Colonialismo interno (uma redefinição)



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O texto é impecável. Permite compreender como em um só país, Itália, se colocou o problema do colonialismo interno. Porém, esse problema não se pensa entre “os homens do povo” nem entre os “cientistas” como colonialismo nem como interno. Com o habitual oportunismo epistemológico na manipulação e mutilação de categorias, “o colonialismo”, como explicação, é substituído pelos “sociólogos”. Para eles “a inferioridade racial” dos italianos do Sul e a superioridade dos do Norte constitui “o fator determinante”. O interno do país chamado Itália é substituído pelo interno inferior próprio do Sul e pelo interno superior próprio do Norte. Oculta as relações entre Norte e Sul. Gramsci usa a metáfora da sanguessuga para falar da exploração regional. Aborda como contrapartida o problema da unidade na diversidade para a formação de um bloco histórico que compreenda a necessidade da unidade com relação às autonomias. Rechaça o temor dos reacionários que no passado viram na luta pela autonomia de Sardenha um perigoso caminho para a mutilação da Itália e o regresso dos Bourbons. Defende as lutas pela autonomia do passado e do presente.

Em todo caso, como observou com razão, Edward W. Soja, a exploração de algumas regiões por outras somente se entende quando nas regiões estudam-se as relações de produção e de dominação com suas hierarquias e seus beneficiários (Soja, 1995: 117 e 184). De levar-se a cabo essa análise aparecem, entre outros fenômenos, os do colonialismo interno tanto na intensificação da dominação do capital nacional e internacional como na ocupação dos espaços territoriais e sociais de um país a outros ou no interior de um mesmo país. A exploração, dominação, discriminação e exclusão dos “trabalhadores coloniais”, pelo capital nacional e estrangeiro se dá no interior das fronteiras políticas nacionais, ou fora delas. Coloca diferenças econômicas, políticas e jurídicas significativas entre os trabalhadores “coloniais” ou imigrantes que vindo das periferias aos países ou regiões centrais competem com os trabalhadores residentes vendendo mais barata sua força de trabalho. As discriminações e oposições também se dão entre os trabalhadores das etnias dominantes e os trabalhadores das etnias dominadas. Superar essas diferenças em frentes comuns só é possível quando se reconhece a unidade de interesses e valores em meio da diversidade de etnias e trabalhadores residentes e imigrantes.

Henri Lefebvre e Nicos Poulantzas criticam o marxismo que descuida a ocupação e a reestruturação do espaço. Precisam o vago método da análise concreta das situações concretas, atuais. Referem-se, mesmo sem dizê-lo assim, à necessária consideração de distintas situações tanto ao longo dos tempos como ao largo dos espaços de dominação e apropriação. Lefebvre faz ver que a ocupação do espaço, e a produção de espaços pelo capitalismo é o que permite diminuir suas contradições. Analisa a manipulação física e teórica dos espaços da classe trabalhadora, a partir de Haussmann com seus “bulevares” até o atual mercado mundial. E acrescenta: “há um semicolonialismo metropolitano que subordina a seus centros os elementos camponeses e de operários estrangeiros todos submetidos a uma exploração concentrada e que mantém a segregação racial” (Lefebvre, l968: 65). Observa que “agrupando os centros de decisão a cidade moderna intensifica a exploração organizando-a em toda a sociedade e não somente na classe trabalhadora, mas também em outras classes sociais não dominantes” (Lefebvre, l968: 200). (Essas “classes sociais não dominantes” são as dos médios e pequenos proprietários, artesãos, e “classes médias baixas”, as dos “marginais” e excluídos, base dos “acarretados” das frentes populistas e social- democratas, há elementos de luta contra o neoliberalismo e pela democracia includente).

O rico significado do “colonialismo interno” como categoria que abarca toda a história do capitalismo até nossos dias e que, com esse ou outros nomes, opera nas relações espaciais de todo o mundo, é analisado por Robert Lafont em seu livro A revolução regionalista (1971). Lafont estuda o problema na França de De Gaulle, mas leva a análise muito além das fronteiras desse país centralizado, cujas diferenças étnicas ou regionais são amiúde esquecidas, e de um “Estado benfeitor” particularmente pujante e avançado. Suas reflexões gerais se vêem amplamente confirmadas em países com maiores diferenças regionais como Espanha, Itália, Inglaterra, Iugoslávia e Rússia na própria Europa, isto para não mencionar a maioria dos países da periferia mundial. Também se vêem confirmadas e acentuadas na maioria dos países pós-socialistas, que viveram sob regimes de socialismo de Estado. Seu peso alcança magnitude sem precedente com a passagem do “Estado de bem estar” ou do “Socialismo de Estado” ao Estado neoliberal que surgiu no Chile desde o golpe de Augusto Pinochet, e que se instalou nas metrópoles com os governos de Margaret Thatcher e de Ronald Reagan. As políticas neoliberais adquiriram perfis cada vez mais agressivos no desmantelamento do “estado social”, e desataram “guerras humanitárias” e “justiceiras” para a apropriação de posições militares, de vastos territórios e de valiosos recursos energéticos, como as que ocorreram a partir das invasões de Kosovo, Palestina, Afeganistão, até as de Iraque todas aproveitaram e manipularam as lutas entre etnias para invadir os Estados-nação e submeter seus povos. A declaração de uma guerra permanente ou “sem fim previsível” pelo governo dos Estados Unidos abriu uma nova época do “estado terrorista”, e uma nova época de conquistas e colonizações transnacionais, internacionais e intranacionais. Em todas elas o colonialismo interno tende a articular-se com o colonialismo internacional e com o transnacional, com suas redes de poderosas empresas oligopólicas e suas empresas paramilitares ou governamentais (Larry, 2000: 433-455).

Analisando a França dos anos sessenta Robert Lafont observou um esmagamento em curso, das estruturas regionais subsistentes. A invasão colonizadora, nacional-francesa ou estrangeira, é a conclusão lógica do subdesenvolvimento mantido pela forma do Estado e pelo regime do grande capital que atuam conjuntamente. Lafont não se refere somente ao colonialismo interno, mas também à colonização que se encontra em processo de transformar-se em um Estado-nação, e que está a cargo tanto do capital nacional como do estrangeiro. O perfil que dá do colonialismo se pode atualizar e reposicionar. Colonialização internacional e colonização interior tendem a realizar expropriações e saques de territórios e propriedades agrárias existentes, e contribuem à proletarização ou empobrecimento por depredação, desemprego, baixos salários, da população e dos trabalhadores das zonas subjugadas. Ao saque de territórios acrescenta-se a criação de territórios colonizados ou de encraves coloniais; ao saque de circuitos de distribuição acrescenta-se a articulação dos recursos com que contam as megaempresas e os complexos; à asfixia e abandono da produção e dos produtos locais se agrega o impulso dos “trusts” estrangeiros unidos ao grande capital privado e público nativo.




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