Colonialismo interno (uma redefinição)



Baixar 110.7 Kb.
Página3/6
Encontro29.07.2016
Tamanho110.7 Kb.
1   2   3   4   5   6

A noção de etnia ligada à revolução de todo o povo e ao poder de um Estado que reconheça sua autonomia é a solução que encontrou o governo revolucionário da Nicarágua finalmente derrotado pela “contra” e pelas rendições de muitos de seus dirigentes. Em 1987 foi promulgada na Nicarágua uma nova Constituição que no artigo 90 incluiu os direitos das etnias à “autonomia regional”. O conceito de autonomia e sua formulação jurídica conseguiram precisar com toda clareza a diferença entre “autonomia regional” e soberania do Estado-nação. Para fortalecer o Estado-nação e respeitar a identidade e os direitos das etnias buscou-se resolver por sua vez o “problema étnico-nacional” (Díaz Polanco, 1987: 95-116). Se “reconheceu a especificidade lingüística, cultural e sócio-econômica das etnias ou minorias nacionais” as quais com freqüência tratam de ganhar para si a contra revolução e o imperialismo (Díaz Polanco e López y Rivas, 1986). Não se conseguiu, no entanto, vincular suficientemente as lutas das etnias com as das demais forças democráticas e libertadoras. A tendência a expor a luta pela “autonomia” dos povos indígenas sem vinculá-las às lutas pelas autonomias dos municípios, e das organizações de povos, trabalhadores e cidadãos, faria desse esforço um exemplo que somente seria superado pelo movimento de libertação da Guatemala e, sobretudo, pelos zapatistas do México. Frente ao “indigenismo marxista que não contemplou nenhuma reivindicação étnica” (Saladino García, 1983: 35) ou frente ao que pretendeu obscurecer a luta de classes com as lutas das etnias, desde a década de oitenta os revolucionários centro americanos, em particular os da Nicarágua e Guatemala esclareceram consideravelmente a dialética real da dupla luta.

Para nós [diz um texto guatemalteco] o caminho do triunfo da revolução entrelaça a luta do povo em geral contra a exploração de classe e contra a dominação do imperialismo ianque, com a luta pelos direitos dos grupos étnico-culturais que conformam nosso povo, complementando-os de maneira dialética e sem produzir antagonismos (“Los pueblos indígenas y la revolución guatemalteca”, 1982).




Conceitos da luta e dos espaços da luta

À presença do colonialismo interno no conceito da luta de classes e pela libertação nacional acrescenta-se a dos espaços da luta de classes e da libertação nacional. Se em um caso o colonialismo interno enriquece a compreensão e a ação das lutas dos trabalhadores e dos povos oprimidos, em outros coloca o problema das diferenças e semelhanças dos campos de luta que não somente interessam aos trabalhadores ou aos povos oprimidos, mas a todas as forças ocupadas em construir um mundo alternativo a partir do local até o global, a partir do particular até ao universal. A diferença entre precisar a luta e os campos de luta esclarece-se a partir de alguns textos de José Carlos Mariátegui, Antonio Gramsci e Henri Lefebvre.

José Carlos Mariátegui (1894-1930), fundador do Partido Socialista do Peru, que pertenceu à Terceira Internacional, colocou os povos indígenas no centro da problemática nacional. A originalidade de sua reflexão e a dificuldade de reconhecê-la percebe-se melhor se se coloca o problema das etnias entre os problemas centrais da humanidade. A idéia resulta politicamente chocante e epistemologicamente desdenhável. Para a maior parte das forças dominantes no Peru e no mundo os problemas dos índios, das minorias, das etnias são problemas “particularistas”, não universais. A concepção sobre o tema de Mariátegui pouco tem a ver com boa parte da esquerda de ontem e de hoje para as quais os índios e as etnias submetidas “não são vistas”, não existem como atores nem na problemática da luta de classes nem na luta nacional contra o imperialismo, nem no projeto de uma revolução democrática e socialista. Para este autor, é impossível que uma política no Peru não tenha como principal referente os povos indígenas. Se generalizarmos sua reflexão, Mariátegui coloca em cada país o Estado-nação pluriétnico a impossibilidade de uma política alternativa que não tome em conta, entre os atores centrais, a suas etnias, ou povos oprimidos, aliados e integrados aos trabalhadores e às demais forças democráticas e socialistas. Indo além das colocações populistas de seu tempo e de seu país, propõe uma luta nacional e ibero-americana em que o indonacional e o indoamericano inserem-se na realidade mundial da luta de libertação e de classes. Opôs-se com razão ao projeto populista de “formação das repúblicas independentes” com os povos indígenas. Ao mesmo tempo reconheceu como ator central na luta nacional e de classes os índios unidos com os trabalhadores (Mariátegui, 1928). E isto não foi apenas um dizer, ou uma reflexão quixotesca e dogmática de indigenismo e trabalhismo, foi realismo político e revolucionário. Mariátegui indigeanizou a luta de classes; indigeanizou a luta antiimperialista e colocou a necessidade de fazer outro tanto em qualquer país ou região onde houvesse populações colonizadas, etnias, povos oprimidos, minorias ou nacionalidades em condições dessa exploração, discriminação e dominação que distingue os trabalhadores das etnias dominantes, ou “assimilados”, frente aos trabalhadores das etnias dominadas, discriminadas, excluídas. Em Mariátegui os espaços sociais e as particularidades da luta de classes e de libertação apareceram com relação a um determinado país, a um determinado Estado-nação, sem que esse autor precisasse os diferentes espaços de dominação e exploração no país nem as categorias coletivas distintas que podiam e deviam integrar-se ou associar-se à classe trabalhadora e suas frentes de luta. Gramsci e Lefebvre preencheram alguns desses vazios a partir das próprias experiências européias. Nesse mesmo terreno os seguiria René Lafont.

Entre as contribuições de Gramsci ao estudo dos campos de luta destaca-se sem dúvida seu estudo sobre as relações entre o Norte e o Sul da Itália. Um parágrafo de seus Cadernos do cárcere sintetiza de forma magistral seu pensamento:

A miséria do Mezzogiorno foi “inexplicável” historicamente para as massas populares do Norte; estas não compreendiam que a unidade não se dava sobre uma base de igualdade, mas sim como hegemonia do Norte sobre o Mezzogiorno, em uma relação territorial de cidade-campo, isto é, na qual o Norte era concretamente uma “sanguessuga” que se enriquecia à custa do Sul e que seu enriquecimento econômico tinha uma relação direta com o empobrecimento da economia e da agricultura meridional. O povo da Alta Itália pensava ao contrário, que as causas da miséria do Mezzogiorno não eram externas, mas sim somente internas e inatas à população meridional, e que dada a grande riqueza natural da região não havia senão uma explicação, a incapacidade orgânica de seus habitantes, sua barbárie, sua interioridade biológica. Estas opiniões muito difundidas sobre “esfarrapada pobreza napolitana” foram consolidadas e teorizadas pelos sociólogos do positivismo que lhes deram a força de “verdade científica” em um tempo de superstição na ciência (Gramsci, 1977).




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal