Comentário aos textos dos colegas sobre o capítulo “Romance em África”, de J. M. Coetzee



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Encontro31.07.2016
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Comentário aos textos dos colegas sobre o capítulo “Romance em África”, de J. M. Coetzee


O capítulo “Romance em África” gira, como o próprio nome indica, em torno do tema do romance, isto é, das diferentes concepções que cada um dos personagens tem do conceito de romance e também do modo como cada um o encara na realidade africana. Assim, Elizabeth Costello e Emmanuel Egudu demonstram ter pontos de vista totalmente díspares: enquanto que Egudu defende a primazia da palavra dita (e, portanto, a importância da oralidade), Elizabeth, por sua vez, encara o romance como “uma tentativa de tornar o passado coerente” (pág.44) e por isso mesmo aproxima-o da História: “Tal como a história, explora as várias contribuições de carácter e circunstância para a formação do presente”. Embora aparentemente exponha uma teoria que tem tanto valor como qualquer outra, o seu pensamento revela bastantes dúvidas em relação à veracidade do que está a dizer (informação que nos é transmitida pelo narrador omnisciente): “Não tem a certeza, ao ouvir a sua voz, se ainda acreita no que está a dizer”(pág.45). Assim, podemos depreender que ela já não acredita bem naquilo que preconiza e que, por esta razão, a sua voz, como lugar de plenitude do ser humano, deixa transparecer isso mesmo: “Se já lhe é difícil acreditar no que defende, ainda lhe é mais difícil evitar que essa falta de convicção se traduza na sua voz”. Ou seja, embora Elizabeth não concorde com Egudu quando este diz que o romance africano se deve basear na oralidade, inconscientemente ela reconhece que é na voz que estamos na nossa plenitude e é na voz que os nossos próprios pensamentos e convicções se reflectem. Portanto, a voz dificilmente engana (ao contrário da escrita, “ce dangereux suplement”).

Por outro lado, Egudu dá-nos a ideia de que ler um livro é o contrário de partilhar, ao afirmar “Não gostamos de nos isolar dos outros para nos retirarmos para mundos só nossos”(pág.46). No entanto, há que ter em conta que, após a leitura, o confronto de ideias e o debate sobre as mesmas pode deve ser feito e, portanto, não é meramente uma atitude solitária. Esta afirmação de Egudu conduz Elizabeth a constatar: “Nós, nós, nós, pensa ela. Nós africanos. Não somos assim”. Deste modo, o escritor dá a ideia que domina o assunto em questão na totalidade porque ele próprio é africano e, portanto, não haverá ninguém melhor do que um africano para falar de africanos. Assim, esta ideia conduz a uma outra polaridade: nós/outros, sendo que “nós” representa os africanos e “outros” os não-africanos, isto é colonizados/colonizadores.


Assim, tal como Mónica Marques diz, a polaridade África/Ocidente está relativamente bem demonstrada no texto. De facto, quanto a mim, esta é uma das primordiais, pois é esta dicotomia que está na base de todas as outras enunciadas, como oralidade/escrita, romance/performance (e presença), leitura solitária/experiência comunitária, essência cultural/negociação identitária Assim, pressupõe-se que em África não haja escrita, apenas oralidade, e no Ocidente apenas haja escrita e não oralidade. De facto, como afirma Derrida, estes pólos antagónicos existem, mas têm de ser desconstruídos, isto é, não podem ser levados ao extremo fazendo afirmações tão categóricas e absolutas.

A Ana Catarina André, por seu turno, não se cinge apenas a uma polaridade de modo indiscutivelmente directo, embora dê a entender que se inclina mais para a dicotomia escrever/falar.


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