Clase 2 Judaísmo Missão e Esperança



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Clase 2

Judaísmo Missão e Esperança.

O Judaísmo é uma das religiões reveladas. Deus revelou sua palavra, a Torá, a Moisés no Sinai. E Moisés a transmitiu a Josué, este aos anciãos, e eles à comunidade da Grande Sinagoga... Esta transmissão recebe o nome de tradição. Torá e Tradição formam uma linha que traspassa a história judaica. O Judaísmo está sustentado por esta tradição –mesorá- que formou a identidade do povo judeu. Mesorá e identidade são inseparáveis. É pela guarda da Tradição que os judeus sobreviveram aos desafios que a história lhes impôs. É pela Tradição que Israel existe como Estado, após dois mil anos de dominação.

Na Consciência de cada judeu, há a certeza de ser parte do povo escolhido por Deus. E ele sabe o que isto significa, o encargo que isto lhe traz. Muitos, hoje, não gostam – embora não possam negar – de reconhecer tal escolha, tal distinção. Tal escolha é, sem dúvida, uma honra, mas também um fardo pesado. O teólogo judeu Martin Buber acredita profundamente no fato do encontro entre Deus e o povo Judeu. Para Buber, é um acontecimento que se repete na experiência pessoal de cada judeu, enquanto ele quiser ser judeu e ouvir a voz de Deus falar-lhe:

"Que significa ser um povo de Deus? Uma crença comum em Deus e o serviço ao Seu nome não são fatores que constituam um povo de Deus. O fato de ser um povo de Deus significa, antes, que os atributos de Deus lhe foram revelados – a justiça e o amor, deverão vigorar na sua própria vida, na vida de seus membros e nos contatos mútuos; a justiça materializada nas relações mútuas indiretas desses indivíduos; o amor nas suas relações mútuas diretas, enraizado na sua existência pessoal. Pois, contudo, o amor é o mais elevado, o princípio transcendente. Isso torna-se particularmente claro pelo fato de que o homem não pode ser justo para com Deus; pode, todavia, e deve, amar a Deus. E é o amor de Deus que se transfere ao homem; "Deus ama o Desconhecido", diz-se, "e, assim, vós também o deveis amar". O homem que ama Deus também ama aqueles a quem Deus ama". (Martin Buber, 1952:76).

Israel recebeu os méritos de Abraão e a virtude de seus descendentes. Assim a Tradição, sua permanência como "verdade", se mantém de geração em geração. O recebimento da Torá impôs a Israel um papel difícil, o de ser uma "luz entre as nações". Ora, isso poderia levar alguém a esperar de Israel um comportamento exemplar diante de todos os outros povos. Não, não é bem assim. Israel é luz porque transmitiu aos outros povos a crença num único Deus e a Revelação da Verdade. O fato da escolha divina não faz de Israel um povo de santos, mas sim, um povo que busca a santidade através da vivência da Torá e da Tradição. Israel não recebeu a santidade gratuitamente, mas sim, um convite a buscá-la, assim como foi feito por Deus, através de Israel, aos outros povos.

Por Israel, a Revelação se fez ao mundo. Os judeus cumpriram sua tarefa ao anunciar a Lei e os Profetas. Tal anúncio não se deu pela ação missionária – pelo menos em grande parte da história judaica – deu-se pela vivência, não como a simples crença num livro sagrado caído do céu que inspirou a fé cristã e a muçulmana, mas os exemplos brotados de sua vivência e do poder humanizador que as santas palavras possuem.

Israel espera dias melhores, quando reinará a justiça, a fraternidade, a paz: o Reino de Deus. Esperam também aqueles que receberam a Revelação. Sabem os judeus que esse reino só se realizará com o esforço de cada ser humano. Uma tarefa que cabe a todos, judeus e não judeus. Esta tarefa, na compreensão judaica, não corresponde a fazer um mundo mais judeu, e sim, mais humano. A Torá foi dada ao mundo para ensinar aos humanos o caminho traçado por Deus para o aperfeiçoamento individual e comunitário. Para que, no caminhar da história, o ser humano se torne cada dia mais próximo do modelo de pessoa projetado por Deus. Esta é a missão de Israel, juntamente com os povos, a de se empenhar num esforço constante para atingir o destino projetado pelo Criador para a humanidade.

O povo da Bíblia

Abraão foi, sem dúvida, um dos homens mais inspirados que a humanidade conheceu. Sentiu um forte apelo, uma inquietude, um chamado, uma inspiração e foi capaz de viver para esse apelo. Foi capaz de responder a esse chamado. Foi capaz de, inspirado, gerar uma realidade nova e por isso se tornou fonte de inspiração para muitos povos.

De fato, Abraão viveu para este apelo. Cada vez que ele respondia a este chamado, um novo desafio se apresentava. Deixou-se guiar por esta inspiração e trouxe à luz da história da humanidade uma das revelações mais contundentes, um dos sonhos mais almejados, uma das realidades mais potentes: o Ser divino, não é apenas uma idéia, mas um Ser Pessoal. Deus não é apenas um princípio, mas alguém que quer fazer uma Aliança com os seres humanos. Aliança é comprometimento.

Abraão era da cidade de Ur, dos Caldeus, na Mesopotâmia. Pastor nômade, migra com sua família para a região do Canaã (Palestina), vai até o Egito e volta à Palestina onde viveu até morrer.

Torna-se o grande patriarca do monoteísmo do Ocidente, ou seja, o primeiro a crer num Deus único e Pessoal que quer fazer uma Aliança com os homens.

Chamado e inspirado por esse Deus, Abraão responde com fidelidade exemplar. Em contrapartida, Deus lhe promete terra para seus descendentes, a bênção para seu povo e a salvação para os homens através de alguém que nasceria do meio de seus descendentes.

Abraão está na origem de três grandes religiões da humanidade: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. De fato, os Judeus se entendem como descendentes de Isaac, o filho de Abraão com sua esposa Saara. E os Árabes se entendem como descendentes de Ismael, o filho de Abraão com sua escrava Agar.

No Antigo Testamento, narra-se a história dos descendentes de Abraão e da aliança que eles fizeram com seu Deus. Esta história se dá basicamente na Palestina, atual Estado de Israel, e envolve os países e povos vizinhos. Esse povo era inicialmente chamado de povo hebreu, mas por causa de um antigo líder, o patriarca Jacó, também chamado de Israel, este povo passou a ser chamado também israelita. E, por causa do filho mais velho de Jacó, Judá, este mesmo povo mais tarde passou a ser chamado de judeu.

A história do povo hebreu é portanto a história de sua aliança com seu Deus. Um Deus que se define como o Deus da Aliança e que assume um compromisso de libertação com Abraão, com Isaac, com Jacó e todos seus descendentes; um Deus que faz uma promessa de salvação e de bênção.

Moisés foi um líder da humanidade que tem seu nome tanto nos livros de história como nos livros sagrados. De fato, em poucos líderes a Política e a Religião andaram tão juntas.

Moisés foi o homem que liderou um povo para a liberdade. O seu povo, o povo hebreu, que estava escravizado pelos egípcios. Ele enfrentou o faraó do Egito e negociou com ele a libertação deste povo. Foi uma libertação histórica, uma libertação política.

No entanto, essa libertação política, histórica, foi feita em nome de seu Deus, do Deus de Abraão, do Deus do seu povo.

Moisés torna-se líder de seu povo, exatamente quando Deus se apresenta como um Deus que se compadece da situação de escravidão do povo hebreu. Esta passagem é muito bonita, quando a divindade se apresenta como alguém que se compadece:


"Vi a aflição do meu povo no Egito e ouvi o clamor que lhe arrancaram os seus opressores; sim, conheço as suas aflições. E desci para libertá-lo das mãos dos egípcios e levá-lo daquela terra para uma terra boa e espaçosa; terra de onde flui o leite e o mel...Agora, pois, vai, eu te envio ao faraó; e tirará do Egito o meu povo, os filhos de Israel." (Êxodo, 3, 7-10).

Esta é, sem dúvida, uma das passagens mais comprometedoras que a Religião nos apresenta: Deus não quer o sofrimento dos homens. Ele deseja a todos uma terra onde "flui o leite e o mel". No entanto, Ele não age diretamente, mas através dos homens. É através dos homens que Deus quer resolver os problemas de cada sociedade.

Moisés, enquanto liderava o povo hebreu na sua caminhada para a liberdade, teve que enfrentar muitos problemas. Para ir do Egito para a "terra prometida", a Palestina, era preciso atravessar um deserto. Conduzir um grupo de ex-escravos por vários anos, atravessando um deserto, certamente não era uma tarefa fácil. A fome, a sede, o desânimo a incompreensão bateu muitas vezes sobre o povo hebreu e todos queriam de Moisés uma resposta para estes problemas imediatos.

Com a benção de seu Deus, Moisés foi resolvendo esses problemas: clamou aos céus por alimento, tirou água da pedra, organizou o povo em grupos, distribuiu lideranças, corrigiu os desordeiros. E, por fim, instituiu uma Lei para seu povo.

Mesmo envolvido por tantos problemas que exigiam regras de conduta imediatas e soluções urgentes, Moisés foi capaz de ouvir seu Deus e dar, ao povo que liderava, um código de lei tão profundo que muitos povos acabaram aceitando-o como seu. Este código de leis é conhecido como o "Decálogo" ou "Os Dez Mandamentos".

Deste modo, Moisés mostrou que, além de resolver problemas imediatos, um bom líder tem que pensar a longo prazo, ser capaz de dar respostas que solucionam os problemas e que sejam respostas permanentes, duradouras. Um bom líder age logo e vê longe.

O povo da Bíblia não é só o herdeiro da Promessa feita a Abraão, mas também da Lei dada a Moisés. Moisés é o grande líder que liberta o povo da escravidão do Egito e recebe das mãos de seu Deus a Torá, a Lei. A Torá passa a ser vista como a grande revelação divina, a Lei de Deus. O seguimento da Torá será causa de bênção e salvação para todo o povo israelita. No centro da Torá está o conhecido decálogo, ou seja, os Dez Mandamentos.



DECÁLOGO

"Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão. Não Terás outro Deus diante de mim...

Não proferirás o nome do Senhor em vão...

Lembrar-te-ás do dia do descanso para santificá-lo...

Honrarás teu pai e tua mãe...

Não matarás.

Não cometerás adultério.

Não furtarás.

Não apresentarás falso testemunho contra teu próximo.

Não cobiçarás a casa do teu próximo.

Não desejarás a mulher do teu próximo..."

(Êxodo 20, 2-3,7,8,12-17).



O povo da Bíblia conseguiu conquistar e dominar toda a região do Oriente Médio com o rei Davi, por volta do ano 1.000 antes da era comun. Com Davi e seu filho Salomão, o povo Israelita atingiu sua maior glória Política e econômica. Davi estabeleceu a cidade de Jerusalém como a capital do seu Reino e Salomão construiu ali um grande templo. Desde então, e até os dias de hoje, Jerusalém passou a ser uma das mais importantes cidades sagradas do mundo e o templo passou a ser o centro da fé de todo o povo da Bíblia, para onde peregrinava todos os anos.

Nem sempre o povo israelita seguiu a aliança, nem sempre se tornou digno da promessa, nem sempre cumpriu a Lei. Por isso, surgiram os profetas: homens inspirados que exigiam do povo fidelidade a seu Deus, apontavam os caminhos e corrigiam os desvios. Foram muitos os profetas. São registrados quatro profetas maiores e doze menores, fora os que não deixaram seus escritos. O profeta não acrescenta nada de novo, apenas fala para as pessoas de seu tempo sobre as revelações contidas na Torá e exige de todos a justiça plena: a justiça interior e a justiça exterior.



Judaísmo: Um só Deus, um só Senhor

O Judaísmo, como Religião atual dos judeus, é basicamente a mesma Religião do povo da Bíblia. Mantém os mesmos princípios de fé durante mais de três mil anos:

Os judeus professam uma fé monoteísta rígida. É praticamente o mais antigo povo monoteísta da história da humanidade. Para eles, Deus é único e uno. Não permitem que nada seja colocado no lugar de Deus e os deuses dos outros povos serão considerados ídolos, ou seja, falsos deuses. Só Deus deve ser adorado e amado com todas as forças humanas, numa exortação que atravessou milênios:

"Ouve, Israel: O Senhor é nosso Deus, o Senhor é único. Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda as tuas forças." (Dt 6, 4-5).

Deus é o criador. Os homens e todas as coisas da natureza são criaturas de Deus, foram criados por ele. Deus é o Senhor absoluto do céu e da terra, o único criador. Todas as criaturas, desde os astros até o mais pequeno animal, dependem de Deus e estão num nível infinitamente inferior e não podem jamais ocupar o lugar do Criador.

A instituição do sábado como o dia de descanso é um ponto fundamental para os judeus, porque exalta a realeza de Deus e a dignidade do homem. Trabalham-se seis dias e no sétimo se repousa. O sétimo dia é dedicado ao Senhor, numa demonstração de que toda a vida humana deve ser dedicada a Ele e à sua realeza, pois todo trabalho humano sem Deus é inútil.

Deus, na narração da Bíblia, criou todas as coisas em seis dias e descansou no sétimo. No sétimo dia, o homem é convidado a descansar com Deus, mostrando assim a dignidade do ser humano que, mesmo sendo criatura, é chamada à intimidade com Deus. O homem com seu trabalho se torna parceiro de Deus na criação. Ele trabalha como Deus trabalha e repousa como Deus repousa.

No Judaísmo, o Templo de Jerusalém era o lugar especial de oração e sacrifício. No templo, sacerdotes se revesavam no culto a Deus. O templo foi destruído pelo rei da Babilônia, no ano 586 a.e.c. Foi reconstruído novamente por Esdras ainda no século VI a.C. O templo foi reformado por Herodes poucos anos antes do nascimento de Cristo e foi novamente destruído pelos romanos no ano 72 da era cristã. Séculos mais tarde, os muçulmanos construíram em cima da fundação do templo a mesquita de Omar.

Sem o templo e longe de Jerusalém, a fé judaica sobreviveu sendo alimentada nas sinagogas. As sinagogas são casas espalhadas pelos lugares onde os judeus se encontram, e onde eles se reúnem para estudar e orar. A sinagoga não substitui o templo, não é lugar de sacrifícios nem de sacerdotes, mas é a casa de estudo e oração presidida por um Rabino, um mestre.

No Judaísmo, ao lado da realeza e unicidade de Deus, destaca-se a dignidade e importância do ser humano, não apenas por ser uma criatura de Deus, mas por ser uma criatura especial feita à imagem e semelhança de Deus, conforme é narrado no Livro de Gênesis:

"Então Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança, e tenham poder sobre todos os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre os animais e sobre as feras terrestres, e sobre os répteis que rastejam pela terra". Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus, e criou-os homem e mulher." (Gen 1,26-27).

Essa visão do ser humano era profundamente inovadora na época e ainda é extremamente relevante na nossa sociedade. Fala da dignidade e igualdade entre todos os homens e todas as mulheres.

O Deus dos judeus é alguém próximo, que fala "face a face" com os profetas, que toma a iniciativa, que toma posição, enfim um Deus que se envolve com a história dos homens. Nenhum povo da Idade Antiga valorizou tanto a história como o povo judeu. Isto porque eles entendem que sua história é também a história da sua aliança com seu Deus. Deus aparece, ao lado do povo e de seus líderes, também como um sujeito da história.

"O aspecto que mais distingue o povo judeu é o seu sentido da História. Os judeus divergem em respeito à teologia, à cultura e até nas características raciais. Mas o Judaísmo é a Religião do povo que tem uma única memória que remonta, através do séculos, aos eventos da Bíblia, eventos que os formou como povo com um senso de identidade e vocação." (Adpt. BERNHARD, 1968:2 ).

Algumas considerações básicas sobre a Bíblia.

A Bíblia não é um livro de Ciências como muitas vezes alguns entendem. As verdades contidas na Bíblia não são precisamente científicas, mas sim verdades teológicas, verdades de fé, muito embora, do ponto de vista histórico, muitas citações possam ser consideradas científicas.

Não é um livro só. É uma coleção de muitos livros. Conforme truduções poderão ser: setenta e um, setenta e dois ou setenta e três. Esses foram escritos em épocas diferentes, por pessoas diferentes e em circunstâncias diferentes. Mais precisamente, podemos dizer que a Bíblia, para a fé dos judeus e dos cristãos, são livros que narram como Deus se mostrou na história de um pequeno povo, o povo hebreu, que começou a ser povo lá pelo ano 1200 antes de la era comun.

A Bíblia foi escrita em diversos lugares, porque aquele povo era nômade. Também foi escrita por diversos autores, dependendo do livro. Alguns livros possuem autores definidos, outros, autores desconhecidos e outros, ainda, são uma espécie de coletânea de diversos textos, provérbios, etc.

Para entendermos a Bíblia, temos que ter presente o problema da linguagem. É a cultura que determina o sentido da linguagem, e a Bíblia carrega inúmeros culturas. Então, ela precisa ser interpretada e entendida no contexto histórico e cultural, pois uma leitura literal, com um referencial cultural alheio, poderá ferir a mensagem que ela quer veicular.

Assim, na Bíblia, ninguém de bom senso deverá buscar respostas para perguntas sobre o início do mundo ou sobre o final do mundo. Muito além disso, ela quer responder sobre o sentido da vida, o sentido da existência. Para responder isto, a Bíblia usa símbolos, mitos, histórias, poemas, provérbios, orações, cânticos, etc.



Ciência e Bíblia não são contraditórias, porque são diferentes maneiras de entender a realidade.


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