Colonialismo interno (uma redefinição)



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A redemarcação de territórios e regiões rompe e refaz antigas divisas geográficas e cria novos limites e fluxos. Abre o país. Move, por distintos lados, a “frente de invasão”. Elimina boa parte dos médios e pequenos empresários e se enfurece com os artesãos e com as comunidades. Cria uma “consciência colonizadora” entre as distintas classes com perda de identidade dos nativos. Eleva a primeiro plano as indústrias extrativas frente às indústrias de transformação, e estas as reduz a “maquilas” em que os trabalhadores recebem baixos salários, realizam grandes jornadas de trabalho, submetem-se a processos de produção intensiva, tudo com baixas margens de segurança e salubridade, carência efetiva de direitos de associação, e controle repressivo por sindicatos e polícias patronais.

A debilidade dos trabalhadores aumenta ao mesmo tempo que as unidades de produção situadas em um mesmo lugar elaboram “partes” de aparelhos, máquinas e produtos que são produzidos e montados em lugares distintos e distantes, e quando as instalações podem ser facilmente desmontadas e removidas pelos gerentes e proprietários. Assim se criam regiões inteiras que dependem de uma só companhia e que estão submetidas a seus objetivos e a sua dominação, não somente corporativa, econômica, para-policial, mas também psicológica, cultural, social, política, judicial. As companhias dominam fábricas e dominam regiões. Essa dominação é muito difícil de ser rompida, contudo, se ocorrer tal ruptura, as companhias têm muitos recursos, inclusive os da repressão, de preferência seletiva, com operações encobertas ou com ações legitimadas por um estado privatizado. Em todo caso, a alternativa de “submissão com espoliação ou de desemprego com exclusão” coloca-se como “a opção racional” aos trabalhadores e a suas famílias.

Por outro lado as conexões e circuitos de distribuição fazem-se diretamente de algumas empresas a outras ou em uma mesma megaempresa com suas sucursais e seus provedores, sem que os fluxos de importação-exportação-realização sejam contabilizáveis em nível internacional ou nacional, e sem que possam ocorrer interferências fiscais ou trabalhistas. Os circuitos internos das companhias beneficiam-se da compra dos provedores locais, com preços castigados, que no caso das regiões periféricas estão muito abaixo do valor que alcançam os mesmos bens e serviços no mercado formal nacional ou internacional.

As companhias são encraves territoriais e chegam a privatizar de tal modo o poder em regiões e países inteiros que desaparece o monopólio da violência legal do Estado quando assim convém aos interesses das companhias ou dos funcionários estatais associados e subordinados. Em caso de conflito com o governo local ou com os trabalhadores e com movimentos sociais e políticos, as “companhias invasoras” recorrem ao estado provincial, ou ao nacional, e se estes não atendem seus interesses e demandas, amparam-se nas “potências invasoras”. A lógica de que o que convém às companhias convém à nação e ao mundo (o slogan conhecido diz: What is good for General Motors is good for the World) impõe-se de cima para baixo entre funcionários, diretores, gerentes e empregados de confiança, ou que aspiram sê-lo. Corresponde ao sentido comum de uma colonização internacional que se combina com a colonização interna e com a transnacional. Nela dominam as megaempresas e os complexos empresariais-militares. Todos atuam de forma “realista” e pragmática sobre as bases anteriores e iludem-se ou enganam-se pensando que a única democracia viável e defendível é a dos empresários, para os empresários e com os empresários.

Lafont fala da “França das relações humanas concretas”. Sua contribuição ao estudo analítico do concreto não somente permite ver as diferenças entre o país formal e o país real, mas também entre seus equivalentes mundiais e locais. Permite também ver o concreto em relação a distintos tipos de organizações como os governos e as companhias, e o concreto de categorias como as classes, as potências, as nações inviáveis e os complexos com suas redes e hierarquias. A sua é uma análise particularmente útil para determinar as causas ou as origens dos problemas em distintas etapas, regiões, estruturas e organizações. Também a é para colocar as alternativas, as alianças, as frentes, os blocos e suas articulações em movimentos, organizações, redes e partidos ou suas combinações e exclusões em contingentes de resistência e libertação na luta atual contra o sistema de dominação, acumulação, exploração, exclusão, opressão e mediação internacional, intranacional e transnacional. Lafont expõe os problemas da “revolução regionalista” advertindo que as regiões –como o tempo histórico e o capitalismo– têm um ponto de ruptura. O mesmo esboça um projeto de poder regional e de lutas democráticas e revolucionárias com autonomias. Propõe que os sindicatos e outras organizações construam uma cidadania completa que inclua um humanismo regional em um mundo de povos (Lafont, 1971).




Colonialismo inter, intra e transnacional

Com o triunfo mundial do capitalismo sobre os projetos comunistas, social-democratas e de libertação nacional, a política globalizadora e neoliberal das grandes empresas e dos grandes complexos político-militares tende a uma integração da colonização inter, intra e transnacional. Essa combinação permite aumentar sua dominação mundial dos mercados e dos trabalhadores, assim como controlar em seu favor os processos de distribuição do excedente no interior de cada país, nas relações de um país com outro, e em os fluxos das grandes empresas transnacionais.

A política globalizadora e neoliberal redefine as empresas e os países com suas redes internacionais, intranacionais e transnacionais. O mundo não pode ser analisado se se pensa que uma categoria exclui as outras. Enquanto as relações de dominação e exploração regional, as redes articulam os distintos tipos de comércio ineqüitativo e de colonialismo, assim como os distintos tipos de exploração dos trabalhadores, ou as distintas políticas de participação e exclusão, de distribuição e estratificação por setores, empregos, regiões.




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