Charles berlitz



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CHARLES BERLITZ

ATLÂNTIDA O OITAVO CONTINENTE


Tradução NEWTON GOLDMAN
Título original: ATLANTIS THE EIGHTH CONTINENT

© 1984, by Charles Berlitz



EDITORA NOVA FRONTEIRA

Published by arrangement with G. P. Putnam's Sons. Ali rights reserved.

Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela

EDITORA NOVA FRONTEIRA S/A

Rua Maria Angélica, 168 — Lagoa — CEP: 22.461 - Tel.: 286-7822

Endereço Telegráfico: NEOFRONT — Telex: 34695 ENFS BR

Rio de Janeiro, RJ

Revisão


TERESA ELSAS

ASTROGILDO ESTEVES FILHO LÚCIA MOUSINHO


CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Berlitz, Charles Frambach.

B441a Atlântida: o oitavo continente / Charles Frambach Berlitz ; tradução de Newton Goldman. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Tradução de: Atlantis, the eighth continent

Bibliografia


1. Atlântida I. Título
84-0808 CDD - 398.234

Atlântida, o oitavo continente



A "palavra Atlântida tem sido uma senha para os sonhos", diz Charles Berlitz (que já se havia ocupado de outro mistério submarino em O triângulo das bermudas), razão que o levou a examinar o problema do Oitavo Continente, colocando-nos ante fenômenos muito mais estranhos e controversos do que os examinados naquele outro livro.

Das profundezas míticas do mar ressurge nestas páginas a Atlântida, o continente perdido de Platão. Berlitz explorou pessoalmente muitas áreas submarinas e comparou estudos provenientes de fontes objetivas, como companhias de exploração submarina de petróleo, agências espaciais e peritos em datação arqueológica. Utilizou até mesmo dados notáveis recolhidos por expedições marítimas soviéticas, empenhadas em encontrar localizações seguras para seus submarinos, em caso de uma guerra nuclear.

Estudos realizados nas últimas décadas fizeram recuar em centenas de milhares de anos a época do aparecimento do homem na Terra, antes fixado em cerca de 4.000 a.C. Esses estudos, baseados em muitas descobertas novas, fizeram com que a hipótese da existência de culturas avançadas, varridas da superfície terrestre por algum gigantesco cataclismo, perdesse seu caráter mítico para se transformar numa possibilidade concreta, confirmada pelos muitos fatos descritos por Charles Berlitz neste livro.

Ilustrado com dezenas de fotografias de estruturas submarinas e muitos desenhos, Atlântida, o oitavo continente é um reexame da evolução da civilização que leva até mesmo o leitor mais cético a refletir sobre esta nova e convincente contribuição para a história do homem moderno.

SUMARIO
Apresentando um continente perdido, 8

Atlântida, um nome e uma lenda, 13

O fugidio horizonte da história, 21

O império insular antes do começo da história, 25

A força da memória coletiva, 52

O instável solo oceânico, 92

Os picos montanhosos da Atlântida, 100

Ruínas submarinas no Triângulo das Bermudas, 114

Dos céus e do espaço, inesperadas descobertas, 136

Informações de origem perdida, 157

As grandes ilhas sob o mar, 197

Enguias, focas, pássaros, camarões,

mastodontes e toxodontes, 226

Cometas, asteróides ou guerra final, 242

A ponte através do tempo, 259

Bibliografia, 273

AGRADECIMENTOS

Devo sinceros agradecimentos a quatro pessoas por sua contribuição a este livro no campo da pesquisa, informação, fotografia, mapeação e viagens de campo: Valerie Berlitz — autora, pesquisadora, editora e artista; Julius Egloff — oceanógrafo, cartógrafo marítimo e geólogo com muitos anos de experiência no mapeamento do solo oceânico; Herbert Sawinski — arqueólogo, explorador, piloto, mergulhador, capitão de navios, diretor do Museu de Arqueologia de Fort Lauderdale — que dirigiu recentes expedições marítimas e terrestres às ruínas descritas detalhadamente em diversos capítulos deste livro; e J. Manson Valentine, naturalista, paleontólogo, arqueólogo, explorador, mergulhador, conservador honorário do Museu de Ciência de Miami, pesquisador adjunto do Museu Bishop de Honolulu; o Dr. Valentine foi quem descobriu o Muro Bimini, como descrevo no Capítulo 8.

Em seguida, pessoas e instituições que deram importantes contribuições para este livro. Deve ficar explícito que elas não compartilham necessariamente as opiniões do autor em relação à realidade científica e arqueológica da Atlântida. Alexandre Bek, professor de estudos eslavos e lingüista. A família Benincasa, descendentes do cartógrafo do século XV. José Maria Bensaúde, presidente da companhia de navegação Navicore, Portugal e Açores. Gloria Cashin, matemática e geóloga. Comissão Regional de Turismo dos Açores. Lin Berlitz Davis, mergulhador e pesquisador. Adelaide de Mesnil, fotógrafa arqueóloga. Sara D. Donnelly, descendente, em quinta geração, de Ignatius Donnelly, Antônio Pascual Ferrández, escritor, historiador, filósofo e educador. Hamilton Forman, historiador, colecionador de instrumentos e objetos pré-colombianos. Charles Hapgood, historiador, cartógrafo, geólogo e escritor. A Sociedade Hispânica da América. O Governo da índia, através de seu Escritório de Assuntos Culturais. Ramona Kashe, pesquisadora-chefe de Charles Berlitz, Washington, Distrito de Colúmbia. Bob Klein, capitão de navios, mergulhador, fotógrafo. Martin Klein, mergulhador, inventor do Sonar Lateral Klein. Ivan Lee, arqueólogo, artista, escritor, editor. Jacques Mayol, escritor, explorador, mergulhador, detentor do recorde mundial de mergulho de profundidade sem garrafa. Musée de l’Homme, Paris. Museo de Arqueologia, Madri. William A. Moore, escritor e conferencista. Kenneth G. Peters, historiador. Dmitri Rebikoff, escritor, mergulhador, inventor da câmara submarina e do veículo de pesquisas submarinas Pegasus. Antônio Rivera, escritor e conferencista. Bruno Rizato, mergulhador e fotógrafo. Ivan Sanderson, escritor, naturalista, explorador e arqueólogo. Bonnie Sawinski, ilustrador e artista. John Sawinski, mergulhador e fotógrafo. Charlotte Schoen, bibliotecária-chefe da Fundação Cayce. Egerton Sykes, escritor, arqueólogo, explorador, editor e lingüista. Maxime Berlitz Vollmer, filóloga e mitóloga. Bob Warth, pesquisador, presidente da Sociedade de Investigações do Inexplicável. E por fim meu reconhecimento a William Thompson, editor deste livro, por seu estímulo e pelo cuidadoso trabalho de edição de Atlântida o oitavo continente.

Dedicado a todos os que acreditaram

na antiga lenda da Atlântida perdida

lenda que descobertas recentes



estão transformando em realidade.


1

APRESENTANDO UM CONTINENTE PERDIDO


Nas profundezas do oceano Atlântico, jazem os restos de um continente. A área dessa ilha-continente, que podemos chamar a oitava das divisões territoriais do mundo continental, ainda pode ser delineada pelas ilhas atlânticas, outrora picos de suas mais elevadas montanhas. Uma civilização se desenvolveu nessas enormes ilhas e se difundiu, através da conquista e da colonização, por toda a bacia atlântica e, mais além, até as ilhas e costas do Mediterrâneo. Milhares de anos antes do começo da história do Egito e da Mesopotâmia, essa civilização desapareceu no oceano Atlântico, deixando apenas colônias isoladas nos continentes circunvizinhos, as quais resultaram nas civilizações que consideramos os primórdios da história. Os nomes pelos quais essa terra perdida foi chamada na maior parte das línguas da Europa, da África do Norte e das Américas eram variações do nome Atlântida — lembrança rememorada pelo nome do oceano Atlântico, bem como das montanhas Atlas da África do Norte. Foi a Oeste da África do Norte e da Espanha que a lendária Atlântida supostamente existiu.

A imagem visionária e muitas vezes mística evocada pelo próprio nome Atlântida contribuiu para que esta fosse geralmente classificada como lenda, não obstante sua ampla aceitação por parte de estudiosos de todas as épocas e pelas descobertas oceânicas e arqueológicas dos últimos 100 anos. Se procurarmos a palavra Atlântida numa enciclopédia, certamente a encontraremos definida como lenda ou mito. Se procurarmos livros sobre a Atlântida no fichário de uma biblioteca dos Estados Unidos, nós os encontraremos catalogados, segundo a classificação do Sistema Decimal Dewey (398:2), na mesma categoria de dragões, gnomos, fantasmas e outras lendas. Talvez tenha chegado o momento de se fixar a realidade da Atlântida e a probabilidade de que sua existência tenha sido real para os povos de um mundo pré-histórico que, com seu desaparecimento, retornaram à condição de bárbaros.

Embora exista uma série de variantes do nome Atlântida e uma memória comum entre muitas tribos e povos primitivos em relação à sua antiga localização e seu subseqüente destino, a descrição deixada por Platão, filósofo grego que foi uma das fontes intelectuais da civilização ocidental, é a mais difundida entre estudiosos antigos e contemporâneos. Platão deixou em seus diálogos Crítias e Timeu uma descrição tão convincente da Atlântida que nos leva a duvidar de que a informação por ele transmitida pudesse ser apenas produto da imaginação, e não a descrição de uma terra que realmente existiu. Segundo Platão, o poderoso império da Atlântida desapareceu de repente em meio a uma guerra quando a ilha ou ilhas centrais, "numa noite e num dia terríveis", submergiram no oceano de nome derivado do seu. Desde então, há 11.500 anos, esse império se encontra no fundo do oceano, perdido e quase esquecido.

Mas será que o mundo realmente esqueceu a Atlântida? Os povos espalhados pelo mundo certamente que não. Por todo o litoral atlântico — de ambos os lados do oceano —, tribos e nações não puderam esquecer sua existência ou destino, e até retiveram na memória o nome de uma grande massa de terra no Atlântico. O nome, em grande número de línguas, quase sempre contém os sons A-T-L-N. Nações antigas tinham conhecimento de sua localização: tradições européias e africanas colocavam-na no oceano a oeste, enquanto tribos pré-colombianas das Américas a situavam no mar Oriental, isto é, no oceano Atlântico.

A reminiscência de uma pátria remota, de uma catástrofe final e da fuga de sobreviventes para outras partes do mundo foi mantida viva por milhares de anos através de variantes da história da Arca de Noé, comum a todos os povos antigos, embora atribuindo a Noé diferentes nomes. E assim como velhas crenças foram incorporadas a tradições mais recentes, existe uma teoria de que o Halloween* se refere a uma memória universal mais remota: a celebração do desaparecimento em massa de grande parte dos habitantes do mundo, mortos quando sua terra foi destruída por terremotos, incêndios e maremotos.

* A noite de 31 de outubro, véspera do dia de Todos os Santos, quando os celebrantes se fantasiam e assustam os vizinhos, tradição anglo-saxônica. (N. do T.)


Lembranças de um continente desaparecido parecem ser instintivamente compartilhadas até por animais. As enguias nadam dos rios europeus e americanos para se acasalarem nas florestas de algas marinhas do mar de Sargaço, onde um grande rio subaquático flui ao longo de seu antigo leito através do Atlântico. Aves, em suas migrações sazonais da Europa para a América do Sul, circulam por sobre a mesma área no Atlântico, talvez procurando, sem encontrar, o local onde seus ancestrais um dia descansaram.

A lembrança da Atlântida é também revivida por maciças e inexplicáveis ruínas existentes dos dois lados do Atlântico. São inexplicáveis não só por não sabermos quem as construiu, como também por serem tão grandes que sua construção por povos pré-históricos parece inconcebível. Além disso, um cuidadoso reexame de alguns objetos feitos pela mão do homem mostra que representam o emprego de técnicas e aparelhos mecânicos milhares de anos antes de estes serem inventados, segundo o esquema histórico geralmente aceito.

Talvez uma razão para a postura anti-Atlântida de muitos cientistas seja que mesmo a possibilidade de aceitação de uma Atlântida histórica acarretaria maciça e onerosa reavaliação da história, hoje cuidadosamente classificada numa série de compartimentos. A lenda ou mística da Atlântida tem sido aceita ou negada durante séculos. Autores vêm discutindo sobre o assunto desde o tempo de Platão — há 2.500 anos. Mas, qualquer que seja sua verdade essencial, a lenda desenvolveu sua própria realidade, contribuindo em muito para a descoberta do Novo Mundo, para a literatura de diversas nações, para o estudo da pré-história e para a exploração do fundo do mar.

Se as cidades douradas e as planícies férteis da Atlântida existiram um dia e foram repentinamente destruídas, então talvez estejamos completando o ciclo. Nos últimos 6 a 8 mil anos, nós, os povos da Terra, gradualmente construímos uma civilização mundial que mesmo hoje está à beira da destruição — pelo próprio homem, talvez, mas ainda assim destruição. Talvez o interesse atual pela Atlântida seja motivado por uma percepção instintiva dessa coincidência.

Nos dias de hoje, a busca de vestígios da Atlântida tornou-se mais realista do que teria sido possível no passado, englobando estudos de geologia, sismo-grafia, antropologia, lingüística e, logicamente, oceanografia. O estudo geral dos contornos litorâneos submersos, alterações nos níveis do mar e novos mapas feitos pelo sonar, além da exploração do solo oceânico, mostram agora que o oceano está consideravelmente mais profundo do que no final da última glaciação, de 11 mil a 12 mil anos atrás, coincidentemente dentro do mesmo esquema de tempo fornecido por Platão e outras fontes em relação à destruição e submersão da Atlântida. Alguma coisa ocorreu no mundo, naquela época, que fez o mar cobrir várias das ilhas oceânicas e contornos litorâneos continentais.

Nos últimos anos, várias partes perdidas da lenda da Atlântida encaixaram-se como peças de um gigantesco quebra-cabeça, tão antigo quanto o homem civilizado. Mas uma peça essencial e final seria a descoberta de prédios, templos, muros e estradas no fundo do mar, que indicariam a existência de uma civilização em terras ora submersas no oceano. Se essas ruínas, em tempos idos, fizeram ou não parte das lendárias cidades da Atlântida, chamá-las de atlântidas, como nome para o mundo perdido antes de a história se iniciar, não deixa de ter fundamento.

Ruínas de pedra maciça foram descobertas e fotografadas, e agora estão sendo examinadas, ao largo das costas dos Estados Unidos, México, Cuba, Venezuela, bem como nos bancos submersos das Baamas — assim como ruínas submersas estão sendo pesquisadas ao largo das costas da Espanha e das ilhas Canárias, do Marrocos, de Portugal e dos Açores, e sendo procuradas nas costas de outras ilhas do Atlântico e nos cumes e declives de montanhas marítimas que no passado afloravam acima do nível do mar. Essas ruínas não só se assemelham entre si como também são comparáveis a construções megalíticas que não pertencem a qualquer cultura conhecida e que aparecem em montanhas da América do Sul, nas costas da Europa e da Ásia ou em ilhas do Pacífico.

A antiga lenda parece tornar-se realidade — uma realidade que poderia ser de importância crucial para a sobrevivência do mundo contemporâneo e dos povos que o habitam.


2

ATLÂNTIDA, UM NOME E UMA LENDA


Nos últimos 2.500 anos, parte da população do mundo acreditou ter outrora existido, no meio do oceano Atlântico, aproximadamente entre a Espanha, a África e as Américas, uma ilha-continente atualmente submersa. Nessa grande ilha vivia uma população civilizada e empreendedora; havia grandes cidades, esplêndidos palácios, templos com teto de ouro, um intrincado sistema de canais que fornecia irrigação para os campos férteis, e movimentados portos a partir dos quais frotas mercantes e exércitos levavam comércio e cultura para ilhas em outros pontos do oceano, bem como para as costas da Europa e da América, a bacia do Mediterrâneo e mais além. Quando essa civilização atingiu o apogeu, foi repentinamente extinta por inundações, terremotos e pelas chamas de erupções vulcânicas. Desapareceu da história, sendo lembrada apenas nas lendas repetidas, através de sucessivas gerações, pelos descendentes dos que escaparam à catástrofe. O nome desse império insular era Atlântida.

Essa palavra é inconscientemente lembrada sempre que se fala no oceano Atlântico, cujo nome, derivado de Atlas ou Atlântida, chegou até nós vindo de uma época anterior à existência do oceano. Exterior, em contraposição ao mar Mediterrâneo (a "Terra Central"), que era bem familiar aos povos da bacia do Mediterrâneo.

Platão, autor da mais detalhada descrição sobre a Atlântida que nos foi legada pela Antigüidade, insistia em localizar esse continente, não no Mediterrâneo, mas a grande distância, em pleno Atlântico, além das "colunas de Hércules" (Gibraltar, na costa Sul da Espanha, e monte Atlas, no litoral Norte da África). Platão especificou que "a ilha era maior que a Líbia e a Ásia juntas, e constituía o caminho para outras ilhas, e dessas ilhas se podia atravessar o continente oposto, que circunda o verdadeiro oceano; pois este mar [o Mediterrâneo], que fica dentro dos estreitos de Hércules, é apenas um ancoradouro, possuindo uma entrada apertada [os estreitos de Gibraltar], enquanto a outra entrada é um mar verdadeiro e a terra em volta pode ser verdadeiramente chamada de continente".

Podemos concluir que o tempo corroborou satisfatoriamente a conclusão de Platão sobre "o continente oposto" (a América), 2 mil anos antes do seu descobrimento, ou redescobrimento, pelos europeus. A existência da Atlântida, contudo, ainda está longe de ser aceita pela maioria da comunidade científica, que teima em classificá-la de lenda ou mito, ou mesmo de farsa engendrada por Platão. Mas uma série de descobrimentos modernos ora em curso nas águas do oceano Atlântico parece provar que Platão estava essencialmente certo em seu relato sobre a "legendária" Atlântida, tal como em sua referência às Américas.

A Atlântida é geralmente apontada como lenda por várias razões, uma das principais sendo não se ter dela o mínimo identificável na superfície do oceano. É verdade, no entanto, que no local aproximado onde se acredita ter existido esse continente há atualmente diversos grupos de pequenas ilhas, tais como os Açores, as Canárias, a Madeira e, no Atlântico ocidental, as Baamas. É, portanto, possível que essas pequenas ilhas sejam os cumes montanhosos de uma grande massa de terra, suficientemente altos para terem mantido suas posições acima do nível do mar quando a maior parte da ilha, ou das ilhas, por ocasião de uma catástrofe global, submergiu ou foi tragada pela subida do oceano.

Outra razão compreensível para se considerar a Atlântida como mito ou lenda é que sua memória, embora bem preservada em tradições raciais e tribais ao redor do Atlântico e em outras partes do mundo, foi transmitida, de um passado muito remoto, por intermédio de lendas narradas e, mais tarde, transcritas. As lendas sofrem transformações quando recontadas: reis e chefes tornam-se deuses e semideuses (e, às vezes, demônios) dotados de poderes divinos; incidentes de história racial ou tribal crescem a proporções cósmicas; localizações geográficas tornam-se incertas e, no caso da Atlântida, indistintamente perceptíveis em meio aos nevoeiros do mar. Aqueles que, como Platão e seus contemporâneos próximos, compilaram o que hoje poderíamos classificar de relatórios de viagem acerca da Atlântida foram acusados de usar esses relatos como veículo literário destinado a difundir suas próprias teorias políticas e sociais a respeito de como o povo das cidades e nações de seu próprio continuum de tempo deveriam conduzir-se.

Aristóteles, um dos discípulos de Platão e fundador de sua própria escola de filosofia, foi responsável por violenta crítica contra o relato de Platão sobre a Atlântida, a qual atravessou os tempos e ainda é popular entre os membros do establishment científico, o qual considera a Atlântida um mito. Aristóteles, referindo-se a um corte repentino (não-retomado) na narrativa de Platão, observou: "Aquele que a inventou a destruiu." Mas Aristóteles, tendo conseguido para seu próprio gáudio destruir o conceito da Atlântida, sem querer contribuiu para a lenda quando acrescentou que marinheiros fenícios e cartagineses conheciam uma grande ilha no Atlântico ocidental a que chamavam Antilha. Talvez ele não tivesse percebido a semelhança entre as palavras Atlântida e Antilha, que adquiriram, desde então, respectivamente, certa imortalidade como nomes para o oceano e suas ilhas ocidentais.

O próprio som do nome do continente perdido poderia servir como teste para determinar o que é apenas lenda e o que se baseia em fatos reais. Se unirmos num grande círculo as terras que rodeiam o oceano Atlântico Norte e compararmos os nomes atribuídos pelos povos primitivos a uma ilha-continente outrora localizada no seu centro, encontraremos nomes muito semelhantes entre si, mas ainda bastante díspares lingüisticamente para fornecerem provas convincentes de uma memória comum.

Devemos o nome Atlântida ao mundo greco-romano, cujos escritores estavam familiarizados com a idéia e localização do continente perdido. As tribos do Noroeste da África próximas da costa atlântica eram até designadas por autores antigos como Atalantes, Atarantes e, pelos autores clássicos, como Atlantioi, como remanescentes dos colonizadores ou das populações coloniais da Atlântida. As tribos berberes da África do Norte conservam suas próprias lendas sobre At tala, um reino guerreiro ao largo da costa africana, com ricas minas de ouro, prata e estanho, e que enviava para a África não apenas esses metais, mas também exércitos conquistadores. A ítala está agora submersa no oceano, mas, segundo uma profecia, reaparecerá um dia.

Os antigos gauleses, assim como os irlandeses, os galeses e os celtas britânicos, acreditavam que seus antepassados tinham vindo de um continente que afundou no mar Ocidental, sendo que, destes, os dois últimos grupos étnicos chamavam esse paraíso perdido de Avalon.

Os bascos, uma ilha racial e lingüística no Sudoeste da França e Norte da Espanha, acreditam-se descendentes da Atlântida, a que chamam Atlaintika. É crença comum entre os portugueses que a Atlântida existiu, outrora, perto de Portugal e que alguns remanescentes seus, as ilhas dos Açores, ainda avançam seus cumes acima da superfície do mar. Os povos ibéricos do Sul da Espanha traçam um parentesco direto com a Atlântida, tornando-se cada vez mais cônscios de que a Espanha ainda possui o que pode ter sido parte do império atlante — as ilhas Canárias, onde, curiosamente, o nome Atalaya ainda é muito usado como topônimo e onde os habitantes primitivos, na época do seu descobrimento, proclamaram-se os únicos sobreviventes de um cataclismo de proporções mundiais.

Os vikings acreditavam que a Atlântida fosse uma terra encantada, situada a oeste, e também foi nesse lugar que as raças teutônicas colocaram o Walhalla, terra mítica onde se vivia em constantes lutas, bebedeiras e festividades. Os marinheiros fenícios e cartagineses eram notoriamente familiarizados com uma próspera ilha ocidental por eles chamada Antilla, mas procuraram manter em segredo o assunto por motivos de comércio e colonização.

Antigos hieróglifos egípcios mencionam Amenti, o paraíso ocidental, morada dos mortos e parte do sagrado barco do sol. Os babilônios chamavam seu paraíso ocidental de Arallu, e para os árabes da Antigüidade a primeira civilização era a terra de Ad, localizada no oceano Ocidental. (É o caso de nos perguntarmos se o Pentateuco bíblico ou a Tora, ao se referirem a Adão, não estariam talvez aludindo à tradição de Ad. Representaria Adão uma alegoria do primeiro homem ou seria Ad-Am a primeira raça civilizada?)

Existem surpreendentes referências nos antigos clássicos indianos, os Puranas e o Mahabharata, a Attala — "A Ilha Branca" —, continente localizado no oceano Ocidental, meio mundo distante da índia. A localização aproximada de Attala no oceano Ocidental, quando convertida segundo as antigas divisões indianas do mundo, recaía, conforme a latitude, numa linha horizontal que atravessava as ilhas Canárias e as Baamas. (Essa linha também atravessa o sítio da lendária Atlântida.) Nesses e em outros textos, a palavra Atyantika é empregada em relação a uma catastrófica destruição final.

Quando os conquistadores espanhóis da América Central e do Sul chegaram ao México, logo souberam que os astecas se acreditavam originários de Aztlán, uma ilha no que para eles era o oceano Oriental. A palavra asteca pode ter derivado de Aztlán, concepção que os espanhóis estavam prontos a aceitar, porquanto muitos deles acreditavam que os habitantes do Novo Mundo poderiam ser os descendentes da Atlântida e, por isso mesmo, herdeiros incontestáveis do trono de Espanha, através da outrora estreita ligação da península Ibérica com o continente perdido.


Figura 1 Desenho glífico asteca de Aztlán, a ilha montanhosa no mar Oriental, da qual se acredita que os astecas tenham vindo. Esse desenho foi feito no estilo antigo, acrescido do alfabeto latino.
Por todo o México, e descendo a costa da América Central e a parte Norte da América do Sul, continuamos a encontrar remanescentes do obsedante nome Atlântida — no México, Tlapallan, Tollan, Azatlán e Aztlán. Mais ao sul, na Venezuela, os conquistadores descobriram um povoado de nome Atlán, a cujos habitantes se referiam como "índios brancos". As tribos indígenas da América do Norte também recordavam tradições segundo as quais seus ancestrais tinham vindo de uma ilha do Atlântico, geralmente citando um nome parecido com Atlântida. Os primeiros exploradores encontraram no que hoje é o Wisconsin, nos Estados Unidos, uma aldeia fortificada perto do lago Michigan, à qual os seus habitantes chamavam Azatlán.

Todos esses nomes semelhantes para uma ilha-continente ou terra perdida não constituem prova cabal de sua existência; indicam, porém, firmemente que a Atlântida não era um artifício literário de Platão. Essas lendas são muito antigas e vêm de pontos muito distantes do mundo, até então sem qualquer comunicação entre si no espaço de tempo a que chamamos história. Até as lendas das ilhas do Pacífico, embora não citem a Atlântida nominalmente, falam do afundamento de grandes massas de terra no Pacífico, numa época em que a terra tremeu, algumas ilhas desapareceram no oceano e outras, grandes, ficaram pequenas.




Figura 2

Colunas ainda de pé em Tula, México, atribuídas à civilização tolteca, pré-asteca. Essas colunas sustentavam outrora as lajes de pedra do telhado do templo, das quais eram o suporte. Essas colunas de suporte, com figuras humanas, são chamadas atlantes, referência a Atlas, que sustentava o mundo. O mito de Atlas tem correspondente no México, onde uma das funções de Quetzalcoatl é sustentar o céu, conceito de grande poder, talvez uma alusão lendária ao poder do antigo continente da Atlântida (Figura 2)


É exatamente essa questão do "desaparecimento" de terras que se tornou uma pedra angular para os críticos da teoria da Atlântida. Embora um crescente número de cientistas venha tendendo a aceitar a possibilidade de importantes modificações da Terra durante a existência do homem "moderno" sobre a mesma, uma grande maioria continua afirmando que não houve importantes catástrofes mundiais (exceto no tocante a erupções vulcânicas e ao desaparecimento de algumas ilhas) por vários milhões de anos.

A divulgação da pesquisa científica e a introdução de dados científicos como que opõem uma barreira e destroem a lógica de futuras investigações sobre a Atlântida. Além disso, a teoria da deriva continental, atualmente aceita como verdade, não parece confirmar que ela tenha existido em pleno oceano.

Da mesma forma, qualquer suposição sobre a existência anterior de impérios mundiais teria de se fundamentar na real descoberta e datação de produtos manufaturados. Mas dentro do quadro temporal da Atlântida, de mais de 11 mil anos até os dias de hoje, nenhum desses objetos foi até agora identificado, datado e classificado para satisfazer a comunidade arqueológica.

Contudo, a própria capacidade da ciência moderna freqüentemente oferece uma série de soluções. As mesmas técnicas de investigação empregadas por pesquisadores certamente não-preocupados com a realidade da Atlântida acabaram, inadvertidamente, por reabrir, nos últimos anos, através de mapeamento subaquático, exploração, fotografias da Terra feitas por satélites, progressos culturais, lingüísticos e arqueológicos, a controvérsia sobre o continente perdido. Os instrumentos mais recentes da ciência moderna nos reconduziram no tempo ao estudo mais aprofundado de uma pujante civilização que existiu milhares de anos antes da Babilônia.


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