Com pedaços de mim eu monto um ser atônito



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Encontro27.07.2016
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PRINCÍPIO E FUNDAMENTO: uma história aos pedaços reconstruída

pelas mãos criativas de Deus

Com pedaços de mim eu monto um ser atônito” (Manoel de Barros)


Segundo S. Inácio, a transformação pessoal se dá em três níveis: o nível mental (idéias, julgamentos...); o nível afetivo (sentimentos, emoções..); e o nível mais profundo que ele chama de “interno”. Neste nível se realiza o encontro autêntico da pessoa com o verdadeiro Deus. A transformação desejada se verifica quando o eu está “tomado pelo fogo de Deus” (Aut. 9), configurado internamente segundo a imagem do Cristo ressuscitado.

Somente a ação criativa e contínua de Deus é capaz de costurar novamente os pedaços de nossa história; ao mesmo tempo ela nos faz descobrir a beleza e a harmonia desses mesmos pedaços.

Tal qual o oleiro, o Senhor nos cria e nos re-cria continuamente. Nada é desperdiçado. Suas mãos de artista não jogam fora nenhum pedaço de nossa existência vivida, e sim, compõe e re-compõe continua-

mente, num desenho novo, o que nos foi dado viver. A experiência de nossa própria fragilidade pode converter-se em experiência de Deus, do Deus rico em misericórdia, e até o passado mais fragmentado está aí para dizer que Ele desenhou nosso ser na palma de suas mãos (Is. 49, 14-26; Is. 58,6-14).


Assim, o passado em pedaços adquire um significado totalmente diferente, e cada acontecimento se torna fragmento de um plano amoroso, escrito no coração do Criador. O ato divino de costurar os pedaços de nossa história não significa somente juntar os cacos, como se no passado existissem somente derrotas e fracassos a serem anotados e aceitos. Deus acolhe e dá um sentido a todas as vivências e experiências; só Ele consegue juntar até as contradições e inconsistências da vida, dando coerência e unidade ao todo existencial e, com isso, fortalecendo a identidade e originalidade de cada um.

Essa “leitura” da vida com um olhar marcado pela contemplação, significa colocar toda a vida dentro da totalidade de Deus, deixando que ela seja iluminada por esta Presença capaz de explicar cada realidade. Tudo o que está envolvido pelo mistério é banhado pela Luz do Criador.

É um contínuo re-nascer; é um prolongamento da Criação: “faça-se a luz”, “façamos o ser humano”.

O desejo de ser “criado e re-criado” significa a vontade paciente e obstinada de fazer girar em volta desse Sol todos os fragmentos de vida, cada pensamento, cada gesto, projeto, afeto, sentimento..., para que seja por ele iluminado e aquecido, readquira vida e se transforme...


Repetir o gesto criativo de Deus significa tomar nas mãos os “fragmentos” daquilo que foi vivido, trazê-los das profundezas onde sempre estiveram confinados, colocá-los sobre a mesa, tocá-los, revirá-los, contemplá-los, aceitá-los, revivê-los, re-criá-los... Com a argila de nossa existência, aquecida pelo calor do Espírito de Deus, podemos transformá-la em material de uma nova experiência de vida.

Não se trata de sufocar a vida, mas de torná-la leve e luminosa, mantendo límpida a sua fonte, livrando-a da camada de sentimentos negativos.

A dinâmica do Princípio e Fundamento nos dá força e tranqüilidade para empreender um mergulho dentro de nós mesmos. Ela vai reordenando fatos, completando os vazios, corrigindo distorções, revivendo situações paralisadas, conferindo sentimentos...

Ao tomarmos distância de nossa história pessoal, ampliamos o horizonte de leitura de nossa vida; isso possibilita uma recomposição da própria vida e dar um novo significado aos acontecimentos vividos.

As experiências do passado não podem ser mudadas, mas a nova “re-leitura” pode mudar a interpreta-ção dada a elas. Tal experiência reconstrutora é para corajosos, persistentes, vitais, amantes da verdade.
A experiência do Princípio e Fundamento é muito positiva para o crescimento interior e mobiliza a pessoa para retomar a “escrita” de sua história, agora com um olhar compassivo e acolhedor.

Deus colocou sua “assinatura” divina ali, nas dobras do coração, mas só quem lê o interior descobre isso. Nas páginas fragmentadas da existência o exercitante poderá ler uma história de amor profundo, uma história imortal O que não foi bem escrito no passado poderá ser escrito de outra maneira no futuro...

Mas tudo é reconstruído e, com toda certeza, será publicado pela “editora da vida”.

Esse retorno orante à própria história amplia a compreensão do que somos como pessoas (únicas, originais, sagradas... e com uma missão especial), e nos ajuda a responder às eternas questões humanas:



quem sou eu? para quê vim ao mundo? para onde conduzir minha vida?

Sendo o amor criativo de Deus o ponto central e revelador do eu, então será possível juntar toda a nossa

vida e nossa história ao redor de um núcleo vital. A partir desse centro, somos re-construídos lentamente
FONTE: CEI-JESUÍTAS - Centro de Espiritualidade Inaciana

Rua Bambina, 115 - Botafogo – RJ – 22251-050



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