Ciclos Econômicos: Teoria e Evidência 1 Introdução


– Os Ciclos e os Economistas



Baixar 131.97 Kb.
Página3/5
Encontro29.07.2016
Tamanho131.97 Kb.
1   2   3   4   5

4 – Os Ciclos e os Economistas

Desde a segunda metade do século XIX, os economistas se interessaram pelo estudo dos ciclos econômicos, buscando cada um, à sua maneira, causas e explicações para o fenômeno. Para muitos destes economistas, sem considerar os grandes desastres financeiros especulativos que culminaram em graves crises econômicas – como a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, e seus predecessores na História –, o curso normal da economia parece evidenciar uma sucessão de expansões e contrações, como ondas sucessivas, em que há alternância entre prosperidade e depressão.

Algumas explicações iniciais sobre o fenômeno dos ciclos de negócios foram buscar respostas externas ao processo econômico. Segundo Heilbroner (1996), Jevons apresentou uma teoria baseada em que as flutuações agrícolas representavam a causa fundamental para os ciclos, em detrimento do papel dos demais setores da economia. Aquele autor ficou impressionado pelo fato de os ciclos de negócios de 1721 a 1878 possuírem uma duração média aproximadamente igual àquelas apresentadas pelas manchas solares. Acreditou que a correlação entre os dois fenômenos era muito próxima para ser considerada simples coincidência. Assim, deduziu um sistema de causação em que as manchas solares causavam os ciclos climáticos, que eram responsáveis pelos ciclos das chuvas, que influenciavam o ciclo das colheitas, que por sua vez, causavam os ciclos econômicos. Dessa forma, Jevons aceitava que o ciclo econômico era devido, primordialmente, à abundância desigual das colheitas agrícolas. Entretanto, posteriormente, um cálculo mais cuidadoso dos ciclos das manchas solares aumentou sua periodicidade e a correlação observada anteriormente foi rompida.

Assim, a procura por fatores motivadores dos ciclos de negócios voltou-se para considerações sobre a poupança, já apontada por Malthus como fonte de “problemas” para a economia, em que as decisões de poupança e investimento ocorrendo de forma não sincronizada, podem gerar fases de expansão e contração. Poupança e investimento – parcimônia e empreendimento – são atividades econômicas que necessitam conexão. A poupança, como qualquer outro bem, possui um preço, a taxa de juros. Portanto, quando a depressão atingisse seu ponto máximo, haveria excesso de poupança, o que acarretaria queda no nível da taxa de juros estimulando os investimentos. Dessa forma, acreditava-se haver um sistema automático engendrado no próprio ciclo econômico, em que, segundo a teoria, quando a economia estivesse no auge da contração voltaria a crescer e, após atingir novo ápice expansivo, iniciaria nova fase de arrefecimento.

O que estaria por trás dessa alternância entre prosperidade e depressão? A princípio, essa era a preocupação central por parte dos economistas em relação às causas dos ciclos econômicos, que foram também considerados como uma espécie de desordem nervosa coletiva, em que os colapsos periódicos dependiam de variações de expectativa, desapontamento e até mesmo pânico. Em meio a tantas indagações econômicas sobre as flutuações cíclicas, segundo Schumpeter (1950), Karl Marx foi o primeiro a apresentar uma teoria consistente dos ciclos econômicos, e não somente das crises, embora não o tivesse feito de forma sistemática.

Em “O Capital”, não se encontra uma exposição ordenada sobre os ciclos econômicos, as referências acham-se dispersas nessa obra e ainda em outras, como “As Crises Econômicas do Capitalismo”. O estudo da teoria Marxiana dos ciclos só é possível com a reunião de todas essas referências, levando-se em consideração que Marx era opositor à Lei de Say. Para ele, a demanda não necessariamente se iguala à produção. Mais ainda, a produção tende naturalmente a ser maior que a sua demanda.

Marx, ao longo de sua obra, observou aspectos centrais do movimento cíclico e o mais interessante deles, relaciona-se às crises, recusando a idéia de que a crise cíclica era desencadeada apenas por efeito de insuficiência de demanda. Pelo contrário, a crise era devida principalmente a um fenômeno de superprodução capitalista, era justamente na fase de auge, onde a oferta de trabalho se encontrava no ponto máximo e os salários estavam no patamar mais alto possível, que antecediam as crises de maneira imediata. As crises eram devidas a uma superprodução de capital fixo e, conseqüentemente, portanto, uma superprodutividade relativa do capital circulante, considerando ambos constituídos por mercadorias.

Levando-se em conta que na produção capitalista não interessam diretamente os valores de uso, mas sim os valores de troca e, principalmente o aumento ou diminuição da mais-valia, o fenômeno das crises pode manifestar-se quando a produção do capital excedente efetue-se muito rapidamente. Assim, as crises não se seguiam a uma queda de consumo1, pelo contrário, quando ocorria a elevação geral dos salários, com a conseqüente completa exaustão do exército industrial de reserva, havia uma diminuição da taxa de mais-valia e, por conseguinte da taxa de lucro, desacelerando e freando o processo de acumulação de capital. Portanto para Marx, a crise é uma conseqüência do desequilíbrio verificado entre a produção e o consumo. A possibilidade geral das crises é a metamorfose formal do próprio capital, a separação da compra e da venda no tempo e no espaço.

Outros aspectos primordiais do movimento cíclico foram abordados por Marx. Para ele, a natureza cíclica tem a sua causa fundamental no impulso irrefutável do capital à sua valorização, levando-o a chocar-se periodicamente com as barreiras que a própria valorização cria para o desenvolvimento das forças produtivas. A principal barreira é a da caracterização da base tecnológica para o movimento cíclico. Essa base determinaria a periodicidade da renovação do capital fixo, por exigência do desgaste físico e da obsolescência tecnológica, influenciando a periodicidade do próprio ciclo.

Essa base tecnológica, mais especificamente o progresso técnico é a variável relevante para Schumpeter, que ao contrário de Marx estudou os ciclos de forma ordenada, publicando em 1939, o livro “Business Cycles”, um tratado sobre os ciclos econômicos, cujo cerne está contido nas idéias centrais do capítulo final de seu livro Teoria do Desenvolvimento Econômico, que trata os ciclos como períodos de prosperidade e recessão econômicas comuns ao processo de desenvolvimento capitalista.

Schumpeter pesquisa sobre o capital, o lucro, o crédito, o juro e o ciclo de conjuntura. Ele concebe a essência do capitalismo em função do empresário. O elemento motriz da evolução é constituído pelas inovações, fontes de combinações novas das forças produtivas realizadas pelo empresário e que, ao se propagarem, vão provocar desequilíbrios. Estes, pelo mecanismo dos ciclos, tendem a novos equilíbrios em níveis mais elevados e esta prosperidade engendra o lucro, recompensa pelo trabalho de inovação que recebe o empresário. Não há, portanto, evolução sem inovação, nem inovação sem empresário, nem empresário sem crédito, nem crédito sem juro. Em suma, o ciclo econômico considerado em sua evolução natural é gerado pelas inovações.

Para Schumpeter, a questão fundamental para os ciclos econômicos era a sua causação, em que ele reconhecia explicitamente a importância dos fatores externos. “Business Cycles” descreve os principais ciclos econômicos e o processo inteiro do circuito e do desenvolvimento. Faz da inovação, a causa única e exógena dos diferentes ciclos. Os períodos de expansão eram relacionados ao fato de que o empreendedor inovador, ao criar novos produtos, é seguido por vários outros empreendedores não inovadores que investem recursos para produzir e imitar os bens criados pelo empresário inovador. Conseqüentemente, uma onda de investimentos de capital ativava a economia, gerando prosperidade e expansão do nível de investimento e de emprego. Na proporção em que as inovações tecnológicas eram absorvidas pelo mercado e o seu consumo generalizado, a taxa de crescimento da economia diminuía e se iniciava um processo recessivo com a redução dos investimentos e do nível de emprego, que se extinguia quando outra inovação recente começasse a gerar os seus efeitos sobre a economia.

Um dos grandes focos de interesse da macroeconomia, antes da publicação do livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936) de Keynes, consistia no estudo das flutuações recorrentes de várias séries macroeconômicas ao redor daquilo que poderia ser considerada a sua tendência de longo prazo, assim como o fato de que essas flutuações seriam correlacionadas. Esse fenômeno dos ciclos econômicos atraiu a atenção de vários economistas, entre eles Burns & Mitchell (1946), que buscavam desde uma definição apropriada para o ciclo e sua documentação até o estudo do relacionamento entre as séries durante cada ciclo, procurando indícios sobre suas causas. Para eles, o ciclo econômico, não somente é uma flutuação na atividade econômica agregada, mas também consiste em expansões ocorrendo ao mesmo tempo em diversos setores da economia, seguida por similares recessões, contrações e ressurgimento, que se inicia com a fase de expansão do próximo ciclo.

Para Mitchell (1984) todo o ciclo econômico, a rigor, é constituído de uma serie única de acontecimentos e tem uma única explicação, porque é fruto de uma série de acontecimentos anteriores, igualmente únicos. Schumpeter (1950) acredita que o ponto de vista de Mitchell sobre a análise dos ciclos de negócios surge como um primeiro passo em direção a uma análise mais próxima da realidade do processo econômico em geral. Segundo ele, Mitchell criou esforços não simplesmente em direção ao fenômeno cíclico por si só ao construir um sistema de indicadores antecedentes para a atividade econômica, mas sim em direção a uma nova economia, mais ainda, a uma nova teoria econômica, inspirada pelas idéias desenvolvidas nos estudos das flutuações dos ciclos.

Dessa forma, à época em que a Teoria Geral foi escrita, havia uma vasta literatura sobre os ciclos econômicos, utilizando-se da análise dinâmica2. O próprio Keynes, na Teoria Geral, no capítulo dedicado aos ciclos econômicos, sugeriu: ...“que o caráter essencial do ciclo econômico e, sobretudo, a regularidade de ocorrência e duração, que justificam a denominação ciclo, deve-se principalmente ao modo como flutua a eficiência marginal do capital”... e ....“o ciclo econômico deve, de preferência, ser considerado como o resultado de uma variação cíclica na eficiência marginal do capital, embora complicado e freqüentemente agravado por modificações que acompanham outras variáveis importantes do sistema econômico no curto prazo.” Entendendo-se que em Keynes, a eficiência marginal do capital dependia da relação entre o preço de oferta de um ativo de capital e a sua renda esperada.

Entretanto, embora existindo um capítulo sobre esse assunto na Teoria Geral, a distinção conceitual entre expectativas de curto e de longo prazo, proposta nesse livro, levou a uma reavaliação sobre a relevância da teoria dos ciclos.

Segundo Carvalho (1988), é sugerido muitas vezes na Teoria Geral que os ciclos sejam uma questão de adaptação, mais do que um mecanismo autônomo operando continuamente. Keynes estava mais interessado nos próprios impulsos originários das ondas cíclicas do que, propriamente, nas ondas de propagação. Isso o permitiu explorar as condições em que o equilíbrio final comporta desemprego involuntário à medida que o estado de expectativas de longo prazo determine um nível de demanda efetiva eficiente. Assim, o desemprego deixou de ser um aspecto da trajetória rumo ao equilíbrio e passou a ser parte do próprio equilíbrio. Dessa forma, apoiado em uma noção de expectativas e de incerteza mais desenvolvida, Keynes separa com clareza a geração de impulsos e dos mecanismos pelos quais estes impulsos se expandiam pela economia. O mecanismo de propagação perde importância por razões básicas: a ênfase passa a ser dada à vulnerabilidade da economia a choques exógenos, entre os quais se encontra a mudança nos estados de expectativas de longo prazo. Concluiu que mesmo os estados terminais de equilíbrio podem ser caracterizados pela existência de desemprego e capacidade ociosa. É a descoberta do “equilíbrio com desemprego” que define a novidade para a teoria econômica.

Também é interessante verificar que Keynes tratava o fenômeno da crise como uma característica do ciclo econômico, onde a substituição de uma fase ascendente por outra descendente, geralmente ocorria de modo repentino e violento (crise), ao passo que, a transição de uma fase descendente para uma ascendente não se dava de forma abrupta, mas sim gradualmente. O investimento real era considerado autônomo e as flutuações nas decisões de formação de capital eram a origem dos ciclos econômicos. Isso implica que existem mudanças autônomas nas proporções da vontade do público em alocar sua riqueza entre os diferentes ativos disponíveis. Assim, durante as expansões de investimento, o capital se tornava mais atrativo em relação a títulos e moeda; ao passo que, durante as contrações do investimento ocorria o inverso.

Portanto, para Keynes, a chave para a compreensão dos movimentos cíclicos estava nas flutuações do nível de investimento. De acordo com ele, investimento significava aquisição de equipamentos do setor produtor de bens de capital, ampliação da capacidade produtiva e, finalmente, expansão da produção corrente de bens de capital. Não significava, por outro lado, aquisição de bens físicos ou financeiros pré-existentes e não-reproduzíveis pelo sistema econômico, como a terra.

Michal Kalecki, também considerava o investimento como a variável realmente estratégica para o estudo dos ciclos. Para ele, é esta variável que determina o nível da renda nacional num dado ano e suas variações (ciclos e crescimento) no decorrer do tempo.

Kalecki (1937), reduzindo as expectativas a uma variável corrente, passou a considerar o ciclo inteiramente baseado nas relações entre variáveis objetivas, como: lucros realizados; investimento realizado; demanda realizada; renda recebida; entre outras. O excesso das decisões de investimento sobre o investimento em um dado período causava a auto-estimulação do aumento do investimento. Esse aumento, entretanto, conduzia a uma posição em que o investimento cessava o seu crescimento, mantendo-se em um nível constante. A manutenção desse nível constante produzia um equilíbrio estável, sendo o investimento, a variável que propiciava essa estabilidade. Assim, quando o investimento era maior do que o nível de manutenção da capacidade produtiva ocorria expansão na economia; mas, quando o investimento estava abaixo da manutenção da capacidade produtiva, verificava-se uma retração. Quando atingia o ponto em que o investimento igualava a taxa de decisão de investimento, esse declínio verificado na economia cessava e se iniciava um processo de aumento das decisões de investimento tendendo a incrementar o processo cumulativo. Assim, o processo dinâmico consistia em uma série de subidas e descidas seqüenciais do processo cumulativo. Em outras palavras, havia a ocorrência dos ciclos econômicos.

Kalecki expôs ainda uma causa para as crises periódicas. O fato é que o investimento não é referente apenas ao que foi produzido, mas também ao que se está produzindo. O investimento é considerado como um gasto capitalista que origina prosperidade, e o seu aumento melhora a economia, o que, por sua vez, estimula novos aumentos dos gastos com investimento. Porém, ao mesmo tempo em que o investimento é uma adição ao equipamento de capital corrente, o seu nascimento é muitas vezes concomitante à obsolescência do equipamento antigo. Entretanto, o descasamento entre nascimento e obsolescência do investimento causa as crises econômicas. Assim, segundo Kalecki não se deve considerar essa teoria como paradoxal, mas sim, o paradoxo se encontra dentro da própria economia capitalista.

Para Kalecki (1954), as economias capitalistas geralmente se desenvolvem dentro de um padrão cíclico. Elas se expandem, mas com flutuações periódicas. Assim, a produção ao longo do tempo pode ser representada como um movimento ondulatório. Mas, apesar das flutuações, a produção continua a crescer, ou seja, o movimento ondulatório se dá em torno de uma tendência crescente. Este movimento ondulatório em torno da tendência refere-se a duas questões de “dinâmica macroeconômica”, onde as mudanças cíclicas são os movimentos ondulatórios e a tendência é o crescimento da renda.

Ele distingue ainda, as flutuações explosivas e amortecidas. Tomando primeiramente o caso das flutuações explosivas, era evidente que, devido à amplitude crescente das flutuações, o investimento, durante as fases de prosperidade, teria que, mais cedo ou mais tarde, atingir o ponto mais alto. Depois disso, viria uma depressão, cuja recuperação levaria novamente o investimento ao nível do “teto”, e assim por diante. No caso das flutuações amortecidas, a amplitude iria declinar continuamente, de forma que poderia parecer que o ciclo iria diminuindo até tornar-se insignificante. Contudo, isso não ocorreria na realidade, pois as relações entre o investimento, os lucros e a produção são “estocásticas”, isto é, sujeitas a perturbações aleatórias.

A problemática dos ciclos, relacionada com os determinantes do investimento, exigiu grande esforço de Kalecki. A equação dos determinantes do investimento consta dos seguintes fatores: poupança interna bruta das empresas, o aumento dos lucros e o aumento do estoque de capital fixo. Daí se deriva a equação Kaleckiana do ciclo econômico. Entretanto, para obter a tendência, ele é obrigado a introduzir um novo fator: as inovações tecnológicas. E, a partir daí, para Kalecki o progresso técnico passa a ser o principal determinante do investimento.


Catálogo: encontro -> 2011 -> inscricao -> arquivos
encontro -> Título: Bases do Nacionalismo Econômico em Friedrich List Autor: Flávio dos Santos Oliveira. Filiação
encontro -> Contribuição dos Parques Urbanos e Áreas Verdes como Atrativos Turísticos em Curitiba – Paraná
encontro -> 3º Encontro da Rede Alfredo de Carvalho Feevale/Novo Hamburgo, 14 a 16 de abril de 2005 gt história da Mídia Alternativa
encontro -> Estudos em Relações Públicas e o Pensamento Latino-Americano em Comunicação
encontro -> A história do Jornalismo como formadora de consciência crítica
encontro -> O uso da comunicação social nas organizações do terceiro setor em Palmas/to autores
encontro -> Conciliando as perspectivas macro e micro estruturais na abordagem teórica e sociológica da migração
arquivos -> 2 luciano nakabashi (ufpr) diogo de prince (fea-rp/usp e fgv/SP) Resumo
arquivos -> Estrada de lages
arquivos -> Uma discussão sobre o individualismo em economia eduardo Angeli Resumo


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal