Clara Rossana Ferraro de Sá



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Clara Rossana Ferraro de Sá (CRP 04374)

Psicóloga. Analista junguiana. Membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP)/ Zurique/Suiça(Full Member since 2005). Membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB). Membro do Instituto Junguiano do Paraná (IJPR). Escultora com reciclagem em Carrara/Italia realiza esculturas em mármore,bronze e resina. Atua na Clinica de adulto, adolescente e criança.Organizou,com o apoio do CRP-PR o I ENCONTRO DE PSICOLOGIA JUNGUIANA DO PARANÁ(2000),tema: O Tempo e suas Conexões.Foi presidente do I SIMPÓSIO DE PSICOLOGIA ANALÍTICA DO INSTITUTO JUNGUIANO DO PARANÁ-IJPR(2008),tema:Psicologia Analítica:Teoria e Prática.Participou do XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA AJB(2010),tema:Criação;com a obra escultórica: “Poética Noturna”. Co-autora do Livro didático: Ensino de Arte : Eis a Questão, Edit. Módulo, 1993. Autoras: Andrade, R.F., Sá, C.R.F.- Samways, E. Capítulo A Criatividade em Psicologia Analítica - Contribuições para uma Mudança de Paradigma. Em Ensaios sobre a Clínica Junguiana. Instituto Junguiano do Rio G. do Sul. Org. Werres, J.L. Porto Alegre, RS : Edit. Imprensa Livre, 2005


Endereço: Av. Cândido de Abreu, 140, cj. 1008 - 80530-000 - Curitiba, PR. Telefone/fax: (41) 3233.6679; Celular: (41) 9644.7787; E-mail: clararfs@terra.com.br; flickr: www.flickr.com/photos/clara_rossana

MITOLOGIA

Sonho Eterno, Suspensão do Tempo, Conversa com a Eternidade
Sinopse

O mitologizar é próprio da Alma. Na atemporalidade mítica encontram-se os mitologemas que se repetem em todas as culturas desde os tempos mais remotos. Os deuses são personificações destas potencias geradoras do Cosmo.Herda-se a sabedoria dos ancestrais através destas imagens universais contadas e recontadas nos mitos e contos de fadas. Elas são a fonte,as raízes nutridoras da psique individual.

Palavras-chaves

Mitologema,mito,alma,arquétipo,deuses,cosmos,psique individual,psique coletiva.
Synopsis
The creation of Myths is proper to the Soul. In mythic timelessness are found the mythologems that recur in all cultures since ancient times. The gods are personifications of these powers that generate Cosmos.Humanity inherits the wisdom of the ancestors through these collective images that are told and retold througt these myths and fairy tales. They are the source that nourish the roots of the individual psyche.Ouvir

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Key-words

Mythologem, myth, soul, archetype, gods, the cosmos, the individual psyche, the collective psyche.
Sinopse

La mitificación es inherente del alma. En atemporalidad mítica se encuentran los mitologemas que se repiten en todas las culturas desde la antigüedad. Los dioses son personificaciones de estas potencias generadoras del Cosmo. Se hereda la sabiduría de los antepasados através de estas imágenes universales y narración de mitos y cuentos de hadas. Son la fuente, las raíces alimentadoras de la psique individual. Ler foneticamente

 

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Palabras-llave

Mitologema, el mito, el alma, arquetipo, dioses, el cosmos, la psique individual, la psique colectiva.

CAOS, CRIAÇÃO, COSMOS – POTÊNCIAS GERADORAS
O constante devir, a nova forma que surge na instantaneidade do momento, é um mistério parcialmente compreendido pela razão humana.

Entre o visível e o invisível, é possível lançar um olhar para capturar estes três princípios geradores do novo: Caos, Criação e Cosmos.

A atemporalidade dessas potências é mostrada nos mitos de criação. Criação como mitologema repete-se em todas as culturas e em todos os tempos. Esta estrutura básica foi comprovada por Jung.
Verdadeiramente, porém, foram observados mitologemas típicos justamente em indivíduos nos quais esses conhecimentos estavam fora de questão e mesmo sendo impossível uma derivação indireta de ideias religiosas ou de figuras da linguagem popular. Tais conclusões forçam-nos a assumir que se trata de revivescências autóctones, além de toda tradição e, consequentemente, da existência de elementos estruturais formadores de mitos da psique inconsciente (Jung, vol.IX/1,1976:194§259).

Essa fonte da psique inconsciente é uma camada mais profunda, cuja origem é inata, conforme esclarece Jung:


...no concernente aos conteúdos do Inconsciente Coletivo, estamos tratando de tipos arcaicos ou, melhor, primordiais, isto é, de imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos (Jung, vol.IX/1,1976: página16 §5).
Estes produtos nunca ou raramente são mitos formados, mas sim componentes de mitos que, devido à sua natureza típica, podemos chamar de “motivos”, “imagens primordiais”,tipos” ou “arquétipos”, como eu os designei. O arquétipo da criança é um ótimo exemplo. Hoje podemos permitir-nos pronunciar a fórmula de que os arquétipos aparecem nos mitos e contos de fadas, bem como no sonho e nos produtos da fantasia psicótica. O meio que os contém é, no primeiro caso, um contexto de sentido ordenado e quase sempre de compreensão imediata; no segundo caso, porém, é uma sequência de imagens geralmente incompreensível, irracional, delirante, que, no entanto, não carece de certa coerência oculta de sentido. No indivíduo, os arquétipos aparecem como manifestações involuntárias de processos inconscientes, cuja existência e sentido só podem ser inferidos; no mito, pelo contrário, trata-se de formações tradicionais de idades incalculáveis. Remontam a um mundo anterior originário, com pressupostos e condições espirituais que ainda podemos observar entre os primitivos atuais. Os mitos, nesse nível, são, em regra geral, ensinamentos tribais, transmitidos de geração em geração, através de relatos orais. O estado de espírito primitivo diferencia-se do civilizado principalmente pelo fato de a consciência estar muito menos desenvolvida no sentido de extensão e intensidade. Funções, tais como o pensamento, a vontade etc., não estão diferenciadas, mas ainda no estado pré-consciente, o que se evidencia, por exemplo, no caso do pensamento, pelo fato de que não se pensa conscientemente, mas os pensamentos acontecem. O primitivo não pode afirmar que ele pensa, mas sim que algo “pensa dentro dele”. A espontaneidade do ato de pensar não está causalmente em sua consciência, mas em seu inconsciente. Além disso, ele é incapaz de qualquer esforço consciente de vontade, devendo se colocar previamente na “disposição do querer” ou entregar-se a ela: daí os seus rites d’entrée et de sortie. Sua consciência é ameaçada por um inconsciente poderosíssimo, daí o temor de influências mágicas que, a qualquer momento, podem atravessar a sua intenção e, por esse motivo, ele está cercado de poderes desconhecidos aos quais deve se ajustar de algum modo. Devido ao crônico estado crepuscular de sua consciência, muitas vezes é quase impossível descobrir se ele sonhou alguma coisa ou se viveu na realidade. A automanifestação do inconsciente com seu arquétipo é introduzida sempre, em toda parte da consciência, e o mundo mítico dos antepassados, por exemplo, o alchera ou bugari dos aborígenes australianos, é uma existência de nível igual ou mesmo superior à natureza material. Não é o mundo tal qual o conhecemos que fala a partir de seu inconsciente, mas o mundo desconhecido da psique, do qual sabemos que reflete apenas em parte o nosso mundo empírico, e que, por outro lado, molda este último de acordo com pressuposto psíquico. O arquétipo não provém de fatos físicos, mas descreve como a alma vivencia a realidade física, e aqui ela (a alma) procede muitas vezes tão autocriticamente, chegando a negar a realidade tangível através de afirmações que colidem com esta última (Jung, vol.IX/1,1976: página155§260).
...a mentalidade primitiva não inventa mitos, mas os vivencia. Os mitos são revelações originárias da alma pré-consciente, pronunciamentos involuntários acerca do acontecimento anímico inconsciente e nada menos do que alegorias de processos físicos. Tais alegorias seriam um jogo ocioso de um intelecto não-científico. Os mitos, pelo contrário, têm um significado vital. Eles não só representam, mas também são a vida anímica da tribo primitiva, a qual se degenera e desaparece imediatamente depois de perder sua herança mítica, tal como um homem que perdesse sua alma. A mitologia de uma tribo é sua religião viva, cuja perda é tal como para o homem civilizado, sempre e em toda parte, uma catástrofe moral (Jung,vol.IX/1, 1976: página156§261).
Como uma função viva e que vivifica, o mitologizar é próprio da alma humana, e todo mito traz um tema central, gira em torno de um mitologema.

O mito nasce autonomamente da fonte da psique inconsciente ou, fenomenologicamente, a partir de uma experiência numinosa, cuja fonte é transcendente.

O Homem sempre viveu no mito e cultuou a sabedoria dos antepassados; porém, atualmente, distanciamo-nos dessas raízes nutridoras.
O Homem sempre viveu no mito, e acreditamos ser capazes de nascer hoje em dia e viver fora do mito, fora da história. Isso é uma doença, totalmente anormal, pois o homem não nasce todo dia. Ele nasce só uma vez, em um ambiente histórico específico, com qualidades históricas específicas e, dessa forma, ele só é completo quando possui uma relação com essas coisas. Se você cresce sem ligação com o passado, é como se você nascesse sem olhos e ouvidos [...] isso é uma mutilação do ser humano (Jung, citado por Edinger, 2004:11).
O homem moderno perdeu o mito central dessacralizando sua existência; substituiu-o pelo culto à razão e, como consequência, aparece uma dissociação entre o consciente e o inconsciente, priorizando o intelecto. A luz da razão substitui a luz divina.

No extremo dessa situação, veem-se os softwares e sua luz tecnológica penetrar nos olhos humanos desvitalizando-os, deixando um vazio insaciável e uma ansiedade existencial que os faz ignorantes frente aos seus ancestrais e sua sabedoria mítica interligada com a natureza.


A sacralidade de Deus polifacetada na natureza perdeu sua corporalidade e abstraiu-se, tornando-se tão distante que se rompeu ao polarizar-se na identificação da luz da razão humana com a luz do mistério da divindade.

Ao olhar mais atentamente, pode-se ver uma enantiodromia nessa dinâmica, a busca de um retorno ao equilíbrio, incluindo o que foi excluído.

Se Deus está morto na consciência coletiva, é preciso buscá-lo na esfera individual, e essa é a proposta de cura da alma para Jung, através do religare ao longo do processo de individuação. Nele, aparece o movimento da circoambulação, no qual o giro recupera a história individual e a história coletiva, cuja meta é o homem e sua totalidade.

Jung explica a enantiodromia através da função do arquétipo da criança, o Self:


O motivo da criança não representa apenas algo que existiu no passado longínquo, mas também algo presente; não é somente um vestígio, mas um sistema que funciona ainda, destinado a compensar ou corrigir as unilateralidades ou extravagâncias inevitáveis da consciência. A natureza da consciência é de concentrar-se em poucos conteúdos, seletivamente, elevando-os a um grau máximo de clareza. A consciência tem como consequência necessária, e condição prévia, a exclusão de outros conteúdos igualmente passíveis de conscientização. Essa exclusão causa, inevitavelmente, certa unilateralidade dos conteúdos conscientes... (Jung, 1974: página163§276).
O processo de individuação recupera o sentido da existência, trazendo o mito pessoal para o foco da reflexão, reconectando-o com o eixo central que exerce atração e fecha um campo de energia.

Esta é a tarefa individual: centralizar, encontrar o próprio sol e tornar-se um cosmo com poder gravitacional de atração para compreender o sentido de cada desmembramento da luz branca espiritual. É necessário recuperar o eixo-cósmico que interliga o ser humano, como um microcosmo ao macrocosmo.


Caos e Criação. O Cosmo, a nova forma, surge da organização das possibilidades contidas nesse Caos gerador.

A psique individual é um Cosmo.

A ideia do Anthropos, da totalidade e plenitude de realização de si-mesmo, atualiza-se em todo o ser humano, e sua tarefa é trazê-la para a consciência.

Estar presente a partir desse centro traz dignidade ao ser.

A miséria está no corpo anestesiado, desaprendido de sentir, perdido no pensar compulsivo, no fazer compulsivo, na aceleração mental que descaracteriza a humanidade em cada um.

Voltar a sentir, a pensar com os ossos é uma necessidade que se impõe.

O plano invisível que sustenta o visível pode ser imaginado no microcosmo, no homem como corpo; ao insuflar a alma, o campo do imaginário, pode-se chegar ao sentido, à compreensão espiritual.

O homem é feito da imaginação!

No entanto, para encontrar-se, precisa ser puxado pela gravidade, pelo escuro da luz, o outro lado, mistério resplandecente! O encontro da luz e da sombra forma sua alma Una e Poli. O branco reflete, é o espírito unificador. O colorido é a alma, a vida dentro de cada um. Ele é obtido pela decomposição da luz. O preto absorve e guarda o segredo da luz.

Criar é imitar os deuses, é entender o ciclo de vida-morte-renascimento, fluindo no micro e no macrocosmos.

O modelo ocidental de criação está imerso no imaginário grego. A Cosmogonia grega busca explicar a Criação, o Homem semelhante aos deuses.

Observam-se, nessa dinâmica, os pólos Uno e Poli, o movimento da energia psíquica. Eles compõem a totalidade e sua ordem cósmica. Um Cosmos é um Todo organizado, e seu desdobramento revela as facetas da realidade, os diversos pontos de vista. Contém o movimento cíclico que ensina a arte de viver aqui na Terra, a purificação e a preparação para a nova vida e a conquista da imortalidade, passando por vários renascimentos.

Em seu livro O Poder do Mito, Joseph Campbell (1998: 217) aborda: “As imagens são reflexos das potencialidades espirituais de cada um de nós. Ao contemplá-las, evocamos os seus poderes em nossas próprias vidas.”

Na ótica imagética, o Olimpo está em todo lugar e é acessível ao ser humano em qualquer época, uma vez que entra em seu imaginário.

Os deuses são metáforas dos impulsos que guiam o ser humano.

Onde se encontra o mistério? Diante de que ordem buscam-se a reflexão e a compreensão?

O mito serve às necessidades humanas de relacionamento com estas quatro ordens dos mistérios: o cosmo, a natureza, o outro, o próprio ser.

É no diálogo entre o infinito e o finito, a vontade dos deuses e a do próprio homem, que se torna possível uma construção do divino e do humano, bem como uma evolução espiritual com base no desenvolvimento moral.

A maneira como é estabelecido um contato com esses mistérios e acontece um relacionamento com essas grandes forças arquetípicas aparece primeiro de forma inconsciente; gradativamente, o homem torna-se consciente desse processo, que é o caminho de individuação dessas forças na alma pessoal. A busca de unidade é a meta. A humanização, uma necessidade.

A tentativa de viver pessoalmente o mistério, apresenta-se ao homem moderno carente de rituais.

Conhecer a si mesmo, com o auxílio dos padrões míticos, facilita a passagem por essa vida em busca de significado.

A ansiedade existencial do homem moderno está potencializada pela carência de símbolos vivos que o conectem com a dimensão transpessoal e renovem a energia, ensinando-o a viver e a renascer em vida.

Pensar a existência humana é, primeiramente, imaginá-la.

É preciso tempo para decifrar o enigma do ser: quem é, de onde veio, para onde vai, o que veio fazer aqui.



A grande catábase da encarnação da alma é uma preparação para a grande anábase da transcendência.

A fonte de cultura ocidental é o ideal grego. Ele permanece em todo o Ocidente; pertence ao imaginário e é possível recuperá-lo reimaginando-o, recontando-o.

Tornar consciente o lote do destino escolhido, dentre muitos outros apresentados pelas Moiras, é uma tarefa individual.

O fio da vida, tecido por Cloto, desenrola-se no momento da escolha.

Existe uma escolha da qual o ser humano é inconsciente, mas é responsabilizado pela futura diferenciação: ser único, possuir uma estrela-guia, um brilho próprio, dentre milhões de outros, vistos a olho nu no céu estrelado.

A alma deixa a sua estrela guia, passa pelo vale do esquecimento e volta a ter existência terrena. Acompanhada pelo seu daimon, seu gênio pessoal, irá resgatar a tessitura inconsciente de seu destino. Seus dons estão protegidos pelo seu demônio pessoal, aquele que luta pela individualidade do ser.

A proteção da tessitura do processo criativo é estabelecida nos rituais que contém as forças cósmicas, transformando-as.

A presença do arquétipo traz a experiência do Numinoso.

Em todo mito, seus personagens estão intimamente interligados, da mesma forma que os seus conteúdos inconscientes.

A partir do momento em que o cordão umbilical é cortado, o Ser está a serviço dos deuses, e não é mais produto de sua mãe.

A unidade do cosmo é configurada pelo Uróboro, a serpente que “morde a própria cauda”.

Do ponto de vista simbólico, Uróboro configura a manifestação e a reabsorção cíclica. É a união sexual em si mesma, autofecundadora, permanente, como demonstra a cauda mergulhada em sua própria boca; é a perpétua transmutação da morte em vida e vice-versa, já que suas presas injetam veneno em seu próprio corpo.

Para usar da expressão de Bachelard (2001), Uróboro é a dialética material da vida e da morte; a morte que brota da vida e a vida que brota da morte.

O grande redondo da inconsciência de si mesmo – o Uróboros – traz em si todas as possibilidades. O grande dará passagem para o pequeno, dividindo-se. A divisão marca o início da existência consciente.

A fissura remete ao imaginário da profundidade e do mistério da existência.

Pode-se observar quatro desdobramentos do Uróboros inicial: Matriarcal, Patriarcal, Alteridade e Cósmico. Cada um possui seu próprio princípio organizador e seus arquétipos estruturantes da personalidade individual. Os deuses (arquétipos) orientam nos estágios de evolução.

Os princípios cósmicos que orientam a alma são onipresentes. Logos, como o princípio do conhecimento; Eros, princípio de ligação; Psique, vida; Tânatos, morte.

No pensamento grego arcaico, o Logos, que é o conhecimento do outro, do diverso, substitui o ato bárbaro do devoramento. Sua sociedade mítico erótica busca, nas ligações pelo amor, o conhecimento revelador do novo, do desconhecido, saindo do mundo do medo, trazendo a luz da diferenciação.

Outro imaginário é apresentado através de Plotino, filósofo egípcio, que fala sobre o Uno em suas Enéadas.. O sistema místico desenvolvido por ele chama-se panteísmo de emanação, cuja síntese é a seguinte: acima de todos os seres, eleva-se o Uno, a Grande Mônada, a Unidade Absoluta, ser supremo e incognoscível (sem inteligência, nem vontade, já que esses atributos implicam a dualidade de sujeito e objeto), unidade simplicíssima e suficientíssima, plenamente identificada consigo mesma na contemplação e amor de si mesma. Do Uno não se pode dizer o que ele é, apenas que o leva a emanar-se, a expandir-se para fora de si; desse Uno, por emanação, degradação e dessemelhança, provém a Inteligência, o Logos, que contém em si todas as coisas, o mundo dos inteligíveis. Da Inteligência, como princípio dinâmico, emana a Alma do Mundo, caracterizada pela tendência essencial a realizar as ideias eternas no mundo sensível [...] da Alma do Mundo, provêm as almas individuais ou forças plásticas que geram a matéria e a ela unem-se, constituindo os seres corpóreos e sensíveis. A matéria é, pois, a última emanação do Uno, a essência suprema.

A este processo objetivo, de degradação do Uno em emanações sucessivas, corresponde um processo subjetivo de reintegração dos seres na Grande Mônada, na unidade absoluta. Nessa “reabsorção”, a psiqué passa por três estágios: Kátarsis, catarse, purificação, através da qual se desliga de tudo o que é sensível e “re-une-se” à Inteligência; Dialética, diálogo, pela qual se eleva à contemplação das ideias e “re-une-se” à Inteligência; Contemplação, êxtase, pelo qual a psiqué despoja-se do sentimento da própria personalidade para abismar-se, inconscientemente, na Unidade Suprema.

É do Caos subterrâneo que surge o movimento dilacerante daquilo que era Uno; é a fissura que gera a diferenciação.

No universo dos deuses gregos, no movimento do Uróboros, Zeus representa o princípio da consciência, da luz que nasce da inconsciência, da luz que verticaliza e lança a criação para longe das trevas.

O aspecto monoteísta da mitologia grega está personificado em Zeus, o deus supremo.

O eixo Zeus e Hera representa os aspectos espirituais e a consolidação dos conteúdos a serem integrados. São o masculino e o feminino divinizados.

No seu pólo oposto, Hades e Perséfone conectam-se com o mistério da transformação e da transcendência. O oculto, o velado, o escuro e o fértil reino dos mortos proporciona a purificação necessária para o retorno da alma à sua estrela guia. O julgamento implacável mede o quanto a alma evoluiu a partir dos atributos das três graças: o Belo, o Bom e o Nobre.

O aspecto politeísta desdobra-se no panteão grego dos deuses do Olimpo. Para compreender o caminho cósmico da alma, é necessário observar as 12 etapas da transcendência e o 13° elemento portador do novo.



Apolo, Atena, Ares, Héstia, Deméter, Perséfone, Hades, Dioniso, Posídon, Hefestos, Afrodite e Ártemis, guiados por Hermes, buscam conexão com o eixo Zeus e Hera para verticalizar a criação, em busca da luz própria, levando-a para o universo.

A origem da vida é astral – não se deu aqui na Terra –, e toda a criação pertence ao Universo devendo retornar a ele.

Cada deus tem uma plenitude própria. A manifestação de sua natureza e essência é única e está interligada ao todo. É necessário aprender a administrar a potência das forças contidas no cosmos de cada um dos deuses, bem como a totalidade unificada e organizada.

A luz branca que tudo irradia decompõe-se em cores de diversas intensidades e vibrações. São como estágios de desenvolvimento para atingir a unificação.

O caminho que a libido percorre, por onde seus conteúdos inconscientes tornam-se conscientes e contam a história individual dentro da fonte coletiva comum a toda a humanidade, é mítico.

O arquétipo do herói percorre esse caminho. Seu mito é o mito do ser humano.

O herói organiza-se num movimento de catábase, uma descida ao mundo dos arquétipos, numa luta contra as forças do coletivo, para impor a sua individualidade.

É um princípio organizador do Ego.

O processo de diferenciação ocorre como um mistério. A essência revela-se na decomposição da aparência. Um renascimento resulta após a reflexão. Todas as percepções estão em conexão e cumplicidade com o significado que vai emergir no insight criativo.

O desdobramento das forças criativas configura uma Roda dos Deuses.

Os gêmeos Apolo e Ártemis personificam a luz do sol e da lua, respectivamente.

O herói nasce com Apolo, a luz tão necessária no início da jornada da alma.



Atena acompanha-o, amparando-o com a justa medida que põe fim às forças urobóricas de devoramento, que tentam impedir que a consciência nasça e fundamente-se. Héstia entra em cena, ajudando a criar um chão psíquico, o centro interno de reflexão sobre a própria existência. O significado será revelado ao iniciado nos Mistérios de Eleusias, presidido por Deméter. A alma, como semente do ser, traz seu mistério cíclico. Nasce, vive, morre e renasce; sábia imagem contida no singelo grão de trigo. A natureza é cultivada, assim como os conteúdos psíquicos inconscientes tornar-se-ão conscientes no processo de reflexão.

A alma precisa conhecer sua fonte inconsciente, mergulhando nas profundezas escuras de Hades. O rapto da inocência, personificada em Core, produz a possibilidade de individuação. Uma consciência da unidade de si-mesma. Luz e Sombra são cúmplices no processo de parir a alma individual consciente de seu mistério de ser.



Dioniso é o portador do mistério do Outro, aquele que faz o ser retornar à consciência da sua individualidade. Só conheço a mim mesmo através do Outro.

Posídon, mestre e esposo de Deméter, é o princípio ativo contido na grande matrix receptiva de GayaDeméter. É sua evolução em outro plano mais consciente. A água das emoções que umidificam a terra, tornando-a mais fértil – seu húmus.

Deméter e Posídon pertencem ao mistério do hierósgamos, o casamento sagrado, no plano das forças subterrâneas, no campo do emocional a ser forjado pelo Hefesto em nós, o princípio do trabalho individual necessário para o aperfeiçoamento.

A alma em evolução conhece o caminho para o templo de Afrodite, sustentado pelas colunas do Belo, Bom e Nobre para depois voltar-se para a natureza em si de Ártemis e transcender. Hermes ata e desata, faz as conexões com sua capacidade de velar e revelar, conhece as potências contidas em cada parte do todo.


OS DEUSES
Hermes

Filho de Zeus e Maia (plêiade filha de Atlas e Plêione). Nasceu numa caverna do monte Cilene, ao sul da Arcádia, enfaixado num Salgueiro, símbolo da fecundidade e da imortalidade. Seu poder de atar e desatar manifesta-se de imediato, e ele desliga-se das faixas e viaja até a Tessália, onde furtou uma parte do rebanho de Admeto, guardado por Apolo, seu irmão.

A lógica mítica mostra que as coisas são e não são ao mesmo tempo, que a imprevisibilidade abre as portas da previsibilidade.

O que realmente importa é aquilo que faz sentido para o ser. Esse é o mistério de Hermes, a poesia própria de cada um.

Evoluir a partir de sua própria natureza. Isso é Hermes.

Ele é o ponto de união entre Homens e Deuses. Ele coloca-se em todos os caminhos, abre as possibilidades e ajuda a encontrar os próprios potenciais, bem como as dificuldades que compõem o caminho da metamorfose; é através desse conflito que o ser humano aprende a arte de recriar sua própria vida. Metamorfosear-se a partir de si próprio é o único caminho para a evolução.



Hermes é psicopompo. É o condutor da Metempsicose, a busca da purificação diante do julgamento de Perséfone e Cérbero, que irá medir o que a alma fez de Belo, Bom e Nobre. O aperfeiçoamento permite que a alma volte para o seu astro guia e possa nascer novamente em outro corpo, para evoluir e prosseguir no seu caminho de reconquista da eternidade.

Deus mensageiro, comunica, interliga as facetas dos diversos planos: dos deuses, dos homens, dos mortos. Revela e oculta o que for necessário para que se processe a evolução. Hermes mensageiro tem o domínio dos três níveis.

A grande tarefa de Hermes consistia em ser o intérprete da vontade dos deuses; ser hábil em ambas as funções, isto é, versado em conduzir para a luz ou para as trevas. Eis aí o grande título de Hermes – o vencedor mágico da obscuridade, porque sabe tudo e, por esse motivo, pode tudo.

As descobertas individuais trazem a nova forma, e essa transforma a Psique que busca a transcendência. O caminho da Criação recupera, imita os deuses. Através da descoberta dos próprios talentos, cada ser encontra a sua forma de criar e recria-se a cada nova metamorfose.

Para os gregos, a ética revelava-se nas três graças: o Belo, o Bom e o Nobre, as quais conferem ao ser a dignidade de nascer viver e morrer com honra.

Eles foram os representantes de uma cultura para o Ser. Acreditavam no retorno da alma em busca de aperfeiçoamento.

Cada um pode tornar-se pleno com a descoberta de seus carismas. A alegria de viver é manifestada na graça divina presente nos talentos, e estes clamam por comprovação. É preciso experimentá-los, pô-los em prática.

Apolo

Filho de Zeus e Leto. Hera proibiu a terra de acolher Leto e, portanto, a estéril e flutuante ilha de Ortígia, por não estar fixada em parte alguma, abrigou a amante de Zeus. Apolo, agradecido, fixou o centro do mundo grego ali e mudou o nome para Delos – a luminosa, a brilhante. Ali, nasceram a luz do dia – Apolo, o sol – e a luz da noite – Ártemis, a lua.



Apolo lutou contra o dragão Píton que guardava o oráculo de Têmis ou Géia. Com suas flechas certeiras, eliminou-a, tirou-lhe a pele e cobriu a trípode onde passou a sentar-se a sua sacerdotisa: Pitia ou Pitonisa. Assim, apazigua a cólera do filho de Géia – o dragão Píton, instituindo os jogos píticos que se celebravam em Delfos, de quatro em quatro anos.

O antigo oráculo realizava-se por incubação; o oráculo de Delfos, pela mântica dinâmica.

Na roda dos deuses, Apolo aparece em primeiro, pois ele é a luz que brota da escuridão, o Lumen Naturae, possibilidade de trazer consciência.

Apolo e Ártemis presidem o início e o fim, são os gêmeos conhecedores da obra da criação nos polos espiritual e da natureza, unificando-os para dar passagem ao novo, protegendo-o. A luz interior é preservada.

Apolo é o deus da luz, da música e das artes.
Atená

Deusa dos olhos garços, Grande Mãe originária de Creta. É a guardiã das acrópoles das cidades. Sua bravura é calma e refletida.

Atená é a necessidade trazida do outro mundo para esse mundo, da cegueira para os olhos luminosos, do fiar para o tecer, da compulsão impenetrável e errante para as medidas práticas, protetoras e previdentes do intelecto, ligadas à necessidade.

Simboliza a criação psíquica, a síntese por reflexão e a inteligência socializada.

Preside as Artes, a Literatura e a Filosofia, a Música e qualquer atividade do espírito. “Obreira”, preside os trabalhos femininos de fiação, tecelagem e bordado. Deusa da paz, garante a justiça. Associada a Prometeu e a Hefesto, é a protetora dos artesãos.

Vencendo as Erínias com o escudo da razão, no julgamento de Orestes, restabeleceu o domínio da ordem sobre o caos, da luz sobre as trevas.

Ares

Até-infortúnio. Deus da guerra e da violência, é filhos do hieròsgamos de Zeus e Hera.

Coragem cega e brutal é o espírito da batalha.

Pública e solenemente desprezado pelos próprios pais, era ridicularizado por seus pares – a vitória da inteligência sobre a força descontrolada –, refletia a essência do pensamento grego.

Atená, com sua coragem lúcida, viril e refletida, vencia-o. Era um antípoda do equilíbrio apolíneo. De sua união com Afrodite, teve Harmonia. Frente à Afrodite, Ares nada pode.
Héstia

Lareira, altar com fogo. É a personificação da lareira colocada no centro (do altar, da habitação, da cidade, da Grécia, do universo).

A Héstia helênica é o prolongamento de um culto pré-helênico do Lar. É o centro religioso do lar dos deuses. É a personificação do fogo sagrado. Ávida de pureza, ela assegura a vida nutriente, sem ser ela própria fecundante. Era uma deusa virgem.

O fogo sagrado do lar, a privacidade. Ela guarda o segredo da essência de cada um, sua luz interior.

Kerényi diz que ela conseguiu, com seu lugar sagrado, o ponto central da casa, o coração – que é o que também significa o seu nome.



Vesta e suas dez Vestais traduzem o sacrifício permanente, através do qual uma perpétua inocência serve de elemento substitutivo ou até mesmo de defesa contra as faltas perpétuas dos homens, granjeando-lhes êxito e proteção.
Deméter

O útero de Zeus. É a divindade mais elevada ao lado de Hera. Representa a terra cultivada, dar cultivo à fecundidade dentro de si mesmo, superação da brutalidade e produção dos diversos níveis de superação desta.

A mais venerada e popular das deusas gregas, prolonga o culto das grandes mães do neolítico.

Presidia os Mistérios de Elêusis que era o culto mais democrático; todos podiam ser iniciados desde que falassem o idioma grego, para que pudessem compreender e repetir certas fórmulas secretas, não tivessem as mãos manchadas de sangue e nem fossem réus de impureza sacrílega.

No último dia do culto, consagrado à Epoptéia, à visão suprema, à consumação dos mistérios, a grande cerimônia era iniciada com o Hieròsgamos, o casamento sagrado, material ou simbolicamente consumado pelo Hierofante e a sacerdotisa de Deméter (numa câmara subterrânea mergulhada nas trevas), os iniciados olhavam para o céu – chova – e para a terra – conceba. No final, o Hierofante apresentava à multidão, mergulhada em profundo silêncio, uma espiga de trigo.

A significação religiosa da espiga de trigo reside no sentimento natural de uma harmonia entre a existência humana e a vida vegetal, a terra que sozinha todo gera, nutre e novamente recebe tudo de volta. Morrendo no seio da terra, os grãos de trigo, por sua própria dissolução, configuram uma promessa de novas espigas. A morte fértil.
Perséfone

A virgem, Parthénos. Filha de Zeus e Deméter. Core, distraída, colhia flores, e Zeus, para atraí-la, colocou um narciso ou um lírio às bordas de um abismo. Ao aproximar-se da flor, a terra abriu-se, Hades apareceu e conduziu-a para as entranhas do mundo ctônico.

A catábase e a anábase de Perséfone provocaram a instituição dos célebres Mistérios de Elêusis. Representam o voltar a viver depois de mergulhar nas profundezas, no in-feros, o centro da esfera.

As romanzeiras são o local da fecundidade no Hades. Ali está a força para a vida e o renascimento. Cada ser precisa descobrir o local de sua própria fecundidade.
Hades

Invisível, tenebroso. Nascido de Crono e Réia.

O escuro mundo das sombras revela ao ser humano sua condição de efêmero, estando num estágio provisório de evolução.



Hades guarda o segredo da essência do ser, pois só ela garante a recriação a partir de si mesmo; retorno e purificação são condições para o renascimento.

Por medo de sua cólera, por eufemismo, invocam-no Edoneu ou Plutão, o “rico”. Sua riqueza são as inexauríveis riquezas das entranhas da Terra – a cornucópia da abundância; é o Zeus subterrâneo.

O temível Hades transformou-se em Plutão, o prodigalizador da riqueza agrícola, sob o fluxo dos Mistérios de Elêusis, como genro de Deméter.

Dioniso

Dioniso é o deus grego mais próximo do humano, da sua ferida existencial; ele representa o êxtase, o desmembramento e sua recomposição.

É um deus itinerante, viaja no desconhecido.

Símbolo da alegria, do êxtase e do entusiasmo, solta os braços e abre as portas para a celebração da vida. Cria laços.

É o deus ilha, aquele que rompe o isolamento; é um deus social por excelência.

Ensina a amar através da dança, alegria, sensualidade e magia. Deixa fluir o poder de encantar do feminino.



Apolo é a iluminação vinda de Dioniso. A luz apolínea só é alcançada através de Dioniso. A catábasis leva à anábasis.

O conhecimento do Outro, do desconhecido, faz surgir a luz, que tudo atrai; a construção do outro traz a Alteridade.

O Outro passa a ocupar um lugar tão importante quanto o Eu.

Para compreender o outro, é preciso exercitar a troca de lugar, a troca de papéis, praticando um esforço de anulação de si para que o outro seja.

Essa é a base da cultura mítico-erótica. O conhecimento erótico constrói-se nas relações. Ao instalar a paixão, é possível a criação.

Em-theos-asmos – estar ao lado do deus, ser arrebatado para receber a inspiração divina e a alegria de existir.

Ele retira o ser de seu isolamento, sua caverna, escuridão e arrebata-o, fazendo-o nascer em espírito. Através do êxtase, abre as portas do imaginário. Ele rompe espaço e tempo para conduzir ao êxtase, um privilégio dos deuses. Espontaneidade, alegria intensa, estado orgiástico em que o corpo fala; rituais de dança e canto que celebram o Ser.


Posídon

É a divindade do inexorável, do inadiável, ligada às necessidades básicas e às tarefas para cumpri-las. É o inconsciente, mar profundo e fonte do emocional.

O deus-cavalo primeiro reinou no mundo ctônio; depois da vitória de Zeus sobre os Titãs, passou a senhor do mar. Como deus ctônio, é o “sacudidor da terra”, ação de baixo para cima, atividade exercida pelo seio da terra por uma divindade subterrânea.

Com o epíteto Phytálmios – o que faz nascer, estava associado à Deméter e Dioniso. Considerado esposo de Deméter-Géia, a matriz da vegetação.


Hefesto

Hefesto é o artesão ferido. Aquele que traz a ferida, a ligação com a terra e a condição de mortalidade. A ferida permite ao espírito sua corporificação.

A matéria é viva e sagrada, deixa-se transformar nas mãos do artífice habilidoso. A intervenção do homem na natureza, através de suas técnicas, ritualizando suas ações, trabalha o tempo e atinge a eternidade, revelando a beleza oculta na matéria.

A Terra Mater produz seus filhos e, em sua embriologia, necessita parir as formas da alma; elas são trazidas à nova vida pelas mãos. Mãos obstretas.

“O ferreiro monitor continua e aperfeiçoa a obra de Deus, fazendo o homem capaz de compreender seus mistérios.” (Ferreiros e Alquimista,1999: página86)

O herói civilizador que usa o ferro para fins apotropaicos, como descrito no livro Ferreiros e Alquimistas (Mircea Eliade,1999), compõe o mito do ferreiro celeste.

A Criatividade sempre foi uma “droga mágica”, o Phármakon que os gregos utilizavam contra a morte e o esquecimento e, como tal, também “sofre” do mal ao qual cura. É inseparável das dores emocionais, do sentimento de exclusão que leva ao vale do esquecimento.

Existe um padrão arquetípico gerador da introspecção necessária para que a Criatividade aconteça no nível da matéria, na tridimensionalidade. Ele recria-se a todo momento. É Hefesto. O gênio criativo, rejeitado, excluído, atirado do Olimpo por sua fealdade, ou por tentar conciliar uma briga entre os seus pais, Zeus e Hera, ilumina com o conhecimento sobre o desdobramento das forças que participam do Processo Criador, protege a sua tessitura.

O padrão arquetípico pulsa o movimento da psique individual!

Assim como os vulcões trazem os segredos do interior do globo, o entusiasmo e o êxtase são explosões passageiras desse mundo interior da alma, e a vida humana não é senão a preparação e o advento para a vida espiritual. Os degraus da iniciação dão inumeráveis. A existência superior é mais interior por sua natureza; isto é, mais espiritual.

As explosões de ira são fonte de criatividade.



Hefesto fez sua forja no interior do vulcão. Ele foi atingido pelo raio de Zeus e aprendeu a dissolver os laços da passividade; como consequência da violência da ira de Zeus, forjou suas emoções, e o seu fogo líquido trouxe à forma o Belo.

A violência do númen – o excesso de luz do mundo arquetípico – é digerida pelo corpo, em suas entranhas e no fogo.
O ferreiro divino trabalha com o fogo. O deus guerreiro, com seu furor, produz magicamente o fogo em seu próprio corpo. É a intimidade, a “simpatia” com o fogo, o que faz convergente as experiências mágico-religiosas tão diferentes e solidariza vocações tão diferentes como as do Xamã, o Ferreiro, o Guerreiro e o Místico (Ferreiros e Alquimistas,1999:página 96)
Afrodite

Espuma, nascida da espuma, é o símbolo das forças irrefreáveis da fecundidade.

As designações Urânia e Pandemia trazem, por um lado, o casamento e a estabilidade; desligando-se da beleza do corpo, elevam-se até a beleza da alma para atingir a beleza em si, partícipe do eterno. São inspiradoras do amor etéreo, superior e imaterial. De outro lado, trazem o Amor a serviço de todos e do saber erótico; como tal, a união não é fixa como no casamento, mas promove uniões para o conhecimento da própria existência. São inspiradoras dos amores comuns.



Afrodite é a deusa da vegetação que precisa ser fecundada, seja qual for a origem da semente e a identidade do fecundador.

Com Dioniso, o deus do êxtase e do entusiasmo, nasceu Priapo, um deus itifálico, guardião das videiras e dos jardins. Seu atributo era “desviar” o mau olhado e proteger as colheitas.

Quando se tratava de satisfazer a seus caprichos ou vingar-se de uma ofensa, fazia do amor uma arma e um veneno mortal.

O Amor e o Belo são feitos para serem compartilhados. Entrelaçamento e troca fazem reconhecer a necessidade um de cada um. Ser em relação. Amar e ser amado. Fonte de beleza, nobreza do Ser.

Ela é persuasiva, e não combativa, como Ares.

O mito da deusa do amor poderia permanecer como uma imagem da perversão da alegria de viver e das forças vitais, da satisfação dos instintos, dignos dos animais ferozes que formavam o cortejo da deusa; dessa forma, o amor em si mesmo não seria humanizado. Ao término de tal evolução, Afrodite poderia reaparecer como a deusa que sublima o amor selvagem, integrando-o numa vida realmente humana.


Ártemis

A Protetora, Urso. Representa o ciclo de vida e morte da natureza. Celebrava a natureza e as parturientes. Protegia “as crias”.

A força primitiva da Grande Mãe implacável exige sacrifício de sangue; não aceita o domínio do homem. A natureza em si precisa ser respeitada, e não pode ser vista a olhos nus. Como deusa da caça, perfura e mata com suas flechas. É a natureza selvagem.

Tendo nascido antes do irmão e ajudado a mãe nos trabalhos de parto, ficou tão horrorizada com o que sofreu Leto, que pediu a seu pai, Zeus, o privilégio de permanecer para sempre virgem. A virgem indomável, tão rebelde quanto Héstia e Atena, às leis de Afrodite.

Sua androginia secreta revela, psicologicamente, a integração do animus em sua forma de poder controlado, como vontade e ação.


[Sua anima] é a vida de brilho estelar, ardente, deslumbrante, ágil, e o ser cuja extrema singularidade atrai o homem; quanto mais retraída mostra-se, mais forte é a sua atração. É o ser de cristal puro, cujos veios escondem-se ainda na natureza animal; simples como uma criança e, contudo, imprevisível; feita de amabilidade suave e da dureza do diamante; virginal, distraída, solta e, todavia, mostrando de repente rígida oposição; brincalhona, dançarina, galhoteira e (antes que se dê acordo) implacavelmente séria; amorosamente cuidadosa e, no entanto, indomável a ponto de perpetrar atos terríveis e horripilantes (Encarando os Deuse,1997::página73)

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