Charle, Christophe. Como anda a história social das elites e da burguesia?



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CHARLE, Christophe. Como anda a história social das elites e da burguesia? Tentativa de balanço crítico da historiografia contemporânea. In: HEINZ, F. (org.). Por outra história das elites. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.


  • O texto tem por objetivo manifesto “dar conta das tendências dominantes da produção contemporânea” (p.19) na história social das elites francesa.




  • Para Charle, esta produção passou essencialmente por 4 fases (p.19-20):

    1. A emergência de uma história social, entendida como história da sociedade em movimento, dentro da chamada historiografia romântica (Guizot). Contudo, esta historiografia vê as classes “sobretudo como etiquetas políticas ou polêmicas, mais do que como conceito de análise das realidades sociais” (p.19);




    1. A predominância de historiadores medievalistas ou modernistas, até o inicio do século XX, interrompeu o desenvolvimento de uma historia social cientifica contemporânea. Passou a ser praticada por não-historiadores (ensaístas, jornalistas, militantes, etc.).




    1. Revolução dos Annales: renovação da reflexão, ampliação dos campos de estudo. Anexação da história social à história econômica, concebida como o motor dos movimentos sociais (Ernest Labrousse). A história social de novo tipo (dos anos 30 aos 60) privilegiou o estudo das classes dominadas ou das relações entre as classes segundo a visão marxista, devido ao engajamento político de seus fundadores (Labrousse e Simiand).




    1. Com o declínio do marxismo e da história quantitativa e estrutural dos Annales, tem-se a dissociação entre a história social e a econômica. Essa autonomização leva à renúncia em se tratar a globalidade do social e a se limitar em uma história social segmentada em grupos socioprofissionais ou “elites”.




  • Juntamente à limitação do campo de pesquisa, tem-se a crescente influência das ciências sociais vizinhas (etnologia, sociologia, etc.). Assim, para Charle, a história social francesa passa por uma tripla crise: a) de vocação: servirá “apenas para irrigar o terreno de outros setores das ciências sociais?”; b) de objeto: “pulverização de pontos de vista leva a dificuldade crescente em elaborar sínteses que não sejam mais que coleções de pontos de vista parciais”; c) de temporalidade: “redução do campo de análise leva a uma indiferenciação do tempo histórico rumo a um tempo puramente biográfico, que exclui o tempo coletivo” (p.21).

Tentativa de Balanço Historiográfico (p.21-23):



  • O inicio da voga de trabalhos sobre elites data da segunda metade dos anos 1960, quando decai a influência de E. Labrousse. Polêmicas sobre a interpretação da R. Francesa contribuem para aclimatar a noção de elite em história social, em detrimento do conceito marxista de classe (F. Furet e D. Richet / M. Vovelle e A. Soboul). Debate confuso conceitualmente e permeado por intenções políticas, mas que introduz novas ferramentas de análise em história social.

A investida das elites (anos 1970) (p.23-26):



  • Emergência de trabalhos sobre elites se dá sobretudo nos anos 1970.




  • Trabalho de André-Jean Tudesq (Os grandes notáveis na França, 1840-1849) representa a transição entre as duas perspectivas. Apesar de ser um trabalho da escola de Labrousse, marca uma série de rupturas: período curto, espaço nacional, fontes prosopográficas prioritárias às seriais, passagem do anônimo ao nominativo nos exemplos, ênfase nas representações e na psicologia social. Em contraste com trabalhos que seguem os princípios clássicos de Labrousse (ex. aqui: Adeline Daumard – A burguesia parisiense de 1815-1848): espaço geográfico delimitado, período longo, quantitativismo, fontes seriais, etc.




  • Entretanto, há diferenças entre este trabalho precursor e o método atual de pesquisa sobre as elites francesas: não tenta construir “biografias sociais”, caracterização dos indivíduos citados é sumária, não há cruzamento de dados, nem análises exaustivas de todos aspectos sociais da população selecionada. Na questão da escolha entre a extensão e a abrangência de uma amostra, Tudesq escolhe a primeira (em conformidade com Labrousse), enquanto trabalhos posteriores fazem o contrário.




  • Cita autores de uma “segunda fase” da história das elites: L. Bergeron, J. Tulard e G. Thullier, L. Girard, M. Agulhon, A. Corbin, etc. Esta segunda geração de trabalhos possui a tendência a abandonar uma problemática política por um recorte sociológico em termos de corpos administrativos e de instituições escolares. “Os estudos das elites podem vincular-se a um grande corpo administrativo do Estado ou a uma grande escola” (institutos superiores de alto prestígio) (p.25).




  • Elites intelectuais: podem ser percebidas coletivamente como uma corporação intelectual, contra a visão idealista e individualista tradicional. Ensejou a produção, “nos últimos 10 anos”, de prosopografias que associam diversos métodos de abordagem e delimitação das elites. Esquematização que comporta riscos, os quais tentaram ser evitados pelos trabalhos mais recentes.

Profissões burguesas (p.26-29):



  • Pesquisas sobre a burguesia abandonaram progressivamente o viés labroussiano por recortes sociológicos próximos daqueles utilizados nos estudos de elite. Exemplo: comparação dos procedimentos de Chaline e Daumard. Ambos partiram da problemática, simples, de estudar o meio social dominante de uma cidade grande em todas as suas dimensões (uma história social total), mas Chaline, devido a seu método cada vez mais prosopográfico passou a insistir mais sobre as hierarquias internas ao meio burguês (não mais verticais, mas horizontais).




  • Há preferência predominante na historiografia francesa acerca das elites, em relação às elites públicas ou grupos burgueses mais ligados à esfera pública, mais suscetíveis de revelar os efeitos das mudanças políticas, devido à comodidade de acesso às fontes e ao peso do Estado na organização das hierarquias pós-revolucionárias.




  • No entanto, existe outra corrente, não diretamente influenciada por preocupações políticas, mas que busca, através da análise da burguesia econômica, as causas das particularidades do processo de industrialização da França e do desenvolvimento do capitalismo.




  • Mais difícil que o recorte horizontal, é o recorte vertical: “onde começam e onde terminam as elites?”




  • Abordagem em termos de grandes corpos administrativos ou escolas soluciona, em um primeiro momento, esta questão, mas não no tocante à elites menos rígidas, como o patronato, intelectuais, políticos. Assim, tornam-se delicadas as pesquisas sobre uma burguesia de profissões, visto que a maior parte destas profissões se estende na hierarquia social das classes médias até a elite.




  • Cita alguns trabalhos dentro da perspectiva mais nova, que utilizam um modelo mais afinado com a história das elites: Estudos sobre a realidade ou os limites da mobilidade social; e também sobre a permanência ou evolução dos valores culturais dentro das classes médias;




  • Profissões cujos limites são difíceis de se definir (artistas, escritores, intelectuais em geral), através de pesquisas sociológicas. Contribuições ao estudo da mobilidade social, através dos cortes transversais que realizam, ignorando as estratificações clássicas, e evidenciando dinâmicas internas da burguesia;




  • Não definição da burguesia como objeto, mas pelas relações sociais. Contribui ao estudo das classes dominantes (fontes oriundas dos meios dirigentes – permitem perceber o olhar e as mentalidades das classes dominantes). Influência de Foucault: invenção de novas fontes e campos de trabalho antes negligenciados.

Tentativa de avaliação de conjunto (p.30):



          • 2 questões: “A mudança de perspectiva em relação aos meios burgueses ou às elites, em curso nos últimos 15 ou 20 anos, resolveu os problemas de método que a antiga abordagem quantitativa colocava?” e “A mudança de perspectiva renovou nossa visão da sociedade burguesa ou dos meios dirigentes?”.

Questões de método (p.30-31):



          • 3 fatores condicionam a resposta à primeira questão: a) fascinação da temática do poder: analisar as elites é procurar penetrar em um dos meios que detém o poder e conhecer seus mecanismos concretos; b) outro atrativo é a combinação de uma abordagem objetivista e um substrato individualizado; c) certo “fetiche”, resultante do desenvolvimento dos meios informáticos, de introduzir todos os indivíduos no computador.




          • Questão da falta de síntese: trabalhos históricos nem sempre apresentam resultados comparáveis entre si.




          • A abordagem anterior (labroussiana) tomava a sociedade como um todo, usava fontes preparadas por outros (administração) e seu problema residia nas eventuais lacunas e na fiabilidade estatística. Os novos métodos colocam outros problemas: o historiador produz suas estatísticas (coleta dados cruza fontes, determina um questionário). Mas para Charle: “A multiplicidade das pequenas amostras, saturadas de informações, e se possível, comparáveis entre si ou com aquelas de outros historiadores, me parece preferível (...) ao tratamento exaustivo das grandes amostras com poucas variáveis” (p.31).

A contribuição dos novos métodos (p.31-33):



          • Insiste sobre o aporte positivo dos novos trabalhos. Talvez não foram tão inovadores quanto poderiam ter sido caso as pesquisas tivessem um cuidado de comunicação entre si para fazer avançar as teses seguintes. Mas certamente favoreceram um quadro mais nuançado das classes burguesas e dos diversos meios ou estratos que as compõem. “A história cega dos dominantes que era a história política clássica pode atualmente ser reinvestida graças a este aporte de mediações finas entre posição social, posição ideológica e dinâmica social” (p.32).

          • “Essas pesquisas permitem transferir o velho esquema de oposição aristocracia/ burguesia, contra o qual a história das elites foi inventada, para o interior das diversas frações da burguesia ou dos tipos de elite (...)” (p.32).


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