«chefiei a resistência em gogolá»



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Armindo Amaral | Sabugal

«CHEFIEI A RESISTÊNCIA EM GOGOLÁ»

Quase 45 anos depois, Armindo Fausto Amaral “volta” à Índia. Em 1961, quando Jawaharlal Nehru invadiu as possessões portuguesas no subcontinente indiano, era ele quem chefiava o posto da PSP em Gogolá, o epicentro da resistência à tomada de Diu. Preso e libertado, acabou a carreira em 1998, já em Portugal, como o mais condecorado elemento da história da PSP. Mas nunca esqueceu o dia em que, à sua frente, começou a tombar o frágil castelo de cartas que era o império português.

Nome: Armindo Fausto Amaral.
Idade: 72 anos.
Naturalidade: Sabugal.
Profissão: comandante da PSP reformado.



Armindo Fausto Amaral, já na reforma, recordando com doçura as aventuras além-mar, da Índia a Moçambique. (foto: Carlos Medeiros)

Quatro dias – não mais. Escassos quatro dias depois do ultimato feito por Jawaharlal Nehru, companheiro de Ghandi e herói da independência da Índia, as últimas possessões portuguesas no subcontinente indiano, acumuladas desde a viagem de Vasco da Gama em 1498, caíram quase sem resistência nas mãos da União Indiana. “Quase” sem resistência – apenas “quase”. Porque, durante pelo menos uma noite, um grupo de polícias destacados em de Diu fez o que pôde em favor da conservação do território – ou, pelo menos, de um abandono condigno do mesmo. Foi o princípio do fim do império português. Estávamos em Dezembro de 1961 e, na chefia do posto da PSP de Gogolá, o epicentro da resistência em Diu, encontrava-se Armindo Fausto Amaral, então um subchefe-ajudante de apenas 28 anos. Foi à sua frente, e perante o seu sentimento de impotência, que se desmoronou o mítico Estado Português da Índia – e foi ele um dos 200 homens com que o distrito contribuiu para os campos de concentração que se dispersaram por Goa ao longo da primeira metade do ano de 1962.


“Hoje em dia, visto tudo aquilo à distância, até dá vontade de sorrir. Primeiro, a própria Diu: uma pequena ilha, um canal estreitinho e um minúsculo istmo na península em frente, com poucas centenas de metros de comprimento. Depois, a própria diferença das forças em confronto.”


“Nós só tínhamos uma ou outra peça de artilharia, meramente simbólicas, e, embora o comando militar de Goa nos tivesse entretanto enviado uma metralhadora de 20 mm, não tínhamos quem soubesse operá-la. Ainda houve um furriel madeirense que se voluntariou, mas deu dois tiros e, ao ver um ‘rocket’ sair de um avião indiano, já só teve tempo para se esconder num retabulozinho da fortaleza. Na verdade, era impossível conservar aquele território – e, até certo ponto, tivemos sorte em não nos terem matado a todos.”
A 14 de Dezembro desse ano de 1961, e após as mais variadas manobras diplomáticas, o primeiro-ministro Nehru exigia aos portugueses a devolução da soberania sobre Goa, Damão e Diu. A 16,os movimentos de tropas junto à fronteira da península de Gogolá adensaram-se. Na noite de 17 para 18, os tiros ecoaram por toda a Diu. A 19, estava tudo acabado – em Diu, como em Goa e Damão. E, porém, naquela noite de combates, fez-se o possível por resistir. Obstinado na sua tradicional política de equilíbrios, o Governo de Oliveira Salazar empenhara-se em passar a mensagem de que a Índia era um problema de segurança – não militar. E foi à Polícia que coube defender a integridade das fronteiras do Estado. Resultados: poucos. Os portugueses tinham dois postos ao longo da província de Gogolá: um junto à fronteira e outro na povoação, em frente ao canal que separava o istmo da ilha de Diu. E, quando o exército indiano tomou o posto da fronteira, já não restou outra coisa aos operacionais senão retirar.
“Não houve baixas entre nós. O posto de fronteira estava revestido de ferro e aço, e só tivemos alguns feridos. Infelizmente, eles perderam vários elementos. Os nossos homens estavam a despedir-se da vida – tentaram fazer tudo para mantê-los à distância, como se compreende… Mesmo assim, lembro-me de o António, um dos nossos, vir a fugir do posto da fronteira, através de umas salinas que havia no meio, com um soldado indiano ferido às costas e a arma deste ao ombro. Havia ali um espírito que, se calhar, hoje em dia já não há. Quando aquele ferido morreu, custou-nos muito”, conta Armindo Amaral. “O exército indiano era profissional e de grande dignidade. Lembro-me de que, quando mais tarde fomos transferidos para Goa, tivemos de esperar por um batelão que nos levasse ao cruzador ancorado em frente. Junto ao muro, recolhemos espontaneamente algumas flores silvestres e formámos uma pequena coroa, que depois lançámos ao mar a meio do canal, junto a um fortim, no mesmo sítio onde, na noite dos combates, tinham afundado uma lancha da Marinha Portuguesa, a Vega."

"Pusemo-nos em sentido e quem estava coberto fez a continência. Quando demos por isso, estavam dois soldados ‘sikhs’ em sentido também, um deles com uma lágrima no olho. Foi uma coisa muito intensa.”


Tomada Diu, as duas centenas de portugueses que controlavam a província foram colocadas primeiro na fortaleza de D. João de Castro, a mítica, de cuja prisão o governador português Fernando de Vasconcellos havia libertado todos os detidos na noite do tiroteio. “A Índia não era uma colónia. Colónias, havia-as era em África. Ali, e à excepção do governador e do comandante militar, nenhum português mandava em nada. Nem sequer havia população civil branca: o comércio, os serviços e a administração eram todos feitos por goeses”, lembra Amaral. As poucas mulheres e crianças haviam sido evacuadas na noite do ultimato, dias antes, por um avião dos Transportes Aéreos da Índia.

“Ficámos na fortaleza durante um mês e pouco, detidos em celas. Não éramos maltratados. Depois, sim, fomos transferidos para Goa, onde ficámos em campos de concentração durante mais quatro meses. Aí é que havia barracas, arame farpado e essas coisas típicas dos campos de concentração.”


Perdidas as possessões indianas, Portugal ainda tentou fazer aprovar um voto de censura à Índia no Conselho de Segurança da ONU, mas a URSS vetou-o. Já não interessava. Libertado, Armindo Fausto Amaral seguiu para Moçambique. Trabalhou para a Polícia portuguesa e, depois, ainda ficou cerca de seis meses como conselheiro para a formação da nova polícia moçambicana, então tutelada por Armando Guebuza, na altura ministro da Administração Interna e hoje Presidente da República. Terminou a carreira policial em 1998 como o elemento da história da grande polícia civil portuguesa mais condecorado por “razões policiais genéricas”. Foi depois professor da Escola Prática de Polícia e um dos primeiros não-militares a chegar ao cargo de comandante distrital, que exerceu em Évora e Angra do Heroísmo. “Em Évora, tive de lidar com a reforma agrária, o que foi um grande desafio. Mas a minha grande paixão foi sempre ensinar, mais do que o trabalho operacional. Quanto a este, a Índia e Moçambique são as minhas grandes recordações”, diz. “Aliás, o que aprendi na Índia foi essencial para o trabalho em Moçambique. E o que aprendi fora de Portugal, no Oriente ou em África, foi essencial para, no momento em que me dediquei ao ensino, poder transmitir aos meus alunos uma visão diferente do mundo e do trabalho de polícia.” Um desses alunos – uma aluna, hoje subchefe reformada – tornou-se sua mulher. Dois dos seus quatro filhos são também subchefes da PSP – e um terceiro agente principal.

Armindo Fausto Amaral em Moçambique, para onde partiu depois da experiência na Índia e onde lançou as bases da sua extraordinária carreira policial. (foto: D. R.)

UMA VIDA DE TENACIDADE


Filho de um casal de camponeses, Armindo Amaral ficou órfão de pai e mãe aos 12 anos. Não tinha mais família – e emigrou para Lisboa. Foi marçano e operário. Chegou à Índia com a quarta classe, como militar – e só então começou o seu fulgurante percurso profissional, estudando à noite e trabalhando de dia. Em 42 anos na PSP, não meteu um só dia de baixa. Quanto à Índia, desconfia quando ouve a expressão “a maior democracia do mundo”. “Quando se vê um povo na miséria, com fome e insegurança, é um insulto à palavra ‘democracia’ dizer-se que há ali uma”, costuma dizer. Em Moçambique, encontrou depois muitos indianos – os quais lhe falavam de como sempre haviam apreciado mais os portugueses do que os ingleses. Portugal reconheceu a soberania indiana sobre Goa, Damão e Diu em 1974. Goa tornou-se então um privilegiado destino de férias para os portugueses. Armindo Amaral, porém, nunca mais voltou.
(Correio da Manhã, 2 de Abril de 2006)


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