Colóquio Internacional "Foucault, 20 anos depois". Mesa-redonda nº 9 : "Foucault e a atualidade". 18/11/2004



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Colóquio Internacional – “Foucault, 20 anos depois”.


Mesa-redonda nº 9: “Foucault e a atualidade”.

18/11/2004

Luiz B. L. Orlandi.

O gato entre Alice e Foucault

Não é minha intenção defender aqui alguma tese sobre Foucault ou sobre Lewis Carroll. Nem mesmo pretendo comunicar uma nova descoberta biológica ou sociológica sobre os gatos, esses estranhos animais que oscilam entre um sutil ronronar diurno e aquelas lancinantes gritarias noturnas. E nem competência eu teria para intrometer-me numa análise psicológica interessada em hipotéticas devassidões escondidas nos encontros ocorridos entre Alice e o gato. Que pretendo, então?

Não são poucos os gatos que se esgueiram pelos meandros da labiríntica obra de Foucault. Em certos momentos, a presença de alguns deles é fugaz, ora alegre, ora sofredora; em outros instantes, alguns desses gatos são como que desdobráveis, ganhando ares de bichos até esquartejáveis, tendo posturas de seus corpos descortinando vias filosóficas distintas; e há também a ocasião em que aparece a adesão admirativa de Foucault por um sorriso de gato separado do próprio gato. Mas acontece também um entretempo algo estranho -- um misto de escrita foucauldiana e de intromissão de leitura nessa escrita – uma hora e vez em que um gato irônico eriça a pergunta que lhe é dirigida por uma menina escondida numa das linhas de fuga desse labirinto, pergunta que entra em ressonância com o tema desta mesa redonda – “Foucault e a atualidade”. É por esta razão que o gato aparecerá aqui entre Alice e Foucault.

Mas há também uma outra razão, uma razão de aprendiz. Sem pretender desenvolve-la aqui, gostaria apenas de delinear uma preocupação com meu próprio aprendizado: gostaria de esboçar alguma lição para mim mesmo no que se refere à presença de figuras ficcionais em regimes discursivos ditos filosóficos. É provável que algumas dessas incidências sejam irredutíveis a uma simples manipulação metafórica de tais figuras.

Concretamente falando, e aproveitando a oportunidade deste simpósio, penso que talvez seja possível encontrar em Foucault algum gato desse tipo, um gato transmetafórico. Quero dizer que -- em vez de simplesmente ronronar ou gritar como exemplo ou substituto metafórico de um jogo nocional meramente sugerido – algum gato foucauldiano talvez opere como componente de um jogo conceitual explícito ou explicitável. Assim, em vez de nos contentarmos com a compreensão metafórica sobreposta a um fluxo pré-conceitual dela dependente, o que procuro é o provável agenciamento de gatos foucauldianos por um fluxo conceitual questionante.

Juntando essas duas motivações – a de corresponder ao tema desta mesa redonda e a de pensar metáforas em função de conceitos -- passo a fotografar, sem qualquer pretensão analítica, algumas das incidências de gatos em textos de Foucault 1

Em História da loucura na idade clássica encontramos uma referência a “gatos-sibilantes” dotados de “corpos de sapos”. É que um pintor holandês do século XV, chamado Thierry Bouts (1400-1475), ao pintar O Inferno, misturou esses gatos com a “nudez dos condenados”. Foucault também recolhe desses tempos “borboletas com cabeças de gatos”. Há também “insetos alados” e outros partícipes do delírio. Por que ele dá guarida a esses bichos horrendos em suas páginas? Porque assim o exige seu modo de pensar, questionando, perguntando. Nesse ponto sua pergunta é esta: “Qual é, pois, essa potência de fascinação que, nessa época, se exerce através das imagens da loucura?” É como se a loucura fascinasse o espírito dos homens ao longo de uma oscilação entre dois pólos: num deles, o delírio semeia “figuras fantásticas” nas quais os humanos encontram “como que um dos segredos e uma das vocações de sua natureza”, uma “natureza de trevas”, portanto. Num outro pólo a “loucura fascina porque ela é saber”, ou melhor, porque a “curiosidade” daquele que deseja saber postula que o próprio “Louco”, em sua “tolice inocente”, é que “detém”, como dirá Gerolamo Cardano (1501-1576), a oculta “Sabedoria [...] das entranhas da Terra”2.

Nessa incidência, os gatos pintados aparecem para ilustrar o fascínio exercido pela loucura. Esse fascínio estava presente em pintores como Hieronymus Bosch (1450-1516), Albrecht Dürer (1471-1528) e Pieter Brueghel (1525-1569). Enquanto, para esses pintores, a loucura “brotava em torno deles”, implicando-os como dimensão trágica do homem, a literatura de um Erasmo (Desiderius Erasmus – 1469-1536), no próprio momento em que faz o Elogio à loucura, distancia-se desse fascínio, podendo “rir dela” como se fora portador do “riso inextinguível dos Deuses” 3. Seja como for, os gatos que incidem nessas páginas como figuras da loucura não são metáforas. Mas, embora a presença deles no fluxo discursivo não seja decisiva, penso que eles são indiretamente articulados a um jogo conceitual através de uma pergunta interessada nos registros da loucura em determinada época.

Em Raymond Roussel 4 é que aparece o maior número de incidências de gatos. Duas delas são expressões idiomáticas; as nove restantes são como que neutralizáveis como peças literárias de Roussel, sem articulações conceituais.

No volume III da História da sexualidade, os Preceitos conjugais de Plutarco é que são responsáveis pelo aparecimento dos gatos numa relação analógica, de certo modo redutível à metáfora: assim como gatos “ficam furiosos com o odor de um perfume”, assim também “as mulheres tornam-se furiosas quando seus maridos têm relação com outras mulheres” 5.

Em Vigiar e punir, Foucault aponta uma “semiologia do crime” que, por volta de 1836, está interessada numa espécie de análise de fisionomias de criminosos. Então, no conjunto dos “’tipos bestiais’”, aparece “o gato, o macaco, o abutre, a hiena” 6 .

O aparecimento de “gato e cachorro”, em As palavras e as coisas, assim como de “dois galgos” justifica-se apenas para perguntar pelas condições de “instauração de uma ordem entre as coisas”, de uma ordenação das “identidades, similitudes, analogias” dispersas num campo em que se disseminam diferenças, campo esse em que a “coerência [...] não é determinada por um encadeamento a priori e necessário e nem imposta por conteúdos imediatamente sensíveis” 7.

Em outro texto, aparece um gato em carne e osso sofrendo maus tratos nas mãos indóceis de um “perverso” ou “obsessivo”. Por volta da metade do século XIX, o perverso e o obsessivo surgem como dois novos personagens nesse que é o momento de “mutação das relações psiquiatria-família”, quando vai se criando “todo um domínio de objetos novos” 8.

Por ocasião de uma entrevista concedida, em 1968, a Lindung, em Estocolmo, Foucault destaca a impossibilidade de se adivinhar ou de se reconstituir o indivíduo Sade a partir da obra Justine, ou o indivíduo Lautréamont a partir de Chants de Maldoror. Diz ele: “eis um caso experimental concernente a uma obra, uma linguagem e um discurso sem pessoa atrás”. Mas o que teria o gato a ver com isso? Muito, pois Foucault arremata sua fala admirativa do seguinte modo: “vocês conhecem a história de Lewis Carroll segundo a qual é freqüente ver gatos que não sorriem, mas que nunca se vê sorriso sem gato. Mas, sim! Há um sorriso sem gato! É Sade e é Lautréamont. Uma obra sem pessoa atrás. Eis porque são obras exemplares” 9. Penso que temos nessa emancipação do sorriso do gato uma operação pró-conceitual, não simplesmente metafórica, pois isso se concatena com toda uma crítica foucauldiana à necessidade de se recorrer ao sujeito criador no estudo de obras capazes de se imporem por si sós. Pode-se falar aí em metáfora auxiliar, sem dúvida, mas um tal auxílio só ocorre porque a própria metáfora é absorvida por um movimento ideal conceitualmente articulado.



Em seu Theatrum philosophicum (1970), ao escrever sobre dois livros de Deleuze, Diferença e repetição (1968) e Lógica do sentido (1969), Foucault destaca o quanto estas obras permitem pensar o “acontecimento” segundo uma “lógica mais complexa”, uma lógica capaz de singulariza-lo como sentido incorpóreo efetuando-se num estado de coisas do qual ele é um efeito, mas ao qual ele não se reduz. Foucault valoriza a teoria deleuzeana do acontecimento, destacando-a sobre o fundo de três outras “grandes tentativas”: o neopositivismo, a fenomenologia e a filosofia da história. Assim, ao confundir o acontecimento com o estado de coisas, o neopositivismo, diz ele, faz do acontecimento um “processo material”, caindo num “fisicalismo” , ao mesmo tempo em que, do ponto de vista da gramática, acaba reduzindo-o a um “atributo”. A filosofia da história, por sua vez, aprisiona o acontecimento no “ciclo do tempo”, de modo a cometer um “erro gramatical” ao fazer do “presente uma figura enquadrada pelo futuro e pelo passado”. Com isso, esse modo de pensar se abre, de um lado, a uma “lógica da essência (que a funda em memória) e do conceito (que a estabelece como saber do futuro”); por outro lado, esse modo de pensar se abre a uma “metafísica do cosmo coerente e coroada, do mundo em hierarquia”. Pois bem, entre essas duas maneiras de pensar, de pensar insuficientemente o acontecimento, Foucault situa uma dupla via fenomenológica, a de Sartre e a de Merleau-Ponty. Ambas também insuficientes, porque “deslocam o acontecimento em relação ao sentido”. Assim, com Sartre, o “acontecimento bruto é colocado antes e à parte”, é deixado como “rochedo de facticidade, inércia muda do que acontece”; em seguida, essa via “entrega-se ao ágil trabalho do sentido que escava e elabora”. Para Foucault, essa via sartreana é a do “gato que, com bom senso, precede o sorriso”. Com Merleau-Ponty há também um deslocamento do acontecimento em relação ao sentido, mas agora é o “senso comum do sorriso que antecipa o gato”. É que esta segunda via fenomenológica supõe uma “significação prévia que já teria disposto o mundo em torno do eu, traçando vias e lugares privilegiados, indicando de antemão onde o acontecimento poderia se produzir e que rosto ele tomaria”. O problema é que nessas duas vias fenomenológicas “o sentido jamais coincide com o acontecimento”. Para Foucault o resultado disso é uma “lógica da significação, uma gramática da primeira pessoa, uma metafísica da consciência” 10. De um ponto de vista deleuzeano, tão bem projetado por esse texto, Focault poderia mostrar que o acontecimento-sentido, isto é, o acontecimento puro, o acontecimento em sua virtualidade, é irredutível, no caso do exemplo em pauta, tanto ao gato-acontecimento (que se antecipa ao seu sorriso-sentido) quanto ao sorriso-sentido (que se antecipa ao gato-acontecimento), sendo, isto sim, o próprio sorrir, este infinitivo que se atualiza distintamente como sorriso de gato ou de cachorro, de Foucault ou de cada um de nós.

E no caso da atualidade, que sorridente gato poderei trazer a esta mesa redonda? [Vocês já tiveram neste magnífico encontro o admirável riso do nosso Durval, o riso que revela para minha leitura mais um gato sorridente, o gato Mona Foucault].

Vocês sabem que a garota que Lewis Carroll colocou no “País das Maravilhas”, Alice, aparece não raramente como portadora de perguntas. Sabemos também o quanto Foucault adora problematizar. Pois bem, provoquemos uma encruzilhada de textos que considero importantes do ponto de vista da pergunta pelas saídas. Acho isto justificável. Afinal, que atualidade, que presente espaço-temporal não pede saídas? A idéia de arquivo em Foucault deixa entrever que, em cada presente, em cada atualidade, somos tomados por uma intersecção na qual aquilo que julgamos saber o que somos coexiste com o aquilo que estamos nos tornando, mas que ainda não sabemos o que é. É como se cada atualidade, é como se cada configuração espaço-temporal fosse um complexo lugar de embates e de simultâneas emissões de signos que buscamos decifrar, seja como signos de nossas retenções, de nossas contenções, de nossos bloqueios, de nossas insuficiências, seja como signos de resistências ou de afirmações diferenciais anunciadoras de saídas.

No texto de Lewis Carroll lemos o seguinte: “’Onde fica a saída?’, perguntou Alice ao gato que ria. ‘Depende’, respondeu o gato. ‘De quê?’, replicou Alice. ‘Depende de para onde você quer ir’”. [Leio novamente a passagem].

Por que leio novamente essa passagem? Por causa desse riso do gato. Ele está rindo de uma dificuldade que a filosofia contemporânea tenta levar a sério quando não perde tempo em construir ou repetir verdades banais, como algumas que circularam no último encontro da ANPOF. A dificuldade de se saber para onde se quer ou se pode ir, a dificuldade, portanto, de afirmar diferentemente, a dificuldade de pensar de outro modo, dificuldade essa que encontra uma excepcional acolhida nas obras de Foucault: basta lembrar suas múltiplas saídas: o sair da “estultícia” 11; o sair de “um longo erro”, o sair da “fenomenologia”, mesmo o sair do “marxismo através de Nietzsche”, ou ainda o sair “de si mesmo”, o sair do “hegelianismo”12; o sair da “metafísica” , e até o sair daquilo a que se é “sensível”13; sempre atento à ameaça de “não sairmos inteiramente”, embora sabendo que “desde o século XIX o pensamento já saiu de si mesmo em seu próprio ser”, este ser tocado de fora e já não podendo ater-se como “teoria” 14, a não ser que esta seja revirada num múltiplo rir de todos os teos.

Pois bem, o texto foucauldiano, no qual ressoa a pergunta de Alice pela saída, é o texto15 em que ele retoma a resposta dada por Kant, em 1784, à pergunta feita por um jornal alemão: “Was ist Aufklärung?” (“Que é o Iluminismo?”). Não é o caso de discutirmos aqui o texto de Foucault ou a resposta de Kant. Interessa, isto sim, privilegiar o jogo entre uma pergunta dirigida ao presente e o termo kantiano que levou Foucault a interessar-se mais ainda pela resposta de Kant. Para este, a Aufklärung, o Iluminismo, digamos, aparece como Ausgang, isto é, como saída ou até desenlace ou passagem de uma configuração presente para outra pensada como racionalmente necessária. Kant está preocupado com sua atualidade européia, com o estado que ele caracteriza como estado de “menoridade”, esse estado da “nossa vontade que nos faz aceitar a autoridade de outrem para nos conduzir nos domínios nos quais convém fazer uso da razão”.É claro que, em sua resposta, Kant vai delineando as “condições essenciais para que o homem saia do seu estado de menoridade”.

Entretanto, passado tanto tempo, o gato continua repetindo sua resposta à pergunta de Alice. Mas, agora, Alice já é muitas; é multiplicidade: onde ficam as saídas nessa atualidade marcada e sangrada pela coexistência de mundos incompossíveis, meu caro gatinho?, perguntam novamente as fractais Alices a um mundaréu de gatos dispersos nos mais variados rincões das práticas e teorias: mas a resposta é como que unânime: ‘Depende’, respondem eles em uníssono. Mas depende de quê, gatos malditos?. Depende de para onde vocês querem ou podem ir, caríssimas Alices. Sabemos que já não contamos, como contava Kant, com o anteparo de um poderoso acontecimento, como o Iluminismo (mesmo porque suas ressurreições por aí são ainda cômicas); sabemos também que não contamos com a confiável programação de uma saída, apesar de termos votado numa delas há cerca de dois anos. Nosso presente comprova o que talvez esteja embutido em qualquer dimensão do tempo: que a vastidão do nosso campo problemático não cabe numa única escolha.

Então não temos saída alguma?

Apesar de tudo, acho que temos. Qual? A de pensarmos juntos algumas saídas, sem nunca nos esquecermos de rir. Mas para não ficarmos apenas numa vaga frase como essa, proponho que pensemos essas saídas ao longo de uma grande marcha em direção aos palácios, aos palácios, reformados ou não, nos quais se instalaram aqueles que continuam provando que esperança não é saída, que esperança é apenas alimento cristão para o riso irônico dos gatos.

UNICAMP, novembro de 2004.



1 Esta comunicação tornou-se possível graças a pesquisas preliminares que contaram com o imprescindível apoio logístico que recebi de um belo casal de pessoas adoráveis, Alexandre Henz e Érika Inforsato, a quem muito agradeço.

2 Michel Foucault, Histoire de la folie à l’âge classique, Paris, 1961; 1972, pp. 30-32.

3 Idem, p. 36.

4 M. Foucault, Raymond Roussel, Paris, Gallimard, 1963, cf. pp. 9,66,92,101,102,107-109,185,192.

5 M. Foucault, Histoire de la sexualité – 3 – Le souci de soi, Paris, Gallimard, p. 204.

6 M. Foucault, Surveiller et punirNaissance de la prison, Paris, Gallimard, 1975, p. 264.

7 M. Foucault, Les mots et les chosesune archeologie des sciences humaines, Paris, Gallimard, 1966, p. 11.

8 Les anormaux (1974-1975/1999), p. 137. Em Le Foucault Éléctronique (Version 2001).

9 M. Foucault, Dits et écrits, I, p. 661, Paris, Gallimard, 1994.

10 M. Foucault, Dits et écrits, II, p. 83.

11 M. Foucault, Herméneutique du sujet, p. 129.

12 M. Foucault, Dits et écrits, IV, p. 312, 437, 49, 705.

13 M. Foucault, Dits et écrits, II, 203

14 M. Foucault, Les mots et les choses, 339

15 M. Foucault, “Qu’est-ce que les Lumières?” – 1984. In Dits et écrits, IV, pp. 562 ss.


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