Clio-psyché subjetividade e história



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CLASSIFICAÇÃO, SUBJETIVIDADE E GENEALOGIA
Francisco Teixeira Portugal
RESUMO
O artigo analisa as mudanças ocorridas no sistema classificatório e como elas se relacionam com a psicologia. Primeiramente, o autor analisa o desenvolvimento do movimento de classificação, cuja característica antropomórfica paulatinamente enfraquece. Depois o autor passa para a analise da importância e influência da teoria darwiniana, seu questionamento da função da classificação e apresentação da proposta genealógica, ou seja, inserção do fator tempo nos corpos dos animais. Por fim, o artigo analisa a possibilidade de inserção da faculdade mental como critério de classificação.
ABSTRACT

Classification, subjectivity and genealogy


The article analyses the changes within the system of classification and how those changes are related with Psychology. First, the author analyses the developing of the movement of classification, whose antropomorphic characteristic gradually weakens. Afterwards, he analyses the importance and influence of Darwin’s theories, his questioning of the function of classification and his presenting of the genealogy proposal, i.e, the insertion of the factor time into animal’s bodies. At last, the article analyses the possibility of insertion of mental faculty as a criterium of classification.

A teoria darwiniana e toda a psicologia nela apoiada podem ser concebidas como dispositivos de produção de subjetividade. Ao tentar fornecer uma nova inteligibilidade para o mundo natural, Darwin criou uma máquina de classificar que introduziu o tempo no corpo do homem. O artificialismo das classificações é o ponto de partida para Darwin propor uma ordenação ao mundo natural, concepção que reconhece o poder modelizador da ciência, mas que deixa uma abertura para o novo lugar ocupado pelo homem.

A discussão sobre a continuidade homem/animal está presente nos autores de inspiração sensacionista3 desde o século XVII, isto é, muito antes dos evolucionistas e de Darwin (1809-1882) em particular. As discussões em torno da natureza e capacidades da mente humana encontram sua medida na psicologia animal, mas somente no século XIX tomam a configuração que conhecemos e que devemos indagar na busca de determinantes desta comparação.

Noções como instinto, inteligência, emoções, moral ganharam, a partir daí, novos contornos em suas articulações com a biologia, configurando para a psicologia questões das quais ela ainda não se liberou.

O interstício entre esses saberes, presente na proposta darwiniana, é ainda motivo de disputas, faz das relações da psicologia com a biologia um campo controverso. Daí a relevância de uma análise histórica para buscar os determinantes e os diferenciais deste encontro.

Nossas relações com o mundo natural carregam um sistema classificatório que consideramos, muito simplesmente, o seu reflexo. Ninguém duvida que existam insetos, gatos, cachorros, baleias, peixes e seres humanos. Ninguém duvida também que não existam monstros, dragões, quimeras, centauros e ipupiaras.

Aqueles são animais reais, nomes de objetos concretos que passeiam pelo planeta ao longo de suas vidas. Estes são entidades imaginárias, produto de nossa função criativa, presentes apenas nas histórias e nos livros.

Os animais reais seriam pretensamente ordenados conforme se apresentam no mundo natural. Bastaria olhá-los, compará-los e aí estaria sua ordem: ela seria a própria natureza transposta em nossa linguagem. Dos animais imaginários tudo se pode dizer e muito já foi dito, não sendo o espelho da natureza sua liberdade é infinita.

Feita esta distinção ampla entre seres reais e imaginários, bastaria então olhar para os seres reais e mostrar, numa atividade meramente descritiva, o sistema utilizado em sua classificação. Mas, no esforço de classificar sistematicamente esses animais, encaramos dificuldades que nossa experiência cotidiana e as cristalizações de nossa língua não podiam prever. Ao definirmos a baleia evocamos propriedades que, ingenuamente, acreditamos presentes em todas elas. Acreditamos na existência de um padrão que estabelece o tipo baleia. Ora, uma pesquisa sistemática encontrará barreiras na determinação destas características comuns. Enquanto o consenso popular determina um animal porque sua comunidade o faz, uma taxonomia científica deve apresentar seus critérios (Clark, 1994).

A oposição animais reais e animais imaginários divide, num deslocamento pouco visível, nossas relações com os animais numa realidade biofísica, com uma existência independente da mente das pessoas e uma outra que só tem consistência no conjunto das representações mentais coletivas. Mas, em vez de aceitar a dualidade humanidade – animalidade, sendo o mundo da natureza distinto do humano, talvez devamos pesquisar, para além de um determinismo calcado numa origem absoluta, nosso engajamento mútuo (Ingold, 1994: xxiv). E tomar a função criativa, que Castoriadis atribuía ao homem em sua irracionalidade, como própria ao diversificado processo da vida (Castoriadis, 1997, 1996).

As classificações carregam consigo um poder silencioso: elas têm a propriedade de tomar conta de nós, de dar forma à nossa percepção e ao nosso entendimento. É apenas com esforço e inteligência que conseguimos ver sua artificialidade, Fernando Pessoa escreveu que toda classificação é útil, mas todas são falsas. Darwin fornece um ótimo exemplo dessa propriedade capturante das ordenações do mundo natural, afirmava que a classificação pode ser baseada em uma característica qualquer, mas os naturalistas há longo tempo sentem “uma profunda convicção de que há um sistema natural.” (Darwin, s.d. [1871]4: 514)

Distinguir as construções de sistemas classificatórios científicos e populares não significa isolar o justo do enganoso, trata-se, antes, de apontar para suas diferenças e suas misturas. As produções conceituais sempre estão muito engajadas no movimento das coisas e qualquer atividade ordenadora tem sido pouco feliz em suas tentativas de imobilizá-las.



O movimento das classificações

No início da era moderna era usual, na Inglaterra, considerar o mundo natural como tendo sido criado para o homem, para seu uso e apreciação, e, conseqüentemente, toda a criação bruta estava subordinada a seus desejos. Partindo deste antropocentrismo extremado próprio do início da era moderna, a história natural promove, nos séculos seguintes, um rebalizamento, estabelecendo novos sistemas classificatórios a partir de traços mais objetivos e imparciais.

Os primeiros zoólogos modernos classificavam os animais a partir da forte herança aristotélica – que fixava como princípios ordenadores a estrutura anatômica, o habitat e o modo de reprodução – de sua utilidade para o homem, seu valor alimentício e medicinal e de sua adequação como símbolo moral (Thomas, 1996: 63 sgs).5

Senhor desta criação bruta, o homem ocupava um lugar especial e distante dos animais. As três classes em que os animais eram divididos – segundo sua comestibilidade, ferocidade e utilidade – revelam o antropocentrismo desta descrição. Pode-se dizer que o código ordenador do regime alimentar dos ingleses atingia os sistemas classificatórios dos zoólogos em uma interação que repugna atualmente a ciência. Neste hábito alimentar, a comestibilidade do animal era definida por sua dieta. Alimentar-se exclusivamente de vegetais tornava-os mais altamente comestíveis, sua qualidade diminuía conforme o consumo de carne, ou o que era ainda pior, a ingestão de carniça e excrementos. A força da dieta animal era grande o suficiente para alterar sua qualidade, um animal carnívoro alimentado com vegetais poderia se tornar recomendável. Assim, cães, gralhas calvas e, até mesmo, ratos podiam ser comidos desde que adequadamente cevados.

A importância do animal para o trabalho também controlava sua ingestão. Os cavalos, cães e bois estavam geralmente interditos à alimentação e a difusão do rosbife inglês é correlato ao decréscimo da relevância do boi como força motriz.

A utilidade para o homem ordenava, por exemplo, a classificação dos cães. Esses foram divididos, no século XVI, em generosos, rústicos e degenerados ou vis conforme seu uso na caça ou por damas elegantes, nas tarefas necessárias, na cozinha ou em atividades subalternas, respectivamente. O princípio aprofundava a divisão: os cães de caça (generosos) ainda distinguiam-se conforme sua habilidade olfativa ou atalaiadora, sua velocidade ou sutileza, sua relação com bichos ou aves. E ainda num requinte ordenador, no caso das aves, se seu desempenho era melhor com as aquáticas ou com as terrestres. Os cães rústicos eram diferenciados conforme sua atividade (cães pastores, cães de guarda) e em seguida por latirem ou morderem, por realizarem ambas as atividades, e ainda pela ordem com que realizavam esses comportamentos, isto é, se latiam e mordiam ou se mordiam antes de ladrar. A força deste princípio faz eco mesmo no trabalho de Lineu que no século XVIII divide o cão fiel em pastores e animais de cozinha, diferenciando-o do lobo e do cão bravio.

O terceiro critério ordenador (ferocidade) separava os animais em domésticos e selvagens. Distinção de importância jurídica, pois não poderia haver propriedade sobre animais ferozes vivos, apenas sobre os mortos ou domesticados. Alguns tinham uma situação ambígua, não cabendo nem entre os selvagens nem entre os domesticados como era o caso das abelhas. Se voltassem ao estado selvagem anterior ganhavam com isso sua liberdade, isto é, deixavam de ser propriedade de alguém. Como se vê domesticação e escravidão estavam próximas.

A beleza física e outras preferências populares ainda dominavam naturalistas. Escrevia-se nas atas de uma sociedade de história natural de Edimburgo, nos anos de1821-22, que as aranhas e lagartas eram asquerosas o suficiente para fazer gritar algumas damas diante de sua visão. Mesmo um futuro professor de botânica de Cambridge considerava a rã desprezível e odiosa. A feiúra e a repulsividade, em alguns casos, dificultavam o trabalho de história natural e curiosamente alcançavam até mesmo alguns animais: para evitar a visão de seu corpo disforme no espelho da água, o elefante revolve o fundo fazendo-a barrenta e opaca.

A hierarquia social duplicava-se nos animais. As corridas de cavalos, altamente valorizadas pela aristocracia no final do século XVII, produziram uma rigorosa ordenação das linhagens, cujas nobres características simbolizavam as de seus nobres proprietários. Alguns desses valorosos animais representavam a versão eqüina de Adão, Noé e Guilherme, o Marechal. No século XVIII, a criação de alguns animais toma uma perspectiva eugênica com sua inexorável hierarquia. As características valorizadas envolviam uma ordem semelhante à humana, homens e animais reiterando suas posições relativas.

O mundo natural tem sido utilizado, das mais variadas formas, para legitimar ou justificar uma ordem social humana. Valores são atribuídos aos animais e, passando por uma lente transformadora, retornam ao mundo humano naturalizados. Se os animais são dessa ou daquela maneira, se estão ordenados hierarquicamente ou solidariamente, então é mais adequado seguir esta ordem que afinal de contas é natural (Sahlins, 1976: 101).

A ordem monárquica manifestava-se claramente na hierarquia entre os animais e era peculiar, até mesmo, a algumas espécies. No século XVII, o leão, a águia e a baleia regiam a ordem monárquica, havendo discussão entre os cientistas se não seria o elefante, o chimpanzé, o castor ou o golfinho os animais que realmente deveriam figurar como monarcas.

O pensamento simbólico foi rejeitado pelas novas práticas classificatórias e os livros de emblemas tornaram-se histórias de crianças. As fábulas animais e os animais fabulosos transpuseram, neste momento, o limite que os separava dos animais do mundo natural e deixaram de ser objeto de interesse para os estudiosos da história natural. As comparações políticas e morais com as formigas e abelhas foram esvaziadas – muito embora este uso político e moral tenha estado presente em naturalistas do século XIX e mesmo no século XX –, afinal elas seguem apenas os estímulos da natureza. Coleridge afirmava em 1835: “Os verdadeiros hábitos dos animais devem ser observados com muita cautela; não se deve descrevê-los como se desempenhassem ações humanas, com as quais suas ações naturais não guardam semelhança ou analogia imagináveis.” (Coleridge citado por Thomas: 1996: 81).

Ainda que os sistemas classificatórios tenham se tornado menos antropomórficos ao longo do século XVIII, ainda assim o sistema de Lineu para as plantas continuava a dividir o reino vegetal em tribos e nações, afirmando que as gramíneas eram plebéias; os lírios, patrícios; as turfeiras, servas e os fungos, vagabundos.

No que diz respeito aos animais, já havia a proposta aristotélica que ressaltava a importância da estrutura dos animais para a classificação, mas os sistemas ordenadores foram abandonando a centralidade do homem para fixarem-se em características mais concretas. Critérios como a utilidade para o homem, a selvageria, o valor moral de suas vidas, a beleza etc. são obscurecidos pela atenção à sua anatomia interna, a qual toma a frente até mesmo das características externas visíveis, valorizadas de forma hegemônica até então. No final do século XVIII, estabelece-se um procedimento que evita tomar um critério humano e valoriza as particularidades das espécies. Aceita-se, num significativo deslocamento histórico, que todo sistema classificatório é artificial, que a natureza nada sabia de classes, ordens, gêneros e espécies.

É no final do século XVIII e início do século XIX que o princípio ordenador do mundo natural deixa de girar em torno das diferenças e semelhanças de características visíveis das plantas e dos animais, numa atividade onde a tipologia esgotava-se na elaboração de um discurso que traçava, pela própria transposição em palavras, o modo como essas características apresentavam-se. Em seu lugar surgem princípios ordenadores invisíveis: suas funções, seus órgãos. O mundo plano das descrições da história natural é substituído pela profundidade das funções essenciais ao ser vivo da biologia (Foucault, 1987: 142).

Nos usos que o homem faz dos animais e no efeito dessa atividade sobre si, as novas noções de vida, de função, de órgãos promovem um descentramento em relação à prática da história natural, uma vez que essas noções não só perpassam os vivos, aglomerando-os, como fornecem, também, um novo sentido para a história. O tempo constitui uma dimensão invisível que ordena as relações entre os seres vivos. As classificações em séries animais organizam as semelhanças e diferenças por suas relações genealógicas. O tempo escapa à classificação, deixando de ser mero aspecto para se tornar ordenador destes arranjos do mundo natural.



Darwin, a classificação, os animais e os homens

Lamentando a perda de gostos elevados como a poesia, a pintura e a música, Darwin escrevia em sua Autobiografia: “Meu cérebro parece haver se transformado numa espécie de máquina de moer leis gerais a partir de grandes compilações de fatos, mas não consigo imaginar por que isso haveria de ter causado a atrofia da parte do cérebro da qual dependem os gostos mais elevados.” (Darwin, 2000 [1887]: 121).

O modo de funcionamento desta máquina de classificar modificou, com significativas conseqüências, nossas relações com o mundo animal. O entusiasmo classificatório dos naturalistas do século XVIII e XIX era, para Darwin, um trabalho inútil na falta de um horizonte que fornecesse um sentido para esta atividade. Era necessário um princípio norteador, objetivo que tornasse inteligíveis as aproximações e distanciamentos da imensa variedade animal e vegetal existente e, também, a que deixou de existir.

Tal postura fica clara quando, em 1842, nas cartas trocadas com George Waterhouse, o sentido da classificação é colocado em causa. O que a classificação demonstra? Que serviço ela presta à nossa compreensão dos seres vivos?

Waterhouse, curador da Sociedade Zoológica e autor do primeiro volume da catalogação dos mamíferos coletados por Darwin em sua circunavegação, buscava organizar os animais em círculos simbólicos num procedimento desvelador do modo como os seres vivos foram organizados pelo criador. Neste mundo vivo aparentemente caótico, um princípio organizador poderia revelar a imutável escrita de Deus numa biologia criacionista. Partindo da descrição de fatos zoológicos seria possível relacionar as unidades classificatórias (taxa6) em círculos cujo movimento estável e repetitivo afastava o perigo da proposta evolucionista, grande fantasma do naturalismo inglês, na medida em que colocaria em causa a argumentação teológica sobre o mundo natural e sua hegemonia institucional.

O trabalho de Jean-Baptiste Lamarck (1774-1829), tão reconhecido na França, teve uma recepção contraditória entre os ingleses. Enquanto membros da Igreja e do Estado viam em suas idéias transformacionistas um risco para a ordem estabelecida, estas mesmas idéias soavam muito agradavelmente aos ouvidos da emergente classe liberal. Contudo, a partir dos cadernos de Darwin, e mesmo de algumas partes de sua obra publicada, sabe-se hoje que, contrariamente à rejeição pública do evolucionismo lamarckista, o naturalista francês foi, através de Robert Grant, objeto de interesse e apreciação, pelo menos no início de seus estudos em Edimburgo.

“Todas as regras para uma classificação natural são fúteis até que você possa claramente explicar aonde está querendo chegar.” (Darwin citado por Desmond e Moore, 2000: 331). É desta forma arrebatada, estranha a um pensador tão cioso das obrigações e regras das instituições de seu tempo, que o princípio genealógico passa a ser o guia maior de suas ordenações.

A proposta genealógica, contudo, não foi compreendida e acatada, no início, mesmo por alguns que vieram a ser tornar seus mais próximos e exaltados defensores:

No que tange à classificação, ele [Thomas Henry Huxley] nada compreendeu. O ‘caso da genealogia’ podia ser uma questão de ‘profundo interesse’, consentiu, ‘mas para mim, nada mais tem a ver com a pura zoologia — do que a genealogia humana com o censo’. A classificação era uma contagem de vidas humanas, não uma árvore genealógica do morto. (Desmond e Moore, 2000: 480)

O sistema classificatório deveria ser ‘simplesmente genealógico’ e esta compreensão ‘esclarecerá em alto grau o valor dos traços distintivos’, gerando para cada reino da natureza árvores genealógicas e estabelecendo sua ordem presente por um longo passado repleto de pequenas bifurcações.

Introduzindo a luta nas relações e o tempo no corpo dos animais, Darwin encontra uma nova ordem onde, por um lado, Marx (1943: 156) via a reprodução da sociedade inglesa no mundo natural, mas por outro, instaura um princípio de criação e mobilidade, variação e continuidade.

Todos os animais se relacionam entre si, mas muitos de seus elos não são vivos, e se por um acaso, todos os seres, os atuais e os que se foram, pudessem ser coletados, hoje, seria possível estabelecer suas séries relacionando-os todos em um “grande e indivisível grupo”. As “ordens, famílias e gêneros são termos meramente artificiais extremamente úteis para mostrar o parentesco daqueles membros da série que não se tornaram extintas.” (Darwin citado por Desmond e Moore, 2000: 331, ênfase acrescentada).

A ancestralidade e a possibilidade de reprodução passam a ser princípios organizadores da classificação, ainda que não se deva exagerar seus poderes, já que para Darwin, apesar de importantes eram apenas dois entre diversos critérios a serem obedecidos. Sendo a diversidade de critérios uma obrigação para o naturalista consciencioso (Darwin, s.d. [1871]: 514).

A passagem do animal ao homem ou do homem ao animal

A proposta genealógica de Darwin certamente alterou a imagem ocidental do homem. Sua centralidade no mundo vivo foi deslocada, de núcleo dos círculos das criaturas sobre a terra com seu valor referencial — a criação bruta foi feita para uso do homem — para um conjunto de linhas bifurcantes que estabelecem uma alarmante proximidade.

A argumentação darwiniana que estabelece a evolução está estribada na distribuição geográfica, sucessão geológica, estruturas homólogas,7 desenvolvimento embriológico e nos órgãos rudimentares de uma espécie. Estes argumentos devem estar presentes na observação do mundo natural, guiando sua classificação e fornecendo “evidência ampla e conclusiva a favor do princípio da evolução gradual.” (Darwin, s.d. [1871]: 390).

A artificialidade das classificações e a distinção entre a nomenclatura e o mundo natural configuram alterações históricas marcantes do final do século XVIII e início do século XIX. As classificações passam a ser concebidas como ordenações do mundo natural que têm uma existência para além das palavras (Foucault, 1987: 245).

Em 1871 o livro The descent of man and selection in relation to sex é publicado. Seu objetivo era verificar até onde as conclusões gerais alcançadas nos seus primeiros trabalhos eram aplicáveis ao homem. Em que medida o modelo formulado no Origem das espécies (1859) lançava luz sobre a história do homem.

Cuidadoso, Darwin elabora seu Origem das espécies sem explicitar muitos elos entre os animais e os homens, mas deixa bastante claro seu credo: “No futuro distante, visualizo novos campos que se estendem para pesquisas ainda mais importantes. A Psicologia irá basear-se num fundamento novo, o da necessária aquisição gradual de cada faculdade mental. Nova luz será lançada sobre o problema da origem do homem e de sua história.” (Darwin, 1994 [1859]: 351).

Em The descent of man seu objetivo explícito – dado o sucesso de suas reflexões – foi “saber se o homem como qualquer outra espécie descende de alguma forma preexistente” e “o modo de seu desenvolvimento”.

As conexões do homem com alguma forma preexistente devem ser procuradas nas variações da estrutura corporal e nas faculdades mentais. Opera-se nestas passagens um deslizamento relevante para a psicologia. Configura-se uma dessimetria entre os critérios que garantem a conexão genealógica dos seres vivos quando referidas às estruturas corporais e quando referidas às faculdades mentais.

Essa assimetria é concebida pelo etólogo Konrad Lorenz (1903-) como um paralelismo. Semelhanças entre comportamentos hereditários legitimam a conexão em unidades classificatórias do mesmo modo que as estruturas corporais. Assim como estas últimas, eles também podem se tornar vestigiais ou rudimentares, e, ainda, perder uma função e adquirir outra. Suas transmissões hereditárias são do mesmo tipo e a adaptação de padrões comportamentais de um organismo a seu meio é idêntica à de seus órgãos. E esta afirmação não se aplica apenas aos comportamentos rígidos, hereditariamente transmitidos, mas também vale para “os complicados mecanismos de modificação adaptativa, entre os quais estão aqueles geralmente incluídos na concepção de aprendizado.” (Lorenz, 2000: 10-11).

Esse paralelismo, contudo, não se apresenta assim tão claramente a Darwin. Não é difícil afirmar que Darwin não desenvolve uma teoria sofisticada da relação mente-corpo, mas deixa claro que as faculdades mentais nada mais são que produtos do funcionamento cerebral (Richards, 1987).

Na busca de formas anteriores será necessário observar, por um lado, se as variações transmitidas à prole são do tipo que prevalecem nos animais inferiores e, por outro, se resultam das mesmas leis gerais como, por exemplo, efeitos herdados do uso e do desuso.

A distância entre as estruturas corporais e os poderes mentais do homem, afirma Darwin, é muito grande, mas é possível encontrar uma continuidade e mostrar que o homem descendeu de alguma forma inferior, ainda que elos não tenham sido encontrados. Assim como os animais, também o homem estaria sujeito à luta pela sobrevivência e à seleção natural.8

Seu corpo, continua o naturalista, estaria construído no mesmo plano homológico dos outros mamíferos e passaria pelas mesmas fases do desenvolvimento embriológico, mantendo estruturas rudimentares e inúteis. É fácil notar como estes argumentos dizem respeito ao corpo, deixando em aberto os critérios para uma ordenação das faculdades mentais e seus elos com formas anteriores.

Comparando os poderes mentais dos homens e dos animais, Darwin não encontra razão para distinguir qualitativamente o homem do conjunto dos outros animais como se fazia então. O argumento darwiniano é que há diferenças maiores entre animais que entre o homem e outros mamíferos, sem que estas distinções gerem novos reinos como teria ousado, em 1859, Isidore Geoffroy Saint-Hilaire ao dividir em três reinos o mundo orgânico (o humano, o animal e o vegetal) em função dos amplos poderes mentais e espirituais do homem.

Da perspectiva corporal há indícios suficientes relacionando o homem aos animais; do ponto de vista das faculdades mentais, Darwin esforçou-se para mostrar os elos entre o homem e os mamíferos superiores.

Mas o ponto chave do isolamento ou da continuidade entre o homem e animais, aceitando as inúmeras e especiais faculdades mentais humanas, está na sugestão de Darwin de não sustentar a classificação em apenas uma característica ou órgão (mesmo que este órgão seja tão maravilhoso como o cérebro) ou mesmo no alto desenvolvimento das faculdades mentais.

A classificação deve ser guiada pela comparação de diversas características já que, como apontado por Darwin, as tentativas de classificação centradas apenas nas faculdades mentais se mostraram inadequadas.

Este princípio já foi aplicado a insetos himenópteros, contudo, quando foram classificados por seus hábitos ou instintos, o arranjo revelou-se tremendamente artificial. (Darwin, s.d. [1871]: 514)

De uma forma geral, o comportamento e as faculdades mentais não servem como critério classificatório. Comparando a classificação biológica com a classificação das línguas, Darwin interdita ao classificador de organismos a utilização de adaptações a hábitos de vida semelhantes como ponto de conexão.

Apesar dos naturalistas estarem plenamente convencidos de um sistema natural, as classificações são sempre baseadas num traço qualquer. O guia geral deste sistema é a genealogia, ela ordena as diferenças e semelhanças, aparentando os tipos. Dependendo da quantidade de diferença, os tipos são agrupados em gêneros, famílias, ordens e classes. Contudo, a semelhança em numerosos aspectos é mais significativa que uma grande quantidade de similaridade em poucos pontos. Assim, a classificação não pode basear-se nas adaptações a hábitos de vida semelhantes pois dois animais podem se assemelhar em todo um padrão de hábitos de vida por viverem na água ainda que isso não os aproxime em nada no sistema classificatório. Daí pesar mais as semelhanças em muitas estruturas pouco importantes, em órgãos rudimentares, na condição embriológica, pois elas dificilmente podem ser o resultado de adaptações no período recente da vida.

Ainda que existam modificações nas espécies que não as ajudem a ganhar alimentos ou que não sirvam para qualquer outro fim, no homem não se consegue determinar um limite definido, no que diz respeito às adaptações, no contínuo desenvolvimento do cérebro e das faculdades mentais.

Mas mesmo assim, e Darwin insiste nisso, não se deve valorizar demais esse desenvolvimento sobre os diversos outros aspectos menos importantes. Além disso, a adaptação é apenas um princípio entre outros, não devemos exagerar sua função.

Seria, entretanto, descuidado confiar demais no princípio da adaptação em relação à direção do cabelo no homem ou em seus progenitores remotos, pois é impossível estudar as imagens fornecidas por Eschricht do arranjo do cabelo no feto humano e não concordar com este excelente observador que outras e mais complexas causas estiveram presentes. (Darwin, s.d. [1871]: 517, ênfase acrescentada)
As faculdades mentais não constituem portanto, um solo seguro para classificação. Constituem apenas um entre diversos outros pontos de semelhança / diferença a serem apreciados para formação de grupos e relações entre grupos.

Aprofundando a discussão, há uma ambiguidade no discurso darwiniano sobre o lugar das faculdades mentais na teoria da seleção natural. Elas podem ser explicadas por este princípio geral (guardando, como Darwin reiterou tantas vezes, a possibilidade de características indiferentes à adaptação), ainda que elas não sejam igualmente analisáveis se comparadas à estrutura dos animais. Os aspectos apontados para aproximação e distanciamento na classificação (órgãos rudimentares, etc.) não servem para as faculdades mentais.

Devemos dizer que o princípio da seleção natural não pode ser aplicado às faculdades mentais? Lendo Darwin podemos dizer sim e não. Não, por tudo que acabamos de afirmar. Mas, também, sim, elas estão submetidas a este princípio. Tanto os animais quanto os homens as possuem e elas consistem em características que não diferem qualitativamente entre si. Se as faculdades mentais dos animais, por mais diferentes que possam ser, podem ser explicadas pela seleção natural, as faculdades mentais do homem também estão no mesmo plano e podem, por isso, ser submetidas ao mesmo critério. O grande esforço do naturalista no The descent of man foi mostrar como não há critério que distinga em qualidade as “faculdades mentais” dos animais e do homem.

Como foi indicado, Darwin não desenvolveu explicitamente uma teoria sofisticada das relações mente-corpo, mas ao conceber a mente como derivada do funcionamento cerebral, com esta visão materialista da mente, a faz caber no princípio biológico sem mais discussão.

Esta heterogeneidade entre a capacidade explicativa do princípio da seleção natural no que se refere às estruturas orgânicas, e a algumas de suas funções (instintos), e às faculdades mentais e comportamentos humanos ocupa lugar de destaque ainda hoje nas psicologias de inspiração evolucionária.

Os questionamentos atuais sobre o homem de caráter psicológico e antropológico guardam ainda uma relação com os temas darwinianos. A continuidade tanto quanto a descontinuidade entre homens e animais é tão recorrente hoje como foi em meados do século XIX e as projeções de habilidades humanas aos animais apresentavam-se como um rico campo de relações entre o passado e a atualidade.

A atividade classificatória com as ordenações do mundo natural nos últimos séculos revelam claramente as preocupações humanas. O século XIX, momento de surgimento da psicologia, foi o momento de emergência de uma nova configuração desta atividade. O reconhecimento da artificialidade das classificações e a necessária explicitação de seus critérios, não impediram a manutenção de um certo antropocentrismo e, mais frequentemente, do antropomorfismo corriqueiros ainda no século XVIII. Mas o fato de revelar sua arbitrariedade, qualquer que fosse o critério selecionado, fornecia um novo sentido para a atividade classificatória. As ordenações biológicas não podiam mais ser concebidas como o espelho do mundo natural. Todo naturalismo carrega, portanto, neste sentido mais geral, seu antídoto: toda classificação é arbitrária e arrasta consigo uma história.
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VIDAS ESCRITAS, HISTÓRIA CONTADA?
BIOGRAFIA: HISTÓRIA DE VIDA COMO DISCURSO DO MORTO

Walter Melo9

RESUMO

Visando enfrentar o obstáculo epistemológico que consiste na eventual transformação de histórias de vida em hagiografias, o artigo focaliza a biografia como forma de escrita histórica. Para tanto, analisa a importância que lhe é conferida pelos historiadores, bem como os diversos modos de empreender a escrita biográfica, recorrendo especialmente às contribuições de Le Goff, Certeau, Papavero, Passeron e Bourdieu. Este percurso permite retomar criticamente os riscos de dar um tratamento heróico e/ou santificante ao personagem biografado, levando a hipotetizar que a análise do próprio modo de construção do mito pode ser aspecto fundamental da escrita histórico-biográfica.



ABSTRACT

Biography: Life’s History as a Discourse of the Dead


Aiming to face the scientifical challenge of creating hagiographies as of life stories the biography method is referred to as a source of historical script. Historian’s utmost concept on the methods of biography writing is based on the contributions by Le Goff, Certeau, Papavero, Passeron and Bourdieu. However, the one whose biography is made thereunder is highly subject to being held as a saint or a hero and this allows the conclusion that the myth as created might eventually represent one of the fundamentals of the biographical script.

Quando se pretende escrever acerca do percurso de uma vida, enfrenta-se uma série de obstáculos epistemológicos: qual o estatuto da verdade; a possibilidade de descontextualização pela ênfase na idéia de gênio criador; a busca por uma coerência que pretenda uma totalização dos acontecimentos; e, principalmente, a transformação da pessoa biografada numa espécie de herói e/ou santo. Estes obstáculos só podem ser enfrentados e, se possível, ultrapassados, na medida em que se estabelece um método de pesquisa que prime pela cautela de trabalhar com hipóteses que, sem desmerecer as qualidades pessoais, estabeleça conexões entre a produção de determinada pessoa com o seu contexto cultural, que estipule uma análise não linear dos acontecimentos, assim como das mudanças e mesmo contradições que surgem ao longo de uma obra, e, por fim, sem, no entanto, pretender esgotar o assunto, que analise as condições que possibilitaram o surgimento da imagem de herói e/ou santa associada a uma determinada pessoa.

Destas breves observações podemos apreender a seguinte conclusão: a biografia é, antes de tudo, uma escrita histórica. Portanto, devemos, a princípio, verificar a importância dada pelos historiadores para esse tipo de história, assim como analisar os diversos modos de se empreender a escrita biográfica.

Partindo da afirmativa de que a biografia é uma das formas de se fazer história, pelo simples fato de que estipula um antes e um depois, ou seja, que estabelece uma relação entre o presente e o passado, devemos procurar os fatos históricos referentes a uma determinada pessoa a partir de hipóteses elaboradas no tempo presente. Desta maneira, nos aproximamos, segundo Jacques Le Goff, de um dos paradoxos da história: escreve-se sobre aquilo que já não é, a partir daquilo que está sendo. Quando se trata de dados biográficos, esta ambigüidade criada pelo próprio ato da escrita histórica torna-se ainda mais complexa, dado que se costuma exagerar fatos e explicá-los com base em atitudes pessoais do biografado, chegando-se mesmo a descaracterização das relações humanas. Pode-se, por outro lado, contar a história de determinada pessoa com o simples intuito de criar polêmica ou mesmo escândalo. Le Goff, no entanto, afirma que o gênero biográfico, “apesar dos seus erros e mediocridades –, é um gênero maior da história e produziu obras-primas historiográficas” (1984, p. 170). Dentre essas obras-primas, cita o livro Frederico II, escrito por Ernest Kantorowicz, e podemos acrescentar duas obras do próprio Le Goff: São Francisco de Assis (2001) e São Luís (1999).

Le Goff pretende, em seus estudos biográficos, construir objetos dignos de uma história total como contraponto das biografias tradicionais que considera anedóticas e superficiais. Em São Francisco de Assis, Le Goff satisfaz seu desejo de escrever sobre o homem que, em sua opinião, é “histórica e humanamente exemplar em relação ao passado e ao presente” (Le Goff, 2001, p. 10). Este estudo é constituído por quatro textos que seguem e analisam a vida do santo em sua ordem cronológica, sendo, portanto, segundo a conclusão do próprio Le Goff, um estudo biográfico. Mas a biografia não pode se pautar apenas pelo desenrolar cronológico da vida de uma pessoa. Cabe também procurar, com base em documentos, uma fidedignidade que nos aproxima, ao máximo, do verdadeiro Francisco. Le Goff, neste ponto, não deixa de frisar que esta busca pela verdade não anula a interpretação pessoal que faz surgir, por entre as páginas, o Francisco do Le Goff. A escrita da história é, então, um esforço de conjunção de fatores objetivos e outros tantos subjetivos. Não existe, desta forma, nem uma vinculação com a noção de descoberta histórica, nem um abandono da noção de verdade. Le Goff afirma ser a história uma prática discursiva que é alterada pelo contexto no qual se vive, ao mesmo tempo em que atua como um movimento de transformação social.

Nesta relação de inúmeros embates que pauta a escrita histórica, foi “a relação com o real que mudou” (De Certeau, 1982, p. 41 – grifo no original). O ato de se fazer história não se torna, neste tipo de posicionamento, um discurso circular voltado para o próprio umbigo. Pelo contrário, nesta mudança de relação com a realidade, a escrita histórica tem que estar posicionada de duas maneiras frente ao real, dado que, por um lado, este é seu postulado e, por outro, é o resultado das análises do historiador. De Certeau afirma que não existe oposição entre estas posturas assumidas pelo historiador frente ao real, mas sim uma tensão que se manifesta na prática historiográfica.

O tipo de história pretendida foge completamente de concepções totalizantes que transformam o objeto do conhecimento numa mônada que pode ser apreendida em todos os seus detalhes, fazendo com que se crie a ilusão de ter enxergado os fatos da maneira mesma como se deram. No entanto, quando Le Goff diz que a biografia de São Francisco de Assis é uma tentativa de história total, na qual se quer fazer uso de “uma abordagem global em uma perspectiva social dessa história” (2001, p. 13), pode-se pensar que ele quer a totalidade dos fatos ocorridos na vida do santo, ou, pelo menos, os principais. Mas Le Goff se utiliza de termos como história total e abordagem global não de maneira contraditória às suas posições anteriormente descritas. Devemos, então, buscar a definição dada por Le Goff para termos como “total” e “global”.

Em sua biografia sobre São Luís é que vamos encontrar essa perspectiva explicitada de maneira mais clara. Neste ponto, temos também a tentativa de se fazer uma história total, que, no caso da abordagem de um personagem histórico, é a busca de um sujeito “globalizante”, que, em última análise, faz-nos ter a utopia como meta. Le Goff chega à conclusão “de que a biografia é um modo particular de fazer história” (1999, p. 20), sendo mesmo “uma das maneiras mais difíceis de fazer história” (idem). A tentativa de se empreender uma história total diz respeito à abordagem que se tem do objeto de estudo, no caso São Luís, em sua atuação em diversos campos: econômico, social, político, religioso e cultural. Esta amplitude de perspectiva não quer, de forma alguma, abarcar a totalidade dos acontecimentos, pois é necessário “saber respeitar aqui as falhas, as lacunas que a documentação deixa, não querer reconstituir o que os silêncios (...) escondem, também as descontinuidades e as disjunções, que rompem a trama e a unidade aparente de uma vida” (idem, p. 21). Desta forma, Le Goff separa o livro em três partes, nas quais analisa a vida, as fontes e os temas fundamentais relacionados à personalidade e ao tempo em que se vive.

Mesmo que Le Goff, logo de início, diga que se trata de uma biografia, afirmando que escreve acerca de um indivíduo e não de seu tempo, não se pode dizer que ele separe indivíduo de sociedade. Uma de suas maiores preocupações é em responder a pergunta se São Luís existiu. A pergunta, a primeira vista, parece inútil, dado que se trata de um rei que se tornou santo, com tantos documentos a seu respeito, a ponto de ser considerado, ao lado de Frederico II, uma das grandes personalidades do século XIII. A resposta, portanto, seria afirmativa e facilmente respondida. Contudo, quando Le Goff lança mão de uma pergunta de tal ordem é pelo fato de, na época em que São Luís viveu, as pessoas terem, de acordo com Marcel Mauss, o sentido do eu, mas não terem ainda estabelecido o conceito de indivíduo. A consciência do eu traz como conseqüência a consciência do outro. Esta noção de alteridade desemboca no conceito de sociedade que é, ao mesmo tempo, o outro no qual se vive e constitui um grupo no qual se está incluído. Trata-se de Nós e Eles, em que o Eu está inserido e se contrapõe.

Com a finalidade de aprofundar as relações entre o indivíduo e a sociedade, Jacques Le Goff busca auxílio nas análises de Norbert Elias. A oposição entre indivíduo e sociedade, que é aceita como sendo da ordem da natureza, será profundamente modificada por Elias ao afirmar que seu estudo é o de uma sociedade dos indivíduos. A ênfase recai não mais na aparente separação imposta pela noção de indivíduo, mas na inter-relação entre esses mesmos indivíduos que constituem e são constituídos por uma sociedade. Elias concebe, portanto, o Eu em relação ao Nós: “Isso se expressa no conceito fundamental da balança nós-eu, o qual indica que a relação da identidade-eu com a identidade-nós do indivíduo não se estabelece de uma vez por todas, mas está sujeita a transformações muito específicas” (Elias, 1994, p. 9). Neste sentido, Le Goff tenta encontrar a sociedade no homem, portanto, mesmo que afirme estar empreendendo uma obra sobre o santo e não sobre o seu tempo, concebe que “o conhecimento da sociedade é necessário para ver nela se constituir e nela viver uma personagem individual” (Le Goff, 1999, p. 26).

Da mesma maneira como atacou a contraposição entre indivíduo e sociedade, Le Goff atacará a dicotomização da escrita histórica entre a narrativa e a estrutural. De maneira simples, afirma que todo tipo de história está pautada em acontecimentos. Mesmo nas abordagens que enfatizam as estruturas sociais, econômicas ou mesmo geográficas, não se pode abrir mão da narratividade. Esta dicotomização, no entanto, perde sentido quando Le Goff diz que a narratividade não se dá de maneira imediata, pois está intimamente ligada às “operações intelectuais e científicas” (Le Goff, 1999, p. 23). A narração de uma história é, portanto, fruto de análises das fontes.

Claude Papavero (2000) elabora um estudo das relações entre os eventos históricos e as estruturas que os sustentam nas obras de Lévi-Strauss, Clifford Geertz, Fernand Braudel e Marshall Sahlins. A princípio, espera-se que, na relação entre a antropologia e a história, a primeira enfatize os aspectos estruturais e a segunda, os eventos. Contudo, nem sempre é assim que acontece: no caso de Lévi-Strauss, essa regra é levada a termo dado seu interesse pelos elementos universais inconscientes; em Clifford Geertz ocorre a tendência a se evitar explicar os fatos através de elementos universais; em Marshall Sahlins temos a tentativa de abordar essa relação através de um caminho intermediário, quando utiliza a noção de estrutura da conjuntura; em Fernand Braudel, único historiador entre os autores apresentados por Papavero, temos a surpreendente ênfase no privilégio da longa duração, em detrimento dos eventos que são tidos como fugazes e que, ao desaparecerem, deixam poucos vestígios. Braudel afirma que “nada há mais importante, no centro da realidade social, do que essa viva e íntima oposição, infinitamente repetida, entre o instante e o tempo lento no decorrer” (Braudel, 1972, p. 10). A partir desta perspectiva, temos três modalidades de tempo: a curta duração (que trata dos eventos voláteis, entre os quais se encontram inseridas as biografias); a média duração (que aborda os acontecimentos econômicos e sociais); e a longa duração (que se pauta por questões geográficas e de estruturas mentais). As “prisões de longa duração” (idem, p. 21) teriam nas narrativas apenas a aparição do efêmero, daquilo que não tem importância.

A perspectiva de Le Goff é diversa da ênfase que Fernand Braudel confere à longa duração, dado que o tempo de uma vida se inscreve na curta duração. Diversidade, no entanto, não significa contraposição. A idéia de longa duração é cara para Le Goff, como podemos ver nestas duas passagens de sua ego-história: em primeiro lugar, ao analisar a importância da guerra mundial para as mudanças históricas, faz uma distinção entre os grandes acontecimentos e as estruturas que se pautam, respectivamente, pela curta e pela longa duração, na qual valoriza as estruturas “onde se jogam as verdadeiras evoluções, mesmo se as guerras, por vezes, as aceleram ou as atrasam” (Le Goff, 1989, p. 203); em segundo lugar, quando afirma que faz questão de ser um homem de seu tempo para melhor compreender o passado e diz que “as vedetas passarão, mas aqui também o longo trabalho da história profunda agirá, e para lá dos aproveitadores e dos manipuladores efêmeros dos media, a parte benéfica desses novos instrumentos de progresso inscrever-se-á na longa duração” (idem, p. 222). Desta forma, o que podemos apreender a partir dos estudos biográficos empreendidos por Le Goff é que os acontecimentos não podem ser valorizados ao extremo, pois criariam uma coerência narrativa tão forte que nos possibilitaria ler na trajetória de um dado indivíduo o seu destino ser pré-determinado; tampouco temos o abandono da perspectiva sincrônica, pois, como pudemos ver, São Francisco se apresenta aos olhos do historiador como um exemplo de homem tanto para o passado quanto para o presente.

Le Goff se apóia em dois autores com a finalidade de analisar a extrema coerência que se cria na narrativa biográfica: Jean-Claude Passeron e Pierre Bourdieu. Passeron, a exemplo de Le Goff, também afirma ser a biografia um material de cunho histórico, que, por vezes, é mais completo que qualquer outro. A completude de sentido que nos é dada no ato de ler uma biografia, ou seja, a sua inteligibilidade imediata, será o ponto a ser abordado por Passeron, pois considera que existe um “excesso de sentido e de coerência inerente a qualquer abordagem biográfica” (Passeron, 1995, p. 205 – grifo no original). A utopia biográfica faz com que todos os fatos sejam prenhes de sentido. Esta pertinência excessiva faz com que cada parte traga em si a compreensão da totalidade, sendo, portanto, a vida de uma determinada pessoa o acesso mais fácil para se compreender o mundo. O ser humano traria, guardada em sua história de vida, a história do mundo. O microcosmo seria o contendedor do macrocosmo. Esta fórmula, pertencente aos tempos da alquimia, estaria presente ainda nos relatos biográficos, tratando-se, enfim, da idéia do Homunculus mundus. O excesso de sentido, a coerência narrativa, o processo metonímico de conhecimento, diz-nos que “a narrativa biográfica, fascinada por seus próprios poderes de sugestão, é um alvo utópico exaustivo que baseia sua impressão de compreender na ilusão do imediato” (idem, p. 206).

As análises de Bourdieu (1986) inicialmente dizem respeito à seleção que se faz de acontecimentos significativos da vida de uma pessoa que, em conexão, ganham coerência. Desta maneira, teríamos, por parte do biógrafo, a criação artificial de sentido. Uma das maneiras mais simples e eficazes de se reafirmar, a todo o instante, essa coerência, é através da confirmação do nome próprio que ocupa diferentes lugares ao longo do tempo. A conseqüência imediata da abordagem empreendida por Bourdieu é que a história de vida se aproxima, desta forma, da história oficial, na qual o sujeito, através de uma carteira de identidade, de uma ficha que ateste seu estado civil, de um curriculum vitae etc, faça uma apresentação de si que passa a ser compreendida através de uma ilusão biográfica, dado que a trajetória empreendida por um determinado sujeito parece já estar traçada desde o início até o seu destino final, a exemplo de uma viagem no metrô.

Passeron abordará as biografias por um viés um pouco diferente, apesar de se utilizar, como já vimos, de uma expressão próxima da que Bourdieu empregou. Enquanto este chama a coerência narrativa de ilusão biográfica, Passeron a denominará de utopia biográfica. Contudo, Passeron, ao analisar a metáfora do metrô utilizada por Bourdieu, promoverá um afastamento entre as idéias dos dois autores. Enquanto Bourdieu enfatiza as pressões dos antecedentes sociais na trajetória de um dado indivíduo, Passeron vai além, ao propor “que a modelagem social das biografias não é esgotada pela ação das instituições, das normas ou das representações” (Passeron, 1995, p. 209), pois prefere analisar as próprias segmentações sociais e não as trajetórias individuais por elas modeladas. Le Goff, ao se apoiar nas análises empreendidas tanto por Passeron quanto por Bourdieu, evita cair na ilusão ou na utopia biográfica, ou seja, não se faz presa do excesso de coerência apresentado pelo relato biográfico, e nem analisa a trajetória de um indivíduo como o de um caminho que ruma inexoravelmente para o seu destino. Para Le Goff, o sujeito “constrói-se a si próprio e constrói sua época, tanto quanto é construído por ela. E essa construção é feita de acasos, de hesitações, de escolhas” (1999, p. 23). O determinismo social encontra-se, desta forma, em constante tensão com as hesitações e bifurcações empreendidas pelo indivíduo.

Nara Brito (1995), ao abordar a vida de Oswaldo Cruz, nos alerta para outro risco apresentado pelos relatos biográficos: a tendência a se dar um tratamento de herói e/ou santo à pessoa biografada. O motivo pelo qual se conta a história dos santos é o fato de nos servir como exemplo, ou seja, a hagiografia se caracteriza por ser uma história exemplar (cf. Augras, 2000). A vida dos santos é, em verdade, a história de uma vida que nos serve como modelo, mas que, ao ganhar contornos míticos, fica tão distante de nós que cria a impossibilidade de seguirmos o exemplo. A escrita biográfica, por sua vez, pelo seu excesso de coerência e pela criação de uma narrativa exemplar, confere cores vivas aos grandes feitos do biografado, enaltecendo sua figura a tal ponto que, geralmente, se esbarra em relatos que tendem ao místico e/ou ao heróico.

Esta tendência a se tratar o sujeito que é objeto de uma biografia como possuidor de dotes especiais já havia sido assinalada por Freud, em 1910, quando argumentava que a pessoa sobre quem se escolhe escrever é, na maioria das vezes, objeto de grande carga afetiva, fadada, portanto, a idealizações. O biógrafo, para Freud, deixa-se levar por mentiras, hipocrisias, ocultamentos, embelezamentos etc, tornando-se, enfim, um sujeito a quem não se deve dar muito crédito (cf. Gay, 1995). A santificação do personagem biografado é um dos temas de discussão constante, que Le Goff soube escapar com mestria, pois tanto Luís quanto Francisco são santos.



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