Como Bacharela em Jornalismo, graduada pela Faculdade de Jornalismo "Eloy de Souza", (2ª turma, 1966), com uma passagem pelo jornalismo natalense, hoje dedicada a pesquisar o Jornalismo no Rio Grande do Norte



Baixar 20.2 Kb.
Encontro04.08.2016
Tamanho20.2 Kb.
II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)




PRESENÇA FEMININA NA IMPRENSA POTIGUAR
Otêmia Porpino Gomes

UFRN/NEPAM/PPGEd.

A participação da mulher no Jornalismo norte-riograndense é objeto da pesquisa que estamos realizando no Núcleo Nísia Floresta de Estudos sobre a Mulher e Relações de Gênero - NEPAM/ UFRN, onde coordenamos o grupo “Mulheres em Pauta”, composto por sete bacharelas em jornalismo com mais duas estudantes da mesma área, que participam da pesquisa e utilizam a mídia através de um programa de extensão na área de gênero. O nosso objetivo é estudar a prática jornalística de mulheres, buscando identificar processos pedagógicos empregados historicamente para essa inserção nos MCM, seja diretamente nas redações ou através de cursos especializados. O que norteia esta atividade histórica é a viabilidade de diagnosticar e analisar conteúdos e métodos utilizados, ao longo do tempo, para habilitar uma Jornalista ao exercício profissional. Como doutoranda em Educação na UFRN, estamos estudando a formação de Jornalistas no Rio Grande do Norte (1832 a 2000). O projeto de tese tem como objeto de pesquisa o processo histórico de formação profissional de jornalistas no Rio Grande do Norte e um capítulo pretendemos dedicar ao estudo das formas de adesão e formação da mulher para o exercício do jornalismo em nosso Estado. Parte desse capítulo será apresentado neste Encontro.

Como Bacharela em Jornalismo, graduada pela Faculdade de Jornalismo “Eloy de Souza”, (2ª turma, 1966), com uma passagem pelo jornalismo natalense, hoje dedicada a pesquisar o Jornalismo no Rio Grande do Norte. Também como professora de História do Jornalismo no Departamento de Comunicação Social da UFRN, tivemos a preocupação de estudar e registrar, em pequenos artigos de caráter histórico, a trajetória do jornalismo nos MCM. Começamos (eu e os alunos da Disciplina) um trabalho conjunto para detectar casos, trajetórias, biografias, através de entravistas, livros e outros documentos que por ventura existam e que tratem sobre Jornalistas e Jornalismo potuguar. Com esse estudo temos a oportunidade de refletir e analisar os vinte e cinco anos que dedicamos ao magistério no Curso de Comunicação Social da UFRN.

Em 1986 a jornalista Dulcília Schoeder Buitoni chamava a atenção para a necessidade de ampliação das pesquisas sobre imprensa feminina dizendo: “estudos sobre mulher existe inúmeros, com as mais diversas abordagens. No entanto, trabalhos específicos sobre periódicos para mulheres são poucos, o que mostra a necessidade de analisar o tema.” (Buitoni,1986) Onze anos depois, em 1997, quando da redação de nossa Dissertação de Mestrado sobre o jornal A Esperança, pioneiro na imprensa feminina do Rio Grande do Norte, ainda sentiamos que a necessidade de estudar o tema persistia, pela mesma constatação. Como eu, muitas outras jornalistas, historiadoras, e outras profissionais se interessaram pelo tema, no entanto, agora em 2004 verificamos que são poucos os trabalhos apresentados em eventos destinados a discutir a participação da mulher no Jornalismo e as relações sociais de gênero no exercício desta profissão. Portanto o nosso estudo ainda é necessário e procedente.

As primeiras manifestações dessa participação feminina no jornalismo nacional aconteceram ainda na primeira metade do século XIX, quando a sociedade brasileira estava em efervescência com o processo de mudança política que culminou com a Proclamação da República. Fato histórico que, por decreto, transformou a sociedade aristocrática brasileira, em uma sociedade democrática, estruturada nos moldes de uma república federativa.

Aqui no recanto do País, jovens intelectuais idealistas e entusiasmados tentavam reorganizar a política local dentro do modelo republicano, seguindo os princípios de uma democracia burguesa, com a visão de modernidade. Como não poderia deixar de ser, as mulheres acompanhavam e, de forma discreta, participavam dessas mudanças e, como cidadãs, deram a sua contribuição, inicialmente participando de eventos culturais que lhes proporcionaram oportunidades de utilizar a nova foma de comunicação social, o jornal - até mesmo sem o suporte tecnológico da imprensa - em uma demonstração de determinação para assumir e expressar suas opiniões, embora escondendo os seus nomes através do uso de pseudônimos.

A maioria dessas mulheres se destacou no magistério, nas letras, nas artes, na moda e no Jornalismo. Neste fizeram a opção pelo gênero opinativo da crônica e do artigo, assinados com pseudônimos, provavelmente como forma de proteção contra o julgamento público. Entre essas mulheres estava dona Dionísia Gonsalves Pinto(conforme consta no Assento de batismo na Igreja de Papari), uma das primeiras cronistas brasileiras, reconhecida como Nísia Floresta Brasileira Augusta ou simplesmente Nísia Floresta. A professora Constância Duarte assim registra a introdução de Nísia Floresta no Jornalismo e na Literatura: ...”1831 foi um ano fecundo para Nísia. Foi este justamente o ano de sua estréia nas letras. No Espelho das Brasileiras, um jornal dedicado às senhoras pernambucanas, do tipógrafo francês Adolphe Emille de Bois Garin, começava a sugir a escritora. E durante os trinta números (de fevereiro a abril) do jornal, a maioria hoje desaaparecida. Nísia vai colaborar com artigos em que trata da condição feminina em diversas culturas antigas.” (Duarte, 1995).

A interrelação entre Literatura e Jornalismo, a partir do lançamento de periódicos literários que circularam no período oitocentista, abriu espaço para que mulheres norte-riograndenses podessem dar os primeiros passos na imprensa cotidiana, onde cuidadosamente publicavam sua produção literária e, aos poucos, iam expondo suas interpretações sobre o mundo em que viviam, opinando sobre o que seria melhor para elas nesse mundo. Para enfrentar o desafio de participar do espaço público, sem abandonar o espaço privado do lar, que lhes foi destinado desde o princípio da civilização, as mulheres precisavam utilizar artifícios e aproveitaram oportunidades que iam criando ao longo do tempo, com o desejo de se tornarem cidadãs. Essas mulheres aproveitaram os momentos oportunos para criar seus espaços.

Cerca de cinquenta e nove anos depois da estréia de Nísia Floresta no jornalismo, a escritora Úrsula Barros Garcia ultrapassou a condição de leitora, para atuar como articulisra no semanário polítco Rio Grande do Norte (1890-1896). O acesso de Úrsula à redação aconteceu por concessão do diretor do jornal, seu pai, o Dr. Francisco Amorim Barros, conforme registra o mestre Câmara Cascudo no Livro das Velhas Figuras: “ Úrsula Garcia escreveu muitos artigos de fundo, muita crônica sacudida, muito suelto crpitico comentados como sendo dos primeiros jornalistas da cidade. Só a família e os mais íntimos sabiam quem era a verdadeira origem dessa prosa percuciente e clara que a todos encantava.” ( Cascudo, 1977)

Entre 1831 e 1987,cerca de novecentos e oitenta mulheres participaram no jornalismo norte-riograndense, desde colaboradoras, cronistas, articulistas, editoras, até jornalistas profissionais atuando no jornalismo impresso, radiofônico e televisivo, conforme registro dos autores: Luiz Fernandes, José Gurgel de Araújo e Manoel Rodrigues de Melo.

O pioneirismo feminino no jornalismo profissional norte-riograndense coube a duas mulheres: Inês da Cunha Pinheiro, com o primeiro registro profissional de Jornalistra na DRT/Natal, em 1948, e Miriam Coelli de Araújo Dantas da Silveira que além de atuar na redação de jornal, tinha diploma universitário de graduação em Jornalismo, pela Universidade de Madrid, no início da década de 1960. Com a criação da Faculdade de Jornalismo “Eloy de Souza” (1962), em Natal, Miriam passou a ser também professora de jornalismo.

A criação desta Escola Superior de Jornalismo (1962) despertou o interesse de jovens secundaristas que, encantadas com o jornalismo moderno nos MCM, passaram a fazer opção pela carreira jornalística. A partir da formação acadêmica, mulheres que não eram escritoras nem poetas, nem professoras, e que antes de ingressar na Faculdade nem pensavam em atuar no jornalismo. Terminado o período de formação universitária, essas primeiras jornalistas profissionais, respaudadas pelo conhecimento acadêmico/científico, enfrentaram o mercado de trabalho, nas redações de jornais locais, a partir do ano de 1963, quando a Faculdade diplomou sua primeira turma de Bacharéis em Jornalismo . No final da década de setenta (Sec.XX), quando a Faculdade foi incorporada a Universidade Federal no Rio Grande do Norte, na condição de Curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, a mulher jornalista passou a expor sua imagem na televisão através do telejornalismo e atualmente faz seu trabalho jornalístico, também, via internet. Nos quarenta e dois anos de formação universitária, muitas mulheres jornalistas passarm por seus bancos ecolares. Entre elas encontram-se Lenira Fonseca, Aparecida Ramos, Elieusas Dias, Kátia Valéria, Adeny Kalina, que sob nossa coordenação formamos o grupo inicial “Mulheres em Pauta”, que tem como objetivo estudar a participação feminina no jornalismo local, como também fazer uma leitura críticada atuação de meios de Comunicação Social que atuam no Rio grande do Norte. Ao mesmo tempo e que assume a produção de meios para informação e divulgação do NEPAM - Núcleo “Nísia Floresta” de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e Relações de Gênero.

A necessidade e importância de um grupo como este é o trabalho de pesquisa na área de Jornalismo e atividades de extensão através de experimentos na produção de produtos culturais para veiculação nos meios de comunicação da própria UFRN. Atualmente o grupo é responsável pela produção, realização do programa radiofônico semanal “Rádio Mulher”, veiculado pela Rádio FM Universitária, em Natal( aos Domingos das 11:00h ao meio dia), como também pela criação e manutenção de um site sobre o NEPAM e pela produção e veiculação via internet, do informativo Via-Láctea, também do NEPAM. Para este ano de 2004 o grupo está iniciando o estudo visando a produção de um programa de TV na perspectiva das relações de gênero para veicular na TV Universitária de Natal a partir do início de 2005, e a ampliação das edições do informativo Via-Láctea com edições especiais, semestrais para divulgar artigos sobre relações de gênero pela equipe de pesquisadores do NEPAM ou de outras instituições que atuam nesta área.

Nesses cento e setenta e três anos de participação feminina nos jornais norte-riograndenses, mais de mil mulheres marcaram presença como colaboradoras, repórteres, editoras, correspondentes, produtoras etc. Inicxialmente usaram o Jornal como veículo para difusão de sua produção literária, científica, artística... eram artistas e professoras fazendo um jornalismo amador e artesanal, agora são bacharelas qualificadas para o exercício profissional de jornalista.
Referência Bibliográfica:

BUITONI, Dulcília Schroeder. Imprensa Feminina. São Paulo: Ática, 1986 (Série Princípios)



DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: EDUFRN, 1995.

GOMES, Otêmia Porpino.Imprensa Feminina: o jornal A Esperança (1903-1909). Natal,1999.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal