Clio-psyché subjetividade e história


I. Introdução: Da dificuldade de uma história das ciências na psicologia



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I. Introdução: Da dificuldade de uma história das ciências na psicologia

No trabalho do historiador impõe-se uma assimetria e uma cisão semelhantes às que o antropólogo se depara na abordagem da nossa sociedade. Segundo Latour (1994), ao antropólogo é facultado a descrição das demais culturas como sistemas, nos quais estruturas sociais, seres naturais e formações míticas são situados em um único quadro descritivo. Essa abordagem unitária seria, contudo, inválida no exame da nossa sociedade, uma vez que ao antropólogo é facultado o exame de todos os fenômenos sociais, crenças, mitos e práticas. Exceção seja feita aos que envolvem a descrição das atividades científicas, no esboço de nossa estrutura social não é mais possível cruzar, como se faz no exame das demais culturas, práticas sociais e objetos naturais, forjando um sistema único.

Entre nós estabelecem-se algumas cisões e assimetrias, as quais se reproduzem em diversas escalas, chegando ao nível, no qual a forma de abordagem da nossa cultura é colocada em contraposição às demais. Neste caso, a primeira assimetria é a que aponta a distinção entre verdade e erro, ou a clássica separação entre doxa e épisteme. Para Latour esta diferença, em nossas sociedades modernas, recobre-se da diferença entre o discurso científico e o discurso do senso comum, nas suas diversas variações sociais. É neste sentido que a unidade do saber científico sobre a natureza contrapõe-se à pluralidade dos discursos que cruzam o nosso espaço social: crenças, opiniões e ideologias. O império da verdade em oposição à democracia plural das crenças.

Deste fato, extrai-se uma segunda assimetria, a operada entre uma natureza única, revelada e representada pela ciência e uma gama de sociedades plurais, errantes pelos descaminhos das crenças. Esta cisão nos conduz facilmente a uma terceira cisão entre nós modernos e os demais grupos pré-modernos e primitivos, uma vez que estes não fazem a distinção entre verdade e erro e entre natureza e sociedade, mas emaranham-se nas crenças, possibilitando a descrição de um único sistema comum. A nossa assimetria entre nós e os outros repousaria, enfim, na simetria deles.

Esta assimetria que torna embaraçoso, em princípio, ao antropólogo abordar o campo da épisteme do mesmo modo que opera com a doxa, também se realiza no campo da história. Pois que da mesma forma que se impõe uma sociologia das ciências à margem de toda a ciência social e operada pelos cientistas, ao historiador é facultado passe livre na abordagem de diversos objetos: as trocas econômicas, as organizações políticas, as práticas sociais e os sistemas simbólicos, mas dentre eles jamais o saber, o conhecimento e as ciências. Esta história só é digna de ser realizada pelos profissionais competentes de uma área específica do conhecimento, pois somente estes conhecem as peripécias da verdade e da racionalidade de seus saberes. Mas talvez mais do que um conhecimento em causa própria, testemunhando os caminhos, descaminhos e obstáculos em busca de um saber mais verdadeiro, aos cientistas e epistemólogos caberia a primazia de uma história das ciências, principalmente por caber a estes o julgamento do que pode ser verdadeiro ou não, científico ou não.

Portanto o privilégio destes profissionais não se restringiria a aspectos fatuais, mas especialmente normativos: na história das ciências caberia uma distinção prioritária entre saber e não saber que somente o cientista ou o epistemólogo é capaz de operar a partir da racionalidade atual de sua área de conhecimento. Há aqui, claramente, a suposição de uma evolução na direção da verdade, que distingue esta história de todas as demais. É desta cisão entre uma história das ciências e uma história geral que se impõe a diretriz de qualquer história da psicologia possível. Qual dos caminhos o historiador da psicologia escolherá como trilho para o desfile do seu objeto: o caminho ascendente e glorioso da verdade em uma história epistêmica ou o labirinto plural e errante das opiniões.

O caminho epistêmico não cessou de ser buscado pelos historiadores da psicologia. Mas levou a sucessivos julgamentos sobre a cientificidade da psicologia, por se tratar de uma abordagem normativa em nome da verdade e da racionalidade, e apesar da pluralidade destes fóruns epistêmicos (lembremos apenas de algumas correntes contemporâneas mais destacadas como o positivismo, o racionalismo aplicado e o paradigmatismo), este saber é freqüentemente condenado pela sua multiplicidade.

Multiplicidade que não se manifesta apenas nas diversas teorias e práticas empregadas, mas na própria orientação e definição deste saber, lançando-se mão de objetos, problemas e métodos incompatíveis entre suas principais linhas. Com esta pluralidade, torna-se impossível pensar numa racionalidade que sirva como norma para diferenciar o verdadeiro do falso, a doxa da épisteme.

Perante esta crítica os psicólogos tentaram mostrar por diferentes vias que a história de seu saber merecia ainda desfilar na passarela triunfal da épisteme, ou pela suposição de uma unidade insuspeita sob as diversas orientações (o homem concreto em sua totalidade ou as relações funcionais do organismo com meio), ou a promessa de uma unidade futura possibilitada pela acumulação de informação produzida pelos diferentes sistemas. Mas se em um caso apela-se para uma unidade futura, potencial, no outro, apela-se para tentativa de unificação que violenta as orientações específicas de cada sistema, reunindo-os numa unidade eclética (como se o behaviorismo fosse apenas uma psicologia da aprendizagem, a Gestalt, uma psicologia da percepção, e o contrutivismo, tão somente uma psicologia do desenvolvimento).

E o pior, supõe-se a existência de um objeto natural, pronto a ser desvelado pelos cientistas, ignorando todo o seu esforço de construção. Como nos lembra Canguilhem (1972), o objeto científico não é um objeto natural, mas algo construído, um conceito. Dificultada numa abordagem epistêmica de sua história, restaria apenas a sua abordagem doxográfica? Ou melhor, não haveria outra abordagem possível para a psicologia, para além da assimetria entre saber e opinião?






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