Coleção trans gilles Deleuze Félix Guattari



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coleção TRANS
Gilles Deleuze Félix Guattari
MIL PLATÔS

Capitalismo e Esquizofrenia


Vol. 2
Coordenação da tradução Ana Lúcia de Oliveira

Editora 34 Ltda. - Rua Hungria, 592 Jardim Europa CEP 01455-000

São Paulo - SP Brasil Tel/Fax (011) 816-6777
Copyright © Editora 34 Ltda. (edição brasileira), 1995

Mille plateaux © Les Éditions de Minuit, Paris, 1980
A FOTOCÓPIA DE QUALQUER FOLHA DESTE LIVRO É ILEGAL, E CONFIGURA UMA APROPRIAÇÃO INDEVIDA DOS DIREITOS INTELECTUAIS E PATRIMONIAIS DO AUTOR.
Título original: Mille plateaux - Capitalisme et schizophrénie
Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica: Bracher & Malta Produção Gráfica

Revisão técnica: Luiz Orlandi Revisão: Leny Cordeiro

1.a Edição - 1995, 1.a Reimpressão - 1997
CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Deleuze, Gilles, 1925- 1995

D39m Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia / Gilles

Deleuze, Félix Guattari; tradução de Ana Lúcia de Oliveira e

Lúcia Cláudia Leão. — Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995 (Coleção TRANS)
Tradução de : Mille plateaux - capitalisme et schizophrénie
ISBN 85-85490-65-9
1. Psiquiatria social. 2. Esquizofrenia - Aspectos sociais.

3. Capitalismo - Aspectos sociais. 4. Psicopatologia. I. Guattari, Félix, 1930-1992.

II. Título. III. Título: Capitalismo e esquizofrenia. IV. Série.
CDD- 194

95-0595 CDU - 1(44)

Das abas do livro:
Dizem que não existe livro que traduza 68: isso é falso! Esse livro é Mil platôs. Mil platôs é o materialismo histórico em ato de nossa época.

Contrastando radicalmente com certa deriva atual, os Mil platôs reinventam as ciências do espírito (deixando bem claro que, na tradição em que se situam Deleuze e Guattari, geist é o cérebro), renovando o ponto de vista da historicidade, em sua dimensão ontológica e constitutiva. Os Mil platôs precedem o pós-moderno e as teorias de hermenêutica fraca: antecipam uma nova teoria da expressão, um novo ponto de vista ontológico — instrumento graças ao qual se encontram em posição de combater a pós-modernidade, desvelando e dinamitando suas estruturas.

Trata-se aqui de um pensamento forte, mesmo quando se aplica ã "fraqueza" do cotidiano. Quanto ao seu projeto, trata-se de apreender o criado, do ponto de vista da criação. Esse projeto não tem nada de idealista: a força criadora é um rizoma material, ao mesmo tempo máquina e espírito, natureza e indivíduo, singularidade e multiplicidade — e o palco é a história, de 10.000 a.C. aos dias de hoje. O moderno e o pós-moderno são ruminados e digeridos, e reaparecem contribuindo para fertilizar abundantemente uma hermenêutica do porvir. Relendo os Mil platôs anos mais tarde, o que é mais impressionante é a incrível capacidade de antecipação que aí se exprime. O desenvolvimento da informática e da automação, os novos fenômenos da sociedade mediática e da interação comunicacional, as novas vias percorridas pelas ciências naturais e pela tecnologia científica, em eletrônica, biologia, ecologia, etc, são apenas previstos, mas já levados em conta como horizonte epistemológico, e não como simples tecido fenomenológico sofrendo uma extraordinária aceleração. Mas a superfície do quadro no qual se desenrola a dramaturgia do futuro é, na verdade, ontológica — uma superfície dura e irredutível, precisamente ontológica e não transcendental, constitutiva e. não sistêmica, criativa e não liberal.

Se toda filosofia assume e determina sua própria fenomenologia, uma nova fenomenologia se afirma aqui com força. Ela se caracteriza pelo processo que remete o mundo à produção, a produção à subjetividade, a subjetividade à potência do desejo, a potência do desejo ao sistema de enunciação, a enunciação à expressão. E vice-versa. E no interior da linha traçada a partir do "vice-versa", quer dizer, indo da expressão subjetiva à superfície do mundo, ã historicidade em ato, que se revela o sentido do processo (ou ainda a única ideologia que a imanência absoluta pode se permitir): o sentido do processo é o da abstração. O sujeito que produz o mundo, na horizontalidade ampliada de suas projeções, efetua ele mesmo, cada vez mais, sua própria realização. A primeira vista, o horizonte do mundo construído por Deleuze-Guattari parece animista: mas muito rapidamente se vê que esse animismo traduz a mais alta abstração, o processo incessante dos agenciamentos maquínicos e das subjetividades se elevando a uma abstração cada vez mais alta.

Nesse mundo de cavernas, de dobras, de rupturas, de reconstruções, o cérebro humano se dedica a compreender, antes de mais nada, sua própria transformação, seu próprio deslocamento, para além da conflitualidade, nesse lugar em que reina a mais alta abstração. Mas essa abstração é novamente desejo.
Antônio Negri
Este livro foi publicado com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da França.

MIL PLATÔS Capitalismo e Esquizofrenia


Vol. 2

11

4. 20 de Novembro de 1923 - Postulados da Lingüística (Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão)



50

5. 587 a.C. - 70 d.C. - Sobre Alguns Regimes de Signos



(Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão)

92


índice Geral dos Volumes
NOTA DOS AUTORES:
Esse livro é a continuação e o fim de Capitalismo e Esquizofrenia, cujo primeiro tomo é O anti-Édipo.

Não é composto de capítulos, mas de "platôs". Tentamos explicar mais adiante o porquê (e também por que os textos são datados). Em uma certa medida, esses platôs podem ser lidos independentemente uns dos outros, exceto a conclusão, que só deveria ser lida no final.

Já foram publicados: "Rizoma" (Ed. de Minuit, 1976); "Um só ou vários lobos" (revista Minuit, n° 5); "Como produzir um corpo sem órgãos" (Minuit, n" 10). Eles são aqui republicados com modificações.

NOTA DO EDITOR:

Esta edição brasileira de Mil platôs, dividindo a obra original em cinco volumes, foi organizada com o acordo dos autores e da editora francesa (Ed. de Minuit).
4.

20 DE NOVEMBRO DE 1923 - POSTULADOS DA LINGÜÍSTICA





Agenciamento da palavra de ordem
I. A Linguagem Seria Informativa e Comunicativa
A professora não se questiona quando interroga um aluno, assim como não se questiona quando ensina uma regra de gramática ou de cálculo. Ela "ensigna", dá ordens, comanda. Os mandamentos do professor não são exteriores nem se acrescentam ao que ele nos ensina. Não provêm de significações primeiras, não são a conseqüência de informações: a ordem se apóia sempre, e desde o início, em ordens, por isso é redundância. A máquina do ensino obrigatório não comunica informações, mas impõe à criança coordenadas semióticas com todas as bases duais da gramática (masculino-feminino, singular-plural, substantivo-verbo, sujeito do enunciado-sujeito de enunciação etc). A unidade elementar da linguagem — o enunciado — é a palavra de ordem. Mais do que o senso comum, faculdade que centralizaria as informações, é preciso definir uma faculdade abominável que consiste em emitir, receber e transmitir as palavras de ordem. A linguagem não é mesmo feita para que se acredite nela, mas para obedecer e fazer obedecer. "A baronesa não tem a mínima intenção de me convencer de sua boa fé, ela me indica simplesmente aquilo que prefere me ver fingir admitir1". Isso pode ser percebido nos informes da polícia ou do governo, que pouco se preocupam com a verossimilhança ou com a veracidade, mas que definem muito bem o que deve ser observado e guardado. A indiferença dos comunicados em relação a qualquer credibilidade freqüentemente beira a provocação. O que prova que se trata de uma outra coisa. Mas deixemos bem claro: a linguagem não exige mais do que isso. Spengler observa que as formas fundamentais da fala não são o enunciado de um juízo nem a expressão de um sentimento, mas "o comando, o testemunho de obediência, a asserção, a pergunta, a afirmação ou a negação", frases muito curtas que comandam a vida e que são inseparáveis dos empreendimentos ou das grandes realizações: "Pronto?", "Sim", "Vamos2".

1 Georges Darien, L’épaulette, 10-18, p.435. Ou Zola, La bete bumaine, Gallimard, p.188: "E ela dizia isso, não para convencê-lo, mas unicamente para adverti-lo de que ela devia ser inocente aos olhos dos outros". Esse tipo de frase nos parece característico do romance em geral, muito mais do que a frase informativa "a marquesa saiu às cinco horas".

2 Spengler, L’homme et la technique, Gallimard, Idées, p.103.
As palavras não são ferramentas; mas damos às crianças linguagem, canetas e cadernos, assim como damos pás e picaretas aos operários. Uma regra de gramática é um marcador de poder, antes de ser um marcador sintático. A ordem não se relaciona com significações prévias, nem com uma organização prévia de unidades distintivas, mas sim o inverso. A informação é apenas o mínimo estritamente necessário para a emissão, transmissão e observação das ordens consideradas como comandos. É preciso estar suficientemente informado para não confundir Au feu! (Fogo!) com Au jeu! (Jogo!), ou para evitar a situação deveras desagradável do professor e do aluno segundo Lewis Carroll (o professor lança uma questão do alto da escadaria, transmitida pelos valetes que a deformam a cada degrau, ao passo que o aluno, embaixo, no pátio, envia uma resposta, ela mesma deformada, a cada etapa da subida). A linguagem não é a vida, ela dá ordens à vida; a vida não fala, ela escuta e aguarda3. Em toda palavra de ordem, mesmo de um pai a seu filho, há uma pequena sentença de morte — um Veredito, dizia Kafka. O difícil é precisar o estatuto e a extensão da palavra de ordem. Não se trata de uma origem da linguagem, já que a palavra de ordem é apenas uma função-linguagem, uma função coextensiva à linguagem. Se a linguagem parece sempre supor a linguagem, se não se pode fixar um ponto de partida não-lingüístico, é porque a linguagem não é estabelecida entre algo visto (ou sentido) e algo dito, mas vai sempre de um dizer a um dizer. Não acreditamos, a esse respeito, que a narrativa consista em comunicar o que se viu, mas em transmitir o que se ouviu, o que um outro disse. Ouvir dizer. Nem mesmo basta evocar uma visão deformante vinda da paixão. A "primeira" linguagem, ou, antes, a primeira determinação que preenche a linguagem, não é o tropo ou a metáfora, é o discurso indireto. A importância que se quis dar à metáfora, à metonímia, revela-se desastrosa para o estudo da linguagem. Metáforas e metonímias são apenas efeitos que só pertencem à linguagem quando já supõem o discurso indireto. Existem muitas paixões em uma paixão, e todos os tipos de voz em uma voz, todo um rumor, glossolalia: isto porque todo discurso é indireto, e a translação própria à linguagem é a do discurso indireto. Benveniste nega que a abelha tenha uma linguagem, ainda que disponha de uma codificação orgânica, e até mesmo se utilize de tropos. Ela não tem linguagem porque é capaz de comunicar o que viu, mas não de transmitir o que lhe foi comunicado. A abelha que percebeu um alimento pode comunicar a mensagem àquelas que não o perceberam; mas a que não o percebeu não pode transmiti-lo às outras que igualmente não o perceberam5. A linguagem não se contenta em ir de um primeiro a um segundo, de alguém que viu a alguém que não viu, mas vai necessariamente de um segundo a um terceiro, não tendo, nenhum deles, visto. É nesse sentido que a linguagem é transmissão de palavra funcionando como palavra de ordem, e não comunicação de um signo como informação. A linguagem é um mapa e não um decalque. Mas em quê a palavra de ordem é uma função coextensiva à linguagem, visto que a ordem, o comando, parecem remeter a um tipo restrito de proposições explícitas marcadas pelo imperativo?

3 Brice Parain, Sur la dialectique, Gallimard. Parain desenvolve uma teoria da "suposição" ou do pressuposto na linguagem, relacionada a essas ordens dadas à vida: mas vê, nestas, menos um poder no sentido político do que um dever no sentido moral.

4 Dois autores sobretudo destacaram a importância do discurso indireto, especialmente na forma dita "livre", do ponto de vista de uma teoria da enunciação que vai além das categorias lingüísticas tradicionais: Mikhail Bakhtin (para o russo, o alemão e o francês), Le marxisme et Ia philosophie du langage, Ed. de Minuit, parte III; P.P. Pasolini (para o italiano), L’expérience héretique, Payot, 1.a parte. Utilizamo-nos também de um estudo inédito de J.-P. Bamberger sobre "Les formes du discouirs indirect dans le cinema muet et parlam".

5 Emile Benveniste, Problèmes de linguistique génerale, Gallimard, p.61: "Não se constatou que uma abelha vá, por exemplo, levar para uma outra colméia a mensagem que recebeu na sua, o que seria uma maneira de transmissão ou de alternância."
As célebres teses de Austin mostram que não existem, entre a ação e a fala, apenas relações extrínsecas diversas, de forma que um enunciado possa descrever uma ação no modo indicativo, ou antes provocá-la em um modo imperativo, etc. Existem também relações intrínsecas entre a fala e determinadas ações que se realizam quando estas são ditas (o performativo: juro ao dizer "eu juro"), e mais geralmente entre a fala e determinadas ações que se realizam quando falamos (o ilocutório: interrogo dizendo "será que...?", prometo dizendo "eu te amo...", ordeno empregando o imperativo... etc). São esses atos, interiores à fala, essas relações imanentes dos enunciados com os atos, que foram chamados de pressupostos implícitos ou não discursivos, diferenciando-se das suposições sempre explicitáveis nas quais um enunciado remete a outros enunciados ou, antes, a uma ação exterior (Ducrot). O destaque da esfera do performativo, e da esfera mais vasta do ilocutório, apresentava três importantes conseqüências: 1) A impossibilidade de conceber a linguagem como um código, visto que este é a condição que torna possível uma explicação; e a impossibilidade de conceber a fala como a comunicação de uma informação: ordenar, interrogar, prometer, afirmar, não é informar um comando, uma dúvida, um compromisso, uma asserção, mas efetuar esses atos específicos imanentes, necessariamente implícitos; 2) A impossibilidade de definir uma semântica, uma sintaxe ou mesmo uma fonemática, como zonas científicas de linguagem que seriam independentes da pragmática; a pragmática deixa de ser uma "cloaca", as determinações pragmáticas deixam de estar submetidas à alternativa: ou se voltar para o exterior da linguagem, ou responder a condições explícitas sob as quais elas são sintaxizadas e semantizadas; a pragmática se torna, ao contrário, o pressuposto de todas as outras dimensões, e se insinua por toda parte; 3) A impossibilidade de manter a distinção língua-fala, visto que a fala não pode mais ser definida pela simples utilização individual e extrínseca de uma significação primeira, ou pela aplicação variável de uma sintaxe prévia: ao contrário, são o sentido e a sintaxe da língua que não se deixam definir independentemente dos atos de fala que ela pressupõe6.

6 William Labov apontou a contradição, ou pelo menos o paradoxo, no qual desembocava a distinção língua-fala: define-se a língua como "a parte social" da linguagem, remete-se a fala às variações individuais; mas estando a parte social fechada sobre si mesma, disso resulta necessariamente que um único indivíduo testemunhará em direito pela língua, independentemente de qualquer dado exterior, ao passo que a fala só será descoberta em um contexto social. De Saussure a Chomsky, é o mesmo paradoxo: "O aspecto social da linguagem se deixa estudar na intimidade de um gabinete, ao passo que seu aspecto individual exige uma pesquisa no interior da comunidade" (Sociolinguistique, Ed. de Minuit, p.259 sq., 361 sq.).
É verdade que ainda não se consegue compreender bem como é possível fazer, dos atos de fala ou pressupostos implícitos, uma função coextensiva à linguagem. Compreende-se menos ainda tal operação se partimos do performativo (o que é feito quando "o" falamos) para ir, por extensão, até o ilocutório (o que é feito quando falamos). Pois pode-se sempre evitar essa extensão e encerrar o performativo nele mesmo, explicando-o por caracteres semânticos e sintáticos particulares que evitam qualquer recurso a uma pragmática generalizada. Assim, segundo Benveniste, o performativo não remete a atos, mas, ao contrário, à propriedade de termos sui-referenciais (os verdadeiros pronomes pessoais EU, TU..., definidos como embreantes): de tal modo que uma estrutura de subjetividade, de intersubjetividade prévia na linguagem, dê conta suficientemente dos atos de fala, ao invés de pressupô-los7. A linguagem é então definida aqui como comunicativa mais do que como informativa, e é essa intersubjetividade, essa subjetivação propriamente lingüística, que explica o resto, isto é, tudo aquilo que fazemos existir ao dizê-"lo". Mas a questão é a de saber se a comunicação subjetiva é uma noção lingüística melhor do que a de in formação ideal. Oswald Ducrot expôs as razões que o levaram a inverter o esquema de Benveniste: não é o fenômeno de sui-referência que pode dar conta do performativo, mas o inverso, é "o fato de determinados enunciados serem socialmente consagrados à realização de determinadas ações" que explica a sui-referência. De modo que o próprio performativo é explicado pelo ilocutório, e não o contrário. É o ilocutório que constitui os pressupostos implícitos ou não-discursivos. E o ilocutório, por sua vez, é explicado por agenciamentos coletivos de enunciação, por atos jurídicos, equivalentes de atos jurídicos, que coordenam os processos de subjetivação ou as atribuições de sujeitos na língua, e que não dependem nem um pouco dela. A comunicação não é um conceito melhor do que o de informação, nem a intersubjetividade vale mais do que a significância para esclarecer esses agenciamentos "enunciados-atos" que medem, em cada língua, o papel e a participação dos morfemas subjetivos8. (Veremos que a análise do discurso indireto confirma esse ponto de vista, já que nele as subjetivações não são primeiras, mas derivam de um agenciamento complexo.)

7 Benveniste, Problèmes de linguistique générale (parte V): sobre a eliminação do ilocutório, cf. p.274 sq.

8 Oswald Ducrot, Dire et ne pas dire, Hermann, p.70-80 (e "De Saussure à Ia philosophie du langage", prefácio a Actes de langage, J.R. Searle, Hermann). Ducrot questiona as noções de informação e de código, de comunicação e de subjetividade lingüísticas. Elabora uma teoria da "pressuposição lingüística" ou do implícito não-discursivo, em oposição ao implícito discursivo e concluído que se refere ainda a um código. Constrói uma pragmática que penetra toda a lingüística, e tende para um estudo dos agenciamentos de enunciação, considerados de um ponto de vista "jurídico", "polêmico" ou "político".
Chamamos palavras de ordem não uma categoria particular de enunciados explícitos (por exemplo, no imperativo), mas a relação de qualquer palavra ou de qualquer enunciado com pressupostos implícitos, ou seja, com atos de fala que se realizam no enunciado, e que podem se realizar apenas nele. As palavras de ordem não remetem, então, somente aos comandos, mas a todos os atos que estão ligados aos enunciados por uma "obrigação social". Não existe enunciado que não apresente esse vínculo, direta ou indiretamente. Uma pergunta, uma promessa, são palavras de ordem. A linguagem só pode ser definida pelo conjunto das palavras de ordem, pressupostos implícitos ou atos de fala que percorrem uma língua em um dado momento.

A relação entre o enunciado e o ato é interior, imanente, mas não existe identidade. A relação é, antes, de redundância. A palavra de ordem é, em si mesma, redundância do ato e do enunciado. Os jornais, as notícias, procedem por redundância, pelo fato de nos dizerem o que é "necessário" pensar, reter, esperar, etc. A linguagem não é informativa nem comunicativa, não é comunicação de informação, mas — o que é bastante diferente — transmissão de palavras de ordem, seja de um enunciado a um outro, seja no interior de cada enunciado, uma vez que um enunciado realiza um ato e que o ato se realiza no enunciado. O esquema mais geral da informática admite, em princípio, uma informação máxima ideal, e faz da redundância uma simples condição limitativa que diminui este máximo teórico para impedir que seja encoberto pelo ruído. Dizemos, ao contrário, que aquilo que é primeiro é a redundância da palavra de ordem, e que a informação é apenas a condição mínima para a transmissão das palavras de ordem (é por isso que não há como opor o ruído à informação, mas, antes, opor todas as indisciplinas que trabalham a linguagem, à palavra de ordem como disciplina ou "gramaticalidade"). A redundância tem duas formas, freqüência e ressonância, a primeira concernente à significância da informação, a segunda (EU = EU) concernente à subjetividade da comunicação. Mas o que surge desse ponto de vista é justamente a subordinação da informação e da comunicação, ou, mais ainda, da significância e da subjetivação, em relação à redundância. Ocorre que informação e comunicação se separam; e, igualmente, que se destacam uma significância abstrata da informação e uma subjetivação abstrata da comunicação. Mas nada disso nos dá uma forma primária ou implícita da linguagem. Não existe significância independente das significações dominantes nem subjetivação independente de uma ordem estabelecida de sujeição. Ambas dependem da natureza e da transmissão das palavras de ordem em um campo social dado.

Não existe enunciação individual nem mesmo sujeito de enunciação. Entretanto, existem relativamente poucos lingüistas que tenham analisado o caráter necessariamente social da enunciação9.

9 Bakhtine e Labov insistiram, de duas maneiras diferentes, no caráter social da enunciação. Dessa forma, eles se opõem não apenas ao subjetivismo, mas ao estruturalismo, dado que este remete o sistema da língua à compreensão de um indivíduo de direito, e os fatores sociais, aos indivíduos de fato enquanto falantes.
É porque esse caráter não é suficiente por ele mesmo, e pode, ainda, ser extrínseco: assim, ou se fala demais ou muito pouco sobre ele. O caráter social da enunciação só é intrinsicamente fundado se chegamos a mostrar como a enunciação remete, por si mesma, aos agenciamentos coletivos. Assim, compreende-se que só há individuação do enunciado, e da subjetivação da enunciação, quando o agenciamento coletivo impessoal o exige e o determina. Esse é precisamente o valor exemplar do discurso indireto, e sobretudo do discurso indireto "livre": não há contornos distintivos nítidos, não há, antes de tudo, inserção de enunciados diferentemente individuados, nem encaixe de sujeitos de enunciação diversos, mas um agenciamento coletivo que irá determinar como sua conseqüência os processos relativos de subjetivação, as atribuições de individualidade e suas distribuições moventes no discurso. Não é a distinção dos sujeitos que explica o discurso indireto; é o agenciamento, tal como surge livremente nesses discursos, que explica todas as vozes presentes em uma voz, as risadas de meninas em um monólogo de Charlus, as línguas em uma língua, em suma, as palavras de ordem. O assassino americano "Son of Sam" matava sob o impulso de uma voz ancestral, mas que passava, ela mesma, pela voz de um cão. É a noção de agenciamento coletivo de enunciação que se torna a mais importante, já que deve dar conta do caráter social. Ora, podemos, sem dúvida, definir o agenciamento coletivo pelo complexo redundante do ato e do enunciado que o efetua necessariamente. Mas temos aí apenas uma definição nominal; e não estamos nem mesmo em condições de justificar nossa posição precedente segundo a qual a redundância não se reduz a uma simples identidade (ou segundo a qual não há simples identidade do enunciado e do ato). Se se quer passar a uma definição real do agenciamento coletivo, perguntar-se-á em que consistem os atos imanentes à linguagem, atos que estão em redundância com os enunciados ou criam palavras de ordem.

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