Conceito de gênero e ensino da história



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Costa, Suely Gomes– UFF/CNPq

Conceito de gênero e ensino da história

Na história recente da Educação, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e, neles, os temas transversais, significam mudanças qualitativas e de formas de atualização dos conteúdos de ensino de 1o. e 2o. graus. A incorporação da noção de gênero como tema transversal, todavia, nessas recomendações, restrita à Orientação Sexual, situou a necessidade de avaliação dessa contribuição conceitual para o ensino da História. 1



O conceito de gênero trouxe muitas revisões teóricas e metodológicas para a produção do conhecimento histórico. Primeiro, revelou caminhos pelos quais as experiências e idéias extraídas das relações entre homens e mulheres em suas muitas vidas em comum marcam as viradas conceituais.2 Examinadas como naturais , essas relações, num certo momento, expuseram-se com seus significados políticos e isso mudou muita coisa. Segundo, no plano intelectual, este conceito aparece como um dentre outros elaborados nas recentes aproximações da história com a antropologia. A história das mulheres, uma regular prática acadêmica, antes uma quase-disciplina em alguns centros universitários, nas duas últimas décadas do século XX, retira os véus de invisibilidade das mulheres como sujeitos históricos. Converge para tendências intelectuais derivadas das críticas aos modelos explicativos universais, a partir de meados dos anos 70. 3 O conceito de gênero, mais que uma contribuição antropológica - não se trata de algo extraído de certas operações mentais e tendências intelectuais peculiares ao restrito círculo de pesquisadores das ciências humanas e sociais – é antes, um resultado da experiência humana e das conexões entre a história das mulheres e a política. O conceito de gênero emerge, pois, como parte de um processo de tomada de consciência, tanto na dinâmica dos intercâmbios interdisciplinares, como nas experiências diversas vividas pelos historiadores(as) das mulheres; nesta perspectiva, serve “para evocar suas associações com a política”.4 No momento de uma ampla avaliação da disciplina história das mulheres, pesquisadoras francesas destacam a dimensão política das relações entre os sexos, mostrando o quanto o exame da opressão masculina ou da rebelião a ela - marca dos estudos iniciais -, é insuficiente para apreender a dominação como uma relação dialética5. Apenas o confronto entre dominado X dominante é pouco esclarecedor da dinâmica dos processos sociais de subordinação. A noção de que as relações de sexos são relações sociais possibilitou uma distinção entre o social e o político, depurando o conceito de dominação. Embora a política derive do social, distingue-se dele por sua função específica: a de produzir o código comum de regulação da vida coletiva. Isto torna complexa a tarefa de identificar o modo pelo qual o político – instância de regulação e de controle da sociedade - define e articula tudo aquilo que, historicamente, emana do público e do privado.6 A dimensão política das relações entre o masculino/feminino está na noção de público, portanto, numa reflexão sobre o civil, o econômico e o próprio político, sem abstrair o privado. A noção de dominação masculina quando contém a idéia de homens dados, por definição, como provedores das famílias, por exemplo, – uma atribuição pública - naturaliza atividades femininas de provimento familiar, eliminando seus significados econômicos e políticos, portanto, públicos. O fato das atividades femininas serem dadas como naturalmente próprias à vida privada, jamais evidencia sua dimensão política, daí subtrair-lhe o caráter público. Com o conceito de gênero, as esferas masculina e feminina, admitidas como relacionais, tornam visível a contribuição de homens e mulheres no provimento familiar, evocando suas associações com a política. Há, nisso, um conjunto de configurações do político, saídas de tensões e conflitos, mas também de consentimentos, experiências do dia-a-dia de homens e mulheres. Trata-se de matéria intelectual, mas também de senso comum, ambas de difusa circulação no meio social. Do conceito de gênero ocupam-se, preferencialmente, intelectuais mulheres, militantes e pesquisadoras; experiências femininas, assim, impregnam suas escolhas temáticas, numa significativa singularidade7. Pensadas as circunstâncias históricas em que o conceito de gênero foi elaborado, é possível intuí-lo como um código-chave inventado para superar impasses a que a história das mulheres havia chegado. A história do presente vai tensionar velhos paradigmas. Num dado momento, historiadores (as) vêem-se diante de um conjunto de experiências humanas que muda noções cristalizadas sobre as relações de homens e mulheres. Antes desse tempo, os conhecimentos gerados pela economia, e depois, pela geografia, foram pensados pelos(as) historiadores (as) como capazes de explicar a totalidade da vida social. Se essas contribuições foram importantes para o aperfeiçoamento de conceitos formulados pela história, ignoraram fenômenos da esfera privada, pois a consciência desse tempo, não lhe concedia a menor relevância, daí não serem atribuídas às mulheres papéis maiores nos rumos da vida social. Mas, entre os anos 70 e 80, os(as) historiadores(as próximos dos etnólogos, fizeram avançar a crítica de conceitos e de procedimentos de pesquisa anteriores. A história, agora, afasta-se de referências gerais e universais predominantes, até então, na formulação de conceitos.8 Isso ocorre com quebras de tradições intelectuais e sob cautelas. Há sempre imprecisões no trato de uma história dedicada, cada vez mais, a parcelas da vida social, a fragmentos de existência humana. Engendra-se aí o risco de abrigar um estilo de história que, ao construir-se a partir da esfera privada, acaba por dela abstrair relações políticas e econômicas. E. P. Thompson, ao examinar as relações da história com a antropologia, aponta cuidados a esse respeito, delimitando a contribuição dessa disciplina que, a seu ver, estaria “[...]primordialmente não na construção do modelo, mas na identificação de novos problemas, na visualização de velhos problemas em novas formas, na ênfase em normas (ou sistemas de valores) e em rituais[...]”9. Falando de suas pesquisas sobre a Inglaterra do século XVIII, vai ressaltar a importância do mundo privado, algo pouco comum à historiografia marxista. Para ele, há vantagens nessa aproximação de disciplinas, tanto para as “[...] expressivas funções de amotinação e agitação, assim como, para as expressões simbólicas de autoridade, controle e hegemonia”,10 matéria também de interesse dos estudos da dominação masculina. Reexaminados cânones economicistas, expôs suas dúvidas quanto à prevalência das relações de produção na organização da vida social, daí afirmar que sem um dado quadro cultural tais relações jamais se estabeleceriam.11 Situa bem os desafios postos à pesquisa histórica desse período..

O ofício dos(as) historiadores (as), diante de tantas viradas, identificadas, globalmente, como próprias ao pós-modernismo - termo que seria utilizado para qualificar/desqualificar, em bloco, o distanciamento dos modelos de explicação universais - move-se em novas direções, impulsionando novas exigências quanto ao ensino da história. Há advertências a fazer. Na aproximação das ciências humanas com a antropologia, ocorrem diferentes modos de observação e de análise da vida social: “A união disciplinar que se operou então abrangeu muitas coisas, freqüentemente heterogêneas, às vezes contraditórias, experiências de pesquisas genuínas e falsas novidades.”12 A historiografia internacional revela muito das tendências aí engendradas.Mesmo diversas, compartilham alguns traços comuns: manteriam “uma distância crítica em relação à abordagem macrossocial que, sob modalidades diversas e muitas vezes tacitamente, por muito tempo dominou a pesquisa em história e em ciências sociais”[...]; buscam trazer à tona a “[...] experiência dos atores sociais (o “cotidiano “dos historiadores alemães, o “vivido” de seus homólogos italianos)[...]” extraindo dela “[...]uma significação e uma importância frente ao jogo das estruturas e à eficácia dos processos sociais maciços, anônimos, inconscientes, que por muito tempo pareceram ser os únicos a chamar a atenção dos pesquisadores” 13 . Os estudos das relações entre homens e mulheres trazem à baila cenas da intimidade, da vida cotidiana, associando-as ou não a processos políticos. Em qualquer caso, porém, convergem para a mesma busca dessa escala micro-analítica, orientação metodológica que retirará das áreas de sombra da historiografia fenômenos nunca dantes percebidos nas formulações gerais sobre a vida social. Nela, redefiniram-se paradigmas sobre os sistemas de poder e subordinação, daí, a fertilidade das revisões sobre a dominação masculina. Esse movimento intelectual encontraria muitas resistências: "[...] não faltaram críticas acusando as micro-análises de ceder à moda do small is beautiful, quando não à tentação de um novo irracionalismo; acusando-as entre outros gracejos [...], ' de dar microfone às formigas.”14

Vozes inaudíveis, ampliadas através dessa orientação, denunciariam o quanto a historiografia de diferentes épocas havia mantido tantos sujeitos históricos, inclusive as mulheres, silenciados e invisíveis, com a crítica de noções que têm localizado os homens na esfera da cultura e no mundo público e as mulheres na da natureza e no mundo privado. A construção historiográfica, assim, daria sempre visibilidade aos homens e esconderia as mulheres. O conceito de gênero produziu o reexame dos sistemas de poder e subordinação. Não incorporá-lo adequadamente mais que complica as orientações curriculares do ensino de 1o. e 2o. graus.

Há muitos desafios a enfrentar. Um deles é o ter que lidar com um tipo de história que já nasce pronta, moldando um dado imaginário sobre essas relações, esquemas interpretação, quase que em formatos definitivos, que pouco têm incorporado da revisão de paradigmas. Não se pode deixar de avaliar o quanto repetir antigos modos de pensar a história nos torna participantes da propagação de preconceitos, base de discriminações de vários feitios. 15 No uso do conceito de gênero, essa categoria útil de análise, há muitas desconstruções a fazer na história do Brasil; é preciso inventá-la. Há, porém mais desafios. As escolas e as práticas educativas em saúde - onde a orientação sexual se situa - são lugares de reinações do feminino. No caso brasileiro, as mulheres têm aí farta visibilidade e muito poder em relação às crianças e aos jovens. enquanto na produção historiográfica, paradoxalmente elas são invisíveis. As escolas públicas expõem profundas desigualdades sociais entre homens e mulheres, entre crianças, entre crianças, jovens e adultos, mas também, entre crianças e jovens e adultos de diferentes sexos, etnias e classes e outros atributos, quase sempre reforçadas num dado poder disciplinador, corporificado, tantas vezes, em clássicas representações de mães e tias. Nas escolas, o poder maternal infla em significados, moldando padrões de obediência à tirania, também um atributo feminino, perfeitamente compatível com imagens de mãe. Tudo aquilo que, à primeira vista, parece favorecer as possibilidades de tornar as escolas espaços de experiências igualitárias de sexos, surge em sua ambigüidade. A idéia de homem, mulher e criança organiza de modo natural todas as relações cotidianas de poder, impregna as formas de nomear e classificar, em muitas representações aqueles (as) seres inferiores/ superiores e fortes/fracos(as). Os ambientes em que circulamos ratificam tais formas; neles o senso comum, cheio dessas significações, dão lugar a visões dualistas partilhadas no cotidiano: o homem e a mulher, o velho e o jovem, o branco e o preto, o rico e o pobre etc. Esse modo de ver o mundo preside a vida nossa de cada dia.



Numa recente entrevista, o sociólogo Alain Touraine mencionou resultados de uma pesquisa feita em escolas francesas sobre o crédito dado pelos estudantes a categorias profissionais. Entre as de menor crédito estão, em primeiro lugar, os professores, ao lado dos trabalhadores sociais, profissionais que, segundo os estudantes, insistem em integrá-los num mundo pleno de apartheids .16 As escolas têm produzido aceites de injustas ordens sociais e apartações sociais de muitos tipos, quando reafirmam, por exemplo, normas disciplinadoras de corpos, premissas sobre papéis sociais de homens e mulheres, propagadas em vasto material didático. O poder disciplinador das escolas, por exemplo, poderá ser deslocado em muitos sentidos e favorecer importantes mudanças nas práticas cotidianas que têm reafirmado a divisão das tarefas por sexos. Idéias germinadas pelo conceito de gênero sobre as relações de homens e mulheres só irão se consolidar na vivência de experiências igualitárias de homens e mulheres, experiências que eliminem as retóricas sobre a natural desigualdade de sexos. O primeiro exercício conceitual é o de traçar uma nova experiência igualitária dos gêneros masculinos e femininos nas escolas, sem esquecer que muitos femininos são masculinos e muitos masculinos são femininos. Isso significa iniciar a vivência de relações democráticas e torná-la a experiência principal na vida de cada ser humano nos ambientes que freqüentam, inclusive em nossas casas. Outro, é o de desvendar as relações dominantes nas diversas práticas sociais. As repercussões da noção de gênero na orientação das práticas sociais cotidianas só serão avaliadas, quando as tensões vividas nessas experiências forem o material por excelência de reflexão. No plano cultural, as mulheres demonstram seus poderes na própria escola e nas instituições sociais em que trabalha, com consentimentos e compensações. Na experiência das escolas no Brasil, o fato de que a vida política é um espaço de ausência feminina não se sustenta. Todavia, a complementaridade de trabalhos tidos como extensões da vida doméstica, ainda mundo das mulheres, e os muitos exercícios de poder daí advindos podem tornar inteligível a dialética das relações escolares, por exemplo. Examinar a construção social dos lugares masculinos, dar destaque às narrativas que apagam os momentos de presença das mulheres, levam à reavaliação de diferentes acontecimentos em que as mulheres participam da história, relendo como políticas, ações interpretadas até então como um fato social. Mulheres índias, por exemplo, podem ser colocadas no cenário político, quando, nas guerras, de fato, as fazem ao acompanharem os homens, carregando apetrechos do dia-a-dia, organizando o preparo de alimentos para os guerreiros, tecendo suas redes, em ações nunca percebidas como políticas. Pode-se, pois, reformular conceitos sobre política em várias práticas femininas do passado ou nas da época contemporânea. Nomear, identificar, quantificar a presença de homens e mulheres nos lugares, nas instâncias, nos papéis que lhes são próprios, parece uma etapa necessária para pensar a política nas relações de gênero. Nada impede, porém, que estudos do masculino e do feminino ocorram em separado: basta não perder a perspectiva de que um é parte do outro. Assim, é adequado o exame da sociabilidade masculina, nos lugares e modos próprios de associação de homens; como o exame da sociabilidade feminina, segundo este mesmo critério, se feminino e masculino são definidos um em relação ao outro. Todavia, lidar com experiências masculinas e femininas em separado leva à noção de cultura masculina e feminina, sempre problemática, quando os papéis e poderes se movimentam de um sexo para outro. O importante é tomá-los, sempre, em sua mobilidade, pluralidade, conflitos e complementaridades, sem anular nessa abordagem, as marcas das hierarquias, da violência e da desigualdade, tão visíveis.

Masculino e feminino nomeiam todas as coisas (há algumas coisas neutras) e as diferenças - (marque-se, diferenças), e que isso amplia muito a discussão das desigualdades sociais e da construção democrática. A igualdade nas diferenças é o ideário a se consolidar na vida democrática; é nele que as escolas devem apostar. Se a impropriedade do sexo como modo de nomear e classificar as coisas e a vida social tornou-se perceptível, não há porque pretender transformar diferenças. A igualdade na diferença é uma possibilidade; a diversidade não é incompatível com a igualdade. A incorporação do conceito de gênero, no singular, e mais recentemente, de gêneros, no plural, assinala uma tentativa definitiva de substituição daquelas noções de sexos de caráter biológico. Como nas classificações da linguagem – gênero refere-se ao masculino, ao feminino, mas também ao singular e ao plural. Essa é uma matéria a inventar e a descobrir no ensino da história .

Por outro lado, as questões da sexualidade, tão presentes na noção de gênero, reafirmam-se na orientação sexual e nas práticas profissionais de saúde, com suas muitas ambigüidades.17 Mesmo aí, o conceito de gênero fez avançar a idéia de que a construção social das relações de gênero organiza a sexualidade. Se restrito à Orientação Sexual, esse conceito coloca muitos problemas, afastando-se de reflexões importantes sobre a sexualidade. Noções difusas e em circulação normalizam a sexualidade em torno de uma viga mestra: a da heterossexualidade. As experiências humanas de gays e lésbicas, com todas as suas variações, são mantidas nas áreas ocultas da história. A norma de referência é sempre a heterossexualidade. T. Swain destaca evidências de que as muitas formas de sexualidade parecem submetidas a um imaginário em que prevaleceria uma ordem normativa organizada por uma noção binária de sexos.18 Isto traz à tona uma outra problemática a ser pensada: não existiria doravante uma disposição de neutralizar a diferença dos sexos? Ivan Illitch situa essa indicação quando vê na nova sociedade o triunfo do unissex19: Essas outras noções conduziriam à produção de um sexo neutro, à perda da identidade sexual? O conceito de gênero implica ainda na noção de heterogênero – algo que em si contraria a idéia da sexualidade socialmente normatizada: a heterossexualidade.20 O caráter reprodutivo da heterossexualidade, conferindo-lhe normalidade, torna anormal outras experiências e com isso, constrói-se um profundo silêncio ou ocultação, com relação às experiências homossexuais, de tantas discriminações. Heterogênero, invés de gênero, é mais um conceito elaborado para indicar a coerção da sexualidade aceita e normatizada em relação à vida reprodutiva, ignorando outras experiências que as próprias escolas vivem21.

Restam muitas tarefas intelectuais diante desse quadro. No conjunto das propostas curriculares para o ensino de História contida nos PCN(s), reafirmar, por exemplo, a discussão sobre a visibilidade/invisibilidade das mulheres, é também remeter a outros sujeitos excluídos da história, abrindo o debate sobre lacunas historiográficas e diversas tendências historiográficas, o que permite a compreensão das novas questões e temáticas no âmbito da história social e cultural. Relações de gênero são matéria recolhida do cotidiano e da intimidade; se examinadas, levam à percepção de lacunas historiográficas e à crítica das abordagens apoiadas, apenas nos acontecimentos políticos e/ou administrativos, nas estruturas impessoais de poder dos governos e dos Estados, nas referências a leis econômicas universais. Análises microssociais – mesmo quando desvendam tantos fenômenos- levam ao risco da ocultação dos macro sistemas sociais. Vale a pena tentar, porém. Mas de nada vale incorporar um conjunto de informações teóricas e metodológicas e se assenhorear de um certo número de práticas pedagógicas: a taefa é fazer do ensino da história um processo de tomada de consciência, é chegar a um novo patamar de conhecimento crítico sobre o Brasil e nós mesmos.

A matéria documental consistente permite colocar em cena vários conceitos fundamentais ao conhecimento histórico. Experiências de vida cotidiana, lugar da tessitura dessas relações, tão próximas de todos nós, oferecem férteis reflexões sobre: pluralidade dos sujeitos atuantes no processo histórico e sobre códigos comportamentais que organizam a vida social no dia a dia. Entende-se aí, a construção social dos sexos, no passado e no presente, algo em mutação. Os jogos de poder, em recorrentes representações de fragilidade feminina e da virilidade masculina, oferecem um amplo leque de percepções da feminilização e da masculinização de esportes, de profissões, de atividades políticas e sociais as mais variadas. Expõem complementaridades de sexos e matrizes de subordinação aí fundadas, dando visibilidade às hierarquias da vida familiar, a jogos de compensações, a consentimentos. As compensações femininas revelam códigos de conduta, segundo os quais as mulheres adquirem poderes, notadamente na esfera doméstica, onde reinam como rainhas do lar. Explicitam regras comportamentais de homens, mulheres, velhos e crianças, na proteção e na organização da vida íntima e cotidiana.. Uma dada experiência de lutas das mulheres por igualdade pode ser tomada como emblemática de meios capazes de produzirem mudanças ou não, de vencerem as desigualdades ou não. Essa escolha temática coloca um conjunto de problemas metodológicos e teóricos para os que se ocupam das teorias de ação, mas vale a pena tentar. 22 Esta também é a forma de evidenciar continuidades e rupturas nas relações entre as esferas pública e privada, de traduzir conquistas e recuos no plano dos direitos sociais, no da cidadania, com todos os seus impactos nas relações entre os sexos e nas representações sociais sobre eles. A dialética da micro e macro-escala analítica expressa-se nesses planos, como relevante tarefa a construir no ensino da história.

A busca fontes documentais pouco convencionais pode apoiar o ensino da história, em direção a muitas descobertas. Livros de receitas domésticas, de alimentos e/ou remédios caseiros, quanto contém de práticas familiares de subsistência, de associativismos informais peculiares à história política do feminino, de processos societários impensáveis. Acessar fontes históricas as mais variadas, usar documentos de muitos tipos, estimular a busca regular de leitura de documentos históricos - objetos vários - evidenciam práticas sociais desapercebidas, forma de reinventar o modo de pensar a história. O exame de fontes é um exercício de crítica à escrita da História, é um modo de aprender a fazer sínteses teóricas, de buscar novos conhecimentos, ou seja, de vivenciar operações intelectuais de análise, quase nunca experimentadas pelas crianças e jovens nos jogos de perguntar e responder, incluindo, agora, experiências próprias às relações de gênero. As escolas têm preservado uma tradição a ser reinventada: a das datas comemorativas. Reinventá-la, nessas referências, articulando-as aos demais temas transversais é criar, mais e mais, oportunidades de expressar a atualidade do conhecimento histórico e desvendar-lhe suas muitas possibilidades explicativas.




1 Ver:ALTMANN,H.”Orientação sexual nos parâmetros curriculares”.Estudos Feministas, Forianópolis: CFH/CCE/UFCS, vol 9, N.2/2001, pp575-585.

2 Ver, a respeito: SCOTT, J. W. “História das Mulheres” pp 63-96. BURKE, P. (org.) A escrita da história. Novas perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.

3 Ver, a respeito: PERROT, M. et al. (orgs.) “A história das mulheres. Cultura e poder das mulheres: ensaio de historiografia”. Trad. de R. Soihet, Suely G. Costa e Rosana Soares. Revista Gênero. – Núcleo Transdisciplinar de Estudos de Gênero – NUTEG – 2. sem. 2001, V. 2, N. 1 Ver SOIHET, R. “A história das mulheres”. Pp. 275-296. CARDOSO, Ciro F. , VAINFAS, Ronaldo. Domínios da história.. Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

4 SCOTT, J. Ibid. p.64

5 PERROT, M. et al. (orgs.) Ibid. Esse material crítico resume resultados de pesquisa interdisciplinar desenvolvida, por vários anos, sobre os problemas do masculino/feminino, trazido a um seminário - de sinal feminista - realizado no Centro de Pesquisas Históricas da França. Foi publicado Annales, ESC, Paris n.2, p. 271-293, mars-avril, 1986. Teve a colaboração de: Cécile DAUPHIN (CRH-CNRS); Arlette FARGE (CRH-CNRS); Geneviève FRAISSE (Philo-CNRS); Christiane KLAPISCH-ZUBER(CRS-EHESS); Rose-Marie LAGRAVE (Sociologie-EHESS); Michelle Perrot (Histoire-ParisVII); Pierrette PÉZERAT(CRH-EHESS); Yannick RIPA(Histoire-INRP); Pauline SCHMITT-PANILL (Histoire-Paris VII); Danièle VOLDMAN (IHTP-CNRS).

6 PERROT, M. et al. Op. cit..pp 24-25.

7 SCOTT, J. W. Id. Op. cit. p..77

8 REVEL.J. Apresentação, pp 7 – 14. Id. (org.) Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Trad. de D. Rocha. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998, p.7

9 THOMPSON, E. P. “Folclore, Antropologia e História Social”. p. 229. Id. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Luigi Negri e Sergio Silva (orgs) . Campinas, SP: Editora da UNICAMP pp 227-268, 2001.

10 Id. Ibid. p.229

11 Id. Ibid. pp 251 - 263

12 REVEL, J. Op. cit. p. 6

13Id. Ibid. p.10

14 Id. Ibid. p.11

15 SCHWARCZ, L. M. Prefácio. pp. 7-16. SIMAN, Lana M. de Castro, FONSECA,Thaís N. de Lima (orgs.) Inaugurando a História e construindo a nação. Discursos e imagens no ensino da História. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

16 Canal 2 - TVE - Roda Viva. Programa reapresentado em 22/4/2002.

17 LOPES, M.J. M. “O sexo do hospital.” In. LOPES, M. J.M. et alii (org.) Saúde e gênero. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996, pp.76-105.

18 Ver: SWAIN, Tania N. “Para além do binário: os queers e o heterogênero”. Pp 87-98. Gênero:Núcleo Transdisciplinar de Estudos de Gênero-NUTEG- v.2, n.1 (2 sem.2000). Niterói: EdUFF, 2000.

19Citado por PERROT, M. et al. (orgs.) “A história das mulheres”. Op. cit. p.26.

20 Ver: SWAIN, Tania N. Op.cit. p.91.

21 Ver: LOPES, Guacira. “Teoria queer – uma política pós-identitária para a educação.”pp 541-.553. Estudos Feministas Vol.9, N. 2/2001. CFH/CCE/UFCS, 2001

22 BOURDIEU, P. Razões práticas. Sobre a teoria da ação. Campinas, SP: Papirus, 1997

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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