Complexidade: 1ª leitura



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PGAPV: AF722 – Complexidade e Interdisciplinaridade

COMPLEXIDADE: 1ª leitura

Trechos do livro : Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios / Edgar Morin, de Maria da Conceição de Almeida e Edgard de Assis Carvalho (2002).


Fazer uma leitura crítica do texto, anotando em cada informação: “concordo”, “não concordo”, “não entendi”, “entendi! caiu a ficha!”...

OS DESAFIOS DO SÉCULO XX

Os próprios desenvolvimentos do século XX e da nossa era planetária fizeram com que nos defrontássemos cada vez mais amiúde e, de modo inelutável, com os desafios da complexidade. Nossa formação escolar e, mais ainda, a universitária, nos ensina a separar os objetos de seu contexto, as disciplinas umas das outras para não ter que relacioná-las. Essa separação e fragmentação das disciplinas é incapaz de captar “o que está tecido em conjunto”, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo.

A tradição do pensamento que forma o ideário das escolas elementares ordena que se reduza o complexo ao simples, que se separe o que está ligado, que se unifique o que é múltiplo, que se elimine tudo aquilo que traz desordens ou contradições para nosso entendimento. O pensamento que recorta e isola permite a especialistas e experts terem grandes desempenhos em seus compartimentos e, assim, cooperar eficazmente nos setores não complexos do conhecimento, especialmente aqueles concernentes ao funcionamento das máquinas artificiais. A lógica a que obedecem projeta sobre a sociedade e as relações humanas as restrições e os mecanismos inumanos da máquina artificial com sua visão determinista, mecanicista, quantitativa, formalista, que ignora, oculta e dissolve tudo o que é subjetivo, afetivo, livre e criador.

A inteligência que só sabe separar rompe o caráter complexo do mundo em fragmentos desunidos, fraciona os problemas e unidimensionaliza o multidimensional. É uma inteligência cada vez mais míope, daltônica e vesga; termina a maior parte das vezes por ser cega, porque destrói todas as possibilidades de compreensão e reflexão, eliminando na raiz as possibilidades de um juízo crítico e também as oportunidades de um juízo corretor ou de uma visão a longo prazo.

A maneira de pensar que utilizamos para encontrar soluções para os problemas mais graves de nossa era planetária constitui um dos graves problemas que devemos enfrentar. Quanto mais multidimensionais se tornam os problemas, maior a incapacidade para pensar em sua multidimensionalidade; quanto mais progride a crise, mais progride a incapacidade para pensa-la; quanto mais globais se tornam os problemas, mais impensáveis se tornam. A inteligência cega se torna, assim, inconsciente e irresponsável, incapaz de encarar o contexto e complexo planetários.

A REFORMA DO PENSAMENTO

A atitude de contextualizar e globalizar é uma qualidade fundamental do espírito humano que o ensino parcelado atrofia e que, ao contrário disso, deve ser sempre desenvolvida. O conhecimento torna-se pertinente quando é capaz de situar toda a informação em seu contexto e, se possível, no conjunto global no qual se insere. Pode-se dizer ainda que o conhecimento progride, principalmente, não por sofisticação, formalização e abstração, mas pela capacidade de conceituar e globalizar. O conhecimento deve mobilizar não apenas uma cultura diversificada, mas também a atitude geral do espírito humano para propor e resolver problemas. Quanto mais potente for essa atitude geral, maior será sua aptidão para tratar problemas específicos. Daí decorre a necessidade de uma cultura geral e diversificada que seja capaz de estimular o emprego total da inteligência geral, ou melhor dizendo, do espírito vivo.

A reforma necessária do pensamento é aquela que gera um pensamento do contexto e do complexo. O pensamento contextual busca sempre a relação de inseparabilidade e as inter-retroações entre qualquer fenômeno e seu contexto, e deste com o contexto planetário. O complexo requer um pensamento que capte relações, inter-relações, implicações mútuas, fenômenos multidimensionais, realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas (como a própria democracia que é o sistema que se nutre de antagonismos e, que, simultaneamente os regula), que respeite a diversidade, ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceba a relação recíproca entre todas as partes.

ARTICULAR AS DISCIPLINAS

A interdisciplinaridade pode significar que diferentes disciplinas encontram-se reunidas como diferentes nações o fazem na ONU, sem entretanto poder fazer outra coisa senão afirmar cada uma seus próprios direitos e suas próprias soberanias em relação às exigências do vizinho. Ela pode também querer dizer troca e cooperação e, desse modo, transformar-se em algo orgânico.

A polidisciplinaridade constitui uma associação de disciplinas em torno de um projeto ou de um objeto que lhes é comum. As disciplinas são chamadas para colaborar nele, assim como técnicos especialistas são convocados para resolver esse ou aquele problema. De modo contrário, as disciplinas podem estar em profunda interação para tentar conceber um objeto e um projeto.

A transdisciplinaridade se caracteriza geralmente por esquemas cognitivos que atravessam as disciplinas, às vezes com uma tal virulência que as coloca em transe. Em resumo, são as redes complexas de inter, poli e transdisciplinaridade que operaram e desempenharam um papel fecundo na história das ciências.

As idéias da inter e de transdisciplinaridade são as únicas importantes. Devemos “ecologizar” as disciplinas, isto é, levar em conta tudo o que lhe é contextual, aí compreendidas as condições culturais e sociais. É necessário que vejamos em que meio elas nascem, colocam seus problemas, esclerosam-se, metamorfoseiam-se. O metadisciplinar – meta significando ultrapassar e conservar – deve levar em conta tudo isso. Não se pode jogar fora o que foi criado pelas disciplinas, não se pode quebrar todas as clausuras. Este é o problema da disciplina, da ciência e da vida: é preciso que uma disciplina seja ao mesmo tempo aberta e fechada.

Em conclusão, para que serviriam todos os conhecimentos parcelares se não os confrontássemos uns com os outros, a fim de formar uma configuração capaz de responder às nossas expectativas, necessidades e interrogações cognitivas?

A ANTIGA E A NOVA TRANSDISCIPLINARIDADE

Sabemos cada vez mais que as disciplinas se fecham e não se comunicam umas com as outras. Os fenômenos são cada vez mais fragmentados, e não se consegue conceber a sua unidade. É por isso que se diz cada vez mais: “Façamos interdisciplinaridade”. Mas a interdisciplinaridade controla tanto as disciplinas como a ONU controla as nações. Cada disciplina pretende primeiro fazer reconhecer a sua soberania territorial e, desse modo, confirmar as fronteiras em vez de desmorona-las, mesmo que algumas trocas incipientes se efetivem.

É necessário ir mais longe, e é aqui que aparece o termo transdisciplinaridade.

O verdadeiro problema não consiste no “fazer transdisciplinar”; mas “que transdisciplinar é preciso fazer?”

Para promover uma nova transdisciplinaridade precisamos de um paradigma que, certamente, permita distinguir, separar, opor e, portanto, disjuntar relativamente estes domínios científicos, mas que, também, possa fazê-los comunicarem-se entre si, sem operar a redução. Torna-se necessário um paradigma de complexidade que, ao mesmo tempo disjunte e associe, que conceba os níveis de emergência da realidade sem reduzi-los às unidades elementares e às leis gerais.

A finalidade da minha pesquisa metodológica não se resume em encontrar um princípio unitário de todos os conhecimentos, pois isso representaria uma nova redução a um princípio-chave, abstrato, que apagaria toda a diversidade do real, ignoraria os vazios, as incertezas e aporias provocadas pelo desenvolvimento dos conhecimentos (que preenche vazios, mas abre outros, que resolve enigmas, mas revela mistérios). Trata-se de estabelecer uma comunicação com base num pensamento complexo. Ao contrário de um Descartes que partia de um princípio simples de verdade, identificando-a com idéias claras e distintas e que, por isso, propunha um discurso do método de poucas páginas, faço um discurso muito longo à procura de um método que não se revela por nenhuma evidência inicial, mas que deve elaborar-se com esforço e risco. A missão deste método não é fornecer fórmulas programáticas de um pensamento “são”, mas convidar a pensar a si mesmo na complexidade. Não é fornecer a receita que fecharia o real num compartimento, mas fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto – o idealismo – que crê que o real pode reduzir-se à idéia, e que acaba por identificar o mapa com o território. Esse método pretende colocar-se contra a doença degenerativa da racionalidade – a racionalização -, que acredita que o real pode esgotar-se num sistema coerente de idéias.

POR UMA REFORMA DE PENSAMENTO

Gostaria de partir de uma evidência da psicologia cognitiva. Um conhecimento só é pertinente na medida em que se situe num contexto. A palavra, polissêmica por natureza, adquire seu sentido uma vez inserida no texto. Uma informação só tem sentido numa concepção ou numa teoria. Do mesmo modo, um acontecimento só é inteligível se é possível restituí-lo em suas condições históricas, sociológicas ou outras.

Pode-se deduzir daí que é primordial aprender a contextualizar e melhor que isso, globalizar, isto é, a saber situar um conhecimento num conjunto organizado. Esta atitude é muito mais importante que o desenvolvimento extremamente sofisticado que se verifica no domínio matemático ou informático.

A palavra cultura, camaleão conceitual, muda de sentido de acordo com seu contexto.

A cultura de que vou falar é das humanidades, fundada sobre a história, a literatura, a filosofia, a poesia e as artes. Em sua essência, ela transmitia a aptidão para a abertura e para a contextualização. Além disso, favorecia a capacidade de refletir, de meditar sobre o saber e, eventualmente, integrá-lo em sua própria vida para melhor esclarecer sua conduta e o conhecimento de si.

A RUPTURA CULTURAL

Defrontamo-nos desde o século XVI, mas sobretudo no XX, com o desafio da ruptura cultural entre a cultura das humanidades e a cultura científica. Estas duas culturas possuem natureza inteiramente diferente.

A cultura científica é uma cultura de especialização, que tende a se fechar sobre si mesma. Sua linguagem torna-se esotérica, não somente para o comum dos cidadãos, mas também para o especialista de uma outra disciplina. O saber em si mesmo cresce de uma forma exponencial e não pode ser abarcado por nenhum espírito humano. Através deste fantástico desenvolvimento da cultura científica, assiste-se a uma perda de reflexividade sobre o futuro da ciência e a natureza da ciência humana.

O DESAFIO DA COMPLEXIDADE

A complexidade, que colocou em confronto as ciências no século XX, representa um grande desafio. No final do segundo milênio, o mundo científico considerava que as ciências repousavam sobre três pilares de certeza:


  • o primeiro pilar era a ordem, a regularidade, a constância e, sobretudo, o determinismo absoluto. Laplace imaginava que um demônio, dotado de sentido e de um espírito superiores, podia conhecer qualquer acontecimento do passado e do futuro;

  • o segundo pilar era a separabilidade. Considere-se, por exemplo, um objeto e um corpo. Para conhece-lo, basta isolá-lo conceitual ou experimentalmente, extraindo-o de seu meio de origem para examiná-lo num meio artificial;

  • o terceiro pilar era o valor de prova absoluta fornecida pela indução e pela dedução, e pelos três princípios aristotélicos que estabelecem a unicidade da identidade e a recusa da contradição.

Esses três pilares encontram-se hoje em estado de desintegração, não porque a desordem substituiu a ordem, mas porque começou-se a admitir que, mesmo no mundo físico em que a ordem reinava soberana, existia na realidade um jogo dialógico entre ordem e desordem simultaneamente complementar e antagônico.

No que diz respeito à separação dos objetos, havia-se igualmente esquecido que eles estavam ligados uns aos outros no interior de uma organização ou sistema, cuja originalidade primeira é criar qualidades chamadas de emergências. Elas aparecem no contexto desta organização, mas não existem nas partes concebidas isoladamente. Compreendeu-se que a vida não era feita de uma substância específica, mas constituída das mesmas substâncias físico-químicas que o restante do universo. A vida originou-se de moléculas ou de macromoléculas que, separadamente, não tem nenhuma das propriedades da vida, da reprodução, da auto-reprodução ou do movimento. As propriedades vivas não existem ao nível isolado das moléculas, pois só emergem graças a uma auto-organização complexa.

É por isso que um certo número de ciências se tornaram sistêmicas, como as ciências da Terra, a ecologia ou a cosmologia. Estas ciências permitiram articular entre si os conhecimentos de disciplinas diferenciadas. Por exemplo, o ecólogo utiliza conhecimentos dos botânicos, dos zoólogos, dos microbiólogos e dos geofísicos. Entretanto, ele não tem necessidade de dominar todas essas ciências. Seu conhecimento consiste no estudo das reorganizações, dos desregramentos e regulamentos dos sistemas.

Compreende-se por esses exemplos que o desafio da complexidade reside no duplo desafio da religação e da incerteza. É preciso religar o que era considerado como separado. Ao mesmo tempo, é preciso aprender a fazer com que as certezas interajam com a incerteza. O conhecimento é, com efeito, uma navegação que se efetiva num oceano de incerteza salpicado de arquipélagos de certeza.

O desafio da complexidade se intensifica no mundo contemporâneo já que nos encontramos numa época de mundialização, que prefiro chamar de era planetária. Os problemas mundiais agem sobre os processos locais que retroagem por sua vez sobre os processos mundiais.

É preciso, igualmente, pensar na incerteza pois ninguém pode prever o que ocorrerá amanhã ou depois de amanhã. Além disso, perdemos a promessa de um progresso infalivelmente previsível pelas leis da história ou pelo desenvolvimento inelutável da ciência e da razão.

A resposta só pode advir de uma reforma do pensamento que instituiria o princípio da religação, ao reaproximar o que até o presente era concebido de forma disjunta e, às vezes, repulsiva.

Infelizmente, quanto mais temos conhecimentos especializados e limitados, mais temos idéias globais absolutamente estúpidas sobre a política, o amor ou a vida.

Toda vez que se fala de unidade, homogeiniza-se apagando as diferenças nela contidas. Reciprocamente, toda vez que se fala de diferenças, cataloga-se. Em conseqüência disso tornamo-nos incapazes de ver a unidade.

OS TRÊS PRINCÍPIOS DA REAPRENDIZAGEM PELA RELIGAÇÃO

A religação implica num problema de reaprendizagem do pensamento que, por sua vez, implica na entrada em ação de três princípios.

O circuito recursivo ou autoprodutivo que rompe com a causalidade linear é o primeiro princípio. Este circuito implica num processo no qual efeitos e produtos são necessários à sua produção e à sua própria causação. Nós mesmos somos, aliás, os efeitos e os produtos de um processo de reprodução. Mas somos também seus produtores, porque, se assim não o fosse, o processo não poderia continuar. Além do mais, uma sociedade é o produto das interações entre os indivíduos que a compõem. Desta sociedade emergem qualidades como a língua ou a cultura que retroagem sobre os produtos, produzindo indivíduos humanos. De modo semelhante, deixamos de ser apenas primatas graças à cultura. A causalidade é representada de agora em diante por uma espiral. Ela não é mais linear.

Um pouco diferente da dialética, a dialógica é o segundo princípio. É preciso, em certos casos, juntar princípios, idéias e noções que parecem opor-se uns aos outros. Heráclito havia magnificamente afirmado há mais de 2500 anos: “viver de morte, morrer de vida”. Esta idéia absolutamente paradoxal se esclarece hoje. Diz-se que em cada ser vivente, as moléculas se degradam, que as células produzem novas moléculas, que as células morrem e são substituídas pelo organismo, que o sangue propulsionado pelos batimentos do coração desintoxica as células. De modo incessante, um processo de rejuvenescimento se opera através da morte de nossas partes constituintes. Podemos, assim, muito racionalmente, explicitar a formulação heraclitiana. Neste contexto, o princípio dialógico é necessário para afrontar realidades profundas que, justamente, unem verdades aparentemente contraditórias. Pascal reiterava que o contrário de uma verdade não é um erro, mas sim uma verdade contrária. De forma mais sofisticada, Niels Bohr considerava que o contrário de uma verdade profunda não é um erro mas uma outra verdade profunda. Em contrapartida, o contrário de uma verdade superficial é um erro imbecil.

Denominei hologramático o terceiro princípio, em referência ao ponto do holograma que contém a quase totalidade da informação da figura representada. Não apenas a parte está no todo mas o todo está na parte. Do mesmo modo, a totalidade de nosso patrimônio genético está contida no interior de cada célula do corpo. A sociedade, entendida com um todo, também se encontra presente em nosso interior, porque somos portadores de sua linguagem e de sua cultura. Essa é uma visão que também rompe com os antigos esquemas simplificantes.

A APRENDIZAGEM DA RELIGAÇÃO

A missão primordial do ensino implica muito mais em aprender a religar do que aprender a separar, o que, aliás, foi feito até o presente. Simultaneamente é preciso aprender a problematizar.

Creio que nesse momento religar e problematizar caminham juntos. Se eu fosse professor, tentaria religar as questões a partir do ser humano, mostrando-o em seus aspectos biológicos, psicológicos, sociais. Desse modo, poderia acessar as disciplinas, mantendo nelas a marca humana e, assim, atingir a unidade complexa do homem.

A APRENDIZAGEM DA COMPLEXIDADE

A coerência do pensamento complexo contém a diversidade e também permite compreendê-la. Adiro ao que possa ser dito sobre a diversidade de psicologias e das heranças culturais. Entretanto, a diversidade deve ser pensada e fundada sobre a coerência e a compreensão. Penso que a missão de aprender a religar e a problematizar representa um retorno a uma missão fundamental à qual já me referi. Acrescento que a religação constitui de agora em diante uma tarefa vital, porque se funda na possibilidade de regenerar a cultura pela religação de duas culturas separadas, a da ciência e a das humanidades.

Esta religação nos permite contextualizar corretamente, assim como refletir e tentar integrar nosso saber na vida. Bem entendido, isso não fornece a receita infalível para todo problema. Estamos, de qualquer forma, inseridos na incerteza. Existem, entretanto, respostas e estratégias contra a incerteza. Como não estamos certos de ter êxito, enfrentamos um desafio, como Pascal, que havia compreendido muito bem que a existência de Deus não seria provada, nem lógica nem empiricamente.

A DEMOCRACIA COGNITIVA E A REFORMA DO PENSAMENTO

Nossas sociedades defrontam-se com um imenso problema decorrente do desenvolvimento desta enorme máquina na qual ciência e técnica encontram-se intimamente associadas e que, atualmente, denomina-se tecnociência. Ela não produz apenas o conhecimento e a elucidação, mas também a ignorância e a cegueira. Os desenvolvimentos disciplinares das ciências não trouxeram apenas as vantagens da divisão do trabalho, mas os inconvenientes da superespecialização, do fechamento e da fragmentação do saber. Este último tornou-se cada vez mais esotérico (acessível aos poucos especialistas) e anônimo (concentrado nos bancos de dados), depois utilizado desde instâncias anônimas ao primeiro chefe de Estado. Do mesmo modo, o conhecimento técnico está reservado aos especialistas, cuja competência num domínio fechado se acompanha de uma incompetência, quando este domínio é parasitado por influências exteriores ou modificado por um acontecimento novo. Em tais condições, o cidadão perde o direito ao conhecimento. Ele tem o direito de adquirir um saber especializado fazendo estudos ad hoc, mas está despossuído, tanto quanto qualquer outro cidadão, de qualquer ponto de vista englobante e pertinente.

Se ainda é possível discutir num bar sobre a condução da carruagem do Estado, não é mais possível compreender o que desencadeou o crash de Wall Street, assim como o que impede o crash de provocar uma crise econômica mais ampla. Além disso, os próprios especialistas encontram-se profundamente divididos sobre que diagnósticos e políticas econômicas devem ser seguidos. Se era possível acompanhar a Segunda Guerra Mundial comas bandeirinhas sobre o mapa, não é mais possível conceber os cálculos e simulações dos computadores que efetuam cenários da futura guerra mundial. A arma atômica privou totalmente o cidadão da possibilidade de pensa-la e controla-la. Sua utilização está entregue à decisão pessoal do chefe de Estado sem consulta a nenhuma instância democrática regular. Quanto mais a política se torna técnica, mais a competência democrática regride.

O problema não se coloca apenas para a crise ou para a guerra, mas também para a vida quotidiana. Todo espírito culto podia até o século XVIII refletir sobre os conhecimentos sobre Deus, o mundo, a natureza, a vida, a sociedade, e, assim, configurar a interrogação filosófica que, contrariamente ao que crêem os filósofos confessionais, é uma necessidade de todo indivíduo, pelo menos até o momento em que as constrições da sociedade adulta o adulterem. Exige-se hoje que cada um creia que sua ignorância é boa, necessária, deixando-a cada vez mais entregue a programas de TV, nos quais especialistas eminentes lhe oferecem algumas lições divertidas.

A privação do saber, muito malcompensada pela vulgarização midiática, coloca na ordem do dia o problema histórico-chave da democracia cognitiva. A continuação desse cego processo tecno-científico atual, que escapa à consciência e à vontade própria dos cientistas, conduz a uma regressão forte da democracia. Para esse caso, não há política imediata a ser posta em prática, mas sim a urgência de uma tomada de consciência política da necessidade de trabalhar por uma democracia cognitiva.

Torna-se efetivamente impossível democratizar um saber fechado e esoterizado por sua própria natureza. É cada vez mais possível admitir uma reforma de pensamento que permita enfrentar o imenso desafio que nos encurrala com a seguinte alternativa: ou bem continuamos a sofrer o bombardeio de inumeráveis informações que nos chegam em avalanche quotidianamente pelos jornais, rádios, TV, ou então passamos a confiar nos sistemas de pensamento que retêm apenas as informações daquilo que os confirma ou lhes é inteligível, rejeitando como erro ou ilusão tudo o que lhes desmente ou lhes é incompreensível. Este problema se coloca não somente para o conhecimento cotidiano do mundo, mas também para o conhecimento de todas as coisas sociais e para o conhecimento científico em si mesmo.

O exame da pertinência dos princípios tradicionais de inteligibilidade já se iniciou: a racionalidade e a cientificidade exigem redefinição e complexificação. Isso não diz respeito aos intelectuais, mas igualmente, à nossa civilização: tudo o que foi efetuado em nome da racionalização e que conduziu à alienação do trabalho, às cidades-dormitórios, a resumir a vida ao trinômio andar de metrô-trabalhar-dormir, aos lazeres em série, às poluições industriais, à degradação da biosfera, à onipotência dos Estados-Nações dotados de armas de aniquilamento, será que tudo isso é verdadeiramente racional? Não é urgente reinterrogar uma razão que produziu ema mesma seu pior inimigo, que é a racionalização?

A necessidade de uma Reforma de pensamento é muitíssimo importante para indicar que hoje o problema da educação e da pesquisa encontram-se reduzidos a termos meramente quantitativos: “maior quantidade de créditos”, “mais professores”, “mais informática”. Mascara-se, com isso, a dificuldade-chave que revela o fracasso de todas as reformas sucessivas do ensino: não se pode reformar a instituição sem ter previamente reformado os espíritos e as mentes, mas não se pode reformá-los se as instituições não forem previamente reformadas. Deparamo-nos aqui com o velho problema colocado por Marx na terceira tese sobre Feuerbach sobre quem educaria os educadores.

Não há resposta propriamente lógica para esta contradição, mas a vida é sempre capaz de trazer soluções a problemas logicamente insolúveis. Não se pode programar e nem mesmo prever, mas se pode ver e promover. A própria idéia da Reforma poderá reunir espíritos diversos, reanimar espíritos resignados, suscitar proposições.

Certamente, será preciso muito tempo, debates, combates, esforços para dar forma à revolução que começa a se efetuar aqui e ali na desordem. Poder-se-ia acreditar que não há nenhuma relação entre este problema e a política de um governo. Mas o desafio da complexidade do mundo contemporâneo é um problema-chave do pensamento e da ação política.





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