Como diria o Senador Hiram Johnson



Baixar 12.37 Kb.
Encontro01.08.2016
Tamanho12.37 Kb.
Como diria o Senador Hiram Johnson...

Fui também vítima daquela escrita. Não tinha jeito, turmas sucessivas eram desafiadas e turmas sucessivas feneciam. Era a juventude desconexa contra a maturidade articulada. Os caras se conheciam e jogavam juntos desde a época da faculdade e nós, residentes e vítimas, éramos um bando ajuntado de última hora. Não dava outra: anos após ano, para deleite deles e desespero nosso, levávamos uma estreptosa surra. Claro, em alguns anos a coisa engrossava e eles ganhavam com um pouco mais de dificuldade. Pelo menos na minha época (82/83), sobretudo no segundo ano, tiveram que suar a amarela e preta para nos derrotar. Mas ninguém se enganasse, a gozação demorava um ano, para novamente ganharem e então mais um ano de sofrimento. A nossa derrota era para sempre registrada, para que não pairasse qualquer dúvida, em versos à moda dos cordéis. Ai dos vencidos! Além do sofrimento da perda, o achincalhe. O cordel circulava pelo hospital, pelas outras clínicas, todos cobravam uma atitude que nunca vinha e era uma vergonha enfim.

A tensão começava logo na apresentação dos calouros. À primeira visão, Oscar e Vitorino, olhos treinados, já faziam uma primeira avaliação: aquele parece que leva jeito, soube que o baixinho é rápido, o grandão só tem mesmo tamanho, e por aí ia.

O jogo era mencionado já na primeira reunião do staff com os recém chegados. Alguns mordiam a isca ingenuamente e já aceitavam o compromisso e as regras impostas tacitamente. E desde então começava a propaganda, um espécie de marketing terrorista, com alusão a derrotas fragorosas, a porradas fenomenais e a desmoralização para toda a vida que uma derrota levaria. Parece que tinham razão, minha geração realmente nunca esqueceu a sarrafada que levou e as que dizem o contrário, desdizem os fatos e a história.

Os veteranos, já curtidos pelo sofrimento, vendo os inocentes a caminho do cadafalso, antecipavam com certo prazer mórbido a desventura dos novatos. Na verdade participar deste evento e de tantos outros era uma forma de fazer parte daquele clã. Era uma espécie de ritual de iniciação, de auto-imolação. E como era importante ser parte daquele mundo!

O risco que corre o pau corre o machado, pensavam os mestres, e como a cada ano eles iam envelhecendo e os oponentes, magicamente, se mantinham com mesma idade, convinha cautela e cuidado.

As regras eram simples: staffs contra residentes de clínica médica. Eram permitidos goleiros de fora, porque na verdade os goleiros jogam um outro esporte diferente do futebol. Jogadores pra valer só os da linha e no escrete auri-negro só existiam jogadores de verdade. Afora isso era mão na cara e pé no saco, no melhor estilo futebol de várzea.

E foi assim no meu tempo e o tempo correu e de repente me vi staff da clínica médica do HBL. A escrita vinha se mantendo, ano a ano, não tinha jeito, turmas sucessivas eram desafiadas e turmas sucessivas feneciam.

Mas não há bem que sempre fique nem mal que sempre dure e as coisas mudam, os corações amolecem ou se petrificam e o rumo da vida perde o norte, ou cria um novo norte, e segue.

Ano de 1996, duro ano. A catástrofe da hemodiálise de Caruaru, apresentando ao mundo um novo e fatal agente etiológico, a microcistina LR, que dizimou muitas vidas, terminou caindo nos nossos colos e por isso aquele foi um ano atípico. No Barão estamos mais para o riso que para a tristeza, sempre foi assim, mas não naquele ano. As carrancas assombravam os corredores, a pressão das incertezas, de lidar com algo desconhecido e fatal, a imprensa a fustigar, faziam pesar a atmosfera. Passamos por tudo, com sofrimento e desgaste e apesar dos pesares nos saímos bem.

Voltamos à primavera, voltamos a falar de coisas leves, retomamos o assunto do futebol: a guerra do futebol; e coisas estranhas aconteceram. Como dizia Hiram Jonhson, senador americano, na guerra a primeira vítima é a verdade. E assim foi, era uma guerra e a verdade foi realmente escamoteada.

Tínhamos um time forte. Lúcio, com sua elegante truculência, Marcelo Padilha com sua truculenta truculência, Natalício e sua fenomenal patada de direita, Oscar, uma força indomada da natureza, com sua imbatível vantagem nos pés-de-ferro, quem já se arriscou sabe; eu, com meu habitual bom fôlego e futebol, digamos, mais ou menos, Duda Valença e seus insuperáveis elogios e incentivos aos colegas e Vitorino... Vitorino era o mistério. Na verdade ele era como o próprio futebol: uma discussão eterna. Uns achavam que era um craque com momentos de perna-de-pau, outros que era um perna-de-pau com arroubos de gênio, quem poderia saber? Dizia o filósofo contemporâneo Paulo Barroca que em matéria futebolística Vitorino se acha mais importante que a bola! Há uma certa maldade nessa crucial conclusão. Mas voltemos ao jogo e aos desdobramentos dele.

Como dizia, o clima na Clínica Médica desanuviara e era importante elevar o moral da tropa. Marcou-se o jogo e logo veio uma demanda inaceitável nos tempos idos. O time dos residentes tinha o número suficiente de jogadores mas um deles não poderia jogar por questões técnicas. Questões técnicas?!!! Ora essa. E onde estão as questões morais, éticas e até másculas? Eram ou não RESIDENTES DE CLÍNICA MÉDICA DO HBL? Eu fui, apanhei e sobrevivi.

Criou-se o impasse. Parecia insuperável até que entrou em campo a lendária diplomacia de Oscar e muita conversa rolou e por fim concluiu-se que poderiam enxertar o time com Paulinho, engenheiro, marido de Zaida e Davi, comerciante, marido de Rosana, mas seria uma partida amistosa, com fito único de animar a turma e tirar a ressaca dos tempos duros da microcistina. Afora estes dois, o time era composto por Marcos Magalhães, Alfredo Leite, Plácido e João Wanderley, todos bons jogadores, e de Fernando Neves, emérito cronista do dia a dia da nossa clínica mas de futebol apenas hipotético. O Paulinho era um gigante, um guarda-roupa de dois por dois, com cara de mau e realmente de maus bofes. Impunha medo pela estampa. O Outro, Davi, era um peladeiro profissional. Andava com as tralhas de futebol na mala do carro, não perdia a chance de se apresentar, como fazem os virtuoses das artes. Era um craque e evidentemente não foi escolhido por seus belos olhos, senão pelas suas hábeis pernas.

Bem, o jogo foi disputado, corrido e por fim perdemos. Era um jogo amistoso e com uma evidente dose de parcimônia por parte do staff, traduzida no fato de que abrimos mão da efetiva participação de Neves e da vista grossa feita para a total e definitiva participação dos alienígenas. Davi fez dois gols e Paulinho aleijou uma meia dúzia.

Vejam os senhores até onde vai a incompreensão humana, para dizer o mínimo. Saíram de lá se jactando de um suposto feito inédito, heróico, restaurador. Ganharam finalmente dos staffs, eram os vingadores, mostraram nossos corações ensangüentados em praça pública. Imaginem!

Tudo fora das regras e das tradições. Aproveitaram a benevolência de Vitorino e os arranjos conciliadores de Oscar e construíram uma história mirabolante . Dizem as más línguas que Oscar, grande administrador da vida, viu naquele gesto uma forma de afagar o futuro genro, Alfredo; outros dizem que a própria Caíca, minha querida afilhada, deu uma penada pelo pobrezinho do namorado que encontrava-se estressado pelos últimos acontecimentos. Acho que não foi nada disso: simplesmente honramos uma tradição nossa, de sermos corteses e bons anfitriões, claro, quando não se trata de futebol de verdade!

Pois bem, essa é a verdadeira história. Nunca houve Baronaço!



Paramos com esta tradição por motivos variados. A invasão feminina da medicina talvez seja um motivo-no ano passado houve uma turma só de mulheres; o excessivo e exclusivo foco que nós médicos damos a nossa profissão; ou o fato de termos envelhecido prematuramente. Trazemos o futebol da infância, somos crianças quando jogamos. Há algo de eterno em uma pelada com os amigos, talvez exatamente porque nos remetam aos tempos inesquecíveis da meninice. Oscar e Vitorino são apaixonados pelos amigos e pelas peladas, certamente por isso são eternos.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal