Como representamos mentalmente nosso conhecimento? Elisabete Shineidr, Mara Carneiro de Souza Noel e Adriana Benevides Soares Universidade Gama Filho – Programa de Pós-Graduação em Psicologia Rua Manoel Vitorino



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Como representamos mentalmente nosso conhecimento?

Elisabete Shineidr, Mara Carneiro de Souza Noel e Adriana Benevides Soares
Universidade Gama Filho – Programa de Pós-Graduação em Psicologia

Rua Manoel Vitorino, 533 – 20740-280 – Rio de Janeiro – R. J.

Historicamente, desde a Grécia antiga, estuda-se a imagem como forma de pensamento e sua utilização para memorização. Desde então, surgem sucessivos questionamentos sobre todos os processos cognitivos atuantes nas representações mentais. No âmbito da psicologia cognitiva, tais questionamentos têm como objetivo principal esclarecer como representamos mentalmente o conhecimento ou algum aspecto do meio ambiente, seja ele do mundo externo ou do nosso mundo imaginário.

A representação possui uma propriedade relacional de causa e efeito. Há um estímulo externo ou interno e uma reprodução mental do mesmo, que só se processa porque existe um agente cognitivo – o indivíduo. Podemos representar coisas e idéias em figuras ou em palavras. Quando utilizamos a linguagem, suas regras claras entram em consonância com tipos específicos de símbolos individuais que são relacionados conceitualmente no psiquismo de forma abstrata – preferencialmente proposicional. Quando a relação se estabelece através de uma imagem concreta, como um desenho ou uma fotografia, esta relação é conceituada como imagética.

Para entendermos um pouco como a representação mental acontece através de imagens e proposições veja o exemplo abaixo:



A princípio torna-se mais difícil representarmos os construtos abstratos do que os concretos. A representação de bola surge mais rapidamente do que a de solidariedade. Representamos assim nosso conhecimento através de imagens e proposições.


Figura A 1


Através do exemplo acima apresentado pode-se verificar que as imagens, por si só, não representam todas as idéias do que realmente queremos representar. O mesmo podemos dizer sobre as palavras. Só conseguimos fazer uma representação completa se houver uma contextualização do que se sugere representar.

Nos deparamos, então, com muitos estudos que objetivam a resolução do problema abordado - a representação mental do conhecimento. Na ciência cognitiva há diversos caminhos para a compreensão do funcionamento da mente humana. Para maior entendimento de tais vertentes relatamos as pesquisas de Allan Paivio (1969-1971). Ele constatou que, apesar da representação ser construída sempre por imagens específicas, formamos imagens mentais diferentes dependendo da forma como recebemos as informações e/ou estímulos que podem ser apresentados através de uma imagem ou de uma forma verbal. Ele apontou, então, a hipótese de que há um Código Dual. Ou seja, as representações verbais e imaginárias são dois códigos diferentes que organizam as informações recebidas. Para ele, as representações das imagens mentais são códigos análogos aos estímulos físicos recebidos do meio externo – imagens analógicas não-verbais, como por exemplo a face de uma pessoa.

Enquanto as representações para palavras são códigos simbólicos-verbais, onde combinamos palavras utilizando símbolos arbitrários para representar as informações, como por exemplo a bandeira de um país é uma imagem que invoca informações verbais simbólicas.

Porém, alguns autores apresentam uma outra hipótese - a proposicional, afirmando que não armazenamos representações mentais imagéticas: as proposições são os elos de ligação entre o sujeito e o objeto. Explicam que nossas representações mentais são semelhantes à forma abstrata de uma proposição, isto é, se apresentam na forma de um significado subentendido através da relação particular constituída entre os conceitos. Veja que na figura 1 podemos entender que “a mesa está acima do gato” ou “o gato está debaixo da mesa”. Uma única e mesma representação visual pode dar margem a várias representações verbais porque ambas estabelecem uma mesma relação. As proposições também tornam-se um instrumento cognitivo para “tentar” tornar visível aquilo que não pode ser visto e podem descrever qualquer tipo de relação, tais como atributos, ações, posições e etc. Porém Pylyshyn, argumenta que:


as imagens são epifenômenos, fenômenos secundários que ocorrem como resultado de outros processos cognitivos. Manipulamos as imagens por meio de um código proposicional, usando informações simbólicas abstratas armazenadas proposicionalmente, não analogicamente.” (Sternberg, 2000, p. 158.)
Autores como Kosslyn (1985) e Shepard (1971) trabalharam com a hipótese da equivalência funcional. Evidenciaram diversos princípios de como a representação imagética pode ser funcionalmente equivalente aos perceptos visuais. Sugerem que existe uma equivalência funcional entre imaginação visual e percepção visual. Isto significa que, apesar de não construirmos imagens idênticas aos perceptos, fazemos analogias, construindo algo equivalente. Portanto fazemos representações que são análogas aos perceptos físicos.

Foram feitos diversos experimentos. Entre eles, destaca-se o das rotações mentais, baseados em imagens de objetos bidimencionais e tridimencionais flutuando no espaço. Este experimento foi de grande importância porque apresentam uma relação direta entre os processos cognitivos e a compreensão da inteligência humana. Além dos estudos voltados para a representação imagética, há outros como o da gradação da imagem, desenvolvido também por Kosslyn, relativos ao tamanho da imagem que representamos mentalmente. Para ele, somos mais capazes de percebermos detalhes de imagens grandes, como por exemplo de um elefante. Se fizermos um “zoom” na imagem do elefante, somos capazes de obtermos mais detalhes do que se o fizermos com uma mosca. Então, pode-se dizer que possuímos um tela mental onde os perceptos das imagens maiores são registrados com maior eficácia do que as imagens menores.

Em última análise, há uma oposição entre estas duas concepções: a hipótese do código dual que sugere que o conhecimento é representado em imagens analógicas ou simbólicas e a hipótese proposicional sugerindo que o conhecimento é representado por proposições e não por símbolos. Tal oposição trás à tona um questionamento: Afinal, como se representa o conhecimento? na forma de imagens mentais análogas ou na forma de proposições de símbolos? Para Kosslyn, representamos de ambas as formas porque tanto o conhecimento proposicional quanto o imagético influem sobre a nossa forma de representar e de processar mentalmente as imagens. Isto é, algumas imagens são representadas de forma proposicional e outras de uma forma análoga à percepção que temos. Ele também sugere que algumas estruturas e processos de representação são baseados nas estruturas e processos de memória que se baseia na forma em que o conhecimento tenha sido armazenado. O que vem esclarecer tanto a possibilidade de evocação de imagens já vistas anteriormente, como por exemplo, a face do seu melhor amigo como a criação de imagens nunca antes vistas a exemplo de um cheque de um milhão de dólares. Se faz importante, ainda, ressaltar o quanto podemos manipular uma imagem em nossa mente: somos capazes de imaginar um elefante azul patinando no gelo e dando piruetas.

No entanto, há ainda muitas discordâncias e questionamentos envolvendo a representação mental do conhecimento. Para cada resultado empírico sobre uma hipótese são oferecidas novas interpretações aos resultados obtidos e o debate entre as concepções da equivalência funcional e concepção proposicional acaba reduzindo-se a um debate entre a visão empirista e a racionalista baseadas em pontos de vista diferentes. Embora uma explicação possa parecer mais parcimoniosa do que outra, nenhuma das duas podem ser mutuamente exclusivas.

Podemos concluir que representamos o conhecimento de diversas maneiras. Como e quando usar qual delas? Existem apenas estas formas de representações mentais?

São questões ainda pertinentes às pesquisas atuais. Os vários tipos de representações podem não ser exclusivos e sim complementares. Criamos falsas dicotomias, o que nos leva a novos questionamentos. Será que estas representações não seriam secundárias e que existiria um tipo de representação mais básico e primitivo ao qual não tomamos ainda nenhum tipo de conhecimento?

A partir dos subsídios apresentados neste artigo, torna-se evidente que não utilizamos apenas um tipo de representação do conhecimento, elas são a princípio complementares umas as outras. O que nos leva a pesquisarmos cada vez mais para entendermos os mistérios da mente humana.

E você, como representa o seu conhecimento?


Links interessantes

O Conhecimento como Representação e como Ação


Representação do Conhecimento nos Seres Humanos

Bibliografia
EYSENK, M. W. e KEANE, M. T. (1994). Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: Artmed.

STERNBERG, R.J. (2000). Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: Artmed.




1 Figura extraída do livro de Sternberg, R. J. (2000). Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: Artmed.


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