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As quinze cores da Europa
Teresa de Sousa *
Janus 2001

A tempestade política que varreu a Europa na última década teve profundas implicações na natureza do projecto europeu. A Europa passou a pensar-se no seu todo e não apenas na sua metade ocidental. A matriz essencialmente económica da construção europeia deu lugar, desde Maastricht, a uma nova dimensão política, expondo a UE, como nunca até então, ao escrutínio da opinião pública. A era da globalização obrigou a Europa a pensar-se como um dos pilares de um novo sistema internacional e a definir o seu papel no mundo. Nenhum dos quinze países da União Europeia atravessou impune estas transformações. Cada um deles viveu de forma distinta os seus efeitos, corrigindo a forma como percebe o seu interesse nacional no quadro europeu e tentando ajustar essa percepção às novas realidades. Nem tudo mudou, no entanto. As tendências de fundo resultantes da história e da cultura mantêm-se praticamente inalteradas, constituindo um poderoso factor de continuidade.


A União é hoje uma realidade muito diferente da que foi nos seus primeiros 40 anos de vida, com desafios muito complexos pela frente: unir o continente, integrando todas as democracias europeias; desempenhar a nível mundial um papel político correspondente ao seu poder económico e aos seus valores; enfrentar o desafio da globalização económica; e criar um espaço político europeu que dê consistência ao euro. A resultante dependerá do jogo de vontades e de influências de cada um dos países membros. Segue-se o retraio possível do perfil europeu de cada um deles.

Hoje, como há 10 anos ou há 40, o par franco-alemão é o factor determinante da construção europeia. A UE é, para os dois países, a garantia de que não mais o conflito fará parte das suas relações mas é também percebida como globalmente positiva para a afirmação dos seus interesses nacionais.


A unificação alemã veio, no entanto, alterar os parâmetros em que assentava esta aliança. A firmeza do compromisso estabelecido em 1991 em torno do euro permitiu superar o choque inicial da unificação, mas não impediu que o "motor" da construção europeia atravessasse um período difícil, sem iniciativas conjuntas e sem capacidade de impulsionar a integração. Concluída a união monetária, em 1999, o eixo Paris-Berlim retomou progressivamente a iniciativa, voltando hoje a constituir-se como o "motor" da União.
Foi em torno do projecto europeu e do dever da memória que os alemães construíram a sua nova identidade democrática impedindo-os de pensar-se fora do contexto europeu. Hoje, a União continua a corresponder a um interesse vital da Alemanha unificada, em nome do qual abdicou do marco. Mas a transição não foi pacífica e a política europeia de Berlim atravessou um período de relativa indefinição, cujos efeitos se repercutiram fortemente na UE. A realização do euro ajudou a desanuviar o ambiente e a Alemanha está a regressar lentamente à sua tradição europeia e à sua fidelidade essencial ao pacto com a França. As propostas federalistas de Joschka Fischer, o vice-chanceler "verde" de Berlim, retomaram o fio condutor da política alemã onde Kohl o deixou, reflectindo uma Europa à imagem e semelhança da República Federal, uma democracia descentralizada e consensual.
Mas algumas coisas mudaram definitivamente em Berlim. Os alemães querem uma integração mais "barata" e mais conforme com os interesses económicos dos países ricos da Europa — menos solidária do ponto de vista da coesão económica — que possibilite um alargamento menos custoso e mais flexível. Com a adesão da Hungria, Polónia e República Checa à Aliança Atlântica, a pressa de Berlim quanto ao alargamento da UE parece bastante mais atenuada. O seu interesse estratégico fundamental de ver-se "rodeada de Ocidente por todos os lados" está já garantido.
França. Com uma forte identidade nacional que os franceses entendem como universal, a França recompôs-se com dificuldade do abalo da unificação alemã. Habituados ao estatuto de liderança política da Europa, os franceses tendem a ver a Europa como a projecção do seu poder e da sua influência internacional, perpetuando o estatuto de grande potência em cujas roupagens a França ainda gosta de imaginar-se. Paris reclama, pois, uma UE dotada de instrumentos próprios de uma grande potência.
Ultrapassado o trauma da unificação, realizado o euro, com uma economia pujante e capaz de tirar partido da globalização, a França mostra-se hoje menos resistente às políticas de abertura e de liberalização dos mercados, permitindo conjugar mais facilmente os seus interesses económicos com os do Reino Unido e da Alemanha. Paris mantém uma concepção institucionalista da construção europeia — nos antípodas da abordagem pragmática britânica —, projectando o seu modelo de Estado centralizado e elitista nas instituições europeias, nas quais tem um grande peso. A sua visão do futuro da UE encaixa melhor em mecanismos intergovernamentais, assentes numa "vanguarda" liderante, do que nas propostas mais pós-nacionais e federalistas de Berlim.

A história da participação britânica na Comunidade é a história de uma constante inadaptação, que apenas o tradicional pragmatismo britânico impediu que se tornasse numa rejeição. Mas longe vão os tempos em que o "não" britânico era a regra em todas as negociações europeias. Com a vitória de Tony Blair e do "New Labour" em 1997, Londres iniciou uma lenta aproximação à Europa e o que norteia hoje a sua política europeia é a vontade de influenciar o rumo da integração a partir de uma nova plataforma de entendimento com os seus parceiros continentais e, em primeiro lugar, com a Alemanha e com a França, às quais a une o desejo de ver reforçado o peso dos grandes países nas instituições da União antes do alargamento, embora a separe o receio de uma Europa a várias velocidades, liderada por uma "vanguarda". Os resultados são já visíveis.


O Reino Unido deixou de ser o eterno pária, passando a ser um parceiro activo e, mesmo, decisivo em certas áreas da integração, como a da defesa. Tony Blair soube também tirar partido dos ventos da globalização e da liberalização dos mercados para levar a uma inflexão no discurso europeu mais consentânea com a visão britânica. Em suma, o Reino Unido tenta aproveitar a fase de inevitáveis mudanças que atravessa o projecto europeu, não para impedi-lo de avançar, mas para empurrá-lo na direcção que mais lhe convém.
Falta ainda a Blair vencer a mais difícil batalha desta nova fase: convencer os britânicos de que a libra deve aderir ao euro. Tarefa ciclópica face a uma opinião pública, "educada" pela imprensa popular britânica a ver na burocracia de Bruxelas, identificada como o "mal absoluto", uma ameaça à soberania de Westminster.

País de formação recente, pátria de muitas das ideias que inspiraram o projecto europeu desde o pós-guerra, habituado a conviver com um Estado fraco e corrupto e uma economia ágil e dinâmica, a Itália tem vivido na Europa como peixe na água. É em Bruxelas que encontra a compensação para a tradicional fraqueza do Estado e um quadro disciplinador e racionalizador capaz de corrigir os efeitos mais nefastos da crónica instabilidade política que vive desde o pós-guerra. O terramoto que abalou a vida política italiana na última década, na sequência do fim da guerra fria, não parece ter afectado substancialmente a percepção dos seus interesses europeus. A Europa parece ser também a resposta mais fácil às tendências desagregadoras e ao discurso xenófobo protagonizado pela Liga Lombarda que hoje perturbam a vida política e a sociedade italiana.



A Bélgica, Holanda e Luxemburgo são, com a Itália, os três países que se sentem mais à vontade no processo de integração e que adoptam mais à vontade as concepções federalistas. Os três são fundadores da Comunidade, para cujo nascimento foram decisivos, habituando-se a olhar para a Europa como uma aventura com a qual só têm tido a ganhar. Os três, ainda que de pequena ou média dimensão, partilham com os grandes países europeus o mesmo nível de riqueza e desenvolvimento e o mesmo sofisticado modelo social. Apesar de não temerem um aprofundamento da integração, os três países temem que a reforma institucional prévia ao alargamento venha a desequilibrar demasiado a balança de poder a favor dos grandes, retirando-lhes um estatuto que mantêm desde a fundação da Comunidade.


Para a Espanha, Portugal e Grécia, que apenas na década de 70 se libertaram de regimes autoritários e retrógrados, a Europa começou por ser uma garantia de consolidação dos regimes democráticos e um meio de reintegração na geografia política e económica europeia. Para os três, como também para a Irlanda (que aderiu em 1973), a integração foi ainda o meio de queimar etapas na recuperação económica e social. Hoje, contudo, o estatuto europeu dos quatro países já não cabe na designação que lhes foi atribuída de "países da coesão".


A Europa modificou o seu perfil político, económico, social e internacional. Portugal, uma das mais velhas nações europeias, pequena e periférica, viveu os primeiros 10 anos de integração entre uma atitude classificada em Bruxelas de "arrastar os pés" e o desejo de ser "um bom aluno" da Europa. A aposta ganha no euro reflectiu-se interna e externamente numa maior afirmação do seu estatuto europeu, acentuada a partir de 1995 por um maior protagonismo político nas instituições europeias. Hoje Portugal continua, no entanto, a balançar entre uma tentação defensiva em relação aos avanços da integração, justificada pela divergência de interesses (sobretudo económicos) em relação à média comunitária e pelo receio de ver a sua identidade nacional diluída numa Europa federal ou das regiões que vê como a concretização do fantasma que perseguiu a sua história: o receio do domínio espanhol.
Entre o estatuto de país pobre e o de grande potência europeia, a Espanha tem sabido aproveitar da melhor maneira a sua participação na DE. Graças aos governos de Felipe González, Madrid conquistou muito cedo um forte protagonismo político marcado por uma atitude ofensiva em todos os tabuleiros da construção europeia. Dividida entre nações e culturas distintas, a Espanha vê também na Europa o melhor antídoto para a desagregação e o nacionalismo radical. Durante anos, Madrid alinhou com Lisboa na defesa da coesão económica e social. Hoje, prepara-se para exercer plenamente o seu estatuto de país grande e quase rico, nas negociações para o reequilíbrio de poderes dentro da União.
A Grécia talvez seja o país que, pela sua situação geopolítica, mais dificilmente coincide com o interesse geral europeu. Os sucessivos conflitos balcânicos que marcaram a última década colocaram-na quase sempre contra a maioria. O seu eterno conflito com a Turquia repercutiu-se negativamente nas políticas destinadas a aproximar Ancara da Europa. A sua fama de "mau aluno" em matéria de disciplina económica e financeira e de aproveitamento dos fundos comunitários levaram-na a chegar atrasada ao euro. Entre a necessidade de integrar plenamente a União e um nacionalismo entranhado, a Grécia faz o seu caminho aos ziguezagues, mas sem nunca pôr em causa a sua opção europeia.
A Irlanda foi o melhor aluno entre os quatro países da coesão. O sucesso da sua economia mereceu a designação de "milagre" e traduz-se hoje num rendimento per capita a igualar o do seu influente vizinho britânico. Em termos económicos, a Irlanda está cada vez mais à vontade na Europa. Em termos políticos, o seu estatuto de neutralidade, profundamente enraizado na população, reduz o seu protagonismo.

Esta designação esconde realidades distintas e diferentes maneiras de viver o projecto europeu na sua fase actual. Dinamarca. É já um veterano europeu (aderiu em 1973) que soube tirar partido das vantagens económicas da integração. Mas uma opinião pública ciosa da sua identidade nacional, fortemente apegada à NATO, vagamente receosa do colosso alemão e profundamente desconfiada da anárquica e menos desenvolvida Europa do Sul, tem feito da Dinamarca um parceiro reticente, adaptando-se com dificuldade aos avanços políticos iniciados em Maastricht e impedindo a sua adesão ao euro com o grupo da frente.


A Suécia é um país historicamente dominante na região, com uma forte identidade nacional reforçada nos anos da guerra fria pelo estatuto de neutralidade, pelas ambições terceiro-mundistas e pela excelência do seu modelo social, a Suécia apenas entrou na União em 1995, depois de um forte debate interno no qual as razões para aderir foram quase exclusivamente económicas. Membro a contragosto, não faz parte do euro e resiste ao aprofundamento da união política, nomeadamente na sua dimensão externa e de defesa. Em contrapartida, levou para Bruxelas uma cultura de democracia e de transparência que se tem revelado positiva.
País periférico com uma imensa fronteira com a Rússia que marcou a sua história deste século, a Finlândia tem revelado uma grande capacidade de adaptação ao projecto europeu. É membro fundador do euro, vê na Europa a melhor protecção contra a instabilidade da sua fronteira leste, não vê no seu estatuto de neutralidade um obstáculo à plena participação numa nova dimensão política da União.

O fenómeno Haider deu-lhe uma visibilidade que não teve desde que aderiu, em 1995, na sequência do fim da divisão da Europa. Economicamente, a Áustria vive sem problemas a sua integração europeia (a sua economia estava já integrada na economia alemã). Política e socialmente, o seu estatuto de "neutralidade" imposto pela guerra fria e a sua proximidade dos países de Leste fazem-na conviver mal com o projecto europeu. Os austríacos temem que o alargamento abra as portas à "invasão" dos imigrantes de Leste, lidando com dificuldade com um espaço europeu sem fronteiras. As sequelas do ostracismo político que sofreu na União desde a entrada do partido de extrema-direita de Joerg Haider no governo de Viena estão a abalar profundamente as "certezas" de um país que não chegou a fazer as contas com o passado, abrindo um período de verdadeiro debate sobre o que significa partilhar o projecto de integração.



*Teresa de Sousa

Jornalista do Público.











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