Clio-psyché subjetividade e história



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ABSTRACT




Louis Le Guillant: from Social Psychology to Psychopathology of work

In this article, we tried to present, in a reflexive way, elements of life and work of Louis Le Guillant. We understand that he raised issues, during the period that goes form the 40's to the 60's, which are still today extremely relevant in the filed of Psychiatric Reform and Psychopathology of work. First, we will describe his achievements as a psychiatrist, having as starting point an experience in a asylum during the Second World War. Afterwards, we will deal with his researches and proposals in the field of Psychopathology of work. In addition, we will highlight theoretical propositions that Le Guillant raised from each one of his initiatives, keeping in mind that his practices and theory may bring light to some problems we face nowadays.

Os textos que são considerados de fundação da Psicopatologia do Trabalho são de autoria de Paul Sivadon e de Louis Le Guillant. O primeiro publicou em 1952 um artigo intitulado “Psicopatologia do Trabalho”, considerada como um “(...) prolongamento direto da psiquiatria hospitalar, da ergoterapia e da readaptação(...)” (BILLIARD, 2001, p.178). No mesmo ano, Louis Le Guillant – psiquiatra francês, nascido em 26 de fevereiro de 1900 e morto em 08 de fevereiro de fevereiro de 1968 – publicou um artigo de nome “Psicologia do Trabalho”, e outro, em 1954, que chamou de “Introdução a uma Psicopatologia Social” (BILLIARD, 1996, p.69).

Pretendemos mostrar aqui que além desse feito, que já seria motivo para ele ser muito mais conhecido entre nós do que é, Le Guillant colocou questões na esfera da Saúde do Trabalhador e do que hoje chamamos de Reforma Psiquiátrica que permanecem ainda sem solução, de modo que visitar este autor pode lançar luz sobre tais problemas. No início da década de 1980, constituiu-se na França um grupo para estudar e fazer um levantamento de sua obra. Este grupo lançou um livro, intitulado “Quelle Psychiatrie Pour Notre Temps? Travaux et Écrits de Louis Le Guillant” (Que Psiquiatria para nosso Tempo? Trabalhos e Escritos de Louis Le Guillant), que infelizmente não teve tradução no Brasil.

Trazemos de início uma realização marcante de Le Guillant, durante a II Guerra Mundial, quando era diretor do hospital psiquiátrico de Charité-sur-Loire. Em 1940, frente ao risco de bombardeio pelos nazistas, Le Guillant decide liberar os pacientes que estivessem mais calmos e que tinham familiares na região, para que fossem buscar abrigo junto a estes. Aqueles que não foram liberados, aterrorizados com a possibilidade dos bombardeios, decidiram fugir e abandonaram o hospital. O resultado surge de modo surpreendente: terminada a Guerra, constata-se que grande parte deles consegue ótima adaptação, seja ficando bem em suas famílias, seja trabalhando em fazendas da região em troca de comida e abrigo. Le Guillant conclui então que eles não precisavam ficar internados e que melhor seria para eles a vida real, fora dos hospícios (BILLIARD, 2001, pp.101-2).

Estamos falando da década de 1940, quando começavam a surgir os primeiros movimentos da Psicoterapia Institucional que, embora de forma controversa, é considerada por alguns de seus expoentes como uma tentativa de melhorar o hospital psiquiátrico, e não de prescindir dele (CASTEL, 1978, p.53). Sabemos que os participantes deste movimento consideravam o hospital psiquiátrico como necessário apenas para preparar o doente para viver fora dele e não para que ele passasse ali o resto de sua vida. Tosquelles, por exemplo, chega a afirmar que o período de internação no hospital deve servir de escola de liberdade. Lembramos ainda que estas ações de Le Guillant ocorreram muito antes do movimento da Psiquiatria Democrática italiana, já que os trabalhos de Basaglia em Gorizia e Trieste ocorreram na década de 1960 e 70 (BARROS, 1994, p.75). Le Guillant não deixou de tirar conseqüências destes acontecimentos, que ele chamou de “(...) uma experiência de readaptação social instituída pelos eventos da guerra” (LE GUILLANT, apud BILLIARD, 1986, p.75).

A Guerra criou uma necessidade de encontrar mão de obra que pudesse substituir os que deixaram a produção para ir ao combate, assim como aqueles que sofreram lesões. Assim, foi necessário tentar adaptar ao trabalho pessoas como mulheres, idosos e doentes mentais. Com isto, a ergoterapia, que havia sido inventada por Herman Simon na década de 1920 na Alemanha e que propunha o trabalho aos pacientes como forma de terapia, passou a ser freqüentemente utilizada nos hospitais franceses (VERTZMAN; CAVALCANTI; SERPA JÚNIOR, 1992, p.20). Além da ergoterapia, a psicanálise também exerceu forte influência em alguns daqueles hospitais (DESVIAT, 1999, p.25). No entanto, Le Guillant vai recusar esta influência motivado, sobretudo, por sua relação com o marxismo e com o Parido Comunista francês, como veremos no decorrer deste texto.

Em 1943, Le Guillant torna-se membro do Conselho Técnico da Criança Deficiente e em 1944 é nomeado conselheiro técnico junto a François Billoux, ministro da saúde pública e membro do Partido Comunista. Não vamos aqui entrar nas proposições de Le Guillant sobre a criança, apontando, apenas, que a proximidade com Billoux, aliada ao seu interesse por Marx e o materialismo histórico, levaram-no a filiar-se ao Partido Comunista francês em 1947, ano em que o partido saiu do governo. Neste mesmo ano, Le Guillant assumiu a posição de médico chefe no hospital de Villejuif, em Paris, onde ficou até sua aposentadoria, em 1965. Ali fundou, em 1949, o Centro de Tratamento e Readaptação Social, o segundo da França, visto o primeiro ter sido fundado por Sivadon em 1947, em Ville-Evrard (BILLIARD, 2001, pp.268-9).

Em setembro de 1951, Henri Ey organiza o “Simpósio sobre a Psicoterapia Coletiva”, no qual defrontam-se as experiências de Tosquelles, Sivadon e Le Guillant. Apesar da riqueza e da importância dos dois primeiros, vamos nos ater as colocações do terceiro, para ficarmos nos limites a que este artigo se propõe.

No simpósio, Le Guillant critica o hospital psiquiátrico enquanto instituição de uma maneira geral e, em particular, a ergoterapia ali praticada. Quanto ao hospital, diz que a idéia de que ele possa ser terapêutico é um mito, visto que ele isola o paciente daquilo que poderia ter um real valor terapêutico, que são os grupos naturais aos quais o paciente pertence, ou seja, “(...) sua família e seus amigos, sua cidade e seu país, seu sindicato ou seu partido. É lá que é jogado e que sempre se jogará seu destino. É somente lá que ele deixará de ser alienado, e onde nossa ação deve se estender para lhe reintegrar” (LE GUILLANT, apud BILLIARD, 2001, p.113). Deste modo, mais do que tratar do hospital, como se propunha a Psicoterapia Institucional, Le Guillant falava de tratar o paciente, fora do hospital.

Le Guillant considera que as alterações psicopatológicas são a manifestação no indivíduo de conflitos que exprimem as contradições sociais. Em função dessa concepção sociogênica de doença mental, propõe uma “clínica nova” que privilegia, através de uma compreensão dialética da história do indivíduo, os eventos biográficos, as experiências concretas (BILLIARD, 2001, p.126), ou seja, o tratamento passa por trabalhar a história da pessoa em seu grupo social.

Quanto ao trabalho dos pacientes, Le Guilllant afirma que a ergoterapia só é eficaz ao se apoiar no trabalho tal qual ele existe na sociedade e que, dessa forma, deve ser remunerado. Assim, Le Guillant propõe que só é possível uma ergoterapia, isto é, que esta só tem valor de reeducação e readaptação, se ela busca aproximar o paciente do trabalho real e remunerado.

Estas proposições novamente antecipam a idéia de Empresa Social criada pela Psiquiatria Democrática italiana, que busca não produzir dentro de uma estrutura fechada do hospício, mas em sociedade, em lugares abertos (ROTELLI, 2000, p. 302) e que a partir de 1987 foi tomada como paradigmática para projetos de reabilitação de grupos sociais frágeis pela Comunidade Econômica Européia (BARROS, 1994, p.102).

Na verdade, pensar em limites e possibilidades de trabalho para pessoas com sofrimento mental traz uma série de questões que Le Guillant enfrentou em seu tempo e que permanecem ainda sem resposta. Podemos perguntar, por exemplo, se estas pessoas podem trabalhar como uma outra pessoa qualquer; se o trabalho para elas deve ser remunerado; se deve ser tomado como valor de terapia e por isso sua remuneração não teria a importância que teria para outra pessoa, ou se, ao contrário, a própria remuneração teria um valor terapêutico fundamental; qual seria a capacidade de reabilitação que o trabalho poderia exercer para pessoas que estão vivendo em circuitos de psiquiatrização por longas datas; se esta reabilitação deve ocorrer no mercado, com todos os problemas que o capitalismo coloca.

A Le Guillant não foi possível avançar ainda mais nessas questões, em parte porque na Europa se instalava um modelo de desenvolvimento dirigido pelo Plano Marshall, e que colocava os intelectuais comunistas em posição delicada. A influência econômica dos Estados Unidos em uma Europa parcialmente destruída pela Guerra trazia consigo uma visão a-histórica da sociedade, onde a Sociologia, a Psicologia e a Psiquiatria foram sendo dirigidas a uma função de vencer resistências aos modelos de produção exportados pelos americanos, e de adaptar os trabalhadores às mudanças técnicas. Os psiquiatras comunistas vão acirrar essa disputa afirmando uma concepção que defendia as teorias de Pavlov e que explorava suas aplicações no campo social (BILLIARD, 1986, p.79). Também a Psicanálise será por este grupo recusada como possibilidade de compreensão dos fenômenos humanos, por ser considerada por eles como uma ciência burguesa, conforme posição que vai ficar ainda mais firmemente marcada após a saída do Partido Comunista francês do governo em 1947, e que aparece mesmo dez anos mais tarde em um texto crítico à Psicanálise que Le Gulliant assinou com outros intelectuais comunistas (DORAY, 1996, p.134). Neste ambiente de disputa ideológica, em 1952 Le Guillant funda, juntamente com Henri Wallon, a revista “La Raison. Cahiers de Psychopathologie Scientifique” (A Razão. Cadernos de Psicopatologia Científica), que, inspirada nos princípios pavlovianos, procurava estudar os problemas de saúde articulando-os às condições de ligação entre o organismo e o meio (BILLIARD, 2001, p.270).

Le Guillant vai cada vez mais se dirigir aos mundos do trabalho, para situações que acontecem fora de instituições psiquiátricas, propondo idéias em dissonância com aquelas apregoadas pela Sociologia americana e pela Psicanálise, em um percurso em parte possibilitado por um movimento realizado pela Psiquiatria Social.

De fato, a Psiquiatria Social do fim da década de 1940 na França vai realizar uma reflexão sobre o lugar da Psiquiatria na sociedade. Desta maneira, não vai mais se restringir a um movimento de transformação dos hospitais psiquiátricos e à criação de estruturas extra-hospitalares para tratar de doentes mentais. Vai para a sociedade, preocupada em criar um ambiente de maior aceitação ao doente mental e em prevenir futuros problemas desta ordem. Volta-se para os grupos reais e para os mundos do trabalho real, aproximando-se de outras categorias profissionais e, em especial, aos médicos do trabalho (op. cit., p.139). Com isto, psiquiatras como Le Guillant, Bonnafé, Sivadon e Veil vão buscar conhecer, para denunciar e intervir, as condições de vida individuais e coletivas, supostamente capazes de provocar ou agravar problemas mentais. Quanto a Le Guillant, como psiquiatra comunista, mantinha proximidade com alguns sindicatos, o que vai aumentar seu interesse pelas condições de trabalho de algumas profissões e levantar problemas psicopatológicos que nelas se apresentam (op. cit., p.269). Assim, aproxima três campos de saberes distintos: mundo dos trabalhadores, Medicina do Trabalho e Psiquiatria, realizando um casamento pouco freqüente entre a consciência operária e a ciência dos doutores (DORAY, 1986, p.126). Este casamento, embora raro, parece-nos capaz de produzir bons frutos, como o que aconteceu muitos anos depois na década de 1960 com o Movimento Operário Italiano, que valorizou o saber dos trabalhadores juntamente com o conhecimento científico na compreensão da nocividade nas situações de trabalho, e que tem em Ivar Oddone seu representante mais ilustre (ODDONE; 1981).

Le Guillant, então, vai procurar desenvolver pesquisas no campo da Psicopatologia do Trabalho, sempre levando em consideração uma perspectiva sociogenética dos problemas mentais. Buscava estabelecer conexão entre os problemas psicopatológicos, as condições de existência e as situações vividas pelo doente. Desejava, assim, estabelecer verdadeiros nexos causais que ligassem fatos realmente vividos em um determinado ambiente a uma situação concreta de adoecimento. Assim, poderia realizar o que chamou de nova clínica, que levasse em consideração situações reais.

Essa compreensão psicopatológica seria embasada no materialismo dialético, que permitiria articular indivíduos e fatos sociais. No entanto, em decorrência de sua aproximação com o comunismo, Le Guillant acaba buscando uma adesão absoluta às teses pavlovianas, de modo que toda manifestação psicopatológica será entendida apenas como um reflexo do condicionamento social e das condições de trabalho (BILLIARD, 2001, p.206), de modo que o psiquismo nesta concepção não participa ativamente do processo dialético, ficando apenas em uma posição de passividade frente aos fatos sociais. Seus primeiros trabalhos de Psicopatologia do Trabalho terão essa marca, da qual somente se libertará mais tarde com uma aproximação à perspectiva fenomenológica.

Le Guillant vem a público em 1956, em um artigo intitulado “A Neurose das Telefonistas”, falar da pesquisa que realizou a respeito da profissão de telefonista com um grupo de Villejuif sob sua direção. No ano seguinte, publica em ,“As Condições de Vida e de Saúde”, um artigo intitulado “Algumas Notas Metodológicas a Propósito da Neurose das Telefonistas”, onde fala da conexão entre condições de vida e trabalho e problemas de saúde. Nesse texto, diz que a medicina freqüentemente se engana ao não considerar adequadamente aquela conexão (DORAY, 1986, pp.126-7).

No texto de 1956, descreve a “síndrome subjetiva comum da fadiga nervosa”, caracterizada por uma fadiga, levando a uma diminuição da capacidade de concentração no trabalho e uma influência negativa na vida pessoal pela repetição de gestos do trabalho fora do contexto laborativo. Descreve também os “problemas do humor e do caráter”, manifestando-se por grande nervosismo no trabalho e por impaciência com o marido e os filhos, além de, em um terço dos casos, aparecerem sintomas depressivos importantes. Evidencia também diversas alterações no sono, portanto fora da situação de trabalho, mas que acabam por levar a uma baixa no rendimento profissional, além de situações difíceis na vida pessoal. Por fim, Le Guillant relata uma série de problemas que mostrariam um sofrimento em decorrência das exigências das situações de trabalho, tais como palpitações, dores de cabeça, problemas gástricos, entre outros (op. cit.).

Le Guillant afirma que a síndrome acima descrita não seria exclusiva das telefonistas, mas, ao contrário, pode ser encontrada em pessoas em atividade de trabalho cujas condições sejam objetiva ou subjetivamente penosas ou, ainda, que exija um ritmo excessivamente rápido de operações. Mostrando ocupar um espaço que faz contato tanto com a medicina acadêmica quanto com o movimento operário, Le Guillant dá um nome que se utiliza de termos científicos (síndrome, alterações do sono) para descrever coisas com as expressões que as próprias telefonistas utilizam.

Na tentativa de estabelecer um rigor científico, e tomando como uma base orientação da ciência soviética, Le Guillant vai recorrer ao método dos reflexos condicionados de Pavlov. Se, por um lado, esta orientação teórica possibilitou-lhe atentar para as condições do meio de vida e de trabalho, por outro lado acabou por limitar suas possibilidades de análise, visto desconsiderar uma série de elementos que dizem respeito a questões da sexualidade, de gênero, entre outras. Posteriormente, com o refinamento da capacidade de observação e reflexão, somada a um gradual afastamento do Partido Comunista, Le Guillant vai utilizar-se de elementos da fenomenologia como ferramenta importante na compreensão psicopatológica.

Antes disso, ainda sob a orientação da reflexologia pavloviana, Le Guillant escreve em 1958 o prefácio à tese de Jean Bégoin, intitulada “O Trabalho e a Fadiga: a Neurose das Telefonistas e dos Mecanógrafos”. Bégoin e Le Guillant afirmam que a análise da fadiga deve considerar três planos: fisiológico, psicoafetivo e psicossocial, sempre tomando como ponto de partida o trabalho e as relações objetivas ali criadas entre o trabalhador e o mundo do seu trabalho. Embora considerem os três planos acima descritos, afirmam que os problemas de ordem individual simplesmente refletem o que vem das relações de trabalho no mundo objetivo (BILLIARD, 2001, p.210).

Neste texto, ao falar da necessidade da rapidez das operações das telefonistas, afirmam que é preciso que elas estejam enervadas para que o trabalho ocorra na velocidade necessária. Neste sentido, as doenças enfrentadas por elas seriam necessárias para o bom andamento do trabalho. Deste modo, já na década de 1950, Le Guillant levantava em suas pesquisas problemas na esfera da Psicopatologia do Trabalho ainda hoje tomados como verdadeiros, visto ser hoje admitido que os trabalhadores se implicam subjetivamente em seu trabalho e que na realização de tarefas repetitivas e rápidas surgem diversas desordens em seu funcionamento (DEJOURS, 1987, p.42).

Em 1963, Le Guillant publica “Incidentes Psicopatológicos da Condição da Empregada Doméstica”, tratando de um assunto que já havia anunciado em 1961 em uma conferência do grupo de “A Evolução Psiquiátrica”.

Interessa-se por esse assunto ao perceber o grande número de empregadas domésticas, originárias de uma região específica da França, entre as pessoas que se internavam em Villejuif. Nesse estudo, apesar de Le Guillant não abandonar sua adesão ao materialismo histórico e reafirmar que a sociogênese das doenças mentais é soberana sobre a psicogênese, utiliza-se de elementos da psicopatologia de Karl Jaspers, especificamente o que este chamava de compreensão simultaneamente fenomenológica e objetiva (BILLIARD, 2001, p.222).

Partindo da análise e das condições concretas de trabalho, Le Guillant vai evidenciar nesse estudo a relação de subordinação do trabalhador com relação a seu patrão. No caso específico das empregadas domésticas, essa subordinação será bastante marcante e será tomada como ponto fundamental na análise. No entanto, Le Guillant não deixa de vislumbrar que este é um elemento que tende a estar presente em toda relação trabalhador/patrão.

Le Guillant considera inicialmente as condições de trabalho das domésticas para entender o surgimento de seus sintomas. Essas condições as deixam sem horário que limite sua jornada, dormindo em quartos absolutamente desconfortáveis, com baixos salários. Soma-se a isto o fato de grande parte delas ser constituída de imigrantes. Essas condições formam uma “gestalt social” (op. cit., p.220) que traz consigo uma situação de humilhação capaz de gerar um intenso ressentimento. Esse ressentimento surge como um elemento novo na avaliação de Le Guillant, visto que ele considera que ele, subjetivo e não mais apenas objetivo como os elementos que apareciam em suas análises anteriores, é fundamental na formação de sintomas dessas mulheres. Vemos aqui mostras do uso de elementos teóricos que vão mais longe do que poderia alcançar apenas com as ferramentas teóricas de Pavlov. Le Guillant pontua que as análises subjetiva e objetiva em Psiquiatria não devem ser duas coisas distintas, mas que é fundamental considerá-los como dois aspectos indispensáveis em toda análise psicopatológica.

Aquele ressentimento se alimenta do fato daquela trabalhadora dirigir seu trabalho a alguém que não reconhece seu valor. Aqui vemos novamente a importância das descobertas de Le Guillant para a nascente Psicopatologia do Trabalho. Vemos também sua capacidade de descobrir coisas cuja validade ultrapassa seu tempo, visto que vamos encontrar nos trabalhos de Dejours que a necessidade do reconhecimento de seus feitos e sua capacidade é fundamental para a saúde mental do trabalhador (DEJOURS, 1998).

O ressentimento da doméstica, então, seria o ponto de partida para a formação de seus sintomas. Este ressentimento, fundado no ódio que sente por ver-se humilhada, produz nela mesma efeitos nefastos, visto que essa hostilidade transforma-se em uma grande culpa alimentada por uma ambivalência de sentimentos frente a seus patrões. Assim, apesar do ódio e do ressentimento, estas jovens vivem esses sentimentos de maneira conflituosa, visto não serem aceitos por sua formação moral e religiosa. Em decorrência disto, voltam-se contra elas mesmas na forma de sintomas. Para Le Guillant – utilizando-se de Hegel, através da dialética do senhor e do escravo, como outro elemento teórico para tentar compreender a Psicopatologia das empregadas domésticas –, é como se, apesar de todo sofrimento, não lhes fosse permitido ocupar um lugar que não o da submissão frente aos patrões. Le Guillant conclui dizendo que compreender como a passagem da vivência de uma dada situação leva a uma determinada alteração psicopatológica é a difícil tarefa a que se presta a Psiquiatria.

Em 1964, apresenta na Faculdade de Medicina de Paris as “Reflexões sobre uma Condição de Trabalho Particularmente Penosa dos Agentes de Condução de Locomotivas de Grande Velocidade: a V.A.C.M.A.(Vigília Automática de Controle de Manutenção de Apoio)”, uma pesquisa encomendada pelos próprios trabalhadores, que diziam estar entrando em um estado de grande sofrimento devido ao início do funcionamento da V.A.C.M.A.. Este era um mecanismo que obrigava os condutores a acionar um dispositivo a cada cinqüenta e cinco segundos, e, caso não o fizesse, soava uma estridente campainha. Além disto, este dispositivo permitia que a locomotiva fosse operada por apenas uma pessoa, o que levaria ao desemprego os segundos condutores. Os trabalhadores alegavam que isto para eles seria a gota d’água, pois trabalhavam em condições absolutamente insalubres, com altas temperaturas, espaço limitado, intensos ruídos, irregularidade de horários, que levavam à impossibilidade de ter sono regular, trazendo uma série de alterações fisiológicas. Do ponto de vista psíquico, queixavam-se de solidão e graves problemas familiares, além da quase inexistência de amigos (op. cit., pp. 216-7).

Le Guillant tenta inicialmente utilizar o mesmo método de análise da pesquisa das telefonistas. Logo em seguida, ao reconhecer os diversos níveis de complexidade que o problema dos condutores apresentava, reconhece que aquele método não daria conta neste contexto. Posteriormente vai declarar ser praticamente impossível demonstrar rigorosamente o caráter penoso e nocivo dessa condição de trabalho, apesar de tal condição ser absolutamente inegável.

Frente a essa dificuldade, Le Guillant recorre novamente à análise fenomenológica, utilizando a noção de gestalt, entendida aqui como “(...) configuração global da experiência” (op. cit., p.217). Essa noção de gestalt vem no sentido de tentar compreender uma profissão em sua globalidade, entendendo todos os aspectos intrínsecos a um determinado posto de trabalho e contrapondo-o aos outros postos e às outras profissões. No caso específico dos condutores, trataria então, por um lado, de compreender todas as operações deste profissional e todas as condições nas quais esta profissão se exerce, conforme citamos acima. Por outro lado, trataria de compreender que lugar essa profissão ocupa na sociedade e, por conseguinte, o reconhecimento que ela recebe. Assim, Le Guillant aponta neste trabalho mais uma vez para a abertura de um caminho para a compreensão de problemas na Psicopatologia do Trabalho.

Esse artigo realizou apenas um sobrevôo na obra desse genial pesquisador. Não pretendemos, nesta primeira aproximação, nos aprofundar em nenhum dos diversos problemas que ele aponta. Infelizmente, sua morte em 1968 interrompeu o progresso de suas pesquisas, que ficaram como herança e como porta de entrada tanto para a Reforma Psiquiátrica, quanto para a Psicopatologia do Trabalho. Cabe-nos, doravante, enfrentar os desafios frente aos quais Le Guillant não recuou, e avançar frente aos problemas que hoje nos instigam.
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A CIÊNCIA FREUDIANA CONFRONTADA PELO ESPÍRITO MODERNISTA: UMA HISTÓRIA CONTADA

A PARTIR DA GUERRA
Bruno Leal Farah

RESUMO
Considerando a ambivalência presente no pensamento freudianao a partir de 1920, com a segunda teoria pulsional, um desacordo entre o lógico e o empírico, o autor mostra a inserção da psicanálise no contexto do movimento modernista e do novo espírito científico, com os quais se desfaz o privilegiamento de um único ponto de vista para acesso ao real, todas as perspectivas sendo legítimas para o acesso ao conhecimento. A partir de Desilusão da guerra, de 1915, Freud marca um distanciamento dos ideais da modernidade, agregando ao seu arsenal teórico críticas mais diretas à ideologia moderna.

ABSTRACT
Freud, the modern science and the modernist irony
Based on the ambivalence arising from the second Freudian pulsional theory as of 1920, consisting of a conflict between logic and empiricism, references are made on the theme of psychoanalysis in the context of the modernism, and its deterring the one and only key to the real as the attitude detrimental to an universal and right way to knowledge and wisdom. Starting in Reflections on War and Death in 1915, Freud presents new critics to the modernism.

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