Chiquinha gonzaga



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CHIQUINHA GONZAGA


Uma história de vida
Edinha Diniz
EDITORA ROSA DOS TEMPOS
CONTRACAPA

O século XIX brasileiro teve em Chiquinha Gonzaga (1847-1935) sua figura emblemática da inquietação feminina. Um caso pioneiro de emancipação feminina, a compositora e maestrina carioca pagou caro por sua ousadia: um dos preços foi o esquecimento. O resgate foi finalmente possível depois de uma longa pesquisa – Chiquinha Gonzaga: uma história de vida é ao mesmo tempo a história de uma mulher e de uma cultura. E de como as duas romperam a dominação de uma sociedade patriarcal e colonizada.


Edinha Diniz

Chiquinha Gonzaga uma história de vida

8ª edição

Editora Rosa dos Tempos


Chiquinha Gonzaga

Há quem diga que a clareza é a honestidade do filósofo. Não estou absolutamente certo quanto a isto no que se refere à filosofia, mas posso afiançar que tal qualidade do texto é muito desejável em ensaios sócio-históricos. E esta é a grande virtude deste ensaio de Edinha Diniz: um trabalho claro, informativo, sem truques. Ela se propõe a fazer "o relato da vida de uma mulher incomum, audaciosa, pioneira, talentosa e com uma enorme determinação de vontade" e se justifica:

"A antecipação com que usou a liberdade pessoal faz dela a primeira grande personagem na história do Brasil a não ser uma heroína no sentido oficial; não estava a serviço da pátria, nem da humanidade, nem de um marido. Estava apenas a serviço de si mesma, de suas vontades e desejos. Só que isto não era permitido a uma mulher."

A personagem em questão é Francisca Gonzaga. Melhor: a Maestrina Chiquinha Gonzaga, que tanto encantou e incomodou a sociedade carioca antes e depois do século. Encantou, porque "quem quiser conhecer a evolução das nossas danças urbanas terá sempre que estudar muito atentamente as obras dela" (Mário de Andrade). Incomodou, porque os padrões familiares do Segundo Reinado, que persistiram até muito depois da República, não comportavam uma sinhá-dona com idéias próprias, movimentação autônoma e, ainda por cima, música profissional. Chiquinha Gonzaga, "trigueira e danada", rompeu os diques, as barreiras, deixou fluir o dissabor - mas também a glória.

No trabalho de Edinha Diniz - uma biografia com adequado pano de fundo social e histórico -, Chiquinha Gonzaga aparece como uma contrapartida nacional para figuras modelares da inquietação feminina européia, como, por exemplo, Isadora Duncan ou Colette. Abolicionista fervorosa, republicana convicta, antiflorianista mordaz, ela participou intensamente de sua época, enfrentando o escândalo patriarcal, merecendo a frase admirativa de Lopes Trovão: "Aquela Chiquinha é o diabo!"

A clara biografia de Edinha Diniz faz honra à simplicidade nacionalista da obra de Chiquinha Gonzaga. Muito que bem.

Muniz Sodré

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ.

Diniz, Edinha. 1949-

D61c Chiquinha Gonzaga: uma história de vida /

8ªed. Edinha Diniz. — 8ª ed. — Rio de Janeiro: Record:

Rosa dos Tempos, 1999.

ISBN 85-01-64713-6


Bibliografia

1. Gonzaga, Chiquinha. 1847-1935. I. Título. II. Série


CDD - 927.8

84-0329 CDU — 92(Gonzaga, C.)


Copyright @ 1984 Edinha Diniz
É vedada a reprodução total ou parcial desta obra sem a prévia autorização da editora.
Direitos desta edição reservados à EDITORA ROSA DOS TEMPOS

Um selo da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.


Impresso no Brasil pelo Sistema Cameron da Divisão Gráfica da EDITORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA SA.

Rua Argentina 171 — Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 — TeL: 585-2000


ISBN 85-01-64713.6
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL

Caixa Postal 23052

Rio de Janeiro RJ — 20922-970

Para


Angela Cozetti Pontual e Djalma Bittencourt

Sumário
Introdução 9

Cronologia Básica 13
PARTE 1
I — A inocente Francisca

II — O Rio de Janeiro do lampião de gás 23

III — Como se educava uma sinhazinha 39

IV — De sinhá-moça a sinhá-dona 49

V — Sra. Dona Francisca Edwiges Gonzaga do Amaral 57

VI — “Querida por todos” e especialmente por um 65

VII — No tempo das confeitarias... 69

VIII — Como a música popular se fez mulata 79

IX — Uma polca atraente 89

X — Uma atraente compositora 97

XI — A maestrina Francisca Gonzaga 109

XII — Uma ativista fanática 125

XIII — Chica Polca 135

XIV — Ainda atraente 149

XV — Õ Abre Alas, o hino carnavalesco 155

XVI — Em Portugal 167

XVII — A Rainha da Praça Tiradentes 175

XVIII — Corta-Jaca no Catete, o “samba” alforriado 197

XIX — O direito de autor 209

XX — Diz a lenda que os anjos abriram alas... 223


PARTE II

Apresentação 233

I — Catálogo de músicas 237

II — Catálogo de peças teatrais 295

III — Discografia 321

IV — Bibliografia, fontes de referência e de consulta 341

Introdução

“No Brasil ainda nos parece inferior gostar de coisas simples, principalmente quando essas coisas simples trazem o estigma de ser nossas”, dizia Viriato Corrêa ao sepultar a amiga e companheira de trabalho em fevereiro de 1935. E mais: “O esnobismo nacional não quis nunca tomar conhecimento da arte de Francisca Gonzaga. Que fazia ela? Partituras de revistas, de burletas, de operetas e polcas e valsas e maxixes e canções e tudo isso com cheiro nosso e com expressão popular.

“Para o esnobismo nacional, tinha ela o mau gosto de sentir à brasileira, o imenso pecado de escrever coisas simples que todo mundo sentia e todo mundo compreendia.”

Atribuíram também à compositora e maestrina carioca outros “pecados”. Por isso mesmo, ao lhe dedicarem duas biografias (escritas pela folclorista e jornalista Mariza Lira em 1939, e pelo teatrólogo Geysa Bôscoli, seu sobrinho-neto, em 1971), não esqueceram de moralizar a sua vida pessoal, mantendo assim uma condenação ao seu comportamento ousado.

Este trabalho começou ainda em 1977. Eu chegava de Salvador — onde deixei atividades de pesquisa e ensino em Sociologia na Universidade Federal da Bahia — e, a pedido de Angela Cozetti Pontual, elaborava um roteiro para um filme documentário sobre a vida de Chiquinha Gonzaga. Era a retomada com o cinema, velha paixão. Era também o começo de longo trabalho, e eu não sabia. A insatisfação com as biografias existentes fez com que se recorresse à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, entidade fundada pela compositora. Lá estava, inédito, todo o seu arquivo pessoal, conservado em pesados e envelhecidos pacotes. A investigação desse acervo só foi possível graças à confiança e colaboração do então diretor-superintendente, Djalma Bittencourt, depositário dessa preciosidade.

Hoje catalogado e inventariado, integra o arquivo da SBAT co-

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mo “Coleção Chiquinha Gonzaga” e contém basicamente recortes de jornais, correspondência, fotografias, libretos de peças teatrais e músicas — inúmeras partituras e composições impressas, manuscritas, editadas e inéditas. Agrupado por João Batista Gonzaga a partir do começo deste século, este material revelou-se fundamental, mas apresentava lacunas referentes ao início da carreira da compositora, que foi preciso preencher com investigações na coleção de jornais da Biblioteca Nacional. Quanto à sua vida pessoal, sofrera um critério de seleção; conservava o que depunha a favor de uma imagem desejada por ela e ditada pelo seu orgulho. Mas, se escondia aspectos como sua condição social de origem, fornecia pistas para o esclarecimento de outros, como sua vida amorosa, por exemplo. Na tentativa de reconstruir, rever e reavaliar a vida de Chiquinha Gonzaga, arquivos e pessoas foram consultados, num circuito que incluiu Rio de Janeiro, São Paulo e Lisboa. A riqueza e o ineditismo da documentação reunida me convenceram de que era uma história que valia a pena contar.

Aí está. E o relato da vida de uma mulher incomum, audaciosa, pioneira, talentosa e com uma enorme determinação de vontade. A antecipação com que usou a liberdade pessoal faz dela a primeira grande personagem na história do Brasil a não ser uma heroína no sentido oficial; não estava a serviço da pátria, nem da humanidade, nem de um marido. Estava apenas a serviço de si mesma, de suas vontades e desejos. Só que isto não era permitido a uma mulher.

Sua história está inevitavelmente vinculada à história do país. Elas se cruzam em um dos momentos mais expressivos da nacionalidade: aquele em que se forja uma cultura brasileira e que é momento também da mais entusiasmada e ampla participação política de que o Brasil guarda memória — entusiasmo que o brasileiro só voltaria a manifestar cem anos depois, com a campanha Diretas Já, pelo restabelecimento da ordem democrática no país. E Chiquinha Gonzaga ao renunciar ao papel tradicional de esposa e mãe, terminou por exercer um papel social transformador.

Ao se reconstruir sua biografia, se “descobriu” uma dimensão que a história oficial não registra: a história da cultura das camadas mais baixas da sociedade da perspectiva do homem comum, do homem da rua, exatamente no momento histórico em que ele se faz cidadão e o urbanismo se consolida. E a história das ruas se confunde com a história de Chiquinha Gonzaga pelo ineditismo com que ela usou esse espaço numa sociedade que demarcava rigidamente o espaço feminino: a casa para a mulher, o salão para a dama e a rua para o escravo e a ‘‘mulher da vida’’.

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Foi preciso, portanto, esboçar uma história da conquista de espaço social pela mulher brasileira. Ao mesmo tempo em que procurava compreender sua história pessoal, a documentação me permitia e autorizava a revisão da história da música popular, do teatro musicado, do carnaval e dos direitos autorais. Todo um processo de mudança cultural se descrevia através de uma história de vida. Terminei por recontar alguns aspectos dessas histórias, utilizando como dados primários de pesquisa os chamados “documentos íntimos” de uma agente dessas transformações, e jornais da época.

Quanto à expressão “história de vida”, trata-se de uma licença metodológica, a exemplo das poéticas (*‘Criada pela Antropologia para resolver o impasse da classificação de relatos biográficos de indivíduos de culturas não-letradas, anotados por antropólogos (biografia? autobiografia?), a história de vida tem se revelado uma técnica de pesquisa valiosa para estudos de processos aculturativos por possibilitar entrelaçar aspectos como cultura e personalidade. Tem, no entanto, uma aplicação sincrônica, mesmo em outras disciplinas que dela se utilizam, como a Sociologia e a Psicologia. Neste caso, tomei a expressão no sentido mais simples de biografia e desloquei a técnica para uma abordagem diacrônica.). Licença menor, já que me permiti outras tantas, como fazer uso articulado de métodos de disciplinas diversas e até mesmo de pretender alguma objetividade no relato do que não passa de uma história. Porque, se a objetividade foi perseguida na construção de um amplo quadro de referência, na atribuição de significado social à ação pessoal, no reconhecimento de fatores predominantes etc., confesso que a simpatia — que se insinua facilmente nas biografias — neste caso se intrometeu entre investigador e objeto investigado.

E.D.

Cronologia Básica


1840 — Tem início o Segundo Reinado.

1847 — Nasce a 17 de outubro.

1850 — Abolição do tráfico de escravos.

1858 — Compõe para a festa de Natal sua primeira música.

1863 — Casa-se com Jacinto Ribeiro do Amaral a 5 de novembro.

1864 — Início do conflito com o Paraguai. Torna-se mãe. A 12 de julho nasce João Gualberto.

1865 — Jacinto freta o navio São Paulo ao governo. Nasce sua filha Maria a 12 de novembro.

1866 — Embarca com o marido no navio São Paulo, que transporta uma parte do II Corpo do Exército para a guerra.

1869 — Já separada do marido é homenageada pelo compositor Callado.

1870 — Término da Guerra do Paraguai.

1871 — Lei do Ventre Livre.

1876 — A 24 de agosto nasce Alice, sua filha com João Batista de Carvalho.

1877 — Em fevereiro publica sua primeira composição, a polca Atraente. Em novembro, Atraente está na 15ª edição.

1879 — Começa a instrumentar, com autodidatismo.

1880 — Anuncia-se publicamente como professora de várias matérias. Morre Callado, em março.

1883 — Tentativa frustrada de musicar libreto de Arthur Azevedo.

1885 — Estréia como maestrina a 17 de janeiro. Lei dos Sexagenários.

1888 — Lei Áurea. É extinta a escravidão no Brasil.

1889 — Proclamação da República a 15 de novembro.

1890 — Torna-se avó. Nasce a primeira neta, Valquíria, a 22 de junho.

1891 — É votada a primeira Constituição Republicana. Eleição de Deodoro da Fonseca para presidente. A 19 de agosto morre José Basileu, seu pai. Com a renúncia de Deodoro, assume o poder em 23 de novembro o vice-presidente Floriano Peixoto.

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1893 — Eclode a Revolta da Armada.

1896 — Morre Rosa, sua mãe. Morre o maestro Carlos Gomes.

1899 — Carnaval. Compõe Ó Abre Alas. Torna-se sócia do Clube Euterpe. Conhece João Batista.

1902 — Viaja pela primeira vez à Europa.

1904 — Segunda viagem à Europa.

1906 — Viaja pela terceira vez. Instala-se em Lisboa.

1909 — Retorna ao Brasil.

1911 — Inicia intensa atividade musicando peças teatrais para os espetáculos por sessões dos cine-teatros da Praça Tiradentes.

1912 — Estréia Forrobodó, seu maior sucesso teatral.

1913 — Deflagra a campanha pela defesa do direito autoral de compositores e teatrólogos.

1914 — Seu tango Corta-Jaca penetra pioneiramente nos salões elegantes.

1917 — Participa da fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.

1919 — É encenada a peça de costumes regionais Juriti, o maior êxito no gênero.

1925 — Recebe homenagem consagradora da SBAT e manifestações de reconhecimento do país inteiro.

1933 — Seu filho João Gualberto morre em São Paulo. Aos 85 anos de idade escreve a última partitura: Maria.

1934 — Sua filha Maria morre no Rio de Janeiro.

1935 — Morre no dia 28 de fevereiro, uma quinta-feira. Sábado de carnaval, 2 de março, realiza-se o primeiro concurso oficial das escolas de samba.

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PARTE 1
CAPÍTULO 1
A INOCENTE FRANCISCA
Município da Corte

Muito Leal e Heróica Cidade do Rio de Janeiro

17 de Outubro de 1847

Dia de grande aflição para Rosa. Só mesmo Nossa Senhora para lhe valer. Depois de um parto difícil, sua mãe Tomásia e a parteira vinham avisar que a menina corria risco de vida. Era preciso fazer alguma coisa, e já. O retardo podia ser fatal.

Talvez chamar o Dr. Felix fosse a única solução. Morava logo ali, era um pulo. Mas, quem sabe?, era homem importante, acostumado a tratar de gente fidalga. Uma moça pobre, mestiça e solteira como ela não ia conseguir os cuidados de médico tão afamado. Não podia hesitar. A menina precisava de socorro. Se fosse preciso, diria o nome do pai da pequena. Sabia que era amigo da família de Basileu. Não havia tempo a perder.

Mais: era preciso correr à Igreja a chamar o reverendo Jerônimo. Nessa hora o padre não pode faltar. A menina tem que ser batizada.

Vai se chamar Francisca Edwiges. Não é Edwiges, a santa da folhinha? E que Nossa Senhora das Dores proteja a inocente.

Se Basileu estivesse na Corte! Lá na província sequer imagina o que se passa com sua amada Rosa. Reconheceria a filha? Agora não importa; talvez já seja tarde.

Quem sabe se a Providência não está deliberando certo? Afinal a família Neves Gonzaga não consentirá no matrimônio, O Brigadeiro deseja futuro melhor para o filho. E sua filha, a menina Francisca, será uma bastarda. Bastarda! Quanto sofrimento espera essa criatura! Talvez seja melhor assim. Quando Basileu voltar — se voltar — nem precisa saber de nada. Estará livre para fazer sua carreira, como ele ou a família desejar. Assim seja.

A menina, no entanto, venceu o perigo. Aquela que mais tarde viria a ser conhecida como uma mulher de enorme audácia, a compositora Chiquinha Gonzaga, já veio à vida conhecendo o perigo e sabendo vencê-lo. Muitos ainda encontraria pela frente...

Em março de 1848, José Basileu retornou ao Rio. Três meses depois deu-se o batizado na Igreja de Santana, quando foi feito este registro no Livro 5, fls. 312:
Francisca Aos dezesseis dias do mês de junho de mil oitocentos e inocente (1.A expressão refere-se à criança de mãe livre, enquanto designava-se como ingênuo a criança livre de mãe escrava.) quarenta e oito nesta freguesia quis unicamente os Santos

Óleos, por ter sido batizada em perigo de vida pelo Reverendo Jerônimo Máximo Rodrigues Cardim a inocente Francisca,

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nascida em dezessete de outubro do ano próximo passado, filha natural de Dona Rosa Maria de Lima, solteira: foi protetora Nossa Senhora das Dores, e padrinho Antonio Basileu Neves Gonzaga; e nesta ocasião compareceu José Basileu Neves Gonzaga e em minha presença e das testemunhas com ele abaixo assinadas, que disseram reconhecê-lo, pelo próprio, disse que a inocente Francisca era sua filha, por tal a tinha, reconhecia e legitimava, como se nascesse de legítimo Matrimônio e para qualidade deste termo assinou comigo, e as testemunhas que foram: o Dr. Antonio Felix Martins e Mamede José da Silva Passos de que fiz este assento que assinei. (ass) O Coadjutor Fernando Pinto de Almeida.

José Basileu Neves Gonzaga.


Mamede José da Silva Passos

Dr. Antonio Felix Martins

(ver encarte — fig. 1.)
O registro traz ainda a seguinte anotação à margem: Inutilizado por despacho de Sua Excelência Reverendíssima de 4 de dezembro de 1860. (ass) O Vigário P M Alcanforado. Livro 9, fls. 125.

Com 30 anos de idade e uma recente promoção a 1º tenente, José Basileu retornava à Corte depois de um ano de ausência. Regressara com uma licença de três meses para tratamento de saúde concedida pelo Presidente da Província de Pernambuco, para onde fora enviado em comissão ativa. Ao chegar, encontrou Rosa e a menina que lhe tinha nascido.

Oficial cioso das suas responsabilidades, tratou logo de assumir a paternidade da pequena. Tinha porém dois problemas a resolver: conseguir o apoio da família Neves Gonzaga e garantir sua posição na corporação militar.

A primeira tarefa foi frustrada. Foi impossível vencer a resistência do velho Brigadeiro Feliciano José, seu pai. O ingresso da humilde Rosa naquela família estava vetado; ainda mais naquelas circunstâncias! Só restava esperar que o tempo acomodasse ressentimentos. Quanto ao Exército, foi preciso cuidar logo de sua situação.

De imediato, solicitou vencimento do soldo integral já que a licença de que gozava lhe permitia apenas meio soldo, o que julgava insuficiente. O Brigadeiro Comandante rejeitou o requerimento e exigiu a inspeção de saúde no oficial, para verificar se o estado requeria realmente a licença. Diante disso, José Basileu recorre ao General Conde

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de Caxias, parente e protetor. Este lhe assegura os vencimentos integrais e livra-o da inspeção de saúde. Um mês depois, conseguia nomeação como desenhista do arquivo militar. Com isso garante a permanência remunerada na Corte.

Instala-se com Rosa e a menina na Rua Nova do Príncipe (atual Senador Pompeu), na Freguesia de Santana.(2.0 termo freguesia correspondia à divisão territorial e constituía a mesma para a Igreja, a polícia e a municipalidade. Indicam a Rua do Príncipe como local de nascimento de Chiquinha Gonzaga. Até 1874, o seu nome exato era Rua Nova do Príncipe, passando então para Rua Príncipe dos Cajueiros, ou simplesmente Rua do Príncipe. Em 1877 ganhou a denominação atual. Após a revelação do seu registro de batismo, não podemos afirmar que tenha nascido ali. Acreditamos, entretanto, que nesta rua tenha passado a infância. O sobrado de nº. 67 pertencia ao Dr. João Emilio Neves Gonzaga, irmão de Basileu e, mais tarde, testemunha de casamento da sobrinha. A informação vem no relatório apresentado à Câmara Municipal da Corte sobre a nova numeração dos prédios da cidade, efetuada em 1878, quando o número foi trocado para 153. Trata-se do único Gonzaga cadastrado na rua. Moraria José Basileu na casa de propriedade do irmão?)

Desde logo trata de batizar a filha e reconhecer-lhe a paternidade. Agora a menina tinha um pai, condição indispensável à integração social de um indivíduo numa sociedade escravista. Rosa não teria mais porque temer. Sua filha, mesmo bastarda, porque nascida ilegítima, passava a ter um futuro garantido.

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CAPÍTULO II


O RIO DE JANEIRO DO LAMPIÃO DE GÁS
Com aproximadamente 250 mil habitantes, quase metade de escravos, a cidade mal passava do Campo de Santana a oeste e do Largo do Machado ao sul. Nesta acanhada área se desenrolava toda a vida fluminense.(1.Até a criação do Distrito Federal pela Constituição de 1891, o habitante do Município Neutro ou da Corte era designado fluminense, da palavra latina flumen (rio). Isto porque a cidade era regada por um importante rio, o Carioca. Nota: vamos encontrar a palavra fluminense aposta ao nome de associações, órgãos, etc., em todo o período imperial. Optamos, no entanto, pelo uso do termo carioca sempre que nos referirmos ao habitante da cidade, visando unidade de leitura.) Para completar o acanhamento da vida urbana, havia falta de esgoto, calçamento precário das ruas, poeira, lama, mendigos, “capoeiras”, epidemias...

A população usufruía, no entanto, o conforto de recentes serviços a domicilio: entrega de água por meio de carroças com pipas e distribuição regular de correspondência pelo Correio. (Ver encarte — fig. 8, 3ª. silhueta.)

Naquele mês de outubro de 1847 uma inovação urbana atestava a presença do progresso nas estreitas vias públicas da capital do Império do Brasil. Uma postura da Câmara Municipal estabelecia a mão e contramão no tráfego. Todos puxados por animais, liteiras, seges, caleches, cabs, tílburis, vitórias, berlindas, ônibus e gôndolas circulavam desordenadamente, provocavam congestionamento e incidentes com cargueiros e animais de montaria. A postura ainda determinava que os coletivos — ônibus e gôndolas — não eram obrigados a trazer as lanternas acesas, à noite, quando houvesse luar.

A segunda metade do século é marcada, no entanto, por um acontecimento de enorme repercussão na história do país: a abolição do tráfico de escravos em 1850. Isto significa liberação imediata de grandes capitais até então investidos no comércio de escravos e conseqüente intensificação da vida comercial.

Se a abertura dos portos em 1808 representara o primeiro passo no sentido da modernização do país, o fechamento agora dos mesmos portos aos navios negreiros candidatava o Brasil a ingressar no rol das nações civilizadas. A extinção do tráfico era condição, se não única, ao menos indispensável a um certo surto de progresso.

A longa crise econômica provocada pelo declínio da mineração já estava superada. A lavoura do café ganhava enorme expansão, a produção crescia em ritmo acelerado e a exportação tornava-se progressiva, até conquistar a liderança do mercado mundial.

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Homens do comércio e das finanças, detentores do capital móvel, dão início a grandes empreendimentos materiais: estrada de ferro, telégrafo, iluminação a gás, etc.(2.A história econômica assinala a extinção do tráfico negreiro como de fundamental importância para a compreensão da segunda metade do século passado. A esse respeito, entre outros, veja-se PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos, 10 ed., São Paulo, Brasiliense, 1977.)

Quando em 1854 começou a funcionar a iluminação a gás, o carioca deslumbrou-se. O empresário contratado para a instalação do novo serviço, Irineu Evangelista de Souza (Barão de Maná), obrigara-se a fornecer iluminação “superior à de Londres e nunca inferior à de Manchester”. Surgem, no entanto, irregularidades e falhas no funcionamento. A autoridade policial manifesta-se favorável à dispensa do gás nas noites de luar. O ministro da Justiça, por sua vez, delibera que “mesmo nas noites de lua oficial acendam-se os lampiões do gás”. A imprensa manifesta-se: ..~‘Damos os pêsames à diretoria geral da iluminação. Já agora não poderá mimosear-nos com a bela poesia do luar, nem salvar as finanças do império, com acréscimo de renda que poderia produzir a condenada economia’ Nas ruas não se fala outra coisa: o gás virou lamparina. O carioca não perde a oportunidade de glosar a frase do momento, protestar contra o serviço público e ironizar pessoas em evidência. E assim reclama, através de publicação de quadras nos jornais — importante meio de expressão da insatisfação popular nessa época — da falta de pressão dos gasômetros e do registro de voz da cantora Casaloni:

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