. Seu protótipo social vem das camadas urbanas: é o indivíduo empreendedor, esperto, astucioso, que não conhece limites, em contraposição à estagnação do pequeno lavrador.

Por isso, seus heróis prediletos, Pedrinho e Emília, são, em primeiro lugar, indivíduos desrespeitadores; representam um inconformismo que somente se satisfaz quando pode se traduzir em ação. São a encarnação do ser produtivo, imprescindível dentro da nova ordem a que o autor aspirava: o desenvolvimento industrial, o crescimento econômico, a afirmação da pujança nacional. Assim, o nacionalismo de Lobato coincide com as aspirações de sua época, quando se assistia a modernização do país pela introdução de uma indústria local, ao crescimento urbano e ao fortalecimento da classe média.

É nesta realidade social que ele quer introduzir seu leitor, estando subjacente o inconformismo que sustenta a ação de Emília, Pedrinho e Visconde, dando a condição da perspectiva emancipadora de sua obra (ZILBERMANN, 1987). O que surpreende é que ele consegue situar suas personagens nesse novo contexto tão somente pela mudança de sua visão de mundo, sem modificar as circunstâncias originais em que elas viviam e sonhavam.



    1. A Chave do Tamanho

Fiunnn!!!

Quando Emilia abriu os olhos e foi lentamente voltando da tonteira, deu consigo num lugar nebuloso, assim com ar de madrugada. Não enxergou árvores, nem montanhas, nem coisa nenhuma – só havia lá longe um misterioso casarão.



  • Isto deve ser o Fim do Mundo, e aquela casa só pode ser a Casa das Chaves. Que pó certeiro o do Visconde!

Ergueu-se, ainda tonta, e aproximou-se do casarão. Certinho! Um grande letreiro na fachada dizia simplesmente isto: “CASA DAS CHAVES”. Emília esteve algum tempo de nariz para o ar, com os olhos naquelas estranhas letras de luz. Viu uma porta aberta. Enchendo-se de coragem, entrou. Não havia coisas lá dentro, objeto nenhum, nem máquinas. Só aquele mesmo nevoeiro de lá fora, mas numa espécie de parede distinguiu um correr de chaves como as da eletricidade, todas erguidas para cima.

“Hão de ser as chaves que regulam e graduam todas as coisas do mundo”, pensou Emília. “Uma delas, portanto, é a chave que abre e fecha as guerras. Mas qual?”

Emília segurou o queixo, a refletir. Pensou com toda a força. Não havia diferença entre as chaves. Todas iguaizinhas. Nada de letreiros ou números. Como saber qual a chave da guerra?


  • A única solução é aplicar o método experimental que o Visconde usa em seu laboratório. É ir mexendo nas chaves, uma a uma, até dar com a da guerra.

Mas as chaves ficavam numa fileira a oito palmos do chão, fora, pois, do alcance duma criaturinha de apenas dois palmos de altura. Como alcançar as chaves?

Emília correu os olhos em redor. Não viu nenhuma escada, nem cadeira, nem caixão em que pudesse trepar. Não havia sequer uma vara. O remédio seria recorrer novamente ao superpó. “Se eu cheirar a metade do menor dos grãozinhos trazidos nesta caixa, subo até lá e agarro-me a qualquer das chaves”.

E assim fez. Escolheu o grãozinho de pó menor de todos, partiu-o ao meio e aspirou a metade. Deu certo. Bastou o cheiro daquela isca de superpó para erguê-la até às chaves, permitindo-lhe pendurar-se numa. Nem precisou fazer força. Bastou o seu peso para que a chave descesse quase até o fim.

Mas o que aconteceu foi a coisa mais imprevista do mundo. Tudo se transformou diante de seu olhos, e um pano enorme, como o toldo dum circo de cavalinhos, desabou sobre ela. Emília sentiu-se rodeada de pano; o chão era de pano; por cima só havia pano; dos lados, pano, pano e mais pano. E com o peso de tanto pano ela nem podia conservar-se de pé. Ficou deitadinha, como achatada. Mas era preciso sair dali ou pelo menos fazer esforços para sair, porque já estava sentindo falta de ar. E começou a engatinhar debaixo da panaria, numa cega tentativa de fuga. As dobras eram muitas, de modo que, a cada momento, tinha de fazer rodeios para poder avançar. E foi engatinhando, flanqueando as dobras atrapalhadoras; às vezes até ficava de pé, quando uma dobra maior lhe dava espaço. Emília lembrou-se do labirinto de Creta, onde morava o Minotauro. É escuro ali dentro. Nem ao menos aquela penumbra de madrugada de lá fora. Emília teve a impressão de haver passado um século naquele engatinhamento labiríntico. Por fim divisou em certa direção uma claridade. “Deve ser ali a bainha ou o fim deste maldito pano”, pensou ela, e para lá se arrastou. Era de fato a bainha – e Emília, já quase sem fôlego, lavada em suor, saiu do labirinto e caiu exausta no chão, com um Uf!”. 3

O trecho transcrito acima denota a interpolação de elementos que caracterizam a cultura internacional, como o Minotauro, e também uma invasão do mundo contemporâneo, do qual Lobato se apropria antropofagicamente, pois os produtos estrangeiros se naturalizam ao chegarem ao Sítio ou ao conviverem com os personagens.

Esse é mais um aspecto da obra de Lobato que assinala a “porosidade” do Sítio que absorve o que o mundo atual criou de mais interessante e digno de ser incorporado. Observa-se também que o Sítio, ao mesmo tempo em que é o espaço onde ocorre a maior parte das ações, é a porta de entrada de todas as narrativas em que aparecem heróis provenientes do exterior, o que fica demonstrado no trecho a seguir:

(...) As viagens com o superpó eram instantâneas. Um fechar e abrir de olhos. Emília fechou os olhos lá no pedestal e abriu-os na porteira do sítio. Que colossal porteira, santo Deus! Duzentas vezes a altura dela. Lá longe viu um enormíssimo animal pastando: a Vaca Mocha. E mais adiante, uma colossal montanha dormindo: Quindim. E a casa? Oh, a casa, no fim do extensíssimo terreiro, tinha para ela a mesma altura do Pão de Açúcar para um homem antigo. O telhado parecia esbarrar nas nuvens (...)4

Outra característica que pode ser percebida é o caráter idílico do sítio, o que se deve, conforme Zilbermann (1987), a uma soma de elementos característicos da arquitetura da obra e da visão de mundo lobatiana. Assim, fica evidente o caráter metafórico do sítio, estando representado nele tudo o que Monteiro Lobato queria representar da pátria.

Em “A Chave do Tamanho” o sítio significa o mundo como Lobato gostaria que fosse. Nessa idealização ele se permite renegar mitos antigos (como o da riqueza e fertilidade agrícolas), é porque outros mitos passam a ocupar a lacuna. Um deles é o da abundância de óleo natural; outro é o caráter agregador do sítio, aberto a todos indistintamente, mas, em especial, às experiências mais modernas: Dona Benta está sempre atenta ao que se passa no mundo, possui cultura invejável e não se escandaliza com a tecnologia, embora renegue as conseqüências desta que considera nefastas.

Graças a essa permeabilidade o escritor consegue manejar em seus textos fatores mais característicos da modernidade, como no trecho abaixo:

(...) Enquanto a criançada construía a Ordem Nova, Dona Benta conversava com o Visconde a respeito da situação.

- Tudo mudou – dizia ele – Hoje nada vale o que valia antigamente. Acabou-se o dinheiro. Acabaram-se os veículos. Acabou-se a civilização. Mas, pelo que já vi, o homem pode perfeitamente subsistir dentro das proporções mínimas a que está reduzido.

- Acha sinceramente, Visconde, que podemos subsistir e criar uma nova civilização?

- Acho, sim. Acho até que o homem pode criar uma civilização muito mais interessante e feliz do que a “civilização tamanhuda”, como diz a Emília. Ali, naquele lago, a senhora está vendo um maravilhoso exemplo das novas possibilidades. Nunca um pires d’água deu tanto prazer a tantas criaturas. Os insetos, por exemplo, vivem perfeitamente adaptados ao planeta – e eles não possuem a inteligência das criaturas humanas. A geração adulta de hoje vai sofrer, está claro, porque anda muito presa às idéias tamanhudas; as crianças já sofrerão menos, porque aceitam melhor as novidades. Repare como os seus netos, e o Juquinha e a Candoca, estão rapidamente se adaptando, ao passo que Tia Nastácia e o Coronel resistem (...)5

A linguagem utilizada por Monteiro Lobato em “A Chave do Tamanho” é, talvez, o aspecto que mais está de acordo com a finalidade lúdica da Literatura Infantil, através da utilização de um vocabulário capaz de cumprir diferentes funções e, ao mesmo tempo, desencadear o prazer da leitura.

Através das constantes interrogações dos personagens, o texto é, inegavelmente transmissor de conceitos universais, uma vez que se caracterizam como resultado da ciência ou de circunstâncias relativas aos heróis. Nesse sentido pode-se dizer que é uma literatura informadora, mas também formadora, na medida em que age sobre o seu leitor e espera influir em seu comportamento.

Há informações do tipo científico, que têm por finalidade transmitir conhecimento e, nesse aspecto, elas são um fator de aprendizagem e estimulam a atividade cognitiva, na medida em que o seu motor é a curiosidade infantil.

Já as informações fantásticas, relacionadas a um contexto realista, são próprias da narrativa infantil. Através da presença de acontecimentos não realistas e sim fantásticos, inexplicados, como o “apequenamento” dos personagens, são fornecidas informações que se nutrem desta propriedade do gênero infantil.

Filipouski e Zilberman (1982) dizem que estas informações partem de uma oposição binária fundamental: podem ser referentes ao espaço real, quando se trata de uma continuidade deste, vulgarizando o comum e enfatizando o aspecto denotativo da comunicação; ou referentes ao espaço simbólico, quando a resposta oferecida desenvolve-se unicamente no imaginário, centrada em si mesma enfatizando, assim, o aspecto conotativo da linguagem. Essas autoras explicam que, no primeiro caso, jogado numa situação fantástica, o herói a decifra através de conceitos retirados da realidade, tornando o maravilhoso verossímil. Deste modo, a informação atua como decodificadora do contexto especial de vida, banalizando-o.

(...) – Tudo é possível neste mundo de maravilhas – suspirou Dona Benta -, mas temos de ficar muito caladinhas, porque hoje quem realmente manda é a Emília, já que mora na cabeça do mais poderoso gigante do mundo. Estamos nas mãos dos dois – nós e toda a humanidade. A perda do tamanho nos tornou tão fracos e inúteis como pulgões de broto de roseira (...)6

Nesse nível, a informação fantástica evidencia sempre um processo de raciocínio ou uma aprendizagem executada: apesar de estar vivendo uma aventura fabulosa, Emília preocupa-se com o destino da humanidade, com a construção de uma civilização sem guerras, sem máquinas, sem o desvario das invenções que levam os homens para o “beleléu...”.

O clima da narrativa em “A Chave do Tamanho” é predominantemente lúdico, conduzindo de imediato à fantasia. A construção pelos personagens, principalmente por Emília – a principal protagonista, de uma imagem que não corresponde à realidade determinada, dá um tom humorístico, que propicia um caráter divertido à história.

Abramovich (1995:64) explica que humor – na literatura e na vida – “(...) não é contar piada, fazer graçolas ou um comentário boboca (...) também não é ficar rindo de bobeira pura”. Na opinião dessa autora, os livros infantis que conseguem esse tipo de visão são os que levam a novas formas de perceber velhas coisas, sem preconceitos, sem estereótipos, sem repetir o já sabido, e que, por isso, espantam.

(...) e nada como uma boa sacudidela criativa e cutucativa para fazer sorrir, pensar, rir, perguntar, parar por um momento e se dar conta de que o caminho poderia ter sido outro (...) ou que sempre é tempo de rever posições, idéias, gentes ou o que seja, e encontrar outro jeito (talvez mais saboroso, mais inquieto, talvez menos apaziguado, mais contundente, talvez mais anárquico e bem menos comportado, e sobretudo mais vital) de andar e olhar este mundão (...) (ABRAMOVICH, 1995: 64).

Em “A Chave do Tamanho” encontramos na protagonista principal, a boneca Emília, algumas dessas características, descritas por Abramovich:

Emília, a boneca falante do Sítio do Picapau Amarelo, é a magistral e incomparável criação de Monteiro Lobato. Irreverente, crítica, debochada... Capaz de encontrar uma explicação da maior lógica para qualquer coisa que inventa.... Descaradíssima, bota a língua pra fora para qualquer um que resolva afrontar, responde sem hesitação, sem se importar com cargo ou posição. Apronta e faz arzinho de santa. Espertíssima, sempre já previu todas as reações/dificuldades/próximos passos e toma providências para que tudo aconteça do jeito que imaginou e que quer! (Abramovich, 1995:62).


E é Emília, com toda a sua irreverência, que conduz os leitores, através da história, a descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica. Quem lê “A Chave do Tamanho” fica sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome dessas ciências e, o mais importante, não tem a sensação de que está assistindo uma aula, pois, se isso ocorresse, deixaria de ser literatura, deixaria de ser prazer.

A informação é dada de forma autenticamente fantástica, encarando o universo com os olhos da criança e, assim, destrói os limites entre o real e o imaginário, como no diálogo abaixo entre Emília e Rabicó:

(...) – Ah, Rabicó! – disse ela em tom trágico. – O que você anda fazendo é o maior dos horrores, porque essas tais “minhocas em pé” não são minhocas e sim gente humana de proporções reduzidas. A humanidade inteira perdeu o tamanho. Dona Benta e os meninos estão lá dentro transformados em iscas de gente. Pelo amor de Deus, pare com essas comilanças, porque constituem verdadeiros crimes. Sabe quem eram as minhocas pretas que você comeu na casa do Tio Barnabé? Eram o pobre negro velho e toda a família dele. E sabe quem eram as duas que você comeu na casa do Coronel Teodorico? Eram a Quinota e a Tia Ambrósia, aquela negra tão boa, que sempre nos recebia com café e bolinhos.
De acordo com Filipouski e Zilberman (1982), a fantasia evidencia uma modificação nos sentimentos: a tristeza transforma-se em alegria; a teimosia, em aventura. Isso significa, do ponto de vista da criança, uma maneira de utilizar objetos do mundo material com uma finalidade lúdica, assimilando-os e acomodando-os à sua realidade de modo equilibrado.

Segundo as mesmas autoras, pode-se considerar que as informações decodificam a realidade, pois estas pressupõem aprendizagem em cadeia: a realidade (um elo) já é conhecida superficialmente; a fantasia (outro elo) é desvendada por assimilação ao real. Nesse contexto, o mundo e seus objetos surgem como sinais exteriores conhecidos, agindo como estímulo para a aprendizagem do novo, do inusitado. A fantasia seria uma transformação afetiva da realidade (FILIPOUSKI e ZILBERMAN, 1982).

A criança sabe muito bem que acontecimentos fantásticos não ocorrem de fato, mas o seu deslumbramento ao saber-se capaz de criar coisas e realizá-las é, à semelhança do que acontece no seu processo de aquisição do conhecimento, motivo de estímulo e fascínio, faz parte de seu universo infantil.

Ao finalizar este capítulo, é importante retomar as funções da atividade lúdica, do jogo e do prazer como peças fundamentais para o desenvolvimento harmonioso do indivíduo.

CAÑEQUE (1998) apresenta as funções mais significativas do jogo, conforme descritas a seguir:

a) A sensação contínua de exploração e descobrimento são parte da natureza intrínseca do jogo. Essas sensações produzem mudanças significativas que são reais e profundamente vividas como próprias. Os descobrimentos são efetuados a partir, tanto de estímulos externos do mundo que rodeia aquele que joga, como também de suas próprias atitudes e tendências.

b) O jogo é um fator de permanente ativação e estruturação das relações humanas. Diversos autores concordam que o indivíduo desenvolve relações mais saudáveis nos campos lúdicos, o que pode preparar para os enfrentamentos sociais, as frustrações, os medos e o amor, todos esses elementos essenciais na busca da própria identidade.

c) O jogo é fator de ação continuada sobre o equilíbrio psicossomático. Esta atividade se apresenta de forma natural, com um circuito autoregulável de tensões e relaxações. É isso que permite recuperar o equilíbrio perdido, como, por exemplo, diante do medo.

d) O jogo é um meio fundamental para a estruturação da linguagem e do pensamento. Em todos os momentos do crescimento, o jogo estimula a atividade combinatória, peça chave no desenvolvimento da língua e do pensamento.

e) O jogo estimula na vida do indivíduo uma ação religante. Isso significa que o jogo conecta, liga ou une cenas vividas durante o ato de jogar com cenas da própria história do indivíduo assim da história de sua comunidade. Ao favorecer conexões continuadas com o passado, ajuda a desenvolver o potencial, aquilo que poderia ter ficado bloqueado.

f) O jogo possibilita uma catarse elaborativa imediata. Só o jogo permite converter o sinistro em fantástico dentro de um clima de prazer. Estimula a expulsão do conflito e abre, com isso, novos espaços internos para o conhecer e o aprender.

g) O jogo permite a evasão saudável da realidade cotidiana. Essa evasão possibilita o pensamento inteligente, habilitando a possibilidade de centrar e descentrar atributos de dois mundos diferentes, o da realidade e o da fantasia.

h) O jogo recupera cenas lúdicas passadas, junto com o clima de liberdade em que elas transcorrem. O clima em que o jogo transcorre irradia sua ação, conectando o sujeito às mais diversas ações da vida cotidiana.


  1. O jogo possibilita à pessoa aprendizagens de forte significado. No clima de distração que o jogo proporciona, os controles e defesas psicológicas se tornam mais flexíveis, pois os conflitos existentes, muitas vezes, são expulsados ou mediatizados e o indivíduo passa a permitir-se determinadas atitudes que antes lhe eram vedadas.

h) O jogo reduz a sensação de gravidade diante de erros e fracassos. Isso é possível na medida em que o jogo permite explorar e descobrir novas alternativas através do mecanismo que se instala.

Esse tratamento lúdico da literatura, que pode exercer todas as funções acima expostas, é desenvolvido por Monteiro Lobato em “A Chave do Tamanho” na medida em que deu ao local onde se desenvolve a história – O Sítio do Picapau Amarelo, um funcionamento metafórico em relação à realidade da criança. Os personagens, ao lançarem-se para fora, experimentam contextos desconhecidos, mas sempre numa postura interrogadora.

Ao utilizar esses recursos, Monteiro Lobato evita algumas armadilhas em que caíram alguns outros autores, como explica Zilberman (1997):

- o retorno dos heróis, imprescindível à continuação das histórias, significa invariavelmente uma aprendizagem e um crescimento em termos de conhecimento da realidade (já que os protagonistas não se modificam interiormente);

- este retorno não significa necessariamente um reconhecimento da superioridade do lugar de origem, sendo que, em alguns casos, esta volta não é bem acolhida por alguns dos heróis (como acontece com Emília em “A Chave do Tamanho”);

- o fato de que, em muitas narrativas, outros agentes sejam introduzidos no Sítio e depois queiram abandoná-lo, indica a reversibilidade do sistema e similaridade entre o sítio e o que não pertence a ele.

O tratamento das relações familiares em “A Chave do Tamanho”, assim como em toda a obra de Monteiro Lobato, dá-se numa perspectiva renovadora ou “emancipatória” na medida em que, apesar de evitar uma crítica à família, o escritor simplesmente a aboliu de seu texto, sonegando o problema. Gerou-se, assim, uma lacuna e, diante da alternativa de lançar seus heróis no contemporâneo ou introduzir um setor intermediário dentro do qual a solução final pudesse ser protelada, o escritor optou pela segunda.

Dessa forma, o Sítio se converteu numa escola, o que se comprova pelo forte condicionamento pedagógico de seu tempo, quando a mentalidade escolarizadora encontrava-se em fase de expansão, em decorrência do reaparelhamento da sociedade para a circunstância burguesa emergente.

Apesar da tentativa de estabelecer um novo padrão emancipatório, através da proposta de um outro funcionamento entre os indivíduos, segundo o qual ficam suprimidas as divisões estanques entre o adulto e a criança, assim como as ligações de dependência e sujeição que se estabelecem entre eles, não se pode negar que Monteiro Lobato consegue propiciar uma leitura em que os jogos são pretextos para grandes aventuras, destacando-se o lúdico no uso do “pó de pirlimpimpim” que está na base das trajetórias no tempo e no espaço efetuadas em “A Chave do Tamanho”.



CONCLUSÃO


As histórias de Monteiro Lobato agem como um exercício preparatório para a vida futura, nas quais a criança adquire noções primárias sobre o meio ambiente através de uma efabulação com contornos dramáticos que, mesmo possuindo índole fantástica, volta-se para o real. E tanto mais eficiente será a aprendizagem através desses textos, quanto mais a criança se utilizar deles como um jogo, um desafio, sem se sentir condicionada pelo que lhe é dito, mas motivada a exercer a sua liberdade através da leitura.

A Literatura Infantil é capaz de produzir prazer, não só por ser capaz de despertar o gosto pela leitura, mas por revelar um universo harmonioso e sem conflitos, onde, guardadas as proporções entre o leitor adulto e a criança, está possibilitada a esta última o desfrutar de uma realidade sublimada pela fantasia, podendo ser entendida como jogo.

A obra de Monteiro Lobato – “A Chave do Tamanho” – focalizada mais especificamente neste estudo, coincide com o pensamento do ensaísta latino-americano Jesualdo7, quando afirma:

A criança, pelo próprio sentido da evolução de sua experiência cognoscitiva, necessita ir transcendendo de si mesma e de seus retratos anteriores, passo a passo, num progresso que nunca é final e que se caracteriza pela obstinação insatisfeita de sua busca, e pela alegria de sua vitória diante de cada novo obstáculo, o que, precisamente, mais favorece esse crescimento intelectual. Somente as literaturas infantis que entendam essa luta da criança, intencionalmente ou não, alcançarão o êxito que pretendem como instrumento de cultura, além de instrumento de diversão.


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