Cinco prefácios para cinco livros não escritos



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FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE

CINCO PREFÁCIOS

para cinco livros não escritos

tradução e prefácio: Pedro Süssekind

2º Edição

Editora 7 Letras



Prefácio para prefácios


Este livro é um livro no futuro do pretérito. – Por definição, o prefácio é algo que antecede um escrito: um esclarecimento prévio, uma apresentação, o início de um questionamento. Mas, neste caso, os livros que se seguiriam não foram escritos, e ficaram como reticências para os textos aqui reunidos. Trata-se, portanto,de um conjunto diversificado, onde abrem-se possibilidades de questionamento e os temas são lançados adiante, em diferentes direções. Assim, os prefácios projetam cinco livros que seriam escritos, entre 1870 e 1872, por Friedrich Nietzsche, então um jovem professor de filologia clássica na universidade da Basiléia. É deste mesmo período sua primeira obra publicada: O Nascimento da Tragédia no espírito da música – que seria chamado mais tarde de Helenismo e Pessimismo –. Os outros livros, que o autor não chegou a escrever, permaneceram somente como possibilidades, indicadas em seus textos. Temos aqui a reunião de cinco desses projetos apenas começados, intitulada Cinco prefácios para cinco livros não escritos.

A incompletude evidenciada pelo título não significa, contudo, que os prefácios devam ser lidos como simples apontamentos, a que falta um desenvolvimento posterior e necessário. Na verdade, a leitura dos textos mostra que eles possuem uma certa autonomia, apresentando as questões concisamente, indicando um caminho a ser seguido. Constituem assim, ao mesmo tempo, indicações e como que esboços concentrados das obras que os sucederiam. E se, por outro lado, falta-lhes o desdobramento em uma argumentação mais longa e a elaboração demorada de suas questões, eles apontam com esta falta um esforço do pensamento.

Este livro reúne, portanto, diversas obras que começam, ou melhor, obras que começariam – porque só há de fato os prefácios, que precedem o começo dos livros –. O título Cinco prefácios para cinco livros não escritos (Fünf Vorreden zu fünf ungeschriebenen Bücher) foi dado pelo próprio Nietzsche, que reuniu os seus escritos no natal de 1872 e os enviou à senhora Cosima Wagner, mulher do famoso compositor alemão Richard Wagner. Entretanto, estes cinco textos só seriam publicados muito mais tarde, junto com outros deixados pelo filósofo, após sua morte, seja nos volumes das obras completas ou em coletâneas.

Convém observar que O Nascimento da tragédia, publicado no mesmo ano em que estes prefácios foram reunidos, havia sido dedicado justamente a Wagner, por quem Nietzsche tinha uma grande admiração naquele tempo. Passados desesseis anos, já tendo terminado livros como Humano, demasiado humano, Assim falou Zaratustra e A gaia ciência, o autor escreveria um prólogo tardio a seu primeiro livro, onde critica duramente as suas esperanças no “espírito alemão” e na “música alemã”, assim como a influência da filosofia de Kant e de Schopenhauer , tanto sobre suas idéias quanto sobre sua linguagem. Com relação à música, esta crítica dirige-se especialmente a Wagner, o artista em que ele concentrara, quando jovem, suas expectativas de um ressurgimento da arte trágica:
De fato, aprendi a pensar de uma forma bastante desesperançada e desapiedada acerca desse ‘ser alemão’, assim como da atual música alemã, que é romantismo de ponta a ponta e a menos grega de todas asformas possíveis de arte: além do mais, uma destroçadora de nervos de primeira classe, duplamente perigosa em um povo que gosta de bebida e honra a obscuridade como uma virtude...
Esta Tentativa de Autocrítica se estende em muitos pontos a outros escritos da mesma época, como é o caso dos conco prefácios. E algumas passagens destes poderiam ilustrar aquelas esperanças “lá onde nada havia a esperar”, de que fala o prólogo do Nascimento da Tragédia, apesar de certamente não ser este o ponto central dos textos.

Muitos dos temas e das questões que aparecem nos prefácios fazem parte de obras escritas posteriormente, embora não se trate de simples repetições. O primeiro, “Sobre o PHATOS da verdade”, por exemplo, tem trechos que foram usados de novo, literalmente, em dois textos mais conhecidos, ambos do ano de 1983: A filosofia na idade trágica dos gregos e Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral. Entretanto, numa comparação, os textos se complementam, muito mais do que se repetem. O mesmo pode ser dito do quarto prefácio, onde Nietzsche critica o erudito alemão, cuja formação é caracterizada pelo conhecimento “historiográfico”: essa crítica é justamente o tema de uma das Considerações Intempestivas (segundo livro publicado pelo autor), escrita em 1874: Das vantagens e desvantagens da história para a vida. Tendo em vista as comparações e o aprofundamento das questões presentes nos prefácios, tais pontos em comum foram indicados nas notas desta tradução.

Nas relações, retomadas e autocríticas, expostas aqui brevemente, o que se evidencia são as diversas direções indicadas pelos prefácios, cuja reunião não obedece a nenhum critério específico ou determinado. Trata-se de elementos compondo um livro que aponta cinco caminhos, ou muitas possibilidades distintas. Mas esta composição não é, de modo algum, arbitrária: os caminhos se cruzam e se tangenciam. E para a obra que resulta da seqüência de textos reunidos por Nietzsche, valem as palavras do segundo prefácio:
O livro se destina aos leitores calmos, a homens que ainda não estarão comprometidos pela pressa vertiginosa de nossa época rolante, e que ainda não sentem um prazer idólatra quando se atiram sob suas rodas, portanto a homens que ainda não se acostumaram a estimar o valor de cada coisa segundo o ganho ou a perda de tempo...
Apesar das diferenças quanto aos temas e aos propósitos de cada livro (de cada prefácio), é possível perceber a identidade entre eles, como uma linha que, de algum modo, os atravessa. A invocação ao leitor, assim como a questão da formação e da história (no segundo texto e no quarto), não deixam de ressaltar um ponto de partida que se faz presente em todos os prefácios, direta ou indiretamente: a interpretação da cultura grega e a relação entre os homens antigos e os modernos. Assim como no Nascimento da Tragédia, o helenismo é reavaliado como raiz e como modelo da cultura moderna, a partir de uma perspectiva completamente nova. De fato, o tema principal do primeiro livro de Nietzsche é a base de dois dos prefácios, e portanto de dois dos livros que não foram escritos: O estado grego e A disputa de Homero (respectivamente, o terceiro texto e o quinto). E também o primeiro prefácio, embora não tematize diretamente a cultura grega, questiona a verdade, o conhecimento e a arte referindo-se fundamentalmente a Heráclito e à experiência grega contida na palavra pathos1.

O terceiro prefácio não só faz uma comparação entre a concepção grega de estado e a moderna, como também aponta a interpretação da filosofia platônica como seu ponto de partida. A comparação, neste caso, fundamenta uma crítica das noções modernas de “dignidade” do homem e do trabalho. Mas não se trata de uma idealização da Grécia antiga, nem de uma visão romântica que a enxerga apenas como o berço da civilização e da sociedade, onde se observam as mais belas obras de arte, a enorme riqueza das discussões políticas e o início da filosofia. Nietzsche fala desde uma perspectiva muito diferente, e até inversa, observando uma verdade cruel que se mostra no princípio das noções modernas, procurando trazer à tona a origem assustadora do estado, relacionada à escravidão e ao sofrimento. De acordo com o que se vê na cultura grega, em princípio é a natureza que forja a ferramenta do estado, “aquele conquistador com mão de ferro” que tem necessidade do trabalho incessante e da guerra. Assim, como diz o texto:


O estado, de nascimento infame, é uma fonte contínua e fluida de fadiga para a maioria dos homens, em períodos que retornam constantemente, o archote devorador da espécie humana...
Embora dirigida a uma meta determinada, é a questão do pessimismo grego que aparece neste terceiro prefácio. Ou melhor, a fim de revelar as raízes da formação do estado, Nietzsche parte de uma perspectiva que vê na cultura grega traços de crueldade, selvageria e sofrimento, de onde só pode surgir uma interpretação pessimista da existencial. A arte grega seria o fruto de tal interpretação: por ela se dá a possibilidade de superar o pessimismo.

Ainda no terreno das comparações, este questionamento da conexão entre a arte e o estado está muito próximo do tema do Nascimento da Tragédia. Todavia, é o quinto prefácio que retoma propriamente a reflexão, ao questionar a arte grega em sua relação com a guerra e os horrores de uma sociedade guerreira. Mesmo havendo muitos pontos de contato, a retomada encaminha-se em uma tal direção própria, fazendo o que se pode chamar de uma interpretação épica da ética helênica. Por meio de tal interpretação, a ética, ou seja, a noção determinante para o comportamento do homem grego, é vista, então, desde a arte, desde a transformação dos sofrimentos e dos horrores da existência, do pessimismo com relação à vida, em belas imagens apolíneas. Ou, como diz o texto, a passagem do mundo pré-homérico para o mundo homérico.

Os helenos, por possuírem, como nenhum outro povo, uma sensibilidade extraordinária para o sofrimento, uma consciência inigualável de sua própria condição passageira, entre esforços e fadigas sem fim, poderiam ser levados a uma negação da existência, a uma compreensão niilista da vida. Nisto, segundo Nietzsche, eles não seriam diferentes dos povos do Oriente, que sucumbiriam sob o peso do pessimismo. Porém, justamente pelo conhecimento, em seus mitos, do lado sombrio da vida, por um contato com a negação, os gregos criaram uma arte e uma religião que funcionasse como antídoto, como proteção contra as atrocidades e os sofrimentos diante dos quais se encontravam. As obras de Homero são a expressão mais importante deste impulso criativo épico: o hundo homérico, guardado pela exuberância dos deuses olímpicos e pelo brilho singular dos heróis, coloca-se côo uma justificativa da vida e uma resposta ao pessimismo, erguendo-se como escudo divino de Aquiles.

A arte grega tem como ponto de partida essa necessidade: diante dos horrores e da condição efêmera da existência, experimentados com uma intensidade maior do que a de outras civilizações, os gregos criaram, pela abundância e pela força das miragens artísticas, um modo de tornar a vida desejável, justificada. As imagens de Homero – “o maior e o mais divino dos poetas”, nas palavras do Ion de Platão – funcionam como uma máscara de beleza que cobre o lado sombrio e aterrador da existência. No Nascimento da Tragédia, para denominar este princípio artístico, da bela aparência, do brilho e do modelo luminoso, Nietzsche recorre ao deus Apolo, “que deve ser considerado por nós como o pai deste mundo [olímpico]”. A religião apolínea é uma forma de divinizar tudo o que existe, e os deuses olímpicos são deuses da vida, da exuberância, não tendo, como na religião cristã, um caráter espiritualista e ascético. Trata-se, na Grécia arcaica, de uma cultura em que a beleza e a força transbordante de deuses e heróis se impõem aos helenos côo um espelho em que se refletem imagens de sonhos. “O grego conheceu e sentiu os temores e os horrores do existir: para que lhe fosse possível de algum modo viver, teve de colocar ali, entre ele e a vida, a resplandecente criação onírica dos deuses olímpicos.” (Nascimento da Tragédia, 3)

Os cantos épicos, dos quais a Ilíada é o maior exemplo, possuem como tema os feitos dos guerreiros, que, pela audácia de procurar uma morte gloriosa, têm seus nomes imortalizados nas canções dos poetas. O momento de glória do herói, em que ele brilha como um raio de sol, é algo que torna a vida digna de ser vivida, permanecendo na memória dos homens futuros. Na poesia homérica, as cenas mais atrozes e sanguinárias da guerra, a própria morte e dor adquirem um sentido, mostrando-se de modo não só aceitável, mas admirável e glorioso. A “morte gloriosa” eleva o herói muito acima dos outros homens e o aproxima dos deuses, na imortalidade da fama.

Neste caso, o termo “disputa” (Wettkampf em alemão), usado no quinto prefácio, traduz implicitamente a palavra grega agon, que aparece na Ilíada quando dois heróis combatem entre si nos jogos e competições ou no próprio campo de batalha. E o autor indica esta tradução ao falar de uma educação “agônica” dos gregos. O homem grego educado na disputa procura, como os heróis homéricos, a glória, o brilho da fama, e no impulso de superar os outros, o indivíduo é levado a fazer sempre o melhor possível, e assim a tentar superar a si mesmo, tanto no caso dos sofistas, dos oradores e dos artistas, como no caso dos filósofos. O impulso artístico, cuja interpretação se origina nos versos de Homero e Hesíodo, mostra-se como uma noção que move e orienta tanto o homem quanto a cidade grega. Pela arte, a luta e os impulsos animais do ser humano deixam de constituir um traço exclusivamente destrutivo, para ganharem o sentido de disputa, e assim da criação e superação. A boa Eris (Discórdia) substitui a má Eris.

Deste modo, a questão da arte, a questão de uma “justificativa estética do mundo”, como chamava Nietzsche no Nascimento da Tragédia, atravessa os prefácios, para se colocar diretamente como tema no último deles. Mas o quinto prefácio evidencia também, na reunião dos cinco projetos ‘de juventude’ do autor, uma marca de todos os seus escritos, uma característica de seu modo de pensar e escrever: justamente a disputa, ou em outras palavras, a guerra, a polêmica, a crítica, a criação.

Quanto a este aspecto da filosofia de Nietzsche, de modo geral, é o caso de lembrar as palavras de Zaratustra:


“De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é espírito.

Não é fácil compreender o sangue alheio; odeio todos aqueles que lêem por desfastio.”

(Assim falou ZaratustraDo ler e escrever)
E logo depois, numa frase que poderia servir aqui como epígrafe:
“Aquele que escreve com sangue e máximas não quer ser lido, mas aprendido de cor.”

Pedro Süssekind



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