Cge gab. 1 Vest./2001



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CGE - GAB. 1 - VEST./2001 2o DIA


LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA - QUESTÕES DE 01 A 30

Violência e drogas





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É sempre bacana ver milhares juntando as forças, as vontades, as desesperanças, para encher ruas com o alvo vestuário da paz. Não é muito a minha, esse negócio de acender vela e clamar ao firmamento, mas, em respeito aos sincretismos biodiversos, topo fingir não crer que do céu só vem relâmpago, chuva e bala perdida.


O que não dá mais, sinceramente, pra encarar com graça, educação e simpatia é o lugar-comum “não se pode dissociar a questão da violência da questão das drogas”. Hoje em dia, 10 entre 10 autoridades públicas, ao se pronunciarem a respeito do tema, repetem em uníssono: “Não se pode dissociar a questão da violência da questão das drogas”. E daí? O que devemos concluir dessa brilhante assertiva? É óbvio que as duas coisas estão intrinsecamente ligadas, qualquer idiota lobotomizado sabe. Mas o que vem depois disso? É “não se pode dissociar a questão da violência da questão das drogas” e ponto final? Quer dizer então que é só ninguém mais se drogar que a violência acaba? Quer dizer então que se os ricos (como acusou o governador do Rio de Janeiro) pararem de consumir substâncias ilegais tudo estará resolvido?

Bacana. Muito bom. E que dia vai ser isso? Uma bela manhã todos acordaremos para viver num mundo melhor, onde todos os que consomem drogas terão uma crise de consciência e, junto com seus fornecedores, chegarão à conclusão de que já perturbaram demais a ordem pública, de que a vida de todos já está suficientemente aterrorizada e, portanto, todos vão se dedicar a atividades mais lúdicas.

Vamos ou não vamos, de uma vez por todas, encarar a dura realidade de que sempre existirá uma parcela qualquer da população que vai querer se drogar? Isso não é minha opinião, muito menos meu desejo. É assim, simplesmente, porque sempre foi assim e continuará sempre sendo assim. Em qualquer sociedade, em qualquer época. Qualquer um que se dê ao trabalho de pesquisar as origens históricas do ato de se drogar, vai ficar chocado com a antigüidade da prática.

Enquanto a sociedade não oferecer uma alternativa legal ao adulto que quer consumir, arcará com o custo (de vida, de grana, de desagregação das estruturas sociais) boçal desse combate. Uma guerra que nunca será ganha e que faz muito mais vítimas fatais do que as drogas que tenta combater. Alguém ainda consegue achar irônico o fato do combate às drogas matar muito mais que o uso das mesmas?

Ninguém propõe o bundalelê nessa questão. A idéia de dar opção a quem não consegue ou não quer largar seu vício viria com a contrapartida de usar o ato de consumir drogas como agravante em qualquer delito que venha a ser cometido pelo usuário. Oferecer uma opção legal de consumo não é legalizar o crime. É retirar consumidores das mãos da marginalidade, é reduzir a importância econômica do narcotráfico. Certamente alguns morrerão de overdose, o que é triste, o que é lamentável. Mas, e a situação de hoje não é?

Reduzir o número de cadáveres deveria ser o único objetivo. Do jeito que as coisas estão organizadas parece que morrer de cocaína é pior do que morrer de tiro. Por quê? Querer discutir violência sem propor uma nova política de drogas é mais que perda de tempo, é perda de vidas.




Claudio Manoel - Humorista, integrante do grupo Casseta & Planeta. Jornal do Brasil, 13 jul. 2000 - caderno Opinião.

01. “... em respeito aos sincretismos biodiversos” (§ 1o), o autor:


a) acha “bacana ver milhares juntando as forças, as vontades, as desesperanças...”

b) admira milhares de pessoas enchendo “ruas com o alvo vestuário da paz.”

c) aprecia “esse negócio de acender vela e clamar ao firmamento...”

d) aceita fingir não acreditar “que do céu só vem relâmpago, chuva e bala perdida.”

e) topa fingir crer “que do céu só vem relâmpago, chuva e bala perdida.”

02. Segundo o autor, a frase “não se pode dissociar a questão da violência da questão das drogas” (§ 2o) NÃO:


a) é um lugar comum, hoje repetido por 10 entre 10 autoridades públicas.

b) é atualmente a resposta uníssona de todas as autoridades públicas.

c) dá mais para ser encarada com graça, educação e simpatia.

d) é uma assertiva óbvia, embora as duas coisas estejam intrinsecamente ligadas.

e) é aceita apenas pelo idiota lobotomizado.

03. “Uma bela manhã todos acordaremos para viver num mundo melhor, onde todos os que consomem drogas terão uma crise de consciência e, junto com seus fornecedores, chegarão à conclusão de que já perturbaram demais a ordem pública, de que a vida de todos já está suficientemente aterrorizada e, portanto, todos vão se dedicar a atividades mais lúdicas.” (§ 3o) A idéia deixada implícita pelo autor no conjunto de hipóteses da passagem acima em conexão com o que se viu no texto é:


a) Basta ninguém mais se drogar.

b) Basta os ricos pararem de consumir.

c) Bacana. Muito bom.

d) Isso está prestes a acontecer.

e) Trata-se de uma utopia.

04. “Vamos ou não vamos, de uma vez por todas, encarar a dura realidade de que sempre existirá uma parcela qualquer da população que vai querer se drogar?" (§ 4o). Apenas NÃO é realidade que:


a) haverá sempre alguém querendo se drogar.

b) é esta uma opinião pessoal, um desejo do autor.

c) é assim que sempre foi.

d) é assim que sempre continuará sendo.

e) é antiqüíssima a prática de se drogar.

05. “Enquanto a sociedade não oferecer uma alternativa legal ao adulto que quer consumir...” (§ 5o). Com base na seqüência do parágrafo, só NÃO se pode afirmar que a sociedade:


a) arcará com o custo boçal desse combate.

b) arcará com o custo de vida, de grana, de desagregação das estruturas sociais.

c) assistirá a uma guerra que nunca será ganha.

d) assistirá a uma guerra que faz muito mais vítimas fatais do que as drogas que tenta combater.

e) continuará achando irônico o fato do combate às drogas matar muito mais que o uso das mesmas.

06. Embora não evitando a situação triste e lamentável, em que certamente alguns morrerão de overdose, oferecer uma opção legal de consumo (§ 6o) seria, para o autor, importante, porque poderia EXCETO:


a) vir, com a contrapartida de usar, o ato de consumir drogas como agravante em qualquer delito que venha a ser cometido pelo usuário.

b) legalizar o crime.

c) oferecer uma opção legal a quem não consegue ou não quer largar o vício.

d) retirar consumidores das mãos da marginalidade.

e) reduzir a importância econômica do narcotráfico.

07. Ao fechar o texto (§ 7o), o autor apenas NÃO deixa patente que:


a) reduzir o número de cadáveres deveria ser o único objetivo.

b) as coisas estão organizadas numa ótica invertida.

c) morrer de cocaína é pior do que morrer de tiro.

d) é inútil discutir violência sem uma nova política de drogas.

e) discutir violência sem uma nova política de drogas é mais que perda de tempo, é perda de vidas.

08. Ao propor o bundalelê da questão, o autor NÃO fez referência nem sequer implícita:


a) às autoridades, a quem compete encontrar solução para o problema da violência.

b) à polícia, a quem compete combater o crime.

c) aos marginais, que estão envolvidos com o narcotráfico.

d) aos adolescentes que querem consumir drogas.

e) à sociedade, que anseia pelo fim da violência.

09. A proposta central do texto é:


a) uma crítica sutil às manifestações de rua ou os pedidos aos céus em defesa da paz.

b) uma crítica severa às autoridades que associam a violência às drogas e ficam nisso.

c) a informação de que o problema da droga está presente em qualquer época e em qualquer lugar.

d) a descriminação do uso de drogas.

e) a contrapartida de usar o ato de consumir drogas como agravante em qualquer delito que venha a ser cometido pelo usuário.

10. Em entrevista de página inteira ao Jornal do Brasil do dia 6 de agosto de 2000, a antropóloga Alba Zaluar, coordenadora do Núcleo de Pesquisa da Violência da UERJ, faz uma série de observações, uma das quais contraria a proposta central de Claudio Manuel. Assinale-a:


a) “... não estamos advogando tolerância aos crimes mais graves...”

b) “... existe uma pesquisa da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) que mostra que 20% dos jovens das favelas, com idades entre 14 e 25 anos, estão envolvidos com o tráfico.”

c) “... suponho que 20 anos de política repressiva no país não tiveram resultados brilhantes.”

d) “O Brasil não pode descriminar, sob o risco de [...] repetir o que aconteceu na Holanda, onde a liberação resultou num aumento desenfreado do consumo.”

e) “O problema é como a escola recebe o aluno. Ela não está cumprindo a sua função de formar cidadãos, de ensinar a tolerância, o respeito ao outro.”

11. Assinale a alternativa em que a mudança de posição entre o substantivo e o adjetivo NÃO pode acarretar alteração semântica:


a) O grande traficante assusta a polícia. / O traficante grande assusta a polícia.

b) O pobre viciado sofre muito! / O viciado pobre sofre muito!

c) O bom filho à casa torna. / O filho bom à casa torna.

d) O alto traficante assusta a polícia. / O traficante alto assusta a polícia.

e) O velho amigo é que socorreu o viciado. / O amigo velho é que socorreu o viciado.

12. Assinale a alternativa em que a presença/ausência da preposição acarreta alteração semântica:


a) Meu filho sempre aspirou ao ar puro aqui do campus. / Meu filho sempre aspirou o ar puro aqui do campus.

b) Meu filho sempre assistiu a futebol pela tv. / Meu filho sempre assistiu futebol pela tv.

c) Meu filho sempre obedeceu a seus superiores. / Meu filho sempre obedeceu seus superiores.

d) Meu filho sempre precisou de que o amparassem. / Meu filho sempre precisou que o amparassem.

e) Meu filho sempre necessitou de que o amparassem. / Meu filho sempre necessitou que o amparassem.

13. Assinale a alternativa em que a mudança da posição da conjunção acarreta alteração semântica:


a) Está tudo bem com o jovem, contudo não tem o apoio da família. / Está tudo bem com o jovem; não tem, contudo, o apoio da família.

b) Está tudo bem com o jovem, todavia não tem o apoio da família. / Está tudo bem com o jovem; não tem, todavia, o apoio da família.

c) Está tudo bem com o jovem, porém não tem o apoio da família. / Está tudo bem com o jovem; não tem, porém, o apoio da família.

d) Está tudo bem com o jovem, entretanto não tem o apoio da família. / Está tudo bem com o jovem; não tem, entretanto, o apoio da família.

e) Está tudo bem com o jovem, pois tem o apoio da família. / Está tudo bem com o jovem; tem, pois, o apoio da família.

14. Assinale a alternativa em que a mudança de estrutura do período implica mudança semântica:


a) Meu filho não faria isso! / Filho meu não faria isso!

b) Um traficante adotou meu filho! / Meu filho foi adotado por um traficante!

c) Vivo o problema do meu filho 24 horas por dia! / Vivo, 24 horas por dia, o problema do meu filho!

d) Meus filhos jamais mexeram com tóxico, graças a Deus! / Graças a Deus, meus filhos jamais mexeram com tóxico!

e) Sempre procurei dar o bom exemplo a meu filho. / Sempre procurei dar a meu filho o bom exemplo.
15. Assinale a alternativa em que a circunstância de causa sucede linearmente na frase a circunstância de conseqüência:
a) O jovem se drogou tanto, que teve uma parada cardíaca.

b) O jovem teve uma parada cardíaca porque se drogou muito.

c) Como se drogou muito, o jovem teve uma parada cardíaca.

d) Como os médicos atestaram, o jovem teve uma parada cardíaca.

e) Os médicos atestaram que o jovem teve uma parada cardíaca.

16. Assinale a alternativa em que a presença/ausência da(s) vírgula(s) acarreta alteração semântica:


a) A sociedade seria talvez mais feliz se fosse menos egoísta. / A sociedade seria, talvez, mais feliz se fosse menos egoísta.

b) Na Holanda, houve a liberação geral do uso do tóxico! / Na Holanda houve a liberação geral do uso do tóxico!

c) O Governo tem, na Colômbia, um problema imenso com o narcotráfico. / O Governo tem na Colômbia um problema imenso com o narcotráfico.

d) O traficante, que é viciado, precisa de polícia e de família. / O traficante que é viciado precisa de polícia e de família.

e) Que a sociedade seja mais altruísta, e os jovens mais felizes! / Que a sociedade seja mais altruísta e os jovens mais felizes!

17. Assinale a alternativa em que a flexão ou não do infinitivo pode acarretar alteração semântica:


a) As famílias necessitam se esforçar para, com amor e carinho, acolher os filhos com problemas. / As famílias necessitam se esforçar para, com amor e carinho, acolherem os filhos com problemas.

b) As nações precisam se organizar, a fim de mais eficientemente combater o narcotráfico. / As nações precisam se organizar, a fim de mais eficientemente combaterem o narcotráfico.

c) As ações mais violentas da polícia acabaram por perder o apoio da população. / As ações mais violentas da polícia acabaram por perderem o apoio da população.

d) Ao acolherem as vítimas do tóxico, os voluntários se sentem úteis. / Os voluntários se sentem úteis ao acolher as vítimas do tóxico.

e) A polícia mandou os traficantes saírem pela porta dos fundos. / A polícia mandou-os sair pela porta dos fundos.

18. Assinale a alternativa em que há quebra do paralelismo gramatical:


a) Porque há convenções internacionais em contrário e o exemplo da Holanda foi catastrófico, a descriminação do uso de drogas é desaconselhável.

b) A descriminação do uso de drogas é desaconselhável, por haver convenções internacionais em contrário e porque o exemplo da Holanda foi catastrófico.

c) A descriminação do uso de drogas é desaconselhável, porque há convenções internacionais em contrário e o exemplo da Holanda foi catastrófico.

d) A descriminação do uso de drogas é desaconselhável, por haver convenções internacionais em contrário e o exemplo da Holanda ter sido catastrófico.

e) Por haver convenções internacionais em contrário e o exemplo da Holanda ter sido catastrófico, a descriminação do uso de drogas é desaconselhável.

19. Assinale a alternativa em que há quebra do paralelismo rítmico:


a) Para os viciados, a dedicação da família; para os traficantes, a eficiência da polícia; para os cartéis, a vontade política: resolve-se o problema das drogas!

b) Uma solução para o problema das drogas: para os cartéis, a vontade política; para os traficantes, a eficiência da polícia; para os viciados, a dedicação da família.

c) Resolve-se o problema das drogas: para os cartéis, a vontade política; para os traficantes, a eficiência da polícia; para os viciados, a dedicação da família.

d) Para os cartéis, a vontade política; para os traficantes, a eficiência da polícia; para os viciados, a dedicação da família: resolve-se o problema das drogas!

e) Solução para o problema das drogas: uma vontade política; uma eficiência da polícia; uma dedicação maior de todas as famílias na orientação dos seus filhos.
20. Assinale a alternativa em que há quebra do paralelismo semântico:
a) Em Recife e Vitória, por exemplo, o problema da droga é muito menos grave do que no Rio de Janeiro e em São Paulo.

b) O problema da droga é muito mais grave no Rio de Janeiro e em São Paulo do que, por exemplo, em Belo Horizonte e Brasília.

c) É muito mais grave o problema da droga no Rio de Janeiro e em São Paulo do que, por exemplo, em Brasília e Salvador.

d) No Rio de Janeiro e em São Paulo, o problema da droga é muito mais grave do que, por exemplo, em Salvador e Recife.

e) O problema da droga é muito mais grave no Rio de Janeiro e em São Paulo do que, por exemplo, em Belo Horizonte e Santa Catarina.

LITERATURA BRASILEIRA
21. Leia atentamente o fragmento do sermão do Padre Antônio Vieira:
A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande [...]. Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia cousa é não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer.
VIEIRA, Antônio. Obras completas do padre Antônio Vieira: sermões. Prefaciados e revistos pelo Pe. Gonçalo Alves. Porto: Lello e Irmão – Editores, 1993. v. III, p. 264-265.
O texto de Vieira contém algumas características do Barroco. Dentre as alternativas abaixo, assinale aquela em que NÃO se confirmam essas tendências estéticas:
a) A utilização da alegoria, da comparação, como recursos oratórios, visando à persuasão do ouvinte.

b) A tentativa de convencer o homem do século XVII, imbuído de práticas e sentimentos comuns ao semipaganismo renascentista, a retomar o caminho do espiritualismo medieval, privilegiando os valores cristãos.

c) A presença do discurso dramático, recorrendo ao princípio horaciano de “ensinar deleitando”  tendência didática e moralizante, comum à Contra-Reforma.

d) O tratamento do tema principal  a denúncia à cobiça humana  através do conceptismo, ou jogo de idéias.

e) O culto do contraste, sugerindo a oposição bem x mal, em linguagem simples, concisa, direta e expressiva da intenção barroca de resgatar os valores greco-latinos.


  1. O gênero romance surgiu no Brasil durante o Romantismo e moldou-se segundo os gostos e preferências da burguesia em ascensão. Com uma temática diversificada, logo tornou-se o tipo de leitura mais acessível a essa nova classe social.

Dentre as afirmativas seguintes, assinale aquela que NÃO corresponde às tendências do romance romântico:
a) As obras românticas conhecidas como romances de folhetins caracterizaram-se pelo tom “água-com-açúcar”, pela presença de elementos pitorescos e pela superficialidade de seus conflitos.

b) O romance romântico identificado como histórico retratou os fatos políticos brasileiros da época, e também as correntes materialistas daquela segunda metade do século XIX.

c) As narrativas ambientadas na cidade foram rotuladas como romances urbanos, sendo ainda conhecidas como obras de “perfis de mulher”, por privilegiar as personagens femininas e seus pequenos conflitos psicológicos.

d) O romance indianista enfatizou nossa “cor local” ao retratar as lendas, os costumes e a linguagem do índio brasileiro, acentuando ainda mais o cunho nacionalista do Romantismo.

e) A narrativa romântica de caráter regionalista tematizou, de forma idealizada, a vida e os costumes do “brasileiro” do interior.

23. Leia o seguinte poema de Manuel Bandeira:



Nova poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito.

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito [bem engomada, e na primeira esquina [passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou [a calça de uma nódoa de lama:


É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as [virgens cem por cento e as amadas que [envelheceram sem maldade.


BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993. p. 287.
Em “Nova poética”, estão presentes algumas tendências inovadoras propostas pelo movimento modernista, EXCETO:
a) a opção pela poesia pautada por temas “sujos”, em detrimento da pureza dos temas idílicos.

b) a visão crítica do poeta, apresentando uma nova forma de arte literária através do discurso metalingüístico.

c) a linguagem futurista, expressão do homem moderno, ao ritmo da máquina e da velocidade.

d) a rejeição ao Parnasianismo, pela desobediência às formas clássicas de versificação.

e) a elaboração de uma nova linguagem, mais simples e dinâmica, a partir da observação do cotidiano.
24. Em relação ao poema “Nova poética”, de Manuel Bandeira, é INCORRETO afirmar que:
a) o “poeta sórdido” seria aquele que privilegiasse em seus versos a marca suja da vida humana, olhando criticamente a sociedade e denunciando os males da modernidade.

b) ao afirmar que “O poema deve ser como a nódoa no brim”, o poeta sugere a total rejeição ao lirismo romântico que, ao suscitar o encantamento, o sonho e a paixão, só é capaz de provocar sentimentos alienantes e dispensáveis à vida e ao ritmo do homem moderno.

c) o poema funde à linguagem poética o discurso narrativo, buscando expressar melhor a realidade do homem moderno, sugerindo a necessidade do dinamismo e da constante atualidade dos versos, para expressar o drama do ser humano, vítima da própria engrenagem da vida moderna.

d) segundo o poeta, a poesia deve “Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.”, ou seja, é preciso que os versos incomodem, provoquem alguma mudança na consciência do leitor.

e) o poeta não rejeita totalmente a poesia sobre os temas sublimes, mas nos versos finais, ao referir-se à poesia “que é também orvalho”, destila, em fina ironia, o desprezo pelas manifestações poéticas já consagradas.

25. Observe a seguinte declaração sobre o Pré-Modernismo:


Creio que se pode chamar pré-modernismo (no sentido forte de premonição dos temas vivos em 22) tudo o que, nas primeiras décadas do século, problematiza a nossa realidade social e cultural.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. p. 306.
Atente agora para o que se afirma a respeito de algumas obras e autores brasileiros e assinale a alternativa cujo conteúdo NÃO contempla a síntese crítica de Alfredo Bosi:
a) Um dos grandes temas de Os Sertões é a denúncia que Euclides da Cunha faz sobre o crime que a nação brasileira cometeu contra si própria na Guerra dos Canudos.

b) Monteiro Lobato imortalizou o personagem Jeca Tatu, transformando-o no símbolo do caipira subdesenvolvido que vive na indolência e pratica sempre a “lei do menor esforço”.

c) Mário e Oswald de Andrade notabilizaram-se como os grandes líderes da revolução de 22 e, portanto, do processo de ruptura em relação à tradição intelectual, libertando a literatura brasileira da “calmaria” em que se encontrava.

d) Lima Barreto expressou sempre o inconformismo face às injustiças sociais e, na obra Triste Fim de Policarpo Quaresma, construiu uma imagem caricata do Brasil com todas as suas contradições.

e) Em Os Sertões, Euclides da Cunha opõe o homem do sertão ao homem do litoral, acentuando-lhes as diferenças econômicas e socioculturais.

26. Em grande parte das narrativas que compõem Laços de Família, Clarice Lispector privilegia as personagens femininas que vivem o tradicional modelo da dona-de-casa e desempenham papéis estabelecidos para a mulher, em uma sociedade opressora e de valores masculinos.


Observe as situações transcritas e assinale a alternativa cuja citação NÃO confirma a observação acima:
a) Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha – com persistência, continuidade, alegria. (“Amor”, p. 18)

b) Interrompendo a arrumação da penteadeira, Laura olhou-se ao espelho: e ela mesma, há quanto tempo? Seu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher. (“A imitação da rosa”, p. 36)

c) Ela, a forte, que casara em hora e tempo devido com um bom homem a quem, obediente e independente, respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos, lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. (“Feliz aniversário”, p. 67)

d) Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não se espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era intenso como uma jóia. Ela. (“Preciosidade”, p. 95)

e) Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? Fora isso o que ele lhe dera. [...] O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. [...] Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. (“Os Laços de Família”, p. 118)

27. Leia o seguinte comentário sobre o conto “Feliz aniversário”, da obra Laços de Família, de Clarice Lispector:


Bastante legível, mesmo num primeiro contato com o texto “Feliz aniversário”, é a desmontagem de cunho crítico-social das diversas situações nele apresentadas através da “festa”  momento de “encontro” familiar, onde diversos sentimentos, regras e condutas são expostos. “Feliz aniversário” bem esboça a lógica dos contos constantes do livro Laços de Família. Os “laços”, de família, constituem-se ao mesmo tempo em proximidade, distância, dilaceramento e prisão. Na festa, as semelhanças e as diferenças, em especial as de classes, ficam reunidas para o cumprimento do instituído. Assim, cercadas as personagens, mais visíveis se tornam a artificialidade, a revolta, o despeito e o ódio: todos os sentimentos mascarados sob a aparência de um “feliz” aniversário. Menos visível  porque mais ausente  estará também sendo tecida a linha da vida e do amor [...].
SANTOS, R. Corrêa dos. Clarice Lispector. São Paulo: Atual, 1986. p. 58.
Reflita sobre o texto crítico acima em sua relação com as afirmativas I, II e III:


I

- A “desmontagem de cunho crítico-social das diversas situações” apresentadas no conto “Feliz aniversário” pode ser observada na forma irônica com que a narradora vê a miséria humana através do olhar crítico da velha, a ponto de comparar os membros de sua família a “ratos se acotovelando”.

II

- “Os ‘laços’, de família, constituem-se ao mesmo tempo em proximi-dade, distância, dilaceramento e prisão”. Isso se pode verificar na maneira sutil e minuciosa com que Clarice Lispector descreve o perfil psicológico da personagem Anita, que, no conto, é denominada: “Mamãe”, “Vovó” e “D. Anita”.

III

- A “artificialidade, a revolta, o despeito e o ódio: todos os sentimentos mascarados sob a aparência de um ‘feliz’ aniversário” são experimentados apenas pela velha aniversariante.

Assinale agora a alternativa correta:


a) Apenas a afirmativa I é verdadeira.

b) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras.

c) Apenas as afirmativas I e III são verdadeiras.

d) Apenas a afirmativa II é verdadeira.

e) Apenas a afirmativa III é verdadeira.

28. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo reafirma a ideologia do Naturalismo e cumpre à risca alguns princípios cientificistas vigentes na segunda metade do século XIX.


Dentre as afirmativas abaixo, assinale aquela que NÃO corresponde às propostas da escola naturalista:
a) O caráter determinista da obra tem como símbolo a personagem Pombinha, que, se antes era “pura” e de boa conduta moral, acaba prostituindo-se por força daquele meio sórdido e animalesco.

b) O narrador de O Cortiço acentua o lado instintivo do ser humano através de um processo de zoomorfização, identificando seus personagens a diferentes animais, sobretudo a insetos e vermes, quando os descreve em seu vaivém pelo cortiço.

c) Ao enfatizar as atitudes inescrupulosas de João Romão para com os habitantes do cortiço, em especial para com a negra Bertoleza, o autor confirma as preocupações sociais do Naturalismo em sua inclinação reformadora.

d) Os personagens de O Cortiço constituem-se, em sua maioria, dos operários das pedreiras, das lavadeiras e de outros miseráveis que ali vivem de forma degradante, o que evidencia a preferência do escritor naturalista pelas camadas mais baixas da sociedade.

e) Em o Cortiço, Aluísio Azevedo exprime um conceito naturalista da vida e, ao idealizar seus personagens, integra-os a elementos de uma natureza convencional.

29. Leia o texto abaixo, retirado de O Cortiço, e faça o que se pede:


Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo.

[...].

O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e rezingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.


Azevedo, Aluísio. O cortiço. 15. ed. São Paulo: Ática, 1984. p. 28-29.
Assinale a alternativa que NÃO corresponde a uma possível leitura do fragmento citado:
a) No texto, o narrador enfatiza a força do coletivo. Todo o cortiço é apresentado como um personagem que, aos poucos, acorda como uma colméia humana.

b) O texto apresenta um dinamismo descritivo, ao enfatizar os elementos visuais, olfativos e auditivos.

c) Através da descrição do despertar do cortiço, o narrador apresenta os elementos introspectivos dos personagens, procurando criar correspondências entre o mundo físico e o metafísico.

d) O discurso naturalista de Aluísio Azevedo enfatiza nos personagens de O Cortiço o aspecto animalesco, “rasteiro” do ser humano, mas também a sua vitalidade e energia naturais, oriundas do prazer de existir.

e) Observa-se, no discurso de Aluísio Azevedo, pela constante utilização de metáforas e sinestesias, uma preocupação em apresentar elementos descritivos que comprovem a sua tese determinista.

30. Leia atentamente o texto:


Vou-me embora pra Pasárgada





Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau de sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água



Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mais triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

 Lá sou amigo do rei 

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.



BANDEIRA, Manuel. Vou-me embora pra Pasárgada e outros poemas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 33.


Pasárgada transubstanciou-se em um espaço utópico, onde o poeta se refugiou de suas derrotas e pôde realizar todos os sonhos e desejos de um adolescente traumatizado pela doença, que lhe marcou a vida e lhe inspirou a produção poética.

Dentre as alternativas que se seguem, assinale aquela que NÃO interpreta corretamente o poema:


a) Pasárgada surge como um delicioso refúgio, onde o prazer e a liberdade se tornam infinitos e os desequilíbrios da vida adquirem uma ordem lógica.

b) “Vou-me embora pra Pasárgada” é um poema de evasão e promete resgatar, oniricamente, as ações simples e insignificantes que constituem a rotina de um menino sadio.

c) Em Pasárgada, os loucos e alienados podem assumir livremente suas contradições e fantasias, o que reafirma o caráter excepcional desse reino imaginário.

d) A lúdica e encantada Pasárgada não conseguiu abrandar as frustrações do poeta, possibilitando a existência de uma hierarquia que determina as diferenças sociais.



e) Em “Vou-me embora pra Pasárgada”, Manuel Bandeira contrapõe o espaço da utopia ao espaço da realidade e, indiretamente, critica uma civilização opressora e impregnada de falsos valores.


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