Ciência, técnica e tecnologia: qual, pra quê e pra quem?1



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Ciência, técnica e tecnologia: qual, pra quê e pra quem?1
France Maria Gontijo Coelho2

Para discutirmos sobre o tema que me foi proposto para essa apresentação, retomo um pequeno trecho de um trabalho de Dominique Preste, pesquisadora francesa que veio ao Brasil em 1997 para o VI Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. Ele discutiu em sua conferência vários aspectos dessa promissora área de conhecimento que é a sociologia e história do conhecimento, quando apresentou algumas questões sociológicas e proposições metodológicas da história ligadas à prática de compreensão das diversas formas de saber seja ele científico, técnico, tecnológico ou qualquer outra forma de saber do qual lançamos mão em nosso cotidiano. Ao final de sua conferência, Dominique nos diz algumas coisas que podem ser inspiradoras para o nosso debate:
“(...) práticas de saber e práticas sociais e políticas, [ao serem articuladas] colocam em perspectiva a redefinição de um conjunto de maneiras técnicas de fazer a ciência e suas alianças possíveis com as diversas instâncias do corpo social. A idéia de rever, período por período e país por país, como um ‘metier’ transforma e diferencia [os mais diversos aspectos] dentro de uma interação orgânica com a maneira na qual o social se recompõe. A cada momento, trata-se de definir os diferentes espaços concernentes às ciências – para ciência moderna: o Rei, a corte, os milhões de aristocratas, os detentores de ofícios, os engenheiros militares e vicis, a Academia Real, os artesãos, os investidores, o mercado, etc.- e ver como cada um absorve, valida, contesta, ignora, se reapropria ou transforma, materialmente ou socialmente, nas ações e nos discursos; os saberes que são produzidos pelos “savants” [especialistas], as leis que eles enunciam, os instrumentos que eles propõem, as representações que colocam em jogo [em cena], a autoridade que eles anunciam, as normas que eles secretam [expelem] – e, como certos saberes ganharam direito de citação e outros não. Simetricamente, trata-se de definir como o mundo acadêmico imagina e modela o social, como ele se insere em certas redes e o que prometem em seus resultados, como ele constitui certas legitimidades contra outras, e como ele poderia se imiscuir ou se autonomizar da política ou do social.(Anais do VI Semi...., 1997:16) ao que, também, podemos acrescentar, do econômico.

Assim, a partir dessas considerações, podemos dizer que para se compreender o impacto das tecnologias na sociedade, uma visão histórica seria indispensável, como ele se tornou o que é, como ela se fez, quem concretamente a concebeu e como socializou sua descoberta.

Considerando minhas investigações sobre os saberes para agricultura, e outras viagens como história da música, das artes ou da homeopatia, hoje faço uma distinção entre alguns termos que esclarecem por classificar (diferenciar) o tipo de vinculação dos conhecimentos academicamente moldados com o mundo da vida ou com os mundos sistêmicos do universo econômico e político. Três termos de uso muito comuns nas escolas/universidade são: ciência, técnica e tecnologia.
CIÊNCIA

Inicialmente, considero como ciência todo saber que é metodicamente produzido, sistematicamente registrado o que permite comparações e superação de limites do saber humano. Historicamente falando, esse tipo de saber, passou a ser estruturado em algumas instituições criadas para esse fim, no Brasil os Imperiais Institutos (uma adequação nacional das Academias Reais da Europa), seriam referências para as Universidades, as instituições estatais de pesquisa, fundações e coisas do gênero.

A ciência pode ser vista como algo diferenciado, mas, muitas vezes, nem tanto por seus rigores metodológicos e lingüísticos explícitos, mas por uma linguagem não coloquial ou “seus óculos de pisciné”. A ciência metódica e cada vez mais positiva, é um saber que se afirma enquanto evidência e tenta extirpar qualquer coisa que lhe parece crença sem comprovação. Ela é também uma forma de pensamento socialmente criado, e podemos periodizar o século XVII como o início dessa ciência moderna.

Mas, vocês poderiam perguntar: mas, porque nessa época? o homem nunca pensou, tomou ciência do que faz? Claro que sim, mas não na forma lógico-empírica que se preocupa em estabelecer conexões de sentido a partir de evidências palpáveis e pela manipulação da natureza como forma privilegiada de conhecimento.

Em princípio para a ciência, não deve interessar a autoridade de quem fala, mas a evidência comprovada metodicamente.

Sem hipocrisia, quais de nós aqui já não ouviu: “nossa, falar de tal assunto sem citar fulano, é imperdoável!” Ou “Esse fulano, não cite, ele pode conspurcar seu trabalho, não gosto dele.” Muitas vezes nós, orientadores, podemos ser um atraso na vida de nossos alunos. Ando pensando nisso, por isso, proponho a vocês, jovens pesquisadores, uma transgressão inteligente: leiam o que lhes provoca curiosidade e acham interessante, mas sem deixar de cumprir com o que lhe foi orientado. Depois, com autonomia, tire suas conclusões e faça suas fusões. Mas leia, sistematicamente, como deve fazer todo cientista, anote, faça citações, registre as idéia do autor, copie algum pedaço que você achou muito bem escrito. Os mestre nos ensinam muito. Depois guarde. Você vai ver que daí um tempo você sabe onde voltar e bem ilustrar um texto, trabalho escrito ou apresentação.

Bom, voltando à ciência, resumindo, ela é uma forma de fazer conhecimento que se dá em um lugar específico e surge, então, do trabalho daqueles que, na nossa sociedade, são chamados de cientistas, pesquisadores ou profissionais da ciência.

É então um trabalho sistemático de alguém e que se materializa em idéias ou em coisas, em objetos de uso ou de troca, em valores econômicos ou morais, em instrumentos ou capacidades.

Por isso, pode-se dizer que a ciência está na sociedade como a sociedade está no universo da ciência: é um tipo de trabalho humano, que dependendo, pode ser potencializado por algumas coisas construídas pelos que nos antecederam. Como dizia Latour, mais ou menos assim, ‘me dê um laboratório que entenderei o mundo’.

Vamos discutir essa idéia que propõe uma interação entre ciência e sociedade, ou seja, para analisar a ciência e compreendê-la não basta dissecar sua dinâmica interna ou seus produtos e, nem tão pouco, achar que tudo que ela produz, está indelevelmente determinado pelo mundo que a cerca. Essa interpretação determinista pode retirar dos cientistas, ou pesquisadores, a responsabilidade do que foi por eles produzido. Mas quando surgiu essa idéia determinista?

Esse determinismo externo sobre a prática científica tornou-se mais visível com as ações de Estados totalitários nos anos trinta e quarenta. A divulgação da ciência à serviço da corrida armamentista, levou, por exemplo, Robert Merton, um sociólogo funcionalista americano, a dizer naquela época, mais ou menos assim: há necessidade de liberdade para o trabalho do cientista, por isso fazer ciência exige liberdade e por isso, seu desenvolvimento só se daria melhor em sociedades liberais. Em certo sentido ele tinha razão, a criação condicionada é uma forma de poda de iniciativas e impulsos criativos. Mas vamos problematizar idéias, contextos e autores. Só que, essa liberdade faz falta não só para cientistas, mas para qualquer trabalhador. Além disso, essa liberdade tem de ser verdadeira. Não basta dizer que “você tem liberdade par pesquisar o que quiser”.

Na realidade, o Estado, enquanto instância de poder e de ordenamento social, tem obrigação de dar condições para a liberdade nos trabalhos de pesquisa. A iniciativa privada, até o faz, ou vem fazendo, mas apenas no sentido de retorno econômico exclusivo para acumulação de seu capital, na forma de lucro. Isso porque, a empresa capitalista sobrevive do lucro gerado na circulação do capital investido na pesquisa. Uma ação das empresas noutro sentido só seria possível, se o Estado interviesse e se colocasse no papel de regulador dos processos de produção do saber e definisse, por exemplo, uma estratégia de incentivo à pesquisa com a criação de um fundo de pesquisa nacional resultante da arrecadação de impostos de grandes empresas consumidoras de inovações. Com esse fundo, público, o Estado desobriga as instituições públicas de pesquisa do condicionamentos aos interesses empresariais e à necessidade de produção de pesquisas enquanto ‘segredos’. Esta seria uma forma imaginária de incentivo à pesquisa que garantiria a tal liberdade para criação científica por meio de políticas de natureza explicitamente pública. Mas para isso exigirá uma mudança, também, na cabeça dos pesquisadores. Eles terão que rever seus valores extracientíficos e mesmo científicos. Valores públicos, o sentido distributivo da expressão de coisa pública, voltada para a maioria e não para a exclusão, para acumulação e incremento de desigualdades. Como política pública, talvez essa poderia ser uma perspectiva legítima de ação de um indispensável Estado regulador dos processos sociais de produção do saber e da riqueza dele decorrente.

Por isso, na relação ciência e sociedade é bom que se analise a mediação do Estado.

Nesse sentido, gostaria de problematizar um pouco mais a interferência do estado nas ações de pesquisa. Particularmente, não vejo problema e acho legítimo que ele sinalize alguns temas e incentive linhas de investigação que atendam maior número de pessoas. O governo tem de governar, no sentido mais distributivo e menos concentrador. Isso não é totalitarismo, mas direção política. Se ele proibir outras formas de interação dos pesquisadores e outras redes de interação, aí sim é autoritarismo. Mas verba pública, tem de direcionar benefícios públicos.

Por isso, na relação ciência e campo político, atualmente, o princípio de justiça que deve orientar nossas expectativas e valores, pontua positivamente pesquisas que tragam benefícios mais públicos que privados.

Para nós, hoje, o que pode significar a morte da ciência, a limitação à sua criação é a falta de criação das condições para que ela se efetive. A criação dessas condições muito depende dos próprios cientistas pois já quase naturalizamos a idéia que as pesquisas não podem ser desenvolvidas sem a dependência do capital, da “parceria” com empresas que pode significar compromisso com o lucro e não com a distribuição da riqueza. E essa experiência, que é mais política que científica, configura nossas expectativas, nossos métodos e nossos resultados.

Enfocamos muito mais a construção de segredos tecnológicos que o desenvolvimento de técnicas socializáveis. Fica aqui uma questão, que peço que pensem nela quando estiverem fazendo suas propostas de pesquisa, desde a iniciação científica até depois como profissionais do saber: como podemos nos estruturar enquanto campo científico (que é o espaço social de interação e disputas no qual a ciência é produzida e onde agente trabalha) de maneira que ele permita maior autonomia ao saber científico diante das regras excludentes do mercado capitalista.

Por isso com Dominique Preste, no início desta apresentação, dissemos que ao se buscar compreender os saberes, mesmo o científico, temos de identificar em que redes de interações ele se insere, pois essas redes é que configuram seus resultados, mas, nunca esquecer que noutras redes, eles podem ser diferentes.

Nota-se também que a relação imbricada da ciência com a sociedade não nos permite afirmar determinismos diretos ad infinitum para qualquer contexto. Se a questão é “o que influi sobre o quê”, no mínimo pode-se dizer que a influência é mútua e que num contexto concreto é que se poderá dizer se a ciência impõe alguma coisa à sociedade ou se esta é que impõe certo metier, certa agenda, para ciência. E eu sou otimista: acho que nós podemos muito mais com a ciência que a pobre pretensão de ficar rico.
TÉCNICA

Vamos falar um pouco sobre a técnica e distingui-la da ciência. Vamos retomar dos gregos o significado que eles davam a Tékhne. Peço licença para ler uma definição grega que Marilena Chauí elaborou:


Tékhne


Arte manual, técnica, ofício, profissão; habilidade para fabricar, construir ou compor artefato; habilidade para decifrar presságios, habilidade para compor com palavras (poesia, retórica, teatro). Obra de arte. Produto da arte. A tékhne por meio de obras ou objetos: o médico é um técnico cuja obra é produzir a saúde, assim como, o arquiteto faz a casa e o oleiro faz o vaso cerâmica; o dramaturgo é um técnico que produz como obra uma peça teatral, assim como o poeta produz um poema e o pintor o quadro; o capitão produz a viagem da embarcação, como o tecelão produz o tecido. Tudo que se referir à fabricação de algo que não é feito pela própria natureza é uma técnica cujo campo é o artefato ou um objeto de arte, isto é o artifício, seja o utensílio, ou instrumento, a arma ou o poema. Com exceção do político e do sábio, todos os outros ofícios são técnicos. Com exceção da teoria, da ética e da política, todas as prática são técnicas.3

Acho que com essa definição resgata-se o significado criativo da técnica, que deixa de ser apenas o que se repete, o que já foi feito no passado, aspecto que também faz parte dela. Entretanto temos de ver nela, que é a partir deste passado que se inventa e cria-se algo novo. A técnica, melhor dizendo, o domínio da técnica, permite a incorporação da capacidade criadora, que não parte do vazio, do nada, mas daquilo que nos antecedeu.

A técnica comporta então aquilo que Bourdieu chamou de habitus que não significa puro hábito, aquilo que se faz por pura repetição e com economia de pensamento. Ou seja, habitus é mais que habito pois é a condição que permite a criação. Seu desenvolvimento se dá pela incorporação de certos tipos de disposição, habilidades, estruturadas porque herdadas, mas que são, ao mesmo, tempo estruturantes do mundo social.

Por isso, quando se diz que um cientista é tecnicista revela-se um tipo de concepção da técnica no que ela tem de mais simplório. É tecnicista porque ele desconsidera tanto o que há de criativo nas disposições técnicas como não consegue ver nelas seu conteúdo social, as interações sociais e históricas que atuam na configuração dessas competências técnicas.

Outro equívoco que se tem em relação a técnica e seu desenvolvimento é a crença de que ela estaria indissociavelmente ligada ao campo científico ou às práticas científicas. Essa prepotência cientificista para validação da importância das técnicas, desqualifica habilidades técnicas que não estariam incorporadas ao campo científico ou que foram socializadas de tal maneira que são de domínio do conhecimento popular. Muitas vezes, nem se sabe que ela saiu do campo científico, como podemos citar o Teste Biodigital utilizado por certos grupos populares da pastoral da saúde em muitas comunidades pelo interior do Brasil.

Sei que o que apresento é uma visão otimista da técnica, distintamente das abordagens mais críticas de muitos teóricos do tema. Por exemplo, membros da Escola de Frankfurt denunciaram o poder alienante da técnica. Habermas, por sua vez, em seu trabalho “ciência e técnica como ideologia” também nos deixou claro que tanto a ciência como a técnica na modernidade, deixaram de ser meras forças produtivas para se tornarem instrumentos de dominação. Exemplo mais concreto disso são os tecnocratas que, em muitos discursos, alegam “razões técnicas” para proibir ou impulsionar determinadas medidas de governo.

Acredito que existam “razões técnicas” que se distanciam de tal maneira de nossa vã capacidade de compreensão. Mas, se realmente são razões técnicas, deve haver uma forma razoável de explicitação. Quando essa explicitação não ocorre e nem se faz nenhum esforço para que ela ocorra, como disse Descartes no século XVII, “penso, logo existo”, algo estranho paira no ar, e não se trata da ciência ou da técnica, mas do ilusionismo dominador da ideologia tecnicista.

Esse aspecto crítico e negativo da técnica não pode ser desconsiderado, mas não se pode negar a ela, o que se poderia considerar ser sua essência: o fato dela ser um artifício humano essencialmente para ser socializado, e sua socialização é que garante seu desenvolvimento, como se pode inferir da idéia de técnica entre os gregos. Por isso, a técnica tanto pode servir para as mazelas da dominação política e econômica da sociedade como para ajudar na emancipação humana desta dominação.

E sempre nos cabe perguntar: o que faço e o que concluo dirigi-se em que sentido: para a dominação de uns sobre os outros ou para a emancipação desta dominação?
TECNOLOGIA

E finalmente, a tecnologia. E foi para isso que vocês me convidaram a falar. Veja só! Mas sem problematizar a ciência e a técnica não sei falar da tecnologia.

Entendo tecnologia como aquela coisa resultante da transformação da ciência e da técnica em mercadoria, em um valor de troca e não só de uso. Essa identificação de significado também é histórica: só posso dizer que existe tecnologia na sociedade na qual a mercadoria, enquanto valor de troca, vem colonizando a vida social, ou seja, na sociedade capitalista.

Ela, a tecnologia, só é possível existir por algumas de suas características que só surgiram no contexto capitalista. É algo que se produz para ser vendido e não socializado por outros meios, distribuída. Ela sim, com certeza, visa a dominação de uns homens sobre outros. Aos detentores do capital ela viabiliza a reprodução desse capital. Aos outros, aqueles que serão, de certa forma obrigados a consumi-la, ela cria laços de dependência pelo consumo. Por exemplo, essa obrigação se dá por meio da venda casada: só dá para usar um determinado recurso tecnológico se comprar junto isso, mais isso e isso.

Mas o que é então uma mercadoria? Aí vamos recorrer ao velho Karl Marx que, mesmo depois da queda do muro de Berlin, ninguém pode lhe tirar o mérito de ter desvelado o processo de acumulação e exploração do capital [mas esse papo fica para outro dia].

No livro 1 do Capital, ele tem um subtítulo chamado mercadoria, e de forma quase mágica, Marx diz que o poder da mercadoria vem de seu fetiche (feitiço) que encanta, e porque ela veio para satisfazer desejos, E olhem, esse termo é muito forte, perguntem aos psicanalistas.

Os desejos são necessidades humanas, que por sua vez não são necessidades apenas orgânicas ou biológicas. Nossas necessidades são criações sociais construídas por nossas relações uns com outros em condições historicamente delineadas.

A tecnologia, então, é objetificação mercadológica dos desejos que, em alguns casos, sim, potencializa outros processo produtivos, por exemplo, o computar no qual eu estive fazendo este texto que agora leio.

Mas, por que consumimos tecnologia? Só por um processo de marketing? Em muitos casos, talvez, mas é porque ela incorpora uma outra característica que a distingue imensamente da ciência e técnica: por seus métodos esotéricos, ela desenvolve um segredo. Sem esse segredo ela perde seu fetiche, seu poder de troca, seu poder de mercado: compro porque não sei fazer.

Nessa definição de tecnologia enquanto mercadoria o determinismo que problematizamos para ciência e técnica adquire evidência que não se pode colocar para o saber metódico da ciência ou da técnica como um todo.

A tecnologia, nessa concepção, é construída pelo e para o mercado, para o capital, para a exclusão de alguns do controle de sua produção e consumo. Ela é a corporificação da exclusão, da alienação e da dominação econômica e social.

Esse compromisso social realiza-se desde sua concepção enquanto problema (questão que se quer resolver), como método experimental sob controle (que não admite formas partilhadas socialmente e produção do saber) e como resultado, cuja apropriação se dá por patentes exclusivas e sua socialização(distribuição) apenas pela compra.

Seu envolvimento com o processo de acumulação de riquezas e poder é evidente, se conseguirmos compreender o que aqui chamamos de tecnologia enquanto mercadoria, que é transformação da ciência e técnica em produtos para o mercado dominado pelo capital.

Isso é simples e acho que precede qualquer investigação. Não é no final da pesquisa que eu pergunto o que eu vou fazer com seus resultados. Se você não sabe, tem gente que vai saber para você.

Nossos métodos (procedimentos, estratégias de pesquisa, a definição ética, como Gilberto nos explicou aqui no início) é que vão garantir a natureza socializante ou privatizante de seus resultados.

Por exemplo, podemos desenvolver uma pesquisa sobre o uso da homeopatia na agropecuária. De posse das teorias, desenvolvo um série de testes com alguns preparados, definindo diluições e dinamizações, crio um produto, dou um nome mágico e vendo como sendo “a salvação da lavoura” - essa foi uma expressão dos anos trinta no Brasil -.

Aí pergunto, o que fiz de diferente, mantive a idéia de um pacote, com o qual o produtor só tem de pensar se compra ou não. Elimino dele as atividades de análise e de observação. Torno consumidor. Que autonomia seria essa?

O impacto ambiental é menor, mas não superamos os laços de dependência. Ainda não se resolveu os impasses do conhecimento para agricultura. Ainda estamos dentro do mesmo modelo de civilização consumista.

Novos saberes, verdadeiramente novos, podem se fazer de tal forma – método – que muda a relação dos mais diversos homens (apropriantes em potencial) com o conhecimento do qual terão de lançar mão. O saber é socializado desde sua concepção e problematização original, o valor de uso norteia muitas de nossas descobertas.

A apropriação privada se faz sobre segredos e em condições sociais de exclusão de competências técnicas socialisticamente apropriáveis.

Sei que o que digo é uma abordagem diferente para alguns de vocês. Com certeza ficaremos com muitas pulgas atrás de nossas orelhas. Mas como dizia Weber, em seu livro “ética protestante e espírito do capitalismo” em uma de suas passagens que considero das mais emotivas:
“(...)o homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível”(...) “armar-se com a fortaleza de coração que pode enfrentar até mesmo o desmoronar de todas as esperanças. Isso é necessário neste momento mesmo, ou os homens não poderão alcançar nem mesmo aquilo que é possível hoje.”4
Por isso, o que proponho parece loucura, mas não é. Tanto que já fizemos isso, e sei que qualquer um pode ser capaz de fazer essa tal pesquisa socializante a partir de um método etnográfico.

Para ampliar essa experiência precisamos de pessoas nos centros de poder, nos centros decisórios, que entendam a prática científica para além da mera expectativa de gerar tecnologia enquanto mercadoria.

A tecnologia continuará a existir enquanto a mercantilização da nossa vida, uma marca hegemonicamente constitutiva de nossa vida em sociedade e de nosso ideal de felicidade.

Uma mudança para outra coisa, para outro modo de vida, que mesmo não sabendo muito bem seus detalhes, ainda é possível. Assim podemos dizer que ele deve superar as tamanhas desigualdades sociais e as violentas formas de exclusão nas quais estamos envolvidos e que o saber em muito contribui, para aumentar ou diminuí-las.

Por isso, sempre acho que devemos perguntar: o que pesquiso resolve qual problema, de quem é esse problema, quais os beneficiários potenciais de seus resultados? O que eu tenho feito ajuda a superar a exclusão e as desigualdades, ou reforça laços de dominação?

Ficam aí essas questões para povoar suas jovens mentes criativas.



No mais, agradeço a todos pela paciência em me ouvir.

1 Texto produzido para um palestra destinada aos estudantes de Biologia da Universidade Federal de Viçosa.

2 Professora do Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa.

3Marilena CHAUÍ. Glossário de termos gregos. In: ____. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. (2ª edição) São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.511-12

4 Max Weber. Política como vocação. In: ____. Ensaios ...Op. cit. p.153.


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