Charles Richet Tratado de Metapsíquica Traduzido do Francês Traité de metapsychique



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Charles Richet
Tratado de Metapsíquica
Traduzido do Francês

Traité de metapsychique

1922


Eugène Bodin

Barcos no Ancoradouro

Conteúdo Resumido

O Tratado de Metapsíquica, é uma verdadeira narração de fatos e descrições pormenorizadas de experiências psíquicas, descrições históricas e classificatórias e são divididos nos fenômenos metapsíquicos objetivos (1 - Telecinesia, que é uma ação mecânica sem atuação e sem contato sobre objetos ou pessoas (raps, levitação, movimentação de mesas, escrita direta, transporte de objeto, casas assombradas, etc) 2 - A Ectoplasmia, que é a formação de objetos diversos, que parecem sair do corpo humano, tomam aparência material e são tangíveis (materializações de objetos e seres com aparência dos que já viveram na Terra.) e nos fenômenos metapsíquicos subjetivos (Telepatia, Clarividência, Clariaudiência, Xenoglossia, Psicografia).

A sua maior contribuição, sem sombra de dúvida, foi o estudo do ectoplasma, substância responsável pela viabilidade dos fenômenos ditos objetivos. Foi ele quem, pela primeira vez, denominou a substância que emanava dos médiuns de efeitos físicos de ectoplasma, naquele momento referindo-se aos fluidos que emanavam de Eusápia Paladino (uma das maiores médiuns da história do Espiritismo)
Sumário

A Passagem de Richet

Antelóquio

Prefácio da Segunda Edição

Livro Primeiro - Da Metapsíquica em Geral

Livro Segundo - Da Metapsíquica Subjetiva

Cap. I - Metapsíquica Subjetiva em Geral

Cap. II - Da Criptestesia (Ou Lucidez) em Geral

Cap. III - Criptestesia Experimental

Cap. IV - A Varinha Mágica

Cap. V - Metapsíquica Animal

Cap. VI – Monições

Cap. VII – Premonições

Livro Terceiro - Metapsíquica Objetiva em Geral

Cap. I - Metapsíquica Objetiva em Geral

Cap. II - Movimentos dos Objetos (Telecinesia)

A Passagem de Richet

O Senhor tomou lugar no tribunal da sua justiça e, examinado os documentos que se referiam às atividades das personalidades eminentes sobre a Terra, chamou o Anjo da Morte, exclamando:

- Nos meados do século findo partiram daqui diversos servidores da Ciência que prometeram trabalhar em meu nome, no orbe terráqueo levantando a moral dos homens e suavizando-lhes as lutas. Alguns já regressaram, enobrecidos nas ações dignificadoras, desse mundo longínquo. Outros, porém, desviaram-se dos seus deveres e outros ainda lá permanecem, no turbilhão das duvidas e das descrenças, laborando no estudo.

- Lembras-te daquele que era aqui um inquieto investigador, com as suas análises incessantes, e que se comprometeu a servir os ideais da Imortalidade, adquirindo a fé que sempre lhe faltou?

- Senhor, aludis a Charles Richet, reencarnado em Paris, em 1850, e que escolheu uma notabilidade da medicina para lhe servir de pai?

- Justamente. Pelas notícias dos meus emissários, apesar da sua sinceridade e da sua nobreza, Richet não conseguiu adquirir os elementos de religiosidade que fora buscar em favor do seu próximo. Tens conhecimento dos favores que o Céu lhe tem adjudicado no transcurso da sua existência?

- Tenho, Senhor. Todos os vossos mensageiros lhe cercaram a inteligência e a honestidade com o halo da vossa sabedoria. Desde os primórdios das suas lutas na Terra, os gênios da imensidade o rodeiam com o sopro divino de Tuas inspirações. Dessa assistência constante lhe nasceram os poderes intelectuais, tão cedo revelados no mundo. A sua passagem pelas academias da Terra, que serviu para excitar a potência vibratória da sua mente, em favor da ressurreição do seu tesouro de conhecimentos, foi acompanhada pelos vossos emissários com especial carinho. Ainda na mocidade, lecionou na Faculdade de Medicina, obtendo a cadeira de fisiologia. Nesse tempo, já seu nome, com os vossos auxílios, estava cercado de admiração e respeito. As suas produções granjearam-lhe a veneração e a simpatia dos seus contemporâneos. De 1877 a 1884, publicou estudos notáveis sobre a circulação do sangue, sobre a sensibilidade, sobre a estrutura das circunvoluções cerebrais, sobre a fisiologia dos músculos e dos nervos, perquirindo os problemas graves do ser, investigando no círculo de todas as atividades humanas, conquistando o seu nome a admiração universal.

- E em matéria de espiritualidade - replicou austeramente o Senhor - que lhe deram os meus emissários e de que forma retribuiu o seu espírito a essas dádivas?

- Nesse particular - exclamou solícito o Anjo - muito lhe foi dado. Quando deixastes cair, mais intensamente, a Vossa luz sobre os mistérios que me envolvem, ele foi dos primeiros a receber-lhe os raios fulgurantes. Em Carqueiranne, em Milão e na Ilha Roubaud, muitas claridades o bafejaram, junto de Eusápia Paladino, quando o seu gênio se entregava a observações positivas; com os seus colegas Lodge, Myer e Sidgwick. De outras vezes, com Delanne, analisou as célebres experiências de Alger, que revolucionaram os ambientes intelectuais e materialistas da França, que então representava o cérebro da civilização ocidental.

"Todos os portadores das vossas graças levaram as sementes da Verdade à sua poderosa organização psíquica, apelando para o seu coração, a fim de que ele afirmasse as realidades da sobrevivência; povoaram-lhe as noites de severas meditações, com as imagens maravilhosas das Vossas verdades, porém apenas conseguiram que ele escrevesse o "Tratado de Metapsíquica", um estudo proveitoso a favor da concórdia humana e o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1913.

"Os mestres espirituais não desanimaram nem descansaram nunca em torno da sua individualidade; mas apesar de todos os esforços despendidos, Richet viu, nas expressões fenomenológicas de que foi atento observador, apenas a exteriorização das possibilidades de um sexto sentido nos organismos humanos. Ele que fora o primeiro organizador de um dicionário de fisiologia, não se resignou a ir além das demonstrações histológicas. Dentro da espiritualidade, todos os seus trabalhos de investigador se caracterizam pela dúvida que lhe martiriza a personalidade. Nunca pôde, Senhor, encarar as verdades imortalistas, senão como hipóteses, mas o seu coração é generoso e sincero. Ultimamente, nas reflexões da velhice, o grande lutador se veio inclinando para a fé, até hoje inacessível ao seu entendimento de estudioso. Os vossos mensageiros conseguiram inspirar-lhe um trabalho profundo, que apareceu no planeta como “A Grande Esperança” e, nestes últimos dias, a sua formosa inteligência realizou para o mundo uma mensagem entusiástica em prol dos estudos espiritualistas."

- Pois bem - exclamou o Senhor - Richet terá de voltar agora a penates. Traze de novo aqui a sua individualidade para as necessárias interpelações.

- Senhor, assim tão depressa? - retomou o Anjo, advogando a causa do grande cientista. - O mundo vê em Richet um dos seus gênios mais poderosos, guardando nele sua esperança. Não conviria protelar a sua permanência na Terra, a fim de que ele vos servisse, servindo à Humanidade?

- Não - disse o Senhor tristemente. - Se, após oitenta e cinco anos de existência sobre a face da Terra, não pôde reconhecer, com a sua ciência, a certeza da imortalidade, é desnecessária a continuação de sua estada nesse mundo. Como recompensa aos seus esforços honestos em benefício dos seus irmãos em humanidade, quero dar-lhe agora, com o poder do meu amor, a centelha divina da crença, que a ciência planetária jamais lhe concedeu nos seus labores ingratos e frios.


*
No leito de morte, Richet tem as pálpebras cerradas e o corpo na posição derradeira, em caminho da sepultura. Seu espírito inquieto de investigador não dormiu o grande sono.

Há ali, cercando-lhe os despojos, uma multidão de fantasmas.

Gabriel Delanne estende-lhe os braços de amigo. Denis e Flammarion o contemplam com bondade e carinho. Personalidades eminentes da França antiga, velhos colaboradores da "Revista dos Dois Mundos", cooperadores devotados dos "Anais das Ciências Psíquicas" ali estão para abraçarem,o mestre, no limiar do seu túmulo.

Richet abre os olhos para as realidades espirituais que lhe eram desconhecidas. Parece-lhe haver retrocedido às materializações da Vila Carmen; mas, ao seu lado, repousam os seus despojos, cheios de detalhes anatômicos. O eminente fisiologista reconhece-se no mundo dos verdadeiros vivos. Suas percepções estão intensificadas, sua personalidade é a mesma e, no momento em que volve a atenção para a atitude carinhosa dos que o rodeiam, ouve uma voz suave e profunda, falando do infinito:

- Richet - exclama o Senhor no tribunal da sua misericórdia - por que não afirmaste a Imortalidade, e por que desconheceste o meu nome no seu apostolado de missionário da ciência e do labor? Abri todas as portas de ouro, que te poderia reservar sobre o mundo. Perquiriste todos os livros. Aprendeste e ensinaste, fundaste sistemas novos do pensamento, à base das dúvidas dissolventes. Oitenta e cinco anos se passaram, esperando eu que a tua honestidade me reconhecesse, sem que a fé desabrochasse em teu coração... Todavia, decifraste, com o teu esforço abençoado, muitos enigmas dolorosos da ciência do mundo e todos os teus dias representaram uma sede grandiosa de conhecimentos... Mas, eis, meu filho, onde a tua razão positiva é inferior à revelação divina da fé. Experimentaste as torturas da morte com todos os teus livros e diante dela desapareceram os teus compêndios, ricos de experimentações no campo das filosofias e das ciências. E agora, premiando os teus labores, eu te concedo os tesouros da fé que te faltou na dolorosa estrada do mundo!

Sobre o peito do abnegado apóstolo desce do Céu um punhal de luz opalina como um venábulo maravilhoso de luar indescritível.

Richet sente o coração tocado de luminosidade infinita e misericordiosa, que as ciências nunca lhe haviam dado. Seus olhos são duas fontes abundantes de lágrimas de reconhecimento ao Senhor. Seus lábios, como se voltassem a ser os lábios de um menino, recitam o "Pai Nosso que estais no Céu..."

Formas luminosas e aéreas arrebatam-no, pela estrada de éter da eternidade e, entre prantos de gratidão e de alegria, o apóstolo da ciência caminhou da grande esperança para a certeza divina da Imortalidade.

Humberto de Campos

(Espírito)

(Recebida em Pedro Leopoldo a 21 de janeiro de 1936,

por Francisco Cândido Xavier)

Antelóquio

Não verão os seus propósitos realizados aqueles que neste livro esperarem encontrar considerações nebulosas acerca dos destinos do homem, da magia e da teosofia. Tudo fiz por escrever um livro de ciência e não de devaneios. Contento-me, pois, com a exposição dos fatos e com a discussão de sua realidade, não sem pretender colimar uma teoria, se bem que com prejuízo de outras teorias, porque aquelas que, até o presente momento, foram propostas em metapsíquica, me parece serem de uma fragilidade desconsoladora.

É coisa possível, porque tem probabilidade, que uma teoria viável possa um dia ser apresentada. Mas o momento azado ainda não apareceu, visto se contestarem fatos sobre os quais se levantaria uma teoria qualquer. É preciso, pois, antes de mais nada, alinhar os fatos, apresentá-los em seu conjunto e com pormenores, para então se cuidar de condições. É o nosso dever indiscutível: é até o nosso único dever.

A missão é, ademais, muito espinhosa. Realmente, uma vez que se trata de fenômenos um tanto incomum, o público e os sábios conjuraram entre si negá-los, tão simplesmente, sem exame.

Não obstante, os fatos existem: são numerosos, autênticos, brilhantes. Achar-se-ão, no decorrer das páginas desta obra, exemplos tão abundantes, tão precisos, tão demonstrativos, que não percebo como um sábio de boa-fé, consentindo na verificação deles, possa ousar por todos em dúvida.

Pode-se, em três palavras, resumir os três fenômenos fundamentais que constituem essa nova ciência:

1.°- Acriptestesia (a lucidez dos autores antigos), ou seja, a faculdade de conhecimento diferente das faculdades sensoriais normais de conhecimento.

2.°- A telecinesia, ou seja, uma ação mecânica diferente das forças mecânicas conhecidas, a qual, em determinadas condições, tem, à distância, atuação sem contato sobre objetos ou pessoas.

3.° - A ectoplasmia (a materialização dos autores antigos), ou seja, a formação de objetos diversos, os quais, as mais das vezes, parece saírem do corpo humano e tomam a aparência de uma realidade material (vestuário, véus, corpos vivos).

Aí está toda a metapsíquica. Quer-me parecer que ir até lá é já ir muito longe. Ir mais adiante - não o pertence ainda à ciência. Mas desejo eu que a ciência, a severa e inexorável ciência, admita esses três estranhos fenômenos por ela não reconhecidos até o presente instante.

Escrevendo este livro à maneira dos tratados clássicos das outras ciências, tais como a física, a botânica, a patologia, quisemos tirar aos fatos, aos quais chamam ocultos, e dos quais muitos indiscutivelmente são reais, a aparência sobrenatural e mística que lhes emprestaram pessoas que nada sabem deles. (1)

(1) Para a bibliografia, que absolutamente não tem a pretensão de ser completa, adotou-se a abreviação A.S.P. para os Anales des sciences psychiques e P.S.P.R. para os Proceedings of the Society for psychical Research, J.S.P.R. para o Journal of the Society for psychical Research, Am. S.P.R. para o Proceeding of the American Society for psychical Research.

Prefácio da Segunda Edição

Levei a cabo a primeira edição deste livro com a exposição de diversas novas experiências realizadas tanto por mim como por outros autores a respeito da criptestesia e da ectoplasmia. As mais recentes experiências postas em prática com Stéphane Ossovietzki são tão decisivas que parece não permitirem a mais leve incerteza a propósito da criptestesia.

Foi-me endereçada uma reprimenda, cuja importância reconheço: é que numerosas experiências ou observações indicadas no meu livro deviam ter sido abreviadas, sintetizadas, por assim dizer, o que lhe empresta grande força probatória. As últimas monições que relaciono são encurtadas, mutiladas, e isto é de mau agouro, porque uma relação, por muito demonstrativa que seja quando é complexa, deixa de o ser, à medida que a resumimos.

Sem dúvida nenhuma. Porém eu tinha que escolher entre dois métodos: de uma parte, a relação de alguns fatos, pouco numerosos, escolhidos com cuidado e expostos nos seus mais minuciosos e persuasivos detalhes; de outra parte, a acumulação de fatos numerosos, diversos, interessantes tanto pela sua multiplicidade quanto pela sua variedade. Ora pois: preferi o segundo método, porque as pessoas que desejarem ir mais além num pormenor de tal ou tal experimentação, de tal ou tal monição, poderão consegui-lo a qualquer tempo nas fontes (indicadas por mim). Nestas condições, a imperfeição das informações não é senão aparente, podendo-se facilmente supri-la.

Disseram-me ainda - porém reputo esta crítica como um elogio - que me abstive demasiadamente de teorias; que, apontando fatos sem contudo chegar a uma conclusão, estava a caminho de contradições que davam muito à vista. Se eu tivesse apresentado uma teoria encomendada de antemão, pondo de lado o que fosse inconveniente, ampliando o que fosse favorável, dissimulando os argumentos incômodos, transformando as meias provas em provas inteiras - certo é que teria evitado tais contradições. Em vista do exposto, as objeções que me foram endereçadas não me abalaram, em absoluto: apresentei-as a mim próprio e talvez até com maior severidade do que o fizeram os meus críticos. Não há que ver (ai de mim!) que a metapsíquica está ainda nos seus primeiros passos. Toda teoria completa, metódica, inexorável, está, nos dias de hoje, condenada a não ser senão um doloroso erro.(1)



(1) - E não falo, vê-se logo, nas críticas injustas, incompletas, inexistentes. No Mercure de France, cita-se a experiência F.N.T.B.T. (pág. 208 do meu livro) e acham-na muito ruins. Porém o anônimo que me criticou suprimiu simplesmente isto: "Se indico esta experiência, a qual, ao lado das mais belas experiências que mencionei acima, é terrivelmente medíocre, não é para causar impressão. É para mostrar que o cálculo das probabilidades é de grande utilidade".

Afirmo, pois, que a experiência é terrivelmente (digo terrivelmente) medíocre, que não é para causar impressão, que é dada tão só para ilustrar a aplicação do cálculo das probabilidades. E, sem mencionarem tais reservas assacam-me uma condenação!

Muitos outros críticos têm o mesmo naipe de valor. É inútil insistir. - Página 241 desta tradução. (Nota dos tradutores).

Ernesto Bozzano, cuja opinião me interessou bastante, reprochou-me severamente por ter separado a metapsíquica objetiva da metapsíquica subjetiva, porque, segundo ele, estes dois capítulos da metapsíquica são na realidade os que mais se confundem.

Não posso partilhar de sua opinião. Parece-me, ao contrário, que sob o ponto de vista didático, essa separação, que é nova, constitui pelo menos um progresso incontestável.

Demais, a especialização, entre os diversos médiuns, é quase sempre completa. Eusapia Paladino, por exemplo, ou Marthe Béraud, são médiuns de efeitos físicos, exclusivamente. E não me consta que a Senhora Piper tenha jamais produzido fenômenos físicos materiais.

Algumas vezes, é verdade, certos médiuns, como Home, como Kluski, como Stainton Moses, como a Senhora d'Espérance, são dotados de duas mediunidades reunidas; mas cometer-se-ia erro grave considerá-las como ligadas fatalmente uma à outra. A produção de luzes ou de ectoplasma é extremamente rara, tanto que muitas pessoas, hipnotizáveis ou não, têm clarões de lucidez. Essas criptestesias passageiras, irregulares, intermitentes, imperfeitas, são muito comuns. Ousarei quase dizer que não há ninguém que, no decurso de sua vida, não as tenha tido. De modo diverso isto se processa com as ectoplasmias, porque talvez não haja no mundo, na atualidade, vinte pessoas que sejam capazes de obter qualquer ação a distância sobre a matéria (salvo talvez por intermédio das pancadas; porém o estudo das pancadas deverá ser encarado com um cuidado maior do que aquele que se lhe tem dispensado até os nossos dias).

Além do mais, os métodos de investigação para os dois metapsiquistas são, sem discrepância, diferentes, e só isto deveria ser suficiente para justificar a nossa classificação.

Por outro lado, pender-me-ia a crer que um dos resultados essenciais do meu livro é o de ter estabelecido claramente essa necessária distinção.

O que de boa mente concordo com Bozzano é sobre os progressos que talvez nos conduzirão a estabelecer alguma relação entre as duas espécies de fenômenos que, até agora, ainda não se ajustaram. Nada nos parece menos intelectual, salvo raras exceções, do que os grosseiros fenômenos de ectoplasmia, monótonos, desprovidos de significação e até de bom senso.

Em definitivo, na opinião quase unânime de todos os críticos, que se tenham ou não dado conta da coisa, a dissociação entre a metapsíquica objetiva e a metapsíquica subjetiva se realizou de modo completo. Isto quer dizer que o juízo que se forma de uma divisão pode talvez ser diferente do que se forma da outra.

1. ° Aceitam-se os fatos da metapsíquica subjetiva.

2.° Contrariam-se e de modo geral se negam, os fatos da metapsíquica objetiva.
I. Os fenômenos de lucidez, telepatia, criptestesia, monições, são tão numerosos, tão probantes, que não há como negá-los. Além dos casos de Aléxis Didier, Sras. Piper e Léonard, e de centenas de outros, todos demonstrativos, há ainda os da Senhora Briffaut e sobretudo os de Ossovietzki, que são decisivos.

Talvez a opinião pública fosse preparada contra a metapsíquica subjetiva, quer em razão da hipótese da telepatia, acolhida desde o princípio sem nenhum desfavor e tornada quase popular, quer em razão dos admiráveis fenômenos da telegrafia sem fio. A verdade é que hoje não há absolutamente nenhuma oposição intransigente contra a proposição por mim apresentada e que de novo apresento sob a mais simples das formas, a qual exclui toda hipótese, espírita ou que quer que seja:

A inteligência humana possui outros condutos de conhecimento além daqueles dos sentidos normais.

O Senhor Léon Daudet, crítico mordaz, cuja má vontade para conosco ressalta a olhos vistos, chegou mesmo a dizer mais ou menos (faço uma citação de memória) que de modo algum se negava a admitir esta extensão dada à inteligência humana. É pouco mais ou menos assim que se pensa geralmente, de sorte que as indignações, as zombarias e os críticos dispuseram o público contra a metapsíquica objetiva, os ectoplasmas, os fantasmas. Nada ou quase nada se tem dito contra a lucidez e a criptestesia.

Isto é acontecimento para consideração cuja importância não devemos dissimular.

Podemos contar na certa com uma furiosa oposição tão logo se apresentam ao público, científico ou não-científico, os fatos já por si novos e estranhos como o são os metapsíquicos. Já é conseguir muito fazer com que a metade das novas concepções seja aceita.

Ora esta primeira metade não está quase mais em discussão, não porque a tenham declarado como verdade científica adquirida, oficialmente reconhecida, mas porque não falam dela nem mais lhe opõem sarcasmos ou negações.

Se o meu livro tivesse por único objetivo fazer com que fosse aceita pela ciência essa probabilidade revolucionária que há no universo das vibrações desconhecidas, que atuam no organismo humano para determinar na inteligência humana, certos conhecimentos que os sentidos normais não lhe podem ministrar, estimaria então saber que tinha feito obra útil. Na hora presente, a aquiescência não tem necessidade nenhuma de ser formal: a aquiescência sem mais delongas é o suficiente.

Em conclusão, não mais tenho que defender esta proposição (que repito ainda para melhor caracterizá-la e mostrar o seu valor).

Vibrações há (forças) no universo, que mexem com a nossa sensibilidade e determinam certos conhecimentos da realidade - o de que são incapazes os nossos sentidos normais.

Ora, isso, se bem o não queira o Sr. Bozzano, não é uma hipótese: é um fato.

E não sou daqueles que dizem: nada representa um fato se o não podemos explicar nem lhe dar uma teoria. Tenho de mim para mim, ao contrário, que esta probabilidade, nova e formidável, é uma revolução na psicologia. Quem nos poderá afirmar que ela não irá mesmo para mais longe?

Até o instante atual o esforço da ciência se tem restringido a provar o fato. Para o futuro, será permitido procurar as modalidades, assinalar os limites, aprofundar as condições. Embora nos limitemos à psicologia, sem nos aventurarmos na física geral ou na sociologia, percebe-se que estamos à flor d'água de uma nova psicologia. E, como o acabamos de dizer, ela é formidável. Toda a psicologia vai, por inteiro, ser modificada, e não podemos prever as conseqüências dessa modificação. O que há, com efeito, de admirável na ciência, é que à medida que ela solta um dos elos da enorme cadeia misteriosa, aparecem outros, cuja extravagância e beleza não puderam ser pressentidas pela nossa fraca intelectualidade. Cada progresso científico é uma brecha no insondável.

Em resumo, a metapsíquica subjetiva penetrou definitivamente no cadinho inexorável da ciência.


II. O que há com a metapsíquica objetiva se passa de modo diverso.

Antes de mais nada, os fenômenos objetivos da metapsíquica são extremamente raros, prodigiosamente raros. Os médiuns de efeitos físicos são em número muito reduzido. Pode-se apenas citar uma dúzia daqueles que se prestam a verificações rigorosas, de maneira que a experimentação não pode ser feita senão com um número assaz restrito de pacientes, e mesmo isso em condições que deixam larga margem à suposição de fraude: por exemplo, a obscuridade. Daí se chega a uma conclusão simplista: "nada há senão fraude".

E fica a gente autorizada a ter dúvidas: porque muitas vezes os grandes médiuns, que se tornaram profissionais, conscientemente ou não, se entregam a fraudes.

Por muito perturbador que seja o fenômeno da criptestesia, é talvez ainda menos atordoador do que o da formação de um fantasma que podemos fotografar e tocar.

Outrossim, de modo algum fico surpreendido ao notar a virulência geral contra o ectoplasma. O estado de espírito do público é aquele de Crookes, Morselli, Bottazzi, Ochorowicz, sir Oliver Lodge, antes que tivessem feito alguma experiência a propósito. Esse estado de espírito foi também o meu, com muita convicção e por muito tempo. Por que se indignar agora ao ver que o mundo inteiro pensa e conclui como tínhamos pensado e concluído?

Em todo o caso, isso não deixou de ser uma arma perigosa nas mãos de certos jornalistas.

As escapatórias, os chistes, as murmurações de cavalariças ou de cozinha - tiveram curso livre. Alguns jornalistas viram nessa matéria, por si tão distinta, motivo para desfraldar a graça do seu espírito e a penetração do seu julgamento. Nada leram, valha a verdade, do que se escreveu sobre a matéria. Porém desde quando é preciso, para redigir um eco humorístico, ter meditado e aprofundado as coisas?

Aliás, esse amontoado de chistes não tem nenhum valor. O que é mais sério é o fato de certas experimentações de controle terem sido desfavoráveis a alguns fenômenos da metapsíquica objetiva.

Trata-se dos controles relativos a Nielsen, a Srta. Goligher, a Marthe-Éva Béraud, e ao fotógrafo Hope, de Crewe.

Não posso, num prefácio, entrar numa discussão que mais para adiante será exposta com brevidade. Contentar-me-ei em dizer que as experiências negativas, a não ser que o sejam em número enorme - e ainda bem! - nada provam contra uma experiência positiva.

Uma única experiência positiva - com a condição, claro está, de ser feita corretamente - tudo leva de vencida. Por exemplo, tenho entre as minhas as mãos de Eusapia, levanto-as para cima, separando-as, e nesse meio tempo outra mão me acaricia. Eis aí uma experiência positiva: não sei como podem infirmá-la, alegando: "Cem vezes separei as mãos de Eusapia e jamais percebi uma terceira mão". Esta negação nada prova e fica um terceiro obrigado a demonstrar como pude, assim como Fred. Myers e Oliver Lodge, ser enganado dessa maneira.

Na verdade, novas experiências com pessoas assim tão caprichosas, tão desconfiadas, serão sempre necessárias, porque indiscutivelmente a metapsíquica objetiva não está ainda construída em bases fortes como a metapsíquica subjetiva, o que se deve à extrema raridade de médiuns de efeitos físicos e à facilidade (relativa) de fraude.

Pois quê! Tudo o que até aqui temos visto não passa de fraude! Essa fraude começou com as meninas Fox, que extravagantemente imaginaram ser divertido produzirem pancadas. Daí para cá milhares de indivíduos, muito crédulos, não há que ver, porém a maioria imbuída de fé sincera, obtém, nas suas sessões particulares, tão só para se acomodarem aos caprichos das meninas Fox, fenômenos de pancadas. Um dia Home teve o desplante de produzir uma mão fantasmática. Por causa disso, Slade, Stainton Moses, produziram também mãos fantasmáticas. Um dia Eva teve vontade de velhaquear e fez cair ectoplasmas de sua boca. Por causa disso, Stanislawa, Willy, a Srta. Goligher resolveram também velhaquear como Eva. Esse amontoado de embustes, tendo desafiado todos os controles, é de uma inverossimilhança igual pelo menos àquela da ectoplasmia.

O futuro - um futuro mesmo muito próximo - julgará o litígio.


III. Os espíritas receberam o meu Tratado de Metapsíquica com grande frieza. Compreendo o seu estado de espírito. Em vez de aceitar a sua teoria ingênua e frágil, propus aguardar, para se constituir qualquer teoria defensável, que os fatos fossem classificados, codificados, marcados, acompanhando-os das necessárias exigências do método experimental. Ao contrário, os espíritas julgam possuir já uma explicação adequada para todos os fenômenos. Disse-lhes que a sua explicação era hipotética, mas não hesitei em reconhecer que em certos casos, raros, a hipótese espírita, simplista, parecia ser preferível. Creio bem que isso não é senão uma aparência. Portanto a aparência continua nela.

Se os espíritas fossem justos, reconheceriam que a minha tentativa de fazer entrar na ordem dos fatos científicos todos os fenômenos que constituem a base de sua fé, mereceria eu verdadeiramente alguma indulgência.

Reconhecem eles que o passo dado para trás é largo, já que desde agora a metapsíquica subjetiva (criptestesia) parece estar definitivamente classificada como um fato científico confirmado.

A ciência é, acima de tudo, a soberana mestra do futuro. Não será por meio de preces, nem por atos de fé nem por convicções irrefletidas, que ela irá tomar corpo: é unicamente por meio de investigações exatas, multiplicadas. E, sem receio de repetição, direi que é necessário ser também tão audacioso na hipótese como rigoroso na experimentação.

O primeiro tratado de Metapsíquica irá ter a sina comum. Ele irá logo ficar para trás e cair em desuso, porque os progressos desta nova ciência serão rápidos.

Porém ninguém mais do que eu se dará por feliz se topar com um novo tratado, mais complexo, mais demonstrativo, que retifique os erros, repare as omissões, dissipe as incertezas, as obscuridades, as contradições deste esboço - o primeiro memorial metódico e didático de angustiantes problemas.

LIVRO PRIMEIRO
DA METAPSÍQUICA EM GERAL

§ 1. - Definição e classificação

Em todos os tempos os homens verificaram fatos singulares, irregulares, imprevisíveis, que se misturavam com os acontecimentos ordinários da existência quotidiana. Então, não podendo encontrar uma explicação racional, supuseram a intervenção de forças sobrenaturais, bem como a ação de Deus ou de Demônios todo-poderosos.

A pouco e pouco, com o progresso dos nossos conhecimentos, a fé nessas ingerências, divinas ou demoníacas, nos nossos acanhados que fazeres, perdeu terreno. Quer se trate de uma aurora boreal, quer de um eclipse, quer de um cometa, quer até de uma tempestade, não vemos atualmente nisso senão um fenômeno natural de que já conhecemos algumas leis. Quer se trate de epilepsia, que se trate de ataque histérico, não apelamos mais nem para Hércules nem para Satã.(1)


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