ComunicaçÃo social leitura e produçÃo de textos II material Primeira parte



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COMUNICAÇÃO SOCIAL

LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS II - Material - Primeira parte


Profa. Ana Lúcia Costa.

TEXTO E TEXTUALIDADE

TEXTO


“... qualquer passagem falada ou escrita que forma um todo significativo independente de sua extensão.” (FÁVERO, 2001, p. 7)

TEXTUALIDADE


Qualidade daquilo que é texto. Conjunto de características que fazem de uma ocorrência linguística um texto e não, por exemplo, um emaranhado de frases.

São vários os fatores que caracterizam a textualidade. Fávero (2001, p.7) cita, entre outros, os seguintes: coesão, coerência, intencionalidade, situacionalidade e intertextualidade.


COESÃO e COERÊNCIA
Coesão = conexão linguística que corrobora para a concatenação das ideias, manifestando-se na superfície do texto principalmente através de retomadas de informações e do uso de conectivos sequenciais.
Coerência = encadeamento de ideias em que não deve haver contradição entre os diversos segmentos textuais. “...É a relação que se estabelece entre as partes do texto, criando uma unidade de sentido.” (FIORIN e SAVIOLI, 2003, p. 396.)

Exemplo de argumentação incoerente:



A inflação, problema mais grave do país, é causada principalmente pelo descontrole orçamentário. O governo deve, portanto, aumentar os gastos públicos para aquecer a economia.
Até então definimos a coerência intratextual - a ausência de contradição entre enunciados do texto. Mas a coerência pode dizer respeito também a uma relação entre o que é dito e o mundo real: é a chamada coerência extratextual. Neste sentido, um exemplo de incoerência seria a existência da seguinte descrição de Portugal:

Portugal, jardim plantado à beira do Pacífico. (Exemplo de Fiorin e Savioli, 2003, p. 402)
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COESÃO
Os dois principais tipos de coesão são:
I- REFERENCIAL: faz o texto progredir através da retomada de palavras, expressões ou frases (ou da antecipação, no lugar da retomada, embora seja um processo menos utilizado).

Retomada: Meu irmão vai viajar. Ele está de férias.

Antecipação: Ele é careca e desdentado, mas é lindo... O meu bebê.
No primeiro exemplo, “meu irmão” e “ele” são elementos co-referenciais (possuem o mesmo referente). No segundo exemplo, a co-referência é estabelecida entre “o meu bebê” e “ele”.
II- SEQUENCIAL: faz o texto progredir através do uso de palavras ou expressões que estabelecem relações semânticas (conclusão, condição, causa, etc.) entre orações ou conjunto de orações.

Exemplos:

Condição: Se chover, não vai haver desfile.

Causa: Não houve desfile porque choveu.

Conclusão: Choveu bastante; portanto, não houve desfile.

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LEITURA COMPLEMENTAR
Coesão e coerência constituem fenômenos distintos pelo fato de

  • poder haver um sequenciamento coesivo de fatos isolados que não têm condição de formar um texto (a coesão não é condição nem suficiente nem necessária para formar um texto).

No exemplo

  1. Meu filho não estuda nesta Universidade.

Ele não sabe que a primeira Universidade do mundo românico foi a de Bolonha.

Esta Universidade possui imensos viveiros de plantas.

A Universidade possui imensos laboratórios de línguas.
o item lexical “Universidade” vem constantemente retomado e o sintagma nominal “meu filho” vem pronomonalizado. Todavia isto não é suficiente para conferir coerência a estes quatro enunciados. Não temos um texto, apesar de termos uma coesão relativamente forte no encadeamento das sentenças, mas as relações de sentido não unificam essa sequência.

O mesmo ocorre em



  1. Maria está na cozinha. A cozinha tem as paredes com azulejos. Os azulejos são brancos. Também o leite é branco.


Outro fator que implica distinção entre coesão e coerência é o de

  • poder haver textos destituídos de coesão mas cuja textualidade se dá ao nível da coerência:




  1. Luiz Paulo estuda na Cultura Inglesa.

Fernanda vai todas as tardes ao laboratório de física do colégio.

Mariana fez 75 pontos na FUVEST.

Todos os meus filhos são estudiosos.
FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e coerência textuais. 9. ed. São Paulo: Ática, 2001. p.10 -11.
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COESÃO REFERENCIAL

O referente de uma palavra ou expressão é aquilo a que ela se refere (entidade, fato, processo, etc.). Este referente pode estar dentro ou fora do texto:



  • Fora do texto: referência EXOFÓRICA ou SITUACIONAL. Ex. Alguém fala enquanto aponta para um lápis:

Pega isso que deixei cair, por favor.
Pega = o verbo no imperativo remete à segunda pessoa do singular (com quem se fala)

Isso = refere-se ao lápis para o qual o falante aponta.

Deixei = o uso da primeira pessoa do singular aponta para o próprio falante.



  • Dentro do texto: referência ENDOFÓRICA ou TEXTUAL.

José viajou ontem. Ele foi visitar uns parentes.
A referência textual pode ser anafórica ou catafórica:
Anafórica: o item de referência retoma um item expresso no texto (v. exemplo anterior);
Catafórica: o item de referência antecipa um signo ainda não expresso no texto.

Só desejo isto: que você não se esqueça de mim.


ESTRATÉGIAS DE COESÃO REFERENCIAL
O objetivo da coesão referencial é evitar a repetição de palavras. Para tanto, várias estratégias podem ser usadas.
A) Uso de pronomes, verbos, numerais e advérbios

Já vimos exemplos de coesão referencial através do uso de pronome pessoal (“ele”). O exemplo a seguir ilustra o uso de pronomes demonstrativos.



Ricardo e Carlos adoram carnaval. Este é portelense; aquele é louco pela Mangueira.
Uso de verbo:

Pedro, Ana e Carolina trabalham muito, André quase não o faz.

De fato, ele ficou muito constrangido com a situação; mas não foi [=ficou] tanto quanto se poderia esperar. (Exemplos de Fiorin e Savioli, 2003, p. 372)

Uso de numeral:



Ricardo e Carlos adoram carnaval. Ambos (ou “Os dois”) sempre desfilam.
Uso de advérbio:

Nunca vou à França em janeiro porque faz muito frio.
B) Uso de sinônimos e hiperônimos

Podemos usar um sinônimo (sinonímia é a relação que se estabelece entre palavras de conteúdos bastante aproximados) para evitar a repetição do mesmo termo:



Tem menina que diz amém pra tudo. Mas existe garota que não sossega enquanto não dá a última palavra. E você? Faz parte da turma que comanda ou é comandada?

(Revista Carícia - Público-alvo: adolescentes - Teste de comportamento)

Numa relação ente todo/parte ou classe/elemento, o hiperônimo é a expressão que representa o “todo” ou a “classe”. Portanto, “eletrodoméstico” é hiperônimo de “batedeira” e “animal” é hiperônimo de “cão”.

O governo estadual adquiriu cem ambulâncias. Há suspeita de superfaturamento na venda dos veículos.
C) Uso da elipse

A elipse é a omissão de um termo que pode ser recuperado pelo contexto.

No exemplo a seguir há elipse do sujeito. O “zero” entre colchetes marca o ponto do texto onde houve a omissão.

José viajou ontem. [0] Foi visitar uns parentes.

Exemplo de elipse do verbo:



Meu colega de trabalho ganha muito, mas eu, muito pouco.
D) Uso de expressão nominal definida

Podemos usar uma expressão que define o elemento retomado. Muitas vezes, quem lê ou ouve tal expressão precisa ter um conhecimento prévio para interpretar o fenômeno da retomada.

Por exemplo, pode-se retomar “Sting” por “o ex-líder da banda Police”, “Machado de Assis” por “o bruxo de Cosme Velho” e assim por diante.
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EXERCÍCIOS (sobre coesão referencial)



1) Identifique como a sinonímia foi utilizada como estratégia de coesão no texto abaixo:

CPI dominou as conversas nas ruas e nos bares


Foi impossível evitar. A leitura do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do caso PC se tornou assunto obrigatório ontem nos balcões dos bares, nos pontos de ônibus, em cada conversa de esquina. O tema não sofreu restrições de classes sociais ou idades. (...)

(O Estado de São Paulo - 25/08/92)



2) Construa a coesão dos parágrafos a seguir através do uso de hiperônimos:


a) Raí vestiu pela primeira vez a camisa do clube francês. O _______________ deve embarcar para a Europa no fim do ano.
b) Ontem esteve tensa a situação nos Estados Unidos. A população do ______________ recebeu notícias sobre um possível ataque terrorista em outras cidades.

3) No texto a seguir, Millôr Fernandes realiza intencionalmente a repetição de um vocábulo para reforçar a comicidade. Refaça o texto de modo a reduzir tal repetição:


A senhora, uma dona de casa, estava na feira, no caminhão que vende galinhas. O vendedor ofereceu a ela uma galinha. Ela olhou para a galinha, passou a mão embaixo das asas da galinha, apalpou o peito da galinha, alisou as coxas da galinha, depois tornou a colocar a galinha na banca e disse para o vendedor: “Não presta!”. Aí o vendedor olhou para ela e disse: “Também, madame, num exame assim nem a senhora passava.”

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4) Leia o trecho abaixo e responda:

Saussure define a unicidade e a homogeneidade como características intrínsecas à língua. Esta separação entre língua e linguagem e o caráter homogêneo daquela são efetivados através da principal dicotomia do modelo teórico...” (Dante Lucchesi. Sistema, mudança e linguagem)


A palavra sublinhada se refere a que termo citado pelo autor? ____________________

A referência é anafórica ou catafórica? __________________


5) Leia o texto abaixo com atenção às estratégias numeradas de coesão referencial. Em seguida, sublinhe as respostas corretas entre parênteses:
O progresso povoou a história com as maravilhas e os monstros da técnica, mas (1)desabitou a vida dos homens. Deu-lhes mais coisas, mas não (2)lhes deu mais ser.” (Octavio Paz)
Estratégia (1) = coesão através de (elipse – sinônimo – pronome – hiperônimo), cujo referente é (técnica – progresso – história - vida);
Estratégia (2) = coesão através de (hiperônimo – elipse – pronome – sinônimo), cujo referente é (maravilhas – monstros – coisas – homens).
6) Os dois exemplos analisados acima ilustram casos de referência:

a) extratextual b) catafórica c) exofórica d) anafórica


7) No slogan “Se eu fosse você, só usava Valisère”, a palavra sublinhada tem referência:

a) textual b) catafórica c) exofórica d) anafórica


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COESÃO SEQUENCIAL



Já vimos que a coesão pode se estabelecer pela relação entre os referentes de um texto (coesão referencial).

Agora veremos que um texto bem produzido também precisa apresentar uma coesão sequencial, isto é, devemos usar conectivos que ajudam a delinear as ideias contidas nos enunciados.

Muitas vezes, não convém que passemos de uma frase a outra, ou de um parágrafo a outro, de modo estanque, sem uma palavra/expressão de ligação; faz-se necessária a presença de um elemento sequenciador no discurso. Veja a diferença:

O funcionário saiu de casa cedo. Chegou atrasado ao trabalho.

O funcionário saiu de casa cedo, mas chegou atrasado ao trabalho.
Os elementos de ligação entre os enunciados são chamados de conectores ou conectivos sequenciais (alguns estudiosos chamam de “operadores discursivos”).

Vejamos algumas estratégias de conexão:


A) Condição (‘se’, ‘caso’): Se houver ponto facultativo, vamos viajar.
B) Causa (‘porque’, ‘já que’, ‘como’): Viajamos porque houve ponto facultativo.
C) Mediação/ finalidade: Saiu cedo para pegar o metrô menos cheio.
D) Conjunção [soma] (‘e’, ‘não somente... mas também’, ‘ainda’, ‘também’, ‘além disso’):

Há dois motivos para eu não sair de casa hoje: chove e faz muito frio.
E) Disjunção: (‘ou’, ‘ou então’):

Estude bastante para os exames, ou você já esqueceu que foi reprovado antes?
É preciso manter o plano de estabilização econômica, ou então, será inevitável a volta da inflação.
F) Explicação /justificativa (‘pois’, ‘porque’):

Deve ter havido um acidente, pois eu vi uma ambulância parada na esquina.
G) Gradação argumentativa (‘até’, ‘até mesmo’, ‘nem mesmo’)

O conectivo introduz o argumento mais importante de um conjunto:

(...)

Basta lembrar que a cidade de São Paulo tem 56% de sua população vivendo em favelas, cortiços, habitações precárias e até mesmo sob viadutos e nos cemitérios, para que nos convençamos de que a oitava economia do mundo é um grande desastre social.



(BRANCO, Adriano. Desenvolver o país é preciso. O Estado de São Paulo. 16 dez. 1989. [Artigo])
H) Conclusão (‘portanto’, ‘logo’, ‘por conseguinte’, ‘por isso’)

Meu vizinho decidiu parar de fumar. Portanto, tem estado bem melhor de saúde.
Obs. O conectivo ‘pois’ só funciona acompanhando uma sentença conclusiva se não vier no início desta sentença:

Meu vizinho decidiu parar de fumar. Tem estado, pois, bem melhor de saúde.
I) Amplificação/ generalização (‘de fato’, ‘aliás’, ‘realmente’)

Faz muito calor neste verão. Aliás, o verão no Rio é sempre muito quente.
J) Exemplificação (‘por exemplo’, ‘como’)

Diversos setores cresceram com a estabilização econômica, como o da alimentação, que vive fase bastante otimista.
K) Correção/ esclarecimento (‘quer dizer’, ‘isto é’, ‘ou seja’, ‘melhor dizendo’, ‘em outras palavras’)

Nosso país vai sair rapidamente da crise. Ou seja, é o que queremos.
L) Confirmação (‘assim’, ‘desse modo’, ‘dessa maneira’)

O país sairá rapidamente da crise; assim, o povo voltará a consumir sem medo.
M) Contrajunção (‘mas’, ‘porém’, ‘contudo’ ‘no entanto’ - ‘embora’, ‘ainda que’)

Do ponto de vista semântico, estruturas do tipo MAS e do tipo EMBORA têm funcionamento semelhante: contrapõem argumentos ou ideias.

A diferença está na estratégia argumentativa. No caso do MAS, empregamos a “estratégia de suspense”. Quando usamos o EMBORA, realizamos uma “estratégia de antecipação”, ou seja, anunciamos de antemão que a ideia introduzida por EMBORA vai ser descartada.

Veja os esquemas:



Argumento possível MAS argumento decisivo

EMBORA argumento possível argumento decisivo


Exemplos:

O meu time jogou bem, mas o adversário jogou melhor e ganhou.

Embora meu time tenha jogado bem, o adversário jogou melhor e ganhou.

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EXERCÍCIOS (sobre coesão sequencial)



1) Sem alterar a ideia contida no período dado, construa um novo, a partir do início proposto. Use uma das opções de conectivos e faça modificações quando for necessário.
a) Dada a falta de recursos, o cliente recorreu ao empréstimo. (mas – nem – porque – por isso – visto que - embora)

Faltavam recursos ao cliente; _____________________________________________________


b) Muitas empresas multinacionais estão decepcionadas com alguns aspectos da nova Constituição, porém, continuarão a investir no Brasil. (mas – ainda que – visto que – por conseguinte – porque)

Muitas empresas multinacionais continuarão ______________________________________

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2) Agrupe as frases abaixo num só período, usando conectivos sequenciais adequados:

a) O céu está carregado.

Não vamos levar guarda-chuvas.

O serviço de meteorologia avisou que o tempo vai melhorar.

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b) Este ano a chuva não foi abundante. / As colheitas foram boas.

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3) O uso do conectivo inadequado obviamente prejudica a coesão sequencial, assim como dificulta o processamento do texto por parte do leitor, ou seja, atrapalha também a coerência. Descubra este tipo de falha no parágrafo a seguir:
A televisão é, em parte, responsável pela chamada “crise na linguagem”. Além de proporcionar, sem dúvida, horas de lazer, leva os telespectadores a uma atitude passiva, excluindo o diálogo e a interação.” (Redação de vestibulando)

4) Pense na função argumentativa do conectivo MAS e decida qual enunciado representa um discurso positivo em relação ao jogador Ronaldo:



  1. Ronaldo é um bom jogador, mas está fora de forma.

  2. Ronaldo está forma de forma, mas é um bom jogador.

5) Marque a opção em que ‘pois’ possui valor de conclusão:

a- Espere um instante, pois eu não vou demorar.

b- O empresário entrou em desespero, pois descobriu as falcatruas de seus sócios.

c- A linguagem estudantil é concreta, utilitária, rápida; carece, pois, de refinamentos formais.

6) Preencha as lacunas com os conetivos da lista dada:

A poesia fala de aspectos universais do ser humano. A história, ___________, fala de pessoas singulares e situações particulares. _______________, diz Aristóteles, a poesia está mais próxima da filosofia do que da história, ______________ esta nunca se dirige ao universal.

(Texto adaptado de CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia.)


LISTA: Já que - Por isso - No entanto


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COERÊNCIA TEXTUAL




ASPECTOS ATRELADOS À COERÊNCIA



CONHECIMENTO DE MUNDO
Conjunto de conhecimentos vivenciais, culturais e enciclopédicos armazenados em nossa memória. Podem ser adquiridos:


  • Assistematicamente: nascem da experiência.

  • Sistematicamente: são os conhecimentos enciclopédicos, adquiridos pela ação da escola ou através da leitura.

Para captar a coerência de um texto, não basta conhecermos o vocabulário e as estruturas coesivas ali presentes. Precisamos ir além daquilo que está dito, recorrendo a nossos conhecimentos prévios.

Isto é exemplificado claramente na anedota a seguir:
Duas turistas em Paris trocam ideias sobre generalidades da viagem:

_ Você acredita que estou há três dias em Paris e ainda não consegui ir ao Louvre?

_ Pois eu também. Deve ser a comida.


SITUACIONALIDADE

As frases, isoladamente, carregam um sentido bem definido?

Observe os exemplos. Que vários sentidos poderiam comunicar estas frases?

A grama está alta demais!”

Eu fiz uma boa prova.”

Que sala abafada!”


Segundo Beugrande & Dressler (1981; apud KOCH & TRAVAGLIA, 2003, p. 76), “a situacionalidade refere-se ao conjunto de fatores que tornam um texto relevante para dada situação de comunicação corrente ou passível de ser reconstituída”.

Os fatores da situacionalidade são, entre outros, a época histórica em que foi produzido o discurso, o espaço, quem é o emissor (qual sua posição social) e quem é o destinatário.

Exemplo:
Hoje, eu, o rei, convido todos a comparecer ao massacre de Israel.”

Primeira situação: Imperador Tito, Jerusalém, ano 70 d.C.

Segunda situação: Pelé, Rio de Janeiro, 1995.
Concluindo, podemos dizer que a mesma frase pode ganhar diversos sentidos dependo da situação comunicativa da qual faça parte (quem fala/escreve, para quem, que elementos estão presentes na situação).

INTENCIONALIDADE

Nossa vida em sociedade nos ensina que certas frases não podem ser interpretadas ao pé da letra. Por exemplo, ao imaginarmos certas situações para contextualizar os exemplos que iniciam o tópico anterior (‘situacionalidade’), podemos perceber que algumas vezes fazemos um pedido, ou damos uma ordem, de uma maneira indireta, ou seja, através de comentários (‘A grama está alta.’; ‘Que sala abafada!’). Também é muito comum fazermos perguntas para, na verdade, pedir algo:

Você tem um cigarro?”

Pode passar o sal?”

Isto significa que todo emissor tem a intenção de produzir um enunciado coerente e coeso; por vezes, não o faz por falta de atenção ao escolher inadequadamente uma palavra ou uma estrutura sintática. Mas também existe o outro lado da moeda: há casos em que “o emissor afrouxa deliberadamente a coerência com o intuito de produzir efeitos específicos” (BEUGRANDE & DRESSLER 1981; apud KOCH & TRAVAGLIA, 2003: 79).

Em que ocasiões alguém é incoerente deliberadamente? Em anedotas, programas humorísticos, no uso de frases feitas do tipo “Não sou contra nem a favor; muito pelo contrário”. Em todos esses casos a intenção é clara: causar graça.

No entanto, nem sempre os casos de incoerência deliberada são ligados ao humor. Na literatura, há o exemplo clássico de Alice no país das maravilhas, em que a personagem principal é transportada para uma dimensão sem lógica, sem racionalidade. A intenção do escritor, neste caso, é justamente “discutir os paradoxos do sentido, subverter o princípio da realidade” (FIORIN; SAVIOLI, 2003, p. 405).

Em suma, a coerência de um texto está, entre outros aspectos, na intenção com que foi produzido; um texto é adequado a uma determinada intenção.



INTERTEXTUALIDADE
“Na televisão nada se cria, tudo de copia.” (Chacrinha)
Muitas vezes, a interpretação de um texto que ouvimos ou lemos depende do conhecimento de um texto previamente existente.

É comum que um texto se relacione explicitamente ou implicitamente a outro anterior a ele. Esta relação é conhecida como ‘intertextualidade’. Por isso, quem lê muito capta com mais facilidade o “diálogo” que há entre os textos.

O nome que se dá ao texto original é intertexto. No exemplo acima, o intertexto é a “lei de Lavoisier”, que aprendemos nas aulas de Química.
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LEITURA COMPLEMENTAR - INTERTEXTUALIDADE


A intertextualidade, “relação de um texto com outros textos previamente existentes, isto é, efetivamente produzidos (KOCH, 2002, p. 62)”, apresenta várias características:

Pode ser explícita ou implícita:



  • Explícita. Por exemplo, um texto científico geralmente é repleto de citações e a fonte do intertexto deve ser mencionada.

  • Implícita. O autor pressupõe que o leitor compartilhe com ele as informações sobre o intertexto.

Quem vê cara não vê AIDS” (Campanha do Ministério da Saúde)

Pode ser somente de conteúdo ou de forma/conteúdo:



  • De conteúdo. Por exemplo, vários jornais noticiam um mesmo assunto em voga em dada época. Várias matérias de um mesmo jornal/revista comentam o mesmo assunto.

  • De forma/conteúdo. Um autor imita o estilo, registro ou variedade linguística de um texto já conhecido.

Bem-aventurados os inocentes em Gramática: nada têm se interpondo entre eles e a intimidade com seu meio de expressão.” (LUFT, Celso. Língua e liberdade)
Pode ser feita para ratificar ou divergir:

  • Para ratificar. O autor do texto concorda com o intertexto citado, aliás, muitas vezes, ele o cita justamente para construir e validar uma argumentação ou explicação.

  • Para divergir. Neste caso, o autor simplesmente cita o intertexto para mostrar um ponto de vista diferente do seu. Há casos também em que o intertexto é ironizado ou parodiado.

Exemplos:

Trechos de um poema de Gonçalves Dias são reconhecidos em (pelo menos) duas outras obras, ora sendo ironizados, ora reforçando uma ideia romântica de patriotismo.


Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores. (DIAS, Gonçalves. Canção do exílio)


Teus risonhos lindos campos têm mais flores;

“Nossos bosques têm mais vida”

“Nossa vida”, no teu seio, “mais amores”. (Hino Nacional Brasileiro)
Nossas flores são mais bonitas

Nossas frutas mais gostosas

Mas custam cem mil réis a dúzia. (MENDES, Murilo. Canção do exílio)

Outra característica da intertextualidade:


Pode ser feita a partir de um intertexto alheio, próprio ou atribuído a um enunciador genérico.

Observação:

Intertexto atribuído a um enunciador genérico:

A origem do texto faz parte do repertório cultural de um povo: são frases feitas, provérbios etc.

Exemplo:

“Aqui a pressa é amiga da perfeição” (Site de busca - Internet)
Referências:

KOCH, Ingedore. O texto e a construção dos sentidos. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2002.

FIORIN, J.L.; SAVIOLI, F. Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 17 ed. São Paulo: Ática, 2007.

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EXERCÍCIOS (sobre coerência)
1) Analise o diálogo abaixo à luz do conceito de “conhecimento de mundo”:
Filha – Pai, esse é o Zeca, meu namorado.

Pai – Muito prazer, Zeca. O que você faz da vida?

Zeca – Sou ator.

Pai – Você gosta de Shakespeare?

Zeca – Não, obrigado. Mas um cafezinho eu aceito.

2) O diálogo a seguir é uma adaptação de uma tira cômica da série “Os Pescoçudos”, cujo objetivo é ridicularizar a Classe A brasileira, representando-a como endinheirada e burra. Identifique que personagem demonstra falta de conhecimento de mundo. Que informação falta a este personagem?


CLASSE-A
Casal 1

Valter – Há um mês compramos nosso apartamento no Itaim.

Soraya – Estou superfeliz porque agora vou poder decorar o quarto do bebê.
Casal 2

Sílvia – Semana que vem estamos indo para Milão.

Roberto – E depois vamos para a Itália.

3) Imagine que um advogado tenha redigido o texto a seguir. Por que o texto estaria mal elaborado do ponto de vista da coerência?


O autor interpõe o recurso de apelação para recorrer da brilhante sentença proferida por esse juízo.

4) Muitas vezes textos jornalísticos trazem sequências sem coerência por falta de atenção do redator, mas este problema poderia ser resolvido com a simples troca de lugar de palavras ou expressões. Conserte os textos a seguir de modo a torná-los coerentes:


a) “Zélia Cardoso de Mello decidiu amanhã oficializar sua união com Chico Anysio” (A Tarde, Salvador, 16 de setembro de 1994)

b) “As Forças Armadas brasileiras já estão treinando 3 mil soldados para atuar no Haiti depois da retirada das tropas americanas. A Organização das Nações Unidas (ONU) solicitou o envio de tropas ao Brasil e a mais quatro países, disse ontem o presidente da Guatemala, Ramiro e León.” (O Estado de São Paulo, 24 de setembro de 1994)

5) A partir do texto a seguir, explique se o jornalista produziu uma manchete com incoerência efetiva ou aparente.



Canadá em São Paulo
Parque canadense será inaugurado hoje.

São Paulo ganha hoje um parque que reúne duas grandes “paixões” do paulistano: o verde e a água. O verde está na farta arborização do novo local de lazer: 2100 árvores, de 120 espécies diferentes. E a água está no lago que recobre 70% dos 110 mil metros quadrados do parque Cidade de Toronto.

A vegetação procura fazer jus ao nome do novo local de lazer. Batizado com este nome graças ao Programa Municipal de Intercâmbio Profissional firmado entre São Paulo e Toronto - que doou parte das verbas necessárias à sua construção -, o parque, situado na zona Oeste, presta homenagem a esta cidade canadense através da vegetação típica de clima temperado, como o pinheiro e o plátano, introduzida junto às plantas nativas.

(Jornal da Tarde, 1 jul. 1992)


6) A interpretação do slogan abaixo depende de fatores tais como conhecimento de mundo e intertextualidade. Explique.



A Gente não Tem só Comida.

A Gente Tem Comida, Diversão e Arte.

Blumenau Grill. Comida, Diversão e Arte


Madureira Shopping e West Shopping

(O Globo – Caderno Zona Norte, 07/03/2004)


7) Explique o que se entende por intencionalidade a partir do texto:
Você já deu uma espiadinha hoje? (Big Brother Brasil)

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REFERÊNCIAS

FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e coerência textuais. 9. ed. São Paulo: Ática, 2001. p.10 -11

FIORIN, J.L.; SAVIOLI, F. Platão. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2003.

________. Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 17 ed. São Paulo: Ática, 2007.



KOCH, Ingedore G. V. O texto e a construção dos sentidos. 6.ed. São Paulo: Contexto, 2002.

________; TRAVAGLIA, Carlos. Texto e coerência. 9 ed. São Paulo: Cortez, 2003.


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