Clio-psyché subjetividade e história


II.2. A História-problema



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II.2. A História-problema

Este é um dos pontos mais consensuais das novas histórias: não há mais espaço para uma história que se pretenda objetiva, como se ao trabalho do historiador coubesse um estatuto semelhante ao de um cientista natural. Esta história positivista ainda procuraria a distinção entre os monumentos, constituídos para ostentar uma interpretação performática e encobridora dos fatos e os documentos, onde se ocultaria a verdade.

Para os historiadores atuais, tanto esta distinção entre verdade (documento) e aparência (monumento) quanto uma suposta história fatual seriam equivocadas. Os documentos seriam também monumentos, interpretações sobre o presente, não possuindo a pureza fatual que deles se espera. Nas palavras de Foucault (1969, p. 14):
Digamos para resumir, que a história, em sua forma tradicional, empreendia “memorizar” os monumentos do passado, transformá-los em documentos do passado, transformá-los em documentos e fazer falar estes traços que, por si mesmos, raramente são verbais, ou diziam em silêncio, coisa diversa do que dizem; em nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos, e o que, onde se decifravam traços deixados pelos homens, onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinham sido, desdobra uma massa de elementos que se trata de isolar, de agrupar, de tornar pertinentes, de estabelecer relações, de estabelecer conjuntos.

A idéia de um fato puro a ser revelado também se mostra equivocada. E os argumentos aqui podem ser buscados até mesmo na epistemologia das ciências naturais de cunho racionalista. Para Bachelard e Canguilhem não se pode tomar os próprios fatos como entes prontos para serem colhidos na realidade; eles são construídos: “A natureza por si mesma não é decupada e repartida em objetos e fenômenos científicos” (Canguilhem, 1972, p. 15). Neste aspecto a origem da palavra fato (fati) é esclarecedora, pois, oriunda do verbo fazer, aponta mais para o que é feito do que para o que é dado. “É a ciência que constitui o seu objeto a partir do momento em que ela inventou um método para formar, por proposições capazes de ser compostas integralmente, uma teoria controlada pela inquietação de captá-la em erro” (op. Cit., p. 15).

Esta mesma concepção perpassa as reflexões dos historiadores e, mesmo na Escola dos Annales esta problematização dos dados é colocada: “algo dado? Não, algo criado pelo historiador, quantas vezes? Algo inventado e construído, com ajuda de hipóteses e conjecturas, por um trabalho delicado e apaixonante” (Lucien Febvre citado por Le Goff, 1993, p. 32). Portanto, os fatos são feitos, e pode-se pensar que no caso da história isto ocorre de modo mais radical, posto que são interpretações sobre monumentos, os quais são, por sua vez, interpretações de outros agentes históricos.

Por todas estas razões, quase a totalidade da história contemporânea vai se colocar, na recusa de uma história fatual, como história-problema. Inclusive este é um dos principais bordões da chamada “Nova História”, “proporcionar uma História não automática, mas problemática” (Lucien Febvre citado por Le Goff, 1993, p. 33). Este aspecto problematizador só se faz através do gancho com o presente visando “viver e compreender num mundo em estado de instabilidade definitiva” (Le Goff, 1993, p. 34). Contudo, esta vinculação da problematização com o presente tem um aspecto menos confortador e mais radical para alguns historiadores.

Para Foucault a história não nos serviria para o conforto, mas para o desterro, destruindo as nossas evidências mais caras. Segundo Goldman (1998) esta operação persistiria ao longo dos trabalhos de Foucault através de: a) um modo de constituição de objetos, b) um procedimento de exame e c) um conjunto de objetivos.

Quanto à constituição de objetos, Foucault, segundo Goldman, escreveria conforme Carmelo Bene em seu manifesto do menos, extraindo os personagens maiores da cena, e dando vida aos menores e coadjuvantes. É deste modo que este pensador procederia, retirando de foco, por exemplo, ciência e ideologia como eternos protagonistas, e introduzindo, por exemplo, o saber e o poder. No que tange ao procedimento de exame, o ponto de partida se encontra numa questão, ou numa luta presente. “Acho que a principal escolha ético-política que devemos fazer a cada dia é determinar qual é o principal perigo” (Foucault, 1983-A, p.256).

A partir daí, toma-se um determinado objeto em questão como a clínica, a prisão, ou a sexualidade, e dissolve-o em suas condições de possibilidade históricas, acontecimentalizando-o e o lançando na singularidade de suas múltiplas causas. É deste modo que toda necessidade histórica remontaria a uma contingência objetivada e rarificada ao longo da história. Por fim, os seus objetivos, como se pode entrever, são políticos. Mas não no sentido de fornecer diretrizes, e sim instrumentalizando lutas, o que é realizado de três modos: 1) tornando crítico o que escapava à crítica através da historicização; 2) problematizando a própria luta, estabelecendo-a tão local e histórica quanto os seus alvos; 3) participando nas próprias lutas através da passagem pela alteridade e pela diferença.

Variando o grau de problematização, desde um questionamento da noção de fato histórico, passando por uma compreensão do presente, e chegando até um estranhamento deste mesmo presente, a história torna-se um diagnóstico e um instrumento de diferenciação da nossa atualidade. Ficção científica às avessas em duplo sentido. Por um lado, uma invenção presente de nosso passado e por outro, uma alternativa passadista pela problematização do nosso presente.


II.3. As histórias parciais

Esta problematização presentista conduz a uma dissolução de qualquer projeto de uma história total, em um duplo aspecto. Por um lado, diferentes problemas constituem diferentes objetos, não sendo mais possível conceber uma marcha unívoca da história; existiriam tantas histórias quantas questões possíveis. E por outro lado, esta problematização pode ser levada a um ponto mais radical em que estes diferentes objetos são questionados em sua existência permanente, vistos a partir deste momento numa raridade histórica.

Quanto ao primeiro aspecto, procede-se a uma pulverização da história: não haveria mais a grande história do espírito, da política ou da economia, inventam-se pequenas histórias com tempos peculiares, velocidades e cortes históricos distintos para diferentes objetos históricos. A história seria uma rede tecida por fios de diferentes naturezas, com existências e extensões delimitadas, e cerzidos em ritmos diferentes. Para Ernst Labrousse (citado por Le Goff, 1988, p. 69), “o social é mais lento que o econômico e o mental mais ainda que o social”. Segundo Le Goff (1993, p. 18), se os fundadores dos Annales ainda buscavam uma história total ou global, isto visava a não mutilação das sociedades.

Porém esta noção de globalidade “podia ser contaminada por subentendidos tradicionais e paralisadores: os de uma coerência e de uma continuidade que não correspondem às descontinuidades que o historiador encontra em seu ofício” (op. Cit., p.19). Para Foucault (1969, p.17) o projeto de uma nova história estaria no questionamento de três hipóteses da história global:


Supõe-se que entre todos os acontecimentos de uma área espaço-temporal bem definida, entre todos os fenômenos de que se encontrou o rastro, deve-se poder estabelecer um sistema de relações homogêneas...; supõe-se por outro lado, que uma única e mesma forma de historicidade prevaleça sobre as estruturas econômicas, as estabilidades sociais, a inércia das mentalidades, os hábitos técnicos, os comportamentos políticos, e submete-os todos ao mesmo tipo de transformação; supõe-se enfim, que a própria história pode ser articulada em grandes unidades – estágios ou fases – que detém em si mesmas o seu princípio de coesão.

Contudo, esta dissolução de uma história geral é levada a um ponto mais radical por Foucault e outros historiadores, quando não apenas reconhecem historicidades diferentes, mas dissolvem a própria existência dos objetos tradicionais da análise histórica, condenando-os a sua raridade, ou quase-existência na perenidade com que desfilam ao longo do tempo. Não apenas Foucault, mas Latour, Stengers e Paul Veyne recusam a existência em si de qualquer objeto tradicional de análise como sujeito, objeto, homem, natureza, espírito, autor, obra, significado, mentalidade ou mesmo sociedade.

Estes objetos não têm a sua existência garantida por toda a eternidade: são produções de contingências históricas bem específicas, que podem desaparecer a qualquer momento como “um rosto de areia à beira do mar” (Foucault, 1966, p. 502). Daí a sua raridade. Não existe, por exemplo, o indivíduo e a sociedade como uma díade onipresente na nossa história, eles são invenções das relações de poder modernas. Neste ponto, diferenciam-se da própria Escola dos Annales que ainda crê na existência autônoma de sociedades e mentalidades. Ao expulsar os personagens maiores da trama histórica, favorecem uma abordagem nominalista, indutiva e microscópica, própria do “manifesto do menos”.

Ao invés de serem buscados estes grandes focos de análise que iluminam a pesquisa de cima a baixo, produzem-se pequenos objetos de investigação como enunciados, poderes, práticas de si, sensibilidades, técnicas de inscrição; em última análise, acontecimentos que, em sua raridade e em sua capilaridade, acabam produzindo grandes dispositivos. Trata-se enfim de uma análise bottom-up e não top-down.


II.4. A interdisciplinaridade
A proposição de uma história plural dispersa em uma efeméride de objetos, com seus diversos tempos e esmaecidos na sua raridade de acontecimento, faz com que a história perca qualquer possibilidade de um eixo gravitacional. O único fator que une o devir é a dispersão dos acontecimentos que os afasta na singularidade de suas formações. Singularidades que são enunciadas de diversas formas e que se rearranjam a cada atualidade que se forma.

Esta pulverização da história se amplia quando se pode observar que suas fronteiras se esmaecem na direção dos saberes que a cercam. Mas antes que isso possa representar algo do qual o historiador possa se envergonhar, este acontecimento é acolhido na sua positividade. Ou seja, uma das marcas das Novas Histórias é o seu esforço interdisciplinar: a pulverização dos seus objetos faculta uma múltipla possibilidade de conexão entre saberes, tão ampla quanto a multiplicidade de objetos possíveis. É desta forma que, por exemplo, uma história da infância ou da morte suscita o apoio da demografia; que uma história das mentalidades pede a sustentação das ciências sociais e da psicologia; que uma história do clima reclama o contato com a meteorologia; ou ainda que uma história da alimentação peça a parceria dos nutricionistas. Neste aspecto, um importante testemunho é produzido por Le Goff (1989, p.13), um dos expoentes da História das mentalidades:


A minha formação foi feita sob a égide do espírito de Lucien Febvre e Marc Bloch, isto é, do espírito que reinava nessa bela época, em que a revista Annales forçou a história a debruçar-se sobre outras ciências do homem e abrir-se a elas. Penso que o historiador deve estar atento a tudo o que se passa à sua volta. Atualmente, no que me diz respeito, a antropologia é, entre todas essas ciências, a mais estimulante... Sigo, igualmente com atenção os trabalhos dos biólogos, dos etólogos, daqueles que procuram estabelecer as relações entre o corpo, o mental e as formas de comportamento. Interessa-me também o que se passa na psicologia e no domínio, por vezes inquietante, da psicanálise.

II.5 A descontinuidade

Se as diversas histórias são marcadas por uma diferença incontornável entre a referência estabelecida pelo presente e a alteridade introduzida pelo passado, no jogo entre duas formas de vida marcadas pelo contraste, então a marcha destas diversas histórias jamais vai se dar numa evolução contínua, mas recortada por sucessivas rupturas e descontinuidades. Neste ponto, a história não é mais vista como desdobramento de um mesmo espírito ou de um mesmo jogo dialético, mas como a combinação singular de acontecimentos que se estabilizam momentaneamente em certas formas.Estas rupturas irão demarcar, conforme a questão presente, uma série de períodos, sucessões e eras.

É neste aspecto que a história adquire a sua fragmentação máxima. Não apenas ela é pontilhada por uma multidão de objetos marcados por uma raridade, como estes objetos se desdobram em linhas partidas em que estes assumem diversas formas, irrompem no campo dos seres reais e desaparecem no reino das quimeras. Toda a continuidade é tomada como mera ilusão: não haveria um mesmo governo, uma mesma escravidão e uma mesma infância da antigüidade até os nossos dias. A sua identidade é uma mera homonímia: só existe aquele governo, aquela infância, aquele modo de dominação. É nesta multidão de seres raros, parciais e descontínuos que a história se faz o espaço das diferenças por excelência

Neste aspecto Foucault (1969, p. 10) nos mostra que a noção de ruptura não é apenas uma novidade das novas histórias, mas povoa outros domínios como as “histórias das idéias, das ciências, da filosofia, do pensamento e da literatura”. Machado (1982) nos chama a atenção que no caso da história das ciências será apenas a partir do Racionalismo, aplicado de G. Bachelard e G. Canguilhem, que a noção de ruptura será tematizada em oposição ao continuísmo das análises positivistas. Neste caso, a noção de ruptura cumpre algumas funções como: 1) a diferenciação não apenas entre os diferentes estágios de uma ciência, mas principalmente a sua distinção de um estrato pré-científico; 2) a crítica a um suposto objeto natural que permaneceria idêntico através da abordagem das diferentes perspectivas; o objeto científico seria mais construído do que revelado; 3) a crítica à noção de precursor.

Penna (1980, p.28) destaca os principais problemas da noção de precursor, tal como utilizado na história das ciências: a) supor-se precursor de alguém seria interditar o próprio trabalho, uma vez que ele seria apenas parte de um trabalho posterior; b) não se pode atribuir uma intenção de invenção a quem não sabe se criou algo ou não; c) sua referência é apenas uma invenção a posteriori em busca de apoio histórico a certas idéias; d) a idéia de precursor interdita a historicidade das ciências.

Pela importância atribuída ao conceito de ruptura, ele deixa de ser o negativo, obstáculo e fatalidade exterior da leitura histórica para se tornar “o elemento positivo que determina o seu objeto e valida sua análise” (Foucault, 1969, p. 17). E acaba ocupando um espaço duplo de “instrumento e objeto de pesquisa”, condição e efeito do campo, o que individualiza e compara, além de conceito e segredo que o discurso do historiador supõe (op. cit., pp. 16 e 17). Por todas estas razões, pode-se perguntar se ele não ocuparia o lugar de a priori do discurso histórico1.


II.6. O interdito do progresso

Uma forma de se esconjurar a alteridade radical que a história nos traz é reduzir as diferenças escalonando-as numa direção progressiva, em que o passado, nas suas gradações, representaria espectros minorados do presente, tanto mais positivos quanto mais próximos de uma atualidade triunfante ou de um futuro utópico. Este modelo é o de uma história evolutiva, em que o devir já teria desde a sua origem um sentido embrionário, uma finalidade a cumprir, e todos os instantes na sua continuidade seriam realizações graduais deste projeto. Modelo de tempo que povoaria o imaginário dos historiadores segundo Chatelet (1956) desde o cristianismo primitivo do século V até as filosofias da história (como a hegeliana) no século XIX. Este modelo parece ainda servir para a história das ciências, que se encaminha sempre numa direção, se não da verdade, ao menos do distanciamento dos primeiros erros.

E este modelo, aparentemente pertinente na história das ciências e das técnicas parece inspirar a impressão de uma diferença radical de nós modernos com relação aos primitivos e nossos antepassados. Entre nós e os outros haveria uma diferença coroada por uma assimetria radical, garantida por nossa aproximação da verdade. Contudo, como nos lembra Lévi-Strauss (1970, p. 249), a ciência e a técnica são apenas um dos critérios dentre vários que se impõe entre culturas diferentes. De mais a mais, o evolucionismo entra em confronto com critérios cruciais das Novas Histórias, como presentismo (dado na diferença simétrica entre nós e os outros), os objetos parciais (dados na diferença radical entre os diversos tempos) e a ruptura (dada na diferença não hierarquizável entre os diversos acontecimentos).

Nesta História progressiva, tão problematizável quanto a noção de um sentido ou de uma teleologia na qual se apagariam as diferenças, é a idéia de uma origem. Neste aspecto, seguem-se as críticas de Foucault (1971), de resto inspiradas na genealogia nietzschana. No caso, a noção de gênese suporia uma identidade anterior a todo acidente, sendo o lugar soberano da verdade, e que seria resgatada no ponto final da história. Como alternativa à noção de origem e sua suposição de uma gênese tranqüila e identitária, Nietzsche proporia os conceitos de proveniência (Herkunft) e de emergência (Entestehung). No primeiro caso, seria suposta uma proliferação de acontecimentos (e não uma identidade) na base dos objetos históricos. No segundo, que estes são gerados no lugar do afrontamento de forças múltiplas. A história seria, portanto, muito mais fruto das falhas, dos equívocos e das fissuras do que de grandes destinos, e produzida a partir de certas perspectivas, sem termo último a ser descortinado.


II.7. A impossibilidade da verdade única
Mediante as inviabilidades de uma história fatual, contínua, progressiva e global resta apenas concluir que a história, na perspectiva das Novas Histórias, é produto de um exercício estratégico de estranhamento gerado em nosso presente. Não haveria, pois, verdade ou lição última a ser descortinada, revelada ou decifrada. A verdade na história é uma construção do historiador. E seria relativa ao seu próprio espaço de enunciação: “Fomos progressivamente descobrindo que esta objetividade do conhecimento histórico é um mito, que toda história é escrita por um homem e que quando esse homem é um bom historiador põe na sua escrita muito de si próprio” (Duby, 1989, p.7). Contudo, muito diferente da Escola dos Annales, este combate a uma história verdadeira pode se valer de argumento não relativista:
...Na noção de verdade sempre se misturam duas coisas: falar a verdade e a verdade das coisas. Não existe a verdade das coisas. Não existe uma política que seria sempre a melhor, a verdadeira, a única sensata.... A inventividade permanente condena permanentemente nossas pequenas racionalidades. O que não quer dizer que deva se aceitar tudo. Quer dizer que não existe uma única regra e que devemos nos arranjar para encontrar soluções. Por isso, afirmo que não existe uma verdade das coisas, mas um historiador pode dizer a verdade... O historiador fala a verdade quando analisa as transformações da maneira exata como aconteceram, e então o seu discurso não tem nada de relativo: ou é verdadeiro ou é falso (Veyne, 1989, p.160).
Relativista ou não, esta recusa da verdade na história aponta para a impossibilidade desta se valer dos mesmos critérios que os buscados pelas ciências naturais. É neste aspecto que Foucault (1957, p. 144) afirma que as histórias não se produzem na tentativa de superação do erro, mas na abordagem positivas das ilusões, nas quais o próprio historiador está ancorado, uma vez que “é a própria História que constitui a origem absoluta e o movimento dialético da história como ciência” (op. cit., p. 144). Restaria apenas ao historiador a descrição do que Stengers (1989, p. 140) chama de romances pertinentes, “testemunhar não de maneira verdadeira no sentido judiciário, e sim de maneira discutível, não apenas daquilo que aprenderam, mas também da maneira pela qual aquilo que aprenderam os transformou, o caráter patético de sua experiência que o ideal judiciário da verdade os obriga a ocultar”. Posição que não se difere muito da de Duby (1989, p.11): “Há, sem dúvida, uma enorme diferença entre a história e o romance, na medida em que a ficção histórica está ligada a algo que foi verdadeiramente vivido, mas, no fundo, a forma de abordagem não é muito diferente”.

Não sendo mais decisivo o critério de objetividade, que alternativas restam aos historiadores na elaboração de romances possíveis? Critérios menos definitivos e mais polemizáveis como clareza, elegância, fecundidade, coerência, criatividade e respeito às fontes. Nada que encerre de uma vez por todas o debate histórico, mas também nada que o torne inconsistente e desapaixonante.


III. Uma Nova História da Psicologia?

A História da Psicologia, escrita através de seus manuais mais clássicos como E. Boring (1950), O. Klemm (1933), G. Murphy (1960) e G. S. Brett (1963) tem sido o avesso do roteiro descrito pelas Novas Histórias2, uma história triunfal que tenta justificar o presente buscando antecipações em origens cada vez mais remotas, em antevisões que só se diferenciariam do presente pela maior explicitação e base empírica com que nós conferimos aos nossos conhecimentos na atualidade. Ao mesmo tempo em que o nosso saber estaria garantido pela eternidade e respaldado pelos antigos, ele seguiria a sua incontornável marcha evolutiva em direção a uma maior verdade. Da mesma maneira que se trata de uma história ideal, ela busca ser uma descrição fatual do desenrolar desses saberes psicológicos, sem impor qualquer forma de problematização, ao menos quanto à existência de um recorte psicológico nas principais categorias de outras épocas.

A psicologia seria um fato natural a ser coroado em uma história triunfal, numa evolução sem cortes ou reviravoltas. A psicologia não irromperia no acaso da história, no risco de nunca ter sido se as condições fossem outras; ela tem a história pacífica dos grandes saberes que se descortinam por sua evidência. Trata-se de uma história em que psicologia jamais se encontra isolada, singularizada ou tornada rara, ela abunda na parceria com os grandes conhecimentos, os grandes saberes, os grandes pensadores. Ela nunca é destacada, rarificada, ou ao menos posta na companhia dos saberes menores, das práticas sociais cotidianas, das normas burocráticas e dos dispositivos governamentais. Ela jamais faz conexão com o que se encontra abaixo do céu epistêmico, com o burburinho de nossa vida comum. Como poderia ser esta história diferente? Como estas coordenadas das Novas Histórias poderiam fornecer o projeto de uma Nova História da Psicologia?

Em primeiro lugar, esta possível história da psicologia jamais tomaria o seu ponto de partida na alvorada das idéias psicológicas, onde um primeiro esboço de consciência reflexiva já traria em si uma psicologia implícita. Ela deve partir necessariamente do presente, da problematização de suas práticas e de seus conceitos atuais, tomados na sua singularidade ou na tensão que estes mantém na dispersão própria do campo psicológico.

Neste caso, é possível tanto uma história da psicologia que tome em questão temas contemporâneos específicos, como a possibilidade singular de uma psicologia da infância, dos testes mentais, ou de uma psicologia organizacional quanto de uma história que num plano mais amplo busque as condições de surgimento de um saber como o psicológico, que busca o seu reconhecimento como ciência, mas opera com a dispersão própria de uma vã filosofia. Neste caso a questão poderia ser: porque existem tantas psicologias?

Na busca de resposta a estas questões lançadas a estes objetos históricos raros é possível a parceria interdisciplinar com os saberes mais diversos como a história da filosofia, a antropologia, a sociologia e até da história das ciências. Lançadas a partir do presente, estas questões não devem conduzir à remissão sem fim de um tempo imemorial. Portam a suspeita da perenidade dos objetos psicológicos, que teriam datas de emergência bastante específicas, e forjados conforme condições de possibilidade bastante delimitáveis.

Portanto não se pode recuar historicamente antes do século XIX na busca de uma psicologia academicamente instituída (o que foi operado com W. Wundt em 1879), antes do século XVIII na procura da psicologia como disciplina acadêmica (o que foi proposto por C. Wolff em 1732), e antes do século XVI no rastreamento do vocábulo (utilizado por teólogos como R. Goclenius desde 1590). Se a irrupção da psicologia como projeto ou área acadêmica não pode ser visto antes da modernidade, suas condições de possibilidade dificilmente podem ser vistas mais aquém, pois dificilmente antes do século XVI poderão ser vislumbrados, de uma forma positiva, temas como o indivíduo, ou uma abordagem objetivante do homem ou do sujeito.

Estes objetos que tornam possível um discurso como o psicológico tem uma existência rara e singular, tornando impossível uma história contínua e eterna da psicologia. De igual modo, torna-se impossível uma história evolutiva da psicologia, não apenas devido à inviabilidade de uma origem identitária, mas também de uma atualidade marcada por um projeto hegemônico e consensual que forneceria uma racionalidade a esta história.

A pluralidade da psicologia garantiria uma pluralidade de referências atuais possíveis, incluindo a própria questão da sua multiplicidade. E esta multiplicidade seria multiplicável pelas diversas formas com que historiador pode enunciar a verdade da história, gerando diversos romances possíveis. No caso este seria enfim o desafio do historiador da psicologia: recuar da segurança de uma história triunfante para acolher a multiplicidade do seu objeto, problematizá-lo, rarificá-lo e contar a verdade tênue de sua emergência de formas tão plurais quanto às do seu alvo de estudo.




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