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TENHA PIEDADE DE NÓS: A INSTITUIÇÃO ESCOLAR

COMO OBJETO DE PESQUISA
Alexandre Ribeiro Neto

alexandreribeironeto@bol.com.br

NEB/HISTEBR/RJ

O espaço escolar é marcado por disputas políticas para a implementação de projetos, cujo raio de ação vai desde a elaboração de currículos, da carga horárias das disciplinas, do número de alunos em sala, do material didático escolhido até a arquitetura dos prédios escolares, que carregadas de subjetividade são sinais, que nos permitem compreender as sociedades que os construíram.

Nosso projeto em andamento tem como objetivo: compreender o Educandário Nossa Senhora da Piedade, em Paraíba do Sul, utilizamos como marcos cronológicos os anos de 1925 a 1930, no interior do Estado do Rio de Janeiro, que abriga em seu interior, a Escola Municipalizada Condessa do Rio Novo, cujo corpo discente é formado por meninos e meninas da comunidade, e também pelas meninas internas e semi-internas do educandário.

Maria Luiza Marcílio e Philippe Áries apontam que, nos primórdios, não havia prédios públicos e o mestre-escola alugava uma casa, na qual passava a funcionar a escola, demonstrando que a escola funcionava no espaço privado da casa dos professores e professoras.



A escola não dispunha de acomodações amplas. O mestre-escola instalava-se no claustro após livrá-los dos comércios parasitas, ou então dentro ou na porta da igreja. Em geral, o mestre alugava uma sala, uma schola, por um preço que era regulamentado nas cidades universitárias. 1
Para traçar um panorama da história da educação, Áries utilizou como fonte os catálogos, nos quais os diretores e professores atualizavam a idade e a série dos alunos, demonstrando que, no século XIII, os colégios eram asilos para os estudantes pobres: os bolsistas. Houve uma mudança e a partir do século XV essa instituição passou a abrigar professores e administradores. O estabelecimento de um código de disciplina completou a transição da escola medieval, que habitava o interior das catedrais, onde crianças e adultos podiam assistir aulas juntos. O colégio e a escola eram reservados ao clero. No período moderno, foram reservados às crianças no período de sua formação moral e intelectual.

Clarice Nunes, citando Antonio Nóvoa, apresenta a importância da escola, para a transmissão cultural e reprodução de normas sociais. Os escolásticos tradicionais confundiam educação com aquisição de cultura. “A civilização escolarizada, em construção no século XVI e nos seguintes, viu a infância como projeto e a escola como agência fundamental de transmissão cultural e reprodução de normas sociais.”2

Um hábito da Idade Média era a precocidade das crianças ao entrarem na escola, pois essa idéia estava ligada ao sucesso. No século XVIII, houve uma mudança: a repugnância pela precocidade. Até o século XVII, por convenção a Primeira Infância tinha como término a idade de 5-6. Aos 7 anos ele já podia entrar para o colégio. Para as classes de gramática com 9-10 anos. Desde o início do século XV, começou-se a dividir a população escolar em grupos de mesma capacidade.

Ao separar em classes as crianças, eles demonstravam que havia uma conscientização da particularidade da infância ou da juventude. Nem sempre havia coincidência entre a idade cronológica e o desenvolvimento cognitivo.

Faz-se necessário salientar que o processo educacional primava pela educação dos meninos. As meninas eram deixadas em casa aos cuidados das mães, que lhes ensinavam as prendas do lar.

Se a escolarização no século XVII ainda não era o monopólio de uma classe, era sem dúvida o monopólio do sexo. As mulheres eram excluídas. Por conseguinte, entre elas, os hábitos de precocidade e de infância curta mantiveram-se inalterados da Idade Média até o século XVII. 3
Além da educação doméstica as meninas não recebiam nenhuma educação. Eram deixadas a cargo das mães, mulheres semi-analfabetas que deveriam ensinar as meninas a ler e a escrever. Uma outra opção foi mandar as meninas para conventos, que não eram destinados à educação, onde acompanhavam os exercícios devotos e recebiam uma instrução exclusivamente religiosa.

No final do século XVII, as escolas mistas representavam uma tendência em favor da escolarização feminina. “As queixas contra as pequenas escolas mistas e o ensino das ursulinas indicam uma tendência geral em favor da escolarização feminina, mas essa escolarização se iniciaria com um atraso de dois séculos.” 4

A Revolução Francesa foi um marco importante não só no que tange a destruição de velhas práticas do Antigo Regime como também do processo educacional, pois ao operar a transformação do súdito em cidadão foi importante dar aos burgueses e camponeses acesso à educação.

Maria Luiza Marcílio, ao analisar o processo de criação das escolas no Brasil, possui conclusões semelhantes a Áries, dizendo que embora o Marquês de Pombal tenha instituído o ensino público em 1772, as meninas não foram contempladas com essa medida.


As meninas ficaram de fora, sem escola pública. No Reino, só em 1803 haveria as primeiras aulas femininas, com as recém-chegadas Irmãs de caridade francesas. Na cidade de São Paulo, o ensino público feminino só seria regulamentado em 1827, em 1825 foi criado o primeiro seminário para meninas órfãs e desamparadas, na Glória. 5
Walter Fraga Filho também nos remete à diferença no acesso à educação de meninos e meninas na Bahia do século XIX. As meninas eram internadas na Santa Casa de Misericórdia ou no Recolhimento de São Raimundo, e os meninos eram mandados para o Arsenal de Marinha ou deixados a cargo de mestres de ofício. Poucos (meninos) eram internados no Orfanato de São Joaquim.

Dois pontos são importantes nas citações acima. São eles: a diferença no acesso à educação e o trabalho das irmãs de caridade na educação de meninas desvalidas. Cinqüenta e oito anos depois da cidade de São Paulo, em Paraíba do Sul, foi criada uma instituição com o mesmo objetivo.

Cumprindo o testamento de Dona Mariana Claudina Pereira de Carvalho, Condessa do Rio Novo, casada com o Visconde do Rio Novo, sem filhos, mandou que se fundasse uma casa de caridade, em 4 de Abril de 1883, na cidade de Paraíba do Sul, e que a mesma deveria ser dirigida pela Irmandade Nossa Senhora da Piedade.

Para efetividade destas disposições deixo à Casa de Caridade da Paraíba do Sul a minha fazenda de Cantagalo, com todas as suas terras, edifícios e benfeitorias, cafezais, animais, instrumentos e utensílios agrícolas e móveis pertencentes à mesma. 6
A Condessa, ao mandar fundar a Casa de Caridade, deixou para a mesma, terras, móveis, aluguéis e apólices da dívida pública, para que ela pudesse sustentar os menores que abrigaria em seu interior.

Walter Fraga Filho traça um perfil da sociedade baiana, do século XIX, ao analisar, os mendigos, moleques e vadios. O autor apresenta o abandono de crianças como indicador de pobreza. “Sinais desses dramas seriam as dezenas de recém-nascidos diariamente abandonados nas portas das igrejas e dos conventos por pais empobrecidos e sem condições de sustentá-los”.7

Os nobres percebendo a chegada da morte, doavam seus bens a Igreja, alforriavam escravos, mandavam seus herdeiros construírem escolas, e orfanatos para aplacar a ira divina, para garantir o seu pedaço no céu, para não serem esquecidos, perpertuando assim seu nome na sociedade dos vivos.

A usura é um pecado. Por quê? Que maldição atinge essa bolsa que o usuário enche, adora e da qual não quer se separar mais do que Harpagão de seu tesouro e que o conduz à morte eterna? Para salvar-se será preciso separar-se da bolsa, ou encontrarão para ele, o meio de guardar a bolsa e a vida eterna? Eis o grande combate do usuário entre a riqueza e o Paraíso, o dinheiro e o Inferno.8


Podemos perceber rupturas e permanências com o pensamento acima. A vontade póstuma da Condessa do Rio Novo, de realizar após a sua morte, aquilo que ela não realizou em vida. Le Goff ao analisar a Idade Média, elege a religiosidade como objeto de pesquisa, trazendo a tona questões como: a usura, o medo da morte, a subjetividade dos camponeses, comerciantes e nobres.

Temia-se, e muito, a morte sem aviso, sem preparação, repentina, trágica e, sobretudo sem funeral e sepultura adequados.(...) Os ricos, sobretudo inspirados na morte dos soberanos, faziam de seus funerais e missas fúnebres um espetáculo barroco, para usar a expressão de Vovelle, e especificavam tudo cuidadosamente em testamento. O funeral barroco se caracterizava pela pompa: o luxo dos caixões, dos panos funerários, a quantidade de velas queimadas, o número de confrarias, músicos, autoridades, convidados –a, solenidade e o número das missas de corpo presente, a decoração da igreja, o prestígio do local escolhido para a sepultura.9

João José Reis enriquece o quadro anterior ao discutir os rituais que cercavam o funeral, transformando-o numa verdadeira festa. Tudo deveria ser organizado, as pessoas deveriam ser dispostas segundo a sua posição social, o finado deveria deixar especificado em seu testamento o numero de missas, o lugar onde gostaria de ser sepultado.

O testamento da Condessa do Rio Novo não é diferente do testamento deixado por outras pessoas de igual condição. O que a torna nosso objeto de estudo é que entre as suas vontades póstumas encontrava-se o desejo de fundar uma escola, não para os herdeiros da elite sul paraibana, da qual ela fazia parte, mas sim para as meninas desvalidas.

Pesquisando em dicionários da Língua Portuguesa percebemos que há consenso em torno da definição de desvalido. O dicionário Aulete Caldas define desvalido como: “Que ou quem é desprotegido, desamparado. 2 Que ou quem é pobre, miserável.3 Que ou quem não tem valia.”10 No Dicionário Gama Kury11 entre as definições apresentadas chama a nossa atenção a definição de desvalido como desgraçado; infeliz. Domingos Paschoal Cegalla, amplia a definição de desvalido ao apresenta-lo como “1. Pessoa social e economicamente sem proteção.”12

Os dicionários definem os desvalidos mais pela ausência, do que pela presença de característica, chegando mesmo a classificá-los com infelizes, ou seja, pela ausência de uma vida feliz.Seriam eles indivíduos sem nenhuma virtude? Como forma da identidade de um grupo, pela sua vivência, ou pelo olhar do outro grupo?

No mesmo estilo arquitetônico da Escola Normal de São, erguida na Praça da República. A base do edifício era de pedras, o que lhe dava solidez, as linhas retas em sua fachada apresentavam ao mesmo tempo a sobriedade e leveza. No frontão triangular foi esculpida a figura de um pelicano, ave que simbolizava o cuidado com os desvalidos. O simples movimento de águas do telhado conferia a obra modernidade

Um imponente edifício em estilo neoclássico, erguido no alto do morro de Santo Antônio, seria o abrigo das meninas desvalidas, na foto abaixo, não consta o hospital de lázaros, que também fazia parte das vontades póstumas da Condessa do Rio Novo. A Capela de Nossa Senhora das Graças, em estilo neogótico, que completa o conjunto de prédios foi construída depois em 1923.

A planta do edifício da Casa de Caridade de Paraíba do Sul, inaugurado no dia 8 de dezembro de 1882, foi desenhada pelo engenheiro e arquiteto Dr. Caminhoá e executada pelo engenheiro civil Francisco Rossi. Na parte mais alta da fachada, a Condessa do Rio Novo mandou que fosse esculpida a figura de um pelicano simbolismo que significava para ela a preocupação com o bem geral, com o sofrimento das crianças pobres e órfãs, para os inválidos e doentes sem recursos. O primeiro Provedor foi Dr. Leandro Bezerra Monteiro. As irmãs de caridade chegaram ao asilo em 4 de Abril de 1883. A primeira superiora foi a irmã Lúcia Guinhal. 13

Uma característica em comum de ambos é a intencionalidade, ou seja, eles foram projetados para serem escolas, o de São Paulo seria adotado como modelo para outras construções, o que lhe confere um sentido pedagógico, demonstrando o ideal de ordem e progresso, inspirados em obras positivas, que ganharam materialidade nas construções republicanas, que especificavam os lugares, que separavam cômodos, ventilavam as áreas para promover a saúde e, afastar a idéia de cortiços e instalações adaptadas para funcionar como escolas.

Em Paraíba do Sul, entre áreas alagadas, pelas cheias do rio, que dá nome a cidade, nada melhor do que escolher o alto de um morro, para construir um edifício seguro. A cidade do Rio de Janeiro, em tempos pretéritos também iniciou a sua urbanização entre os morros Pão de Açúcar e Cara de Cão, e depois mudou-se para o alto do Morro do Castelo, descendo lentamente para ocupar as áreas aterradas. Assim percebemos que algumas características comuns da colonização portuguesa na ocupação dos diferentes espaços, em diferentes cidades.

Nos relatórios do provedor Randolpho Penna Junior são longos os relatos sobre as medidas necessárias para a conservação do prédio. O mesmo provedor concede a irmã superiora à possibilidade de efetuar reparos nas instalações do prédio.”Art. 5º a Irmã Superiora poderá mandar fazer reparos urgentes no edifício do Asilo, comunicando depois ao Provedor.”14

Maria Lúcia Spedo Hilsdorf ao pesquisar as meninas desvalidas em São Paulo, utiliza como fonte primária à série de ofícios Diversos da Capital, do Arquivo do Estado de São Paulo. O objetivo da autora e conhecer o Seminário de Educandas desligado da Roda dos expostos, com a hipótese de que o mesmo possui função educativa. Dialogando com os autores que se dedicam ao mesmo objeto, apresenta um rico debate sobre a educação feminina.

A autora também apresenta a dificuldade para realizar a manutenção do prédio, onde as educandas moravam.Apresentado os relatos da diretora da instituição e da comissão fiscalizadora da Câmara Municipal.

Desde os primeiros relatórios de visita das comissões fiscalizadoras da Câmara Municipal o prédio da chácara e seus móveis e utensílios são descritos como “ruína”. Em fins de 1829, os ofícios da diretora Eliziária Cecília, solicitando várias providências concernentes à segurança e ao conforto dos moradores, dão bem uma idéia da precariedade das instalações: ele pedia “retelhamento da casa, reparo dos murros, fechamento com taipa do quintal ao lado da varanda [sala de jantar] e cozinha, grades nas janelas, e portões na entrada e no quintal com fechaduras seguras”. A Comissão de visitas de 1830 concordou: “os forros estavam arruinados” e os “murros da cerca [horta] caídos.”15
O nosso objeto de estudo possui uma singularidade em relação ao seu congênere de São Paulo, pois não conta com o auxílio do governo para manter a educação das meninas. Todas as reformas feitas no prédio eram financiadas pelos próprios recursos da Irmandade. A Mesa Administrativa anualmente votava um orçamento, no qual após debates com os membros da irmandade, estabelecia as prioridades, entre elas estava a manutenção do prédio.

Através de pequenas reformas, vendas de imóveis, e também, a compra de loterias do governo e as transações com as ações da dívida pública. As instalações do Seminário das Educandas, de São Paulo, eram tão ruim que foi sugerido a mudança para um prédio melhor, mais ainda assim as condições de higiene, e o espaço não era suficiente para atender plenamente as necessidades das meninas.

Em 1831, a comissão fez uma sugestão que seria aproveitada posteriormente: mudar o Seminário para a cidade, no Açu, para a casa que servira até pouco tempo de quartel do 7º Batalhão de Caçadores, e antes, de Hospital Militar, uma construção grande e segura, que estava desocupada. Mas demoraram para fazer a mudança. Na visita de fins de 1833, ainda se falava do mau estado das instalações da Chácara da Glória: canos de água da cozinha e do tanque de roupas, arrebentados, falta de bancos na “sala de escrever”, de modo que as meninas trabalhavam em pé, apoiadas em uma grande mesa, e dormitórios muito pequenos, obrigando as educandas a dormirem aos pares na mesma cama.16
Carlos Monarcha em seu texto sobre Arquitetura escolar republicana: a escola normal da praça e a construção de uma imagem de criança. Lança luzes importantes sobre a importância da escola normal dentro da sociedade.

“Concebido como cellula mater do aparelho escolar paulista e, por extensão, da própria sociedade, o edifício da Escola Normal da Praça torna-se os padrões a ser adotado na construção dos grupos escolares e escolas normais do estado de São Paulo, na virada do século XIX para o XX.”17


A escola estava no coração da cidade, e ordenar as construções escolares através de influências das idéias sanitaristas, médicas e jurídicas era também estabelecer ordem na sociedade, que ainda carregava resquícios da monarquia. Possui também o desejo de separar o público do privado, pois a falta de prédios escolares obrigava ao professor a alugar uma casa, e nele instalar a escola.

Ambos os autores estudam instituições escolares, na mesma cidade, porém em períodos diferentes. Monarcha analisa o período republicano, Hilsdorf o período monárquico. Duas instituições diferentes, na mesma cidade em períodos com públicos diferentes, e em bairros diferentes. Uma construída para abrigar os normalistas, outra para abrigar meninas pobres, e pensionistas.

A escala monumental, o estilo histórico, o isolamento do edifício ornamentado por oito estátuas de olhar fixo e pétreo – alegorias das Artes e das Ciências – circundado por jardins sinuosos e gradis de ferro artisticamente trabalhados, e a iluminação produzida por lâmpadas de arco voltaico, todos esses aspectos conferem aparência européia ao conjunto arquitetônico, simbolizando para os homens da época a presença do mundo moderno e seus princípios fundamentais: civilização, técnica, progresso, laicidade, igualdade e democracia.18
É muito grande o contraste apresentado entre as duas instituições. O Seminário das educandas é marcado pela ausência, mesmo quando, mudou-se para um novo endereço, a carência de condições necessárias continuou. O mesmo não pode ser dito da Escola Normal Caetano de Campos, que é descrito pela presença. A descrição pormenorizada do autor, que apresenta um prédio construído para abrigar a nata da sociedade.

Novas luzes, que subjetivamente nos permitem ler como o primado da razão, do pensamento científico.Os jardins sinuosos, recuperando uma idéia em voga, de reproduzir artificialmente o movimento da natureza.Com o objetivo maior, de conferir aos trópicos ares de civilidade européia. Dentro do ideário republicano não poderia faltar, o progresso representado na escala monumental do prédio e na iluminação composta pelos arcos voltaicos, ou seja, aquilo que havia de mais moderno estava presente na Escola Normal Caetano de Campos.

Não podemos esquecer que um Estado que se quer laico, não pode abrir mão da instrução de seus melhores filhos. Ainda assistiremos uma longa luta no campo educacional entre o Estado e a Igreja. A separação proposta pelo modelo republicano, era nova e precisava de tempo para assentar suas bases. Não podemos pensar que essa separação se deu sem deixar fraturas. Ainda era tênue a ligação entre ambos, e a todo o momento, se deseja forjar a identidade do Estado negando a presença da Igreja, através de substituição dessa instituição, pela instituição escolar que agora ocupa as melhores praças da cidade.

A calma da noite foi abalada, pelo repicar dos sinos da Igreja Matriz de São Pedro e São Paulo, em Paraíba do Sul, interior do estado do Rio de Janeiro, que convidava os populares a prestar socorro, as meninas e as irmãs vicentinas, pois o prédio que durante anos as abrigou, ardia em chamas. Até mesmo quem morava mais distante percebeu, que o badalar dos sinos, era uma convocação especial, os sinos deixaram de servir apenas para anunciar as missas e a hora da Ave Maria.

Foi assim, sobressaltados, que muitos acordaram naquela noite, alguns pelo badalar do sino, outros por vizinhos, que ao olharem o céu perceberam o clarão das chamas, que o iluminava. Era fogo, e não era de São João e nem de São José, como nos fala Manuel Bandeira19 em sua obra. Sensibilizados, os homens correm em direção ao morro, para tentar apagar as chamas, que devorava o belíssimo prédio em estilo Neoclássico, que de longe se avistava suas linhas majestosas. Foi em de 1955, esse ano entrou para a história sul paraibana, como o ano do incêndio da Irmandade Nossa Senhora da Piedade.

Esse incêndio queimou a memória da cidade, pois grandes partes dos documentos históricas da Irmandade viraram cinza, restando apenas fragmentos que nos permitem recuperar a experiência das meninas desvalidas, no interior de um espaço escolar, marcado por disputas, e também por consensos em torno de questões centrais, dentre elas a necessidade de educar os pobres preparando para o trabalho. Do prédio em estilo Neoclássico sobraram apenas fotografias, pois mesmo o incêndio, não tendo atingido a estrutura do prédio, ele foi posto no chão, e em seu lugar foi erguido outro, que em nada lembra a grandiosidade do seu antecessor.

Ouçamos um a voz dos representantes do Estado, responsáveis pela tarefa de educar, tentando apresentar as lutas históricas pela apropriação do espaço escolar. Os mesmos tentam a partir de relatos de populares e dos poucos documentos, que sobraram do incêndio criar uma identidade para a escola.

“Através de informações verbais obtidas de pessoas portadores de reconhecida idoneidade moral de nossa Comunidade, pudemos montar o seguinte documento:

Em seu testamento, a Condessa do Rio Novo, legou à Casa de Caridade de Paraíba do Sul, então Asilo Nossa Senhora da Piedade, sua fazenda e apólices de seguro e exigiu que junto a esta casa, funcionasse uma escola com a finalidade de atender às asiladas.

De início, a escola foi dirigida pelas próprias irmãs como escolar particular. Em 1925, pelo decreto n. º 2.106 de 02/03/1925, foi criada a Escola Estadual, com o nome de Escola Asilo Nossa Senhora da Piedade, tendo por finalidade atender não só as asiladas, assim como as crianças da periferia. Assim continuou até a década de 1960, quando foi extinta, voltando a ser mantida pela Irmandade.

Em 1969, a pedido do chefe da Inspectoria de Ensino de Paraíba do Sul, Sr, Manoel Gonçalves d`Ascensão, a Escola estadual foi reativada com o nome Escola estadual Condessa do Rio Novo, através do Decreto 14.399 de 14/11/1969, com professores mantidos pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. Não há nenhum documento oficial de comprovação. Em Março de 1955, a referida Casa foi vitimada por um incêndio, no qual perdeu-se toda a documentação.

Atenciosamente

Maria Nilda de Addazio Cabral pela Direção.”20
Não demorou muito tempo, em 1969, a escola voltou a ser dirigida e seus professores pagos pelo governo do estado do Rio de Janeiro. Embora o Estado pague aos professores, ele não detem a posse do prédio, que continua sob o controle da Igreja via Irmandade São Vicente de Paula. Por que o prédio não foi desapropriado? Por que o Estado se faz representar pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, e não pelo governo da municipalidade.

Apresento como hipótese que, criar uma escola específica para esse grupo social fazia parte da demanda social por escolarização da classe trabalhadora, pois a inserção social dessas meninas no mundo do trabalho, através da realização de pequenos trabalhos como pintura, bordado e trabalhos manuais.Elas eram alvo da caridade religiosa, logo reuni-las num único espaço viabilizava a ação da Igreja, e também, dos demais devotos, que através da caridade mostravam bondade e, marcavam o seu lugar na sociedade.

O caminho de conciliação encontrado pelo Estado e Igreja, chama a nossa atenção, pois o Estado poderia ter desapropriado o prédio, mas não o fez temendo a reação católica, e também não podemos esquecer que isso apresentaria um resultado negativo nas urnas, que modificaria as relações de forças.

O Estado possui diferentes esferas de atuação, a federal, estadual e municipal, cada uma delas, com suas atribuições e competências, a educação é dividida entre eles, em alguns casos a lei atual, permite que a essas esferas atuações semelhantes. Por exemplo, o Colégio Pedro II, possui ensino fundamental, que seria de obrigação dos municípios, o Colégio Estadual Maria Zulmira Torres, também possui ensino fundamental. As fronteiras entre as instâncias de poder dentro do próprio estado nem sempre são precisas.

Através Atas da Câmara dos Vereadores, do ano de 1925, no orçamento destinado a instrução pública, a quantia de 17:000$000 (dezessete contos de réis) para o pagamento de 17 professores mantidos pelo município. Com isso quero dizer que havia pessoal qualificado para a função. , dentro dos quadros municipais. Esses professores trabalhavam em prédios municipais, com isso quero dizer que as meninas poderiam ser distribuídas entre as escolas mantidas pelo município.

Vejamos a lista de escolas municipais e estaduais e privadas presentes em Paraíba do Sul:

Lista de Escolas de Paraíba do Sul21


  1. Escola Estadual Albino Antônio de Barros (Municipalizada)

  2. Escola Estadual Andrade Figueira (Municipalizada) – A primeira Escola estadual fundada em Paraíba do Sul.

  3. Escola Estadual Barão de Palmeiras

  4. Escola Estadual Bezerra de Menezes

  5. Escola Estadual Carvalhais (Fechou)

  6. Escola Estadual Condessa do Rio Novo (Municipalizada)

  7. Escola Estadual Fazenda da Colônia (Fechou)

  8. Escola Estadual Ipê (Fechou)

  9. Escola Estadual La Fonteine (Fechou)

  10. Escola Estadual Santo Antônio do Rio Manso (Fechou)

  11. Escola Estadual Sebastião Lacerda (Fechou)

  12. Escola Estadual Vereador Ignácio Coelho (Municipalizada)

  13. Escola Estadual Vereador Francisco Pereira Paredes (Fechou)

  14. Escola Estadual Horácio de Mello (Municipalizada)

  15. Escola Estadual Paulo Lacerda (Municipalizada)

  16. Escola Estadual Manoel Vaz (Municipalizada) – Hoje atende a crianças com necessidades especiais com o nome de NUMES

  17. Escola Estadual Sarah Faria Braz (Municipalizada)

  18. Escola Estadual Monsenhor Francisco

  19. Escola Estadual Lions Clube de Paraíba do Sul.

  20. Escola Estadual Maria Zulmira Torres

  21. Jardim de Infância Pedro Gomes (Fechou)

  22. Escola Estadual Quirino Pinheiro (Fechou)

  23. Escola Estadual Irmã Montedôneo (Municipalizada)

  24. Escola Estadual Prefeito Rocha Werneck (Municipalizada)

  25. Escola Estadual Nicolau Visconti (Municipalizada)

  26. Escola Estadual Norberto Leal (Municipalizada)

  27. CIEP Haroldo Machado de Barros (Municipalizada)

  28. Escola Estadual Coronel Mariano de Paiva (Fechou)

  29. Colégio Sul Fluminense (Fechou)

  30. Cnec - Colégio Cenecista Sul Paraibano

  31. Centro Educacional São Bento

  32. Colégio Esquina do saber

A longa lista apresenta um aspecto interessante, como a esfera estadual lentamente foi se desobrigando da educação em Paraíba do Sul. As escolas e colégios particulares são citados, sem levar em conta o ano de fundação dos mesmos, apenas para mostrar que se no passado, o governo se fazia representar através da esfera pública estadual, agora não mais. Houve um crescimento da esfera municipal, mas esse crescimento se deu não pela construção de uma rede autônoma, e sim da apropriação de prédios de escolas públicas estaduais, atualmente apenas 5 escolas representam a rede estadual de ensino em Paraíba do Sul.

Sem perder de vista o eixo principal do artigo, apresentei a lista de escolas para situar a singularidade da Escola Municipalizada Condessa do rio Novo, que funciona no interior do Educandário Nossa Senhora da Piedade.

Mas não é nosso objetivo analisar a história das instituições escolares do ponto de vista dos grandes homens, ao contrário, queremos apresenta-la do ponto de vista dos homens comuns, estabelecendo um diálogo entre Jim Sharpe, autor do Artigo a História Vista de Baixo, o Paradigma Indiciário apresentado por Carlo Guinzburg, e Eric Hobsbawm, eu seu Livro Sobre História. Utilizando as contribuições dos autores, como aportes teórico-metodológicos, que nos permitem compreender melhor nosso objeto de estudo, as fontes primárias, e a montagem do quebra - cabeças, formado pelos fragmentos do passado, e pelas nossas perguntas, que nos permitem um exercício imaginativo sobre a experiência dos homens em tempos pretéritos.

Durante as duas últimas décadas, vários historiadores, trabalhando em uma ampla variedade de períodos, países e tipos de história, conscientizaram-se do potencial para explorar novas perspectivas do passado, proporcionando por fontes como a correspondência do soldado Wheeler com sua esposa, e sentiram-se atraídos pela idéia de explorar a história, do ponto de vista do soldado raso, e não do grande comandante.22
Jim Sharpe em seu artigo defende uma outra possibilidade de escrita da história, a dos homens comuns, na qual os trabalhos do historiador inglês E. P. Thompson representam um marco importante, para a história vista de baixo. Ao analisar a formação da classe operária.

Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas, o meeiro ludita, o tecelão do “obsoleto” tear manual, o artesão “utópico” e mesmo o iludido seguidor de Joanna Southcott, dos imensos ares superiores de condescendência da posteridade. Seus ofícios e tradições podem estar desaparecendo. Sua hostilidade frente ao novo industrialismo podia ser retrógrada. Seus ideais comunitários podiam ser fantasiosos. Suas conspirações insurrecionais podiam ser temerárias. Mas eles viveram nesses tempos de aguda perturbação social, e nós não. Suas aspirações eram válidas nos termos de sua própria experiência; se foram vítimas acidentais da história, continuam a ser, condenados em vida, vítimas acidentais.23


Ao se debruçar sobre a formação da classe operária inglesa, o autor traz a luz à experiência de pessoas comuns, como tecelões, camponeses, que expulsos dos campos, pela Revolução Industrial passaram a morar, e trabalhar nas cidades, dispondo unicamente da sua força de trabalho. Pessoas comuns e muito diferentes entre si, que formam chamadas de classe operária, que possuíam origens diferentes, e lutas contra a exploração do capital. Dessa forma, Thompson nos auxilia na compreensão da história vista de baixo.

Além de se dedicarem aos homens comuns, essa vertente de análise historiográfica, também utiliza outras fontes primárias como cartas, jornais de sindicatos de trabalhadores, revistas e processos criminais. Contudo, elas não são abundantes para todos os períodos da história, o que dificulta a adoção dessa perspectiva de análise histórica, para períodos muito distantes no tempo.


Em recente publicação Eric Hobsbawm num exercício analítico escreveu um artigo sobre os desafios da história vista de baixo, apresentando as contribuições dos pioneiros como George Rude e Jules Michelet, que analisou a Revolução Francesa, segundo Hobsbawm é um marco na análise dos movimentos populares, que nos mostra a importância de montar um quadro teórico, para que possamos compreender o passado, a importância do tempo para a maturação dos resultados, os problemas na utilização das fontes orais, a importância da criatividade e da imaginação histórica aliada a um grande número de informações.

Isso porque nosso problema não é tanto o problema de descobrir uma boa fonte. Mesmo a melhor das fontes – digamos, as fontes demográficas sobre nascimentos, casamentos e mortes – apenas esclarece certas áreas daquilo que as pessoas fizeram, sentiram e pensaram. O que normalmente devemos fazer é reunir uma ampla variedade de informações em geral fragmentárias: e para isso precisamos, se me perdoam a expressão, construir nós mesmos o quebra-cabeças, ou seja, formular como tais informações deveriam se encaixar.24

Eric Hobsbawm muda o eixo da discussão, sobre a importância das fontes primárias na pesquisa histórica. Ao declarar que nenhuma fonte é capaz de cobrir todos os aspectos da experiência dos homens em sociedades, o autor nos chama a construirmos o quebra-cabeça, a partindo da variedade de informações e da formulação de hipóteses para chegar ao possível funcionamento das instituições, grupos, ou mesmo da mentalidade dos homens em tempos pretéritos.

Um outro aliado do pesquisador deve ser a imaginação e a criatividade, que aliadas a teoria, permitem ao pesquisador desconfiar de informações contidas no texto, e fazer uma leitura crítica, construindo verdades provisórias para testar iluminar ares nubladas.

Assim, com maior ou menor criatividade, aquilo que o poeta chamava de anais simples dos pobres – os meros registros de nascimento, casamento e morte, ou a eles associados – podem render quantidades surpreendentes de informação.(...) Também precisamos de imaginação – de preferência associada com informações –a fim de evitar o maior perigo do historiador, o anacronismo.25
O historiador divide a pesquisa em três passos. São eles: Primeiro identificar as peças do quebra-cabeça que precisam ser encaixadas; o segundo analisar cuidadosamente, sem impor uma construção arbitrária aos fatos. E o terceiro passo é que não sabemos todas as respostas sobre a sociedade, e que o processo de descobri-las não é simples.

Nosso trabalho de pesquisa utiliza como fonte primária: relatórios dos Compromissos dos anos de 1925 a 1930 no qual há os nomes, as idades meninas quando entraram e também com que idade elas saíram. Algumas possuem os mesmos sobrenomes, e uma pequena diferença de idade, por nos permite levantar como hipótese, que elas são irmãs. Para comprovar essa hipótese será preciso buscar em outros documentos como certidão de nascimento, ou óbito, que contêm informações sobre os pais.

Essa possibilidade não está descartada, porém apresenta alguns problemas práticos. Que agora passo a enumerar:


  1. Em caso de certidão de óbito, a falta da data exata da morte, nos levará a uma busca incessante nos Cartórios da cidade, pois nos fará pesquisar livro por livro até encontrar os nomes procurados. Outro problema também é se elas mudaram de cidade, e não morreram em Paraíba do Sul, seus nomes não constaram nos livros de óbitos dos cartórios.

  2. No caso de optarmos pela certidão de nascimento, os frutos podem ser maiores, pois a pesquisa em Cartórios seria pelo ano de nascimento, que consta nos relatórios e pelo nome.

Os relatórios são redigidos pelo Provedor Coronel Randolpho Penna Junior, que ficou no cargo durante por mais de 36 anos. Assinados também pelo tesoureiro e endereçados ao Bispo. Nele percebemos a formação de um homem da caserna, administrando uma instituição, muito diferente de um exército. Ele não ignora os protestos dos populares no ano de 1925, nas portas do edifício que abrigava as meninas desvalidas, e também as irmãs vicentinas. Mas os apresenta com outro sentido: como se fosse ingratidão.

O texto é ricamente tecido por palavras escolhidas que apresentam as venturas e desventuras do provedor Randolpho Penna Junior, que para proteger o Patrimônio da Irmandade lançou mão, do patrimônio dos ex-escravos. No Início da citação ele diz desconhecer as pessoas que praticaram tal ato, pois a quem interessaria amedrontar as Irmãs e as meninas?

Em 19 de Janeiro e nas noites subseqüentes, durante mais de um mês, apareceram nas imediações do Asilo N. S. Piedade, grupos de pessoas suspeitas, tentando forçar as portas do edifício e promovendo algazarras. Tomando as providências, que o caso requeria, na impossibilidade de se chegar a reconhecer os autores de tal audácia, que pôs em sobressalto as Irmãs de S. Vicente de Paula e amedrontou as internas, obrigando os amigos desta casa que pressurosos correram em defesa delas, a fazer uso de armas de fogo, em respostas ás provocações dos desordeiros, ficamos na defensiva até que com providencial nomeação do Dr. Oscar Penna Fontenelle para Chefe de Polícia do Estado cessou, de uma noite para a outra a brincadeira de mau gosto. Coincidindo, porém, o atentado, a que me referi com o início da defesa que na qualidade de provedor, entendi fazer, devidamente autorizado pelo Revdo. Monsenhor José Maria Parreira Lara, hoje Bispo de Santos, do Patrimônio desta Instituição, seriamente ameaçado pelo interdito proibitório requerido contra Domingos Soriano Guimarães, arrendatário da Casa de Caridade, por dois intitulados ex-escravos da veneranda Condessa do Rio Novo. Provavelmente houve quem aconselhasse os pobres pretos a cuspirem nas mãos dos que nunca pensaram em lhes fazer mal.26

No final do texto ele, liga a algazarra ao litígio pelas terras, e ainda chama os negros de ingratos, pois não reconheciam o gesto da Condessa de lhes dar a liberdade, como se a liberdade por si só bastasse, não era a liberdade que estava em jogo, e sim, a terra, o segundo “presente”. É impressionante como já na vigente da República, os laços do passado, sobretudo, a escravidão ainda era presente no dia-a-dia. A cidadania ainda não era plenamente exercida pelos homens de cor.

Não podemos esquecer que, são as nossas perguntas que orientam a escolha das nossas fontes, e não ao contrário, pois cada tipo de pesquisa apresenta problemas metodológicos específicos.

Em muitos casos, o historiador dos movimentos populares descobre apenas o que está procurando, não o que está esperando por ele. Muitas fontes para a história dos movimentos populares apenas foram reconhecidas como tais porque alguém fez uma pergunta e depois sondou desesperadamente em busca de alguma maneira – qualquer maneira – de responde-la. Não podemos ser positivistas, acreditando que as perguntas e as respostas surgem naturalmente do estudo do material. Em geral, não existe material algum até que nossas perguntas o tenham revelado.27

Nosso trabalho de pesquisa é um estudo de casos, dessa forma fizemos uma opção metodológica pelo Paradigma Indiciário, proposto por Carlo Guinzburg, para desvendar os diversos fios, que recobrem o tecido social, com perdas documentais que seriam relevantes, para recuperar a experiência das meninas desvalidas, no Educandário Nossa Senhora da Piedade. Como não há uma pesquisa anterior sobre a mesma instituição, pois as pesquisas anteriores sobre a cidade, ora se preocuparam com aspectos políticos, ora com aspectos econômicos, dentro da vertente da história dos grandes homens, dos vultos históricos.

Da publicação de Capítulos de História de Paraíba do Sul, por Pedro Gomes28, no qual analisa a fundação da cidade por Garcia Rodrigues Paes em 1681, em busca de pedras preciosas. O autor traça a lenta evolução urbana da cidade de partindo das primeiras fazendas, que formaram os primeiros núcleos urbanos. Não há um capítulo específico sobre a Irmandade, sobre as meninas desvalidas, ou mesmo sobre as demais instituições escolares.

Ezilma M. Teixeira29, ao analisar A Capela Nossa senhora da Piedade, procura entender a formação arquitetônica da mesma, e a importância do edifício religioso para a propagação da fé católica e a devoção de São Sebastião pelos habitantes de Três Rios. Embora a cidade tenha pertencido, a cidade vizinha, ela não faz menção a data de emancipação, nem mesmo estabelece ligações entre as vontades póstumas da Condessa, que ao mandar erguer a Capela citada acima, mandou também erguer o Educandário e o hospital. As fontes primárias e a bibliografia cobrem apenas a cidade de Três Rios.

Renata Augusto Barbosa30 em recente dissertação de Mestrado em História Social, intitulada: De fuga a Devoção: Os quilombos e a Irmandade do Rosário de Paraíba do Sul, trás a baila a discussão sobre a formação de quilombos na cidade, e as ligações entre o mundo do trabalho representado pela lavoura de café, e o mundo das festas e folguedos religiosos.

Isabela Torres Innocêncio31 que analisa a questão agrária em Paraíba do Sul, estudando a partir de um grande acervo de fontes primárias, as ligações entre a colônia agrícola do Cantagalo, fundada por libertos. A autora faz uma ligação entre a Irmandade Nossa Senhora da Piedade, e os ex-escravos da Condessa, porém não menciona a instituição escolar fundada pela mesma, nem mesmo as meninas desvalidas. Seu livro oferece pistas sobre as fontes primárias para o estudo da história da cidade, embora o período estudado por ela, a segunda metade do século XIX, seja diferente do analisado nessa pesquisa.

March Bloch nos desafia a conhecer os homens, procurando as pistas deixadas por eles nos documentos, nas instituições e nos utensílios. O mesmo nos adverte, caso não alcancemos o objetivo de conhecê-los, de sermos quando muito, servente da erudição.

“O objecto da história é por natureza o homem (4). Melhor os homens. Mas do que o singular, favorável à abstração, convém a uma ciência da diversidade o plural, que é o modo gramatical da relatividade. Por detrás dos traços sensíveis da paisagem, dos utensílios ou das máquinas, por de trás dos documentos escritos aparentemente glaciais e das instituições mais distanciadas dos que a elaboraram, são exactamente os homens que a história pretende apreender (5). Quem não conseguir será, quanto muito e na melhor das hipóteses, um servente da erudição. O bom historiador, esse assemelha-se ao mostro da lenda. Onde farejar carne humana é que está a sua caça.”32


Muitos pesquisadores em diferentes épocas e lugares, respondem ao desafio lançado por March Bloch. Movidos pela dúvida, e pela vontade de explicar como teriam vivido os homens que nos antecederam? Quais eram seus projetos de vida? O que realizaram era o que haviam planejado? As disputas que envolvem a construção de instituições escolares, partidos políticos. Como percebiam a passagem implacável do tempo, que como a areia do deserto se vai lentamente, porém deixa suas marcas indeléveis da paisagem e nas sociedades.Tantas perguntas! Elas ainda aguardam as respostas, elas ainda aguardam pesquisas, que partindo dos vestígios deixados pelos homens,os façam falar novamente.

FONTES PRIMÁRIAS

Arquivo da Irmandade Nossa Senhora da Piedade

Série Relatórios dos Compromissos apresentados pelo provedor Coronel Randolpho Penna Júnior às autoridades eclesiásticas de Barra do Piraí. Datas Limites: 1925-1930. Paraíba do Sul, Tipografia Leuzinger.

Testamento da Condessa do Rio Novo. Gráfica Três Rios, 1966, 7p.

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1 Philippe Áries. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro, LTC, 1981, 108p.

2 Clarice Nunes. Historiografia da educação e fontes. In: GONDRA, José Gonçalves. (org) Pesquisa em História da educação no Brasil. Rio de Janeiro, DP&A, 2005. p 21.

3 Philippe Áries. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro, LTC, 1981, 125p.

4 IDEM, IDEM, 126p.

5 Maria Luiza Marcílio. História da Escola em São Paulo e no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: instituto Fernand Braudel, 2005.21,22p.


6 Testamento da Condessa do Rio Novo. Gráfica Três Rios, 1966, 7p.

7 Walter Fraga Filho. Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX. Bahia, EDUFBA, 1996.28p

8 Jacques Le Goff. A Bolsa e a Vida: A usura na Idade Média. São Paulo, Brasiliense, 1995,15p.

9João José Reis. A morte é uma festa: Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo, Companhia das Letras, 1991. 74p.

10 AULETE, Caldas. Minidicionário contemporâneo de língua portuguesa/caldas aulete [atualização do Banco de Palavras, Conselho dos Dicionários Caldas Aulete] editor responsável Paulo Geiger, apresentação Evanildo Bechara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p.268.

11 ROSA, Ubiratan. (org.) Minidicionário Gama Kury da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 2001, p.248.

12 CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário escolar da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005, p.303.

13 Relatórios dos Compromissos Ao Exmo. & Revdo. D. Agostinho Francisco Bennassi Sr. Bispo de Niterói, 1925.

14 Relatórios dos Compromissos apresentados pelo provedor Coronel Randolpho Penna Junior, 1926.

15Maria Lúcia Spedo Hilsdorf. Tão Longe, tão perto: as Meninas do seminário. In: Maria Stephanou & Maria Helena Câmara Bastos (orgs.) História e Memórias da Educação no Brasil, Vol II: Século XIX. Petrópolis, Vozes, 2005,58p.

16 Op cit, 58p.

17 Carlos Monarcha em seu texto sobre Arquitetura escolar republicana: a escola normal da praça e a construção de uma imagem de criança.In: Marcos Cezar de Freitas (org.) História Social da Infância no Brasil. São Paulo, Cortez, 2006. 102p.

18 IDEM, IDEM, 113p.

19 Em Evocação do Recife, na terceira estrofe: Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era São José. Os homens punham o chapéu saíam fumando. E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo. Manuel Bandeira. Poesias. Rio de Janeiro, Agir, 1970.48p.

20 Histórico da Escola Municipalizada Condessa do Rio Novo

21 Lista de Escolas de Paraíba do Sul In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Paraíba do Sul, Paraíba do Sul, número 582, maio de 1996.

22 Jim Sharpe História Vista de Baixo. In: Peter Burke (org). A escrita da história: Novas Perspectivas. São Paulo, Unesp, 1992,40p.

23 Edward P. Thompson. A Formação da classe operária: A árvore da liberdade. Rio de Janeiro, Paz & Terra, 1987, 13p.

24Eric Hobsbawm. Sobre História. São Paulo, Companhia das Letras, 1998. 224p.

25 IDEM, IDEM, 224-225p.

26 Série Relatórios dos Compromissos apresentados pelo provedor Coronel Randolpho Penna Júnior às autoridades eclesiásticas de Barra do Piraí. Ano 1925, p3.

27Op. cit. 220p.

28 Pedro Gomes da Silva. Capítulos de História de Paraíba do Sul. Paraíba do Sul, 1991.

29 Ezilma M. Teixeira.A Capela Nossa Senhora da Piedade: Contribuições a História e aos aspectos legais. Três Rios, Linoset Gráfica, 1985..

30 Renata Augusto Barbosa. De fuga e devoção: Os quilombos e a Irmandade do Rosário de Paraíba do Sul, Vassouras, IFCH, USS, 2002.

31 Isabela Torres Innocêncio. Escravidão: Do acesso a terra a liberdade. Paraíba do Sul, Gráfica e editora Gevap, 2005.

32 March Bloch. Introdução a História. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, 28p.


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